Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025)

Crítica – Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025)

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos é aterrorizado por um perseguidor que sabe de um incidente horrível do passado deles.

Antes de tudo, preciso reclamar do título do filme. Já existe um “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” lançado em 1997. Se este é outro filme, deveria ter outro nome. Lançar uma continuação com o mesmo nome é uma ideia péssima! Pânico 5 tem o mesmo problema, o nome em inglês é igual ao primeiro filme, “Scream”. O mesmo aconteceu com o prequel de O Enigma de Outro Mundo, são dois filmes chamados “The Thing”. Galera, se o nome já foi usado, que tal colocar um nome diferente, ou então um número? Por que não chamar este de “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado 4”?

Enfim, vamos ao filme. Uma onda recente em Hollywood é o “requel”, mistura de “reboot” com “sequel”. É um filme feito muito tempo depois do primeiro filme, com elenco novo que pode começar uma nova franquia, mas que traz elementos do original. Vimos isso em Pânico, Halloween, Caça Fantasmas, Karate Kid e até Star Wars. Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, no original) é mais um exemplo de requel.

(Lembrando que Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado era um “sub Pânico”, ambos foram escritos por Kevin Williamson. Só que Pânico, lançado um ano antes, é bem melhor.)

A história é parecida com o primeiro filme, um grupo de jovens se envolve em um acidente, mas resolvem não contar pra ninguém, até que um ano depois começam a receber ameaças, e logo depois assassinatos começam a acontecer.

Mas este novo filme já erra na premissa inicial. Porque no filme de 1997, o grupo atropela uma pessoa, e em vez de prestar socorro, levam o atropelado para ser jogado no mar. Detalhe: o cara ainda estava vivo! No novo filme, eles estão no meio da rua, um carro desvia e bate – não foi necessariamente culpa de ninguém, foi um acidente. E eles ainda tentam ajudar! Você pode até dizer que o grupo de 2025 estava errado, mas numa proporção infinitamente menor que o de 1997!

Mas, ok, o filme segue. Slasher besta, algumas mortes aqui e ali, nada muito gráfico. Temos participações especiais de membros do elenco antigo, revemos alguns cenários do outro filme, nada demais, mas também nada que seja muito ruim. Rola até uma boa piada com o personagem mais famoso do currículo do Freddie Prinze Jr. Até que a parte final resolve inventar uma virada de roteiro que azeda todo o filme. Como é um spoiler gigante, só vou comentar no fim do texto.

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado tem outro problema: as “final girls”, Madelyn Cline (Glass Onion) e Chase Sui Wonders (Morte Morte Morte), não têm muito carisma, o que dificulta o espectador a torcer por elas. O filme ainda traz alguns jump scares aqui e ali, mas nada digno de nota.

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado estava se encaminhando para ser mais um filme genérico pra se ver num fim de semana no shopping e depois ser esquecido, até o tal plot twist final. Vamos a ele então.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Ray Bronson, o personagem do Freddie Prinze Jr, sobrevivente do filme original, é o assassino. Galera, aquele cara, por tudo o que passou, NUNCA seria o assassino! Forçaram a barra e estragaram o filme!

FIM DOS SPOILERS!

Tem uma cena pós créditos, um gancho pra continuação, ligando com o segundo filme da série, Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, de 1998. Ou seja, vem continuação por aí.

Ash: Planeta Parasita

Crítica – Ash: Planeta Parasita

Sinopse (imdb): Uma mulher acorda em um planeta distante e encontra a tripulação de sua estação espacial brutalmente morta. Sua investigação sobre o que aconteceu desencadeia uma terrível cadeia de eventos.

Gosto da mistura de terror e ficção científica. Gosto muito de filmes como Alien, O Enigma de Outro Mundo, Força Sinistra, A Experiência e Prova Final. Pena que nem todos os filmes deste subgênero são bons. Ash: Planeta Parasita (Ash, no original) infelizmente faz parte desse grupo.

Acompanhamos Riya, uma exploradora espacial que acorda sozinha numa base onde todos os companheiros de equipe estão mortos. Detalhe: ela tem amnésia e não se lembra do que aconteceu. Ela encontra um sobrevivente e tenta juntar as peças pra descobrir as respostas para suas dúvidas.

Mas sabe qual é o problema aqui? Falta história. Ash é curto, uma hora e meia, e podia ter a metade da duração.

A direção é de Flying Lotus, nunca tinha ouvido falar, depois que vi o filme descobri que ele também é músico. Flying Lotus parece que sabe que tem pouca história pra contar, aí fica preenchendo espaços vazios com jump scares bestas, onde aparece um relance de algo assustador ao som de um ruído alto. Um perfeito exemplo de jump scare mal feito.

(Parágrafo à parte para falar de jump scares. O jump scare bem feito é aquele que dá um susto no espectador, a ponto dele “dar um pulo”. Muitos filmes usam jump scares clichês, dentro de uma fórmula: música sobe, parece que vai ter algo, não tem, conta 1 2 3 e PÁ!, susto na tela. Quem está acostumado com filmes de terror já sabe quando vem um desses e não se assusta, mas, ok, boa parte do cinema é feita em cima de clichês. O jump scare bem feito não prepara o espectador e realmente dá um susto. Agora, na minha humilde opinião, pior que jump scare previsível são os jump scares daqui. A trama segue normalmente, e de repente PÁ!, uma imagem grotesca e um som alto. Ok, assusta o espectador. Mas são jump scares que não agregam à trama, não criam medo. São jogados só pra causar desconforto.)

Por outro lado, a ambientação do filme é boa. O visual do planeta alienígena é bonito, principalmente quando mostra o céu. Também gostei do design das roupas dos astronautas. A maquiagem da parte final também é bem legal, lembra O Enigma de Outro Mundo.

No elenco, Eiza González ocupa a tela durante quase todo o filme, às vezes sozinha, outras vezes dividindo espaço com Aaron Paul. Iko Uwais, de The Raid, tem um papel pequeno, e fiquei feliz que o colocaram pra lutar, mesmo que rapidinho.

Na parte final, o ritmo de Ash melhora. Se todo o filme fosse todo como nos últimos minutos, a experiência seria bem melhor. Infelizmente, o resultado ficou bem chato.

M3gan 2.0

Crítica – M3gan 2.0

Sinopse (imdb): Dois anos após o incidente M3GAN, Gemma ressuscita sua boneca IA para enfrentar Amelia, um robô militar criado por contratantes que roubaram a tecnologia de M3GAN.

O primeiro M3gan já não foi grandes coisas. Aí anunciaram uma continuação, com o mesmo elenco, o que me parecia ser uma péssima ideia – afinal, no fim do primeiro filme, a boneca tenta assassinar a família e é destruída. Entendo uma corporação gananciosa querer vender uma nova boneca, mas não entendo como a família vai se arriscar de novo. Por causa disso, fui ao cinema com zero expectativas.

E preciso dizer que me diverti. Dirigido pelo mesmo Gerard Johnstone do primeiro filme, M3gan 2.0 não chega a ser exatamente “bom”, mas é muito divertido!

Logo de cara, na sequência inicial, a gente vê uma outra boneca-robô (interpretada por Ivanna Sakhno, que estava em Ahsoka), e ela anda pela parede de uma maneira bem tosca, parecendo um stop motion mal feito, e logo depois a gente vê a sombra dela arrancando a cabeça de um adversário com um soco. Ou seja, o filme está nos dizendo que não é pra levar a sério. Se você entrar nessa onda trash, vai se divertir!

A minha preocupação era que M3gan 2.0 fosse uma cópia mal feita do primeiro M3gan, principalmente pela repetição das duas atrizes principais, Allison Williams e Violet McGraw, cujos personagens não iam querer mais a boneca M3gan. Por isso a boneca entra numa onda Exterminador do Futuro 2 para tentar convencê-las que agora ela está lá para protegê-las. Além disso, o gênero do filme muda, tem pouco terror aqui, M3gan 2.0 está mais para uma ação misturada com ficção científica, além de uma boa dose de humor.

Já que falei de Exterminador do Futuro, queria citar que M3gan 2.0 traz algumas referências bem divertidas. Tem uma citação clara à série Super Máquina, e tem um momento que vemos uma mão andando como em Evil Dead 2 (mas pode ser uma mão inspirada em outro filme). Também tem uma engraçada ligação com os filmes do Steven Seagal. Ah, tem um momento hilário onde a M3gan canta uma música, não sei se a música já existe ou se foi criada para o filme, perguntei para algumas pessoas depois da sessão de imprensa, ninguém reconheceu a música (dei uma googlada, parece que é This Woman’s Work, da Kate Bush, mas não tenho certeza disso).

A cena mais famosa do primeiro filme é uma dancinha tosca. Claro que ia ter dança aqui. E preferi a deste segundo filme. No filme anterior, era uma dança que não tinha nada a ver com o resto da sequência, aqui pelo menos inventaram um concurso de dança.

Agora, precisamos reconhecer que o roteiro tem vários momentos que não não seguem nenhuma lógica. Dava pra fazer uma lista, que vai crescendo conforme o filme se aproxima do final. E aquele plot da IA guardada num cofre há décadas não faz o menor sentido!

Os personagens são todos caricatos. Como falei lá no início, se você entrar na onda trash, vai entender a proposta. Tem um policial do FBI que é tosco tosco tosco, e o vilão, além de ruim, é previsível. E Jemaine Clement abraçou a galhofa e está sensacional com o seu milionário caricato. Claro, nesse espírito, funciona quando a M3gan fala um monte de frases de efeito como “segurem suas pepecas!”.

No fim, saí feliz da sessão, M3gan 2.0 é um filme divertido. Não é bom, ficará longe de listas de recomendações. Mas, quem é somelier de cinema trash vai curtir!

Prédio Vazio

Crítica – Prédio Vazio

Sinopse (imdb): Luna, uma jovem determinada, busca sua mãe que sumiu misteriosamente no último dia de Carnaval em Guarapari. Sua procura a leva até um prédio antigo, aparentemente vazio, mas repleto de almas atormentadas.

Ueba! Filme novo do Rodrigo Aragão, e desta vez no circuito!

Se você já conhece a obra do Rodrigo Aragão, pode pular este parágrafo. Se não conhece, chega aqui: Aragão é, provavelmente, o maior nome do cinema de terror feito no Brasil hoje em dia. Este é o seu sexto longa metragem desde 2008, depois de Mangue Negro, A Noite do Chupacabras, Mar Negro, Mata Negra e O Cemitério das Almas Perdidas, além de ter organizado o longa em episódios Fábulas Negras (todos têm textos aqui no heuvi). Tem gente por aí que acha que não existe terror feito no Brasil. Tem gente por aí que deveria conhecer o trabalho dele.

Cinco anos depois de seu último longa, Aragão fez seu primeiro terror “urbano” – pela primeira vez ele filmou numa cidade grande. Aragão morou na Praia do Morro, em Guarapari, local onde se passa o filme, e quando caminhava pelo calçadão à noite, às vezes via prédios quase totalmente apagados, com um ou dois apartamentos acesos. E ele imaginava como seria estar num prédio daqueles, quase vazios. Daí surgiu a ideia para o filme.

Curioso é que o roteiro teve vários tratamentos. Inclusive teve uma versão mais “clean” feita com a ajuda de um gringo, que seria facilmente vendável para uma Netflix da vida. Mas Aragão desistiu deste tratamento e voltou para uma versão anterior, mais puxada pro trash – mais a ver com o estilo dos seus outros filmes.

Prédio Vazio é urbano, mas é coerente com o resto da obra do diretor. Claras influências de Sam Raimi, Dario Argento e Zé do Caixão, tudo isso com uma pitada de trash por cima.

Curioso que o filme se passa num bairro real de Guarapari, mas o prédio onde tudo acontece não existe. O diretor falou que tentou filmar em um prédio já existente, mas diante das dificuldades de conseguir autorizações, desistiu e construiu uma maquete. Ficou boa, parece um prédio velho e caquético.

Aliás, uma curiosidade dita pelo próprio Rodrigo Aragão em um bate papo pós filme no Estação Botafogo: o longa abre com um filminho publicitário turístico sobre Guarapari, feito décadas atrás, e guardado pelo pai do diretor, que trabalhava num cinema. Só trocaram a narração, originalmente feita pelo Cid Moreira, o resto do filminho está lá na introdução.

A história é simples, uma jovem vai procurar a mãe que estava hospedada na Praia do Morro, mas quando chega no prédio, descobre que tem algo de errado lá. E claro que isso abre espaço para muitos efeitos práticos, muito sangue cenográfico, e muitos truques de maquiagem.

Aliás, uma dica pra quem gosta de procurar coisas escondidas nos filmes: assim como acontece na série A Maldição da Residência Hill, Prédio Vazio tem vários fantasmas escondidos pelos cenários. Deu vontade de rever só pra procurá-los. Isso sem contar nos easter eggs do “Aragãoverso”, como o livro de São Cipriano que estava no Cemitério das Almas Perdidas.

Sobre o elenco, Gilda Nomacce está ótima, ela acabou virando um grande nome no terror brasileiro contemporâneo (ela estava em filmes da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, como Trabalhar Cansa, As Boas Maneiras e Quando eu Era Vivo). Também gostei muito do jovem Caio Macedo, meio alívio cômico, meio “donzelo em perigo”.

Nem tudo é perfeito. Algumas atuações não são tão boas, e as cenas de lutas entre os personagens não são muito bem filmadas. Mas a gente está acostumado a ver terror hollywoodiano bem pior que esse e não fala mal…

Por fim, se você apoia o cinema nacional, e se você quer ver mais terror feito no Brasil, vá ao cinema esta semana. É difícil quando um filme desses entra em circuito. Precisamos prestigiar!

Until Dawn: Noite de Terror

Crítica – Until Dawn: Noite de Terror

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos presos em um loop temporal, onde inimigos misteriosos os perseguem e os matam de maneiras terríveis, devem sobreviver até o amanhecer para escapar.

Antes de tudo, aquele aviso que quem me conhece já sabe: não sou ligado em videogames. Nunca tinha ouvido falar desse jogo. Os meus comentários serão só sobre o filme, ok?

Until Dawn: Noite de Terror (Until Dawn, no original) não teve sessão de imprensa aqui no Rio (ou se teve, não fui chamado). Heu achei que ia ser mais um filme de terror genérico e irrelevante, então eu deixei pra lá. Até que li em algum lugar que era um filme que usava loop temporal, e heu gosto muito deste sub gênero. Então, mesmo atrasado, fui ver.

Cinco jovens estão procurando uma amiga que desapareceu. Chegam em uma cabana isolada onde coisas muito estranhas vão acontecer. Os cinco acabam mortos, mas eles logo voltam ao mesmo momento de quando chegaram na cabana.

Ok, é um loop temporal. Mas não é exatamente o loop temporal que a gente está acostumado, que é quando o personagem volta e revive exatamente a mesma rotina (e que foi bem explorado no bom A Morte te Dá Parabéns). Aqui não existe  um padrão, cada vez que o dia recomeça são novos desafios que eles têm que enfrentar.

A direção é de David F. Sandberg, que chamou a atenção com o excelente curta Lights Out, mas que quando começou a fazer longas ainda está no “quase” – seu currículo tem alguns filmes ok, mas nenhum grande filme (Annabelle 2, Shazam). Ah, tem uma cena que lembra o seu famoso curta. No elenco, vários jovens irrelevantes. Ninguém é péssimo, mas também ninguém é bom. O único nome conhecido é Peter Stormare, num papel menor, porém importante.

Until Dawn tem pontos positivos e negativos, vou começar pelos positivos. Heu não conhecia nada da história e me vi envolvido no mistério onde os jovens se metem. São mortes criativas, alguns jump scares bem bolados, efeitos especiais ok – nada que eleve o filme a um patamar de “imperdível”, mas pelo menos a trama conduz o espectador para momentos divertidos.

Mas, por outro lado, achei tudo meio bagunçado. Às vezes é um único vilão, outras vezes tem vários; às vezes é um monstro, outras vezes é outro… No videogame isso deve fazer mais sentido, mas aqui achei que fez falta um antagonista, um “personagem vilão slasher”, tipo um Jason, um Freddie, um Michael… Pelo que entendi pelo cartaz do filme, que diz “toda noite um pesadelo diferente”, no universo do jogo deve ser mais amplo. Legal, mas aqui ficou solto demais. Por exemplo, pra que mostrar um monstro gigante na floresta se ele não vai aparecer nunca mais no filme?

(Claro, a gente vê esse filme e lembra de O Segredo da Cabana, que também tem uma cabana isolada e cinco jovens, e também não segue exatamente um padrão. Mas O Segredo da Cabana é MUITO melhor estruturado.)

Além disso, o final é ainda mais bagunçado. Achei bem forçado – e bem ruim, na verdade.

Quando acabou o filme, a sensação era de ter me divertido. Mas conforme ia organizando as ideias pra desenvolver meu texto aqui, o filme ia piorando. Acho que Until Dawn pode ser uma boa diversão, mas sugiro não parar pra pensar depois de assistir.

The Ugly Stepsister

Crítica – The Ugly Stepsister

Sinopse (imdb): Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza reina suprema. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.

Nos últimos anos estamos vivendo uma onda de adaptações de terror pra histórias infantis. O terror do Ursinho Puff foi um grande sucesso comercial (deve ter custado duas mariolas e uma Coca Cola, qualquer 10 mil dólares de lucro é um resultado excelente), e isso abriu a porteira pra vários filmes bem ruins. Só aqui comentei sobre dois filmes do Mickey, um da Alice, um do Popeye, e dois da Cinderela – um é tosco mas pode ser divertido dependendo do seu espírito, mas o outro é ruim ruim.

The Ugly Stepsister certamente vai surfar essa onda, mas é um filme bem diferente. Filme norueguês, tem uma produção bem cuidada, boas atuações e uma história fora do óbvio. Não é um slasher tosco usando o conto de fadas como pano de fundo, e sim um body horror que lembra mais o clima de A Substância.

Longa de estreia da diretora e roteirista norueguesa Emilie Blichfeldt, The Ugly Stepsister conta a história da Cinderela. Não, não tem uma história alterada levando a Cinderela a uma jornada de vingança, como os dois filmes do ano passado. É a história que todos conhecemos. Mas, sob outro ponto de vista: o da irmã, da filha da madrasta.

(Não sei como seria o termo em português. “Stepsister” não é exatamente igual a “meia irmã”, uma meia irmã tem ou o pai ou a mãe em comum. Não sei se existe este termo na língua portuguesa.)

Elvira, filha mais velha da madrasta de Agnes (que vai virar Cinderela), é feia e está acima do peso. Quando o príncipe anuncia um baile pra daqui a quatro meses, sua mãe coloca Elvira sob vários tratamentos severos para ficar bonita e impressionar o príncipe.

The Ugly Stepsister só é terror pelo visual grotesco e cheio de gore, porque no fundo está mais próximo do drama. Elvira se submete a coisas terríveis pra tentar alcançar seu sonho – ou, às vezes, parece até ser o sonho de sua mãe. E o filme traz algumas cenas visualmente bem fortes. Dificilmente o espectador não vai se retorcer em algum momento do filme.

Outra coisa que é bom avisar é que estamos diante de um filme europeu, que mostra a nudez e o sexo de maneira bem diferente do cinema americano. Na verdade são poucas cenas, mas essas poucas cenas mostram bem mais do que vemos no cinemão hollywoodiano.

Falei que é mais drama do que terror porque acompanhamos o sofrimento da Elvira. E ela realmente sofre. A atriz Lea Myren está bem – aliás, o elenco todo funciona. Outro ponto a ser destacado são os cenários e figurinos da época. O filme não especifica exatamente quando se passa, mas sabemos que não é uma história dos dias de hoje, e nada parece falso.

Vou fazer um comentário agora, mas é head canon meu, não é problema do filme. Quando o pai da Cinderela morre, achei que o filme ia torná-la em uma vilã. Isso seria uma boa história: uma Cinderela malvada e uma irmã vítima. Mas este não é o filme da Emilie Blichfeldt, então não é uma crítica.

The Ugly Stepsister é um filme da Shudder e ainda não está disponível em nenhum streaming brasileiro. Bem que podia ter Shudder aqui…

Premonição 6: Laços de Sangue

Crítica – Premonição 6: Laços de Sangue

Sinopse (imdb): Na década de 1960, uma jovem prevê o desabamento de um prédio e salva da morte um grupo de pessoas. Décadas depois, sua neta também começa a ter visões da morte de seus familiares.

Heu gosto da franquia Premonição. É um bom exemplo de como se repetir uma fórmula e o filme não ficar igual aos anteriores. Mas, como o quinto filme terminava com uma conexão com o início do primeiro, heu achava que nunca veríamos um sexto filme. Mas, olha lá, tem Premonição novo em cartaz.

Dirigido pela desconhecida dupla Zach Lipovsky e Adam B. Stein (mas com Jon Watts, diretor dos últimos Homem Aranha, como um dos roteiristas), Premonição 6: Laços de Sangue (Final Destination: Bloodlines, no original) segue o mesmo espírito dos outros filmes e traz tudo de positivo e de negativo que tem no resto da saga. A fórmula do roteiro não é exatamente igual, porque os personagens principais não estão no grande acidente que abre o filme, mas, fora isso, a proposta é a mesma.

Falei que os filmes seguem a fórmula mas não são iguais, né? Em todos os filmes rolam longas sequências onde você sabe que alguém vai morrer, de maneira horrível, mas você não sabe como nem quando. São espalhados vários elementos pelo cenário, todos com potencial de serem a causa da morte, e o espectador não tem ideia de qual deles será usado. Se por um lado a ideia é repetida, por outro, a gente nunca sabe como será a morte, e isso torna a cena bem divertida, apesar de ser uma repetição de fórmula. Algumas são realmente muito criativas.

Este é um ponto positivo. Agora, pelo menos pra mim, Premonição 6 repete o ponto negativo presente nos outros filmes. É quando resolvem estabelecer regras rígidas para algo abstrato.  Por que a morte precisaria seguir uma ordem exata? Agora, não vou reclamar disso aqui, porque afinal a mesma coisa acontece em todos os filmes anteriores.

Premonição 6 segue a fórmula. Uma cena inicial com um acidente enorme, e depois acompanhamos um grupo de personagens, a gente sabe que eles vão morrer, e a gente se diverte vendo sequências absurdas – e até engraçadas, apesar de ter algum gore.

Não quero entrar em spoilers, mas a cena inicial tem uma morte que acho que todos no cinema curtiram. Tem um garoto insuportável, inclusive ele foi parcialmente responsável pelo acidente. Quando ele morreu (não vou dizer como), o cinema comemorou. Não me lembro de outro filme onde o público comemora a morte de uma criança…

No elenco, tem uma cena com Tony Todd, que esteve em quatro dos cinco filmes anteriores. A cena não é boa, mas, se a gente lembrar que Todd faleceu ano passado, é legal vê-lo por uma última vez em um papel importante da sua carreira. Do resto do elenco heu só conhecia Rya Kihlstedt, que não é um nome muito conhecido, mas lembro dela em alguns filmes dos anos 90. Também no elenco, Brec Bassinger, Kaitlyn Santa Juana, Richard Harmon e Anna Lore

A boa notícia para os fãs da franquia é que descobriram uma fórmula de sequências infinitas. Porque cada família pode gerar um novo filme. Espero que mantenham a criatividade ao apresentar as mortes, assim sempre vou querer ver o novo filme!

Death of a Unicorn

Crítica – Death of a Unicorn

Sinopse (imdb): Um pai e uma filha acidentalmente atropelam e matam um unicórnio enquanto estavam a caminho de um retiro de fim de semana, onde seu chefe bilionário tenta explorar as propriedades curativas milagrosas da criatura.

Filme novo da A24, com um bom elenco e uma premissa instigante: unicórnios. Será que presta?

Primeiro longa dirigido por Alex Scharfman, Death of a Unicorn tem uma boa premissa, mas se perde no meio de clichês e acaba entregando um resultado previsível, com efeitos toscos, e com um final bem ruim.

A ideia não era ruim. Um cara viaja com sua filha para a mansão isolada de um milionário (não entendi se ele é parente distante ou funcionário, isso é explicado no início do filme, mas comi mosca e não lembro), mas no caminho acaba atropelando um unicórnio. Quando entra em contato com o sangue do animal, descobre que o mesmo tem poder de cura. Aí claro que o milionário vai querer monetizar o poder do unicórnio; e claro que a filha vai pesquisar e descobrir que as coisas não sairão como planejadas.

A partir desse momento que a filha descobre que os unicórnios são violentos e o filme se assume como um terror, tudo vira previsível demais. Absolutamente TODAS as mortes acontecem de forma previsível. Quem está acostumado com filmes de terror vai adivinhar cada momento.

O fato dos personagens serem caricatos não ajuda. Acho que o único personagem que tem mais de uma camada é o do Paul Rudd, que precisa se equilibrar entre ser um bom pai pra sua filha e cair na tentação da ganância oferecida pelos ricos. Os outros personagens são todos mal construídos.

Pra piorar, quem me acompanha sabe que não costumo reclamar de cgi mal feito, mas aqui algumas cenas de unicórnios parecem playstation dos anos 90. Saudades de quando os filmes não tinham cgi e precisavam inventar soluções criativas. Mesmo quando era uma ideia tosca, não ficava tão ruim.

E achei o fim ruim. Não quero entrar em spoilers, mas um filme desses não precisava de um final com uma redenção forçada.

No elenco, além dos já citados Paul Rudd e Jenna Ortega, Death of a Unicorn conta com Téa Leoni, Will Poulter e Richard E. Grant (que está a cara do Christopher Walken).

Pra não dizer que não gostei de nada, curti as referências a Alien: a personagem da Jenna Ortega se chama Ridley, que pode ter conexão com o diretor Ridley Scott e também com a personagem Ripley, e tem uma cena do unicórnio se aproximando dela que lembra o primeiro Alien. Pouco, não?

Screamboat

Crítica – Screamboat

Sinopse (imdb): Um passeio noturno de barco se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência em Nova York quando um rato se torna uma realidade monstruosa.

Confesso que a expectativa pra um novo “terror do Mickey Mouse” era a menor possível. Mas não é que Screamboat não é tão ruim assim?

Bem, vamos com calma, o filme é ruim, muito ruim. Mas, comparado com os semelhantes, Ursinho Puf, Alice, Popeye, e, principalmente, The Mouse Trap – o outro terror do Mickey – Screamboat é menos ruim.

O que mais me incomodou em The Mouse Trap é que era um slasher tosco e vagabundo que não tinha nada a ver com o Mickey. O cara colocava uma máscara e ganhava poderes de teletransporte – quando teve uma história do Mickey com teletransporte?

Screamboat é um slasher tosco e vagabundo, mas que tem várias referências ao Mickey e ao universo Disney, tipo, o rato se chama Willie e vivia num barco a vapor – ele era o “steamboat Willie”. Seu dono era Walter, mas o chamavam de Walt. Além disso tem referências em personagens, tipo um grupo de mulheres vestidas como as princesas; e referências em alguns diálogos, como alguém que fala “it’s a small world”. (No banheiro tem uma frase que faz um trocadilho entre “ferry” e “fairy” e fala “ferry tale”, achei uma boa sacada.)

A direção aqui é de Steven Lamorte, que fez algo parecido em seu filme anterior, O Malvado Horror no Natal (o filme de terror do Grinch), que era um slasher tosco e vagabundo, mas que trazia referências às histórias do Grinch. Isso deveria ser algo básico nesses filmes do Poohniverse e afins, mas a galera que faz esses filmes não se preocupa nem com o básico!

Outro ponto positivo de Screamboat é o ator David Howard Thornton, mais conhecido por fazer o palhaço Art nos filmes Terrifier. Thornton interpreta o personagem principal, o rato Willie. Ok, reconheço que o Willie é quase igual ao Art: é um personagem que não fala, interage muito pouco com o resto do elenco, e fica fazendo caras e bocas o tempo todo. É um personagem reciclado, mas funciona dentro da proposta.

Agora, apesar desses elogios, a gente precisa reconhecer que Screamboat é bem fraco. Todas as atuações são péééssimas, e o roteiro é cheio de coisas sem sentido – tipo um personagem cair na água e, vários minutos depois, ainda estar ao lado do barco. E isso porque nem vou falar da cena onde um rato de menos de 50 centímetros de altura pega uma mangueira e molha algumas dezenas de pessoas, e ninguém vai até o rato pra tentar impedir.

Os efeitos de maquiagem são ok. Algumas mortes são criativas, e admito que ri na “cena de sexo”. Agora, os efeitos para o Willie ser pequeno às vezes lembram programas infantis antigos como Castelo Rá Tim Bum e Sítio do Pica Pau Amarelo. Não é uma boa referência…

Teve um outro problema. A sessão de imprensa ia acontecer num cinema, mas houve uma falha técnica e a sessão teve que ser cancelada. A assessoria então nos enviou um link para uma cabine online, uma boa solução. Mas, parte do filme é muito escura, e ver um filme muito escuro na tela do computador nem sempre é tarefa fácil. Resultado: algumas cenas nem consegui ver direito o que estava acontecendo.

Enfim, Screamboat não é bom. Mas, num mar de lixo como Mouse Trap e Ursinho Pooh Sangue e Mel, o resultado é bem mais positivo.

Pecadores

Crítica – Pecadores

Sinopse (imdb): Dispostos a deixar suas vidas conturbadas para trás, irmãos gêmeos retornam à cidade natal para recomeçar suas vidas do zero, quando descobrem que um mal ainda maior está à espera deles para recebê-los de volta.

Heu ia falar sobre Pecadores antes de Nas Terras Perdidas. Mas tenho tanta coisa pra falar de Pecadores que preferi atrasar o texto pra poder falar com mais calma.

Vi Pecadores ao lado do meu amigo André Gordirro. Ao fim da sessão, ele fez um comentário que faço questão de repetir aqui: “a gente, como crítico de cinema, vê tanta porcaria, é muito bom quando finalmente vemos um filmão como este”.

Pecadores é um filmão. Daqueles que dá vontade de rever assim que acaba a sessão.

Escrito e dirigido por Ryan Coogler (Pantera Negra, Creed), Pecadores (Sinners, no original) estava na minha lista de expectativas para 2025. Mas posso tranquilamente dizer que superou as expectativas. É daquele tipo de filme onde tudo está no lugar. A história é boa, o elenco está ótimo, a ambientação de época é perfeita, os efeitos especiais são excelentes, e a trilha sonora… A trilha sonora me pegou como há muito tempo uma trilha não me pegava.

Mas, antes de entrar no filme, preciso falar sobre spoilers. Tem uma coisa que acontece bem no meio do filme que muda completamente o rumo da narrativa. E tem muita gente comentando o que acontece, afinal isso aparece no segundo trailer (não aparece no primeiro). Mas… Acredito que o melhor seja ver o filme sem saber, então não vou comentar aqui! Este é um texto spoiler free!

Vamulá. Pecadores começa com um rápido prólogo, e a história volta para o dia anterior. Anos 30, conhecemos os gêmeos Fumaça e Fuligem, que trabalharam em Chicago com Al Capone e agora querem abrir um clube de blues só para negros. Esta primeira metade do filme é mais lenta, pra conhecermos os vários personagens e a relação entre eles, e o roteiro de Coogler é muito bem estruturado neste aspecto. Quando o filme muda de rumo na segunda metade, sabemos quem são aquelas pessoas, temos motivo para nos importarmos por elas!

Preciso falar da trilha sonora. Há muito tempo uma trilha de um filme “não musical” não me impactava assim. Adorei a trilha composta por Ludwig Göransson – se fosse anos atrás, ia correr atrás do disco pra minha coleção. Göransson consegue cria um clima perfeito de tensão usando o violão do blues. Göransson já tem dois Oscars (Pantera Negra e Oppenheimer), não será surpresa se for indicado de novo.

Heu diria que a trilha sonora aqui é tão importante quanto em um filme musical. A última vez que vi algo parecido foi em Baby Driver, que tinha cenas editadas coreografando com a música da trilha, como o tiroteio no ritmo de Hocus Pocus do Focus, ou o sensacional plano sequência inicial ao som de Harlem Shuffle. A diferença é que em Baby Driver eram músicas pop, e aqui Pecadores é uma trilha original (pelo menos heu não conhecia nenhuma das músicas). Mas a trilha é quase um “personagem” do filme. Quase tudo é blues, mas abre um pequeno espaço pra outros estilos, como uma boa cena usando música irlandesa.

Ainda nesse tema, tem uma cena sensacional no meio do filme, uma cena que vai dividir opiniões porque é bem fora da caixinha, mas que se você entrar na onda, vai curtir. Tem uma frase no filme que fala que a música pode invocar espíritos do passado e do futuro, e que pode romper o limite entre a vida e a morte. Então vemos um plano sequência que começa com o personagem Sammie cantando e tocando violão, e a música cresce e toma rumos inesperados, e a câmera começa a passear por caminhos igualmente inesperados. É daquelas sequências pra aplaudir de pé!

E, já que falei do som, tem alguns detalhes geniais que merecem uma ida ao cinema. Vou citar dois exemplos. Um acontece quando uma personagem está mexendo com feitiços e sua voz aparece mais encorpada. É só ela falando, mas a gente sente que ela não está sozinha. Outra é quando ouvimos um personagem contando uma história, e que numa narrativa convencional, a gente veria um flashback. Só que aqui a gente não vê nada – mas ouve tudo!

Os efeitos especiais são muito bons. Já é o quarto filme que vi em poucas semanas onde um ator interpreta dois papéis (os outros são Mickey 17, O Macaco e Alto Knights). Pecadores não tem muitas cenas com os dois personagens interagindo (neste aspecto, Mickey 17 é mais impressionante), mas todas as cenas onde vemos Fumaça e Fuligem juntos são perfeitas. E, quando o filme se assume terror, temos bons efeitos de maquiagem. Não sei o que é efeito prático e o que é digital, mas acho que isso pode ser positivo…

Até agora só falei da parte técnica. Mas Pecadores também tem seu lado político. O diretor sabe abordar o tema do racismo de maneira que fica natural e não panfletária. O modo como ele apresenta as questões raciais não tem nada da lacração que vemos de vez em quando por aí.

No elenco, Michael B Jordan (protagonista de todos os filmes do diretor) está ótimo. Os dois irmãos são muito parecidos fisicamente (em O Macaco os irmãos usam cortes de cabelo diferentes), mas têm personalidades bem distintas. E gostei muito do estreante Miles Caton. Segundo os créditos, ele realmente toca e canta. Também no elenco, Hailee Steinfeld, Delroy Lindo e Jack O’Connell, e uma ponta do músico veterano do blues Buddy Guy.

Pecadores tem cenas pós créditos. Mas não é o mesmo padrão de sempre. Logo no início dos créditos, volta o filme para uma sequência enooorme – heu diria que nunca vi uma cena pós créditos tão longa! É um epílogo, podia facilmente fazer parte do filme. E, lá no finzinho de tudo, aí sim, uma cena pós créditos com cara de pós créditos.

Por fim, uma coisa que heu não entendi o motivo. Parte de Pecadores foi filmado em Imax, então algumas cenas têm o formato de tela diferente, e o filme fica mudando entre os dois formatos. Deve ter algum motivo pra essas mudanças, mas não sei qual foi.