Oscar 2025 – Bom Resultado, mas com gosto amargo
Ontem à noite rolou o Oscar mais aguardado da história, sob o ponto de vista dos cinéfilos brasileiros. Afinal, pela primeira vez, tínhamos um filme concorrendo ao prêmio principal. E, viva! Merecidamente, Ainda Estou Aqui ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro! Finalmente entramos no seleto “clube” de países que já ganharam este prêmio (aqui na América do Sul, até ontem, só Argentina e Chile tinham ganhado).
Mas, a cerimônia foi besta, previsível, sem graça, e terminou com gosto amargo para os brasileiros.
Vou comentar tudo, mas, antes, um breve histórico do Brasil no Oscar. O Brasil já tinha concorrido quatro vezes ao Oscar de Filme Internacional, ou Oscar de Filme em Língua Estrangeira (popularmente chamado aqui no Brasil de “Oscar de filme estrangeiro”): 1963 com O Pagador de Promessas, 1996 com O Quatrilho, 1998 com O Que É Isso Companheiro?, e 1999 com Central do Brasil. Mas perdemos as quatro vezes. Orfeu Negro, co-produção Brasil, França e Itália, ganhou em 1960, mas o filme foi indicado pela França, não pelo Brasil. O Beijo da Mulher Aranha concorreu, em 1986, a melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado e ganhou melhor ator (William Hurt), mas é uma co-produção Brasil e EUA, falado em inglês. Em 2004, Cidade de Deus concorreu a quatro prêmios, mas não ganhou nenhum: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição. Carlos Saldanha, carioca, concorreu ao Oscar duas vezes, mas por produções gringas: melhor curta de animação em 2004 (Gone Nutty), e melhor longa de animação em 2018 (Touro Ferdinando). Diários de Motocicleta, outro Walter Salles, mas co-produzido por oito países diferentes, concorreu a melhor roteiro adaptado e ganhou melhor canção (Al Otro Lado Del Rio, de Jorge Drexler). Sergio Mendes e Carlinhos Brown também concorreram a melhor canção em 2012, por Rio, mas não ganharam. Além desses, alguns documentários também concorreram, mas não ganharam.
(Argentina ganhou em 1986 com A História Oficial e em 2010 com O Segredo dos seus Olhos; Chile ganhou em 2018 com Uma Mulher Fantástica).
A expectativa para 2025 era grande, porque pela primeira vez um filme brasileiro estava indicado ao Oscar principal. Em 1999, Central do Brasil concorreu a filme estrangeiro e também a melhor atriz; este ano estávamos concorrendo a filme estrangeiro, atriz e também filme principal! E cinco anos atrás Parasita ganhou filme estrangeiro e filme principal, ou seja, era esta a esperança dos brasileiros!
Agora, a premiação foi burocrática. Não tivemos grandes polêmicas, não tivemos grandes números musicais, não tivemos discursos empolgantes, não tivemos participações especiais emocionantes. Me pareceu o Oscar mais besta dos últimos anos. Conan O’Brien foi o apresentador, ele fez algumas boas piadas, mas outras foram bem bobas.
Quase todas as premiações foram previsíveis. Se bobear, bolões de apostas tiveram empates. Por exemplo, Kieran Culkin e Zoe Saldaña ganharam vários prêmios antes do Oscar, já era meio óbvio que iam repetir aqui. Podemos dizer o mesmo sobre Flow como melhor animação, ou prêmios de som e efeitos visuais pra Duna.
O grande vencedor da noite foi Anora: filme, roteiro original, edição, direção e atriz (Mikey Madison). Sean Baker, que foi o diretor, roteirista, editor e um dos produtores, saiu da festa com quatro estatuetas! O Brutalista ganhou três: fotografia, trilha sonora e ator (Adrien Brody); Wicked ganhou dois: figurino e design de produção; Emilia Pérez ganhou dois: canção e atriz coadjuvante (Zoe Saldaña). Conclave e A Substância, dois dos meus preferidos, cada um só ganhou um Oscar (roteiro adaptado e maquiagem, respectivamente), o que, na minha humilde opinião, foi uma falha – mas continua dentro da previsibilidade.
Quando Penelope Cruz surgiu para apresentar melhor filme internacional, finalmente os brasileiros puderam respirar aliviados: o prêmio era nosso! Finalmente reconheceram que Ainda Estou Aqui é melhor que Emilia Pérez em todos os aspectos!
E por que digo que terminou com gosto amargo? Porque os dois últimos prêmios da noite foram melhor atriz e melhor filme. Estávamos indicados aos dois. E perdemos os dois… 🙁
Acredito que boa parte do Brasil foi dormir decepcionado por causa das duas derrotas. Mas, caramba! Conseguimos um Oscar! É motivo pra comemorar!
Enfim, já temos o primeiro Oscar. Rumo aos próximos!