Blindado

Crítica – Blindado

Sinopse (imdb): Um pai e um filho que trabalham como guardas de segurança de uma empresa de caminhões blindados encontram uma equipe de possíveis ladrões em uma ponte. Eles ficam presos e precisam bolar um plano para escapar e garantir sua sobrevivência.

Heu costumo ser positivo, e sempre procuro pontos positivos nos filmes que assisto. Mas de vez em quando aparece um filme onde essa tarefa é árdua…

Blindado (Armor, no original) foi dirigido por Justin Routt, mas o nome que a gente deve prestar atenção nos bastidores é o do produtor Randall Emmett, que tem uma fórmula meio picareta: oferece um bom cachê pra um nome grande de Hollywood, que vai até o set e trabalha por poucos dias, apenas em algumas cenas, e o filme é lançado com o nome da estrela no cartaz. Um filme vagabundo, aparentemente todo o orçamento é pra bancar esse cachê caro. Seu método ficou famoso com a série de filmes feitos com o Bruce Willis, cheguei a comentar um deles aqui no heuvi, Out of Death. Naquele caso, pelo menos tinha uma justificativa: Willis estava doente e estava fazendo alguns filmes baratos pra fazer um pé de meia. Mas depois descobri que Emmett já fez isso com outros nomes importantes.

Pelo que li no imdb, Sylvester Stallone teria recebido 3 milhões e meio de dólares por um dia de filmagem. Caramba, quem recusaria um cachê desses? Stallone foi, filmou suas cenas, e a equipe continuou fazendo o filme. Se é que podemos chamar isso de filme…

Blindado não tem uma história para ser um longa. Me parece que caberia em um seriado de 40 minutos, e que resolveram esticar pra fazer um longa metragem – o filme tem uma hora e vinte e nove minutos no total, e é arrastaaado. Chega ao ponto de termos cenas repetidas – vemos o mesmo take do braço do Jason Patrick em três momentos do filme.

Porque aí está o pior problema de Blindado, na minha humilde opinião: o roteiro, que tem erros básicos. Um exemplo é um longo flashback colocado no meio da construção do clímax do filme. O espectador pensando “como eles vão conseguir sair dessa?”, e pára tudo porque agora vamos ver um flashback detalhado sobre um acidente que impactou pai e filho.

Mas não é só isso. São diversos furos de roteiro, como um carro forte carregando valores não ser acompanhado remotamente por um gps. Ou um cara que diz que está há seis anos sóbrio, mas carrega sempre uma garrafinha de vodca e NINGUÉM sente o cheiro da vodca!

A maior parte do filme se passa numa ponte, onde derrubam o carro forte, e tem bandidos atirando tanto pela frente quanto por trás. Já vejo um problema aí, porque certamente alguém erraria o carro forte e o tiro iria atingir o coleguinha do outro lado. Mas até aí, ok, vamos acreditar que todos são exímios atiradores. Mas então por que quando o cara sai de dentro do carro forte e joga um coquetel molotov em um dos bandidos, ninguém atira nele??? E ainda esperam ele voltar e fechar a portinha!!!

E, não posso deixar de citar: POR QUE DIABOS NÃO ARREBENTARAM A PORCARIA DA PORTA TRASEIRA DO CAMINHÃO???

A edição é tão tosca quanto o roteiro: o filme abre com o time do Stallone se preparando para o ataque, mas este ataque só acontece no dia seguinte. Pra que abrir o filme com aquelas imagens? (Claro, é pra aproveitar melhor a estrela contratada e esticar o filme um pouco mais.)

Heu podia ficar aqui mais um tempão falando mal de Blindado, mas acho que chega, né? Não vou nem entrar nos efeitos especiais vagabundos, isso me incomoda menos do que os vários problemas mencionados.

Só posso dizer que tenho pena de quem for ao cinema ver esse lixo. Que provavelmente voltará aqui no fim do ano na minha lista de piores filmes de 2025.

Flow

Crítica – Flow

Sinopse (imdb): Gato é um animal solitário, mas quando seu lar é destruído por uma grande inundação, ele encontra refúgio em um barco habitado por diversas espécies, tendo que se juntar a eles apesar das diferenças.

E vamos para uma das mais badaladas animações de 2024!

Escrito e dirigido por Gints Zilbalodis, Flow (Straume, no original) é um longa de animação feito na Letônia, que está indo tão bem na temporada de prêmios, que não só está concorrendo ao Oscar de melhor Animação, como também está concorrendo ao Oscar de melhor Filme Internacional (sim, é um dos concorrentes de Ainda Estou Aqui).

E realmente é um desenho belíssimo. Vou repetir algo que já falei algumas vezes recentemente: às vezes um traço não precisa ser perfeito para ser bonito. Assim como Homem Aranha no Aranhaverso, Gato de Botas 2, Tartarugas Ninja e Robô Selvagem, Flow não tem traços perfeitos, como vemos nos longas da Pixar e da Disney. Digo mais, aqui, às vezes o traço parece meio borrado, parece que pintaram e não finalizaram o desenho. E isso traz um charme especial. Longas de animação descobriram que as imperfeições podem melhorar a qualidade visual de algumas obras!

Vou além: nos acostumamos com animais antropomorfizados, que é quando um animal tem traços humanos, tipo andar sobre as patas traseiras, usar as patas dianteiras como mãos, falar e ter expressões faciais. Isso virou algo normal em longas de animação. Mas aqui em Flow os animais se portam como animais (durante quase todo o filme). Tenho cachorro e já tive gato, e posso dizer que os movimentos dos animais são bem semelhantes a animais reais. Inclusive tem uma sequência onde a capivara tem um problema porque ela não consegue saltar como um gato ou um cachorro.

Flow conta a jornada de um gato, que, fugindo de uma enchente, se une a outros animais em um barco. Não tem nenhum humano, ou seja, o filme não tem diálogos. O gato se une a um cachorro, uma capivara, um lêmure e um pássaro (não sei qual espécie), e eles navegam em busca da sobrevivência.

Flow é bonito e emocionante, mas tive três problemas com o filme. Em primeiro lugar, achei que faltou um contexto pra gente se situar sobre o que está acontecendo. Não preciso de explicações detalhadas sobre tudo, mas queria saber que mundo é aquele, por que a água estava subindo. E, afinal, estamos no planeta Terra nos dias atuais? Porque tem um monstro marinho que não me parece um bicho dos dias de hoje.

Outro problema é sobre a “antropomorfização seletiva”. Durante quase todo o filme, animais se portam como animais. Mas… Quando o filme pede, eles sabem usar o leme do barco pra controlar o barco durante a navegação. Caramba, por que não deixar o barco apenas flutuando?

Agora, aceito esses dois detalhes. Quando um filme é bom, a gente aceita alguns probleminhas aqui e ali. Mas, existe um terceiro problema que quase me fez não gostar de Flow. Mas como é na cena final, vou colocar um aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Na cena final vemos o monstro marinho morrendo. Caramba, pra que terminar o filme com um bicho morrendo??? Era um personagem secundário, a gente não precisava saber o que aconteceu com ele!!! “Ah, mas tem uma cena pós créditos onde a gente vê barbatanas ao fundo, de repente ele não morreu…” Pra mim, aquelas barbatanas são de outro monstro marinho. O que estava na jornada do gato MORREU.

Esse final foi PÉSSIMO!

FIM DOS SPOILERS!

Mesmo não tendo gostado nem um pouco da cena final, reconheço que Flow é um grande filme. Não acho que consiga o Oscar, mas, ganhar duas indicações já é um grande feito para um desenho da Letônia!

Acompanhante Perfeita

Crítica – Acompanhante Perfeita

Sinopse (imdb): A morte de um bilionário desencadeia uma série de eventos para Iris e seus amigos durante uma viagem de fim de semana à sua propriedade à beira do lago.

É complicado falar de um filme como Acompanhante Perfeita (Companion, no original), porque boa parte da graça do filme está nas pequenas reviravoltas espalhadas ao longo do roteiro. Fui ao cinema sem ver o trailer, apenas tinha lido uma sinopse genérica. E posso dizer que entrar na sala sem saber nada é uma experiência melhor! Então vou me policiar pra falar o mínimo possível sobre a trama.

Um grupo de amigos vai passar uns dias numa mansão à beira de uma lagoa, de um milionário russo. Acontece um assassinato, e descobrimos que nem tudo é o que parece. É, acho que isso é o suficiente.

O roteiro e a direção são de Drew Hancock – pelo imdb dele, este é seu primeiro longa, ele já tinha trabalhado em séries e curtas (inclusive dois do Tenacious D, banda do Jack Black). Gostei do estilo dele, tomara que seu próximo filme siga esse caminho. O poster do filme fala “dos mesmos criadores de Noites Brutais / The Barbarian“, mas isso não está correto – na verdade, entre os produtores está Zach Cregger, diretor de Noites Brutais (outro filme que também tem suas surpresas no roteiro, mas são estilos bem diferentes).

O melhor de Acompanhante Perfeita são os pequenos plot twists espalhados pelo filme – confesso que alguns me pegaram de surpresa. Porque, se a gente analisar mais profundamente, o roteiro de Acompanhante Perfeita não é algo muito inovador. Mas, sabe quando um filme sabe usar os clichês? Além disso, o roteiro equilibra bem o humor, algumas cenas são bem engraçadas, apesar do filme não ser uma comédia.

(Achei algumas coisas forçadas no conceito por trás dos plot twists, mas como este é um texto sem spoilers, vou relevar. Mas preciso deixar registrado que tem algumas cenas que a gente pensa “mas será que isso ia funcionar assim?”)

Outro trunfo é o elenco. Sophie Tatcher (O Livro de Bobba Fett, Herege) está ótima num papel que tem mais camadas do que aparenta ter; Jack Quaid (um dos principais da série The Boys, e filho da Meg Ryan com o Dennis Quaid) também está muito bem. O pequeno elenco secundário também é bom: Rupert Friend, Harvey Guillén, Lukas Gage e Megan Suri.

Acompanhante Perfeita ainda abre uma interessante discussão sobre relacionamentos tóxicos. Ouvi gente comentando que seria sobre machismo, mas, como tem um casal gay entre os personagens, acho que relacionamento tóxico tem mais a ver do que machismo…

Acompanhante Perfeita está em cartaz nos cinemas e tem cara de que já já sai do circuito.

Ameaça no Ar

Crítica – Ameaça no Ar

Sinopse (imdb): Um piloto é responsável por transportar uma profissional da Força Aérea que acompanha um fugitivo até seu julgamento. À medida que atravessam o Alasca, a tensão aumenta e a confiança é testada já que nem todos a bordo são quem mostram ser.

Às vezes alguns grandes nomes de Hollywood fazem escolhas que me deixam intrigado. Mel Gibson, como diretor, fez poucos filmes. Depois da sua estreia em 1993 com O Homem sem Face, todos seus filmes seguintes foram projetos grandiosos e ousados: Coração Valente (95), A Paixão de Cristo (2004), Apocalypto (2006) e Até o Último Homem (2016). Aí chega aos cinemas seu novo filme como diretor, este Ameaça no Ar.

Vejam bem, não estou entrando no mérito se Ameaça no Ar é bom ou ruim. Mas é um filme “pequeno” – quase todo o filme só conta com três atores e apenas uma locação. Poderia ter sido dirigido por um diretor qualquer, de segunda linha, e poderia ter ido direto para o streaming. E a gente vê que é o novo filme do mesmo diretor de Coração Valente, A Paixão de Cristo, Apocalypto e Até o Último Homem. Caramba, Mel, por que diabos você escolheu este projeto?

Vamos ao filme. Um contador que trabalhou para um mafioso é preso e precisa ser levado como testemunha. A agente responsável pela sua captura pega um voo em um aviãozinho onde estão só os dois e mais o piloto. Mas este piloto pode ser alguém diferente do esperado.

Como falei, Ameaça no Ar é uma produção “pequena” – poucos atores e apenas uma locação. Quase todo o filme é baseado em diálogos e tensões envolvendo os três personagens. Em alguns momentos, preciso reconhecer que a tensão realmente funciona. Ok, tudo cheio de clichês, mas são clichês bem usados, pelo menos duas vezes fiquei na beirada da poltrona do cinema.

Sobre o elenco: gostei da personagem da Michelle Dockery (Magnatas do Crime), durona no ponto certo. Mark Wahlberg está ok, mas preciso reconhecer que achei a careca dele estranha e isso me tirava do filme – parece que ele raspou mal raspado o cabelo, por que fazer isso? Já Topher Grace (That’s 70 Show) achei um pouco exagerado, sei que é um alívio cômico, mas em alguns momentos saía do tom. Também queria citar o personagem Hassan, que fala pelo rádio com a personagem da Michelle Dockery. Se Topher Grace saiu do tom, achei Hassan perfeito. Um personagem carismático e engraçado, que só aparece em pontos eventuais da trama. O curioso é que são dois atores interpretando, Maaz Ali faz a voz que ouvimos ao longo do filme, mas quando o personagem finalmente aparece é interpretado por Monib Abhat.

No fim, Ameaça no Ar nem é ruim. Mas é um filme bem genérico. Sugiro baixar as expectativas!

Aqui

Crítica – Aqui

Sinopse (imdb): Situado em um único quarto, ele acompanha as muitas pessoas que o habitam ao longo dos anos, do passado ao futuro.

Quando anunciaram o filme como “nova reunião de Tom Hanks com Robert Zemeckis”, admito que lembrei de Pinóquio, que foi um dos piores filmes de 2022. Ou seja não era exatamente um motivo para empolgação.

Mas aí vi que Aqui (Here, no original) reunia oito membros do elenco e da equipe de Forrest Gump: O Contador de Histórias (1994) – Tom Hanks, Robin Wright, Robert Zemeckis, o roteirista Eric Roth, o compositor Alan Silvestri, o diretor de fotografia Don Burgess, o designer de som Randy Thom e a figurinista Joana Johnston.

Ok, você tinha a minha curiosidade, agora você tem a minha atenção!

Aqui apresenta um conceito curioso: o filme inteiro mostra apenas um posicionamento de câmera, ao longo muito tempo (na verdade, desde a época dos dinossauros). Vemos índios nativos americanos, vemos Benjamin Franklin, depois vemos a casa sendo construída e várias famílias morando lá ao longo de algumas décadas. Tudo isso com a câmera parada. A história vai e volta no tempo, e a câmera sempre mostrando o mesmo ângulo.

Aqui é adaptação da HQ homônima de Richard McGuire. Não li a HQ, mas vi algumas imagens. A edição do filme copia os recortes espalhados pela tela nas idas e vindas da linha temporal. Talvez fique um pouco confuso à primeira vista, mas achei o resultado bem legal.

Não é a primeira vez que Robert Zemeckis inova, e sempre vou valorizar quando um cineasta segue caminhos diferentes. O já citado Forrest Gump foi um marco nos efeitos especiais quando usou o cgi pra não mostrar – até então, os efeitos eram sempre aparentes, em Forrest Gump os efeitos escondiam detalhes, como as pernas do personagem do Gary Sinise. Zemeckis também inovou com Uma Cilada Para Roger Rabbit, quando criou personagens em desenho animado, mas que tinham volume (até então, todas as misturas de atores com animações eram com a câmera parada, em 2D). Ou com a técnica de captura de movimento usada em O Expresso Polar. E isso porque não estou falando de sua obra mais famosa: a trilogia De Volta Para o Futuro.

Mas, se como “inovação” Aqui funciona, como “cinema”, deixa a desejar. A trama ir e voltar no tempo não é um problema, mas não ter uma história a ser contada é. Personagens entram e saem da tela, sem nenhum contexto. E ao fim a gente descobre que boa parte desses personagens era irrelevante na trama. Na minha humilde opinião, se o filme focasse na família principal (Tom Hanks, Robin Wright, Paul Bettany e Kelly Reilly), Aqui seria um filme bem melhor.

(A gente vê a história indo e vindo o tempo todo, mas acho que a única vez que reparei alguma conexão entre as diferentes linhas temporais foi quando vemos um enterro de uma nativa americana, e depois vemos que acharam seu colar numa escavação. Ou seja, temos várias linhas temporais que só serviram pra encher linguiça.)

Ainda preciso falar dos efeitos especiais. Pelo que li, Zemeckis usou uma nova tecnologia que rejuvenesce ou envelhece o ator na hora que está sendo filmado, através de IA, dispensando uma pós produção. Ok, mais uma vez, respeito a inovação, mas essa tecnologia me pareceu um pouco “crua”, em alguns momentos a cara dos personagens parece artificial demais.

No fim, só recomendo Aqui como uma nova experiência cinematográfica. Porque como filme, podia ter sido bem melhor.

Lobisomem

Crítica – Lobisomem

Sinopse (imdb): Um homem deve proteger a si mesmo e sua família quando eles são perseguidos, aterrorizados e assombrados por um lobisomem mortal à noite durante a lua cheia. Mas conforme a noite avança, o homem começa a se comportar de forma estranha.

Lobisomem (Wolf Man, no original) é o novo filme dirigido por Leigh Whannell, que fez o bom Homem Invisível em 2020 (lembro que foi um dos últimos filmes que vi antes da pandemia!), e que, nem todos lembram, mas é parceiro de longa data de James Wan – Whannell escreveu o roteiro do primeiro Sobrenatural era um dos roteiristas do primeiro Jogos Mortais, além de estar no elenco principal.

Ouvi rumores de que anos atrás este filme estaria atrelado àquele projeto que deu errado de criar um “monsterverse” usando monstros clássicos da Universal, que teve o filme A Múmia, com o Tom Cruise, e depois desistiram da ideia por causa do flop. Os rumores falavam que Ryan Gosling estaria interessado em protagonizar este filme, e que a direção seria de Derek Cianfrance, que dirigiu Gosling em Namorados Para Sempre (2010) e O Lugar Onde Tudo Termina (2012). Cianfrance se desligou do projeto, e Gosling acabou virando produtor, então Whannell teria assumido a direção. Mas, infelizmente não consegui fontes seguras pra confirmar estes rumores.

Vamos ao filme. Lobisomem não se propõe a ser um grande filme. Poucos personagens, poucas locações, quase toda a trama se passa ao longo de uma única noite. Entrando no cinema com este espírito, o espectador pode se divertir.

James Wan não está presente aqui (achei que ia ler seu nome entre os produtores). Mas vemos que Whannell aprendeu algumas coisas com o amigo. Em alguns momentos a câmera sai do eixo e passeia por caminhos fora do óbvio, como quando acontece o acidente e o caminhão fica de lado, e a câmera mostra isso num travelling “sem chão”. Digo mais: uma coisa bem legal aqui – talvez o melhor do filme – é quando o filme mostra, em alguns momentos, o ponto de vista do monstro. O jeito como o filme abordou isso foi bem legal, a câmera gira e muda toda o som, a iluminação, muda tudo no visual. Inclusive explica por que o monstro não consegue se comunicar. E também preciso dizer que gostei do efeito simples de mostrar a respiração da criatura quando não podemos vê-la.

A maquiagem não segue o tradicional de outros filmes de lobisomem que estamos acostumados. Talvez tenha gente reclamando, mas heu gostei porque não é cgi. Gosto de efeitos práticos! A trilha sonora de Benjamin Wallfisch também é muito boa. Por outro lado, achei o filme muito escuro. No cinema ainda vai, mas em breve este filme estará no streaming, vai ser difícil de acompanhar.

Existe outro problema, mas não é do filme em si. É que a gente lembra que Whannell fez O Homem Invisível, que trazia camadas com diferentes interpretações – era ao mesmo tempo um filme de terror e um filme que abordava relacionamentos abusivos. E a segunda leitura proposta por Lobisomem é de uma doença se espalhando (o filme foi pensado na época da pandemia). Ou seja, quem for procurar subtextos vai se decepcionar. Lobisomem é apenas um simples filme de terror.

No elenco, quase o filme todo se baseia na família composta por Christopher Abbott, Julia Garner e Matilda Firth. Nenhuma grande atuação, mas servem para o que filme pede.

Por fim, um mimimi. O nome brasileiro do filme é “Lobisomem”, mas acho que foi um nome mal traduzido. A criatura do filme é diferente dos lobisomens que conhecemos. Talvez esteja mais próxima do wendigo, figura folclórica que veio dos índios norte americanos. Afinal, lobisomens voltam à forma humana durante o dia! Acho que seria melhor chamar de “Homem Lobo”, tradução literal.

Maria Callas

Crítica – Maria Callas

Sinopse (imdb): Maria Callas, a maior cantora de ópera do mundo, vive os últimos dias de sua vida na Paris dos anos 1970, enquanto se confronta com a sua identidade e vida.

Terceiro filme da trilogia “Lady with Heels”, do diretor chileno Pablo Larraín. Em 2016 ele fez Jackie, com Natalie Portman interpretando Jacqueline Kennedy; em 2021 fez Spencer, com Kristen Stewart interpretando a Lady Di. Agora é a vez de vermos Angelina Jolie fazendo Maria Callas.

Maria Callas (Maria, no original – não sei por que o título nacional não seguiu o padrão dos outros dois filmes de deixar apenas um nome) é um filme bonito, uma produção bem cuidada, com uma reconstituição de época perfeita, figurinos exuberantes, além de ter uma grande atuação da Angelina Jolie. Mas…

Tive dois problemas com este filme. Em primeiro lugar, preciso falar que não gosto de ópera. Respeito, reconheço qualidades, mas acho feio. Sim, o som me incomoda. Prefiro ouvir theremin do que ouvir alguém cantando ópera.

Some a isso o fato da Maria Callas ser uma pessoa insuportável, e temos um filme que, pra mim, foi difícil chegar ao fim. Não conhecia nada da vida da Maria Callas, só sabia que tinha sido uma grande cantora, um dos maiores nomes da história da ópera. Mas não sabia que ela era tão “estrela” no mau sentido – chega a ter uma cena onde ela verbaliza que quer ir a um restaurante e ficar visível para ser bajulada por fãs. Passa a impressão de ser uma mulher rica, fútil e vazia, que se sente superior a todos em volta. Isso fica claro no modo como ela  trata seus dois funcionários. Já vi em outros filmes escravos sendo mais bem tratados.

O roteiro ainda tem um problema. Na verdade não é uma falha do filme, é uma opção escolhida pelo roteirista, mas acho que o filme ganharia pontos se não pegasse este caminho. Durante boa parte do filme, Maria Callas está sendo entrevistada. E o filme joga com a ideia de “será que este entrevistador é real, ou será que é imaginação da personagem?”. Mas, no início do filme, ela toma um remédio chamado Mandrax, e logo na cena seguinte o apresentador aparece e se apresenta como “Mandrax”. Ou seja, o filme já explicita logo de cara que aquele personagem não é real. Na minha humilde opinião, Maria Callas seria um filme melhor se guardasse essa revelação para o final.

Se o roteiro traz esse problema de “plot twist revelado”, pelo menos posso dizer que gostei da  estrutura dos flashbacks. Não só pela parte técnica, que altera texturas de imagem, alternando cor e pb e diferentes formatos de tela; como pela narrativa, que usa os flashbacks pra mostrar Maria Callas no seu auge.

No elenco, Angelina Jolie está realmente muito bem (mas ainda achei que Fernanda Torres está melhor). A personagem é insuportável, mas a atriz está bem – apesar de algumas cenas onde ela falha no “lip sinc” da dublagem. Também no elenco, Pierfrancesco Favino, Alba Rohrwacher, Kodi Smit-McPhee, Haluk Bilginer, e Valeria Golino (em apenas uma cena, interpretando a irmã da protagonista).

Sobre a voz, fiquei vendo os créditos. Aparentemente todas as músicas são cantadas pela Maria Callas, Angelina Jolie só dublou. Mas, li no imdb que Angelina queria cantar por conta própria, então teve sete meses de aulas de ópera para se preparar para seu papel, e que na parte final, a voz seria a da atriz. Só não sei se acredito nisso. Se Angelina cantou, por que não está creditada?

Maria Callas estreia esta semana nos cinemas.

Babygirl

Crítica – Babygirl

Sinopse (imdb): Uma executiva poderosa coloca a carreira e família em risco quando começa um caso tórrido com seu estagiário muito mais jovem.

Novo filme da diretora Halina Reijn (Morte Morte Morte), Babygirl (idem no original) está sendo vendido como um thriller erótico, mas neste aspecto o filme é fraco. Mesmo assim, o filme me deixou pensando, me deixou com reflexões sobre relacionamentos.

Primeiro vamos comentar o filme. Nicole Kidman faz Romy, uma mulher bem sucedida profissionalmente, com um bom casamento, filhos, tem um bom padrão social. Mas, sexualmente falando, é uma mulher infeliz. Até que ela conhece um estagiário na sua empresa e começa com ele um jogo sexual onde o importante não é o sexo em si, e sim o jogo de poder, de saber “quem é o dono da bola”. Romy é uma CEO que tem o controle sobre tudo em volta – e se ela fosse controlada em vez de controlar?

Claro que a divulgação do filme explorou o lado sexual, como se estivéssemos diante de um novo 9 1/2 Semanas de Amor ou Atração Fatal. Pipocaram matérias dizendo que Nicole Kidman estaria cansada de “filmar cenas de orgasmos”. Mas até que o filme é bem comportado neste aspecto. Aliás, quase não tem nudez. O início promete ir por este caminho, mas o resultado final deixa a desejar.

Um dos maiores destaques é o elenco. Gostei das atuações do trio principal. Nicole Kidman está excelente, em cenas difíceis, não à toa ela ganhou prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza e está sendo ventilada como uma provável indicada ao Oscar. Antonio Banderas e Harris Dickinson também estão bem.

Babygirl também tem suas “roteirices”, como o amante aparecer no local onde a protagonista estava reclusa – como ele descobriu que ela estava lá? Mesmo assim, o resultado final é bom. É um filme bonito e bem filmado, e reconheço que a cena usando Father Figure, do George Michael, é muito boa.

Agora, queria comentar o comportamento social. Babygirl, enquanto filme, achei apenas ok. Mas o conceito abordado me deixou pensando por vários dias. Logo na cena inicial, vemos Romy transando com seu marido. Aparentemente ela tem uma vida sexual saudável. Mas logo na cena seguinte vemos que ela, sozinha, vê vídeos eróticos para se masturbar.

Por um lado Romy tem uma vida feliz, ao lado do marido; mas por outro lado ela tem necessidades sexuais que não são saciadas pelo mesmo marido. E pra piorar: determinado momento ela confessa que nunca teve um orgasmo com ele, apesar de estarem juntos há 19 anos. E mesmo assim ele não consegue embarcar nas fantasias da sua esposa. Ou seja, ela está errada pela dificuldade em declarar seus fetiches ao marido, e ele está errado por não entrar nos jogos sexuais propostos por sua esposa.

Aí fiquei pensando neste formato de sociedade onde vivemos. Jovens se conhecem, ficam juntos e constituem famílias – antes de se conhecerem plenamente para saberem o que querem do(a) companheiro(a). Quando o casal dá sorte, ok, podem ser felizes pelo resto da vida. Mas, imagina quanta gente deve estar insatisfeita por aí, sexualmente falando.

Infelizmente somos vítimas do formato usado pela sociedade, dificilmente essas regras e convenções sociais vão mudar. Para você que me lê, torço para você encontrar alguém que lhe satisfaça do jeito que você merece. E recomendo: sempre conversem!

Jurado Nº2

Crítica – Jurado Nº 2

Sinopse (imdb): Enquanto atua como jurado em um julgamento por assassinato, um homem se vê em um dilema moral, podendo influenciar o veredito do júri.

Uma coisa que acho muito legal é quando vejo pessoas idosas trabalhando no que gostam, por prazer. Sim, sei que tem muita gente com condições financeiras precárias, que precisa continuar trabalhando, mas alguns trabalham porque gostam do que fazem. Lembro do show do Deep Purple, ano passado, no Rock in Rio. Quatro membros da banda com mais de 75 anos!

Aí a gente vê que chegou no streaming o novo filme dirigido por Clint Eastwood – que está com 94 anos! Quando crescer, quero ser que nem esses caras!

(Antes de entrar no filme, uma coisa que descobri pesquisando sobre o que ia falar aqui: Clint Eastwood tem fama de ser um diretor muito responsável com prazos e orçamentos. Seus filmes sempre custam menos do que o estimado e sempre são entregues antes do prazo. Legal!)

E vamos ao filme. Vi Jurado Nº 2 (Juror # 2, no original) no finzinho do ano passado, lembro que alguns amigos colocaram o filme em suas listas de melhores do ano, queria ver logo pra ver se ia mudar o meu top 10. Reconheço todos os méritos de Jurado Nº 2, é um filmão, mas não mudou minha lista.

A ideia é muito boa. Um cara é convocado pra fazer parte de um júri. Durante o julgamento, ele descobre que pode ter um envolvimento pessoal com o caso. Aí entra o dilema moral: será que ele deve assumir a sua responsabilidade, ou é melhor deixa outra pessoa pagar por um erro seu?

(Nunca entendi esse sistema que acontece nos EUA onde pessoas são convocadas pra participarem de um júri. O que acontece se a pessoa não pode? Se tem um trabalho que não a deixa sair? Se tem algum problema de saúde? Acho que isso não funcionaria no Brasil…)

Um dos destaques de Jurado Nº 2 é o roteiro, que consegue explorar bem vários tons de cinza no meio do julgamento, e consegue equilibrar um elenco com vários bons personagens. Ok, não tem como aprofundar todos os personagens em um filme de uma hora e cinquenta e quatro minutos, são uns vinte personagens participando da trama. Mas conseguimos ver nuances de vários deles.

Outro destaque é o elenco. Nicholas Hoult (segundo filme que comento este ano, segundo filme com o Nicholas Hoult) está excelente com seus dilemas – ele tem uma esposa em gravidez de risco, ele tem um histórico de alcoolismo, e está vendo um homem que pode ser inocente ser condenado. E Toni Collette, como a promotora, também tem seus dilemas, porque está vendo que talvez precise prejudicar terceiros por motivos pessoais. Duas grandes atuações! E ainda tem outros dois grandes atores em papéis bem menores, J.K. Simmons e Kiefer Sutherland. Papéis importantes, mas com pouco tempo de tela. Também no elenco, Zoey Deutch, Chris Messina e Leslie Bibb. Ah, a vítima do assassinato é Francesca Eastwood, filha do Clint.

Jurado Nº 2 foi muito mal lançado. Um filme desses merecia ir pros cinemas. Mas foi direto pro streaming, e sem nenhuma divulgação. Nosso diretor nonagenário merecia um tratamento melhor!

Nosferatu (2024)

Crítica – Nosferatu

Sinopse (imdb): Um conto gótico de obsessão entre uma jovem assombrada na Alemanha do século XIX e o antigo vampiro da Transilvânia que a persegue, trazendo consigo um horror incalculável.

Comecemos pelo original, de mais de 100 anos atrás. Em 1922, F.W. Murnau resolveu fazer uma adaptação do livro Drácula, de Bram Stoker. Alterou os nomes dos personagens, alterou o país onde se passa a história, alterou quais são os dentes do vampiro (incisivos em vez de caninos). O resto é exatamente igual. Exatamente a mesma história. A viúva de Bram Stoker descobriu o plágio, entrou com um processo, e pediu para que todas as cópias fossem destruídas. Por sorte, alguns colecionadores e cinematecas guardaram cópias, se não hoje não teríamos essa obra icônica.

Heu nunca tinha visto este Nosferatu de 1922. Vi agora, e entendo todos os méritos, mas preciso admitir que não gosto muito do estilo usado na época. Como era cinema mudo, todas as atuações parecem exageradas, isso me incomoda um pouco. Mas reconheço a importância do filme.

(Existe outra versão de Nosferatu, de 1979, dirigida por Werner Herzog e estrelada por Isabelle Adjani e Klaus Kinski. Vi muitos anos atrás, me lembro de pouca coisa desta versão.)

Finalmente chegamos em 2024 (apesar de já estarmos em 2025). Gosto do estilo do Robert Eggers, gostei de A Bruxa, e gostei mais ainda de O Homem do Norte – apesar de não ter gostado nem um pouco de O Farol, achei chato e pretensioso. Mas estava curioso em ver como Eggers ia apresentar sua versão de Nosferatu.

A história todo mundo conhece: o jovem corretor de imóveis Hutter vai até a Transilvânia para fechar um contrato de venda de um imóvel para o misterioso conde Orlok, que vai até a Alemanha atrás da esposa de Hutter.

Se a história é batida, o visual não é. Goste ou não do estilo de Robert Eggers, seus filmes são sempre belíssimos, com várias sequências com visual deslumbrante. E isso acontece aqui, Nosferatu enche os olhos. A trilha sonora também é muito boa. Além disso, todo o figurino e reconstituição de época são perfeitos.

Um parágrafo à parte pra falar da maquiagem. Bill Skarsgård está irreconhecível. A divulgação do filme fez bem em não explorar o visual deste novo Nosferatu, porque quando ele aparece, está assustador, tanto na aparência quanto na voz – ele treinou a voz por semanas pra baixar uma oitava do seu registro natural para seu personagem ter a voz o mais grave possível.

O vampiro de Bill Skarsgård é assustador, e o clima do filme segue a mesma linha. Nosferatu ainda tem alguns jump scares bem bolados (daqueles que a gente não adivinha quando vão chegar). Mas o mais importante aqui não são os jump scares, e sim o clima tenso de terror. Sim, Robert Eggers sabe trabalhar o clima como poucos no cinema contemporâneo.

(Achei estranho o personagem ter bigode. Deve ser porque Vlad Tepes também tinha.)

Bill Skarsgård não é o único destaque do elenco. Lily-Rose Depp também está excelente (parece que o papel seria da Anya Taylor-Joy, mas ela teve que passar adiante por problemas de conflito de agenda quando foi fazer Furiosa). Também no elenco, Nicholas Hoult, Willem Dafoe, Aaron Taylor-Johnson, Emma Corrin e Ralph Ineson.

Gostei muito deste novo Nosferatu, mas reconheço que não é um filme para qualquer um. Aliás, todo o cinema de Eggers tem essa característica, seus filmes são o oposto do pop. Provavelmente vai ter parte do público saindo insatisfeita do cinema. Mesmo assim, recomendo: filmão!

Por fim, um mimimi que não é um problema deste filme, porque na verdade estava na versão de 1922. Na história original do Bram Stoker, Drácula vai de navio até a Inglaterra. É longe, sair da Transilvânia e ir até a Inglaterra, mas tem lógica se a gente pensar que a Inglaterra é uma ilha, então teria alguma lógica ir pelo mar. Na versão “pirata”, a história se passa na Alemanha, e mesmo assim, Orlok vai de navio. Não entendo muito de geografia europeia, mas a Alemanha só tem acesso ao mar pelo norte. O navio nesta versão teve que dar uma volta enorme! Não vejo lógica em ele ir de navio da Romênia até a Alemanha. Fui o único que pensei nisso?