Natal Sangrento

Crítica – Natal Sangrento

Sinopse (imdb): Um menino testemunha o assassinato de seus pais por um homem disfarçado de Papai Noel. Anos depois, já adulto, ele veste uma fantasia de Papai Noel e embarca em uma violenta busca por vingança contra os responsáveis.

O público de terror não é muito exigente. Isso explica a grande quantidade de filmes de terror genéricos despejados no circuito. O genérico da vez é esse Natal Sangrento (Silent Night Deadly Night, no original), refilmagem de um terror genérico homônimo de 1984 (que teve algumas continuações, e uma refilmagem em 2012).

(Aliás, tudo é tão genérico que existe outro filme, de 2019, que também ganhou o mesmo nome “Natal Sangrento”…)

Dirigido pelo pouco conhecido Mike P. Nelson, Natal Sangrento usa como marketing ser “do mesmo estúdio de Terrifier“, o que a gente sabe que não significa nada. Principalmente porque, segundo o imdb, são oito produtoras, e só uma delas, a Screambox, também estava em Terrifier.

O filme traz Billy, um homem que viaja para cidades onde ninguém o conhece para cometer assassinatos. E ele tem uma voz interna que passa metade do filme discutindo com ele. Sim, impossível não lembrar de Venom, que também tem um protagonista que conversa o tempo todo com uma voz interna.

Agora, nos anos 80 era mais fácil aceitar uma trama dessas, onde um viajante solitário anda de cidade em cidade matando pessoas aleatórias. Hoje em dia, com câmeras de segurança, com reconhecimento facial, com DNA, a tarefa de Billy ia ser bem mais difícil.

(Fui pesquisar, segundo o Google, a partir de 1986 começaram a usar DNA em investigações criminais. Ou seja, o primeiro filme é antes disso.)

O filme é bastante inverossímil, mas até tem algumas boas cenas. A cena do carro, como o protagonista ainda criança, é boa. E tem uma divertida e absurda sequência contra nazistas – absurda porque é um cara sozinho e desarmado contra dezenas de oponentes.

A trama traz alguns pontos mal explorados, como o livro que o protagonista carrega, mas isso me pareceu proposital, pra deixar assunto para prováveis continuações.

Mas, como falei no início, tudo é genérico demais. Podia ter mais gore (já que se vende junto com Terrifier), mas até nisso o filme pega leve. Vai divertir os menos exigentes e só.

Five Nights At Freddy’s 2

Crítica – Five Nights At Freddy’s 2

Sinopse (imdb): Um ano após o pesadelo sobrenatural na Freddy Fazbear’s Pizza, Abby foge para se reconectar com seus amigos animatrônicos, revelando segredos obscuros sobre a verdadeira origem da Freddy’s e libertando um horror escondido há décadas.

Lançado em 2023, o primeiro Five Nights At Freddy’s não foi bom. Mas teve uma boa bilheteria – custou 20 milhões e rendeu 291 milhões. Além disso, é um filme baseado na franquia de jogos Five Nights At Freddy’s (ou FNAF). Então uma continuação não é surpresa. Pena que o segundo filme é tão fraco quanto o primeiro.

Mais uma vez dirigido por Emma Tammi (mesma diretora do primeiro filme), Five Nights At Freddy’s 2 traz os personagens do filme anterior lidando com os robôs animatrônicos, além de um novo fantasma. Mas o problema é que o roteiro é muito ruim. Ruim do nível de aparecer um novo personagem com o mesmo nome do protagonista – sim, tem dois Mikes no filme.

Dava tranquilamente pra fazer um vídeo “10 furos de roteiro em Five Nights At Freddy’s 2“, mas pra isso heu teria que rever o filme, e não pretendo fazer isso tão cedo. Mas vou trazer dois grandes erros aqui pra dar um exemplo. Um deles é que os robôs fazem muito barulho quando estão andando. Mas quando o personagem não está vendo, os passos são completamente silenciosos! Galera, ou o bicho faz barulho quando anda, ou não. Não dá pra ser os dois.

Outro erro é num momento onde robôs são acionados remotamente, e, do nada, aparece um robô em cima do carro. Em cima do carro, em movimento! E o pior é que esse erro dava pra ser consertado numa revisão de roteiro. O carro não é da personagem, ela pegou o carro que estava lá. Era só ter um enfeite em cima do carro…

Five Nights At Freddy’s 2 é cheio de jumpscares ruins. Todos são baseados em som alto, nenhum tem uma construção de roteiro. Jumpscare de barulho só assusta quem não está prestando atenção no filme. Agora, assustar o filme não assusta. E como é direcionado ao público adolescente, não tem nenhuma cena violenta. Todas as mortes acontecem fora da tela.

Sobre os animatrônicos, trago o mesmo elogio e a mesma crítica do filme anterior. O elogio é que são bonecos reais, em vez de cgi – mais uma vez chamaram a empresa do Jim Henson, criador dos Muppets. Muito melhor ter bonecos reais do que algo feito por computador. Agora, o problema é que são bonecos que não assustam ninguém. Repito o que escrevi dois anos atrás: “O filme parte do princípio de que as pessoas têm medo dos robôs, mas, você precisa fazer alguma coisa com esse robô pra ele virar assustador. É que nem um palhaço. Um palhaço não é assustador, mas pode virar assustador dependendo de como você apresentá-lo.

No elenco, os três principais, Josh Hutcherson, Piper Rubio e Elizabeth Lail repetem os personagens sem carisma e sem graça do primeiro filme. Matthew Lillard aparece em algumas cenas de sonho (lembrei de outro furo de roteiro, a personagem diz “não tenho medo de você” – e logo depois foge, com medo). Wayne Knight faz um alívio cômico sem graça (como sempre faz), e que destoa completamente do resto do filme. Além disso, tem duas participações que heu queria destacar. Skeet Ulrich (que estava em Pânico com Matthew Lillard), aparece em uma única cena, mas está tão diferente que nem reconheci. E Mckenna Grace, jovem com grande currículo no terror, é desperdiçada em apenas duas sequências.

Como falei, FNAF tem seu público. E Five Nights At Freddy’s 2 termina com gancho pro terceiro, além de uma cena pós créditos só pra fãs. Ou seja, teremos mais FNAFs…

Pluribus

Pluribus

Sinopse (imdb): Em um mundo onde a felicidade domina, uma mulher amarga e pessimista se torna a última esperança para restaurar o equilíbrio emocional da humanidade.

Heu ia falar de um filme em cartaz, como faço quase sempre aqui. Mas estou meio obcecado pela série Pluribus. Então resolvi hoje comentar alguns pensamentos ligados à série.

A primeira temporada de Pluribus terá nove episódios. Já saíram os seis primeiros. O ideal seria aguardar a temporada acabar pra falar de tudo, mas tenho dois motivos pra comentar logo. Um deles é porque deve acabar no Natal, e fim de ano devo estar preso nas minhas listas de melhores e piores do ano. Mas o principal motivo é que esse formato de série misteriosa muitas vezes não conclui nada e termina a temporada com um gancho pra novos mistérios. E, sinceramente, estou meio de saco cheio desse formato. Ou seja, grandes chances do final de temporada ser decepcionante. Então é melhor falar logo. Mas, dependendo do final, posso fazer outro vídeo no início de 2026 comentando a temporada completa.

Sobre spoilers: só vou falar da premissa básica da série. Não trarei altos spoilers sobre a trama, porque na verdade o que me fascina são detalhes sobre o conceito apresentado pela série, não exatamente sobre o desenrolar da trama.

Digo mais: não vou entrar em teorias. Deve ter um monte de teorias pela internet tentando explicar o mistério da série. Mas não li nenhuma, e na verdade nem quero ler. Prefiro aguardar o que cada episódio me apresentar.

Vamos à série. Spoilers leves sobre o argumento.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Pluribus é a nova série de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad e Better Call Saul, e mostra um mundo onde um vírus alienígena “assimila” quase toda a população. Mais ou menos como nos clássicos de ficção científica da época da Guerra Fria, tipo Invasores de Corpos, todos perdem a personalidade. Mas em vez de ficarem apáticos, todos passam a ser amistosos e gentis. E todos compartilham o mesmo conhecimento – o que um sabe, todos sabem. Quase toda a população – porque doze pessoas espalhadas pelo planeta estão imunes ao vírus. Mas os “assimilados” tratam muito bem essas doze pessoas, realizando quaisquer desejos. Carol, a rabugenta e mal humorada protagonista, desconfia do que está por trás dos simpáticos humanos contaminados.

(Pra quem estiver curioso, “Pluribus” é uma palavra em latim que significa “para muitos”.)

Sim, a série se baseia num grande mistério: qual é o real objetivo dos alienígenas que mandaram o vírus? O que vai acontecer com a raça humana? E é por isso meu grande pé atrás com a série. Como falei, tem toda a cara do nono episódio terminar com um grande gancho e sem explicar nada…

Mas não estou me ligando na solução do mistério. Pluribus me conquistou porque me fez pensar em dois aspectos conceituais. São ideias lançadas pela série que passam boa parte do dia “morando na minha cabeça”.

A primeira ideia é sobre a consciência coletiva, ou, em inglês, “hive consciousness” (consciência de colmeia). Trata-se de um conceito de inteligência compartilhada onde os indivíduos atuam como partes de um todo unificado, inspirando-se em insetos sociais como abelhas e formigas. Lembro de um filme de Star Trek, acho que foi em 1996, que falou sobre essa ideia, citando que os Borgs seriam assim. Mas não me lembro de Star Trek ter desenvolvido direito esse conceito. E desde aquele filme sempre pensei que um grupo antagonista assim seria quase impossível de se combater – se um indivíduo descobre uma fraqueza sua, automaticamente todos os outros também sabem sobre essa fraqueza. E desde aquele filme estava aguardando alguma obra audiovisual usando isso. Não me lembro de nenhum filme ou série que soube explorar direito esse conceito – até agora.

A outra ideia que pulula na minha cabeça é a que cada um dos doze “não assimilados” tem poderes quase ilimitados. Porque os assimilados se esforçam para fazer de tudo para agradar cada um deles. Imagina se você é um desses doze? Sua vida não vai nunca mais ser como era antes. Pra começar, você não precisa trabalhar ou estudar, afinal, tudo o que você desejar estará à sua disposição. Você pode morar onde quiser, sem precisar pagar. Escolha qualquer comida que você queira, vão lhe trazer. Quer viajar pra qualquer lugar do mundo? Só escolher o destino. (No meu caso, não ia mais fazer vídeos pra cá pro youtube, porque não ia ter gente assistindo. Aliás, não teríamos novos filmes…)

Seria uma vida de multimilionário, num planeta sem guerras e sem violência. Mas, com um agravante: todos os seus amigos e familiares viraram “robôs felizes”. Nunca mais você terá uma companhia genuína de uma pessoa genuína.

(Imagine os prós e contras: você pode namorar uma famosa estrela de Hollywood ou uma grande supermodelo. Mas seus filhos e seus pais saberão exatamente o que você está fazendo…)

Voltando à série, claro que quero saber a conclusão do mistério. Mas só esses pensamentos sobre o conceito da série já valeram pra mim. Gostei muito, se tivesse um top 10 de séries aqui no heuvi, Pluribus certamente entraria nos primeiros lugares.

Morra, Amor

Crítica – Morra, Amor

Sinopse (imdb): Em uma área rural remota e esquecida, uma mãe luta para manter sua sanidade enquanto luta contra a psicose.

Em 2017, comentei no heuvi sobre o filme Você Nunca Esteve Realmente Aqui, dirigido pela Lynne Ramsey. Escrevi que o filme “mostra um bom trabalho do ator Joaquin Phoenix num filme que não é grandes coisas. Oito anos depois, novo filme dirigido pela Lynne Ramsey, Morra Amor, posso dizer que “mostra um bom trabalho da atriz Jennifer Lawrence num filme que não é grandes coisas”.

Novo filme escrito e dirigido por Lynne Ramsey (mais conhecida por Precisamos Falar Sobre o Kevin), Morra Amor (Die My Love, no original) segue por esse caminho. Uma grande atuação da Jennifer Lawrence, que deve ser indicada pra prêmios; uma boa atuação do Robert Pattinson, mas num roteiro fraco, cheio de simbolismos vazios. Resumindo, um filme bem chato.

Ao fim da sessão, achei que o filme falava de uma pessoa desequilibrada. Mas depois li que na verdade é sobre depressão pós parto. No filme, acompanhamos Grace, que de vez em quando tem uns surtos. Claro, prato cheio para a Jennifer Lawrence se soltar.

(Em alguns momentos, aparece um motociclista misterioso, personagem do Lakeith Stanfield. Um dos poucos elogios que consigo fazer ao filme é o lance de não deixar claro se é um personagem real ou fruto da imaginação de Grace. Na minha interpretação, ele não existe, afinal ele não interage com mais ninguém no elenco.)

Mas tudo é muito arrastado, muito chato, cenas se repetem – perdi a conta de quantas vezes a Jennifer Lawrence engatinha pelo cenário… Além disso, tenho quase certeza que existe um erro na edição, porque Grace aparece grávida depois do filho nascer. Heu precisaria rever pra ter certeza, mas tive a impressão de ter visto esse erro quase amador.

Enfim, só se salva o elenco. Além dos três citados, Morra, Amor ainda tem Sissy Spacek e Nick Nolte. Pode até valer um Oscar, mas, como cinema, deixa a desejar.

Zootopia 2

Crítica – Zootopia 2

Sinopse (imdb): A corajosa coelha policial Judy Hopps e seu amigo, a raposa Nick Wilde, unem-se novamente para solucionar um novo caso, o mais perigoso e intrincado de suas carreiras.

Nove anos depois do primeiro Zootopia, aparece a continuação. Se a gente lembrar que aquele filme ganhou o Oscar de melhor animação e que passou de um bilhão de dólares na bilheteria, até que a continuação demorou…

A história aqui é bem parecida. Se no primeiro filme existe um atrito entre presas e predadores, aqui o atrito é entre mamíferos e répteis. Novamente acompanhamos a dupla de policiais formada pela coelha Judy e a raposa macho Nick, desta vez investigando uma possível existência de cobras – animais que não são vistos há tempos no universo do filme.

Um dos grandes méritos aqui está na boa dinâmica entre os dois personagens principais. Zootopia 2 explora bem o clichê “buddy cop”, aquele onde uma dupla precisa superar suas diferenças pra trabalharem juntos. Judy e Nick são personagens muito bons, e funcionam perfeitamente juntos.

Além de protagonistas carismáticos, Zootopia 2 tem alguns coadjuvantes muito bons. Além disso, tem um bom ritmo e algumas boas cenas de ação. E não sei se dá pra chamar de comédia, mas tem algumas cenas bem engraçadas. Enfim, é um filme bem equilibrado, num pacote que vai agradar a maioria.

A parte técnica também é impressionante. Não que isso seja exatamente uma surpresa, claro que a gente esperaria isso do “novo longa da Disney”. Mas mesmo assim os gráficos enchem os olhos. Em algumas cenas vemos o vento batendo nos pelos dos personagens, e temos a impressão de que cada pelo balança independente dos outros.

A empolgante trilha sonora do Michael Giacchino também é muito boa. Agora, tem um número musical da Shakira, que interpreta a Gazelle (que também estava no primeiro filme), número que provavelmente foi incluído pra tentar um Oscar de melhor canção. E não que a música seja ruim, mas… Fui o único que achou a música exatamente igual à música da Shakira na Copa do Mundo?

Uma coisa que gosto muito é de referências a outros filmes, e Zootopia 2 tem algumas. Foi uma boa sacada usar uma ovelha na citação ao Silêncio dos Inocentes (afinal o título original é The Silence of the Lambs, ou “O Silêncio das Ovelhas”), e ri alto no “momento O Iluminado“. Tem outra muito boa, rapidinha, citando um longa da Pixar, mas não vou dizer qual.

Zootopia 2 é bem divertido mas a gente precisa reconhecer que é um “prato requentado”, quase tudo aqui é repetição do que vimos no primeiro Zootopia. Agora, lembrando que o outro filme passou quase 10 anos atrás, acredito que muita gente nem vai lembrar. E ainda tem toda uma nova geração que vai conhecer primeiro o segundo filme.

O elenco original tem alguns bons nomes, mas a sessão de imprensa foi dublada, então não posso comentar sobre os atores escolhidos. Mas, deu pena de não ter ouvido a voz do Danny Trejo fazendo o lagarto Jesus…

No finzinho dos créditos tem uma cena com gancho pra Zootopia 3 – e segundo essa cena, grandes chances de repetirmos a mesma trama no próximo filme. Aguardemos.

Sombras no Deserto

Crítica – Sombras no Deserto

Sinopse (imdb): O filho, conhecido apenas como “O Menino”, é levado a duvidar por outra criança misteriosa e se rebela contra o seu guardião, o Carpinteiro, revelando poderes inatos e um destino além de sua compreensão.

Taí, um filme de terror com Jesus Cristo adolescente pode ser uma boa ideia.

Fui católico, mas não sou um grande entendedor de assuntos bíblicos. Mas sei que, oficialmente, a Bíblia fala do nascimento de Jesus e depois só fala dele depois dos 30 anos de idade. Teoricamente, tudo o que ele fez foi dos 30 aos 33. Fico imaginando uma história de ficção com Jesus aos 25 anos, trabalhando como carpinteiro como seu pai. Será que naquela época as pessoas se casavam cedo? Imagina se Jesus casou e teve filhos antes de descobrir sua vocação? Imagina uma história com um filho de Jesus sofrendo porque ficou órfão?

(Acho que se alguém escrevesse uma história dessas, mesmo dizendo que é ficção, seria cancelado…)

Em Sombras no Deserto (The Carpenter’s Son, no original), acompanhamos um casal com um filho recém nascido, que foge porque estão matando bebês. Anos se passam, o garoto agora é adolescente, quase adulto, e começa a descobrir que tem poderes milagrosos, quando acidentalmente cura um leproso.

Escrito e dirigido por Lotfy Nathan, Sombras no Deserto teoricamente é baseado no evangelho apócrifo de Tomé – um texto não oficial da Bíblia que conta sobre milagres realizados por Jesus ainda criança. Não entendo de evangelhos apócrifos, mas li no imdb que a trama aqui não tem muito a ver com o texto bíblico…

Mas, sabe qual é o problema? Tudo é muito raso. Sombras no Deserto falha em propor uma boa trama usando questionamentos em cima dos dogmas da igreja católica. E também falha em criar um clima de terror, não existe nada assustador aqui. É só um filme arrastado – e chato.

Nem tudo é ruim. A ambientação em locações no Egito é boa. E gostei de como mostraram o diabo. Quando o garoto é tentado, aparece para ele como uma menina jovem – mas quando outras pessoas veem o mesmo diabo, enxergam outras coisas.

Li no imdb que Robert Eggers teria dito que seria um desafio trabalhar com Nicolas Cage. Cage então teria pedido ao seu agente para procurar um roteiro o mais próximo possível aos filmes de Eggers. Deve ter sido assim que Cage entrou no elenco. Mas, não é um “filme do Nicolas Cage”, não temos exageros de over acting comuns no atual momento da carreira do astro. Noah Jupe (Um Lugar Silencioso) faz “o garoto”, que a gente sabe que é Jesus, mas o filme não quer assumir. FKA Twigs (O Corvo) é a mãe, mas está bem apagada, é uma das Marias mais sem graça da história do cinema. Também no elenco, Isla Johnston, gostei dela como a versão do diabo que interage com Jesus.

Sombras no Deserto podia ser um novo A Última Tentação de Cristo, provocando os dogmas cristãos. Mas faltou talento. Será um filme esquecido em pouco tempo.

Cidade Oculta

Crítica – Cidade Oculta

Sinopse (imdb): Uma misteriosa dançarina de cabaré envolve-se com um bandido e acaba na mira de policiais corruptos. O universo marginal de uma metrópole fundindo elementos da cultura pop, do “film noir” e das histórias em quadrinhos.

E vamos dar continuidade à playlist de filmes ligados ao rock nacional dos anos 80. Hoje é dia de Cidade Oculta, de 1986, dirigido por Chico Botelho.

Cidade Oculta tem pelo menos duas grandes diferenças para os outros seis filmes que citei aqui. Uma delas é a ambientação em São Paulo. Não sou um grande entendedor de Embrafilme nos anos 80, mas os outros filmes da minha playlist têm mais cara de cariocas. Bete Balanço e Rádio Pirata se passam no Rio; não me lembro se Rock Estrela também, ou se é em uma cidade indeterminada. As Sete Vampiras se passa boa parte no Quitandinha, em Petrópolis, cidade serrana ao lado do Rio. Menino do Rio, bem é “do Rio”, né? E na continuação, Garota Dourada, os personagens viajam para o Sul, mas o filme começa e termina no Rio.

Cidade Oculta é assumidamente paulista. Inclusive, descobri que existe uma “trilogia da noite paulistana”, com Cidade Oculta (de 1986), A Dama do Cine Shangai e Anjos do Arrabalde (ambos de 1987). Vi A Dama do Cine Shangai há muito tempo e nem me lembro, e acho que não vi Anjos do Arrabalde. São três filmes de diretores diferentes, não sei qual é a semelhança entre eles pra formarem uma trilogia.

Se os filmes “cariocas” são mais diurnos, Cidade Oculta é mais noturno. Os realizadores paulistas usavam a expressão “neon-realismo” (o nome é um trocadilho com o movimento neorrealismo, do pós guerra). Os filmes que usavam o “neon-realismo” destacavam o neon e outros elementos visuais urbanos presentes na noite paulistana.

A outra diferença é no estilo musical. Os outros filmes que citei usam músicas de artistas que fizeram muito mais sucesso comercial, como Barão Vermelho, Leo Jaime, RPM, Metrô, Marina, Rádio Táxi, Ritchie, etc. Cidade Oculta traz a galera da vanguarda paulista, como Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola e Patife Band. A vanguarda paulista era bem conceituada entre a crítica e a galera alternativa, mas nunca foi sucesso de público (talvez só a Tetê Espíndola no Festival dos Festivais, em 1985, com Escrito nas Estrelas). Aposto como boa parte do público do heuvi não conhece esses nomes…

Em Cidade Oculta, conhecemos Anjo, que passou um tempo preso, e quando sai, ao reencontrar o parceiro, este agora é o líder da gangue. Anjo começa a se relacionar com Shirley Sombra, dançarina e cantora do clube SP Zero.

(A boate SP Zero nunca existiu, usaram como set de filmagens o Madame Satã, um dos points culturais mais badalados de São Paulo na década de 1980. Muitas bandas fizeram seus primeiros shows lá, como Titãs, Ira!, RPM, entre outras. A boate foi inaugurada em 1983, fechou em 2009 e reabriu em 2012.)

O clima do filme lembra o cinema noir, com personagens marginais e mulheres fatais. Também tem um que de história em quadrinhos – um dos roteiristas é Luiz Gê, que no mesmo ano de 86 trabalhou como editor da revista Circo, na qual trabalhou com Laerte, Angeli e Glauco.

Os outros roteiristas foram o diretor Chico Botelho e o protagonista Arrigo Barnabé. Foi o segundo e último longa dirigido por Chico Botelho, que faleceu em 1991, com apenas 43 anos de idade.

No elenco, Arrigo Barnabé está bem como o protagonista – curiosamente, ele é o autor da trilha sonora, mas seu personagem não tem nenhum número musical. Carla Camurati também está muito bem como Shirley Sombra. Jô Soares faz uma participação especial em uma única cena. Também no elenco, Cláudio Mamberti e Celso Saiki.

Lembro de ter visto Cidade Oculta no Rio Cine Festival, de 1986, em uma sessão no antigo Ricamar (onde hoje é a Sala Baden Powell). O filme ganhou cinco prêmios neste festival: melhor filme, diretor, fotografia, música original e ator coadjuvante (Cláudio Mamberti).

Cidade Oculta está disponível completo no youtube, inclusive com a cena de nudez e sexo do casal principal…

Bugonia

Crítica – Bugonia

Sinopse (filmeb): Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena que tem a intenção de destruir o planeta Terra.

Pobres Criaturas foi um filme marcante em vários aspectos: um visual exuberante, uma temática delicada e polêmica, e uma atuação inspiradíssima da Emma Stone. Claro que o diretor Yorgos Lanthimos entrou no radar da maioria dos cinéfilos. Pouco depois de Pobres Criaturas, chegou no circuito Tipos de Gentileza, que heu gostei, mas é um filme claramente “menor” e muita gente não curtiu. Aí a expectativa foi transferida para o seu filme seguinte, este Bugonia.

Quando heu soube que Bugonia era refilmagem de uma ficção científica coreana que ninguém conhece, fui catar o filme original antes de ver o novo. Trata-se de Save the Green Planet!, dirigido por Jang Joon-hwan em 2003. É um filme realmente pouco conhecido – curiosamente, depois da sessão de imprensa, conversei com algumas pessoas, metade não tinha visto o filme coreano, a outra metade nem sabia que era refilmagem.

Não gostei muito do filme coreano, achei os personagens mal desenvolvidos – Bugonia é melhor. Mas respondo logo a pergunta: sim, a história é basicamente a mesma nos dois filmes: um alto executivo de uma grande empresa é sequestrado por dois malucos conspiracionistas que acham que se trata de um alienígena. A diferença é que no original é um executivo homem, sequestrado por um casal, e aqui é uma executiva mulher sequestrada por dois primos.

Uma coisa que o filme sabe muito bem trabalhar é a dúvida sobre a veracidade da tal teoria conspiratória. Afinal, vemos uma pessoa sendo sequestrada por um cara completamente lelé das ideias, que defende uma ideia absurda – será que isso pode ser verdade? Lembrei de Rua Cloverfield 10, quando passamos quase todo o filme sem saber se o papo do John Goodman é real ou não.

Bugonia é um filme bastante desconfortável. A boa trilha sonora de Jerskin Fendrix (o mesmo de Pobres Criaturas) ajuda no desconforto. Curiosidade: Fendrix compôs a trilha antes de ter acesso ao roteiro; Yorgos Lanthimos falou pra ele se basear em quatro palavras chave: abelhas, porão, espaçonave e “Emily bald”, o que seria algo como “Emma Stone careca”.

Visualmente falando, Bugonia não é tão exuberante quanto outros filmes do diretor. Não que isso seja algo necessariamente ruim, mas é que depois de A Favorita e Pobres Criaturas, a gente espera algo mais fora da caixinha, e o visual de Bugonia é mais, digamos, “careta”.

No elenco, Emma Stone e Jesse Plemons estão excelentes, ambos têm personagens desagradáveis e ao mesmo tempo muito interessantes. Outro destaque é para o estreante Aidan Delbis – Lanthimos queria alguém neurodivergente para o terceiro papel mais importante do filme, e Delbis é autista – e manda muito bem. Alicia Silverstone tem um papel mais discreto como a mãe do Jesse Plemons (apesar dos atores terem apenas 12 anos de diferença de idade).

Bugonia é melhor que Tipos de Gentileza, mas está bem abaixo de Pobres Criaturas. Prevejo uma galera “tênis verde” reclamando depois das sessões…

Enterre Seus Mortos

Crítica – Enterre Seus Mortos

Sinopse (imdb): Em uma paisagem rural apocalíptica, o coletor de animais atropelados Edgar Wilson planeja uma fuga com sua namorada Nete, mas tem sonhos violentos.

Enterre Seus Mortos passou no Festival do Rio ano passado, não consegui ver, mas alguns amigos viram, e todos foram unânimes: era um dos piores filmes daquele ano. Mais de um ano depois, passou nos cinemas e finalmente tive oportunidade de assistir, e concordo com eles. Pensei em não fazer texto sobre Enterre Seus Mortos, porque não gosto muito de falar mal de terror nacional. Mas Enterre Seus Mortos foi tão decepcionante que talvez ele volte no top 10 de piores do ano. Então bora comentar logo.

Enterre Seus Mortos é o novo filme dirigido por Marco Dutra. Não sou muito fã do estilo dele, mas já vi alguns dos seus filmes. E ele merece respeito porque quase sempre consegue colocar seus filmes no circuito, coisa rara em se falando em terror nacional. O filme foi baseado no livro homônimo, escrito por Ana Paula Maia, que co-escreveu o roteiro com Dutra.

(Enterre Seus Mortos estava em cartaz. Fui ao Cinemark Downtown numa segunda feira para assistir. E heu era o ÚNICO dentro da sala de cinema. Fico triste pela bilheteria ruim. Mas, olhando pelo lado egoísta, olha só, não tinha ninguem usando celular…)

Enterre Seus Mortos começa bem. O espectador cai direto num mundo apocalíptico, onde pessoas estão fugindo do planeta e uma religião fundamentalista toma conta da sociedade. Somos apresentados a Edgar Wilson, um cara cujo trabalho é recolher animais mortos que podem estar contaminados.

(Sabe aquelas coisas que só heu penso? Toda vez que ouvia “Edgar Wilson” me lembrava de Ed Wilson, cantor da época da Jovem Guarda, um dos fundadores da banda Renato e Seus Blue Caps…)

A trama é arrastada, mas reconheço que estava gostando desse clima apocalíptico maluco. Mas, na parte final, o filme muda para uma direção completamente diferente. Mas vou ter que entrar nos spoilers pra comentar isso.

SPOILERS!

A distopia apocalíptica estava andando bem. Mas do nada mudam o foco do filme e vira um filme de possessão demoníaca. De onde veio isso?

Depois ainda tem uma maluquice de uma menina polvo. Mas quando isso apareceu, o filme já tinha me perdido com a possessão.

FIM DOS SPOILERS!

No elenco, gostei de ver Selton Mello num papel um pouco diferente do de sempre. Não que seja uma grande atuação, não é. Mas, sabe aquele estilo sempre igual, que ele repete em qualquer filme ou programa de TV? Aqui ele não está igual. Já Marjorie Estiano, grande atriz, aqui só faz o feijão com arroz. Também no elenco, Betty Faria, Danilo Grangheia e Gilda Nomacce.

Gosto do Marco Dutra, gosto de prestigiar terror nacional. Tomara que 2025 tenha dez filmes piores…

O Sobrevivente (2025)

Crítica – O Sobrevivente (2025)

Sinopse (imdb): Um homem se junta a um reality show no qual os competidores, que podem ir a qualquer lugar, são caçados por “caçadores” empregados para matá-los.

Finalmente estreou o novo O Sobrevivente! E tenho propriedade pra falar essa frase. Coloquei esse filme na minha lista de expectativas para 2023! Citei a existência desse filme em 29 de dezembro de 2022!

Na verdade esta nova versão não é uma refilmagem do filme de 1987, sucesso de Arnold Schwarzenegger. É outro filme baseado no mesmo livro, lançado em 1982, de autoria de Richard Bachman (que era pseudônimo de um tal de Stephen King). Revi a versão de 87, realmente precisava de uma modernizada. Aquele filme é divertido, mas envelheceu muito mal.

Em O Sobrevivente, conhecemos Ben Richards, um cara esquentadinho, que perdeu o emprego e tem uma filha doente. Desesperado pela falta de grana, resolve se candidatar a uma vaga em um reality show para conseguir dinheiro para comprar remédio pra sua filha. Mas, como tem um perfil de brigão, o colocam no The Running Man, programa que paga muito bem, mas de onde quase ninguém sai vivo.

Mesmo sabendo que não é uma refilmagem, a comparação é inevitável – e o próprio filme não ignora isso, as cédulas do “new dolar”, dinheiro usado no filme, têm o rosto do Arnold Schwarzenegger. O filme de 87 tem alguns detalhes melhor desenvolvidos, mas, no geral, esta nova versão é melhor.

O filme dos anos 80 era colorido e cheio de divertidas frases de efeito, mas se a gente parar pra pensar, a competição em si não fazia muito sentido – são muitos furos de roteiro. Aqui temos um contexto mais bem estruturado, é uma sociedade futurista distópica com pessoas pobres desesperadas, e uma mídia que sabe explorar esse desespero em números de audiência. E a dinâmica do programa também está melhor, com os corredores escondidos por diferentes cidades, e os caçadores aguardando o horário nobre para agir.

Agora, os caçadores espalhafatosos do outro filme são melhores que os daqui. Na verdade, aqui são cinco, mas a gente só conhece a história da um deles. Outro tem uma única cena com diálogos e só. Os outros três só estão lá como figuração.

Teve uma coisa que não gostei. Ao longo do filme, Ben Richards fica mudando sua postura em relação a confiar ou não no chefão Killian. Porque, se ele não confia no que o Killian diz, como vai confiar que sua esposa vai receber o pagamento?

Ah, tem mais uma coisa: naquele mundo futurista onde postes na rua têm detectores de DNA, aqueles braceletes certamente teriam um GPS!

No elenco, Glen Powell continua galgando seu espaço no panteão de grandes estrelas de Hollywood. Killian é interpretado por Josh Brolin, que consegue ser canalha e sedutor ao mesmo tempo. Já mencionei aqui que sou fã da voz do Colman Domingo, achei legal vê-lo como o apresentador do programa. Também no elenco, Katy O’Brian, William H. Macy, Michael Cera, Emilia Jones e Lee Pace.

(Aliás, impossível não lembrar de Assassino Por Acaso quando o Glenn Powell começa a experimentar disfarces…)

O Sobrevivente tem algumas boas cenas de ação, e toda a sequência com o Michael Cera é bem divertida (lembrando que ele já tinha trabalhado com o diretor quinze anos antes, em Scott Pilgrim). Mas o resultado final parece apenas um filme burocrático, daqueles encomendados por grandes estúdios. Filme que vai divertir o público, mas será esquecido pouco depois. Olhando a carreira do Edgar Wright, é uma pena. Porque, na comparação, talvez O Sobrevivente seja o seu filme mais fraco.