Crítica – Waterworld: O Segredo das Águas
Sinopse (imdb): Num futuro em que o gelo dos pólos derreteu, quase toda a terra está submersa. Um homem solitário, com relutância, ajuda uma mulher e uma jovem a encontrar um terreno firme.
Tive a ideia de fazer uma lista de filmes injustiçados. Filmes que as pessoas se acostumaram a falar mal, mas não são tão ruins assim. Só que é uma lista que dá trabalho, porque preciso rever cada filme para julgar se merece ou não estar numa lista de injustiçados. GG, meu companheiro de Podcrastinadores, sugeriu Waterworld: O Segredo das Águas, um dos maiores fracassos comerciais da história do cinema. Aproveitei que revi e vou comentar aqui.
Waterworld surgiu como uma “versão aquática de Mad Max“: um mundo pós apocalíptico, um herói solitário, vilões bizarros e a luta por recursos (água/combustível). A diferença é que em vez de deserto, o planeta está inundado depois do derretimento das calotas polares. Aliás, Peter Rader, um dos roteiristas de Waterworld, admitiu a inspiração em Mad Max 2. Mais: o diretor de fotografia Dean Semler trabalhou em Mad Max 2 e Mad Max 3.
Waterworld é mal falado, mas nem é tão ruim assim. O lance é que foi uma produção muito cara, e o retorno nas bilheterias não refletiu o investimento. O filme tinha o orçamento de 175 milhões de dólares – o maior orçamento da história até aquela data, mas pouco depois Titanic bateu esse recorde (a diferença é que Titanic foi um sucesso de bilheteria). Detalhe: o próprio Kevin Costner pagou 22 milhões do próprio bolso! E se você tem um filme muito caro, a bilheteria tem que ser muito grande…
(Fui na wikipedia agora pra ver a lista dos filmes mais caros. Hoje, em 2026. O mais caro foi Star Wars ep 9, que custou 490 milhões. Na wikipedia tem uma lista com 68 títulos, o último dessa lista custou 204 milhões. Curiosamente, todos os 68 filmes são deste século.)
A direção é de Kevin Reynolds, que já tinha dirigido Kevin Costner em outros dois filmes, Fandango (1985) e Robin Hood (1991). Mas, segundo o imdb, há rumores de que Kevin Reynolds e Kevin Costner tiveram uma grande discussão sobre o filme, o que resultou na saída de Reynolds do projeto, deixando Costner na direção e na supervisão da edição. Reynolds teria dito que “Kevin Costner só deveria estrelar filmes que ele mesmo dirige. Dessa forma, ele pode trabalhar com seu ator e diretor favoritos.” Mesmo com a saída, Kevin Reynolds continuou creditado como diretor.
Filmar no mar era um grande desafio. Um dos maiores problemas era que boa parte do elenco e equipe ficavam enjoadas. Além disso, boa parte das cenas precisavam ser filmadas a duas milhas da costa, pra ter pelo menos 270 graus de mar aberto. As condições climáticas locais geralmente pioravam à tarde, então a maior parte das filmagens tinha que ser interrompida depois das 15h ou 16h. Para piorar a situação, cerca de 30 barcos adicionais, usados pelo elenco e equipe, eram necessários para iluminação, câmeras, maquiagem, alimentação, figurinos etc., e nenhum deles tinha banheiro. As filmagens tinham que ser interrompidas repetidamente para que as pessoas pudessem ser levadas a banheiros químicos em uma balsa ancorada perto da costa. Todas essas limitações geralmente permitiam apenas cinco ou seis tomadas por dia de filmagem, estendendo significativamente o cronograma.
Era complicado, mas pelo menos temos algumas sequências realmente muito boas. Toda a sequência do ataque dos smokers ao atol é muito boa. E o trimarã do protagonista Mariner (o personagem não tem nome) é um barco muito bem estruturado, cheio de surpresas, e Kevin Costner parece muito à vontade fazendo de tudo no barco. Eram os anos 90, cgi ainda era algo sem muita força, e não existiam drones com câmeras. Então, durante algumas vezes durante o filme, a gente vê um close meio tremido no ator, e a câmera se afasta, mostrando o barco velejando – provavelmente cena feita com helicópteros. Antes de começarem as filmagens, Costner ficou três semanas velejando com o trimarã pra se acostumar.
O vilão, interpretado por Dennis Hopper, é bem ruim. Mas… Naquela época, vilões caricatos eram comuns. Vou deixar só um exemplo: Goonies é um filme cultuado pela maioria das pessoas, e os vilões daquele filme são tão caricatos quanto o daqui. E esse aqui é menos pior que o “Master Blaster”, do Mad Max 3. Ou seja, vilão ruim, mas coerente com a época.
O roteiro também tem várias forçadas de barra, mas que – de novo – eram comuns na época. Várias conveniências de roteiro se espalham pelo filme, tipo o balão aparecendo do nada pra salvar os personagens quando o barco estava danificado. E aquele bungee jump no fim talvez tenha sido um pouco demais – mas pelo menos a cena é empolgante. Enfim, anos 90…
No elenco, é um “filme do Kevin Costner”, que já era um nome gigante em Hollywood – cinco anos antes ele ganhou dois Oscars, melhor filme e melhor diretor, por Dança com Lobos. Gostei do personagem dele, que é um cara quieto e mal-humorado, e que precisa ter que conviver, a contragosto, com uma mulher e uma criança. E, vamos ser sinceros, uma criança bem chata. Os outros dois nomes grandes do elenco são Jeanne Tripplehorn e Dennis Hopper. A menina Tina Majorino está por aí até hoje, mas nunca mais teve um papel de sucesso. Ah, prestem atenção no piloto de avião que aparece rapidinho e debaixo de muita fuligem – é o Jack Black ainda antes de ser famoso.
(Aliás, li no imdb um fato curioso. A personagem da Jeanne Triplehorn tem uma cena de nudez bem discreta, e não é nudez gratuita – ela quer que o Mariner proteja a criança, então se oferece pra ele. É uma cena rápida, de costas. Mas Jeanne se recusou a fazer a cena. O curioso é que poucos anos antes ela mostrou bem mais em Instinto Selvagem…)
Revisto hoje, Waterworld está longe de ser ruim. É um bom filme pipoca. Tem seus problemas aqui e ali, mas se a gente desligar o fato de ter sido um grande prejuízo comercial, vai curtir a sessão.