59º Festival de Brasília 2026 – Análise final
Pra quem não reparou no meu sumiço: semana passada estive no 59º Festival de Brasília, onde fui convidado pra ser jurado da Mostra Caleidoscópio, que tem como definição ter “obras com propostas estéticas e narrativas inovadoras, longas que fogem das convenções naturais do gênero”. Aproveitei e vi outros três filmes, um total de oito longas em seis dias. Durante a semana passada, postei no meu youtube alguns shorts, com rápidos comentários sobre cada filme. Hoje vou fazer um “apanhadão” comentando todos os oito. Começarei pelos filmes da Caleidoscópio.
Mulheres do Bando
Dirigido por Thamires Vieira, Mulheres do Bando é um documentário sobre o grupo de teatro Bando de Teatro Olodum, composto apenas com mulheres negras. O filme fala da luta delas contra o preconceito, por serem negras e também por serem mulheres, e fala que elas não são reconhecidas pela mídia nem pela população. Elas comentam que “artistas no Rio de Janeiro não andam de ônibus”, mas preciso dizer que conheço artistas aqui que usam sim transporte público. Artistas grandes não usam transporte público, nem no Rio nem em Salvador, mas, bem, heu preciso confessar que nunca tinha ouvido falar desse grupo, só do Olodum. E nem aparece ninguém do Olodum para chancelar o Bando…
Tempo à Faca
Terça o filme foi Tempo à Faca, filme com duas linhas temporais misturadas: uma mostra um jagunço jurado de morte, mas que precisa levar um vestido de casamento para sua filha; a outra traz a neta desse jagunço querendo vingar a morte da sua mãe – isso tudo numa estrutura que é quase um faroeste (principalmente a parte no passado). Tempo à Faca foi dirigido por Diogo Oliveira, baseado num roteiro de Ruy Guerra. O problema aqui é que tudo é previsível demais. Logo de cara a gente já sabe cada passo que essa história vai ter até o final. Ou seja, não é ruim, mas também não traz nenhuma novidade, já vimos isso antes diversas vezes. Mas preciso deixar registrada uma coisa legal que aconteceu durante a sessão: tinham muitos alunos de escola presentes, e estavam bem empolgados com o filme. Quando rola uma discreta cena de sexo entre duas mulheres, o cinema quase foi a baixo com os gritos dos adolescentes!
Cacimba
Quarta feira o filme da Mostra Caleidoscópio foi o documentário Cacimba. Dirigido por Rodrigo Campos, Cacimba conta a história de uma comunidade quilombola que enfrenta os impactos da expansão da mineração do lítio no Vale do Jequitinhonha. Mas não gostei do desenvolvimento do roteiro. O filme abre falando sobre um problema com fazendeiros vizinhos, mas de repente muda para o problema com mineradoras, e deixaram os fazendeiros pra lá. Além disso, há uma opção estética que achei ruim. É um documentário onde as pessoas da vida real, em vez de entrevistas, atuam como se fossem personagens. E como não são atores, tudo fica artificial demais.
Os Vivos Caminham a Terra
O filme de quinta feira foi, finalmente, um filme que segue a proposta que imaginei sobre a Caleidoscópio: um filme com propostas estéticas que fogem das convenções naturais do gênero. Dirigido por Pedro Maia de Brito, Os Vivos Caminham a Terra traz uma narrativa enigmática, em preto e branco e sem diálogos. Mas, o problema é que são apenas imagens soltas, não existe uma linha narrativa clara, e o filme, apesar de ter apenas 85 minutos, é muito cansativo. Às vezes uma narrativa enigmática nos cativa e conseguimos curtir o filme mesmo sem entender o que está acontecendo – mas infelizmente não foi o caso. Só uma curiosidade antes de encerrar meu comentário: reparei que a autora da trilha sonora tinha um nome com caracteres que não existem na língua portuguesa. Aí vi nos créditos que todos os músicos têm nomes com os mesmos caracteres. Descobri que o diretor conheceu uma compositora húngara numa festa na Hungria, contou sobre o projeto e ela gostou da ideia, então gravou a trilha.
Os Fantasmas Gentis
E vamos ao último filme da Mostra Caleidoscópio do Festival de Brasília. Dirigido por Caetano Gotardo, Os Fantasmas Gentis traz a história de um casal que se conhece em um karaokê. É um filme que traz longos diálogos, conduzidos por um inspirado casal de protagonistas. Mas, se heu puder fazer uma crítica, achei a narrativa lenta demais. Algumas cenas podiam ser reduzidas, e outras podiam até ser cortadas (como aquela sequência no teatro onde o cara fala sobre dança). Acaba que achei o filme cansativo. Mas mesmo cansativo, Os Fantasmas Gentis foi o ganhador do prêmio da FIPRESCI!
Privadas de Suas Vidas
Além da Mostra Caleidoscópio, vi dois filmes da competição oficial. Escrito e dirigido por Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, Privadas de Suas Vidas é um filme assumidamente trash, onde quase todas as piadas são baseadas na escatologia. Não curti muito, não por causa da escatologia, mas sim porque achei meio bobo, são poucas piadas realmente engraçadas. Mas estou pensando em fazer um vídeo pro canal se esse filme ganhar uma janela de exibição.
Sabes de Mim, Agora Esqueça
Outro da competição oficial, Sabes de Mim, Agora Esqueça é um filme bagunçado. A protagonista está fugindo de uma espécie de polícia, chamados de “Lanternas”, e a acaba indo morar e trabalhar num prostíbulo gerenciado por uma cafetina que diz que tem 258 anos. Mas faltou um contexto pro espectador entender o que está acontecendo, o que é aquele mundo. E tudo parece amador demais, tem uma cena onde quatro personagens estão conversando sobre os clientes, e tem uma falando em cima da outra, tem personagem repetindo a fala porque não ouviram, parece que ligaram a câmera pra filmar um bate papo aleatório. Tem outra coisa estranha: tem uma sequência com sadomasoquismo onde rola um breve sexo explícito. O filme fala de prostitutas, então normal ter cenas de nudez e sexo, isso não me incomodou. O problema é que aquela sequência me parece separada do resto do filme, aqueles dois personagens não interagem com mais ninguém no elenco, o tom da sequência parece diferente.
O Verão da Lata
Sábado rolou o filme de encerramento. Dirigido por Santiago Dellape, O Verão da Lata é uma divertida comédia que usa como pano de fundo um caso que ficou bastante famoso aqui no Rio: no verão 1987 / 88, um navio que traficava maconha em latas despejou toneladas de latas no mar, ao lado da costa do Rio de Janeiro. Centenas – talvez milhares – de latas de maconha foram encontradas por cidadãos comuns. A história no filme é uma ficção, os personagens não são reais, mas as latas de maconha realmente apareceram nas praias naquele verão. O Verão da Lata é estrelado por Samantha Schmütz e Babu Santana, e, desses oito filmes, talvez seja o único que vai chegar no circuitão. Talvez heu faça um vídeo sobre ele na época do lançamento, o que vocês acham?
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