A Maldição da Múmia

Crítica – A Maldição da Múmia

Sinopse (imdb): Uma família se depara com uma múmia ancestral, desencadeando uma aventura sobrenatural que mistura terror e suspense em uma nova versão do monstro clássico.

Esqueça tudo o que você imagina sobre “filme de múmia”. Não é uma aventura como os filmes do Brendan Fraser,e também não é um terror com um antagonista embalsamado e enfaixado. A proposta aqui é bem diferente. Na verdade A Maldição da Múmia (The Mummy, no original) parece mais um filme de exorcismo do que de múmia.

A direção é de Lee Cronin, que fez um bom trabalho com o Evil Dead de 2023 (tenho minhas ressalvas com esse filme, mas reconheço que é bem melhor que o de 2013). Mais uma vez Cronin mandou bem – também tenho algumas ressalvas aqui, mas igualmente reconheço os méritos. E parece que ele queria fazer uma mistura de O Exorcista com Evil Dead. O “vilão” aqui é um demônio, e não a múmia em si.

A Maldição da Múmia tem muito gore. Algumas cenas vão fazer parte do público ter ânsias de vômito – teve uma em particular envolvendo líquido de embalsamento que me embrulhou o estômago, e isso porque não estou falando da cena das unhas. E Lee Cronin é muito eficiente ao criar um clima de tensão ao longo de todo o filme. A Maldição da Múmia não é filme de jump scare, está mais próximo do terror da A24 (apesar de ser Blumhouse). Outro ponto positivo é apostar mais em efeitos de maquiagem do que cgi.

O roteiro tem umas forçadas de barra. Pra que precisariam transportar o sarcófago de avião? Pra onde estavam levando? A policial egípcia precisava ter vindo até os EUA, com uma fita VHS, sem avisar? Quem ainda tem um videocassete em casa? E na cena final, esqueceram do personagem da irmã mais nova. Mas não é nada grave, a gente vê vários filmes por aí com roteiros cheios de facilitações e que trazem resultado inferior a este.

O elenco não tem muita gente conhecida. Heu só conhecia o pai, Jack Reynor, que faz o irmão mais velho em Sing Street. Mas heu quero fazer um elogio: parte do filme se passa no Egito, com atores egípcios. E são diálogos na língua deles – acho que é árabe. Isso mostra uma evolução em Hollywood, se fosse anos atrás, tudo ia ser em inglês.

A Maldição da Múmia é um pouco longo demais, são duas horas e quatorze minutos, acho que dava pra secar um pouco e ser um pouco mais objetivo. Mas mesmo assim o resultado foi positivo.

Filmes Injustiçados (parte 1)

Filmes Injustiçados (parte 1)

Tem alguns filmes que muita gente gosta de falar mal, mas na verdade não são ruins. Chamo esses de “filmes injustiçados”. São filmes que se passassem por uma segunda avaliação, mais isenta, seriam mais respeitados.

Claro, vai ter gente que vai discordar de um ou outro título. Ok, discordar faz parte. Só me apresente argumentos, se não é só hate. E não dou bola pra hate gratuito.

Vamos aos filmes. Vou postar cinco hoje, ainda vou fazer uma segunda parte com outros cinco.

Não tem uma ordem específica…

Han Solo
Fãs de Star Wars gostam de reclamar do filme do Han Solo. Nunca entendi por que. Ok, o motivo pra ele se chamar “Solo” é besta, concordo. Mas se esse for o único ponto negativo, ninguém pode dizer que é um filme tão ruim assim. Revisto hoje, Han Solo realmente tem problemas na parte inicial – tudo é muito corrido até o momento que ele conhece o Chewbacca e começa a acompanhar o personagem do Woody Harrelson – de repente surge na tela um “3 anos depois”. Mas a partir daí, o filme é redondinho.

Robocop do Padilha
O Robocop original do Paul Verhoeven é sensacional, um filme marcante em vários aspectos, realmente difícil de superar. Claro que ia rolar uma grande expectativa para uma refilmagem. Mas o José Padilha não fez feio. Este Robocop de 2014 parece um “Tropa de Elite 3”, com um policial incorruptível que veste preto. E, definitivamente, é melhor que as continuações do filme de 87, Robocop 2 (1990) e Robocop 3 (1994).

Waterworld – O Segredo das Águas
Aqui acho que o maior problema foi a grande expectativa criada pelo orçamento gigante (pra época) de 175 milhões de dólares. Waterworld foi o filme mais caro da história até aquela data (pouco depois Titanic bateria esse recorde, mas a diferença é que Titanic foi um sucesso de bilheteria). Waterworld teve problemas na produção, o diretor brigou com o ator principal e saiu do filme, boa parte do elenco e equipe teve problemas com enjoo ao filmar no mar… E, tem tempos sem muito cgi, temos algumas sequências de ação realmente muito boas. E o trimarã do protagonista Mariner é um barco muito bom.

Tico e Teco e os Defensores da Lei
Acredito que o pior problema de Tico e Teco e os Defensores da Lei é ter exatamente o mesmo nome da série de desenhos animados, que até onde sei, nunca fez muito sucesso. E pra piorar, foi lançado no meio da pandemia, não rolou um lançamento no cinema, o que ajudaria a apagar a má impressão dada pelo nome. Mas o filme é excelente! Tico e Teco e os Defensores da Lei segue a linha de Uma Cilada Para Roger Rabbit: mistura filme live action com personagens animados, e usa muitos personagens de outros filmes ou séries. Além disso, tem uma quantidade enorme de referências e easter eggs espalhados pelo filme. Isso sem contar com a qualidade da animação, que mistura várias técnicas diferentes.
(Fiz um vídeo com 200 referências encontradas no filme!)

Flash Gordon
Um clássico incompreendido! Costumo fazer a piada de que Flash Gordon é um raro caso de filme de mais de quarenta e cinco anos, que podia gerar franquia, mas nunca foi refilmado. Mas, piadas à parte, Flash Gordon pode tranquilamente figurar em qualquer lista de melhores adaptações de quadrinhos. Claro, alguns efeitos especiais perderam a validade (são quase cinco décadas!), e aquela cena do futebol americano sempre foi tosca. Mas o filme é empolgante, a trilha sonora do Queen é sensacional, e o elenco ainda conta com alguns grandes nomes, como Ornela Mutti, Max von Sydow e Timothy Dalton.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Crítica – Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Sinopse (imdb): Um “Homem do Futuro” chega a uma lanchonete em Los Angeles, onde precisa recrutar a combinação perfeita de clientes para se juntarem a ele em uma missão para salvar o mundo da ameaça terminal de uma inteligência artificial rebelde.

Heu gosto de filmes malucos. Gosto de filmes que trilham caminhos fora do óbvio. E quando vi o trailer deste Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, me chamou a atenção que seria um filme bem fora do padrão.

Um homem com aparência de morador de rua entra num restaurante à noite e diz que veio do futuro e precisa da ajuda de algumas daquelas pessoas para salvar o mundo de um apocalipse tecnológico. Ele diz que já veio mais de cem vezes e todas deram errado. Claro que as pessoas a princípio não acreditam nele, mas ele consegue montar um grupo e eles saem para a missão.

A direção é de Gore Verbinski, mais conhecido por ter feito os três primeiros filmes da série Piratas do Caribe, e que depois ganhou o Oscar pela animação Rango, de 2011. Mas de lá pra cá, ele fez pouca coisa e não acertou: O Cavaleiro Solitário, de 2013, e A Cura, de 2016. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é o seu primeiro filme em quase dez anos!

A estrutura do filme usa flashbacks pra mostrar como alguns daqueles personagens foram parar no restaurante naquela noite. Esses flashbacks parecem pequenos episódios de Black Mirror, são pessoas envoltas em problemas ligados à tecnologia – mas uma tecnologia que ainda não existe no nosso dia a dia.

Gostei do ritmo de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, mas preciso reconhecer que o filme é um pouco longo demais. Um filme maluco funciona melhor se tem perto de uma hora e meia, aqui são duas horas e quatorze, o filme chega a cansar.

O elenco é bom. Sam Rockwell funciona muito bem no papel de “maluco conspiracionista da vez”. Também no elenco, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Michael Peña e Zazie Beetz.

Segundo o FilmeB, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra tem previsão de estreia dia 23 de abril. Recomendo pra quem gosta de filmes malucos.

O Drama

Crítica – O Drama

Sinopse (imdb): Os planos perfeitos de casamento de um casal entram em caos quando um segredo chocante vem à tona dias antes da cerimônia.

O texto de hoje vai ser um pouco diferente. Em vez de fazer uma análise crítica sobre o filme O Drama, com Zendaya e Robert Pattinson, heu quero comentar o plot do filme. Porque esse plot tem um detalhe que não conseguiu me convencer e por causa disso, não consegui “entrar” na onda que o filme propôs.

Mas, antes, um aviso de spoiler, porque o trailer oculta o assunto que vou comentar agora. Não sei se a sinopse e a divulgação do filme vão falar disso, então, na dúvida, se você não gosta de spoilers, pule esse texto.

Uma semana antes do casamento, Emma e Charlie, junto com um casal de amigos próximos, estão experimentando comidas que vão ser servidas no buffet. Depois de algumas taças de vinho, resolvem lançar um desafio, e cada um vai ter que dizer a pior coisa que já fez na sua vida. Cada um precisa “colocar na roda” o pior podre da sua história. Os dois homens falam relatos que, na verdade, não são lá grandes coisas. Emma, personagem da Zendaya, confessa que, quando era adolescente, pensou em fazer um “mass shooting” – ela pensou em entrar na escola, armada, e matar pessoas. Ela pensou, mas não chegou a executar. E depois o filme ainda traz uma redenção pra a personagem, porque ela se tocou que ia fazer besteira, e resolve justamente entrar pra um grupo de ativistas contra o armamento.

Todo o drama do filme O Drama gira em torno disso: ela pensou em fazer algo errado quando era adolescente, mas na verdade não fez. E o que mais dá raiva nessa história é que a outra mulher, Rachel, confessa que, quando adolescente, trancou um colega dentro de um armário, dentro de uma cabana, no meio de uma floresta. Ela deixou o garoto lá, à noite o pai do garoto veio perguntar se ela tinha visto, e ela mentiu para o pai do garoto. Ou seja, se a Emma tivesse feito o mass shooting, realmente seria muito pior, mas ela não fez. Por outro lado, Rachel efetivamente fez mal a uma pessoa – o garoto podia ter morrido. E Rachel se acha com moral pra criticar a Emma.

Nos Estados Unidos, onde esses casos de mass shooting acontecem com maior frequência do que aqui no Brasil, talvez lá essa trama funcione melhor. Aqui no Brasil, heu sinceramente não consegui me conectar ao problema do casal. Emma teve pensamentos ruins quando adolescente, ok, todos concordamos – mas depois ela se tocou que eram pensamentos ruins e seguiu o rumo da vida. Ou seja, se teve algo de ruim no passado, já foi completamente superado. Enquanto isso, o resto dos personagens fica tratando isso como se fosse algo muito pior.

O Drama não é ruim, mas esse drama exagerado em cima de um assunto que eu não achei grandes coisas não me deixou gostar do filme. Heu quero saber a sua opinião. O que você acha? Quem você acha que está pior? Seria quem pensou em fazer algo de ruim mas não fez? Ou quem fez algo de ruim mesmo que não seja tão grave?

Super Mario Galaxy: O Filme

Crítica – Super Mario Galaxy: O Filme

Sinopse (imdb): Depois de derrotar Bowser e salvar o Brooklyn, Mario e seus amigos enfrentam uma nova ameaça: Wario, com Bowser Jr., conspiram para dominar o mundo. Eles devem se unir a Yoshi para deter essa dupla maligna.

(Mais uma vez, acho que quem fez a sinopse não viu o filme. Não tem nenhum Wario aqui!)

Lançado em 2023, Super Mario Bros.: O Filme foi uma boa surpresa. Divertido, engraçado, com personagens carismáticos, e que conseguiu contar uma história coerente dentro de um universo maluco (nada no lore do videogame faz sentido no mundo real!). Além disso, como os personagens principais são muito conhecidos na cultura pop, as referências ao jogo funcionavam – afinal, quem não conhece Mario, Luigi e Donkey Kong?

Era óbvio que fariam uma continuação, afinal a bilheteria foi excelente (hoje é a sexta maior bilheteria da história, dentre longas de animação). Além disso, são vários jogos diferentes. Pensando por esse ângulo, até que demorou.

Demorou, mas infelizmente o resultado é bem mais fraco que o primeiro filme. Mais uma vez roteirizado por Matthew Fogel e dirigido pela dupla Aaron Horvath e Michael Jelenic, Super Mario Galaxy: O Filme (The Super Mario Galaxy Movie, no original) parece um produto feito apenas para quem conhece especificamente o jogo Super Mario Galaxy – o que não é o meu caso. Não tem uma boa história a ser contada, tem personagens inúteis, e a sensação que fica é que o único objetivo era entupir o filme de referências ao jogo.

Um exemplo simples: o filme começa com uma princesa loira sendo sequestrada. Só fui saber que a princesa loira não era a Peach depois de um tempão de filme. Como vou saber que são duas princesas loiras? Por que não avisar pro espectador “leigo” que existe mais de uma princesa?

Tem outra coisa que ficou tão tosca que até o próprio roteiro comenta. O Yoshi, que era a cena pós créditos do primeiro filme, aparece logo no início do filme. Aparece e já vira protagonista – “acabou de entrar no ônibus e já sentou na janelinha”. Por que? Sei lá, mas virou protagonista, se bobear tem mais tempo de tela que o Luigi. Ficou tão abrupto que tem um diálogo no filme reclamando que ele acabou de chegar e já virou importante. Dito isso, reconheço que curti o rápido flashback que mostra a origem dele numa cidade grande.

O filme é feito para fãs, certo? Determinado momento aparece um novo personagem, uma raposa que faz um “Han Solo” (um piloto contratado pra salvar uma princesa), um personagem que parece importante. Só quando acabou o filme que me disseram que esse personagem é uma participação de outro jogo. De novo: por que não criar um contexto? Pra piorar, logo que o Mario conhece esse piloto, o roteiro aponta pra uma possível rivalidade entre os dois, mas logo depois deixa essa rivalidade pra lá.

Nem tudo é ruim. A qualidade da animação é excelente, e a trilha sonora, usando temas do jogo, também é boa. E algumas sequências são legais, como aquela onde Mario e Peach estão numa “fase do jogo” e o Bowser Jr está vendo por uma tela que parece um videogame antigo. A sequência no cassino onde a gravidade muda de direção também é legal.

Ah, sim, a sessão de imprensa foi dublada. A dublagem é boa, mas é uma pena não ter ouvido as vozes de Chris Pratt, Anya Taylor-Joy, Jack Black, Seth Rogen e Charlie Day, que estavam no primeiro filme; mais Glenn Powell, Brie Larson e Donald Glover, personagens novos.

No fim, fica a decepção, porque a gente lembra que o filme de três anos atrás servia para o público geral, enquanto parece que este aqui só quer os fãs mais radicais.

Ah, tem cenas pós créditos. Mas só os fãs radicais vão entender a referência (heu não peguei).

Velhos Bandidos

Crítica – Velhos Bandidos

Sinopse (imdb): Um casal de idosos aposentados se junta a jovens parceiros para planejar um audacioso roubo a banco, enquanto tenta despistar um detetive determinado a impedi-los.

Heu não ia falar sobre este Velhos Bandidos. Não é um grande filme, é uma apenas diversão bobinha. Mas tem tanta gente falando mal que me vi obrigado a vir aqui defender o filme.

Um casal rouba residências de idosos enquanto estes viajam em cruzeiros. Durante um roubo, o casal de velhinhos que mora naquela casa volta e consegue prender os dois. Mas em vez de levá-los à polícia, os convida para um assalto bem mais ambicioso.

Vamulá. Como falei, Velhos Bandidos não é um grande filme. É uma comédia bobinha, previsível e cheia de clichês. Mas… Sempre defendi que o cinema nacional precisa de maior diversidade de estilos se quiser evoluir. A grande maioria das filmes brasileiros ou são filmes cult querendo premiações em festivais, ou são comédias bestas com Leandros Hassums e Ingrids Guimarães da vida. Nada contra a existência desses filmes – o primeiro grupo traz prestígio internacional, o segundo vende muitos ingressos. Mas precisamos de variedade. Precisamos de terror, de aventura, de ficção científica, de musicais. Então quando aparece um filme nacional que não se enquadra em nenhum desses dois grupos, heu defendo (a não ser que seja um filme muito ruim). Defendi a refilmagem do suspense Quarto do Pânico, vou defender Velhos Bandidos, que é uma comédia de ação em cima de um roubo – estilo chamado de “heist movie” em Hollywood. Nenhum dos dois é um grande filme, mas ambos são diversões honestas. E ambos ajudam a evolução do cinema nacional como um todo.

A direção é de Claudio Torres, filho da protagonista Fernanda Montenegro, que dirigiu A Mulher Invisível e O Homem do Futuro (entre outros) – outras duas comédias leves e divertidas que também não carregam a pretensão de serem grandes filmes. Às vezes um filme pode ser despretensioso e mesmo assim pode ser elogiado!

Além disso, o elenco de Velhos Bandidos é ótimo. Afinal, não é todo dia que reunimos Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Reginaldo Faria. O elenco secundário também traz alguns grandes nomes, como Vera Fischer, Tony Tornado, Hamilton Vaz Pereira e Nathalia Timberg – mas esses mereciam um roteiro melhor, algumas dessas participações parecem estar ali só pelo nome famoso, alguns personagens são bem bestas. Mas mesmo assim, só por esse elenco, já vale ver o filme.

Acho que o que pesou para parte das pessoas que reclamaram é que a Fernandona disse que este seria seu último filme – ela está com impressionantes 96 anos! De repente queriam que ela encerrasse a carreira com um grande filme. Ou seja, é uma espécie de head canon: o problema não é o filme, e sim a expectativa criada pelo filme.

Não ouçam os críticos rabugentos. Vá ao cinema e divirta-se!

Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Casamento Sangrento: A Viúva

Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva

Sinopse (imdb): A noiva retorna em uma nova e sinistra rodada do tradicional jogo de esconde-esconde, agora com elementos sobrenaturais e demoníacos.

Lançado em 2019, Casamento Sangrento foi uma boa surpresa. Mas, pra comentar este segundo, precisarei falar spoilers do primeiro filme. Ou seja, se você pretende ver o primeiro, sugiro que pare de ler agora!

Em Casamento Sangrento, Grace se casa com um cara de uma família muito rica e poderosa, e existe uma tradição onde cada pessoa que entra na família precisa jogar um jogo. Ela sorteia uma carta, e precisa jogar pique esconde. Mas com o detalhe: se alguém encontrá-la, ela morre. Ou seja, a clássica trama do personagem tendo que fugir pela própria vida, a gente já viu essa história várias vezes. Mas quem me acompanha sabe que não acho ruim reciclar ideias, só acho ruim quando é mal feito e o resultado fica ruim.

Mas Casamento Sangrento tinha um diferencial na última cena – e é aqui que terei que dar o spoiler. Durante todo o filme a gente acha que é uma família de malucos assassinos, até que, na cena final, a gente descobre que tem algo sobrenatural por trás disso tudo, e que a família tem um pacto com o demônio. Como Grace sobrevive, cada um dos membros da família explode! Se até aquele momento o filme estava bom, ficou ainda melhor com o final inesperado.

Este final dificultava uma continuação. Como vamos seguir com uma história onde a família toda morreu por causa de um pacto demoníaco? Essa era a minha maior dúvida com relação a este novo filme. Mas posso dizer que conseguiram bolar uma nova trama, coerente com a proposta do primeiro filme.

Casamento Sangrento 2 (Ready or Not 2: Here I Come, no original) começa exatamente do ponto onde o primeiro termina. Grace ainda está com o vestido de noiva, suja com o sangue das pessoas que morreram, com a casa pegando fogo atrás. Ela é levada a um hospital, e vai precisar responder à polícia. Mas… Descobrimos que outras famílias também fazem parte do pacto demoníaco, e Grace, agora acompanhada de sua irmã Faith, será mais uma vez caçada.

A direção é dos mesmos Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que têm uma produtora chamada Radio Silence, e que ganharam reconhecimento com o filme de 2019, e depois fizeram Abigail, Pânico 5 e Pânico 6. Manter o diretor costuma ser uma boa notícia para a qualidade de uma continuação.

Existe uma “regra não escrita” de continuações que diz que uma sequência precisa ter tudo que tinha no primeiro, mas em maior quantidade. Não sei se os diretores pensaram nisso, mas aqui é tudo maior. Se o primeiro filme era todo dentro de uma casa, este é num enorme resort. Se naquele filme era uma família, aqui são várias, com vários personagens exagerados e caricatos (alguns deles são ótimos!). Além disso, Casamento Sangrento 2 é MUITO violento. Mas não é aquela violência tensa e desagradável, o filme é muito engraçado, quem curte humor negro vai se divertir. Heu ri alto várias vezes ao longo do filme!

O elenco é bom. Samara Weaving é a única que volta (afinal, todo o resto do elenco morreu…), e faz uma boa dupla com Kathryn Newton (que tinha trabalhado com os diretores em Abigail). Uma coisa legal foi ver David Cronenberg num papel pequeno (sim, o diretor de A Mosca, Scanners, Videodrome, Gêmeos, etc). Sarah Michelle Gellar tem um papel importante, assim como Elijah Wood – a ironia é que ele também precisa lidar com um anel de poder. Também no elenco, Shawn Hatosy, Olivia Cheng, Nestor Carbonell e Kevin Durand.

Gostei de Casamento Sangrento 2, foi melhor do que heu esperava, mas preciso reconhecer que o roteiro tem umas facilitações no terço final. E aquela cena final foi bem forçada, acredito que não seria tão fácil. Felizmente, nada grave.

Casamento Sangrento não precisava de uma continuação, o final é redondinho. Mas pelo menos a continuação foi bem feita. Quem curtiu o primeiro vai gostar do segundo.

Cara de Um, Focinho de Outro

Crítica – Cara de Um, Focinho de Outro

Sinopse (imdb): Uma amante dos animais aproveita a oportunidade para usar a tecnologia que coloca sua consciência em um castor robótico, descobrindo mistérios no mundo animal que vão além do que ela poderia ter imaginado.

O novo longa da Pixar, Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers, no original) nem é tão ruim. Mas tem uma protagonista péssima! Mabel, a personagem principal, é uma jovem ativista, irresponsável e inconsequente, que toma decisões arbitrárias erradas e prejudica todos em volta. A Mabel estragou o filme!

Queria falar da Mabel mais a fundo. Então vou fazer alguns comentários breves sobre o filme, e depois solto um aviso de spoilers e falo da protagonista.

Primeiro longa dirigido por Daniel Chong (ele tinha feito a série Urso Sem Curso), Cara de Um, Focinho de Outro nos apresenta uma jovem rebelde, que quer salvar a natureza, mas se atrapalha e acaba atrapalhando todos em volta – humanos e animais.

Tecnicamente, não tem o que se falar, é um longa da Pixar. Se a Pixar tem decepcionado nos roteiros, na parte visual continua sendo sinônimo de excelência. Além disso, tem algumas piadas muito boas. Tem várias piadas com animais usando emojis no celular, piada que foi estendida nos créditos do filme. E o lance do tubarão voando foi genial.

Ah, queria aproveitar pra dizer que o título brasileiro não tem nada a ver. “Hoppers”, o título original, significa “saltadores”, remete ao lance de a consciência de uma pessoa “saltar” para um bicho robô. Já “cara de um, focinho do outro” é usado para descrever semelhanças físicas extremas entre duas pessoas, significa que são tão parecidos que parecem “clones”, “iguais” ou “a mesma pessoa”. Ou seja, não tem a ver com o tema deste filme.

Agora, avisos de spoiler. Vou ter que entrar em detalhes pra explicar porque não gostei da protagonista.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Mabel quer salvar a natureza. Ok, entendemos que é um objetivo nobre. Mas ela age de maneira tão irresponsável que acaba atrapalhando a sua própria causa (tanto que nenhum dos seus vizinhos a apoia).

    • Ela briga com o prefeito, até na própria casa do prefeito, incomodando sua mãe idosa. Detalhe: o prefeito está fazendo uma obra que vai melhorar o trânsito da cidade e conseguiu um meio de afastar os animais sem precisar matar nenhum! Esse prefeito deveria ser o “mocinho”!

    • Ela invade o laboratório de uma professora da faculdade e atrapalha um trabalho de anos. A professora está há muito tempo num projeto de aproximação ao mundo animal (vemos por flashbacks que seu cabelo não era branco quando ela começou), e Mabel se mete no meio sem ser convidada. E atrapalha o projeto, que chega a ser cancelado no fim do filme, fazendo a professora perder o emprego.

    • O projeto da professora era de observação da natureza. Quando Mabel entra, ela não quer observar, ela quer se meter e mudar as regras. Logo de cara ela questiona uma “lei do lago”. O urso deve ter ficado com fome. Existem sociedades com regras diferentes das nossas, não acho correto alguém de fora chegar e querer mudar tudo à força.

    • Ela resolve convocar o conselho dos animais pra atacar o prefeito. No meio da reunião, ela mata a rainha dos insetos. Sim, ela vira uma assassina. A cena é engraçadíssima, se fosse uma comédia adulta de humor negro, heu estaria aqui elogiando – mas estamos falando de um desenho direcionado ao público infantil. E quando ela mata a rainha dos insetos, ela acaba condenando todos os mamíferos.

    • Acontece um incêndio. Ela não causou o incêndio, mas é indiretamente responsável. Como resolver? Ela precisa destruir um enorme dique feito por castores. Sim, além de atrapalhar o relacionamento dos mamíferos com outras espécies, ela também precisa acabar com a casa dos castores.

Se pelo menos no fim do filme houvesse uma redenção, seria menos pior. Mabel deveria pedir desculpas a todos, reconhecer seus erros e tomar um novo rumo na sua vida. Seria um filme bem melhor. Mas nada, ela volta quieta, sem falar com ninguém. Aparentemente vai continuar a mesma irresponsável e inconsequente.

FIM DOS SPOILERS!

Ouvi várias pessoas elogiando Cara de Um, Focinho de Outro. Mas não consegui curtir um filme com uma protagonista tão tóxica. Espero que não tenha continuações.

Ah, tem cena pós créditos, lá no finzinho de tudo.

Os Estranhos: Capítulo Final

Crítica – Os Estranhos: Capítulo Final

Sinopse (imdb): Os sobreviventes enfrentam novas ameaças de estranhos mascarados. Segredos vêm à tona, colocando suas vidas em risco à medida que a linha entre a realidade e o perigo se confunde em sua luta pela sobrevivência.

Era pra ser um filme só. Resolveram esticar e lançar em três partes. Se a primeira e a segunda parte são ruins, qual era a chance da conclusão ser boa? Quase zero, né? Mesmo assim, fui ver. E confirmo: já tenho um filme certo na minha lista de piores de 2026.

A trama é o de sempre. Maya continua fugindo dos assassinos mascarados. Basicamente só isso. Claro, precisamos ter um longa metragem, então vemos mais flashbacks desnecessários, explicando coisas que não precisavam ser explicadas. O roteiro é péssimo (assim como nos filmes anteriores), não tem nenhuma cena impactante. Pior: o filme tenta criar uma reviravolta onde a Maya viraria assassina junto com os mascarados. Ideia ruim, e ainda por cima mal desenvolvida.

(Determinado momento, um personagem está ouvindo uma pregação religiosa. Acho que teve algo assim no primeiro filme, não lembro e nem vou catar pra rever. Mas poderia ser um bom caminho para a trama, entrar no fanatismo religioso. Mais uma ideia jogada fora.)

Heu sei que boa parte dos filmes de terror que a gente vê são baseados em decisões burras de personagens. Isso é algo comum. Mas aqui tem algumas decisões que desafiam qualquer lógica. Logo em uma das primeiras cenas, a protagonista está fugindo, encontra uma igreja, e tem um piano na igreja. POR QUE DIABOS ELA VAI TOCAR O PIANO??? QUE TIPO DE IDIOTA QUE ESTÁ FUGINDO DE ASSASSINOS VAI FAZER BARULHO COM UM INSTRUMENTO MUSICAL???

Não é a única atitude burra dela. Tem uma hora que ela consegue um carro e começa a fugir. E BATE O CARRO NUMA ÁRVORE!!! Caramba, como é que o espectador vai torcer por uma personagem tão ruim? Detalhe: ela bate o carro e o mascarado estava ali ao lado dela, pronto pra captura-la de novo.

Os Estranhos Capítulo Final é tão tosco que a página do imdb está meio zoada. A sinopse não está correta, fala de “sobreviventes”, é uma única sobrevivente. E o nome da atriz principal, Madelaine Petsch, a única atriz relevante nessa joça, é o quinto nome da lista do “elenco principal”. Nem o imdb leva a sério essa porcaria.

Heu podia falar mais. Mas seria chutar cachorro morto. Os Estranhos Capítulo Final é um erro. A única coisa boa é que acabou, espero que respeitem a ideia do “capítulo final”. Quando acabou o filme, fiquei tentando me lembrar de uma trilogia de terror pior que essa. Não consegui. Você sugere alguma?