O Morro dos Ventos Uivantes

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

Sinopse (imdb): Uma história de amor apaixonada e tumultuada que tem como pano de fundo os pântanos de Yorkshire, explorando o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw.

Antes de tudo, preciso falar que nunca li o livro. Foram algumas diferentes versões cinematográficas, vi a de 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes, mas vi na época e nunca revi, então não lembrava de nada da história. Como de costume aqui no heuvi, os comentários serão sobre o filme, e não sobre o livro que deu origem.

Só queria fazer um breve comentário, porque ouvi gente reclamando que a escolha do Jacob Elordi seria errada, porque no livro o Heathcliff não é branco. Ora, na versão de 92, Heathcliff era o Ralph Fiennes. Essa reclamação está atrasada, não?

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, no original) é o terceiro filme de Emerald Fennell, que tirou onda ganhando Oscar de melhor roteiro original (além de indicações para filme e diretora) por seu filme de estreia, Bela Vingança, de 2020. Em 2023 ela fez Saltburn, bom filme, mas não tão bom quanto Bela Vingança. E agora chega seu terceiro filme, bem mais fraco que os dois anteriores…

(Detalhe: o título do filme, no poster, está entre aspas. É um meio discreto que Emerald Fennell usou para avisar “galera, este filme não é exatamente a mesma história, é a minha versão, ok?”)

O Morro dos Ventos Uivantes não é bom. Não é um lixo, mas tem muito mais problemas que virtudes. Duas coisas me incomodaram muito, uma sobre a história, a outra do filme em si. Vamos por partes.

Sobre a história, não sei vocês, mas heu tô de saco cheio com gente que alimenta problemas desnecessários. Ele gosta dela, ela gosta dele, mas ninguém fala nada e eles não ficam juntos. Isso não é um problema exclusivo desse livro/filme, isso tem de monte por aí, inclusive na vida real. Galera, qual é a dificuldade de você verbalizar o que você sente por alguém? Pra que problematizar algo que não é um problema? Aí, no filme, vemos Heathcliff decepcionado com algo que ele ouviu – mas não confirmou – e vai embora. E volta anos depois, dizendo que sempre amou Cathy. Cara, se você a ama, por que foi embora? Você se ausentou, “a fila andou”. Agora não reclame! E ela também fica fazendo jogo duro – pra que??? Sei lá, esse tipo de problema me enche o saco.

Agora, sobre o filme, o problema é que é chato e arrastado. São duas horas e quinze, e aquela história poderia facilmente ser contada em uma hora e meia. É impossível passar pela reta final do filme, repetindo a mesma coisa várias vezes, sem ficar olhando pro relógio.

Além disso, O Morro dos Ventos Uivantes tem algumas coisas meio estranhas. O figurino usa umas roupas que parecem de plástico, talvez celofane. Qual é o sentido de usar um tecido que não parece compatível com a época que o filme se passa? Faço o mesmo comentário sobre alguns momentos musicais usando Charlie XCX, umas músicas que não têm nada a ver com o clima do filme, parecia um videoclipe.

Um amigo comentou que O Morro dos Ventos Uivantes era pra ser um romance gótico, mas virou um thriller erótico. Mas, olhando pelo lado erótico, achei bem fraco. O filme tem zero nudez, e pouquíssimas cenas de sexo. Ok, algumas cenas sugerem erotismo em situações do dia a dia, como por exemplo alguém sovando massa de pão na mesa. Mas na minha humilde opinião é tudo muito discreto pra ser chamado de thriller erótico.

Nem tudo é ruim. A fotografia é muito boa – talvez o único elogio que faço sem nenhuma ressalva. Várias cenas são belíssimas, daquelas que dá vontade de pausar e colocar num quadro. Também gostei das cenas que envolvem Heathcliff e Isabella, uma relação bem tóxica, mas que foi bem escrita e bem filmada.

No elenco, Margot Robbie e Jacob Elordi servem para o que o filme propõe: um casal bonito e carismático. Não precisa de grandes atuações, a ideia é que eles façam o básico. A melhor do elenco é Alison Oliver, que faz Isabella, é um personagem bem mais interessante que o casal principal. E achei legal ver Owen Cooper, o garoto de Adolescência, em seu primeiro papel para o cinema. Também no elenco, Hong Chau, Shazad Latif e Martin Clunes.

O Morro dos Ventos Uivantes está em cartaz, e aparentemente não está agradando. Espero que Emerald Fennell tenha melhor sorte no seu quarto filme.

Extermínio: O Templo dos Ossos

Crítica – Extermínio: O Templo dos Ossos

Sinopse (filmeB): Dr. Kelson se vê envolvido num novo relacionamento chocante – com consequências que podem mudar o mundo como eles o conhecem – e o encontro de Spike com Jimmy Crystal se torna um pesadelo do qual ele não consegue escapar.

Perdi a sessão de imprensa de Extermínio O Templo dos Ossos, ou Extermínio 4 (mais fácil, né?). Não foi porque achei o Extermínio 3 ruim, na verdade heu tinha outro compromisso no dia. Perdi o “bonde do hype”, mas vou comentar, mesmo atrasado.

Mas antes queria fazer um último comentário sobre o Extermínio 3. Meu maior problema com o filme foi que não consegui “comprar a ideia”. O terceiro filme era pra ter sido “28 Meses Depois”, continuando a proposta do título original, que se baseia na linha do tempo (28 dias – 28 semanas – 28 meses). Mas resolveram mudar pra “28 Anos Depois”. Galera, 28 anos é muito tempo. Em primeiro lugar, não teriam mais infectados – no segundo filme são poucos, porque a maioria morreu de fome. Além disso, ia ter gente querendo voltar pra Inglaterra. A infecção se espalhava muito rápido, imagina quantos ingleses não estariam viajando, fora da Inglaterra, quando estourou a infecção? Eles iam querer voltar pra casa! Fazer o filme 28 anos depois da infecção me pedia uma suspensão de descrença que não consegui aceitar.

Mas, isso é problema meu, não do filme. Se vejo um filme de super heróis, preciso acreditar que o cara tem super poderes. Um dia vou rever Extermínio 3 e talvez tenha uma segunda opinião.

Enfim, vamos ao Extermínio 4. Este é o segundo de uma trilogia no universo dos dois primeiros filmes. Extermínio 3, o terceiro filme, mas primeiro da nova trilogia, terminava com uma cena “Power Rangers”, mostrando um grupo que lutava fazendo coreografias e usando roupas coloridas (aliás, essa cena me fez gostar ainda menos do filme). O quarto filme começa a partir daí: a entrada do garoto Spike nesse problemático grupo. Paralelo a isso, vemos o dr. Kelson estreitando o relacionamento com o infectado Samson, e fazendo experimentos com remédios.

A direção é de Nia da Costa, que não tem um bom currículo (ela fez o Candyman novo, que é meio fuén, e As Marvels, que é ainda pior). Mas ela manda bem aqui. Em algumas partes ela emula o ritmo frenético usado pelo Danny Boyle nos outros filmes, mas em outros trechos temos mais foco nos personagens e seus objetivos. Além disso, ela usa a música como em nenhum dos outros três filmes foi usada (já retorno a esse ponto).

O elenco está muito bem. O filme se divide bem entre os três principais nomes. Alfie Williams, que era o verdadeiro protagonista do filme anterior, aqui está ok como um garoto que acidentalmente caiu numa roubada e precisa dar um jeito de escapar. Jack O’Connel está ótimo como o alucinado e megalomaníaco líder dos Jimmies, um cara que cresceu e viveu a vida toda sem limites morais e éticos, e agora vive essa rotina louca, misturando poder e religião. E Ralph Fiennes está excelente como o velho médico, sobrevivente, cansado da vida, que se arrisca pra tentar mudar o que está em volta. E ele ouvindo e dançando Iron Maiden é sensacional! Ainda no elenco, Erin Kallyman (de Han Solo) e Chi Lewis-Parry, o infectado alfa.

Sobre a música: descobrimos que o dr. Kelson tem um toca discos. São três momentos dele ouvindo e interagindo com músicas do Duran Duran. Mas a melhor cena é quando ele usa Iron Maiden. Tem uma longa sequência na parte final, ao som de “The Number of the Beast”, que é muito boa, talvez a melhor cena do filme. Só essa sequência já vale o ingresso! Ah, o filme termina com a arrepiante “In the House, in a Heartbeat”, que foi tema do primeiro filme, lá de 2002.

Por outro lado, Extermínio 4 sofre por ser o filme do meio de uma trilogia anunciada. O filme não tem início, quem não viu o 3 vai ficar perdido. E também não tem fim, o filme termina com dois ganchos para o próximo filme. Um deles é bem legal, pra quem acompanha a franquia desde o primeiro filme. Mas, precisa deixar tudo em aberto? Bem ruim isso.

Gostei de Extermínio 4. Depois de ver, tenho até mais boa vontade com o terceiro filme. Quem sabe quando sair Extermínio 5 não faço uma sessão tripla pra ver a trilogia inteira?

O Quarto do Pânico (2025)

Crítica – O Quarto do Pânico (2025)

Sinopse (imdb): Após perder o marido e se mudar, uma mulher e sua filha pré-adolescente se escondem na sala secreta de sua nova casa durante uma invasão. O problema é que os ladrões procuram algo guardado justamente naquele cômodo.

O Quarto do Pânico é um filme de 2002, dirigido por David Fincher e estrelado por Jodie Foster, Kristen Stewart, Forest Whitaker e Jared Leto, Vi na época, lembro que gostei, mas nunca revi. Claro, lembro de pouca coisa do filme. Aí agora apareceu uma refilmagem brasileira. Vou comentar a refilmagem como se não tivesse visto o filme original, ok?

Traumatizada pela perda do marido em um assalto, Mari se muda com sua filha para uma casa que tem um “quarto do pânico”, um cômodo onde pode se esconder se a casa for assaltada. Claro que a casa será invadida…

A direção é de Gabriela Amaral Almeida, de O Animal Cordial. Gabriela consegue construir um bom clima de tensão ao longo de pouco mais de uma hora e meia de projeção. As reações dos personagens, tanto dos invasores quanto das vítimas, parecem legítimas. Por outro lado, existe um problema em trazer o filme para os dias de hoje, porque tudo hoje em dia é super conectado. E os ladrões conseguem facilmente entrar na casa e cortar os sinais de telefone e internet, não sei se seria algo tão fácil de se fazer. Em 2002 o mundo era menos online, talvez fosse melhor situar o filme naquela época.

(Tem um outro problema, menor, mas preciso citar. Ela está se mudando pra uma mansão cheia de aparatos tecnológicos, mas tem alguma falha na energia elétrica, e a luz de vez em quando pisca. Aí resolveram incluir uma subtrama de “o fantasma do seu marido está observando através das luzes piscando”. Sério? Quem tem dinheiro pra se mudar pra uma casa dessas tem dinheiro pra chamar um eletricista e checar a fiação da casa! Essa subtrama do fantasma do marido ficou péssima!)

O nome principal do elenco é Isis Valverde, que está ok (pelo menos está bem melhor que em Código Alarum). Mas o melhor do elenco está nos três invasores, cada um com uma personalidade diferente. André Ramiro faz o “ladrão profissional”, o lance dele é o roubo e só; Caco Ciocler faz um cara que prefere a violência quando surge um problema; e Marco Pigossi está ótimo como o ladrão completamente alucinado. Curti o over acting!

Provavelmente alguns dos elogios aqui seriam feitos igualmente ao filme original, não sei se tem algo aqui que se sobressai. Mas, defendo quando o cinema nacional sai do óbvio. E não é todo dia que vemos um suspense feito no Brasil. Então O Quarto do Pânico tem a minha defesa, mesmo que seja ideia reciclada.

O Quarto do Pânico passou no Festival do Rio do ano passado, mas não vai ser lançado no cinema, foi direto pro streaming.

Exit 8

Crítica – Exit 8

Sinopse (imdb): Um homem se perde numa passagem subterrânea. Seguindo um guia, eventos estranhos acontecem. Será este espaço real? Conseguirá escapar?

Ano passado, na live de Halloween do Otavio Ugá, ouvi falar desse Exit 8. Na época não consegui ver, mas ele apareceu agora de “maneira alternativa”, aí finalmente consegui ver.

Dirigido por Genki Kawamura, Exit 8 é baseado no jogo homônimo – que heu nem sabia que existia. Mas vendo o filme a gente consegue sacar qualé a do jogo. Um cara se vê preso num loop, num corredor do metrô, e precisa seguir uma regra simples: se existe alguma anomalia no corredor, precisa voltar, se não, segue em frente – por 8 fases. Tipo um “jogo dos sete erros”, se existe algo diferente no cenário, precisa voltar. Se erra, volta pra fase 0. Assim, vemos o personagem passando dezenas de vezes pelo mesmo corredor, em loop.

Quem me conhece sabe que gosto de cinema bem filmado. E aqui em Exit 8 tem algumas sequências que são impressionantes. O filme abre com um plano sequência de quase 8 minutos, mostrando o ponto de vista do protagonista, primeiro dentro de um vagão de metrô, depois por corredores de uma estação cheios de gente, até chegar no tal corredor onde acontece o loop. E são vários takes longos com o personagem andando pelos corredores repetidos.

A gente sabe que quase todo plano sequência hoje em dia tem emendas digitais. O cara filma até certo ponto, aí corta e depois recomeça como se fosse o mesmo take, e depois emenda digitalmente. Não achei nenhuma informação sobre as filmagens aqui, mas provavelmente fizeram isso, porque se não teriam que ter feito dezenas de corredores iguais. Tem um corredor mais longo, depois três mais curtos fazendo um “S”, pra voltar ao corredor longo. O lance é que são takes longos, com câmera em movimento, sem “pontos de corte óbvios” (como quando a câmera passa por trás de uma pilastra, por exemplo). Essa parte técnica do filme é de “explodir cabeças”! Fiquei procurando pontos de corte e não achei!

Agora, precisamos reconhecer que falta história. O filme tem pouco mais de uma hora e meia e não tem história pra todo esse tempo. A primeira parte do filme é excelente, o protagonista acabou de receber uma ligação da namorada dizendo que está grávida, e ele se vê atordoado sem saber como agir. O filme não deixa claro, mas a minha interpretação é que isso tem a ver com estar preso num loop – ele não sabe qual é a melhor decisão a tomar para direcionar a sua vida, assim como não sabe qual é o melhor caminho para sair do labirinto. O problema é que isso não dá pra preencher um longa metragem. Aí o roteiro muda perto do meio, e a segunda metade não é tão boa.

Existe um personagem secundário que é tipo um npc (non player character, ou “Personagem Não Jogável”, aquele personagem que não é controlado pelo jogador e segue uma rotina repetitiva) – a única função do cara é ser parte do cenário. Mas aí o filme resolve mudar o ponto de vista e em vez do protagonista, passamos a acompanhar este npc. Nada contra mostrar a vida de um npc, já vimos até filme com isso (Free Guy), o problema é que o personagem que conhecemos nessa segunda parte não tem nada a ver com o que vemos na primeira. Além disso não sabemos qual é a história dele para estar preso nesse labirinto, o filme não entrega nenhum background do personagem. Caramba, se você vai expandir sua história para outro personagem, crie um contexto!

Além disso, a parte final tem alguns exageros que fogem bastante da intrigante proposta inicial – o cara procurar alguma falha no cenário é muito mais interessante do que uma inundação que veio do nada e vai pra lugar nenhum.

Mesmo assim, a parte técnica da primeira metade do filme é tão hipnotizante que acabei o filme com vontade de rever, pra ficar procurando anomalias junto com o personagem.

Ah, existe uma cena pós créditos, mas é a cena mais besta possível. Vemos o corredor vazio. Só.

Exit 8 tem previsão de chegar ao circuito brasileiro no fim de abril. Provavelmente verei de novo no cinema.

O Som da Morte

Crítica – O Som da Morte

Sinopse (imdb): Um grupo de estudantes desajustados do ensino médio se depara com um artefato amaldiçoado, um antigo apito mortal asteca. Eles descobrem que, ao soarem o apito e ouvirem o som aterrorizante que ele emite, suas futuras mortes os assombrarão.

Bora pra mais um terror genérico?

Em O Som da Morte (Whistle, no original), um grupo de jovens estudantes acha um antigo apito maia (ou asteca – já vou comentar sobre isso), e todos os que ouvem o som desse apito são perseguidos pela morte.

Sim, a premissa parece Premonição. A diferença é que em Premonição as pessoas que estão fugindo da morte acabam sofrendo acidentes bizarros e imprevisíveis (e isso acabou sendo o melhor da saga), enquanto aqui a pessoa é perseguida pelo seu “eu futuro”. Tipo assim: se você vai morrer daqui a dez anos em um acidente, você passa a ser perseguido por um fantasma que é você acidentado, dez anos mais velho.

(Existe um problema de conveniência de roteiro. A velocidade que o fantasma te alcança depende de quanto o roteiro está precisando. Pode ser imediatamente, pode ser depois de dias. Mas, não vou reclamar, porque isso é algo recorrente em filmes assim – inclusive no citado Premonição.)

O Som da Morte até tem seus méritos, mas o roteiro é bem fraco. Por exemplo, a protagonista se muda pra casa do primo, e o filme nem mostra se existe uma família ou não (são adolescentes, deveria ter um pai e/ou uma mãe). Todo o núcleo de personagens é muito mal elaborado, eles não se gostam, mas do nada inventam uma festa e todos são convidados – e só eles estão presentes, não tem mais ninguém. Isso sem contar as facilitações tipo um professor que consegue ler o que está escrito em asteca (ou maia), ou uma personagem que só entra em cena para dizer fatos exatos sobre o artefato. Além disso, o roteiro é cheio de clichês que parecem tirados de outros filmes. Tem Premonição, tem Fale Comigo, tem Sorria 2, tem Linha Mortal, tem até Clube dos Cinco!

(Sobre o maia ou asteca: determinada cena eles estão pesquisando cultura asteca, outra cena é cultura maia. Afinal, o artefato vem de onde?)

Mesmo assim, não achei de todo ruim. A direção é de Corin Hardy, de A Freira e da série Gangs of London. Tem algumas boas sacadas na direção, gostei do plano sequência na feira. E algumas mortes são bem legais – a do acidente de carro ficou muito boa.

No elenco, o papel principal é de Dafne Keen, a X23 de Logan. Sophie Nélisse, de Yellowjackets, é talvez a melhor num elenco fraco. O filme também tem participações especiais de Nick Frost e Michelle Fairley.

Tem uma cena no meio dos créditos com um gancho para uma possível continuação. Mas na minha humilde opinião podia parar por aí mesmo.

Dupla Perigosa

Crítica – Dupla Perigosa

Sinopse (imdb): Uma dupla improvável de meio-irmãos, um detetive impulsivo e outro disciplinado, é atraída pelo assassinato de seu pai no Havaí, levando-os a uma jornada perigosa para desmascarar uma conspiração de longo alcance.

Outro dia vi um videozinho no Instagram com a Morena Baccarin e o Jason Momoa, ele fala com ela em espanhol, e ela responde “I don’t speak spanish, cause I’m from Brasil. I speak portuguese. Seu idiota!” Fui catar de onde era e achei este Dupla Perigosa / The Wrecking Crew, estreia da Prime, com os dois, mais Dave Bautista e Temuera Morrison no elenco. Aproveitei pra ver.

A direção é de Angel Manuel Soto, de Besouro Azul (onde, coincidência ou não, ele dirigiu outra brasileira, Bruna Marquezine). Ele apresenta um resultado cheio de cenas de ação e bom humor. É previsível? Sim, totalmente. Mas sabe aquele feijão com arroz bem feito? É o caso aqui. Soto usa bem os clichês a favor de seu filme.

Tecnicamente, Dupla Perigosa é muito bom. Abre com um plano sequência que começa num take aéreo de uma cidade, entra numa rua onde acontece uma festa popular e segue uma perseguição a pé no meio de uma multidão. E temos várias cenas de lutas bem filmadas – a primeira, com Jason Momoa seminu contra três membros da Yakuza, é divertidíssima. No quesito “tiro porrada e bomba”, Dupla Perigosa não decepciona.

Agora, a gente sabe que é um filme de ação descompromissado, mas tem algumas coisas que forçaram a barra demais. Determinado momento do filme, os personagens estão num carro, sendo perseguidos por vilões armados, numa moto e num helicóptero. Ok, cena cheia de adrenalina, mas… Em primeiro lugar: como os vilões sabiam onde os mocinhos estavam? E se sabiam, não seria mais fácil num lugar menos “aberto”? Mais: era um elevado com duas pistas, cheio de carros batidos e capotados. Como um carro consegue escapar? Não tem espaço! Ok, sei que metade dos filmes com cenas de perseguição têm o mesmo problema, mas é algo que precisa ser dito: quando um carro capota e atravessa a estrada, não dá pra passar!

Heu até aceitava essa cena do helicóptero. Cena absurda, mas está dentro do limite aceitável em filmes do gênero. Mas teve outra que não deu pra passar. Um milionário, badalado na sociedade, quer construir um grande empreendimento – ilegal, mas ele quer mexer os pauzinhos para conseguir seu objetivo. Aí em determinado momento ele grava um vídeo, mostrando o rosto, dizendo que sequestrou pessoas. Galera, esse cara NUNCA iria mostrar o rosto num vídeo que mostra uma ação criminosa! Seria o seu fim!

O elenco é bom. Jason Momoa e Dave Bautista são carismáticos e funcionam bem juntos. E ambos têm porte físico compatível com a proposta de filme de ação com porradaria. Jacob Batalon, o amigo gordinho do Homem Aranha, faz um bom alívio cômico. Morena Baccarin, Roimata Fox e Frankie Adams estão bem, mas têm pouco espaço, Dupla Perigosa é assumidamente um “filme de meninos”. Claes Bang está apenas ok como antagonista, confesso que gostei mais do vilão secundário vivido por Miyavi, o japonês com o corte no rosto, ele aparece pouco, mas pareceu um personagem bem melhor. Por fim, Maia Kealoha, a filha do Dave Bautista, é a Lilo do recente Lilo & Stitch.

Pra quem gosta de filme de ação onde não precisa usar muito o cérebro, Dupla Perigosa é uma boa opção. E, já disse outras vezes mas não canso de repetir: pra mim, “cinema é a maior diversão”, então Dupla Perigosa se encaixa nos meus critérios. Me diverti vendo, apesar dos clichês e da previsibilidade.

Por fim, queria implicar com o título nacional. “The Wrecking Crew” seria algo como “equipe de demolição” – o nome original não é bom. Mas, “Dupla perigosa”??? Detalhe: não é uma dupla qualquer, são irmãos! O título nacional parece uma comédia besta de sessão da tarde! O filme merecia mais do que isso!

Destruição Final 2

Crítica – Destruição Final 2

Sinopse (imdb): A família sobrevivente Garrity deve deixar a segurança do bunker da Groenlândia e embarcar em uma jornada perigosa pelo deserto gelado dizimado da Europa para encontrar um novo lar.

Antes de falar do filme, um comentário irônico sobre o título nacional. Afinal, se teve uma “destruição final”, o segundo filme seria uma hora e meia de tela preta! Mas entendo a mudança, afinal, o nome original, “Groenlândia”, não é um nome muito bom pra vender ingressos. Pior foi com “28 Dias”, que resolveram chamar de “Extermínio”. Aí quando veio a continuação, “28 semanas”, virou “Extermino 2″…

Enfim, vamos ao filme. Em 2020, tivemos Destruição Final O Último Refúgio, um filme catástrofe com uma pegada um pouco diferente. O foco do filme não era na catástrofe em si, e sim nas pessoas tentando sobreviver. Boa ideia, um filme diferente do óbvio, pena que não era exatamente um grande filme. Agora temos uma continuação dirigida pelo mesmo Ric Roman Waugh e estrelada pelos mesmos Gerard Butler e Morena Baccarin (trocou o ator que faz o filho, agora é Roman Griffin Davis, de Jojo Rabbit e A Longa Marcha).

No primeiro filme, um cometa se chocou com a Terra, matando boa parte da população e alterando várias coisas da natureza que conhecemos. Os personagens se salvaram porque se isolaram num bunker. Cinco anos depois, em Destruição Final 2 (Greenland 2: Migration, no original), a vida no bunker não está muito fácil, e rola uma teoria de um local onde a sobrevivência seria mais viável: a cratera causada pelo choque do cometa, que fica na França. A família tenta então ir até lá – daí o “migration” do título original.

Destruição Final 2 não é um grande filme. Mas, alguém esperaria ver um grande filme numa continuação daquele que já não foi tão grandes coisas assim? Pensando sob este aspecto, Destruição Final 2 não é ruim. É um filme competente, traz algumas boas sequências, outras nem tanto, mas, distrai o espectador por pouco mais de uma hora e meia.

O roteiro tem aquele formato em etapas: a família tem que enfrentar um obstáculo de cada vez – como se fossem fases de um videogame. Algumas dessas fases são boas, admito que gostei da passagem pelo Canal da Mancha sem água, a sequência é absurda, mas é tensa e bem filmada. Outras fases são exageradas além do ponto – tem um momento onde eles atravessam uma guerra, no meio de trincheiras e soldados em fogo cruzado. Essa parte da guerra foi desnecessária…

Como disse antes, Destruição Final 2 não é um grande filme. Mas se você estiver com expectativa baixa, vai curtir.

O Primata

Crítica – O Primata

Sinopse (imdb): De volta da faculdade, Lucy se reúne com sua família, incluindo seu chimpanzé Ben. Ben contrai raiva e se torna agressivo. Lucy e seus amigos se barricam na piscina, inventando maneiras de sobreviver.

O Primata (Primate, no original) estava no Festival do Rio do ano passado, mas perdi a sessão – até fui convidado, mas era num horário ruim pra mim, não fui. Mas um amigo viu e elogiou. Não teve sessão de imprensa, então aproveitei que estreou e fui ver qualé.

O Primata traz uma premissa simples. Um chimpanzé que vive com uma família contrai raiva, e sai matando todo mundo. Só isso, uma espécie de slasher, só que o assassino é um macaco. O diretor Johannes Roberts falou que é um grande fã de Stephen King e se inspirou em Cujo, livro de 1981, que virou filme em 83, onde um cachorro são bernardo contrai raiva e vira um animal assassino.

Johannes Roberts não tem nenhum grande filme no currículo. Ele fez aquele Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City, de 2021, bem ruim; assim como o segundo Os Estranhos, de 2018, que também não é bom. O formato de O Primata lembra mais seu filme de 2017, Medo Profundo, um filme “pequeno”, onde alguns poucos personagens precisam lutar pela sobrevivência durante um curto período de tempo. Curiosamente, nos dois filmes o antagonista é um animal.

Um dos trunfos é a maquiagem do chimpanzé. Não foi usado cgi, Ben é interpretado pelo ator Miguel Torres Umba, e a equipe de filmagem usou próteses e marionetes para transformá-lo em um animal convincente e assustador. entendo a facilidade de se usar efeitos digitais, mas sou um defensor dos efeitos práticos, e aqui foi mais um caso que prova o meu ponto.

No elenco não tem ninguém muito conhecido, mas, temos um ganhador de Oscar. Troy Kotsur, que faz o pai, ganhou Oscar de melhor ator coadjuvante por Coda – No Ritmo do Coração. Kotsur é surdo, e esse detalhe foi incluído na trama de maneira inteligente – o chimpanzé também não fala, ele usa gestos e um aparelho para se comunicar. Ter um personagem surdo foi uma boa sacada.

(Não entendo de chimpanzés. Sei que macacos, de um modo geral, são seres inteligentes. Mas o Ben faz coisas que não sei se dá pra acreditar, como, por exemplo, usar uma chave de carro pra trancar e destrancar o veículo. Mas não digo que isso é uma falha, precisaria estudar mais sobre o assunto.)

O Primata tem muito gore. São várias mortes, e algumas são muito violentas. O espectador que gosta de violência gráfica vai curtir. A trilha sonora de Adrian Johnston, que parece uma variação do Tubular Bells do Exorcista, tocada pelo sintetizador do John Carpenter, também é muito boa.

O Primata não é um filmaço, mas é uma diversão honesta pra quem curte o gênero.

Dinheiro Suspeito

Crítica – Dinheiro Suspeito

Sinopse (imdb): Um grupo de policiais de Miami descobre um esconderijo de milhões em dinheiro, o que causa desconfiança ao saber da enorme apreensão, fazendo-os questionar em quem confiar.

Dinheiro Suspeito quase entrou na minha lista de expectativas para 2026. Gosto da dupla Matt Damon e Ben Affleck, e gosto de alguns filmes do diretor Joe Carnaham. Mas o Carnaham dirigiu um filme tão fuén ano passado (Shadow Force), que fiquei com o pé atrás. Felizmente desta vez Carnaham voltou a acertar. Dinheiro Suspeito não é um filme para listas de melhores do ano, mas é uma honesta diversão.

Um grupo de cinco policiais recebe uma denúncia sobre uma apreensão de 150 mil dólares. Mas quando chegam ao local, encontram 20 milhões de dólares. Com essa grande diferença, um começa a desconfiar do outro. O que fazer? Devolver todo o dinheiro ou guardar um pouco para cada? E se um dedurar os colegas?

O grande trunfo aqui é essa escalada de desconfiança. E o roteiro é bem estruturado, é um quebra cabeças com algumas peças faltando, que são reveladas ao longo da parte final do filme.

Por outro lado, é um “filme Netflix” – o roteiro tem tudo muito explicado. Affleck e Damon deram entrevistas revelando que a Netflix adota esse formato de entregar tudo muito mastigado porque o filme é direcionado a pessoas que ficam no celular, sem prestar atenção. Ou seja, quem está assistindo “de verdade” vai reparar que tem coisa que não precisava ser tão explicada…

O elenco é bom. Além de Damon e Affleck, que trabalham juntos há décadas e por isso têm uma excelente química, Dinheiro Suspeito conta com Steven Yeun, Teyana Taylor, Catalina Sandino Moreno, Sasha Calle, Kyle Chandler, Scott Adkins e Nestor Carbonell.

Como falei no início, não é um grande filme. Mas não vai decepcionar o espectador que curte suspense e ação.

Justiça Artificial

Crítica – Justiça Artificial

Sinopse (imdb): Depois de ser acusado de um crime violento, um policial é forçado a provar sua inocência.

O diretor russo Timur Bekmambetov chamou a atenção de Hollywood com os filmes Guardiões da Noite (2004) e Guardiões do Dia (2006). Dirigiu poucos filmes nos EUA (O Procurado, Abraham Lincoln Caçador de Vampiros, Ben Hur), mas tem atuado muito como produtor. E dentre seus filmes como produtor, está por trás de alguns projetos que usam o screenlife – formato onde o filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. Ele produziu bons filmes em screenlife, como Buscando e Desaparecida, mas também filmes bem ruins, como o Guerra dos Mundos do ano passado.

Depois de cinco anos, Bekmambetov está de volta à cadeira de diretor. Justiça Artificial (Mercy, no original) apresenta uma Inteligência Artificial que é juiz, júri e executor ao mesmo tempo. O acusado tem 90 minutos para provar sua inocência, se não é condenado à morte. Durante esses 90 minutos, ele pode acessar arquivos em quaisquer computadores e celulares. O lance é que o acusado agora é Chris Raven (Chris Pratt), um dos policiais que trabalhava levando criminosos para esse sistema.

Justiça Artificial usa elementos do screenlife, mas não se passa todo dentro da mesma tela. Chris passa o filme sendo julgado pela IA interpretada pela Rebecca Ferguson, e muita coisa é jogada na tela, como se fossem pop-ups mostrando arquivos de câmeras de segurança e chamadas de vídeo, dentre outras coisas.

O filme se passa em “tempo real”, vemos um cronômetro ao lado da tela quase o tempo todo. Por um lado, isso é ruim porque sabemos que nada de conclusivo vai acontecer na primeira hora de filme. Mas por outro lado a tensão é bem construída ao longo de toda a projeção.

Claro, o roteiro tem algumas facilitações. O formato de roteiro escolhido cai nos clichês esperados, tipo as pistas falsas até o clímax. E achei forçado não conseguirem parar o caminhão na parte final – cadê aquelas metais pontudos que usam pra furar pneus? Além disso, o filme podia acabar antes do último plot twist, me pareceu um certo exagero. Nada grave, felizmente.

No elenco, quase todo o filme é em cima da dupla Chris Pratt e Rebecca Ferguson. Ela faz uma IA, então acho que poderiam usar um filtro e deixá-la um pouco mais artificial – mas isso não é exatamente um problema, é só um head canon meu, ambos estão ok. Também no elenco, Kali Reis, Annabelle Wallis, Chris Sullivan e Kylie Rogers.

Justiça Artificial não entrará em nenhuma lista de melhores. Mas vai agradar o espectador comum.