O cinema brasileiro não vive um bom momento

Polêmica: “O cinema brasileiro não vive um bom momento”!

Vou expor uma opinião polêmica: na minha humilde opinião o “cinema brasileiro” não vive um grande momento. Estou muito feliz com as vitórias internacionais conquistadas por Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, são dois grandes filmes (achei o primeiro bem melhor, mas reconheço os méritos do segundo), ano passado Ainda Estou Aqui ganhou Globo de Ouro de melhor atriz e Oscar de filme internacional – o primeiro Oscar 100% brasileiro; este ano O Agente Secreto acabou de ganhar Globo de Ouro de melhor ator e melhor filme em língua não inglesa e tem grandes chances de estar no próximo Oscar.

“Caramba, Helvecio, se você reconhece o sucesso internacional desses dois filmes, por que fala que não vivemos um bom momento?”

É porque, pelo meu ponto de vista, são casos isolados. O cinema brasileiro ainda é muito fraco. Ter um bom filme aqui, outro ali, não significa que o resto dos filmes traz qualidade parecida. Vou citar dois exemplos tirados da música. Nos anos 70, o ABBA foi um dos grupos musicais mais vendidos de todos os tempos, com sucessos como “Dancing Queen” e “Mamma Mia” – mas outros suecos a alcançar o sucesso só apareceram anos depois, como Europe e Roxette. Outro exemplo: Shakira faz sucesso mundial, mas não saberia dizer outro artista colombiano.

E aí mando a pergunta que não quer calar: cadê o “terceiro filme” brasileiro? Se vivemos um bom momento, era pra ter outros grandes filmes nos anos anteriores ou com estreia próxima. Cadê outros filmes com capacidade semelhante de fazerem bonito internacionalmente falando?

Vamos pegar o audiovisual sul-coreano. Park Chan-wook conseguiu um grande sucesso em 2003 com Oldboy, e está cotado este ano pra concorrer ao Oscar de filme internacional com o seu A Única Saída. Kim Ki-duk ganhou prêmios em Berlim e Veneza em 2004. Lee Chang-dong ganhou prêmios em Veneza em 2002 e em Cannes em 2010 e 2018. Hong Sang-soo ganhou prêmios em Berlim em 2020, 21 e 24 e já teve filmes exibidos em Cannes em dez edições diferentes. E, claro, Em 2019/20, Bong Joon-ho fez história com Parasita – não só ganhou Palma de Ouro em Cannes, como ganhou quatro Oscars, inclusive foi o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar principal. E isso porque estou falando só de cinema, mas a gente não pode esquecer do grande sucesso mundial da série Round 6. Isso abriu portas pra muitas opções coreanas nos streamings. Podemos dizer que existe cinema sul-coreano atualmente.

Outro exemplo: entre 2014 e 2019, seis anos seguidos, Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro G. Iñárritu, três mexicanos, ganharam cinco Oscars de melhor diretor – Cuarón por Gravidade e Roma, del Toro por A Forma da Água e Iñárritu por Birdman e O Regresso (Damien Chazelle foi o “intruso”, em 2017, com La La Land).

Já o cinema nacional vive de momentos, como aqueles exemplos musicais que citei. Orfeu Negro, co-produção Brasil, França e Itália, ganhou Oscar em 1960, mas o filme foi indicado pela França, não pelo Brasil. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, até hoje o foi único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes (também foi indicado pro Oscar). O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco, tinha cara de filme gringo mas era co-produção Brasil e EUA, foi indicado aos Oscars de melhor filme, diretor e roteiro adaptado, e ganhou melhor ator, pra William Hurt. Central do Brasil (1998), de Walter Salles, ganhou Urso de Ouro em Berlim e foi indicado a dois Oscars, melhor filme em língua estrangeira e melhor atriz (Fernanda Montenegro), mas perdeu ambos. Cidade de Deus (2002) teve 4 indicações ao Oscar (direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem), mas também perdeu todos. Tropa de Elite (2007), de José Padilha, ganhou Urso de Ouro em Berlim. O Quatrilho e O Que É Isso Companheiro também concorreram ao Oscar e não ganharam. Além desses, tivemos outras participações indiretas no Oscar, como Carlos Saldanha, indicado duas vezes, mas por produções gringas; Diários de Motocicleta, outro Walter Salles, mas co-produzido por oito países diferentes, concorreu a melhor roteiro adaptado e ganhou melhor canção (Al Otro Lado Del Rio, de Jorge Drexler); Sergio Mendes e Carlinhos Brown também concorreram a melhor canção em 2012, por Rio, mas não ganharam.

E agora, recentemente, tivemos Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.

Não vejo esse atual momento dos dois premiadíssimos filmes recentes como um ponto de partida para uma grande onda de cinema brasileiro. Na verdade, analisando o quadro geral, acho que são casos isolados. Que, por uma coincidência, vieram um ano depois do outro.

Repetindo o que falei no início: fico feliz pelo sucesso dos dois filmes. Mas infelizmente ainda acho que falta muito pra isso refletir no resto do cinema nacional.

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