Ladrões

Crítica – Ladrões

Sinopse (imdb): O ex-jogador de beisebol Hank Thompson se envolve em uma perigosa luta pela sobrevivência em meio ao submundo do crime da Nova York dos anos 90, forçado a navegar em um submundo traiçoeiro que ele nunca imaginou.

A primeira coisa que precisamos falar do novo filme dirigido por Darren Aronofsky é que não tem cara de Darren Aronofsky. Não sei se foi um trabalho encomendado por um estúdio, ou se o diretor simplesmente resolveu variar o estilo. Isso pode ser uma boa ou uma má notícia, dependendo se você é fã dos filmes dele ou não. O fato é que não se deve esperar um filme no estilo que ele está acostumado a apresentar.

Lembro de quando vi Pi em alguma TV a cabo no início do século. Vi algum valor no filme, mas definitivamente não gostei. Aliás, o único filme do Aronofsky que realmente gosto é Cisne Negro – mas reconheço qualidades em outras obras, como Réquiem Para um Sonho, Noé e Mãe. Seus filmes normalmente são cheios de simbolismos, sempre têm um pé no filme cabeça. E Ladrões (Caught Stealing, no original) não tem nada disso. Além de ser bem humorado, é um filme mais, digamos, direto – o que heu não acho nada ruim, diga-se de passagem.

(Na saída da sessão de imprensa, um amigo comentou que Ladrões parecia um filme do Guy Ritchie. Ok, a comparação tem lógica, Ladrões tem violência, humor e personagens marginais esquisitões. Mas, pelo menos pra mim, o “estilo Guy Ritchie” tem mais a ver com edição de cortes rápidos do que personagens esquisitos. Dito isso, ok, concordo que poderia ser um novo Guy Ritchie.)

Nova York, anos 90. Quando mais jovem, Hank (Austin Butler) era uma promessa no baseball, mas sofreu um acidente e teve que largar o esporte. Vive como barman e tem uma vida tranquila com a namorada. Até que Hank recebe um pedido de seu vizinho punk para que cuide do seu gato enquanto ele precisa viajar, e isso o coloca no meio de uma briga entre violentos mafiosos ucranianos e igualmente violentos judeus ortodoxos. E cada dia que se passa, Hank está mais envolvido, mesmo sem ter nada a ver com isso inicialmente.

O clima é meio Depois de Horas, do Scorsese. Em ambos os filmes, o protagonista quer voltar à sua vida normal, mas continua cada vez mais envolto em uma situação onde ele não queria estar. Aronofsky disse que foi coincidência, mas Griffin Dunne, protagonista de Depois de Horas, tem um papel aqui.

Aliás, Ladrões tem um elenco estelar, e todos estão muito bem. Austin Butler está muito bem, num papel bem diferente dos seus dois papéis famosos recentes, em Elvis e Duna. Confesso que não reconheci Griffin Dunne, quando subiram os créditos deu vontade de “rebobinar a fita” pra ver o personagem. Matt Smith está engraçadíssimo como o punk, e Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio estão quase irreconhecíveis como os judeus ortodoxos. Também no elenco, Regina King, Zoë Kravitz, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov, Bad Bunny, Carol Kane e Tenoch Huerta – o Namor da Marvel – tem uma ponta no finzinho do filme. Ah, passamos o filme todo ouvindo a voz da mãe do protagonista, mas ela só aparece em uma cena no meio dos créditos, e vemos que é a Laura Dern – não creditada. Por fim, o gato é interpretado por Tonic the Cat, em seu terceiro filme! (os outros foram Cemitério Maldito de 2019 e Feriado Sangrento).

Ladrões tem um bom ritmo. O clima é tenso, tudo se passa em alguns dias, e estamos sempre acompanhando as roubadas onde o protagonista está envolvido. O filme é bem violento, mas sabe equilibrar com alguns momentos bem engraçados.

Pra quem curte ver créditos: foram animados no ritmo da música e ficam mudando o tempo todo. Boa sacada.

Como falei no início, Ladrões não tem cara de Aronofsky. Mas reconheço que gostei desta nova faceta do diretor.

Clube dos Vândalos

Critica – Clube dos Vândalos

Sinopse (imdb): Acompanha a ascensão de um clube de motociclistas do meio-oeste americano por meio da vida de seus membros.

Clube dos Vândalos (The Bikeriders, no original) se inspira no livro “The Bikeriders”, lançado em 1967 pelo fotógrafo Danny Lyon, pra mostrar a criação do moto clube Vandals, na Chicago dos anos 60. O elenco é ótimo, a reconstituição de época é perfeita, a trilha sonora é boa. Mas…

Senti que falta história pra ser contada. Clube dos Vândalos foi escrito e dirigido por Jeff Nichols, diretor que já está por aí há algum tempo, mas heu ainda não tinha visto nada dele. Me pareceu que ele quis emular o estilo do Scorsese e criar um filme de gangsters, dentro de um moto clube. Acertou na parte da ambientação, mas faltou história. São quase duas horas acompanhado a vida daqueles caras, mas a trama não te leva pra lugar algum. Simplesmente vemos um retrato da vida daquelas pessoas.

Pelo que entendi, o livro “The Bikeriders” é um livro só de fotos, sem texto. Sendo assim, temos um caso diferente de roteiro adaptado, já que o livro base só tem imagens (durante os créditos, inclusive, rolam algumas das fotos originais). Deve ser por isso que o filme não tem exatamente uma historia a ser contada. Ou seja, temos um belo visual, boa fotografia, bons figurinos, boa reconstituição de época – mas o roteiro em si é fraco.

Outro problema é no elenco. São vários grandes atores, mas senti que alguns estão sub aproveitados. O protagonismo é bem dividido entre três personagens – Jodie Comer, Austin Butler e Tom Hardy. Heu diria que, se tem um principal, seria a Kathy da Jodie Comer, que inclusive narra parte dos acontecimentos. Jodie está bem, assim como Tom Hardy. Mas achei curioso ver que Austin Butler, que abre o filme e aparenta ser o principal, é um personagem de certa forma descartável, tanto que em determinado momento ele sai de cena e o filme segue. Caramba, o cara acabou de ser indicado ao Oscar por Elvis e foi uma das melhores coisas de Duna 2, e aqui ele é desperdiçado. O mesmo posso dizer sobre Michael Shannon, que faz um papel que qualquer ator faria. Também no elenco, Mike Faist, Boyd Holbrook e Norman Reedus.

Apesar dessas críticas, Clube dos Vândalos não é ruim. Grandes atores criam bons personagens, e como falei, a ambientação de época é ótima. mas, se tivesse um fio guiando a trama, seria um filme bem melhor.

Duna: Parte 2

Crítica – Duna: Parte 2

Sinopse (imdb): Diante da difícil escolha entre o amor de sua vida e o destino do universo conhecido, Paul Atreides, agora ao lado de Chani e dos Fremen, dará tudo de si para evitar o futuro terrível que só ele pode prever.

Estreou a aguardada continuação de Duna, de 2021. Heu tinha um receio sobre o final do filme, mas achei satisfatório – mais tarde volto a esse assunto.

Mais uma vez dirigido por Dennis Villeneuve, Duna: Parte 2 é um filmão, com tudo de superlativo que isso carrega. Elenco recheado de estrelas, cenários fantásticos, figurinos caprichados, trilha sonora excelente, tudo aqui é grandioso.

Não li os livros, tudo o que conheço do universo de Duna aprendi no filme de 2021 e no filme de 1984 dirigido por David Lynch. Um amigo que leu comentou que tem coisa diferente, mas faz parte do conceito de “adaptação”.

A história já começa de onde o primeiro filme acabousim, precisa ver ou rever o filme de 2021, senão você pode ficar um pouco perdido. Agora Paul Atreides está com o povo Fremen e precisa lutar contra os Harkonnen, enquanto rola um questionamento religioso se ele seria o novo messias.

Nem sei por onde começar a falar. Acho que posso começar com o visual do filme. Não tenho ideia do quanto foi filmado em locações e quanto foi filmado em estúdio. Mas podemos afirmar que absolutamente nada parece artificial. Se existe tela verde e cgi (e deve ter de monte), não aparece na tela. Cenários, figurinos, props, efeitos especiais, efeitos sonoros, tudo é tecnicamente perfeito.

Vi o filme no Imax. Não só a imagem é ótima, como o som estava muito alto (em algumas cenas, as poltronas do cinema tremiam!) Todo o som do filme é impressionante, tanto a trilha sonora de Hans Zimmer quanto os efeitos sonoros – o efeito usado nas vozes imperativas é assustador.

Vou copiar um parágrafo que escrevi no texto do primeiro filme, porque repito o mesmo comentário: “De vez em quando falam coisas como “o streaming vai matar o cinema”. Olha, a não ser que você seja muito rico e tenha uma sala de cinema especialmente construída na sua casa, não tem como barrar a experiência de ver um filme desses numa sala de cinema, com uma tela grande e um som equilibrado em volta. Duna é filme pra se ver no cinema!

Uma coisa que heu não me lembrava era toda a pegada religiosa. Paul Atreides vira quase um líder de uma seita extremista. E o personagem do Javier Bardem está ótimo como o cara que alimenta todo o fanatismo em volta desse messias.

O elenco é excelente. Timothée Chalamet está muito bem como o protagonista, e, apesar de ser magrelo, convence quando precisa assumir o papel de liderança. Mas quem rouba a cena é Austin Butler (o Elvis!) como Feyd-Rautha, papel que foi do Sting na versão de 84. Butler está assustador! Muito mais do que Dave Bautista que tem porte físico para colocar medo nos adversários.

(Uma curiosidade: Villeneuve disse que pensou no personagem como uma mistura entre o Mick Jagger, um assassino psicopata, um espadachim olímpico e uma cobra. Mick Jagger foi cotado para viver o mesmo personagem na versão de Alejandro Jodorowsky que nunca foi terminada.)

Ainda no elenco, vou contra a maré. Achei que a Zendaya foi o ponto fraco. A personagem dela gosta do Paul, mas resolve não apoiar o lado messiânico, e na minha humilde opinião ela não conseguiu trabalhar bem essa dualidade. Não estraga o filme, mas todo o resto está melhor.

Também no elenco, Rebecca Ferguson, Josh Brolin, Florence Pugh, Christopher Walken, Léa Seydoux, Stellan Skarsgård e Charlotte Rampling, além do já citado Javier Bardem. E uma curiosidade: Anya Taylor-Joy está no filme mas só aparece em uma cena! Piscou, perdeu!

É um filme longo, duas horas e quarenta e seis minutos. Vai ter gente dizendo que é um filme chato. Mas heu consegui “entrar” no filme e em nenhum momento me cansou.

Por fim, gostaria de falar sobre o final do filme. Heu tinha um pé atrás porque o imdb já falava sobre um terceiro filme, e fiquei traumatizado com o Aranhaverso 2, filme que não tem fim. Mas, a boa notícia é que Duna Parte 2 faz o correto: encerra a história que estamos vivendo, e deixa pontas soltas para serem resolvidas num possível terceiro filme. Mas, se não tiver esse terceiro filme, ok, temos um encerramento.

Filmão. Grandes chances de top 10 do ano.

Elvis

Elvis

Sinopse (imdb): Elvis segue a história do infame astro do rock n roll Elvis Presley, visto pelos olhos de seu controverso empresário, o coronel Tom Parker. O filme explora os altos e baixos de Elvis Presley e os muitos desafios e controvérsias que ele recebeu ao longo de sua carreira.

Vamos para uma daquelas críticas muito rápidas? “Cinebiografia do Elvis Presley dirigida por Baz Luhrmann”. Isso já é o suficiente pra gente saber o que esperar. Mas, bora desenvolver.

Baz Luhrmann é um cara extravagante, a gente já sabe disso desde Romeu + Julieta e Moulin Rouge. Isso já fica claro antes do filme começar, quando aparece o logo da Warner todo enfeitado – parecendo que saiu do Moulin Rouge.

Apesar disso, o roteiro segue um formato bem tradicional de cinebiografias. A história é contada pelo Coronel Tom Parker, que foi o empresário do Elvis em toda a sua carreira (e que é um nome envolto em várias controvérsias). E o filme começa com o Coronel vendo o Elvis pela primeira vez, e segue acompanhando o desenvolvimento de sua carreira até o seu falecimento.

O filme é um pouco longo demais, são 2h39min, acho que podia ser menor. E Baz Luhrmann declarou que queria mais, ele disse que tem um corte de 4 horas! Ok, reconheço que a transição para a fase Las Vegas foi meio abrupta, e a gente mal vê o Elvis gordão. Mesmo assim, não acho que precise de 4 horas, o que precisava era reduzir esse.

O que me chamou a atenção foram os arranjos das músicas. Mais uma vez, Baz Luhrmann tem arranjos musicais inventivos e fora da caixinha. As músicas começam com arranjos tradicionais, e elementos diferentes são inseridos, uma bateria eletrônica aqui, uma guitarra pesada ali. E os arranjos soam orgânicos, tudo parece natural aos ouvidos.

O visual do filme também é bem legal, Baz Luhrmann manja dos paranauês quando o assunto é visual rebuscado. Algumas coisas são exageradas (incluindo algumas atuações), mas isso faz parte do pacote.

Existia uma dúvida com relação ao protagonista Austin Butler. Ouvi gente comentando que seria melhor um cara mais parecido com o Elvis (confesso que em algumas cenas ele me lembrava o John Travolta em Grease). Mas o garoto é bom, tem presença, tem carisma, e ainda canta algumas músicas. Austin Butler é um dos grandes acertos do filme!

Outro ponto que chama atenção é Tom Hanks, que está muito bem como o Coronel Tom Parker. Não será surpresa vê-lo concorrendo ao Oscar ano que vem. Também no elenco, Olivia DeJonge, Kodi Smit-McPhee, Helen Thomson, Richard Roxburgh e Kelvin Harrison Jr, mas todos em papéis bem secundários.

BB King tem um papel importante, e vemos Little Richard em uma cena. Heu queria ter visto mais da galera da época, Jerry Lee Lewis, Chuck Berry, talvez os Beatles (que são citados mas não aparecem). Mas admito que é um head canon meu, não é um problema do filme.

Não gostei do fim. Ok, a gente sabe que Elvis morreu, é meio inevitável ter esse baque ao fim. Mas o filme podia terminar com um número musical mais pra cima. Do jeito que terminou, o espectador vai sair deprimido da sala de cinema.

Mesmo assim, é um filmão. Boa opção para quem gosta de filmes ligados à música!