O Morro dos Ventos Uivantes

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

Sinopse (imdb): Uma história de amor apaixonada e tumultuada que tem como pano de fundo os pântanos de Yorkshire, explorando o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw.

Antes de tudo, preciso falar que nunca li o livro. Foram algumas diferentes versões cinematográficas, vi a de 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes, mas vi na época e nunca revi, então não lembrava de nada da história. Como de costume aqui no heuvi, os comentários serão sobre o filme, e não sobre o livro que deu origem.

Só queria fazer um breve comentário, porque ouvi gente reclamando que a escolha do Jacob Elordi seria errada, porque no livro o Heathcliff não é branco. Ora, na versão de 92, Heathcliff era o Ralph Fiennes. Essa reclamação está atrasada, não?

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, no original) é o terceiro filme de Emerald Fennell, que tirou onda ganhando Oscar de melhor roteiro original (além de indicações para filme e diretora) por seu filme de estreia, Bela Vingança, de 2020. Em 2023 ela fez Saltburn, bom filme, mas não tão bom quanto Bela Vingança. E agora chega seu terceiro filme, bem mais fraco que os dois anteriores…

(Detalhe: o título do filme, no poster, está entre aspas. É um meio discreto que Emerald Fennell usou para avisar “galera, este filme não é exatamente a mesma história, é a minha versão, ok?”)

O Morro dos Ventos Uivantes não é bom. Não é um lixo, mas tem muito mais problemas que virtudes. Duas coisas me incomodaram muito, uma sobre a história, a outra do filme em si. Vamos por partes.

Sobre a história, não sei vocês, mas heu tô de saco cheio com gente que alimenta problemas desnecessários. Ele gosta dela, ela gosta dele, mas ninguém fala nada e eles não ficam juntos. Isso não é um problema exclusivo desse livro/filme, isso tem de monte por aí, inclusive na vida real. Galera, qual é a dificuldade de você verbalizar o que você sente por alguém? Pra que problematizar algo que não é um problema? Aí, no filme, vemos Heathcliff decepcionado com algo que ele ouviu – mas não confirmou – e vai embora. E volta anos depois, dizendo que sempre amou Cathy. Cara, se você a ama, por que foi embora? Você se ausentou, “a fila andou”. Agora não reclame! E ela também fica fazendo jogo duro – pra que??? Sei lá, esse tipo de problema me enche o saco.

Agora, sobre o filme, o problema é que é chato e arrastado. São duas horas e quinze, e aquela história poderia facilmente ser contada em uma hora e meia. É impossível passar pela reta final do filme, repetindo a mesma coisa várias vezes, sem ficar olhando pro relógio.

Além disso, O Morro dos Ventos Uivantes tem algumas coisas meio estranhas. O figurino usa umas roupas que parecem de plástico, talvez celofane. Qual é o sentido de usar um tecido que não parece compatível com a época que o filme se passa? Faço o mesmo comentário sobre alguns momentos musicais usando Charlie XCX, umas músicas que não têm nada a ver com o clima do filme, parecia um videoclipe.

Um amigo comentou que O Morro dos Ventos Uivantes era pra ser um romance gótico, mas virou um thriller erótico. Mas, olhando pelo lado erótico, achei bem fraco. O filme tem zero nudez, e pouquíssimas cenas de sexo. Ok, algumas cenas sugerem erotismo em situações do dia a dia, como por exemplo alguém sovando massa de pão na mesa. Mas na minha humilde opinião é tudo muito discreto pra ser chamado de thriller erótico.

Nem tudo é ruim. A fotografia é muito boa – talvez o único elogio que faço sem nenhuma ressalva. Várias cenas são belíssimas, daquelas que dá vontade de pausar e colocar num quadro. Também gostei das cenas que envolvem Heathcliff e Isabella, uma relação bem tóxica, mas que foi bem escrita e bem filmada.

No elenco, Margot Robbie e Jacob Elordi servem para o que o filme propõe: um casal bonito e carismático. Não precisa de grandes atuações, a ideia é que eles façam o básico. A melhor do elenco é Alison Oliver, que faz Isabella, é um personagem bem mais interessante que o casal principal. E achei legal ver Owen Cooper, o garoto de Adolescência, em seu primeiro papel para o cinema. Também no elenco, Hong Chau, Shazad Latif e Martin Clunes.

O Morro dos Ventos Uivantes está em cartaz, e aparentemente não está agradando. Espero que Emerald Fennell tenha melhor sorte no seu quarto filme.

Foi Apenas um Acidente

Crítica – Foi Apenas um Acidente

Sinopse (imdb): Um pequeno incidente provoca uma reação em cadeia de problemas cada vez mais graves.

Reconheço que inicialmente tive preconceito com esse filme. Recebi o convite para a sessão de imprensa, mas depois se ler a sinopse não achei que o filme ia ser bom. Heu estava errado…

Foi Apenas um Acidente é o novo filme de Jafar Pahani, cineasta iraniano que sofre com restrições impostas pelo seu governo, mas nunca se calou e sempre continuou seu ativismo. Em 2010, o diretor foi condenado a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de exercer atividades cinematográficas, sob acusações de “propaganda contra o sistema”. Mesmo sob restrições legais, Panahi continuou a realizar filmes, muitos dos quais produzidos de forma semiclandestina. Este Foi Apenas um Acidente foi filmado escondido, sem autorização das autoridades islâmicas.

E seu novo filme é uma denúncia. Ou seja, tinha tudo pra ser um filme chato. Que nada! O filme entra num ritmo maluco de entrada e saída de personagens que às vezes até parece que estamos vendo uma comédia vaudeville. O filme anda por caminhos tão bizarros que tornam algumas cenas engraçadíssimas.

No filme, um mecânico encontra por acaso o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão. Ele o sequestra decidido a se vingar, mas, na dúvida sobre como agir, acaba pedindo ajuda para outras pessoas, que se juntam numa trupe bastante eclética, capaz de gerar momentos tensos e engraçados ao mesmo tempo.

Foi Apenas um Acidente tem algumas características narrativas muito bem construídas. São vários personagens, todos traumatizados pelo torturador, mas cada um encara isso de um jeito diferente do outro. Será que torturar um torturador seria justo, ou seria se igualar a ele? Além disso, o fato da gente não saber se o cara sequestrado é ou não é o torturador ainda deixa tudo mais tenso.

Gostei de como Pahani posiciona sua câmera. São vários planos longos ao longo do filme – não sei se podemos chamar de plano sequência porque não vemos muito malabarismo das câmeras, o foco aqui é mais na atuação do que na câmera. O texto é denso, pesado, e a câmera vai seguindo os atores. Tem uma cena longa no meio de um deserto, a câmera vai de um lado para o outro, enquanto os atores discutem os problemas. E tem outra cena, muito boa, perto do fim, onde a câmera fica parada enquanto acompanhamos uma longa e tensa discussão.

(Não é um problema do filme, é um problema meu: quando vejo filmes em inglês, entendo a maior parte dos diálogos, então meus olhos prestam atenção parte nas legendas, parte no resto do filme. Aqui o filme não era dublado, acho que era em árabe. Às vezes heu queria prestar mais atenção nas atuações, mas não conseguia porque estava focado no texto das legendas.)

Foi Apenas um Acidente ganhou a Palma de Ouro em Cannes ano passado. Ainda não temos os indicados ao Oscar de filme internacional, mas provavelmente este será um dos adversários de O Agente Secreto.

Morra, Amor

Crítica – Morra, Amor

Sinopse (imdb): Em uma área rural remota e esquecida, uma mãe luta para manter sua sanidade enquanto luta contra a psicose.

Em 2017, comentei no heuvi sobre o filme Você Nunca Esteve Realmente Aqui, dirigido pela Lynne Ramsey. Escrevi que o filme “mostra um bom trabalho do ator Joaquin Phoenix num filme que não é grandes coisas. Oito anos depois, novo filme dirigido pela Lynne Ramsey, Morra Amor, posso dizer que “mostra um bom trabalho da atriz Jennifer Lawrence num filme que não é grandes coisas”.

Novo filme escrito e dirigido por Lynne Ramsey (mais conhecida por Precisamos Falar Sobre o Kevin), Morra Amor (Die My Love, no original) segue por esse caminho. Uma grande atuação da Jennifer Lawrence, que deve ser indicada pra prêmios; uma boa atuação do Robert Pattinson, mas num roteiro fraco, cheio de simbolismos vazios. Resumindo, um filme bem chato.

Ao fim da sessão, achei que o filme falava de uma pessoa desequilibrada. Mas depois li que na verdade é sobre depressão pós parto. No filme, acompanhamos Grace, que de vez em quando tem uns surtos. Claro, prato cheio para a Jennifer Lawrence se soltar.

(Em alguns momentos, aparece um motociclista misterioso, personagem do Lakeith Stanfield. Um dos poucos elogios que consigo fazer ao filme é o lance de não deixar claro se é um personagem real ou fruto da imaginação de Grace. Na minha interpretação, ele não existe, afinal ele não interage com mais ninguém no elenco.)

Mas tudo é muito arrastado, muito chato, cenas se repetem – perdi a conta de quantas vezes a Jennifer Lawrence engatinha pelo cenário… Além disso, tenho quase certeza que existe um erro na edição, porque Grace aparece grávida depois do filho nascer. Heu precisaria rever pra ter certeza, mas tive a impressão de ter visto esse erro quase amador.

Enfim, só se salva o elenco. Além dos três citados, Morra, Amor ainda tem Sissy Spacek e Nick Nolte. Pode até valer um Oscar, mas, como cinema, deixa a desejar.

Casa de Dinamite

Crítica – Casa de Dinamite

Sinopse (imdb): Centrado nos funcionários da Casa Branca que lidam com um ataque iminente de mísseis contra os Estados Unidos, esse drama emocionante se desenrola em tempo real à medida que as tensões aumentam.

Filme novo da Kathryn Bigelow, com elenco cheio de gente legal!

A trama é simples: alguém, no Pacífico – ainda não sabem quem – lançou um míssil nuclear, em direção aos EUA, com possibilidade de atingir uma grande cidade. Eles só têm 19 minutos antes do impacto, pra tentar alguma defesa, ou pra pensar em retaliação.

Heu gosto do formato do roteiro de Noah Oppenheim (curioso um cara com esse sobrenome escrever um roteiro usando uma arma nuclear…). A gente acompanha a história, e depois recomeça tudo sob outro ponto de vista. Quando revemos, às vezes vemos parte dos diálogos mas pelo ponto de vista de outro interlocutor, outras vezes vemos novos elementos. Ok, tem o problema da gente já saber algumas coisas quando revemos, mas mesmo assim o roteiro consegue segurar a atenção do espectador.

(Essa trama me lembrou Maré Vermelha, do Tony Scott, onde um submarino perde o contato com a base, e seus próximos passos podem impedir uma guerra ou começá-la.)

Olhando de longe, Casa de Dinamite lembra o recente Guerra dos Mundos, porque quase todas as cenas são internas, nos bastidores. Mas é a única semelhança. Casa de Dinamite é infinitamente superior. Kathryn Bigelow é muito eficiente ao usar uma câmera nervosa entre o elenco, mantendo a tensão lá no alto.

Não gostei do final. Mas podem ficar tranquilos que não vou falar spoilers. O espectador acompanha um momento tenso, mais de uma vez, e o filme aponta a direção do que vai acontecer, mas não mostra. Kathryn Bigelow quis focar seu filme nas pessoas que estavam conectadas ao evento, e não no que aconteceria no mundo logo depois. Entendo essa opção, mas foi muito anti climático.

O elenco é muito bom. Não tem um protagonista, a trama fica entre os núcleos. Todos estão bem: Rebecca Ferguson, Idris Elba, Jared Harris, Anthony Ramos, Greta Lee, Jason Clarke, Gabriel Basso e Willa Fitzgerald, entre outros.

Casa de Dinamite estreou recentemente na Netflix.

Depois da Caçada

Crítica – Depois da Caçada

Sinopse (imdb): Uma professora universitária se vê em uma encruzilhada pessoal e profissional quando um aluno famoso faz uma acusação contra um de seus colegas e um segredo obscuro de seu próprio passado ameaça vir à tona.

E vamos ao novo Luca Guadagnino, filme escolhido para abrir o Festival do Rio 2025. Bem filmado, bem atuado, mas, pena, o resultado ficou meio fuén.

Depois da Caçada (After The Hunt, no original) segue Alma, que faz parte de um grupo de intelectuais da universidade de Yale. Até que Maggie, sua aluna favorita, acusa Hank, seu colega, de abuso sexual. Alma agora não sabe como lidar com as acusações, afinal ela foi mentora de ambos. Ela se encontra entre a lealdade institucional e a solidariedade; entre a ética e a autopreservação. Ao mesmo tempo vamos descobrir que ela também guarda esqueletos no armário.

Guadagnino constrói uma espiral de desconforto que propõe um estudo sobre o julgamento e o poder: quem tem o direito de decidir o que é verdade? Mas, Depois da Caçada não é um “filme do movimento MeToo”, e sim um estudo sobre o medo do erro moral – medo de ser cúmplice, de julgar injustamente, de perder prestígio.

(Leve spoiler: uma coisa que gostei no roteiro é que não sabemos ao certo quem tem razão, se é a acusadora ou o acusado. Tire suas próprias conclusões!)

Depois da Caçada é bem filmado e tem bons atores. Mas sabe quando um filme não empolga? É o caso aqui. O filme segue num marasmo interminável – são intermináveis duas horas e dezoito minutos de projeção. E um monte de diálogos com papo cabeça chato não ajudam. Pra piorar, a trama se encerra, mas depois tem um epílogo completamente desnecessário.

O elenco tem alguns bons atores, que estão ok, apesar do filme ser desinteressante. Julia Roberts e Andrew Garfield são carismáticos e estão bem. Gostei de ver Michael Stuhlbarg num papel um pouco mais importante, o cara sempre foi aquele coadjuvante que a gente nem lembra o nome. Também no elenco, Ayo Edebiri e Chloe Sevigny.

Os créditos iniciais são iguais ao estilo usado sempre por Woody Allen. Aliás, todo o filme tem um quê de Woody Allen. Será que é uma indireta porque Allen também passou por um problema semelhante?

Por fim, um comentário sobre a trilha sonora. Tem algumas músicas em português. E preciso dizer que isso atrapalhou, porque o cérebro se confunde entre prestar atenção nas legendas ou nas letras das músicas.

The Mastermind

Crítica – The Mastermind

Sinopse (Festival do Rio): Massachusetts, anos 70. A Guerra do Vietnã e o início do movimento feminista dominam o pano de fundo americano. A vida de JB Mooney, um carpinteiro e chefe de família, está no marasmo. Para fazer dinheiro, ele planeja um grande roubo de obras de arte valiosas num museu. Mas lidar com o produto do roubo se revela inacreditavelmente mais complicado que o assalto em si.

The Mastermind não estava na minha lista de filmes deste ano no Festival do Rio. Mas apareceu uma sessão compatível com o meu horário. Fui ler sobre o filme, é o novo projeto da diretora Kelly Reichardt, diretora de First Cow, um filme que ainda não vi, mas que mais de uma pessoa me recomendou. Ok, não vi First Cow, mas posso começar pelo seu mais novo filme.

Mas talvez fosse melhor não ter ido. The Mastermind foi talvez o pior dos onze filmes que vi no Festival do Rio deste ano.

Para explicar por que achei tão ruim, vou precisar entrar em spoilers, ok? Nada grave, não existe nenhum plot twist.

Em The Mastermind, acompanhamos JB, um cara todo errado. O cara pega dinheiro emprestado com sua mãe, dizendo que é para investir num novo negócio. Mas na verdade ele quer roubar quatro quadros de um museu, o dinheiro é para pagar os capangas. Mas são quadros que aparentemente não têm muito valor, e ele não tem nenhum esquema para repassá-los. Ou seja, ele precisa abandonar esposa e filhos para fugir. Sim, ele engana a própria mãe e abandona a própria família por causa de um roubo mal planejado. Mas calma que piora: no fim do filme ele rouba uma velhinha atrás de alguns dólares.

Se um cara desses é preso, o espectador nem vai se importar. Que tipo de protagonista é esse?

No elenco, o filme todo se passa em cima do Josh O’Connor, em um personagem completamente sem carisma, acredito que mais por culpa do roteiro do que do ator. E achei curioso ver Alana Haim, que “anteontem” era adolescente, em Licorice Pizza, aqui interpretando uma mãe de dois adolescentes.

Pra não dizer que nada se salva, a trilha sonora, feita com um jazz furioso, é boa. Às vezes soa demais, mas mesmo assim é a única coisa que se salva.

Não desisti de First Cow. Mas foi pro fim da fila.

Coração de Lutador

Crítica – Coração de Lutador

Sinopse (imdb): A história do campeão de artes marciais mistas e do UFC, Mark Kerr.

De vez em quando a gente vê astros de blockbusters em projetos que parecem feitos para tentar ganhar prêmios de atuação. Chegou a vez do Dwayne Johnson.

Dono de um carisma enorme, Dwayne Johnson, também conhecido como The Rock, é um dos maiores nomes da Hollywood contemporânea. Mas, precisamos reconhecer que ele sempre está igual em todos os filmes, parece que sempre repete o mesmo personagem. E aqui, em Coração de Lutador (The Smashing Machine, no original), ele finalmente mostra que sabe atuar.

Pena que o filme não é lá grandes coisas…

Antes de tudo, preciso falar que não acompanho MMA. Nunca tinha ouvido falar de Mark Kerr. Ou seja, meus comentários serão só sobre o filme, não entrarei em comparações com a vida real.

Situado no fim dos anos 90, Coração de Lutador mostra três anos da carreira de Mark Kerr, numa época que o vale tudo era mais violento e pagava menos do que hoje. Kerr foi um nome importante para a época. Vemos algumas de suas lutas, ao mesmo tempo que acompanhamos seus problemas com drogas e um relacionamento nada saudável com a namorada Dawn (interpretada pela Emily Blunt, que já tinha trabalhado com Dwayne Johnson em Jungle Cruise).

A direção e o roteiro são de Benny Safdie, que fez o elogiado Joias Brutas (filme que não vi). Curiosamente, Joias Brutas também é estrelado por um ator com fama de fazer sempre o mesmo tipo de personagem, Adam Sandler. A diferença é que Sandler já tinha mostrado que sabe atuas em outros (poucos) filmes.

Coração de Lutador tem um problema grave: é um filme de luta com cenas de lutas mal filmadas. Alguns filmes que mostram esportes capricham em momentos decisivos, mas aqui não tem nenhuma cena memorável. Podiam ter pensado em melhores coreografias e ângulos de câmera. Lembro de Creed, um filme que não curti muito, mas que tem uma sensacional luta em plano sequência que vale o ingresso.

Sobre o Dwayne Johnson, li no imdb que ele teria perdido quase 30 kg para o papel. Mas como ele sempre foi um cara muito grande, confesso que nem reparei se ele estava menos forte. Agora, ele com cabelo ficou realmente diferente. Tem uma cena onde ele raspa o cabelo, aí volta a ficar o The Rock que a gente está acostumado.

Ah, sim, ele está atuando bem. Pela primeira vez, vemos Dwayne Johnson em um papel diferente do de sempre. Agora, se isso é o suficiente pra ganhar um Oscar, aí é outro papo – acabei de ver o Sean Penn em Uma Batalha Após a Outra, aquela atuação realmente merece um Oscar. Mas, sim, Dwayne Johnson está muito bem e provou que sabe atuar.

O único outro nome conhecido no elenco é Emily Blunt. Os outros dois nomes mais importantes do elenco, o amigo e o treinador, são interpretados por nomes ligados à luta na vida real: Ryan Bader, que é lutador, e Bas Rutten, ex lutador que treinou Mark Kerr.

Coração de Lutador não é lá grandes coisas, e ainda piora por causa de um final horroroso, daquele que deixa o espectador com gosto ruim na boca ao fim da sessão. O filme fala da carreira do Mark Kerr durante alguns anos no fim dos anos 90. Aí no fim tem um epílogo, nos dias de hoje, com o Mark Kerr real, num mercado, como se estivesse sendo filmado por um paparazzi. O problema é que se o espectador não conhece o Mark Kerr, fica se perguntando “quem diabos é esse cara?” Um filme mostrar fotos do personagem real durante os créditos é uma coisa legal. Mas um trecho de filme com o cara? Pra que???

Parabéns pro Dwayne Johnson, boa atuação. Agora aguardemos um filme melhor.

Uma Batalha Após a Outra

Crítica – Uma Batalha Após a Outra

Sinopse (imdb): Quando seu inimigo maligno ressurge após 16 anos, um grupo de ex-revolucionários se reúne para resgatar a filha de um dos seus.

Ao fim da sessão de imprensa, ouvi alguns amigos fazendo grandes elogios. Mais tarde, um amigo, ex crítico, cuja opinião heu respeito muito, me mandou uma mensagem: “filmaço”. Abri o youtube, vários vídeos com o título “melhor filme do ano”.

Caramba, será que fui o único que não achou isso tudo? Reconheço virtudes em Uma Batalha Após a Outra, mas se bobear nem vai entrar no meu top 10 de 2025.

Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, no original) é o novo filme escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, um cara que não faz filmes ruins – seus filmes mais fracos são melhores que o média do que é lançado no circuito. Heu particularmente sou muito fã de Boogie Nights, um de seus primeiros filmes.

Vamos aos elogios óbvios. O elenco está todo muito bem, mas preciso destacar Sean Penn, que faz um militar obcecado e completamente desequilibrado. Penn está assustador, cada olhar, cada gesto, até o jeito de andar, será uma surpresa se não for indicado ao Oscar. Leonardo DiCaprio também está excelente, ele faz um cara que acreditava numa causa mas com o tempo deixou a causa pra lá e agora vive chapado e paranoico, parece uma versão menos engraçada do “dude Lebowski”. E ainda tem o Benicio Del Toro, num papel menor, mas também ótimo.

Uma coisa que achei boa é que todos os personagens têm falhas de caráter – num mundo polarizado, seria fácil “escolher um lado”, mas aqui, todos os lados estão errados. O filme abre com Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma mulher forte, guerrilheira contra o sistema – mas que é uma péssima mãe e ainda de dedurou os companheiros. O militar Lockjaw (Sean Penn), seu antagonista direto, poderia ser um símbolo da luta pelo que é correto – mas está tentando entrar para um seleto grupo de supremacistas brancos, uma espécie de Ku Klux Klan moderna. E o protagonista Bob (Dicaprio), como falei, vive bêbado e drogado.

Preciso falar da sensacional cena de perseguição de carros. A gente está acostumado a ver boas cenas de perseguição em filmes de ação, mas aqui a pegada é outra, outra proposta, outro ritmo. É uma longa estrada, reta, mas com ondulações que parecem uma montanha russa – lembro de uma estrada parecida no caminho de Rio das Ostras, o carro sobe e desce diversas vezes seguidas. Aqui, a câmera se posiciona de maneira que a gente vê os carros subindo e descendo, eles aparecem e somem logo depois. Foi uma sacada genial. E o desfecho da perseguição é muito bom.

A trilha sonora é estranha, parece que um gato está passeando em cima de um piano. Estranha, mas encaixa perfeitamente com o clima tenso do filme. Gostei!

Uma Batalha Após a Outra é bom, reconheço. Só que é um filme que não “me pegou”. Os atores são bons, os personagens são bem construídos, mas são pessoas desagradáveis, fica difícil se identificar e torcer por algum deles. Além disso, é longo demais, duas horas e quarenta e um minutos, me cansou. Reconheço os méritos, mas não achei tudo isso.

A Grande Viagem da Sua Vida

Crítica – A Grande Viagem da Sua Vida

Sinopse (imdb): Um conto imaginativo de dois estranhos e a inacreditável jornada que os conecta.

Quando recebi o convite para a sessão de imprensa de A Grande Viagem da Sua Vida, fui ver o imdb. Pelas imagens coloridas e pela sinopse “um conto imaginativo”, “inacreditável jornada”, achei que tinha cara de ser algo fora da caixinha. Podia ser ruim com força, ou podia ser uma agradável viagem.

A notícia é boa. A Grande Viagem da Sua Vida é um filme romântico, mas com um pé no bizarro. Isso o diferencia de outros filmes românticos bestas, como o recente Amores Materialistas, que é tão “água de salsicha” que nem tive vontade de comentar aqui no heuvi.

(Ouvi gente dizendo que A Grande Viagem da Sua Vida é uma comédia romântica. Olha, tem algumas cenas engraçadas (ri alto na piada sobre a idade da Margot Robbie), mas não chamaria este filme de comédia. O drama é bem mais forte.)

Logo de cara o filme já flerta com o fantástico. Coisas surreais vão acontecendo com os personagens, tipo conversar com o GPS do carro ou encontrar portas mágicas espalhadas pela paisagem. Nunca tinha ouvido falar do diretor Kogonada, fiquei até curioso em procurar outros trabalhos dele. Gostei de como ele conduz a história, sem explicar o que está acontecendo. Apenas relaxe e se deixe levar.

Claro que o grande chamariz para o filme é o casal de atores principais, Margot Robbie e Colin Farrell. Ambos estão muito bem, e convencem em suas jornadas. E foi divertido ver Colin Farrell cantando num teatro musical de escola. Aliás, o filme todo é basicamente só com os dois – Phoebe Waller-Bridge tem um papel pequeno no início e no final do filme, e Kevin Kline tem uma participação tão rápida que nem reconheci quando ele apareceu.

Também queria elogiar a trilha sonora de Joe Hisaishi, com temas que às vezes lembram o minimalismo do Philip Glass. A fotografia também chama atenção.

Por ser “fora da caixinha”, vai ter espectador incomodado. Mas heu gostei do filme romântico com um pé no bizarro.

A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Crítica – A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Sinopse (imdb): Um grupo de adolescentes participa de um concurso anual conhecido como “The Long Walk”, no qual eles devem manter uma certa velocidade de caminhada ou levar um tiro.

É um bom ano pra quem gosta de adaptações de Stephen King. Já tivemos O Macaco e A Vida de Chuck. A Longa Marcha – Caminhe ou Morra é o terceiro de 2025. E mais pro fim do ano deve estrear O Sobrevivente.

O livro A Longa Marcha foi lançado em julho de 1978. Segundo a Wikipedia, foi o sexto livro escrito por Stephen King, sob o pseudônimo de Richard Bachman (por coincidência, em O Sobrevivente ele também usou o mesmo pseudônimo). Segundo o imdb, George Romero pretendia adaptar o livro em 1988, mas não rolou. Anos depois, nos anos 2000, Frank Darabont chegou a comprar os direitos, mas não desenvolveu o filme e o prazo expirou.

Por que demorou tanto tempo? Não sei. Mas, visto hoje, parece uma versão de filmes de distópicos para jovens adultos, como Jogos Vorazes. Quando Stephen King escreveu o livro, ele tinha em mente a Guerra do Vietnã, e como jovens eram levados para a morte. Mas, nos dias de hoje, quando estamos acostumados com reality shows, a trama ganhou outro olhar. 50 jovens participam de uma prova onde precisam andar, sempre no mesmo ritmo. Quem parar ou apenas diminuir o ritmo morre executado. O jogo só acaba quando só sobra um vivo. Consigo ver essa prova – sem as mortes – transmitida pela tv.

A direção é de Francis Lawrence – coincidência ou não, diretor de três Jogos Vorazes. O roteirista é JT Mollner, do excelente Strange Darling. Admito que quando li o nome do roteirista, achei que veria algo fora do convencional, mas, diferente daquele filme, o roteiro aqui é linear. Mesmo assim, o roteiro é muito bom, são muitos bons diálogos, dá vontade de continuar acompanhando aquela galera e suas histórias.

O protagonista Cooper Hoffman declarou que durante as filmagens eles andavam 15 milhas por dia – disse que foram 400 milhas no total. Parte do cansaço mostrado pelos personagens é real! As filmagens foram em ordem cronológica, e os atores não se conheciam antes. Ao longo dos dias de filmagem andando, eles foram se conhecendo melhor. Boa sacada, isso acontece com os personagens ao mesmo tempo que com os atores.

O elenco traz jovens ainda pouco conhecidos, como Cooper Hoffman (Licorice Pizza), David Jonsson (Alien Romulus), Ben Wang (Karate Kid Lendas) e Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit). São apenas dois nomes famosos entre os “adultos”, Judy Greer, como a mãe do protagonista, e Mark Hamill como o Major, o grande símbolo do autoritarismo desta sociedade distópica.

A Longa Marcha está sendo vendido como filme de terror. Acho isso um erro. O filme fica entre o thriller e o drama, não tem nada de terror. Talvez apenas a primeira morte seja um pouco mais gráfica. Provavelmente vai ter espectador decepcionado nas salas de cinema.

Queria comentar a cena final. Mas, claro, é a cena final, preciso de um aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

No fim, sobram os dois principais, que chegam a um local onde tem uma multidão em volta. Quem ganhar tem direito a um desejo. Ray diz que ia pedir uma carabina pra matar o Major – que anos antes matou seu pai. Mas Ray desiste da prova pra deixar McVries ganhar. McVries então resolve vingar o amigo, pede a carabina e mata o major. Depois, larga a carabina no chão, e segue andando. Mas vejam que ele agora está sozinho, não tem mais ninguém em volta. Cadê a multidão? O filme não deixa claro, mas a minha interpretação é que mataram ele quando atirou no major. O que você acha que aconteceu?

FIM DOS SPOILERS!

A Longa Marcha teve uma sessão em SP com esteiras para alguns espectadores assistirem ao filme andando. Boa ideia, deve ser uma boa experiência, pena que não teve no Rio.