Crítica – Frankenstein
Sinopse (imdb): Um cientista brilhante, mas egocêntrico, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à destruição do criador e de sua trágica criação.
Guillermo Del Toro é talvez o melhor cineasta que sabe usar o contraste para unir o belo ao grotesco. E ele tinha há anos o sonho de fazer a sua versão da história do Frankenstein, baseada no clássico livro de Mary Shelley. Finalmente conseguiu, e temos mais um belíssimo espetáculo – claro, com um pé no grotesco.
Visualmente, Frankenstein é tudo o que se espera de del Toro, que fez questão de ter cenários inteiramente construídos, com o mínimo de cgi possível. Assim como aconteceu em Pinóquio, cada cena, cada frame, tudo parece esculpido a mão.
Em vez de apostar no terror clássico, del Toro nos entrega um drama gótico sobre criação e abandono. Temos uma criatura humanizada, que é bem mais complexa que o clássico monstro abobado com um parafuso no no pescoço. A criatura aqui sente, aprende e sofre. Del Toro declarou que seu filme é mais sobre abandono paternal do que o mau uso da ciência.
Del Toro já trouxe vários monstros para o cinema – não só o monstro de A Forma da Água lhe deu seu primeiro Oscar, como o monstro de Labirinto do Fauno é um dos mais assustadores da história do cinema. E se aqui temos um monstro como uma das figuras centrais, claro que a criatura é um dos pontos altos. E, olha a ironia, Andrew Garfield ia interpretar a criatura, mas teve que se desligar do projeto por problemas de agenda. A equipe de maquiagem ficou nove meses trabalhando no conceito de Garfield como o monstro, e quando ele foi substituído por Jacob Elordi, tiveram apenas algumas semanas pra adaptar tudo. E mesmo assim o resultado ficou fantástico.
(Jacob Elordi tem 1,96, sua criatura é imponente. Será que Andrew Garfield, com apenas 1,79, não seria pequeno demais para o papel? Ou será que iam usar truques de câmera pra ele parecer mais alto?)
(Um mimimi com relação ao visual da criatura. Dr. Victor Frankenstein usou vários corpos, sempre pegando as melhores partes de cada um. Então tem lógica ele ser todo costurado. Agora, o rosto dele precisava ter tantas costuras? Será que não tinha um rosto inteiro no meio dos corpos?)
Todo o visual do filme é digno de prêmios – provavelmente teremos algumas indicações ao Oscar no início do ano que vem. Figurinos, cenários, maquiagem, props, tudo é feito com precisão. Tem uma cena com vários pedaços de corpos (usados para montar a criatura) onde tudo parece tão real que quase a cena tem cheiro!
O roteiro é dividido em duas partes. Temos primeiro o ponto de vista do cientista dr. Victor Frankenstein, e depois o ponto de vista da criatura. E o roteiro é bem estruturado, porque aos poucos vamos vendo que o monstro não é a criatura e sim o criador.
Queria ainda citar a bela sequência com o homem cego onde a criatura lentamente se desenvolve intelectualmente. Curiosidade: a criatura lê o livro Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley, que era marido da Mary Shelley autora do livro.
O elenco é muito bom. O já citado Jacob Elordi tem carisma suficiente pra trazer ao personagem toda a complexidade necessária. Oscar Isaac, por sugestão do diretor, tem uma postura mais de rock star e menos de cientista – Del Toro sugeriu inspiração em Mick Jagger, David Bowie e Prince. Christoph Waltz faz o Christoph Waltz de sempre, e funciona bem – como sempre. Mia Goth talvez pudesse ter mais espaço, mas não está mal. Ainda no elenco, Charles Dance, Felix Kammerer e David Bradley.
Ouvi gente comentando que o filme é longo demais. Não achei, o filme não me cansou, apesar de ter quase duas horas e meia. Talvez seja porque consegui ver no cinema – algumas semanas antes de estrear na Netflix Frankenstein foi exibido em algumas salas, e aproveitei a chance.
Não é o melhor Guillermo del Toro, mas é um grande filme. Em cartaz na Netflix.









