Coyote vs Acme

Crítica – Coyote vs Acme

Sinopse (imdb): Uma história ambientada no depósito da ACME, a fabricante de tudo e mais um pouco usado pelos personagens dos Looney Tunes.

Finalmente estreou Coyote vs Acme! E desta vez, essa frase não contém nenhum exagero. Você conhece os bastidores por trás dessa produção?

Em uma troca de executivos nos estúdios de Hollywood, o produtor David Zaslav entrou na Warner e resolveu cancelar três projetos que já estavam em fase de finalização. Parece que ele ia obter vantagens fiscais se cancelasse as três produções, mas não entendo da parte de impostos o suficiente pra saber como jogar dinheiro e trabalho fora seria algo lucrativo. O fato é que ele simplesmente cancelou. Um era um desenho do Scooby Doo, que não sei se era só desenho ou misturava com live action, com Mckenna Grace, Ariana Greenblatt, Mark Hamill e Andre Braugher (em seu último papel, ele faleceu pouco depois) no elenco. Outro era o filme da Batgirl, dirigido pela dupla Adil El Arbi e Bilall Fallah (que depois fariam o último Bad Boys), e estrelado por J.K. Simmons, Michael Keaton e Brendan Fraser (disseram que este filme da Batgirl chegou a ser finalizado e fizeram uma “funeral session”, uma sessão única para elenco e equipe). O terceiro era este Coyote vs Acme, que foi finalizado, teve a funeral session em novembro de 2023, e depois engavetaram tudo.

A princípio, a gente nunca veria esse filme. Mas muita gente reclamou por aí, e acabaram vendendo os direitos de distribuição para uma tal de Ketchup Entertainment, empresa com muito pouca relevância no mercado (trabalhou em filmes como Hypnotic, do Robert Rodriguez, ou Ferrari, do Michael Mann). E a Ketchup lançou o filme, que estava aqui no heuvi na lista de expectativas para 2024! (Algo me diz que essa Ketchup vai ganhar muito dinheiro…)

E finalmente o filme chegou aos cinemas. Boa notícia, porque a ideia é genial: por décadas, Wile E. Coyote comprou produtos Acme, que sempre falharam. Ele vê uma propaganda sobre um escritório de advocacia que ganha dinheiro entrando com pequenos processos contra a Acme, e conseguindo pequenos acordos. Mas o Coyote acaba levando o escritório ao seu maior caso, um processo que pode mudar os rumos da poderosa empresa Acme.

(Detalhe curioso: o nome do escritório advocacia é Avery, Jones and Maltese, uma homenagem aos animadores da Warner Bros. Tex Avery, Chuck Jones e Michael Maltese.)

A direção é de Dave Green, que não tem um grande currículo, seu último longa foi aquele insosso As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras, de dez anos atrás. Coyote vs Acme segue a linha de Uma Cilada Para Roger Rabbit, estamos em um universo onde humanos e desenhos convivem em harmonia. E, tecnicamente falando, os efeitos são perfeitos. Se anos atrás existia uma dificuldade na interação entre atores humanos e objetos desenhados, aqui tudo parece muito natural.

Uma coisa bem legal aqui é que os personagens são os mesmos dos desenhos. Digo isso porque às vezes uma adaptação muda algo do traço (tipo criar uma versão 3D), ou da personalidade do personagem. Mas aqui felizmente isso não acontece. É o mesmo estilo de desenho, com as mesmas características no comportamento – nem o Coyote, nem o Papa Léguas falavam no desenho, também não falam aqui. E, claro, temos participações especiais de muitos personagens da galera Looney Tunes, como Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola, Piu Piu, Diabo da Tasmânia, etc.

Coyote vs Acme é MUITO engraçado. O mesmo estilo de humor absurdo dos desenhos, quem curtia vai se deliciar. Fico feliz de ver essas piadas no mundo politicamente correto dos dias de hoje, onde a música “Atirei o pau no gato” foi “cancelada”. Sim, o Coyote se arrebenta o tempo todo, e cada vez é mais engraçada que a anterior.

No elenco, o principal nome é Will Forte, o advogado que está quase o filme todo ao lado do Coyote. John Cena tem um papel menor como o advogado da Acme. Também no elenco, Lana Condor e Luis Guzmán.

Coyote vs Acme não tem cenas pós créditos. Mas no fim dos créditos tem a data de 2023, e um agradecimento: “A todos que publicaram, compartilharam, ergueram cartazes e se manifestaram nos momentos decisivos: este filme chegou às telas graças a vocês”. Se o Coyote ainda não conseguiu pegar o Papa Léguas, pelo menos o seu filme conseguiu chegar aos cinemas!

(Será que a gente pode sonhar com um lançamento tardio do filme da Batgirl?)

Ainda preciso falar sobre a dublagem. Reparei num erro feio da dublagem brasileira. A sessão de imprensa foi legendada, mas heu não pude ir, então esperei estrear, e no horário e local que heu podia, só tinha dublado. Ok, a dublagem brasileira costuma ser muito boa. E quase tudo merece elogio, menos um certo detalhe importante. Perto do fim do filme, aparece uma audiência em Washington, e o Hortelino é um dos senadores. Tem uma plaquinha na frente dele, com o nome Fudd – Hortelino no original é Elmer Fudd. Só que ele está falando normal. Ué, não é Hortelino “Troca Letras”? O Hortelino fala errado, que nem o Cebolinha! Erraram no texto da dublagem! Mas calma que piora. Determinado momento chamam o personagem de “senador Eufrazino”. Caramba, o Eufrazino é aquele do bigodão e barbão, ele aparece rapidinho no meio do filme. Erraram o nome e a característica do personagem!!!

Coyote vs Acme é bem divertido. Acho que o único problema é que a expectativa era muito alta, e heu estava esperando algo do nível de Tico e Teco e os Defensores da Lei, e não chega a tanto. Mas é um filme divertidíssimo!

Por Cima do Seu Cadáver

Crítica – Por Cima do Seu Cadáver

Sinopse (imdb): Um casal em crise se retira para uma cabana isolada para tentar salvar o relacionamento, mas ambos planejam secretamente assassinar o outro.

Quando soube de um filme da 87North estrelado por Samara Weaving e Jason Segel, fui catar logo pra ver.

É bom não saber muito sobre a trama, porque Por Cima do Seu Cadáver é daquele tipo de filme com alguns plot twists e alguns flashbacks bem colocados pra situar melhor a trama. O que o espectador precisa saber é que Lisa e Dan são um casal em crise, que está indo passar um fim de semana numa casa no lago, e um tem planos de matar o outro. E muita coisa vai acontecer ao longo desses planos.

Por Cima do Seu Cadáver é refilmagem do norueguês I Onde Dager, de 2021, dirigido por Tommy Wirkola (Noite Infeliz). Ainda não vi, mas descobri que está na Netflix com o título “The Trip”, entrou na minha fila!

Pra quem não se ligou no nome da produtora, a 87North é uma produtora fundada por dublês – ou seja, são realizadores que focam em cenas de ação e de efeitos práticos. O último filme deles que comentei aqui foi Lindas e Letais, que trazia várias cenas de luta bem coreografadas e bem filmadas. O foco aqui em Por Cima do Seu Cadáver não são as coreografias de lutas, e sim uma violência gráfica bem exagerada, com várias mortes e alguns desmembramentos aqui e ali. Mas apesar de muita violência, o clima continua bem humorado. Confesso que ri alto na primeira morte.

A direção é de Jorma Taccone, que tem um extenso trabalho no Saturday Night Live e é amigo de infância de Andy Samberg e Akiva Schaffer – daí a gente vê de onde vem o pé fincado fortemente na comédia. Este é seu terceiro longa como diretor.

O roteiro é bem estruturado com aqueles plot twists aqui e ali, mas preciso reconhecer que alguns são meio forçados. Felizmente nada que atrapalhe o desenrolar do filme.

O elenco está muito bem. Depois de dois Casamento Sangrento, Samara Weaving parece muito confortável em cenas de violência extrema e ao mesmo tempo bem humoradas. Jason Segel funciona bem ao lado dela. E gostei do over acting da Juliette Lewis. Também no elenco, Timothy Olyphant, Paul Guilfoyle e Keith Jardine

Por Cima do Seu Cadáver está no catálogo da Prime, mas ninguém está falando sobre ele. Pena…

O Convite

Crítica – O Convite

Sinopse (imdb): O casamento de Joe e Angela está por um fio. Quando eles convidam seus enigmáticos vizinhos do andar de cima para um jantar, a noite toma rumos inesperados.

O Convite (The Invite, no original) é a refilmagem do espanhol Sentimental, de 2020, escrita e dirigida por Cesc Gay. Segundo a wikipedia, já houve versões produzidas na Itália, Suíça, França e Coreia do Sul. Heu nunca tinha ouvido falar, mas deu até vontade de ver o original espanhol (um conhecido meu viu e disse que esta versão americana é melhor).

O Convite se assemelha ao formato de teatro filmado. Tem uma introduçãozinha que nem é muito importante e logo depois todo filme se passa dentro de um apartamento, com apenas quatro atores, durante uma única noite – ou seja, dava para fazer isso num palco. Felizmente, a diretora Olivia Wilde teve boas sacadas de posicionamentos de câmera e o filme não fica com cara de peça de teatro.

O roteiro é escrito por Rashida Jones e Will McCormack (Cesc Gay está creditado também, pelo roteiro original). Heu não saberia dizer se o roteiro original tem todas as sacadas que acontecem aqui nesse, mas reconheço que esse roteiro é muito bem estruturado e muito bem escrito, com ótimos diálogos – além de trazer momentos muito engraçados. Detalhe que li no imdb: o monólogo do Hawk contando a história do seu nome foi escrito pelo ator Edward Norton; e a reação esculachada do personagem do Seth Rogen foi um improviso.

O roteiro é bom, mas heu diria que o melhor de O Convite são as as atuações dos quatro atores principais. Todos os quatro – Olivia Wilde, Penélope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton – estão muito bem. Até o Seth Rogen, que costuma fazer sempre o mesmo personagem, está bem aqui.

A direção é da atriz Olivia Wilde, este é seu terceiro longa, depois de Booksmart (que não vi) e Não Se Preocupe Querida, que é um filme que heu gostei, mas muita gente não gosta. Mas com esse O Convite até agora não ouvi nenhuma crítica. Até quem não gostou de Não Se Preocupe Querida está elogiando o trabalho da diretora.

Tem um detalhe técnico que me incomodou um pouco: a trilha sonora às vezes está tão alta que atrapalha os diálogos, principalmente no início do filme. Entendo a proposta, sublinhar o desconforto, mas achei que ficou um pouco acima do que deveria.

O Convite estreou no circuito sem muito alarde, mas quando um filme “pequeno” agrada, continua em cartaz. Fui ver num cinema com quatro salas, as outras três estavam exibindo A Odisseia. Não sei se ainda está em cartaz, se estiver, recomendo!

Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Anaconda (2025)

Anaconda (2025)

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos que enfrenta a crise da meia-idade se prepara para refazer seu filme juvenil favorito, mas quando entram na selva, as coisas ficam feias.

Quando soube de um novo Anaconda, fui catar a versão de 1997 pra rever. Aquele filme é bem ruim. Mas, pelo trailer, esta nova versão parecia que ia ser mais divertida. E meu pressentimento estava certo. O novo Anaconda é divertidíssimo!

O protagonismo aqui é dividido entre o Jack Black e o Paul Rudd. Quando adolescentes, eles faziam curtas amadores com mais dois amigos; hoje, Jack Black faz vídeos de casamento, enquanto Paul Rudd é um ator frustrado em Hollywood. A turma se reúne para fazer um remake de baixíssimo orçamento do Anaconda de 97, quando uma equipe vai pro Amazonas fazer um documentário sobre uma tribo indígena e é atacada por uma cobra gigante. Mas a grande diferença é que aquele filme se levava a sério, enquanto aqui a galhofa é assumida. Ri alto diversas vezes ao longo da sessão!

Teve uma cena que achei simples e genial, logo no início do filme, quando conhecemos o trabalho do Jack Black. Ele descreve como seria a ideia dele do vídeo de casamento, e começa a cantarolar a música que ele imaginou para a cena, e a trilha do filme começa a acompanhar o que ele está cantarolando. No cinema, música diegética é aquela que os personagens estão ouvindo, tipo o Jack Black cantarolando; música não diegética é quando só o espectador ouve, é a trilha sonora que está acompanhando o cantarolar. Gosto quando um filme quebra essa barreira entre a música diegética e a não diegética.

(Preciso dizer que me identifiquei com o momento que eles se reúnem pra rever o filme que fizeram quando adolescentes. Assisti Anaconda ao lado do Eduardo Miranda, do canal Projeto Cinevisão, e ele estava comigo quando filmei O Boitatá, um dos meus primeiros curtas, há quase 14 anos…)

A direção é de Tom Gormican, o mesmo de O Peso do Talento, aquele filme onde um milionário quer conhecer o Nicolas Cage. Ou seja, o cara sabe brincar com a metalinguagem, usando piadas ligadas ao cinema. E aqui são várias, tem algumas geniais – a do Jordan Peele é sensacional! Aliás, a única coisa boa de ter revisto Anaconda de 97 foi pegar o contexto de todas as piadas sobre aquele filme.

No resto do elenco, o destaque vai pra Selton Mello, e juro que isso não é um comentário bairrista. Selton faz um brasileiro que cuida de cobras. Ele não é um dos principais, mas ele tem um papel bem grande, e posso dizer tranquilamente que ele rouba todas as cenas que aparece. Um dos momentos mais engraçados do filme é quando estão conversando sobre cabeçadas, ele fala de colocar um “brazilian twist” e grita “TOMA!”, e todo o elenco começa a gritar “TOMA!” com ele. Não li em lugar algum, mas não acharia estranho isso ser sugestão do próprio Selton – duvido que um roteirista gringo tenha pensado em gritar “TOMA!” no meio de uma cena de briga. No resto do elenco, Thandiwe Newton, Steve Zahn e Daniela Melchior. Aliás, Daniela, que é portuguesa, aparece falando português, mas sem nenhum sotaque, me pareceu dublada.

(No cinema tinham duas salas passando Anaconda, uma com a cópia dublada e a outra, legendada. Quando o filme começou, com um diálogo em português, fiquei com medo de ter entrado na sala errada. Não, são só algumas cenas em português.)

Aliás, assim como tem uma atriz portuguesa que parece dublada, nos créditos descobri que Anaconda foi filmado na Austrália. Ué, por que não filmar no Amazonas? Pelo menos ouvimos diálogos e lemos cartazes em português. Décadas atrás Hollywood não respeitava isso – inclusive no filme de 97 tem um personagem brasileiro que fala português com sotaque.

(E todo brasileiro vai dar uma gargalhada ao ver que, dos EUA pro Amazonas, eles passam pelo Rio de Janeiro. Tem uma cena mostrando o Corcovado!)

Os efeitos especiais são apenas ok. Em algumas cenas, a cobra não convence. Sorte que o objetivo do filme é galhofa e não mostrar uma cobra assustadora.

Agora, se por um lado o roteiro é bem divertido, por outro precisamos reconhecer que são várias forçadas de barra. Sem spoilers, mas o modo como a cobra é derrotada no final não fez o menor sentido! Além disso, tem uma sequência envolvendo um personagem fazendo xixi que achei uma piada ruim e demasiadamente prolongada.

Ah, tem cenas pós créditos. Uma delas é genial, mostra um videozinho de casamento feito pelo Jack Black. E tem um possível gancho pra continuação. Que seja tão divertido como este!

 

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Os Roses – Até que a Morte os Separe

Crítica – Os Roses – Até que a Morte os Separe

Sinopse (imdb): O ciúme de um casal aparentemente perfeito irrompe quando a carreira profissional do marido implode, revelando rachaduras na fachada de sua vida familiar ideal.

Antes de ver a refilmagem, fui rever o original, que heu não via provavelmente desde a época. Lançado em 1989, A Guerra dos Roses trazia o mesmo trio de atores principais de Tudo Por uma Esmeralda e a Joia do Nilo, Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, e por isso, na época, teve gente achando que era uma continuação. Mas não, nada a ver, é uma história completamente diferente.

Dirigido por DeVito, o filme contava a história de um casal antes apaixonado que aos poucos começa a se odiar cada vez mais. O humor é meio cartunesco, algumas coisas são muito exageradas. É uma comédia divertida, mas algumas coisas envelheceram bem mal – ele mata o gato dela, e depois o filme dá a entender que ela fez patê com o cachorro dele (aparece um cachorro, meio que pra limpar a barra, mas o filme não confirma nem sim nem não).

A direção agora é de Jay Roach, diretor dos três filmes do Austin Powers. Os Roses – Até que a Morte os Separe (The Roses, no original) não quer ser igual ao filme anterior. Na verdade, só o argumento é igual: casal antes apaixonado começa a se odiar cada vez mais. Mas todo o desenvolvimento é bem diferente, nem os personagens têm os mesmos nomes.

A refilmagem é mais “pé no chão”, as brigas são menos exageradas, o que combina mais com os dias de hoje. Inclusive, achei que as motivações para a separação aqui são melhor exploradas: ele a inveja por causa do sucesso profissional; ela o inveja por causa do maior contato com os filhos.

O melhor de Os Roses é o casal de protagonistas. Afinal, Benedict Cumberbatch e Olivia Colman são grandes atores, e é sempre agradável vê-los em tela. O carisma da dupla segura o interesse do espectador até o fim do filme. Já o resto do elenco é apenas ok. Allison Janney só aparece em uma cena; Andy Samberg aparece mais mas tem pouco espaço. Só não gostei da Kate McKinnon, que repete o mesmo estilo de piadas sem noção que ela costuma fazer em outros filmes.

Os Roses – Até que a Morte os Separe não é um grande filme, mas é uma diversão honesta. Pena que veio logo depois de Corra que a Polícia Vem Aí, que é bem mais engraçado.

Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Crítica – Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Sinopse (imdb): Apenas um homem tem as habilidades necessárias para liderar o Esquadrão Policial e salvar o mundo.

Lembro quando anunciaram o novo Corra Que a Polícia Vem Aí. Não tenho ideia do motivo de terem escalado Liam Neeson para o papel principal – talvez pela piada besta dele ter o sobrenome parecido com o protagonista anterior, Leslie Nielsen. Enfim, não sei o motivo, mas posso afirmar que foi uma boa escolha. Corra Que a Polícia Vem Aí é divertidíssimo, e Liam Neeson está ótimo no papel!

Mas antes de entrar no filme, uma pequena recapitulação. Nem todos lembram, mas antes do primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí, existiu um seriado, lançado em 1982, que acho que não passou nas tvs brasileiras na época, mas tenho certeza de que foi lançado em VHS no fim dos anos 80 ou início dos 90 (sei disso porque heu vi, eram só seis episódios de vinte e poucos minutos cada, dava pra ver tudo alugando as fitas). A série era uma criação do trio ZAZ, David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, os mesmos criadores de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu e Top Secret, duas das melhores comédias nonsense da história do cinema. Lançado em 1988, o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí foi dirigido por David Zucker com roteiro do trio, e o mesmo aconteceu com o segundo, Corra Que a Polícia Vem Aí 2 1/2, de 1991. Em 94 fizeram o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3, que já tinha outro diretor e outro roteirista.

Anos se passaram, agora chegou a continuação, Corra Que a Polícia Vem Aí (o mesmo nome, problema semelhante ao recente Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado – por que não colocar um número???). Nenhum dos três ZAZ está presente aqui. A direção é de Akiva Schaffer, diretor do excelente (e pouco conhecido) Tico e Teco e os Defensores da Lei. A boa notícia é que Schaffer consegue recriar o estilo de humor nonsense semelhante ao do trio. Sabe aquele humor absurdo, tipo o protagonista mastigar um revólver para mostrar que é muito forte? Poizé, isso acontecia naqueles filmes e também acontece aqui.

Vou além: Schaffer também usa uma coisa que heu chamo de “piada em duas camadas” (nem sei se esse termo existe), que é quando o filme está contando uma piada, e lá ao fundo acontece outra piada diferente. Tipo quando, logo no início,  Frank Debrin entra na delegacia e estão tirando a foto de um suspeito (o “mugshot”) e tem um ventilador pro cabelo do suspeito ficar esvoaçante. Isso não é importante pra trama, é algo que está lá ao fundo – mesmo assim, é uma piada bem construída e bem executada. Isso tinha de monte nos filmes dos ZAZ, Schaffer soube recriar a ideia, você pode rever o filme e encontrar novas piadas que estão ao fundo das cenas.

Há tempos heu não via uma comédia tão engraçada numa sala de cinema. Atualmente, os filmes mais engraçados são os filmes de super herói, tipo Deadpool e Wolverine. Fui checar aqui no heuvi, de um ano pra cá só vi seis comédias: Golpe de Sorte em Paris, Anora, Operação Natal, Lobos, Bridget Jones e O Esquema Fenício – nenhum dos seis chega a causar gargalhadas. Vou te falar que Corra Que a Polícia Vem Aí sozinho tem mais piadas que todos os seis somados!

(Vou falar uma heresia. Semana passada revi o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí de 1988, pra me lembrar do clima do filme. E preciso dizer que ri mais neste novo filme de 2025.)

E, assim como Leslie Nielsen funcionava muito bem como o Frank Debrin pai nos filmes dos anos 80 e 90, Liam Neeson aqui está ótimo. O personagem tem que ser um cara completamente sem noção, e manter uma expressão séria diante de vários absurdos. Heu ia dizer que é o melhor filme do Liam Neeson em muito tempo, mas isso é fácil, ele só tem feito porcarias de um bom tempo pra cá. Ah, curiosidade: não parece, mas Liam Neeson hoje é bem mais velho do que Leslie Nielsen quando fazia os filmes. Neeson está com 72 anos; Nielsen tinha 67 quando filmou o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3.

Claro, nem todas as piadas funcionam. Mas é uma crítica que também faço aos filmes antigos, porque não acho graça em “piada de pum” – como quando Frank Debrin está mostrando as filmagens da câmera corporal e a gente vê que ele teve diarreia. Mas, como esse estilo de piada também estava nos outros filmes, não cabe reclamar agora – no primeiro filme, Frank Debrin vai ao banheiro com um microfone de lapela ligado ao som de uma entrevista coletiva. Mesmo assim, as boas piadas superam as piadas ruins.

No elenco, o único nome que vale ser citado além de Neeson é Pamela Anderson, que entrou bem no clima das piadas absurdas. Também no elenco, Danny Houston, Kevin Duran, Paul Walter Hauser e CCH Pounder.

No fim do filme, são duas cenas pós créditos. Mas as piadas não ficam só nessas duas cenas. Tem uma música nos créditos que é continuação de uma piada do filme; e ao longo dos créditos, várias piadinhas espalhadas. Vale ficar pra ler.

Por fim, a sessão de imprensa foi dublada, o que achei ruim. Entendo que queiram adaptar algumas piadas para o público brasileiro, mas sempre acho que um filme perde com a dublagem.

O Esquema Fenício

Crítica – O Esquema Fenício

Sinopse (imdb): Conto sombrio de espionagem que segue um relacionamento tenso entre pai e filha em uma empresa familiar. As reviravoltas giram em torno de traição e escolhas moralmente cinzentas.

E vamos para mais um Wes Anderson!

Vou copiar um parágrafo que escrevi ano passado, no texto sobre Asteroid City: “Wes Anderson é um dos poucos na Hollywood contemporânea que tem um estilo visual fácil de identificar. Seus filmes são sempre muito simétricos, cada frame é milimetricamente organizado, o cara deve ter TOC. As atuações são artificiais, mas isso parece proposital, e se encaixa bem na proposta visual.”

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, no original) segue esse caminho. Tudo simétrico e com atuações robóticas. Claro que isso não agrada qualquer público, mas precisamos reconhecer que o cara tem um estilo característico.

Agora, se falei que Asteroid City era um filme onde pouca coisa acontecia, aqui é o oposto. O roteiro de Anderson com o habitual parceiro Roman Coppola traz uma trama complexa, onde os três personagens principais se deslocam entre vários núcleos, desenvolvendo diversas negociações confusas. Algumas são bem divertidas, como o “momento basquete”, mas outras parece que estão lá só pra ter espaço pra participações especiais no elenco.

Sim, como de costume, o elenco é fantástico. Acho curioso como Anderson consegue tantos atores famosos para os seus filmes, já que é um formato que não privilegia boas atuações. E O Esquema Fenício não é diferente. Os papéis principais são de Benicio Del Toro, Mia Threapleton e Michael Cera (Mia é a única do elenco que não é conhecida, mas ela é filha de uma tal de Kate Winslet). Dentre os coadjuvantes principais, temos Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlet Johansson, Jeffrey Wright e Riz Ahmed. E ainda tem pontas de Bill Murray, F Murray Abraham, Willem Dafoe, Rupert Friend, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric e Hope Davis. Sobre as atuações, os três principais até têm personagens interessantes. O resto é tudo apático.

O Esquema Fenício é extremamente bem filmado, e tem alguns momentos hilários (ri alto com as flechas do filho do protagonista). A trilha sonora de Alexandre Desplat (outro colaborador habitual) também é boa. Mas, precisamos reconhecer que é um entretenimento para poucos…

Bridget Jones: Louca pelo Garoto

Crítica – Bridget Jones: Louca pelo Garoto

Sinopse (imdb): Bridget Jones agora viúva e solteira, vive com a ajuda de sua família, amigos e o ex-amante, Daniel. De volta ao trabalho e aos aplicativos, ela é perseguida por um homem mais jovem e talvez – pelo professor de ciências de seu filho.

Antes de tudo, preciso falar que não sou o público alvo ideal de Bridget Jones. Não me lembro de nada do primeiro filme, não sei se vi o segundo, nem sabia que existia um terceiro filme (como este terceiro é de 2016, provavelmente não vi, heu já escrevia críticas nessa época). Também sei que existe um livro que serviu de base, e não li. Meus comentários serão com isso em mente.

Vamulá. Bridget Jones: Louca pelo Garoto (Bridget Jones: Mad About the Boy, no original) é mais uma comédia romântica bobinha e previsível. Algumas cenas boas aqui e ali, alguns momentos constrangedores de vergonha alheia e um final tão óbvio que qualquer um que viu o trailer vai saber exatamente o que vai acontecer.

Achei algumas cenas péssimas! Tem uma cena que é o “dia da profissão”, onde os pais vão à escola falar sobre o seu trabalho. Bridget Jones é produtora de um programa de TV, no primeiro dia de trabalho ela estava organizando uma edição com a Fergie de convidada. Mas na hora de falar com as crianças na turma ela resolveu inventar uma entrevista com o professor pra discutir temas nada a ver.

Aliás, falando do professor, é um personagem muito mal construído. O cara é professor, mas também é inspetor, porque fica na rua organizando a entrada dos alunos. E está em TODOS os lugares da escola. E ainda por cima é músico! Acho que se o roteiro pedisse, ele também seria capaz de fazer uma cirurgia…

Felizmente nem tudo é ruim. Confesso que gostei de algumas cenas, como aquela onde o garotão salva o cachorro na piscina – apesar de ter um grande furo no roteiro, afinal ele não teria como saber quem é o dono do cachorro. Também achei bonita a cena onde a família manda mensagens para o falecido pai, através de balões coloridos.

No elenco, Renée Zellweger às vezes soa caricata, mas acho que o papel pede isso (como falei, não lembro dos outros filmes); Colin Firth, que era o principal papel masculino nos outros filmes, aqui faz aparições pontuais. Chiwetel Ejiofor faz o super professor, personagem ruim, mas ele não está exatamente mal; Leo Woodall faz o garotão novinho, papel sem muita profundidade. Hugh Grant, irônico e sarcástico, está ótimo – fiquei me questionando se ele sempre foi bom assim ou se agora que está mais velho melhorou (elogiei ele em Herege, Wonka, Magnatas do Crime…). Também tem uma divertida ponta da Emma Thompson.

Enfim, achei o filme meio besta. Mas talvez o problema seja heu, e não o filme. Duas fileiras atrás de mim no cinema, um cara dava gargalhadas altas a cada 30 segundos! Queria estar me divertindo como ele…