O Morro dos Ventos Uivantes

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes

Sinopse (imdb): Uma história de amor apaixonada e tumultuada que tem como pano de fundo os pântanos de Yorkshire, explorando o relacionamento intenso e destrutivo entre Heathcliff e Catherine Earnshaw.

Antes de tudo, preciso falar que nunca li o livro. Foram algumas diferentes versões cinematográficas, vi a de 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes, mas vi na época e nunca revi, então não lembrava de nada da história. Como de costume aqui no heuvi, os comentários serão sobre o filme, e não sobre o livro que deu origem.

Só queria fazer um breve comentário, porque ouvi gente reclamando que a escolha do Jacob Elordi seria errada, porque no livro o Heathcliff não é branco. Ora, na versão de 92, Heathcliff era o Ralph Fiennes. Essa reclamação está atrasada, não?

O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, no original) é o terceiro filme de Emerald Fennell, que tirou onda ganhando Oscar de melhor roteiro original (além de indicações para filme e diretora) por seu filme de estreia, Bela Vingança, de 2020. Em 2023 ela fez Saltburn, bom filme, mas não tão bom quanto Bela Vingança. E agora chega seu terceiro filme, bem mais fraco que os dois anteriores…

(Detalhe: o título do filme, no poster, está entre aspas. É um meio discreto que Emerald Fennell usou para avisar “galera, este filme não é exatamente a mesma história, é a minha versão, ok?”)

O Morro dos Ventos Uivantes não é bom. Não é um lixo, mas tem muito mais problemas que virtudes. Duas coisas me incomodaram muito, uma sobre a história, a outra do filme em si. Vamos por partes.

Sobre a história, não sei vocês, mas heu tô de saco cheio com gente que alimenta problemas desnecessários. Ele gosta dela, ela gosta dele, mas ninguém fala nada e eles não ficam juntos. Isso não é um problema exclusivo desse livro/filme, isso tem de monte por aí, inclusive na vida real. Galera, qual é a dificuldade de você verbalizar o que você sente por alguém? Pra que problematizar algo que não é um problema? Aí, no filme, vemos Heathcliff decepcionado com algo que ele ouviu – mas não confirmou – e vai embora. E volta anos depois, dizendo que sempre amou Cathy. Cara, se você a ama, por que foi embora? Você se ausentou, “a fila andou”. Agora não reclame! E ela também fica fazendo jogo duro – pra que??? Sei lá, esse tipo de problema me enche o saco.

Agora, sobre o filme, o problema é que é chato e arrastado. São duas horas e quinze, e aquela história poderia facilmente ser contada em uma hora e meia. É impossível passar pela reta final do filme, repetindo a mesma coisa várias vezes, sem ficar olhando pro relógio.

Além disso, O Morro dos Ventos Uivantes tem algumas coisas meio estranhas. O figurino usa umas roupas que parecem de plástico, talvez celofane. Qual é o sentido de usar um tecido que não parece compatível com a época que o filme se passa? Faço o mesmo comentário sobre alguns momentos musicais usando Charlie XCX, umas músicas que não têm nada a ver com o clima do filme, parecia um videoclipe.

Um amigo comentou que O Morro dos Ventos Uivantes era pra ser um romance gótico, mas virou um thriller erótico. Mas, olhando pelo lado erótico, achei bem fraco. O filme tem zero nudez, e pouquíssimas cenas de sexo. Ok, algumas cenas sugerem erotismo em situações do dia a dia, como por exemplo alguém sovando massa de pão na mesa. Mas na minha humilde opinião é tudo muito discreto pra ser chamado de thriller erótico.

Nem tudo é ruim. A fotografia é muito boa – talvez o único elogio que faço sem nenhuma ressalva. Várias cenas são belíssimas, daquelas que dá vontade de pausar e colocar num quadro. Também gostei das cenas que envolvem Heathcliff e Isabella, uma relação bem tóxica, mas que foi bem escrita e bem filmada.

No elenco, Margot Robbie e Jacob Elordi servem para o que o filme propõe: um casal bonito e carismático. Não precisa de grandes atuações, a ideia é que eles façam o básico. A melhor do elenco é Alison Oliver, que faz Isabella, é um personagem bem mais interessante que o casal principal. E achei legal ver Owen Cooper, o garoto de Adolescência, em seu primeiro papel para o cinema. Também no elenco, Hong Chau, Shazad Latif e Martin Clunes.

O Morro dos Ventos Uivantes está em cartaz, e aparentemente não está agradando. Espero que Emerald Fennell tenha melhor sorte no seu quarto filme.

Saltburn

Crítica – Saltburn

Sinopse (imdb): Lutando para encontrar seu lugar na Faculdade de Oxford, um aluno é atraído para o mundo de um encantador aristocrata, que o convida para Saltburn, a enorme mansão de sua família excêntrica, para passar um verão inesquecível.

Comecei a ver gente comentando sobre este Saltburn, novo filme escrito e dirigido por Emerald Fennell, que ganhou Oscar de Melhor Roteiro Original pelo seu filme anterior, Bela Vingança, que estreou na Amazon Prime no finzinho do ano passado.

Comentários falavam sobre “polêmica” e sobre “plot twist”. Polêmica, ok, concordo. Agora, não tem plot twist. Tem gradativas revelações sobre o que realmente estava acontecendo. Isso não é plot twist, galera!

Agora, sim, o filme traz assuntos polêmicos. Temos uma visão nada glamourizada da vida dos super ricos, e além disso, todos os personagens têm falhas de caráter, e vemos alguns comportamentos completamente fora do padrão. E o filme ainda tem algumas cenas que parece que foram colocadas lá só pra provocar.

Tecnicamente, é tudo muito bem feito. Saltburn é um filme bonito e bem filmado. E heu diria que o destaque são as atuações, principalmente os dois principais, Barry Keoghan (Os Banshees de Inisherin) e Jacob Elordi (Priscilla) – indicações ao Oscar devem vir em breve. Mas o resto do elenco também está bem, Rosamund Pike, Richard E. Grant, Archie Madekwe, Alison Oliver e Carey Mulligan.

Agora, teve uma coisa na parte final que me incomodou, vou falar depois do aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

A gente descobre que Oliver tinha um plano, elaborado desde a época do colégio. Ok. Onde uma cena como ele lambendo a água do banho do Felix se insere nesse plano?

FIM DOS SPOILERS!

Mesmo assim, ainda achei Saltburn um bom filme. Talvez um degrau abaixo de Bela Vingança, mas nada que estrague o currículo de Emerald Fennell. Que venha seu próximo filme!

Bela Vingança

Crítica – Bela Vingança

Sinopse (imdb): Uma jovem, traumatizada por um trágico acontecimento de seu passado, busca vingança contra aqueles que cruzaram seu caminho.

Preciso dizer que o nome em português me afastou desse filme. A distribuidora claramente quis linkar o filme a outros títulos onde uma mulher se vinga dos seus agressores, como Doce Vingança ou Vingança. Até curto filmes assim, mas deixei de lado, “um dia vejo”.

Aí vi Bela Vingança na lista dos 5 indicados a Globo de Ouro de melhor filme drama. Péra, deve ter algo a mais com esse filme. You had my curiosity, now you have my attention!

Realmente. Bela Vingança (Promising Young Woman, no original) não segue a linha dos filmes citados antes. Sim, tem uma mulher se vingando de homens, mas é outro tipo de vingança. No filme escrito e dirigido pela estreante Emerald Fennell, ela vai pra balada, finge que está bêbada, espera um cara abordá-la pra se aproveitar, vai pra casa com o cara, e aí ela entra em ação.

Se tem uma coisa que, pra mim, não funcionou nesse filme, é que acho que ela se arrisca muito. Vejo fácil fácil um cara desses – muito maior e mais forte – dando uns tapas nela só por ter sua masculinidade “ameaçada”.

Mesmo assim, achei a abordagem muito boa. É bem mais fácil de acreditar do que filmes que focam em “homens maus” e mulheres com vinganças cheias de pirotecnias. De repente o cara que é alvo da protagonista não é exatamente um mau caráter, mas, sabe a expressão “a ocasião faz o ladrão”? Será que ele continua assim se aparecer uma “oportunidade”? Acabou o filme e fiquei imaginando que esse tipo de coisa deve acontecer muito por aí.

(Li no imdb que o título original “Promising Young Woman” é uma referência a uma citação de um caso de um universitário de Stanford, acusado de agredir sexualmente uma mulher em 2016. Falavam na época que ele era um “promising young man” – ou seja, segundo essa lógica, se ele tem um futuro pela frente, a gente pode ignorar se ele for um cometer um crime?)

O elenco é fantástico. Carey Mulligan está perfeita – tanto que concorreu ao Globo de Ouro e agora concorre ao Oscar. Mas não só ela, outros atores conhecidos aparecem em papeis menores, e todos estão bem: Clancy Brown, Jennifer Coolidge, Laverne Cox, Alison Brie, Christopher Mintz-Plasse, Connie Britton, Molly Shannon, Adam Brody. Ouvi gente criticando o Bo Burnham, que é o par romântico, porque o filme resvala num clima de comédia romântica. Mas gostei da atuação dele, e gostei de como isso é inserido no filme e ajuda o desenvolvimento da personagem principal.

O final não é o previsível. Vai desagradar muita gente. Mas heu gostei do final assim, um final desconfortável, que te deixa pensando depois.

Bela Vingança concorreu a 4 Globos de Ouro: melhor filme drama, roteiro, atriz e direção. 4 indicações dentre as mais importantes, mas não ganhou nenhum. E ontem saíram as indicações ao Oscar, Bela Vingança está concorrendo a 5 estatuetas, filme, roteiro, atriz e direção, e também edição. Não acho que tenha o perfil de ganhar melhor filme, mas ano passado ninguém achava que Parasita tinha o perfil, então, aguardemos.