Cidade Oculta

Crítica – Cidade Oculta

Sinopse (imdb): Uma misteriosa dançarina de cabaré envolve-se com um bandido e acaba na mira de policiais corruptos. O universo marginal de uma metrópole fundindo elementos da cultura pop, do “film noir” e das histórias em quadrinhos.

E vamos dar continuidade à playlist de filmes ligados ao rock nacional dos anos 80. Hoje é dia de Cidade Oculta, de 1986, dirigido por Chico Botelho.

Cidade Oculta tem pelo menos duas grandes diferenças para os outros seis filmes que citei aqui. Uma delas é a ambientação em São Paulo. Não sou um grande entendedor de Embrafilme nos anos 80, mas os outros filmes da minha playlist têm mais cara de cariocas. Bete Balanço e Rádio Pirata se passam no Rio; não me lembro se Rock Estrela também, ou se é em uma cidade indeterminada. As Sete Vampiras se passa boa parte no Quitandinha, em Petrópolis, cidade serrana ao lado do Rio. Menino do Rio, bem é “do Rio”, né? E na continuação, Garota Dourada, os personagens viajam para o Sul, mas o filme começa e termina no Rio.

Cidade Oculta é assumidamente paulista. Inclusive, descobri que existe uma “trilogia da noite paulistana”, com Cidade Oculta (de 1986), A Dama do Cine Shangai e Anjos do Arrabalde (ambos de 1987). Vi A Dama do Cine Shangai há muito tempo e nem me lembro, e acho que não vi Anjos do Arrabalde. São três filmes de diretores diferentes, não sei qual é a semelhança entre eles pra formarem uma trilogia.

Se os filmes “cariocas” são mais diurnos, Cidade Oculta é mais noturno. Os realizadores paulistas usavam a expressão “neon-realismo” (o nome é um trocadilho com o movimento neorrealismo, do pós guerra). Os filmes que usavam o “neon-realismo” destacavam o neon e outros elementos visuais urbanos presentes na noite paulistana.

A outra diferença é no estilo musical. Os outros filmes que citei usam músicas de artistas que fizeram muito mais sucesso comercial, como Barão Vermelho, Leo Jaime, RPM, Metrô, Marina, Rádio Táxi, Ritchie, etc. Cidade Oculta traz a galera da vanguarda paulista, como Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola e Patife Band. A vanguarda paulista era bem conceituada entre a crítica e a galera alternativa, mas nunca foi sucesso de público (talvez só a Tetê Espíndola no Festival dos Festivais, em 1985, com Escrito nas Estrelas). Aposto como boa parte do público do heuvi não conhece esses nomes…

Em Cidade Oculta, conhecemos Anjo, que passou um tempo preso, e quando sai, ao reencontrar o parceiro, este agora é o líder da gangue. Anjo começa a se relacionar com Shirley Sombra, dançarina e cantora do clube SP Zero.

(A boate SP Zero nunca existiu, usaram como set de filmagens o Madame Satã, um dos points culturais mais badalados de São Paulo na década de 1980. Muitas bandas fizeram seus primeiros shows lá, como Titãs, Ira!, RPM, entre outras. A boate foi inaugurada em 1983, fechou em 2009 e reabriu em 2012.)

O clima do filme lembra o cinema noir, com personagens marginais e mulheres fatais. Também tem um que de história em quadrinhos – um dos roteiristas é Luiz Gê, que no mesmo ano de 86 trabalhou como editor da revista Circo, na qual trabalhou com Laerte, Angeli e Glauco.

Os outros roteiristas foram o diretor Chico Botelho e o protagonista Arrigo Barnabé. Foi o segundo e último longa dirigido por Chico Botelho, que faleceu em 1991, com apenas 43 anos de idade.

No elenco, Arrigo Barnabé está bem como o protagonista – curiosamente, ele é o autor da trilha sonora, mas seu personagem não tem nenhum número musical. Carla Camurati também está muito bem como Shirley Sombra. Jô Soares faz uma participação especial em uma única cena. Também no elenco, Cláudio Mamberti e Celso Saiki.

Lembro de ter visto Cidade Oculta no Rio Cine Festival, de 1986, em uma sessão no antigo Ricamar (onde hoje é a Sala Baden Powell). O filme ganhou cinco prêmios neste festival: melhor filme, diretor, fotografia, música original e ator coadjuvante (Cláudio Mamberti).

Cidade Oculta está disponível completo no youtube, inclusive com a cena de nudez e sexo do casal principal…

Garota Dourada

Crítica – Garota Dourada

Sinopse: Em um belo recanto do litoral, uma sensual jovem provoca a rivalidade entre dois surfistas que desejam conquistá-la. Um deles tenta esquecer uma antiga paixão mas esta reaparece, deixando-o dividido.

Fazia décadas desde a última vez que tinha visto Menino do Rio e Garota Dourada. Rever Menino do Rio foi uma agradável surpresa, o filme é melhor do que heu lembrava. Já Garota Dourada foi uma outra surpresa, mas negativa. É bem inferior ao filme anterior.

Se passaram alguns anos, vemos Valente com uma filha e separado da Patrícia. Resolve então viajar para Santa Catarina, com a companhia de Zeca, que hoje é um popstar da música. Lá ele conhece Diana, e arranja um novo rival, Betinho.

Sabe qual é o problema? Parece que não desenvolveram direito nenhum dos possíveis plots. Essa história entre Valente, Patrícia e Betinho podia ser um bom triângulo amoroso, principalmente porque Patrícia volta na parte final do filme. Mas não, em vez disso perdemos tempo com uma trama paralela com um ser místico que fala com voz metálica (e, sem legendas, não dá pra entender nada do que ele fala), e que tem um circo, ou algo parecido. Essa sub trama não leva a lugar nenhum e só atrasa o filme.

Tem outro plot secundário mal desenvolvido que é uma fã do Zeca que viaja até onde eles estão e eles acabam ficando juntos. Mas ele briga com ela quando descobre que ela era uma fã. Ué, ele gosta dela, ela gosta dele, por que brigar?

Teve uma coisa que não sei se achei legal. O personagem Pepeu, vivido por Ricardo Graça Melo, morre no primeiro filme. Mas o ator está de volta, interpretando Kid, o irmão do Pepeu, numa outra trama paralela. O problema é que é uma trama besta – além de uma forçação pra incluir uma participação sem graça da Marina Lima.

Ainda existe um problema geográfico. No primeiro filme, Valente viaja para Saquarema e conhece Patrícia, e depois se reencontram no Rio de Janeiro. Ok, são cidades perto, cerca de 100 km de distância, é algo possível de acontecer, pessoas que foram passar um fim de semana numa cidade pequena perto, mas voltam pra cidade grande depois. Mas, Santa Catarina não é tão perto assim do Rio, são mais de mil quilômetros entre Rio e Florianópolis. Todos se reencontrarem no Rio forçou a barra…

Na parte final, temos algumas participações musicais. Tem trechos de shows com Ritchie (com o Lobão na bateria), Guilherme Arantes e Marina (num dueto com Ricardo Graça Melo). Ok, foi legal ver esses momentos musicais.

Sobre a trilha sonora, tem uma história que ouvi de um amigo, mas não consegui confirmar se é verdade ou lenda urbana. No filme Menino do Rio, toca a música Garota Dourada. E segundo diz a lenda, o diretor Antônio Calmon pretendia fazer uma trilogia, e o terceiro filme se chamaria “Menina Veneno” – música que toca na trilha de Garota Dourada. Catei no google, mas não achei nenhuma fonte confiável que confirmasse esse terceiro filme.

No elenco, temos a volta de André de Biase, Cláudia Magno, Sérgio Mallandro e Ricardo Graça Mello. As novidades são Bianca Byington e Roberto Bataglin (como as outras duas arestas do triângulo), e Andréa Beltrão num papel que parece um protótipo da Zelda Scott que ela faria a partir do ano seguinte em Armação Ilimitada (ao lado do André de Biase). Alexandre Frota, estreando no cinema, faz parte da galera que anda com Valente. Geraldo Del Rey e Carlos Wilson também têm papéis importantes. E, segundo o imdb, Marcos Palmeira está no elenco, mas não vi…

Garota Dourada só vale pela nostalgia. Porque infelizmente não é um bom filme.

Menino do Rio

Crítica – Menino do Rio

Sinopse (imdb): Aventuras românticas de um grupo de adolescentes e surfistas do Rio de Janeiro.

E vamos a mais um filme da playlist rock nacional anos 80!

Falei dos três filmes do Lael Rodrigues, lançados em 1984, 85 e 87, época que o rock nacional estava na crista da onda. Menino do Rio é de 1982, o rock era novidade. Ou seja, este está mais para um filme sobre jovens, que usa o rock nacional na trilha sonora; do que um “filme do RockBR”.

Escrito por Bruno Barreto e dirigido por Antônio Calmon, Menino do Rio nos apresenta Valente, típico “playboy da zona sul” (apesar de não morar na zona sul). Ele surfa, voa de asa delta, e trabalha fazendo pranchas. Claro, tem um pai rico. Valente conhece Patrícia, e eles começam a namorar, mas se separam por um motivo bem imaturo, na minha humilde opinião (se bem que até hoje tem gente que pensa que nem ele).

(O filme não deixa claro onde ele mora, mas tem cara de ser naquelas praias depois do Recreio. Me pareceu ser a praia depois do Pontal.)

A história é original, mas o personagem foi inspirado em uma pessoa real, José Arthur Machado, também conhecido como Petit, um surfista com um dragão tatuado no braço (numa época que quase ninguém tinha tatuagens), que inspirou Caetano Veloso a escrever a música Menino do Rio em 1979. Petit tem uma história triste: sofreu um acidente de moto em 1987 e acabou cometendo suicídio dois anos depois.

Menino do Rio tem o perfil das produções nacionais da época. Produção boa, som ruim. E, claro alguma nudez gratuita. Foi um grande sucesso de público na época, tornando-se um fenômeno cultural e um dos filmes nacionais de maior bilheteria do período.

Queria fazer dois comentários sobre a parte musical do filme. O primeiro é que, diferente dos quatro filmes comentados nas últimas semanas (Bete Balanço, Rock Estrela, Rádio Pirata e As Sete Vampiras), a música Menino do Rio, sucesso em 1980 na voz de Baby Consuelo, não toca no filme. Curiosamente, a música Garota Dourada toca, mais de uma vez, na versão conhecida e em uma versão instrumental, mais lenta, num momento triste do filme. E a continuação de Menino do Rio se chama justamente Garota Dourada.

O outro comentário é sobre o momento que a música brasileira estava passando. Nos filmes do Lael Rodrigues, o RockBR estava no auge da fama; mas aqui, em 1982, ainda era novidade. Vamos voltar um pouco no tempo. Em 1980, o rock brasileiro era underground. Rita Lee já tinha deixado o Tutti Frutti e estava fazendo um som mais pop, tinha lançado um disco com Lança Perfume, Baila Comigo e Bem Me Quer; Raul Seixas estava na área, mas sua carreira não estava em alta. Até que, em 1981, a Gang 90 tocou Perdidos na Selva no festival MPB Shell, da rede Globo, e lançou uma fagulha que incendiaria a música brasileira: em 1982, foram lançados discos da Blitz, Lobão, Lulu Santos, Barão Vermelho, Rádio Táxi e Herva Doce. Ou seja, na época que Menino do Rio foi feito, o rock nacional ainda não era um produto consolidado – mas certamente o sucesso do filme ajudou a explosão do RockBR.

O elenco é bom. Valente é interpretado por André de Biase, que alguns anos depois seria protagonista de um seriado que marcou a minha geração: Armação Ilimitada. Patrícia era Cláudia Magno, que fez sucesso em novelas, mas faleceu precocemente aos 35 anos. Dois nomes curiosos estão entre os principais coadjuvantes. Um é Sérgio Mallandro, o caricato “glu glu ié ié” tem um papel grande, rolam boatos de que ele improvisou boa parte dos diálogos. Outro é Evandro Mesquita, vocalista e principal nome da Blitz. Digo que sua presença é curiosa porque não tem Blitz na trilha sonora (Cazuza atua em Bete Balanço, filme que tem mais de uma música do Barão Vermelho). Também no elenco, Ricardo Graça Melo, Cissa Guimarães, Claudia Ohana, Nina de Pádua e Tania Boscoli.

Em 1983 veio a continuação, Garota Dourada, dirigida pelo mesmo Antônio Calmon. Em breve comento aqui!

As Sete Vampiras (texto revisado e ampliado)

DEDE

Crítica – As Sete Vampiras

Sinopse (imdb): Um botânico é incapaz de lidar com uma planta carnívora que transforma suas vítimas em vampiros. Um detetive desajeitado e sua secretária são contratados para solucionar as mortes misteriosas que acontecem em um show em uma boate.

Depois da “trilogia Lael Rodrigues”, vamos para algo um pouco diferente.

Tive dúvidas se As Sete Vampiras poderia estar nesta playlist de filmes ligados ao rock nacional dos anos 80. Porque é muito mais um “filme do Ivan Cardoso” do que um filme ligado ao rock BR. Mas, a música As Sete Vampiras, feita para o filme, foi um grande sucesso, o Leo Jaime é um dos atores principais, e ainda tem participação especial da banda João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Ou seja, por mim entra na lista.

(Sou muito fã de João Penca. Achei muito mais legal ver o João Penca aqui do que o Barão Vermelho em Bete Balanço ou o Metrô em Rock Estrela.)

As Sete Vampiras marcou minha adolescência, por três motivos, e reconheço que um deles é algo que não me orgulho. Gostava do filme porque tinha Leo Jaime e João Penca, e também gostava porque parte do filme se passa no Quitandinha, em Petrópolis, local onde morei por alguns meses quando tinha uns 8 ou 9 anos de idade. Foi legal ver na tela alguns cenários que fizeram parte da minha infância. O terceiro motivo não é muito nobre, é um guilty pleasure: vi As Sete Vampiras na minha adolescência, e gostava de ver as mulheres nuas – coisa bastante comum nos filmes do Ivan Cardoso, diga-se de passagem.

As Sete Vampiras é, na minha humilde opinião, o melhor filme dirigido pelo Ivan Cardoso – talvez o maior nome do trash brasileiro – conheço outros diretores que fazem filmes trash, mas nenhum teve o alcance do Ivan – talvez só o Zé do Caixão, mas, entre os dois, prefiro o estilo galhofa do Ivan. Ele mistura o terror com a comédia, foi com os seus filmes que conheci o termo “terrir” (que achei que era invenção dele, mas anos depois descobri que já existia em uma revista do fim dos anos 60!)

O roteiro é de Rubens Francisco Lucchetti, ou RF Lucchetti, nome não muito conhecido do grande público, mas cultuado no underground como “o papa do pulp no Brasil”. Além de As Sete Vampiras, Lucchetti escreveu roteiros para outros filmes do Ivan, como O Segredo da Múmia, O Escorpião Escarlate e Um Lobisomem na Amazônia (além de alguns filmes do Zé do Caixão). Recentemente ouvi falar do seu nome quando a Vigor Mortis lançou, em 2022, a webserie A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti, já comentado aqui no heuvi.

Vamos ao filme. A história é uma bobagem deliciosa. A trama envolve uma planta carnívora importada da África, vampiros, anos 50 e misteriosos assassinatos em série. E muitos clichês de filmes de terror, como um assassino mascarado empunhando uma faca, referência aos filmes giallo.

Aqui nada é para se levar a sério. Tem uma planta carnívora tosca tosca tosca, parece tirada de um seriado televisivo infantil tipo Castelo Rá Tim Bum. E ainda tem algumas referências divertidas, como o personagem do Nuno Leal Maia, Raimundo Marlou, homenagem ao escritor Raymond Chandler e seu personagem Philip Marlowe.

Rola MUITA nudez gratuita! Quase todas as atrizes tiram a roupa, e quase sempre sem justificativa – coisa normal nos filmes do diretor. O Helvecio adolescente curtia muito, mas hoje reconheço que é exagerado. Enfim, nudez gratuita sempre foi algo comum no cinema nacional. Aqui tem mais do que nos três filmes comentados nas últimas semanas, mas naqueles filmes também tem: Débora Bloch em Bete Balanço, Malu Mader em Rock Estrela e Lidia Brondi em Rádio Pirata.

O elenco conta com um monte de nomes interessantes, como Nuno Leal Maia, Leo Jaime, Nicole Puzzi, Lucélia Santos, Simone Carvalho, Susana Matos, Andréa Beltrão, Danielle Daumerie, Dedina Bernardeli, Tania Boscoli, Wilson Grey, John Herbert, Ivon Cury, Pedro Cardoso, Tião Macalé, Carlo Mossy e Colé Santana. Tem uma ponta do Dedé Santana, dizem os boatos que ele foi ao set para vigiar a namorada Susana Matos, mas não achei nada que confirme isso.

Foi muito legal rever o número musical com o Leo Jaime cantando a música As Sete Vampiras. Não reconheci todos os músicos da banda, mas dá pra ver o guitarrista Sergio Serra, que depois foi para o Ultraje a Rigor. E temos os quatro “miquinhos” do João Penca fazendo uma coreografia gaiata: Selvagem Big Abreu, Bob Gallo, Leandro (na época que encarnava o “guitarrista mascarado”) e Avellar Love.

Teve uma coisa no roteiro que achei estranha, mas não sei se posso dizer que é uma falha ou uma ousadia estilística. Alguns personagens terminam o filme como protagonistas, mas só aparecem no meio da trama, como os interpretados por Leo Jaime, Nuno Leal Maia e Andrea Beltrão, que entram no filme perto dos 40 minutos de projeção.

As Sete Vampiras não é um filme para qualquer público. Mas continuo gostando!

Rádio Pirata

Crítica – Rádio Pirata

Sinopse (imdb): Após descobrir uma fraude em um centro de processamento de dados, um casal é falsamente acusado de assassinato. Escondidos em uma van, eles montam uma rádio pirata para tentar mobilizar a opinião pública.

E vamos ao terceiro (e último) filme do Lael Rodrigues!

Se Bete Balanço e Rock Estrela são bem parecidos, Rádio Pirata já é um pouco diferente. Tem menos números musicais e uma história mais bem elaborada. Quase poderia ser o melhor dos três filmes – mas tem um final tão ruim que acaba sendo o pior.

Começo por uma coisa que não entendi: Bete Balanço e Rock Estrela usam a músicas homônimas como tema principal, aquela que toca mais de uma vez, na abertura e durante o filme. Aqui não. Não tem a música Rádio Pirata, do RPM; o tema do filme é Brasil, do Cazuza. Não achei informações, mas desconfio que tenha rolado algum problema de direitos autorais.

No filme, o protagonista Pedro Bravo (Jaime Periard) descobre uma fraude no trabalho e acaba envolvido em uma grande conspiração que coloca sua vida em risco. Na mesma época, ele conhece Alice (Lídia Brondi), e começam namorar. Ela ajuda ele a montar uma rádio pirata para denunciar a fraude.

Sim, é uma trama mais densa que os outros dois filmes. Mas ainda tem algumas tosqueiras com cara de videoclipe, como a participação do grupo teatral Banduendes. Entendo que a personagem da Lídia Brondi precisava ter algum background, mas essa saída ficou bem tosca, e destoa do clima mais sério do resto do filme.

(Coisas da minha memória… Lembro do segundo disco da Blitz, no encarte dizia que a música “Apocalipse Não” tinha “participação especial de Banduendes por Acaso Estrelados”. Quarenta anos depois, sei quem são esses tais Banduendes!)

Rádio Pirata tem algumas cenas muito boas. Tem até uma perseguição de carros por Santa Teresa impressionantemente bem filmada. Agora, o roteiro tem suas falhas. Por exemplo, em determinado momento, bandidos armados entram na casa de Pedro para matá-lo, mas ele consegue fugir de asa delta. A fuga não foi um problema, ele morava numa casa onde tinha uma asa delta, e dava pra pular de lá. O problema é que logo na cena seguinte ele volta pra casa e nunca mais ninguém se preocupa com os bandidos. Caramba, se o objetivo dos caras era uma “queima de arquivo”, eles iam voltar!

Mas nada é pior do que o final. Lembro de ter visto no cinema na época do lançamento e não me lembro do final ser tão chocante. Vou falar, mas antes, os avisos de spoiler.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

O casal de mocinhos tem um plano: sequestrar a filha do vilão. Sério, o plano deles é um sequestro de uma criança. Mas calma que fica pior. Eles trocam a menina pelo vilão, que acaba confessando, e eles captam o áudio e jogam ao vivo pela rádio pirata, no meio de um jogo de futebol, e milhares de pessoas ouvem essa confissão. Ok, os mocinhos cometeram um crime, mas era pra conseguir desmascarar o vilão, certo? Que nada. Depois da confissão, Alice dá um tiro no peito dele e o mata a sangue frio. Ou seja, os mocinhos terminam o filme como sequestradores e assassinos. Sério que nos anos 80 ninguém achou isso estranho?

FIM DOS SPOILERS!

Se não fosse esse final, Rádio Pirata seria um filme bem melhor do que Bete Balanço e Rock Estrela, apesar dos Banduendes caricatos. Vemos um nítido amadurecimento do Lael Rodrigues na parte narrativa. Mas esse final é tão ruim que, se for pra rankear os três, Rádio Pirata fica em último.

Rock Estrela

Crítica – Rock Estrela

Sinopse (imdb): Estudante de música clássica chega de Buenos Aires para morar com seu primo roqueiro no Rio de Janeiro. Entre festas repletas de rock and roll, ele precisa decidir entre sua namorada de infância, e a jogadora de vôlei Vera.

Depois de Bete Balanço, bora comentar Rock Estrela!

Assim como comentei no texto sobre o outro filme, tudo aqui é muito datado. Não dá pra ver um filme desses com a cabeça de hoje em dia. Precisamos nos lembrar de toda a conjuntura sociocultural da época. Aí pode virar uma boa experiência nostálgica.

Lançado em 1985, Rock Estrela é o segundo filme do Lael Rodrigues. O formato é bem parecido com seu filme anterior, Bete Balanço: muita música e pouca história. Talvez a maior diferença é que o primeiro filme tinha mais números de dança, enquanto este segundo tem mais trechos de shows.

Rock (Diogo Vilela), um músico careta, chega de Buenos Aires para morar com Tavinho (Leo Jaime), que tem uma banda de rock. Ele aguarda a namorada argentina, Graziela (Malu Mader), mas acaba se envolvendo com a jogadora de vôlei Vera (Vera Mossa). Isso tudo entre números musicais de gente como RPM, Metrô, Tokyo, Celso Blues Boy, e, claro, Leo Jaime.

A maior parte das atuações é bem ruim. Heu diria que só Diogo Vilela e Leo Jaime estão bem. Malu Mader, estreando no cinema, não está bem, mas pelo menos não atrapalha. Agora, Andrea Beltrão, Tim Rescala e Guilherme Karam estão muito mais caricatos do que o bom senso permite. E Vera Mossa, coitada, que bom que tinha um grande reconhecimento como atleta. Porque, como atriz, é péssima.

Achei excessiva a quantidade de “videoclipes” inseridos, contei 14 inserções de bandas tocando (inclusive três artistas argentinos). Ok, é legal, mas como rola durante todo o filme, chega a cansar. Foi muito, podiam cortar pelo menos metade dos números – principalmente porque a maior parte deles não tem nada a ver com a trama que está rolando.

O final é bem ruim. Vai rolar um jogo da Vera ao mesmo tempo que um show do Tavinho. No meio do show, aparecem as jogadoras de vôlei, o Rock, e também a Graziela – que antes estavam em locais diferentes! Mas até aí, ok, entra na onda de videoclipe que não precisa ter uma precisão temporal. Mas aí entra outro problema: no palco, em alguns takes, Rock está junto com a Graziela; em outros, com a Vera. Caramba, se metade do filme fala do grande dilema sobre qual das duas deveria escolher, o filme deveria ter se decidido. No final, acaba que aparentemente ele fica com as duas.

Assim como Bete Balanço, só vale pela nostalgia.

Bete Balanço

Crítica – Bete Balanço

Sinopse (imdb): Uma jovem deixa o estado de Minas Gerais para tentar se tornar cantora no Rio de Janeiro.

Me indicaram um site russo semelhante ao YouTube, que tem alguns canais com dezenas de filmes brasileiros. Vou aproveitar pra rever vários. E também vou aproveitar para fazer uma playlist de “filmes de rock nacional dos anos 80”. Começo essa playlist com Bete Balanço, dirigido por Lael Rodrigues e lançado em 1984.

Não dá pra assistir a um filme desses com a cabeça no século XXI. É um filme datado sob vários pontos de vista – não só o visual, mas toda a temática do filme não combina com os dias de hoje. Agora, quem entrar na onda vai ter uma boa viagem nostálgica.

Não tem muita história aqui. Bete sai de Governador Valadares e vai para o Rio de Janeiro para tentar a vida de cantora. Começa a namorar um fotógrafo e a cantar num estúdio. Basicamente é isso. O filme tem uma hora e quatorze minutos e está cheio de números musicais, não tem espaço pra desenvolver uma trama mais elaborada.

A direção é de Lael Rodrigues, que só dirigiu três filmes, mas foi um nome essencial para este estilo. Em 1985 ele faria Rock Estrela, e dois anos depois, 87, Rádio Pirata. A nota triste é que Lael faleceu pouco depois, em 1989. Ele tinha apenas 37 anos.

O roteiro tem uns furos meio bizarros, como por exemplo o fotógrafo ter imagens reveladoras que incriminariam alguém importante, mas esse plot é deixado de lado completamente. O plot com a Maria Zilda também foi mal desenvolvido, mas neste caso acredito que foi porque envolvia um relacionamento entre duas mulheres, coisa que o Brasil da primeira metade dos anos 80 dificilmente aceitaria.

E isso porque não estou falando de vários momentos onde a narrativa é interrompida para entrar um número musical nada a ver com a trama. Tem alguns números de dança meio jogados, acho que Lael Rodrigues queria fazer um musical da Broadway.

Na verdade, Bete Balanço parece um grande videoclipe estendido. Ou seja, alguns números musicais são inseridos, mesmo que não tenha nada a ver com a trama, tipo a participação do Lobão e os Ronaldos. O Barão Vermelho tem um papel pequeno, vê-los tocando faz parte da história. Já o Lobão só aparece “para o videoclipe”.

Revi Bete Balanço, e teve uma coisa que me incomodou bastante. A personagem Bete tem uma voz que se destaca. Mas quem interpreta é Débora Bloch, que não canta bem. Débora não está mal, é uma boa atriz (tanto que está aí até hoje), mas, para um papel desses, precisavam de uma atriz com a voz melhor!

Aproveito pra falar do elenco. Foi o filme de estreia da Débora Bloch, que, enquanto não está cantando, está bem. Lauro Corona faz seu par. Diogo Vilela faz um alívio cômico meio bobo. Também no elenco, Maria Zilda, Hugo Carvana, Cazuza e uma participação especial da Andrea Beltrão, estreando no cinema como uma das dançarinas (pouco depois ela ficaria bem conhecida). A nota triste é que Lauro Corona e Cazuza (que na época geravam piadas sobre serem a mesma pessoa porque eram bem parecidos fisicamente) faleceram alguns anos depois, ambos de Aids.

O final não é bom. Correram para inventar uma solução do nada. Podia ter 10 minutos a mais e concluírem direito as jornadas dos dois personagens principais. Em vez disso, colocaram um número de dança e deixaram pra lá.

Mesmo assim, foi gostoso rever. Só não sei se alguém que não viveu os anos 80 vai curtir.

Areias Escaldantes

Crítica – Areias Escaldantes

Sinopse (wikipedia): Num futuro próximo (1990), no país fictício de Kali, um grupo de jovens terroristas executa roubos, sequestros e assassinatos sob as ordens de um misterioso chefão conhecido como “Entidade” e são perseguidos pela pomposa e ineficiente Polícia Especial.

Às vezes é melhor deixar as memórias lá no passado. Lembro que este Areias Escaldantes foi um filme marcante na minha vida, e nunca tinha revisto. Devia ter continuado sem rever…

Escrito e dirigido por Francisco de Paula, Areias Escaldantes parece um videoclipe. Imagens desconexas, atuações caricatas, tudo meio nonsense. Agora, o problema é que temos um videoclipe longa metragem. Cansa.

O roteiro é um lixo. Vou citar só dois exemplos pra mostrar como é um roteiro tosco. Um é que o filme deveria se passar na fictícia província de Kali. Mas tem um momento onde o personagem precisa ir até o Maracanã, num jogo Flamengo x Vasco! Se é pra termos um local fictício, qual é o sentido de usar um clássico no estádio mais famoso do Brasil? O outro exemplo é o Lobão, que tem um personagem policial, e que de repente aparece cantando e tocando guitarra. A gente entende ter um momento musical do Lobão (que era produtor musical do filme), mas não desse jeito à moda bangu!

Emendando os momentos musicais, a gente tem umas esquetes bem bobinhas. E como o elenco tem Luis Fernando Guimarães, Diogo Vilela e Regina Casé, impossível não lembrar de TV Pirata. Só que um TV Pirata bem mais bobo que o que a gente conhece. Também no elenco, Cristina Aché, Lobão, Jards Macaé, Guará Rodrigues, Eduardo Poly, Sérgio Bezerra e o Neville De Almeida fazendo um espião que é um dos papéis mais desperdiçados da história do cinema – ele aparece ao longo do filme como um cara misterioso, mas que não era ninguém importante no final, e ainda fala ao elenco e ao espectador que não está entendendo nada.

Pensando no personagem do Neville, a gente vê que o roteiro tinha potencial para ir longe. Existe uma tentativa de se criar um futuro distópico com uma espécie de polícia totalitária (apesar do filme se passar em 1990, apenas 5 anos no futuro). Mas essa tentativa falha miseravelmente. Areias Escaldantes é ruim como comédia, e é ainda pior como ficção científica. O filme se basta em uma trama sonolenta e sem graça de terroristas bonzinhos. Areias Escaldantes não serve nem pra criticar a ditadura militar que estava na reta final (no mesmo ano de 1985 o país teria o primeiro presidente não militar desde a década de 60).

Agora, a trilha sonora é fantástica. Músicas do Ultraje a Rigor, Titãs, Lobão, Gang 90, Ira!, Metrô, Capital Inicial e Lulu Santos. E ainda temos videoclipes inteiros, um dos Titãs e um do Lobão.

Também gostei de um detalhe aqui e outro ali, como uma corrida de táxi onde o carro se movimenta para frente e para trás ao mesmo tempo (não tem sentido, é um gag visual). Mas é pouco.

Vale pela nostalgia e pela trilha sonora. Mas parecia melhor na minha memória.