O Sorveteiro

Crítica – O Sorveteiro

Sinopse (imdb): Uma idílica cidadezinha de verão mergulha na loucura quando um vendedor de sorvete serve às crianças guloseimas que trazem resultados aterrorizantes.

Filme novo do Eli Roth, com o pé fincado fortemente no terror trash! É bom? Não. Mas, se você gosta de gore exagerado, vai se divertir.

Em um bairro pacato, muitas crianças brincam na praça. Chega um sorveteiro, e quase todas as crianças vão tomar sorvete. De noite, essas crianças parecem enfeitiçadas e atacam seus pais.

Crianças “do mal” não são uma novidade no cinema. E o lance das crianças enfeitiçadas lembra A Hora do Mal. E um vilão mudo que se comunica por expressões faciais lembra Terrifier. Sim, O Sorveteiro parece uma colagem de ideias. Isso às vezes funciona, mas nem sempre.

A direção é de Eli Roth, nome que tem alguns filmes interessantes no currículo (Cabana do Inferno, O Albergue, Feriado Sangrento) outros nem tanto (seu último filme, Borderlands, foi bem fraco). O Sorveteiro é o primeiro filme da produtora The Horror Section, fundada por Roth, para fazer filmes com uma proposta de fazer filmes de terror perturbadores.

(Roth estava no elenco de Bastardos Inglórios, mas era só como ator, não dá pra colocar na mesma lista de filmes.)

O melhor de O Sorveteiro são as cenas de mortes. O gore é muito exagerado, e quase sempre com efeitos práticos e de maquiagem. Heu ri alto em várias das mortes! Sim, o gore exagerado faz o filme virar uma comédia em boa parte da projeção.

(Por outro lado, achei caricato demais a maquiagem das crianças com a boca suja de sorvete. Ficou tosco.)

O roteiro tem as suas forçações de barra. Uma coisa que me incomodou foi o sorvete ter efeitos diferentes pra pessoas diferentes. Por que a menina um pouco mais velha não foi hipnotizada? E se o sorvete não faz efeito para adolescentes mais velhos, ou jovens adultos, cadê o resto dessa faixa etária pela cidade? Uma cidade tem dezenas de crianças, mas só três jovens adultos?

O terço final traz aquela tradicional cena de explicação, onde um novo personagem gasta um tempo explicando detalhes que nem sempre são necessários. Ok, entendo que queriam dar um contexto, mas a cena não ficou boa. Pelo menos posso dizer que gostei da reviravolta na sequência final. Nada muito inovador, mas um clichê bem utilizado. Só tem um problema: de repente o filme muda de tom, porque é um final muito mais sombrio do que a galhofa que permeia o resto do filme.

Existe uma polêmica ligada a um possível uso de inteligência artificial. Pelo que li, é no videozinho que passa no celular das crianças. Mas não consegui mais informações sobre esse caso, então não vou palpitar. Dito isso, queria falar mal dos efeitos especiais de uma cena em particular. O Sorveteiro usa muitos efeitos práticos, mas tem uma cena onde um personagem está em uma praça, em primeiro plano, e atrás dele várias crianças começam a se aglomerar. Quando as crianças partem para cima dele, é um cgi tosco demais. E o pior é que é um cgi desnecessário, porque a cena teria exatamente o mesmo impacto se apenas mostrasse as crianças correndo.

O elenco não é bom. Entendo que trabalhar com crianças não é algo muito fácil – principalmente se o orçamento é pequeno. E quase todo o filme é conduzido por atores infantis. Heu até gostei do principal, Charlie Zeltzer, que tem uma vibe parecida com aquele garoto de Umbrella Academy. Mas o resto é de sofrível pra baixo. Ah, o diretor Eli Roth interpreta o pai.

A história fecha, mas a última cena abre possibilidade de uma continuação, que deve acontecer se a bilheteria for boa. E no fim dos créditos rola uma cena extra com uma piadinha.

Resumindo: O Sorveteiro só vale pelo gore. Vai divertir quem curte trash.

Sobrenatural: Agora Entre Nós

Crítica – Sobrenatural: Agora Entre Nós

Sinopse (imdb): Gemma, uma jovem mãe que cria a filha na casa onde cresceu, descobre que consegue viajar para o Além, onde possui a habilidade de trazer o que lá habita para o mundo real.

Uma vez li em algum lugar a definição “terror de shopping”, que se referiria àqueles filmes genéricos de terror que passam nos multiplex, que divertem no momento mas logo depois são esquecidos – porque no mês seguinte tem um novo “terror de shopping” entrando no circuito. É uma pena ver que a franquia Sobrenatural virou “terror de shopping”.

Os dois primeiros Sobrenatural, dirigidos por James Wan, são muito bons. Depois disso Wan foi ganhar dinheiro fazendo outros estilos de filmes, mas o estúdio queria continuar vendendo ingressos. Então continuaram fazendo filmes, bobos e genéricos. Este Sobrenatural: Agora Entre Nós já é o sexto da franquia. E como são filmes baratos, e que proporcionalmente rendem uma boa bilheteria, já já deve vir o sétimo filme.

(Invocação do Mal é um caso semelhante: os dois primeiros foram dirigidos por James Wan e são ótimos filmes. Mas, somando continuações e spin offs, já são dez filmes na franquia. Quase todos esquecíveis.)

A direção e o roteiro de Sobrenatural: Agora Entre Nós são do desconhecido Jacob Chase (será que se heu mandar meus curtas pra Blumhouse, consigo fazer um dos próximos?). Chase não entrega um resultado muito ruim. Mas é tudo tão genérico que a gente pensa que deveria ter revisto os dois primeiros.

A melhor sequência de Sobrenatural: Agora Entre Nós é um plágio / homenagem a Backrooms, uma cena onde a personagem fica presa num labirinto num lugar “impossível”. O curioso é que Backrooms não é “terror de shopping”. Goste ou não, é um filme com identidade própria.

De resto, tudo é uma grande repetição. Um jump scare aqui, uma cena nojenta ali, nada que chame a atenção. Ok, dou um ponto pra maquiagem dos três acólitas, que são personagens intrigantes. Por outro lado, o policial que namora a protagonista parece ser um dos piores policiais da história do cinema…

O elenco traz Lin Shaye de volta ao papel de Elise – a única personagem presente em todos os seis filmes. De resto, ninguém relevante.

Sobrenatural: Agora Entre Nós já está em cartaz – não teve sessão de imprensa aqui no Rio, fui ver depois da estreia. Não sei se recomendo. Talvez seja melhor aguardar o “terror de shopping” do mês que vem.

Insaciável

Crítica – Insaciável

Sinopse (imdb): Hana, uma estudante de medicina com o coração partido, passa a ser aterrorizada por uma força sinistra após aderir a uma moda obscura para perder peso: ingerir cinzas humanas.

O sucesso de A Substância abriu caminho pra outras produções de body horror. Poucos meses atrás tivemos Segredo Obscuro, agora é a vez de Insaciável (Saccharine, no original).

Desta vez o foco não é o etarismo, e sim a obsessão sobre a perda de peso. Hana está acima do peso, e uma amiga lhe oferece uma pílula milagrosa que faz perder peso rapidamente. Só que Hana descobre que a pílula é feita de cinzas humanas, e resolve fazer as próprias pílulas com partes de um cadáver da escola de medicina. Tudo corre bem até que começam a aparecer efeitos colaterais sobrenaturais.

O grande lance do body horror é chocar com imagens nojentas. Insaciável tem cenas grotescas tanto do cadáver usado na escola, quanto cenas mostrando comida sendo mastigada – provavelmente a diretora Natalie Erika James se inspirou na Coralie Fargeat, que mostra cenas repugnantes de homens comendo, seja chocolate em Vingança, seja camarão em A Substância.

Gostaria de fazer um elogio à maquiagem. A atriz Midori Francis realmente parece mais gordinha no início do filme. Agora, não posso fazer o mesmo elogio ao pai da personagem, que só aparece em uma cena, e está muito artificial.

Insaciável tem quase duas horas de duração, achei excessivo. E a parte final não é muito boa, tem algumas coisas que soam um pouco forçadas demais – não achei plausível a ideia da “auto cirurgia”.

No fim, é apenas mais um body horror, que será esquecido em breve.

A Morte do Demônio: Em Chamas

Crítica – A Morte do Demônio: Em Chamas

Sinopse (imdb): Após a perda do marido, uma mulher busca consolo junto à família dele. À medida que eles se transformam, um a um, em Deadites, ela descobre que os votos que fez em vida perduram mesmo após a morte.

E vamos para mais um Evil Dead…

Sou muito fã dos três primeiros Evil Dead. Acho perfeito o equilíbrio entre terror, trash e comédia – o segundo filme é, na minha humilde opinião, uma das melhores comédias de humor negro da história do cinema. Gosto até do terceiro filme, que tem muita gente que despreza.

Em 2013 resolveram rebootar a franquia, mas, infelizmente, deixaram a galhofa de lado. O Evil Dead do Fede Alvarez é um bom filme de terror, mas é um filme sério, não deveria se chamar “Evil Dead”. Isso se repetiu no filme de 2023, dirigido por Lee Cronin, A Morte do Demônio: A Ascensão. Ou seja, heu já desconfiava que este sexto filme, A Morte do Demônio: Em Chamas, ia seguir o mesmo caminho. Pro espectador curtir tem que esquecer que é Evil Dead.

Depois dessa longa introdução, vamos ao filme. Os deadites agora parece que têm um alvo específico, uma família, e aproveitam um momento de isolamento dessa família para atacar.

A direção é de Sébastien Vanicek, do irregular Infestação, que traz um filme violento, cheio de gore – e até com algumas cenas engraçadas, mas, como era de se esperar, sem a galhofa dos filmes clássicos. Mas preciso elogiar algumas coisas na direção. Gostei de alguns takes onde o diretor gira a câmera e muda o eixo do “chão” – tem um take que começa na banheira e termina no teto que é bem legal. E tem um plano sequência sensacional acompanhando uma personagem enquanto o caos acontece em volta dela – só essa cena já vale o ingresso.

A Morte do Demônio: Em Chamas tem muita violência e muito gore. E algumas cenas misturam isso com humor. Tem uma cena, envolvendo uma dentadura, que é, ao mesmo tempo, engraçadíssima, e uma das coisas mais nojentas que vi no cinema nos últimos tempos.

Atenção, agora um aviso, que alguns podem considerar spoiler, mas acho importante falar. Se você gosta de cachorros, não sei se este é um filme para você. Algumas linhas não deveriam ser cruzadas, e A Morte do Demônio: Em Chamas cruza. Não foi legal isso.

Como aconteceu nos filmes anteriores, A Morte do Demônio: Em Chamas não tem atores famosos no elenco, e todos funcionam para o que o filme pede. Pra não dizer que não tem ninguém conhecido, Erroll Shand, que faz o pai, estava em Pequenos Segredos, filme nacional que representou o Brasil no Oscar de 2017. E, minha memória maluca, lembrei do nome da Souheila Yacoub em Climax.

Preciso falar mal de um detalhe do roteiro, mas antes, o aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Logo na primeira parte do filme, quando acontece o velório que reúne a família, tem um furo grande no roteiro. O caixão é levado para uma sala onde será cremado, mas em vez disso, o caixão é quebrado e um funcionário acaba morrendo. Ia ter uma investigação! A família não ia seguir tranquilamente, como se nada tivesse acontecido! E o pior é que é um problema fácil de se resolver: era só criar um incêndio, e mostrar a dona do local do velório tratando com os bombeiros…

FIM DOS SPOILERS!

Fiquem até o fim dos créditos! É um “esquema Marvel”: uma cena depois dos créditos principais, e outra lááá no final de tudo.

Love Kills

Crítica – Love Kills

Sinopse (imdb): A jovem vampira Helena redescobre sua humanidade por meio de seu vínculo com o humano Marcos, enquanto navega por um mundo onde o vampirismo reflete traumas, exclusão e lutas de identidade.

Se tem filme nacional de terror novo, heu vou querer ver, e vou querer comentar aqui!

Em Love Kills, um garçom com um passado complicado se vê obcecado por uma misteriosa cliente. Ele começa a segui-la, e acaba descobrindo um submundo de vampiros na noite paulistana.

Logo de cara a gente pode fazer um elogio e uma crítica. O elogio é ao visual do filme. A diretora Luiza Shelling Tubaldini conseguiu mostrar uma São Paulo noturna belíssima na sua história de vampiros. Lembrei de Cidade Oculta, outro filme que também sabe explorar muito bem a noite paulistana. A fotografia do filme é muito bonita.

Por outro lado, o roteiro não é muito bom. O filme é baseado no quadrinho homônimo de Danilo Beyruth, que heu não conheço, e deu a impressão de que só vai entender o filme quem leu a HQ. Os personagens não são muito bem desenvolvidos e o final do filme é muito confuso. Vou comentar o final depois, numa parte com spoilers liberados.

Preciso falar dos efeitos especiais. Não são efeitos top, claro, afinal efeitos especiais não são algo comum no cinema nacional. Mas, assim como defendi os efeitos de O Clube das Mulheres de Negócios, também vou defender aqui. Precisamos de mais filmes com efeitos, muito mais filmes com efeitos. Só assim os nossos técnicos alcançarão o nível de Hollywood. Ou seja, “copo meio cheio”: os efeitos são satisfatórios. Além disso, reconheço que alguns efeitos de maquiagem são bem legais.

O casal principal de atores, Thais Lago e Gabriel Stauffer, está ok – curiosamente, o nome do ator principal é o último nome do elenco no imdb. Não gostei de Flow Kountouriotis, que faz uma espécie de líder de vampiros – mas não sei se o problema está no ator ou no roteiro, seu personagem é completamente fora do tom do resto do filme, parece que saiu de um infantil caricato tipo Castelo Rá Tim Bum. Love Kills também tem uma participação especial de Marat Descartes.

O final é bem ruim. Mas vamos aos avisos de spoilers antes.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Antes do final, queria aproveitar o momento “spoiler free” pra comentar um problema que não é exclusivo deste filme: o protagonista Marcos pode até não acreditar em vampiros. Mas quando ele está seguindo a Helena, ela voa e logo depois mostra que tem uma força maior que o normal. Pode até não ser vampira, mas algum superpoder ela tem. Vou além: quando eles estão num beco e são cercados pela gangue rival, ele não teria como defendê-la. E a gangue rival não o deixaria vivo. Mas, repito, centenas de filmes têm problemas semelhantes.

Até aí, heu estava até curtindo, mesmo com ressalvas. No fim, aparece um novo personagem, que era pra ser o grande vilão, mas foi muito mal utilizado. Mas o pior problema é pouco depois. Sabe aquelas gavetas de necrotério? Uma delas começa a vazar água. Aí a gaveta abre, e aparece uma nova personagem, uma mulher loira, de branco (já tinha aparecido numa sequência que parecia um sonho, no meio do filme), que faz chover, e depois some. Oi? De onde veio aquela personagem? Pra que ela serviu na trama, além da chuva? Pra que colocar um novo elemento na cena final, se não vai agregar nada ao filme?

Já comentei aqui antes, um bom final faz o filme somar pontos; um final ruim faz o inverso. Não sei se Love Kills vai voltar aqui na lista de piores do ano, mas vou te falar que esse final me fez não ter vontade de ver se um dia fizerem uma continuação.

Obsessão

Crítica – Obsessão

Sinopse (imdb): Quando um romântico incurável faz um pedido para que sua paixão de longa data se apaixone por ele, um encantamento sinistro se desencadeia.

A ideia aqui não é exatamente original. Aliás, heu poderia dizer que Obsessão (Obsession, no original) poderia ser um episódio de Twilight Zone.

Bear é um cara tímido, apaixonado pela amiga Nikki, que nunca deu sinal de que gosta dele. Numa loja de produtos esotéricos, ele acha uma espécie de amuleto, chamado One Wish Willow, que lhe permite fazer um desejo. Ele então deseja que ela passe a gostar dele. E a parada funciona, ou seja, ela passa a gostar dele – mas ela passa a gostar dele de uma maneira obsessiva. E claro que isso vai dar errado lá na frente.

Ok, já vimos essa história: o cara tem um desejo e quando esse desejo é realizado, outras coisas vêm junto com o desejo. E não são necessariamente coisas que ele desejou. Mas mesmo com uma premissa repetida, Obsessão funciona muito bem.

O diretor Curry Barker tem um certo nome com curtas independentes que estão no youtube, mas confesso que não conheço o trabalho dele. Mas com esse seu primeiro filme a ser lançado no circuito comercial, já dá pra ver que o cara tem um bom conteúdo para mostrar. Algumas das cenas aqui são muito bem filmadas. Heu particularmente gostei de uma cena logo no início da “feitiçaria” que aprisionou Nikki, onde ela está no escuro e só vemos o brilho dos seus olhos.

É uma produção independente de baixo orçamento, então, claro, não tem atores conhecidos. O protagonista Michael Johnston está bem, mas o destaque nitidamente é Inde Navarrette, a Nikki. Ela está sensacional, a personagem tem alterações de humor abruptas e a atriz consegue passar isso perfeitamente.

Heu falei que parece um episódio de série Twilight Zone, certo? Poizé, achei o filme longo demais. São quase duas horas de filme e não tem história pra tudo isso, heu achei que cansou um pouco. Acho que se cortasse uma meia hora, o filme ia ser bem melhor.

Este meu texto/vídeo está saindo atrasado, mas pelo menos tem uma vantagem: heu pude acompanhar o crescimento da exibição do filme nas salas do Rio de Janeiro. Na primeira semana não estava passando em nenhuma sala da Zona Sul, só Barra ou Zona Norte, e quase todas as sessões dubladas. Na segunda semana ele foi, legendado, para a rede Estação, em Botafogo e na Gávea. Tentei comprar ingresso para ver em Botafogo mas a sala estava lotada. Acabei comprando para a terceira semana e o filme já tinha mudado para outra sala, maior. Ou seja, o exibidor está descobrindo que esse filme realmente merece ser visto.

Se o início é um pouco arrastado, quando o filme engrena na parte final, o ritmo é muito bom. Heu quero comentar o final, então vou colocar um aviso de spoilers. Siga por sua conta e risco!

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Sarah, a amiga que gosta do Bear, recebeu uma carta da universidade que ela está querendo entrar, e ela quer abrir a carta junto com ele para ver se ela passou ou não. Os dois estão conversando no carro, e todo espectador acostumado com esse tipo de filme sabe que em algum momento a Nikki vai aparecer – seja para fazer um escândalo, seja para brigar, seja até para matar a Sarah – estamos falando de um amor obsessivo. Seria algo previsível a Nikki aparecer, mas acho que ninguém esperava o tamanho da violência com que Nikki ataca. Ela quebra o vidro do carro com uma pedra, apoia a pedra no volante e bate a cabeça da amiga seguidas vezes na pedra, até desfigurar completamente o rosto e matar a amiga. Obsessão não tem muitas cenas violentas, mas esta única cena é de uma violência gráfica extrema!

Bear vai pedir ajuda para Ian e leva um One Wish Willow, mas Ian pede um bilhão de dólares. Como era um único desejo por pessoa, Ian não pode mais salvar Bear. Bear volta para Nikki, Ian aparece, Nikki atira nele e o mata. Bear então se tranca no banheiro e resolve se matar, ingerindo vários comprimidos.

Heu quis fazer esse vídeo de final explicado porque não sei se todo mundo prestou atenção. Não é nada muito escondido: você ouve a musiquinha do One Wish Willow e depois vê o palitinho quebrado: Nikki desejou que Bear a amasse como ela o ama. Bear sai do banheiro, apaixonado, eles se abraçam, mas os comprimidos começam a fazer efeito e Bear morre. Quando ele morre, Nikki está finalmente libertada da “maldição” – mas agora está com três cadáveres em volta dela!

Se heu já estava gostando dessa parte do filme, quando chegou o final heu achei genial. Obsessão subiu alguns pontos quando começaram os créditos finais. Agora aguardo os novos filmes de Curry Barker e Inde Navarrette!

Backrooms: Um Não-Lugar

Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

Sinopse (imdb): Após o paciente de uma terapeuta desaparecer em uma dimensão além da realidade, ela precisa adentrar o desconhecido para salvá-lo.

(Pra variar, sinopse do imdb não está exatamente correta…)

Quando acabou a sessão de Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, no original), pensei: curti o filme, mas não entendi muito do que vi. Fui conversar com alguns amigos que estavam na mesma sessão. Alguns gostaram, outros não, mas uma coisa era unânime: ninguém tinha entendido.

Backrooms é daquele tipo de filme que abre espaço para várias interpretações e que não explica muita coisa. Heu queria fazer um comentário sobre o fim do filme, então, claro, vou colocar um aviso de spoilers. Mas não faz muita diferença você saber spoilers, porque afinal é o tipo do filme que você sai da sessão querendo conversar com alguém sobre o que você acabou de ver.

O conceito desses “backrooms” surgiu em 2019 em um post anônimo no 4Chan que falava sobre “uma dimensão paralela ou um labirinto infinito de escritórios vazios e corredores, caracterizados por paredes amareladas, carpete mofado e o zumbido contínuo de lâmpadas fluorescentes”. Em 2022 o jovem diretor Kane Parsons (então com 16 anos) fez uma série de curtas found footage usando esse conceito. Isso o credenciou para ser o mais jovem diretor contratado pela A24: Parsons fez Backrooms: Um Não-Lugar, seu primeiro longa, aos 19 anos de idade.

Antes de entrar na esquisitice, queria fazer um elogio que todos vão concordar: a cenografia do filme é fantástica! Segundo o imdb, a produção construiu cerca de 30.000 pés quadrados de labirintos de salas e corredores – o que fez com que alguns membros da equipe ocasionalmente se perdessem no set. Só aqueles cenários já valem o ingresso!

O conceito é explicado dentro do filme como “imagine se você descrever um cachorro para uma pessoa que nunca viu um cachorro, e depois pedir pra essa pessoa desenhar o cachorro. De longe, vai parecer um cachorro; mas de perto, algumas coisas não vão fazer sentido.” Isso é o que acontece nos cenários do filme.

Sobre o elenco, o filme se baseia, basicamente, nos dois atores principais, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve (e provavelmente estou pronunciando os dois nomes errados). Ambos estão muito bem. Backrooms não tem perfil de filme que vai concorrer a prêmios, mas cada um dos dois tem uma cena que parece aquele “clipe de Oscar”. Não estou dizendo que são atuações que merecem uma indicação, mas precisamos reconhecer que já vimos outras atuações que não foram lá grandes coisas concorrendo à estatueta, ou seja, não seria algo 100% injusto – mas, repito, acho muito difícil, infelizmente.

Como falei, quero comentar o final. Sim, é spoiler, mas, Backrooms é o tipo de filme que não tem muita importância você saber spoiler porque não tem nenhum grande plot twist. Mas, respeito: se você não gosta de spoiler, só pular essa parte.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Somos apresentados a um universo maluco onde ninguém entende o que está acontecendo. Aí tem um epílogo – a parte onde aparece o ator Mark Duplass – onde começam algumas explicações. Só que não chega a conclusão nenhuma. Ou seja, era melhor nem ter começado a explicar. Na minha humilde opinião, se você se propõe a explicar o que é aquele mundo, vá até o fundo. Ou então não explique nada. Mas aqui entra uma pincelada de explicação e deixa tudo no ar. Heu particularmente acharia melhor se não explicasse nada, se cortasse aquele epílogo, se acabasse sem a gente ter nenhuma ideia do que estava acontecendo. Porque aí o espectador é apresentado a um mundo maluco, que não faz sentido, e beleza, acaba o filme e vai pra casa pensando nas maluquices vistas na tela – algo meio David Lynch.

FIM DOS SPOILERS!

Backrooms é um filme que vai dividir o público. Duvido que seja um sucesso comercial. Mas gostei de ver algo assim, principalmente depois de saber que o diretor tem menos de vinte anos de idade.

A Maldição da Múmia

Crítica – A Maldição da Múmia

Sinopse (imdb): Uma família se depara com uma múmia ancestral, desencadeando uma aventura sobrenatural que mistura terror e suspense em uma nova versão do monstro clássico.

Esqueça tudo o que você imagina sobre “filme de múmia”. Não é uma aventura como os filmes do Brendan Fraser,e também não é um terror com um antagonista embalsamado e enfaixado. A proposta aqui é bem diferente. Na verdade A Maldição da Múmia (The Mummy, no original) parece mais um filme de exorcismo do que de múmia.

A direção é de Lee Cronin, que fez um bom trabalho com o Evil Dead de 2023 (tenho minhas ressalvas com esse filme, mas reconheço que é bem melhor que o de 2013). Mais uma vez Cronin mandou bem – também tenho algumas ressalvas aqui, mas igualmente reconheço os méritos. E parece que ele queria fazer uma mistura de O Exorcista com Evil Dead. O “vilão” aqui é um demônio, e não a múmia em si.

A Maldição da Múmia tem muito gore. Algumas cenas vão fazer parte do público ter ânsias de vômito – teve uma em particular envolvendo líquido de embalsamento que me embrulhou o estômago, e isso porque não estou falando da cena das unhas. E Lee Cronin é muito eficiente ao criar um clima de tensão ao longo de todo o filme. A Maldição da Múmia não é filme de jump scare, está mais próximo do terror da A24 (apesar de ser Blumhouse). Outro ponto positivo é apostar mais em efeitos de maquiagem do que cgi.

O roteiro tem umas forçadas de barra. Pra que precisariam transportar o sarcófago de avião? Pra onde estavam levando? A policial egípcia precisava ter vindo até os EUA, com uma fita VHS, sem avisar? Quem ainda tem um videocassete em casa? E na cena final, esqueceram do personagem da irmã mais nova. Mas não é nada grave, a gente vê vários filmes por aí com roteiros cheios de facilitações e que trazem resultado inferior a este.

O elenco não tem muita gente conhecida. Heu só conhecia o pai, Jack Reynor, que faz o irmão mais velho em Sing Street. Mas heu quero fazer um elogio: parte do filme se passa no Egito, com atores egípcios. E são diálogos na língua deles – acho que é árabe. Isso mostra uma evolução em Hollywood, se fosse anos atrás, tudo ia ser em inglês.

A Maldição da Múmia é um pouco longo demais, são duas horas e quatorze minutos, acho que dava pra secar um pouco e ser um pouco mais objetivo. Mas mesmo assim o resultado foi positivo.

Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Casamento Sangrento: A Viúva

Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva

Sinopse (imdb): A noiva retorna em uma nova e sinistra rodada do tradicional jogo de esconde-esconde, agora com elementos sobrenaturais e demoníacos.

Lançado em 2019, Casamento Sangrento foi uma boa surpresa. Mas, pra comentar este segundo, precisarei falar spoilers do primeiro filme. Ou seja, se você pretende ver o primeiro, sugiro que pare de ler agora!

Em Casamento Sangrento, Grace se casa com um cara de uma família muito rica e poderosa, e existe uma tradição onde cada pessoa que entra na família precisa jogar um jogo. Ela sorteia uma carta, e precisa jogar pique esconde. Mas com o detalhe: se alguém encontrá-la, ela morre. Ou seja, a clássica trama do personagem tendo que fugir pela própria vida, a gente já viu essa história várias vezes. Mas quem me acompanha sabe que não acho ruim reciclar ideias, só acho ruim quando é mal feito e o resultado fica ruim.

Mas Casamento Sangrento tinha um diferencial na última cena – e é aqui que terei que dar o spoiler. Durante todo o filme a gente acha que é uma família de malucos assassinos, até que, na cena final, a gente descobre que tem algo sobrenatural por trás disso tudo, e que a família tem um pacto com o demônio. Como Grace sobrevive, cada um dos membros da família explode! Se até aquele momento o filme estava bom, ficou ainda melhor com o final inesperado.

Este final dificultava uma continuação. Como vamos seguir com uma história onde a família toda morreu por causa de um pacto demoníaco? Essa era a minha maior dúvida com relação a este novo filme. Mas posso dizer que conseguiram bolar uma nova trama, coerente com a proposta do primeiro filme.

Casamento Sangrento 2 (Ready or Not 2: Here I Come, no original) começa exatamente do ponto onde o primeiro termina. Grace ainda está com o vestido de noiva, suja com o sangue das pessoas que morreram, com a casa pegando fogo atrás. Ela é levada a um hospital, e vai precisar responder à polícia. Mas… Descobrimos que outras famílias também fazem parte do pacto demoníaco, e Grace, agora acompanhada de sua irmã Faith, será mais uma vez caçada.

A direção é dos mesmos Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que têm uma produtora chamada Radio Silence, e que ganharam reconhecimento com o filme de 2019, e depois fizeram Abigail, Pânico 5 e Pânico 6. Manter o diretor costuma ser uma boa notícia para a qualidade de uma continuação.

Existe uma “regra não escrita” de continuações que diz que uma sequência precisa ter tudo que tinha no primeiro, mas em maior quantidade. Não sei se os diretores pensaram nisso, mas aqui é tudo maior. Se o primeiro filme era todo dentro de uma casa, este é num enorme resort. Se naquele filme era uma família, aqui são várias, com vários personagens exagerados e caricatos (alguns deles são ótimos!). Além disso, Casamento Sangrento 2 é MUITO violento. Mas não é aquela violência tensa e desagradável, o filme é muito engraçado, quem curte humor negro vai se divertir. Heu ri alto várias vezes ao longo do filme!

O elenco é bom. Samara Weaving é a única que volta (afinal, todo o resto do elenco morreu…), e faz uma boa dupla com Kathryn Newton (que tinha trabalhado com os diretores em Abigail). Uma coisa legal foi ver David Cronenberg num papel pequeno (sim, o diretor de A Mosca, Scanners, Videodrome, Gêmeos, etc). Sarah Michelle Gellar tem um papel importante, assim como Elijah Wood – a ironia é que ele também precisa lidar com um anel de poder. Também no elenco, Shawn Hatosy, Olivia Cheng, Nestor Carbonell e Kevin Durand.

Gostei de Casamento Sangrento 2, foi melhor do que heu esperava, mas preciso reconhecer que o roteiro tem umas facilitações no terço final. E aquela cena final foi bem forçada, acredito que não seria tão fácil. Felizmente, nada grave.

Casamento Sangrento não precisava de uma continuação, o final é redondinho. Mas pelo menos a continuação foi bem feita. Quem curtiu o primeiro vai gostar do segundo.