A Morte do Demônio: Em Chamas

Crítica – A Morte do Demônio: Em Chamas

Sinopse (imdb): Após a perda do marido, uma mulher busca consolo junto à família dele. À medida que eles se transformam, um a um, em Deadites, ela descobre que os votos que fez em vida perduram mesmo após a morte.

E vamos para mais um Evil Dead…

Sou muito fã dos três primeiros Evil Dead. Acho perfeito o equilíbrio entre terror, trash e comédia – o segundo filme é, na minha humilde opinião, uma das melhores comédias de humor negro da história do cinema. Gosto até do terceiro filme, que tem muita gente que despreza.

Em 2013 resolveram rebootar a franquia, mas, infelizmente, deixaram a galhofa de lado. O Evil Dead do Fede Alvarez é um bom filme de terror, mas é um filme sério, não deveria se chamar “Evil Dead”. Isso se repetiu no filme de 2023, dirigido por Lee Cronin, A Morte do Demônio: A Ascensão. Ou seja, heu já desconfiava que este sexto filme, A Morte do Demônio: Em Chamas, ia seguir o mesmo caminho. Pro espectador curtir tem que esquecer que é Evil Dead.

Depois dessa longa introdução, vamos ao filme. Os deadites agora parece que têm um alvo específico, uma família, e aproveitam um momento de isolamento dessa família para atacar.

A direção é de Sébastien Vanicek, do irregular Infestação, que traz um filme violento, cheio de gore – e até com algumas cenas engraçadas, mas, como era de se esperar, sem a galhofa dos filmes clássicos. Mas preciso elogiar algumas coisas na direção. Gostei de alguns takes onde o diretor gira a câmera e muda o eixo do “chão” – tem um take que começa na banheira e termina no teto que é bem legal. E tem um plano sequência sensacional acompanhando uma personagem enquanto o caos acontece em volta dela – só essa cena já vale o ingresso.

A Morte do Demônio: Em Chamas tem muita violência e muito gore. E algumas cenas misturam isso com humor. Tem uma cena, envolvendo uma dentadura, que é, ao mesmo tempo, engraçadíssima, e uma das coisas mais nojentas que vi no cinema nos últimos tempos.

Atenção, agora um aviso, que alguns podem considerar spoiler, mas acho importante falar. Se você gosta de cachorros, não sei se este é um filme para você. Algumas linhas não deveriam ser cruzadas, e A Morte do Demônio: Em Chamas cruza. Não foi legal isso.

Como aconteceu nos filmes anteriores, A Morte do Demônio: Em Chamas não tem atores famosos no elenco, e todos funcionam para o que o filme pede. Pra não dizer que não tem ninguém conhecido, Erroll Shand, que faz o pai, estava em Pequenos Segredos, filme nacional que representou o Brasil no Oscar de 2017. E, minha memória maluca, lembrei do nome da Souheila Yacoub em Climax.

Preciso falar mal de um detalhe do roteiro, mas antes, o aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Logo na primeira parte do filme, quando acontece o velório que reúne a família, tem um furo grande no roteiro. O caixão é levado para uma sala onde será cremado, mas em vez disso, o caixão é quebrado e um funcionário acaba morrendo. Ia ter uma investigação! A família não ia seguir tranquilamente, como se nada tivesse acontecido! E o pior é que é um problema fácil de se resolver: era só criar um incêndio, e mostrar a dona do local do velório tratando com os bombeiros…

FIM DOS SPOILERS!

Fiquem até o fim dos créditos! É um “esquema Marvel”: uma cena depois dos créditos principais, e outra lááá no final de tudo.

Love Kills

Crítica – Love Kills

Sinopse (imdb): A jovem vampira Helena redescobre sua humanidade por meio de seu vínculo com o humano Marcos, enquanto navega por um mundo onde o vampirismo reflete traumas, exclusão e lutas de identidade.

Se tem filme nacional de terror novo, heu vou querer ver, e vou querer comentar aqui!

Em Love Kills, um garçom com um passado complicado se vê obcecado por uma misteriosa cliente. Ele começa a segui-la, e acaba descobrindo um submundo de vampiros na noite paulistana.

Logo de cara a gente pode fazer um elogio e uma crítica. O elogio é ao visual do filme. A diretora Luiza Shelling Tubaldini conseguiu mostrar uma São Paulo noturna belíssima na sua história de vampiros. Lembrei de Cidade Oculta, outro filme que também sabe explorar muito bem a noite paulistana. A fotografia do filme é muito bonita.

Por outro lado, o roteiro não é muito bom. O filme é baseado no quadrinho homônimo de Danilo Beyruth, que heu não conheço, e deu a impressão de que só vai entender o filme quem leu a HQ. Os personagens não são muito bem desenvolvidos e o final do filme é muito confuso. Vou comentar o final depois, numa parte com spoilers liberados.

Preciso falar dos efeitos especiais. Não são efeitos top, claro, afinal efeitos especiais não são algo comum no cinema nacional. Mas, assim como defendi os efeitos de O Clube das Mulheres de Negócios, também vou defender aqui. Precisamos de mais filmes com efeitos, muito mais filmes com efeitos. Só assim os nossos técnicos alcançarão o nível de Hollywood. Ou seja, “copo meio cheio”: os efeitos são satisfatórios. Além disso, reconheço que alguns efeitos de maquiagem são bem legais.

O casal principal de atores, Thais Lago e Gabriel Stauffer, está ok – curiosamente, o nome do ator principal é o último nome do elenco no imdb. Não gostei de Flow Kountouriotis, que faz uma espécie de líder de vampiros – mas não sei se o problema está no ator ou no roteiro, seu personagem é completamente fora do tom do resto do filme, parece que saiu de um infantil caricato tipo Castelo Rá Tim Bum. Love Kills também tem uma participação especial de Marat Descartes.

O final é bem ruim. Mas vamos aos avisos de spoilers antes.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Antes do final, queria aproveitar o momento “spoiler free” pra comentar um problema que não é exclusivo deste filme: o protagonista Marcos pode até não acreditar em vampiros. Mas quando ele está seguindo a Helena, ela voa e logo depois mostra que tem uma força maior que o normal. Pode até não ser vampira, mas algum superpoder ela tem. Vou além: quando eles estão num beco e são cercados pela gangue rival, ele não teria como defendê-la. E a gangue rival não o deixaria vivo. Mas, repito, centenas de filmes têm problemas semelhantes.

Até aí, heu estava até curtindo, mesmo com ressalvas. No fim, aparece um novo personagem, que era pra ser o grande vilão, mas foi muito mal utilizado. Mas o pior problema é pouco depois. Sabe aquelas gavetas de necrotério? Uma delas começa a vazar água. Aí a gaveta abre, e aparece uma nova personagem, uma mulher loira, de branco (já tinha aparecido numa sequência que parecia um sonho, no meio do filme), que faz chover, e depois some. Oi? De onde veio aquela personagem? Pra que ela serviu na trama, além da chuva? Pra que colocar um novo elemento na cena final, se não vai agregar nada ao filme?

Já comentei aqui antes, um bom final faz o filme somar pontos; um final ruim faz o inverso. Não sei se Love Kills vai voltar aqui na lista de piores do ano, mas vou te falar que esse final me fez não ter vontade de ver se um dia fizerem uma continuação.

Obsessão

Crítica – Obsessão

Sinopse (imdb): Quando um romântico incurável faz um pedido para que sua paixão de longa data se apaixone por ele, um encantamento sinistro se desencadeia.

A ideia aqui não é exatamente original. Aliás, heu poderia dizer que Obsessão (Obsession, no original) poderia ser um episódio de Twilight Zone.

Bear é um cara tímido, apaixonado pela amiga Nikki, que nunca deu sinal de que gosta dele. Numa loja de produtos esotéricos, ele acha uma espécie de amuleto, chamado One Wish Willow, que lhe permite fazer um desejo. Ele então deseja que ela passe a gostar dele. E a parada funciona, ou seja, ela passa a gostar dele – mas ela passa a gostar dele de uma maneira obsessiva. E claro que isso vai dar errado lá na frente.

Ok, já vimos essa história: o cara tem um desejo e quando esse desejo é realizado, outras coisas vêm junto com o desejo. E não são necessariamente coisas que ele desejou. Mas mesmo com uma premissa repetida, Obsessão funciona muito bem.

O diretor Curry Barker tem um certo nome com curtas independentes que estão no youtube, mas confesso que não conheço o trabalho dele. Mas com esse seu primeiro filme a ser lançado no circuito comercial, já dá pra ver que o cara tem um bom conteúdo para mostrar. Algumas das cenas aqui são muito bem filmadas. Heu particularmente gostei de uma cena logo no início da “feitiçaria” que aprisionou Nikki, onde ela está no escuro e só vemos o brilho dos seus olhos.

É uma produção independente de baixo orçamento, então, claro, não tem atores conhecidos. O protagonista Michael Johnston está bem, mas o destaque nitidamente é Inde Navarrette, a Nikki. Ela está sensacional, a personagem tem alterações de humor abruptas e a atriz consegue passar isso perfeitamente.

Heu falei que parece um episódio de série Twilight Zone, certo? Poizé, achei o filme longo demais. São quase duas horas de filme e não tem história pra tudo isso, heu achei que cansou um pouco. Acho que se cortasse uma meia hora, o filme ia ser bem melhor.

Este meu texto/vídeo está saindo atrasado, mas pelo menos tem uma vantagem: heu pude acompanhar o crescimento da exibição do filme nas salas do Rio de Janeiro. Na primeira semana não estava passando em nenhuma sala da Zona Sul, só Barra ou Zona Norte, e quase todas as sessões dubladas. Na segunda semana ele foi, legendado, para a rede Estação, em Botafogo e na Gávea. Tentei comprar ingresso para ver em Botafogo mas a sala estava lotada. Acabei comprando para a terceira semana e o filme já tinha mudado para outra sala, maior. Ou seja, o exibidor está descobrindo que esse filme realmente merece ser visto.

Se o início é um pouco arrastado, quando o filme engrena na parte final, o ritmo é muito bom. Heu quero comentar o final, então vou colocar um aviso de spoilers. Siga por sua conta e risco!

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Sarah, a amiga que gosta do Bear, recebeu uma carta da universidade que ela está querendo entrar, e ela quer abrir a carta junto com ele para ver se ela passou ou não. Os dois estão conversando no carro, e todo espectador acostumado com esse tipo de filme sabe que em algum momento a Nikki vai aparecer – seja para fazer um escândalo, seja para brigar, seja até para matar a Sarah – estamos falando de um amor obsessivo. Seria algo previsível a Nikki aparecer, mas acho que ninguém esperava o tamanho da violência com que Nikki ataca. Ela quebra o vidro do carro com uma pedra, apoia a pedra no volante e bate a cabeça da amiga seguidas vezes na pedra, até desfigurar completamente o rosto e matar a amiga. Obsessão não tem muitas cenas violentas, mas esta única cena é de uma violência gráfica extrema!

Bear vai pedir ajuda para Ian e leva um One Wish Willow, mas Ian pede um bilhão de dólares. Como era um único desejo por pessoa, Ian não pode mais salvar Bear. Bear volta para Nikki, Ian aparece, Nikki atira nele e o mata. Bear então se tranca no banheiro e resolve se matar, ingerindo vários comprimidos.

Heu quis fazer esse vídeo de final explicado porque não sei se todo mundo prestou atenção. Não é nada muito escondido: você ouve a musiquinha do One Wish Willow e depois vê o palitinho quebrado: Nikki desejou que Bear a amasse como ela o ama. Bear sai do banheiro, apaixonado, eles se abraçam, mas os comprimidos começam a fazer efeito e Bear morre. Quando ele morre, Nikki está finalmente libertada da “maldição” – mas agora está com três cadáveres em volta dela!

Se heu já estava gostando dessa parte do filme, quando chegou o final heu achei genial. Obsessão subiu alguns pontos quando começaram os créditos finais. Agora aguardo os novos filmes de Curry Barker e Inde Navarrette!

Backrooms: Um Não-Lugar

Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

Sinopse (imdb): Após o paciente de uma terapeuta desaparecer em uma dimensão além da realidade, ela precisa adentrar o desconhecido para salvá-lo.

(Pra variar, sinopse do imdb não está exatamente correta…)

Quando acabou a sessão de Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, no original), pensei: curti o filme, mas não entendi muito do que vi. Fui conversar com alguns amigos que estavam na mesma sessão. Alguns gostaram, outros não, mas uma coisa era unânime: ninguém tinha entendido.

Backrooms é daquele tipo de filme que abre espaço para várias interpretações e que não explica muita coisa. Heu queria fazer um comentário sobre o fim do filme, então, claro, vou colocar um aviso de spoilers. Mas não faz muita diferença você saber spoilers, porque afinal é o tipo do filme que você sai da sessão querendo conversar com alguém sobre o que você acabou de ver.

O conceito desses “backrooms” surgiu em 2019 em um post anônimo no 4Chan que falava sobre “uma dimensão paralela ou um labirinto infinito de escritórios vazios e corredores, caracterizados por paredes amareladas, carpete mofado e o zumbido contínuo de lâmpadas fluorescentes”. Em 2022 o jovem diretor Kane Parsons (então com 16 anos) fez uma série de curtas found footage usando esse conceito. Isso o credenciou para ser o mais jovem diretor contratado pela A24: Parsons fez Backrooms: Um Não-Lugar, seu primeiro longa, aos 19 anos de idade.

Antes de entrar na esquisitice, queria fazer um elogio que todos vão concordar: a cenografia do filme é fantástica! Segundo o imdb, a produção construiu cerca de 30.000 pés quadrados de labirintos de salas e corredores – o que fez com que alguns membros da equipe ocasionalmente se perdessem no set. Só aqueles cenários já valem o ingresso!

O conceito é explicado dentro do filme como “imagine se você descrever um cachorro para uma pessoa que nunca viu um cachorro, e depois pedir pra essa pessoa desenhar o cachorro. De longe, vai parecer um cachorro; mas de perto, algumas coisas não vão fazer sentido.” Isso é o que acontece nos cenários do filme.

Sobre o elenco, o filme se baseia, basicamente, nos dois atores principais, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve (e provavelmente estou pronunciando os dois nomes errados). Ambos estão muito bem. Backrooms não tem perfil de filme que vai concorrer a prêmios, mas cada um dos dois tem uma cena que parece aquele “clipe de Oscar”. Não estou dizendo que são atuações que merecem uma indicação, mas precisamos reconhecer que já vimos outras atuações que não foram lá grandes coisas concorrendo à estatueta, ou seja, não seria algo 100% injusto – mas, repito, acho muito difícil, infelizmente.

Como falei, quero comentar o final. Sim, é spoiler, mas, Backrooms é o tipo de filme que não tem muita importância você saber spoiler porque não tem nenhum grande plot twist. Mas, respeito: se você não gosta de spoiler, só pular essa parte.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Somos apresentados a um universo maluco onde ninguém entende o que está acontecendo. Aí tem um epílogo – a parte onde aparece o ator Mark Duplass – onde começam algumas explicações. Só que não chega a conclusão nenhuma. Ou seja, era melhor nem ter começado a explicar. Na minha humilde opinião, se você se propõe a explicar o que é aquele mundo, vá até o fundo. Ou então não explique nada. Mas aqui entra uma pincelada de explicação e deixa tudo no ar. Heu particularmente acharia melhor se não explicasse nada, se cortasse aquele epílogo, se acabasse sem a gente ter nenhuma ideia do que estava acontecendo. Porque aí o espectador é apresentado a um mundo maluco, que não faz sentido, e beleza, acaba o filme e vai pra casa pensando nas maluquices vistas na tela – algo meio David Lynch.

FIM DOS SPOILERS!

Backrooms é um filme que vai dividir o público. Duvido que seja um sucesso comercial. Mas gostei de ver algo assim, principalmente depois de saber que o diretor tem menos de vinte anos de idade.

A Maldição da Múmia

Crítica – A Maldição da Múmia

Sinopse (imdb): Uma família se depara com uma múmia ancestral, desencadeando uma aventura sobrenatural que mistura terror e suspense em uma nova versão do monstro clássico.

Esqueça tudo o que você imagina sobre “filme de múmia”. Não é uma aventura como os filmes do Brendan Fraser,e também não é um terror com um antagonista embalsamado e enfaixado. A proposta aqui é bem diferente. Na verdade A Maldição da Múmia (The Mummy, no original) parece mais um filme de exorcismo do que de múmia.

A direção é de Lee Cronin, que fez um bom trabalho com o Evil Dead de 2023 (tenho minhas ressalvas com esse filme, mas reconheço que é bem melhor que o de 2013). Mais uma vez Cronin mandou bem – também tenho algumas ressalvas aqui, mas igualmente reconheço os méritos. E parece que ele queria fazer uma mistura de O Exorcista com Evil Dead. O “vilão” aqui é um demônio, e não a múmia em si.

A Maldição da Múmia tem muito gore. Algumas cenas vão fazer parte do público ter ânsias de vômito – teve uma em particular envolvendo líquido de embalsamento que me embrulhou o estômago, e isso porque não estou falando da cena das unhas. E Lee Cronin é muito eficiente ao criar um clima de tensão ao longo de todo o filme. A Maldição da Múmia não é filme de jump scare, está mais próximo do terror da A24 (apesar de ser Blumhouse). Outro ponto positivo é apostar mais em efeitos de maquiagem do que cgi.

O roteiro tem umas forçadas de barra. Pra que precisariam transportar o sarcófago de avião? Pra onde estavam levando? A policial egípcia precisava ter vindo até os EUA, com uma fita VHS, sem avisar? Quem ainda tem um videocassete em casa? E na cena final, esqueceram do personagem da irmã mais nova. Mas não é nada grave, a gente vê vários filmes por aí com roteiros cheios de facilitações e que trazem resultado inferior a este.

O elenco não tem muita gente conhecida. Heu só conhecia o pai, Jack Reynor, que faz o irmão mais velho em Sing Street. Mas heu quero fazer um elogio: parte do filme se passa no Egito, com atores egípcios. E são diálogos na língua deles – acho que é árabe. Isso mostra uma evolução em Hollywood, se fosse anos atrás, tudo ia ser em inglês.

A Maldição da Múmia é um pouco longo demais, são duas horas e quatorze minutos, acho que dava pra secar um pouco e ser um pouco mais objetivo. Mas mesmo assim o resultado foi positivo.

Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Casamento Sangrento: A Viúva

Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva

Sinopse (imdb): A noiva retorna em uma nova e sinistra rodada do tradicional jogo de esconde-esconde, agora com elementos sobrenaturais e demoníacos.

Lançado em 2019, Casamento Sangrento foi uma boa surpresa. Mas, pra comentar este segundo, precisarei falar spoilers do primeiro filme. Ou seja, se você pretende ver o primeiro, sugiro que pare de ler agora!

Em Casamento Sangrento, Grace se casa com um cara de uma família muito rica e poderosa, e existe uma tradição onde cada pessoa que entra na família precisa jogar um jogo. Ela sorteia uma carta, e precisa jogar pique esconde. Mas com o detalhe: se alguém encontrá-la, ela morre. Ou seja, a clássica trama do personagem tendo que fugir pela própria vida, a gente já viu essa história várias vezes. Mas quem me acompanha sabe que não acho ruim reciclar ideias, só acho ruim quando é mal feito e o resultado fica ruim.

Mas Casamento Sangrento tinha um diferencial na última cena – e é aqui que terei que dar o spoiler. Durante todo o filme a gente acha que é uma família de malucos assassinos, até que, na cena final, a gente descobre que tem algo sobrenatural por trás disso tudo, e que a família tem um pacto com o demônio. Como Grace sobrevive, cada um dos membros da família explode! Se até aquele momento o filme estava bom, ficou ainda melhor com o final inesperado.

Este final dificultava uma continuação. Como vamos seguir com uma história onde a família toda morreu por causa de um pacto demoníaco? Essa era a minha maior dúvida com relação a este novo filme. Mas posso dizer que conseguiram bolar uma nova trama, coerente com a proposta do primeiro filme.

Casamento Sangrento 2 (Ready or Not 2: Here I Come, no original) começa exatamente do ponto onde o primeiro termina. Grace ainda está com o vestido de noiva, suja com o sangue das pessoas que morreram, com a casa pegando fogo atrás. Ela é levada a um hospital, e vai precisar responder à polícia. Mas… Descobrimos que outras famílias também fazem parte do pacto demoníaco, e Grace, agora acompanhada de sua irmã Faith, será mais uma vez caçada.

A direção é dos mesmos Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que têm uma produtora chamada Radio Silence, e que ganharam reconhecimento com o filme de 2019, e depois fizeram Abigail, Pânico 5 e Pânico 6. Manter o diretor costuma ser uma boa notícia para a qualidade de uma continuação.

Existe uma “regra não escrita” de continuações que diz que uma sequência precisa ter tudo que tinha no primeiro, mas em maior quantidade. Não sei se os diretores pensaram nisso, mas aqui é tudo maior. Se o primeiro filme era todo dentro de uma casa, este é num enorme resort. Se naquele filme era uma família, aqui são várias, com vários personagens exagerados e caricatos (alguns deles são ótimos!). Além disso, Casamento Sangrento 2 é MUITO violento. Mas não é aquela violência tensa e desagradável, o filme é muito engraçado, quem curte humor negro vai se divertir. Heu ri alto várias vezes ao longo do filme!

O elenco é bom. Samara Weaving é a única que volta (afinal, todo o resto do elenco morreu…), e faz uma boa dupla com Kathryn Newton (que tinha trabalhado com os diretores em Abigail). Uma coisa legal foi ver David Cronenberg num papel pequeno (sim, o diretor de A Mosca, Scanners, Videodrome, Gêmeos, etc). Sarah Michelle Gellar tem um papel importante, assim como Elijah Wood – a ironia é que ele também precisa lidar com um anel de poder. Também no elenco, Shawn Hatosy, Olivia Cheng, Nestor Carbonell e Kevin Durand.

Gostei de Casamento Sangrento 2, foi melhor do que heu esperava, mas preciso reconhecer que o roteiro tem umas facilitações no terço final. E aquela cena final foi bem forçada, acredito que não seria tão fácil. Felizmente, nada grave.

Casamento Sangrento não precisava de uma continuação, o final é redondinho. Mas pelo menos a continuação foi bem feita. Quem curtiu o primeiro vai gostar do segundo.

Os Estranhos: Capítulo Final

Crítica – Os Estranhos: Capítulo Final

Sinopse (imdb): Os sobreviventes enfrentam novas ameaças de estranhos mascarados. Segredos vêm à tona, colocando suas vidas em risco à medida que a linha entre a realidade e o perigo se confunde em sua luta pela sobrevivência.

Era pra ser um filme só. Resolveram esticar e lançar em três partes. Se a primeira e a segunda parte são ruins, qual era a chance da conclusão ser boa? Quase zero, né? Mesmo assim, fui ver. E confirmo: já tenho um filme certo na minha lista de piores de 2026.

A trama é o de sempre. Maya continua fugindo dos assassinos mascarados. Basicamente só isso. Claro, precisamos ter um longa metragem, então vemos mais flashbacks desnecessários, explicando coisas que não precisavam ser explicadas. O roteiro é péssimo (assim como nos filmes anteriores), não tem nenhuma cena impactante. Pior: o filme tenta criar uma reviravolta onde a Maya viraria assassina junto com os mascarados. Ideia ruim, e ainda por cima mal desenvolvida.

(Determinado momento, um personagem está ouvindo uma pregação religiosa. Acho que teve algo assim no primeiro filme, não lembro e nem vou catar pra rever. Mas poderia ser um bom caminho para a trama, entrar no fanatismo religioso. Mais uma ideia jogada fora.)

Heu sei que boa parte dos filmes de terror que a gente vê são baseados em decisões burras de personagens. Isso é algo comum. Mas aqui tem algumas decisões que desafiam qualquer lógica. Logo em uma das primeiras cenas, a protagonista está fugindo, encontra uma igreja, e tem um piano na igreja. POR QUE DIABOS ELA VAI TOCAR O PIANO??? QUE TIPO DE IDIOTA QUE ESTÁ FUGINDO DE ASSASSINOS VAI FAZER BARULHO COM UM INSTRUMENTO MUSICAL???

Não é a única atitude burra dela. Tem uma hora que ela consegue um carro e começa a fugir. E BATE O CARRO NUMA ÁRVORE!!! Caramba, como é que o espectador vai torcer por uma personagem tão ruim? Detalhe: ela bate o carro e o mascarado estava ali ao lado dela, pronto pra captura-la de novo.

Os Estranhos Capítulo Final é tão tosco que a página do imdb está meio zoada. A sinopse não está correta, fala de “sobreviventes”, é uma única sobrevivente. E o nome da atriz principal, Madelaine Petsch, a única atriz relevante nessa joça, é o quinto nome da lista do “elenco principal”. Nem o imdb leva a sério essa porcaria.

Heu podia falar mais. Mas seria chutar cachorro morto. Os Estranhos Capítulo Final é um erro. A única coisa boa é que acabou, espero que respeitem a ideia do “capítulo final”. Quando acabou o filme, fiquei tentando me lembrar de uma trilogia de terror pior que essa. Não consegui. Você sugere alguma?

Para Sempre Medo

Crítica – Para Sempre Medo

Sinopse (filmeb): O casal Malcolm e Liz viaja para uma cabana isolada para uma celebração romântica. Quando Malcolm parte inesperadamente para a cidade, Liz é confrontada por uma presença sinistra.

Em 2024, o diretor Osgood Perkins – ou Oz Perkins – lançou Longlegs, terror misturado com filme de investigação. Logo no ano seguinte, ele fez o divertido O Macaco, slasher misturado com comédia de humor negro. Lembro que na época que O Macaco foi lançado alguém me falou que tinha outro filme do mesmo diretor previsto para o mesmo ano, que era este Para Sempre Medo (Keeper, no original). A previsão era pra 2025, mas adiaram pro início de 2026.

Ti West dirigiu X, Pearl e Maxxxine, três filmes independentes, se passam em épocas diferentes, com personagens diferentes – mas três filmes que “conversam” entre si e podem ser vistos como uma trilogia. Já esses últimos três filmes do Oz Perkins estão bem longe de ser uma trilogia. Para Sempre Medo é um suspense onde uma mulher acha que está presa a um relacionamento abusivo, com uma pegada de terror sobrenatural na parte final – não digo mais por causa de spoilers.

(Heu acho que o melhor seria assistir Para Sempre Medo sem saber da parte sobrenatural, mas, mais uma vez, o trailer entrega mais do que deveria. Seria tão bom se trailers fossem pensados para guardar surpresas…)

Para Sempre Medo traz Liz, uma mulher que viaja com o namorado para uma cabana isolada no meio do mato. Ele precisa se ausentar, e ela começa a desconfiar dele. Só que as coisas escalam de uma maneira bem rápida. E existe um grande segredo escondido.

Para Sempre Medo é um filme curto, com uma história meio simples, mas Oz Perkins sabe criar um clima tenso. Além disso, algumas cenas são muito bem filmadas, Oz Perkins sabe posicionar sua câmera – gostei de um momento onde Liz está numa banheira, e o fundo aos poucos se transforma num rio. E curti a parte que entra no sobrenatural, fiquei curioso pra saber se é uma mitologia que já existe ou se foi algo inventado pelo roteirista.

O elenco é reduzido, mas funciona bem para o que o filme pede. Tatiana Maslany e Rossif Sutherland fazem o casal principal; Birkett Turton e Eden Weiss aparecem menos, como o irmão e sua namorada. Aliás, uma curiosidade sobre “nepobabies”: o diretor Oz Perkins é filho de Anthony Perkins; Rossif Sutherland é filho do Donald Sutherland, meio irmão do Kiefer Sutherland.

Para Sempre Medo não chega a ser ruim, até gostei do que vi. Mas é um filme inferior aos dois anteriores. Vamos torcer pro Oz Perkins dar uma respirada antes do próximo projeto, afinal, sempre preferimos qualidade do que quantidade.

Pânico 7

Crítica – Pânico 7

Sinopse (imdb): Quando um novo Ghostface surge na pacata cidade onde Sidney Prescott reconstruiu sua vida, seus medos mais sombrios se tornam reais enquanto sua filha se torna o próximo alvo do assassino.

Precisava de mais um Pânico? Claro que não. Mas dá bilheteria, né?

Houve turbulências durante a produção do filme, mas não sei de detalhes. O que sei é que Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, diretores de Pânico 5 (2022) e 6 (2023), optaram por não fazer o sétimo filme, então o roteirista Kevin Williamson sugeriu seu amigo Christopher Landon como um substituto adequado – mas Landon também saiu fora. Williamson tinha convencido Neve Campbell a voltar para a franquia, então Neve convenceu Williamson a assumir a direção.

Kevin Williamson tem um bom currículo como roteirista (Pânico, Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Prova Final), mas, como diretor, só tinha dirigido um único filme, Tentação Fatal, que não é lá grandes coisas. Agora, em seu segundo filme como diretor, parece que Williamson seguiu um caminho “seguro”. A estrutura do sétimo filme é bem parecida com a dos filmes anteriores – como, por exemplo, começar com um prólogo com personagens que não estarão no resto do filme.

Aliás, aqui também tem uma sequência que fala de metalinguagem, coisa que acontece desde o reboot de 2022. Naquele filme tem uma cena que fala sobre o conceito de requel, mistura de reboot com sequel. No filme de 2023 falam sobre clichês de franquias. Agora a cena fala de nostalgia, de usar elementos dos filmes clássicos nos novos filmes. Boa sacada.

Por outro lado, tudo é muito previsível e cheio de conveniências de roteiro – por exemplo, se a Sidney precisa ir até a filha, que está longe, e não consegue abrir o carro, ia voltar e pedir carona em vez de andar. Ou a entrada triunfal da Gale, no timing exato. Mas pelo menos algumas sequências são boas, como aquela da garagem com os plásticos pendurados. E teve um jump scare que me pegou!

No elenco, o grande lance aqui é a volta de Neve Campbell, que não estava no filme anterior. Aqui ela é a protagonista, Courtney Cox aparece como coadjuvante. Existe todo um elenco novo, de pessoas desconhecidas, mas queria citar um nome, bem secundário para este filme: McKenna Grace. Assim como em Five Nights at Freddy’s 2, ano passado, ela tem um papel bem pequeno aqui. McKenna parece estar querendo se firmar como um nome importante no cinema fantástico, afinal, ela também estava em Ghostbusters, Maligno, Anabelle 3, Amityville O Despertar e, claro, A Maldição da Residência Hill. Belo currículo, e ela ainda tem 19 anos!

Pânico 7 fala sobre deep fake. Não vou entrar em detalhes por causa de spoilers, mas foi uma boa ideia usar um tema bem atual. Só achei que forçaram um pouco na sequência final, porque mostra vários personagens de outros filmes, e não sei se quem criou os deep fakes não teria como saber aqueles rostos todos. Mas foi uma bela homenagem a outros atores que passaram pela franquia.

Por fim, queria reclamar dos títulos dos filmes pós Wes Craven (diretor dos primeiros, já falecido). Pânico 5 foi lançado como “Pânico”, sem número, mesmo nome do filme de 1996 – o que não faz o menor sentido, são dois filmes com títulos iguais. O sexto filme usou algarismos romanos, “Pânico VI”. E agora voltou ao algarismo arábico, “Pânico 7”. Caramba, por que não padronizar???

Pânico 7 tem uma breve cena no meio dos créditos, e estreia hoje no circuito.