O Sorveteiro

Crítica – O Sorveteiro

Sinopse (imdb): Uma idílica cidadezinha de verão mergulha na loucura quando um vendedor de sorvete serve às crianças guloseimas que trazem resultados aterrorizantes.

Filme novo do Eli Roth, com o pé fincado fortemente no terror trash! É bom? Não. Mas, se você gosta de gore exagerado, vai se divertir.

Em um bairro pacato, muitas crianças brincam na praça. Chega um sorveteiro, e quase todas as crianças vão tomar sorvete. De noite, essas crianças parecem enfeitiçadas e atacam seus pais.

Crianças “do mal” não são uma novidade no cinema. E o lance das crianças enfeitiçadas lembra A Hora do Mal. E um vilão mudo que se comunica por expressões faciais lembra Terrifier. Sim, O Sorveteiro parece uma colagem de ideias. Isso às vezes funciona, mas nem sempre.

A direção é de Eli Roth, nome que tem alguns filmes interessantes no currículo (Cabana do Inferno, O Albergue, Feriado Sangrento) outros nem tanto (seu último filme, Borderlands, foi bem fraco). O Sorveteiro é o primeiro filme da produtora The Horror Section, fundada por Roth, para fazer filmes com uma proposta de fazer filmes de terror perturbadores.

(Roth estava no elenco de Bastardos Inglórios, mas era só como ator, não dá pra colocar na mesma lista de filmes.)

O melhor de O Sorveteiro são as cenas de mortes. O gore é muito exagerado, e quase sempre com efeitos práticos e de maquiagem. Heu ri alto em várias das mortes! Sim, o gore exagerado faz o filme virar uma comédia em boa parte da projeção.

(Por outro lado, achei caricato demais a maquiagem das crianças com a boca suja de sorvete. Ficou tosco.)

O roteiro tem as suas forçações de barra. Uma coisa que me incomodou foi o sorvete ter efeitos diferentes pra pessoas diferentes. Por que a menina um pouco mais velha não foi hipnotizada? E se o sorvete não faz efeito para adolescentes mais velhos, ou jovens adultos, cadê o resto dessa faixa etária pela cidade? Uma cidade tem dezenas de crianças, mas só três jovens adultos?

O terço final traz aquela tradicional cena de explicação, onde um novo personagem gasta um tempo explicando detalhes que nem sempre são necessários. Ok, entendo que queriam dar um contexto, mas a cena não ficou boa. Pelo menos posso dizer que gostei da reviravolta na sequência final. Nada muito inovador, mas um clichê bem utilizado. Só tem um problema: de repente o filme muda de tom, porque é um final muito mais sombrio do que a galhofa que permeia o resto do filme.

Existe uma polêmica ligada a um possível uso de inteligência artificial. Pelo que li, é no videozinho que passa no celular das crianças. Mas não consegui mais informações sobre esse caso, então não vou palpitar. Dito isso, queria falar mal dos efeitos especiais de uma cena em particular. O Sorveteiro usa muitos efeitos práticos, mas tem uma cena onde um personagem está em uma praça, em primeiro plano, e atrás dele várias crianças começam a se aglomerar. Quando as crianças partem para cima dele, é um cgi tosco demais. E o pior é que é um cgi desnecessário, porque a cena teria exatamente o mesmo impacto se apenas mostrasse as crianças correndo.

O elenco não é bom. Entendo que trabalhar com crianças não é algo muito fácil – principalmente se o orçamento é pequeno. E quase todo o filme é conduzido por atores infantis. Heu até gostei do principal, Charlie Zeltzer, que tem uma vibe parecida com aquele garoto de Umbrella Academy. Mas o resto é de sofrível pra baixo. Ah, o diretor Eli Roth interpreta o pai.

A história fecha, mas a última cena abre possibilidade de uma continuação, que deve acontecer se a bilheteria for boa. E no fim dos créditos rola uma cena extra com uma piadinha.

Resumindo: O Sorveteiro só vale pelo gore. Vai divertir quem curte trash.

A Última Casa

Crítica – A Última Casa

Sinopse (imdb): Uma família de quatro pessoas fica subitamente trancada dentro de casa, sem saída, e precisa unir forças para sobreviver tanto à escassez de recursos quanto à ameaça misteriosa e iminente que os mantém aprisionados.

Um pouco atrasado, vamos comentar o filme recente da Netflix que foi quase uma unanimidade: ideia boa, final ruim. E no fim do texto, vou comentar um grande furo de roteiro.

Um pescador chega em casa quando está começando a chover. Logo, ele e sua família descobrem que essa chuva lacrou todas as portas e janelas de todas as casas. Toda a vizinhança está presa, cada um na própria casa. Dias viram semanas, semanas viram meses, e recursos começam a acabar. Inicialmente a gente lembra da pandemia, todos fechados em casa – mas o roteiro traz um elemento misterioso e sobrenatural rondando lá fora.

(Não sei se esse conceito funcionaria aqui no Brasil. Aqui quase todo mundo tem janelas abertas em casa, principalmente na área de serviço. Como seria essa lacração numa janela aberta?)

O grande lance aqui é que A Última Casa é estrelado por Wagner Moura. Filme gringo, em inglês, e o “nosso” Wagner Moura tá lá, ao lado da Grace Park (Vidas Passadas), liderando a narrativa. Legal ver um brasileiro com uma carreira cada vez mais sólida em Hollywood.

A direção é de Louis Leterrier, que tem um currículo curioso. Ele fez aquele Incrível Hulk do início do MCU, com o Edward Norton; fez o primeiro Truque de Mestre; mas é mais lembrado por ter feito o último Velozes e Furiosos. Por que chamar um diretor com esse histórico pra um filme que se passa quase todo dentro de casa acompanhando uma família? Sei lá. Acho que podiam ter escolhido um diretor mais a ver com a proposta.

Tem uma coisa que incomoda um pouco. A família é muito “MacGyver”. O pai é pescador, caçador, mecânico e inventor, e tem absolutamente TUDO na garagem. Já a mãe cria plantações dentro de casa, pra não faltar comida. Ok, se todas as outras famílias em volta não conseguiram sobreviver, de repente tem uma que é mais “ninja” e conseguiu. Mas, vou repetir o comentário que fiz no texto sobre Ponto Sem Retorno: é mais legal quando o protagonista tem algum defeito aqui ou ali. É chato ter protagonistas tão perfeitos.

A ideia inicial é até instigante, não sabemos o que está acontecendo, nem como a família vai sobreviver, nem o que são aquelas coisas lá fora. Mas o desenvolvimento não é bom, e quanto mais perto do final, menos interessante o filme fica. E como é uma família perfeita demais, duvido que alguém tenha chegado ao fim do filme torcendo por eles.

Ah, tem as criaturas. Achei ruins. Definitivamente poderiam desenvolver melhor. Acaba que é um vilão que não assusta.

Agora, preciso falar de um furo de roteiro. Antes, vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Se heu ficasse preso numa casa por mais de uma semana, ia pensar no esgoto. Afinal, a água entra pelo encanamento, então necessariamente existe uma tubulação de esgoto. Mas, isso sou heu, não quero que o personagem pense igual a mim.

Mas, depois de cinco anos, os personagens finalmente pensam nisso. Quebram o chão do banheiro e seguem para a casa do vizinho. Só tem um problema: como vão entrar pelo banheiro do vizinho se ninguém quebrou o chão lá? O roteiro simplesmente ignora isso, a personagem só entra na casa do vizinho e o filme segue.

Aproveitando que estou no “momento spoiler”, queria comentar uma coisa que não entendi. O filme abre com uma narração dizendo algo como “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ao fim do filme, sobraram só os quatro personagens da família, mas a mesma narração volta e cita de novo “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ué, essa frase faria mais sentido se houvesse mais personagens, fora do núcleo familiar.

FIM DOS SPOILERS!

A Última Casa tem uma história fechada, mas abre um gancho pra uma possível continuação, em outro ambiente. E, fica a dica pra Netflix: dá pra fazer um spin off, um filme completamente diferente mas no mesmo universo. Imaginem um grande prédio de apartamentos. As pessoas não vão poder sair pra rua, nas, dentro do prédio, iam poder circular entre os apartamentos. Então o filme poderia começar com um espírito colaborativo entre os vizinhos, mas quando os recursos começassem a escassear, começariam as brigas. Taí, poderia ser um filme legal.