A Última Casa

Crítica – A Última Casa

Sinopse (imdb): Uma família de quatro pessoas fica subitamente trancada dentro de casa, sem saída, e precisa unir forças para sobreviver tanto à escassez de recursos quanto à ameaça misteriosa e iminente que os mantém aprisionados.

Um pouco atrasado, vamos comentar o filme recente da Netflix que foi quase uma unanimidade: ideia boa, final ruim. E no fim do texto, vou comentar um grande furo de roteiro.

Um pescador chega em casa quando está começando a chover. Logo, ele e sua família descobrem que essa chuva lacrou todas as portas e janelas de todas as casas. Toda a vizinhança está presa, cada um na própria casa. Dias viram semanas, semanas viram meses, e recursos começam a acabar. Inicialmente a gente lembra da pandemia, todos fechados em casa – mas o roteiro traz um elemento misterioso e sobrenatural rondando lá fora.

(Não sei se esse conceito funcionaria aqui no Brasil. Aqui quase todo mundo tem janelas abertas em casa, principalmente na área de serviço. Como seria essa lacração numa janela aberta?)

O grande lance aqui é que A Última Casa é estrelado por Wagner Moura. Filme gringo, em inglês, e o “nosso” Wagner Moura tá lá, ao lado da Grace Park (Vidas Passadas), liderando a narrativa. Legal ver um brasileiro com uma carreira cada vez mais sólida em Hollywood.

A direção é de Louis Leterrier, que tem um currículo curioso. Ele fez aquele Incrível Hulk do início do MCU, com o Edward Norton; fez o primeiro Truque de Mestre; mas é mais lembrado por ter feito o último Velozes e Furiosos. Por que chamar um diretor com esse histórico pra um filme que se passa quase todo dentro de casa acompanhando uma família? Sei lá. Acho que podiam ter escolhido um diretor mais a ver com a proposta.

Tem uma coisa que incomoda um pouco. A família é muito “MacGyver”. O pai é pescador, caçador, mecânico e inventor, e tem absolutamente TUDO na garagem. Já a mãe cria plantações dentro de casa, pra não faltar comida. Ok, se todas as outras famílias em volta não conseguiram sobreviver, de repente tem uma que é mais “ninja” e conseguiu. Mas, vou repetir o comentário que fiz no texto sobre Ponto Sem Retorno: é mais legal quando o protagonista tem algum defeito aqui ou ali. É chato ter protagonistas tão perfeitos.

A ideia inicial é até instigante, não sabemos o que está acontecendo, nem como a família vai sobreviver, nem o que são aquelas coisas lá fora. Mas o desenvolvimento não é bom, e quanto mais perto do final, menos interessante o filme fica. E como é uma família perfeita demais, duvido que alguém tenha chegado ao fim do filme torcendo por eles.

Ah, tem as criaturas. Achei ruins. Definitivamente poderiam desenvolver melhor. Acaba que é um vilão que não assusta.

Agora, preciso falar de um furo de roteiro. Antes, vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Se heu ficasse preso numa casa por mais de uma semana, ia pensar no esgoto. Afinal, a água entra pelo encanamento, então necessariamente existe uma tubulação de esgoto. Mas, isso sou heu, não quero que o personagem pense igual a mim.

Mas, depois de cinco anos, os personagens finalmente pensam nisso. Quebram o chão do banheiro e seguem para a casa do vizinho. Só tem um problema: como vão entrar pelo banheiro do vizinho se ninguém quebrou o chão lá? O roteiro simplesmente ignora isso, a personagem só entra na casa do vizinho e o filme segue.

Aproveitando que estou no “momento spoiler”, queria comentar uma coisa que não entendi. O filme abre com uma narração dizendo algo como “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ao fim do filme, sobraram só os quatro personagens da família, mas a mesma narração volta e cita de novo “todos se lembram onde estavam quando a chuva começou”. Ué, essa frase faria mais sentido se houvesse mais personagens, fora do núcleo familiar.

FIM DOS SPOILERS!

A Última Casa tem uma história fechada, mas abre um gancho pra uma possível continuação, em outro ambiente. E, fica a dica pra Netflix: dá pra fazer um spin off, um filme completamente diferente mas no mesmo universo. Imaginem um grande prédio de apartamentos. As pessoas não vão poder sair pra rua, nas, dentro do prédio, iam poder circular entre os apartamentos. Então o filme poderia começar com um espírito colaborativo entre os vizinhos, mas quando os recursos começassem a escassear, começariam as brigas. Taí, poderia ser um filme legal.

As Ovelhas Detetives

Crítica – As Ovelhas Detetives

Sinopse (imdb): Todas as noites, um pastor lê em voz alta uma história de mistério e assassinato, fingindo que suas ovelhas conseguem entender. Quando ele é encontrado morto, as ovelhas percebem imediatamente que se trata de um assassinato e acreditam saber tudo sobre como resolvê-lo.

As Ovelhas Detetives estava na minha lista de expectativas para 2026. Na verdade, era mais pela curiosidade com o elenco de vozes escalado para as ovelhas. Mas quando o filme foi lançado aqui, em vez de sessão de imprensa, teve pré estreia no fim de semana, aberta pra crianças. Aí meio que desanimei, porque o tratamento que a assessoria deu ao filme dava a impressão de que o filme teria uma abordagem muito infantil – e ainda ia perder as vozes originais na sessão dublada em português.

Aí o filme apareceu na Prime e resolvi arriscar. Caramba, que surpresa agradável! As Ovelhas Detetives é bem melhor do que parecia!

Ok, não estamos falando de um “novo clássico”, de um filme “obrigatório” (como, por exemplo, Uma Aventura Lego ou Tico e Teco e os Defensores da Lei, filmes que são muito melhores do que o que parecem ser). Mas As Ovelhas Detetives é leve e divertido, e traz um bem sacado whodunit no roteiro.

(Pra quem não sabe, whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. Os recentes filmes da série Knives Out são bons exemplos.)

George Hardy é um pastor que trata suas ovelhas com carinho, quase como se fossem humanos. Inclusive, gosta de ler livros policiais para o rebanho. Quando ele aparece morto, as ovelhas – que conversam entre elas – resolvem descobrir quem é o assassino. O problema é que os humanos não entendem o que elas falam.

As Ovelhas Detetives é baseado no livro Three Bags Full, lançado em 2005, e é dirigido por Kyle Balda, que até agora só tinha dirigido longas de animação, como Minions e Meu Malvado Favorito 3. Phil Lord e Christopher Miller (Uma Aventura Lego, Devoradores de Estrelas) estão na produção, mas não sei o quanto eles interferiram no projeto.

O roteiro constrói bem o whodunit, mas algumas partes aqui e ali lembram que esse é um filme para crianças – a explicação da tinta verde na mão soou forçada demais. Nada grave, felizmente.

Não costumo reclamar de efeitos especiais, mas achei os efeitos aqui bem fracos. Algumas ovelhas parecem muito mal feitas. Não chega a atrapalhar, mas, com a tecnologia atual, podiam ser mais convincentes.

Por outro lado, o elenco é bem acima da média. Hugh Jackman seria o principal, mas seu personagem sai cedo da trama (segundo o imdb, ele filmou todas as suas cenas em dez dias). Emma Thompson faz a advogada, e o “He-Man” Nicholas Galitzine também tem um papel importante. E, entre as ovelhas, temos Julia Louis-Dreyfus, Patrick Stewart, Bryan Cranston, Regina Hall, Bella Ramsey, Chris O’Dowd e Brett Goldstein, entre outros.

As Ovelhas Detetives não vai mudar a vida de ninguém. Mas quem assistir não vai se arrepender.

Segredo Obscuro

Crítica – Segredo Obscuro

Sinopse (imdb): Desesperada para retomar a carreira, uma atriz outrora adorada é atraída para o mundo glamoroso de uma magnata do bem-estar, apenas para descobrir a verdade monstruosa por trás de sua fachada impecável.

O sucesso de A Substância, de 2024, abriu caminho pra outras produções com temas parecidos. Este Segredo Obscuro (Shell, no original) guarda semelhanças no tema e na abordagem do body horror. Pena que o resultado ficou bem inferior.

Dirigido por Max Minghella (filho de Anthony Minghella, diretor ganhador do Oscar por O Paciente Inglês), Segredo Obscuro é de 2025 e podia ter sido lançado antes. Mas depois da sessão, descobri por que adiaram a estreia. O filme é bagunçado demais.

Segredo Obscuro tem uma premissa bem parecida com A Substância. Samantha é uma atriz com dificuldade de conseguir papéis por causa da idade. Ela então começa um tratamento que promete retardar o envelhecimento. Claro que coisas vão dar errado no meio do caminho.

Gosto muito da Kate Hudson, mas sua personagem aqui, Zoe, é bem ruim. Uma milionária como ela não teria nenhum motivo pra se aproximar daquele jeito da Samantha. Se pelo menos a trama indicasse alguma tensão sexual entre as duas, talvez até ajudasse a convencer o espectador. Mas daquele jeito, só amizade, ficou artificial demais.

Além disso, uma empresa que traz efeitos colaterais tão graves pra todos seu usuários não conseguiria crescer daquele jeito. Digo mais: quando Samantha tem um efeito colateral grotesco diante da imprensa, seria bem difícil de esconder. E o roteiro simplesmente esquece disso.

Sabe o que ia melhorar o filme? Se a direção assumisse um clima trash. Temos uma vilã caricata e um monstro. Se o filme tivesse uma pegada trash, na linha de filmes B tipo os filmes do Stuart Gordon, como Re-Animator ou From Beyond, ia virar algo descompromissado e divertido. Ia ser bem melhor.

O elenco é bom. Elisabeth Moss convence no papel da atriz que passou um pouco da idade e luta pra voltar ao mercado. Já Kate Hudson tem carisma, mas o roteiro lhe entregou uma personagem caricata. Kaia Gerber, filha da Cindy Crawford, tem o terceiro maior papel. E Elizabeth Berkley, de Showgirls, aparece na sequência inicial.

(Uma curiosidade de bastidores sobre a protagonista Elisabeth Moss. Ela passa o filme usando roupas largas. Achei que sua personagem ia emagrecer com o tratamento e depois ela apareceria com roupas mais justas, mas isso não acontece. Sabe por que? A atriz estava grávida durante as filmagens…)

Segredo Obscuro não chega a ser “revoltantemente ruim”, mas o resultado ficou decepcionante…

Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Casamento Sangrento: A Viúva

Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva

Sinopse (imdb): A noiva retorna em uma nova e sinistra rodada do tradicional jogo de esconde-esconde, agora com elementos sobrenaturais e demoníacos.

Lançado em 2019, Casamento Sangrento foi uma boa surpresa. Mas, pra comentar este segundo, precisarei falar spoilers do primeiro filme. Ou seja, se você pretende ver o primeiro, sugiro que pare de ler agora!

Em Casamento Sangrento, Grace se casa com um cara de uma família muito rica e poderosa, e existe uma tradição onde cada pessoa que entra na família precisa jogar um jogo. Ela sorteia uma carta, e precisa jogar pique esconde. Mas com o detalhe: se alguém encontrá-la, ela morre. Ou seja, a clássica trama do personagem tendo que fugir pela própria vida, a gente já viu essa história várias vezes. Mas quem me acompanha sabe que não acho ruim reciclar ideias, só acho ruim quando é mal feito e o resultado fica ruim.

Mas Casamento Sangrento tinha um diferencial na última cena – e é aqui que terei que dar o spoiler. Durante todo o filme a gente acha que é uma família de malucos assassinos, até que, na cena final, a gente descobre que tem algo sobrenatural por trás disso tudo, e que a família tem um pacto com o demônio. Como Grace sobrevive, cada um dos membros da família explode! Se até aquele momento o filme estava bom, ficou ainda melhor com o final inesperado.

Este final dificultava uma continuação. Como vamos seguir com uma história onde a família toda morreu por causa de um pacto demoníaco? Essa era a minha maior dúvida com relação a este novo filme. Mas posso dizer que conseguiram bolar uma nova trama, coerente com a proposta do primeiro filme.

Casamento Sangrento 2 (Ready or Not 2: Here I Come, no original) começa exatamente do ponto onde o primeiro termina. Grace ainda está com o vestido de noiva, suja com o sangue das pessoas que morreram, com a casa pegando fogo atrás. Ela é levada a um hospital, e vai precisar responder à polícia. Mas… Descobrimos que outras famílias também fazem parte do pacto demoníaco, e Grace, agora acompanhada de sua irmã Faith, será mais uma vez caçada.

A direção é dos mesmos Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que têm uma produtora chamada Radio Silence, e que ganharam reconhecimento com o filme de 2019, e depois fizeram Abigail, Pânico 5 e Pânico 6. Manter o diretor costuma ser uma boa notícia para a qualidade de uma continuação.

Existe uma “regra não escrita” de continuações que diz que uma sequência precisa ter tudo que tinha no primeiro, mas em maior quantidade. Não sei se os diretores pensaram nisso, mas aqui é tudo maior. Se o primeiro filme era todo dentro de uma casa, este é num enorme resort. Se naquele filme era uma família, aqui são várias, com vários personagens exagerados e caricatos (alguns deles são ótimos!). Além disso, Casamento Sangrento 2 é MUITO violento. Mas não é aquela violência tensa e desagradável, o filme é muito engraçado, quem curte humor negro vai se divertir. Heu ri alto várias vezes ao longo do filme!

O elenco é bom. Samara Weaving é a única que volta (afinal, todo o resto do elenco morreu…), e faz uma boa dupla com Kathryn Newton (que tinha trabalhado com os diretores em Abigail). Uma coisa legal foi ver David Cronenberg num papel pequeno (sim, o diretor de A Mosca, Scanners, Videodrome, Gêmeos, etc). Sarah Michelle Gellar tem um papel importante, assim como Elijah Wood – a ironia é que ele também precisa lidar com um anel de poder. Também no elenco, Shawn Hatosy, Olivia Cheng, Nestor Carbonell e Kevin Durand.

Gostei de Casamento Sangrento 2, foi melhor do que heu esperava, mas preciso reconhecer que o roteiro tem umas facilitações no terço final. E aquela cena final foi bem forçada, acredito que não seria tão fácil. Felizmente, nada grave.

Casamento Sangrento não precisava de uma continuação, o final é redondinho. Mas pelo menos a continuação foi bem feita. Quem curtiu o primeiro vai gostar do segundo.

Exit 8

Crítica – Exit 8

Sinopse (imdb): Um homem se perde numa passagem subterrânea. Seguindo um guia, eventos estranhos acontecem. Será este espaço real? Conseguirá escapar?

Ano passado, na live de Halloween do Otavio Ugá, ouvi falar desse Exit 8. Na época não consegui ver, mas ele apareceu agora de “maneira alternativa”, aí finalmente consegui ver.

Dirigido por Genki Kawamura, Exit 8 é baseado no jogo homônimo – que heu nem sabia que existia. Mas vendo o filme a gente consegue sacar qualé a do jogo. Um cara se vê preso num loop, num corredor do metrô, e precisa seguir uma regra simples: se existe alguma anomalia no corredor, precisa voltar, se não, segue em frente – por 8 fases. Tipo um “jogo dos sete erros”, se existe algo diferente no cenário, precisa voltar. Se erra, volta pra fase 0. Assim, vemos o personagem passando dezenas de vezes pelo mesmo corredor, em loop.

Quem me conhece sabe que gosto de cinema bem filmado. E aqui em Exit 8 tem algumas sequências que são impressionantes. O filme abre com um plano sequência de quase 8 minutos, mostrando o ponto de vista do protagonista, primeiro dentro de um vagão de metrô, depois por corredores de uma estação cheios de gente, até chegar no tal corredor onde acontece o loop. E são vários takes longos com o personagem andando pelos corredores repetidos.

A gente sabe que quase todo plano sequência hoje em dia tem emendas digitais. O cara filma até certo ponto, aí corta e depois recomeça como se fosse o mesmo take, e depois emenda digitalmente. Não achei nenhuma informação sobre as filmagens aqui, mas provavelmente fizeram isso, porque se não teriam que ter feito dezenas de corredores iguais. Tem um corredor mais longo, depois três mais curtos fazendo um “S”, pra voltar ao corredor longo. O lance é que são takes longos, com câmera em movimento, sem “pontos de corte óbvios” (como quando a câmera passa por trás de uma pilastra, por exemplo). Essa parte técnica do filme é de “explodir cabeças”! Fiquei procurando pontos de corte e não achei!

Agora, precisamos reconhecer que falta história. O filme tem pouco mais de uma hora e meia e não tem história pra todo esse tempo. A primeira parte do filme é excelente, o protagonista acabou de receber uma ligação da namorada dizendo que está grávida, e ele se vê atordoado sem saber como agir. O filme não deixa claro, mas a minha interpretação é que isso tem a ver com estar preso num loop – ele não sabe qual é a melhor decisão a tomar para direcionar a sua vida, assim como não sabe qual é o melhor caminho para sair do labirinto. O problema é que isso não dá pra preencher um longa metragem. Aí o roteiro muda perto do meio, e a segunda metade não é tão boa.

Existe um personagem secundário que é tipo um npc (non player character, ou “Personagem Não Jogável”, aquele personagem que não é controlado pelo jogador e segue uma rotina repetitiva) – a única função do cara é ser parte do cenário. Mas aí o filme resolve mudar o ponto de vista e em vez do protagonista, passamos a acompanhar este npc. Nada contra mostrar a vida de um npc, já vimos até filme com isso (Free Guy), o problema é que o personagem que conhecemos nessa segunda parte não tem nada a ver com o que vemos na primeira. Além disso não sabemos qual é a história dele para estar preso nesse labirinto, o filme não entrega nenhum background do personagem. Caramba, se você vai expandir sua história para outro personagem, crie um contexto!

Além disso, a parte final tem alguns exageros que fogem bastante da intrigante proposta inicial – o cara procurar alguma falha no cenário é muito mais interessante do que uma inundação que veio do nada e vai pra lugar nenhum.

Mesmo assim, a parte técnica da primeira metade do filme é tão hipnotizante que acabei o filme com vontade de rever, pra ficar procurando anomalias junto com o personagem.

Ah, existe uma cena pós créditos, mas é a cena mais besta possível. Vemos o corredor vazio. Só.

Exit 8 tem previsão de chegar ao circuito brasileiro no fim de abril. Provavelmente verei de novo no cinema.

Justiça Artificial

Crítica – Justiça Artificial

Sinopse (imdb): Depois de ser acusado de um crime violento, um policial é forçado a provar sua inocência.

O diretor russo Timur Bekmambetov chamou a atenção de Hollywood com os filmes Guardiões da Noite (2004) e Guardiões do Dia (2006). Dirigiu poucos filmes nos EUA (O Procurado, Abraham Lincoln Caçador de Vampiros, Ben Hur), mas tem atuado muito como produtor. E dentre seus filmes como produtor, está por trás de alguns projetos que usam o screenlife – formato onde o filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. Ele produziu bons filmes em screenlife, como Buscando e Desaparecida, mas também filmes bem ruins, como o Guerra dos Mundos do ano passado.

Depois de cinco anos, Bekmambetov está de volta à cadeira de diretor. Justiça Artificial (Mercy, no original) apresenta uma Inteligência Artificial que é juiz, júri e executor ao mesmo tempo. O acusado tem 90 minutos para provar sua inocência, se não é condenado à morte. Durante esses 90 minutos, ele pode acessar arquivos em quaisquer computadores e celulares. O lance é que o acusado agora é Chris Raven (Chris Pratt), um dos policiais que trabalhava levando criminosos para esse sistema.

Justiça Artificial usa elementos do screenlife, mas não se passa todo dentro da mesma tela. Chris passa o filme sendo julgado pela IA interpretada pela Rebecca Ferguson, e muita coisa é jogada na tela, como se fossem pop-ups mostrando arquivos de câmeras de segurança e chamadas de vídeo, dentre outras coisas.

O filme se passa em “tempo real”, vemos um cronômetro ao lado da tela quase o tempo todo. Por um lado, isso é ruim porque sabemos que nada de conclusivo vai acontecer na primeira hora de filme. Mas por outro lado a tensão é bem construída ao longo de toda a projeção.

Claro, o roteiro tem algumas facilitações. O formato de roteiro escolhido cai nos clichês esperados, tipo as pistas falsas até o clímax. E achei forçado não conseguirem parar o caminhão na parte final – cadê aquelas metais pontudos que usam pra furar pneus? Além disso, o filme podia acabar antes do último plot twist, me pareceu um certo exagero. Nada grave, felizmente.

No elenco, quase todo o filme é em cima da dupla Chris Pratt e Rebecca Ferguson. Ela faz uma IA, então acho que poderiam usar um filtro e deixá-la um pouco mais artificial – mas isso não é exatamente um problema, é só um head canon meu, ambos estão ok. Também no elenco, Kali Reis, Annabelle Wallis, Chris Sullivan e Kylie Rogers.

Justiça Artificial não entrará em nenhuma lista de melhores. Mas vai agradar o espectador comum.

Socorro!

Crítica – Socorro!

Sinopse (filmeb): Após um acidente aéreo, um chefe e uma funcionária que se odeiam são os únicos sobreviventes. Isolados numa ilha deserta, eles precisam decidir se cooperam ou competem para escapar, mas é difícil deixar para trás os conflitos do escritório.

Sam Raimi está de volta ao terror, dezesseis anos depois de Arraste-me Para o Inferno!

Socorro! (Send Help, no original) foi anunciado como “uma mistura de Louca Obsessão com Náufrago“, e parte de uma premissa interessante. Uma mulher sem muitas habilidades sociais e que por isso sofre bullying no trabalho, acaba indo viajar com o patrão e seus amigos num jato particular. O avião cai, e só sobrevivem ela e o chefe – que sempre a tratou mal. Mas agora ela que detém o poder, porque ela sabe se virar no meio do mato e ele não.

Socorro! tem tudo o que se espera num filme do Sam Raimi: sangue, gore e muito humor negro. Também tem um travelling pela mata, lembrando os movimentos de câmera de Evil Dead. Tem até um jump scare bem construído, daqueles que você não está esperando.

Lendo isso dá pra pensar que é uma pegada de terror trash sobrenatural, né? Que nada. O foco principal do filme é o embate entre dois personagens que se odeiam mas precisam se entender pela sobrevivência. Detalhe: ela, que era rejeitada e sofria bullying, era fanática por programas tipo Survivor, ou seja, ela sabe o que precisa para sobreviver. Agora é ela quem dá as cartas!

Mesmo assim, o filme tem bastante gore. Mas quase todas as sequências sanguinolentas geram mais risadas do que repulsa. A cena da caça ao javali é muito boa, e tem uma outra que envolve um veneno paralisante que vai deixar qualquer homem desconfortável. E, claro, assim como em Arraste-me Para o Inferno, tem cena – engraçada – envolvendo vômito. Muito vômito!

O elenco até tem mais nomes, mas quase todo o filme é em cima do casal principal. Rachel McAdams já tinha trabalhado com Sam Raimi em Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura, de repente deve ter rolado alguma afinidade entre eles, e aqui ela está excelente, sem medo dos banhos de sangue. Dylan O’Brien também está bem como o antipático chefe. Ah, Bruce Campbell, “ator assinatura”do Sam Raimi, não está no filme, mas aparece em um quadro na sala do personagem do Dylan O’Brien.

Socorro! estava na minha lista de expectativas para 2026. Minha lista começou bem!

A Empregada

Crítica – A Empregada

Sinopse (imdb): Segue uma mulher em dificuldades que está feliz em recomeçar como empregada doméstica para um casal rico e elitista.

A Empregada (The Housemaid, no original) é o novo suspense dirigido por Paul Feig, que tem um longo currículo na comédia (Missão Madrinha de Casamento, As Bem Armadas, Caça Fantasmas (2016)), mas que já tinha entrado no suspense, com Um Pequeno Favor. Seu novo filme é baseado no livro de Freida McFadden – não li o livro, meus comentários serão só sobre o filme.

A Empregada tem aquele formato onde vemos uma trama com alguns elementos estranhos, e depois rola uma reviravolta de roteiro onde tudo passa a ser visto sob uma nova perspectiva. Millie (Sydney Sweeney), que tem um passado misterioso, está procurando emprego, e começa a trabalhar na casa de Nina (Amanda Seyfried). Só que pouco depois que começa o trabalho, Nina se mostra uma pessoa completamente desequilibrada.

Depois da virada de roteiro a gente entende algumas coisas que antes estavam nebulosas. Mas se heu puder fazer uma crítica, achei meio abrupta a mudança de comportamento de alguns personagens. No filme até funciona, mas me pareceu artificial.

O grande lance aqui é a dinâmica entre Sydney Sweeney e Amanda Seyfried. Sydney esteve envolvida recentemente em polêmicas vazias (talvez o maior problema do mundo atual seja essa polarização que transforma tudo em flaxflu), mas já mostrou que é uma grande atriz – e quem discorda de mim, veja o final de Imaculada. Enfim, polêmicas à parte, Sydney, que além de atuar bem, é uma das mais bonitas da sua geração, está bem aqui. Amanda às vezes parece um pouco over, mas ela também funciona bem no papel, principalmente depois do plot twist, quando sabemos o que realmente aconteceu. Enfim, as duas estão bem e valem o filme.

O papel masculino principal é de Brandon Sklenar. Curioso que já vi alguns filmes com ele, mas não lembro de nenhuma das suas atuações. Não sei se é uma falha minha ou se ele realmente é um cara mais apagado. Michele Morrone, famoso pela bomba 365 Dias e por ser um novo “Cigano Igor”, tem um papel muito mal desenvolvido como o jardineiro – ou seja, é um ator ruim num papel ruim. E, pra quem é das antigas, a mãe do protagonista é Elisabeth Perkins, de Sobre Ontem À Noite (1986) e Quero ser Grande (88).

A Empregada é um pouco longo, não precisava de mais de duas horas pra contar essa história. Mas quem curtia aqueles suspenses dos anos 90, com reviravoltas e um toque de erotismo, vai se divertir.

 

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Crítica – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Sinopse (Netflix): O detetive Benoit Blanc conta com a ajuda de um jovem padre para investigar um crime perfeitamente impossível na igreja de uma cidadezinha que tem uma história sombria.

Em 2019, fomos apresentados ao detetive Benoit Blanc, uma espécie de novo Hercule Poirot, no divertido e bem escrito whodunit Entre Facas e Segredos. Três anos depois, Benoit Blanc voltou em outro novo mistério, em Glass Onion, Um Mistério Knives Out, filme que trazia o mesmo personagem, em uma história completamente independente do primeiro filme. Agora, em 2025, mais uma vez dirigido por Rian Johnson (Star Wars episódio 8), Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, no original) repete a ideia: novo filme, mesmo personagem, mestilo, história 100% independente.

(Curiosidade sobre os títulos dos três filmes. Knives Out é uma música do Radiohead; Glass Onion é dos Beatles. Wake Up Dead Man é uma música do U2.)

(Glossário: whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. A literatura tem pelo menos dois nomes bem famosos no estilo: Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle; e Hercule Poirot, da Agatha Christie.)

Assim como os dois primeiros filmes, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out traz um grande elenco, e o único repetido é Daniel Craig como Benoit Blanc. Curioso que desta vez o detetive é quase um coadjuvante, porque o filme é muito mais do padre Jud (Josh O’Connor). Digo mais: Blanc só aparece depois de 39 minutos e meio de filme.

Aliás, bora falar do elenco, que é fantástico. Daniel Craig está ótimo, e pode tirar uma onda que poucos conseguem no cinema: viveu personagens marcantes em duas franquias diferentes (acho que nenhum outro James Bond conseguiu “se livrar” do personagem). Mas claro que o destaque é Josh O’Connor, o que foi uma agradável surpresa, já que o último filme que vi dele foi o decepcionante The Mastermind. Glenn Close e Josh Brolin também estão excelentes. Também no elenco, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church, Jeffrey Wright e Annie Hamilton. Ah, tem um momento que o Thomas Haden Church está vendo baseball na TV, a voz do comentarista é de Joseph Gordon Levitt – que também tinha feito apenas uma voz em Glass Onion.

O assassinato realmente é intrigante e parece impossível, acho difícil algum espectador conseguir solucionar. E na parte final acontece um outro crime, igualmente impossível, que deixa a trama ainda mais misteriosa. Será que Benoit Blanc vai conseguir solucionar o caso dessa vez? Apesar de uma forçadinha aqui e outra ali, achei os dois casos muito bem bolados, e as soluções me convenceram. Além disso, o ritmo do filme é muito bom, são quase duas horas e meia que passam rapidinho.

Por fim, vou repetir o que falei três anos atrás e vou falar mal do nome brasileiro do filme. O primeiro filme aqui foi chamado “Entre Facas e Segredos”. O segundo tem um subtítulo “Um Mistério Knives Out”. Por que não “Um Mistério Entre Facas e Segredos”? E o terceiro filme repete: “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out”. Bem, pelo menos agora o subtítulo fez um link com o segundo filme…