Hit Para Dois

Crítica – Hit Para Dois

Sinopse (imdb): Uma história musical inspiradora sobre um cantor de casamentos, uma estrela do rock e a música que se interpõe entre eles.

(Sinopse horrorosa…)

Fui convidado para a sessão de imprensa de Hit para Dois (Power Ballad, no original), e quando vi que era o novo filme do John Carney, logo confirmei presença. Mas… Alguns dias depois veio um convite para sessão de imprensa de Dia D, o novo Spielberg – no mesmo dia de Hit para Dois. Infelizmente tive que abrir mão de de Hit para Dois, afinal, Spielberg é Spielberg.

Mas, como sou fã do trabalho do diretor John Carney, assim que estreou, fui ao cinema ver. E posso dizer que gostei muito do filme. Mais ainda do que de Dia D.

Mas antes de entrar na análise, preciso avisar uma coisa: heu entendo que gostei muito do filme porque sou músico, e o John Carney é um cara que sabe fazer filmes que mostram o ponto de vista do músico. Não sei se esse filme agradar qualquer público, mas, afirmo de novo, heu gostei muito.

Em Hit Para Dois, Paul Rudd interpreta um Rick, o vocalista de uma banda que toca em casamentos. Durante uma festa, um dos convidados é Danny, que que foi cantor de uma boy band e agora está tentando alavancar sua carreira solo. Danny faz uma canja no show, e depois Rick e Danny passam a madrugada bebendo e trocando ideias musicais. Seis meses depois, Danny lança uma música nova e vira um grande sucesso. Só que essa música era do Rick. Ou seja, agora Rick quer brigar pela co-autoria da música.

Como John Carney não é um nome muito conhecido, um breve parágrafo sobre alguns filmes anteriores dele. O primeiro filme dele que heu vi foi Apenas Uma Vez, que mostra um músico de rua que conhece uma imigrante, também musicista e, juntos, resolvem gravar suas composições. O segundo foi Mesmo se Nada Der Certo, que mostra o encontro ao acaso entre um executivo de gravadora desempregado e uma jovem compositora que acabou de levar um fora do namorado que ficou famoso. Carney também fez Sing Street, que conta a história de um adolescente que começa uma banda para impressionar uma garota que ele gosta, em Dublin, nos anos 80. Ele fez um outro filme que heu ainda não vi, Flora e Filho, que também tem música na trama – falha grave, preciso ver. Resumindo: John Carney, que foi baixista de uma banda nos anos 90, é um cara que manja dos paranauês do universo de músicos.

Por que heu gosto dos filmes de John Carney? Porque não parece que são atores vivendo músicos, e sim músicos atuando. O ator principal aqui é Paul Rudd, todo mundo conhece de diversos filmes. Já o segundo nome do elenco é Nick Jonas, que era da banda Jonas Brothers. Não sei se podemos considerar Jonas Brothers como uma boy band, mas era uma banda “jovem”, ou seja, o cara tem a ver com o papel. E, principalmente, é um cara que sabe se portar num palco, seja num palco pequeno de uma festa, seja num palco gigante de um estádio.

(Em Mesmo se Nada Der Certo, Adam Levine, vocalista do Maroon 5, tem um papel importante. Como falei, John Carney é o cara que sabe misturar música e cinema).

A banda do Paul Rudd também passa a impressão de serem músicos de verdade. Aliás, o nome da banda é um trocadilho em inglês que heu achei genial, The Bride and the Groove – em inglês, “noiva e noivo” é “bride and groom”, e aqui trocaram “groom” por “groove”, boa sacada. Os músicos não passam a impressão de serem atores interpretando músicos, parecem ser uma banda “de verdade”. Me convenceu que eles realmente poderiam fazer um show daqueles.

Aproveito pra falar do elenco. Paul Rudd está igual a todos os filmes, mas merece um elogio: ele parece que está cantando e tocando de verdade. Nick Jonas já tinha um passado, desde a adolescência, como ator de produções direcionadas ao público infanto juvenil, como Camp Rock, mas admito que nunca tinha visto nada dele. Aqui ele convence, tanto como ator, quanto como músico. Também queria citar Peter McDonald, que faz Sandy, o amigo sem noção do Rick, e que é responsável por algumas cenas bem divertidas. Jack Reynor, que estava em Sing Street, tem um papel menor como o executivo da gravadora.

O roteiro tem algumas forçadas de barra – o reencontro de Rick e Danny não seria tão fácil. Mas reconheço que não tinha sacado a motivação da música principal do filme, foi quase um plot twist. Mas o importante num filme desses não são as mirabolâncias de roteiro, e sim o sentimento que o filme passa ao espectador. E nesse aspecto, Hit Para Dois é excelente.

Infelizmente, Hit Para Dois foi mal lançado e pouca gente vai ver. Mas pra quem gosta de “feel good movies”, recomendo fortemente!

A Maldição da Múmia

Crítica – A Maldição da Múmia

Sinopse (imdb): Uma família se depara com uma múmia ancestral, desencadeando uma aventura sobrenatural que mistura terror e suspense em uma nova versão do monstro clássico.

Esqueça tudo o que você imagina sobre “filme de múmia”. Não é uma aventura como os filmes do Brendan Fraser,e também não é um terror com um antagonista embalsamado e enfaixado. A proposta aqui é bem diferente. Na verdade A Maldição da Múmia (The Mummy, no original) parece mais um filme de exorcismo do que de múmia.

A direção é de Lee Cronin, que fez um bom trabalho com o Evil Dead de 2023 (tenho minhas ressalvas com esse filme, mas reconheço que é bem melhor que o de 2013). Mais uma vez Cronin mandou bem – também tenho algumas ressalvas aqui, mas igualmente reconheço os méritos. E parece que ele queria fazer uma mistura de O Exorcista com Evil Dead. O “vilão” aqui é um demônio, e não a múmia em si.

A Maldição da Múmia tem muito gore. Algumas cenas vão fazer parte do público ter ânsias de vômito – teve uma em particular envolvendo líquido de embalsamento que me embrulhou o estômago, e isso porque não estou falando da cena das unhas. E Lee Cronin é muito eficiente ao criar um clima de tensão ao longo de todo o filme. A Maldição da Múmia não é filme de jump scare, está mais próximo do terror da A24 (apesar de ser Blumhouse). Outro ponto positivo é apostar mais em efeitos de maquiagem do que cgi.

O roteiro tem umas forçadas de barra. Pra que precisariam transportar o sarcófago de avião? Pra onde estavam levando? A policial egípcia precisava ter vindo até os EUA, com uma fita VHS, sem avisar? Quem ainda tem um videocassete em casa? E na cena final, esqueceram do personagem da irmã mais nova. Mas não é nada grave, a gente vê vários filmes por aí com roteiros cheios de facilitações e que trazem resultado inferior a este.

O elenco não tem muita gente conhecida. Heu só conhecia o pai, Jack Reynor, que faz o irmão mais velho em Sing Street. Mas heu quero fazer um elogio: parte do filme se passa no Egito, com atores egípcios. E são diálogos na língua deles – acho que é árabe. Isso mostra uma evolução em Hollywood, se fosse anos atrás, tudo ia ser em inglês.

A Maldição da Múmia é um pouco longo demais, são duas horas e quatorze minutos, acho que dava pra secar um pouco e ser um pouco mais objetivo. Mas mesmo assim o resultado foi positivo.

Sing Street: Música e Sonho

Sing StreetCrítica – Sing Street: Música e Sonho

Vamos ao meu novo “filme favorito de todos os tempos da última semana”?

Em Dublin, nos Nos 80,um adolescente começa uma banda para impressionar uma garota que ele gosta.

Sing Street: Música e Sonho (Sing Street, no original) é o filme novo do John Carney, o mesmo de Apenas uma Vez e Mesmo se Nada Der Certo. O filme concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme comédia ou musical (perdeu pra La La Land), mas foi ignorado pelo Oscar. Mesmo assim, acho que merecia um lançamento nos cinemas brasileiros. Em vez disso, foi lançado direto no Netflix. Menos mal, pelo menos foi lançado…

Sing Street é uma deliciosa viagem musical aos anos 80. Digo mais: é um filme obrigatório para quem foi músico iniciante nos anos 80. Heu comecei a tocar com 15 anos, em 1986 – e “me vi” diversas vezes ao longo do filme. Diferente de um Commitments ou um Quase Famosos, quando vemos músicos profissionais, aqui são moleques aprendendo a rotina de ensaios e gravações. Vivi isso, e na mesma época!

Nos seus outros filmes, Carney já tinha mostrado boas sacadas ligadas à música. Aqui ele mostra mais uma vez esta habilidade. Uma coisa que gostei muito foram os arranjos musicais. Pelo menos em dois momentos do filme os personagens começam tocando uma música num arranjo mais simples e ao longo da música o arranjo começa a ficar sofisticado e termina com cara de cd.

Outro detalhe genial é que uma banda inicial de adolescentes sempre tem problemas de identidade. E isso é mostrado: eles ouvem Duran Duran e fazem uma música com uma pegada Duran Duran; depois ouvem The Cure e acontece o mesmo, idem com Daryl Hall & John Oates. Não é plágio, as citações são explícitas.

Pelo menos duas cenas são antológicas. Em uma delas, vemos, num plano sequência, a criação de um arranjo musical: começa à noite com voz e violão, entra o piano, fica de dia e entra o teclado, depois baixo e bateria, finalmente a guitarra. Na outra cena, vemos uma homenagem ao baile de De Volta Para o Futuro. Cenas para ver e rever!

Claro que um filme desses precisa de um bom elenco. Se, no filme anterior, Carney tinha Keira Knightley e Mark Ruffalo, desta vez voltou a nomes desconhecidos (como em Apenas uma Vez). A dupla Ferdia Walsh-Peelo e Lucy Boynton tem carisma e talento o suficiente pra segurar o filme. E vi vídeos no YouTube dos dois principais da banda (Ferdia e Mark McKenna) tocando e cantando em programas de TV – eles realmente tocam! O único ator conhecido é Aiden Gillen, o Mindinho de Game of Thrones, num papel pequeno.

Pena que Sing Street foi mal lançado, então pouca gente ouviu falar. Mas fica a recomendação. Mesmo pouco conhecido, estamos diante de um dos melhores filmes do ano!