Abraço de Mãe

Crítica – Abraço de Mãe

Sinopse (imdb): Durante uma grande tempestade no Rio de Janeiro em 1996, a bombeira Ana e sua equipe de bombeiros precisam evacuar uma casa de repouso em colapso, mas os misteriosos residentes têm outros planos sinistros.

Ih, olha lá, tem terror nacional novo na Netflix!

Quando li sobre Abraço de Mãe, achei que era um filme argentino, porque o diretor Cristian Ponce é argentino. Mas não, é uma produção brasileira. Legal!

Abraço de Mãe traz a história de Ana. Depois de um prólogo nos anos 70 que explica seu trauma de infância, vemos Ana trabalhando no corpo de bombeiros, na época de uma grande chuva no Rio de Janeiro, em 1996.

(Curioso que pelo filme, o Rio de Janeiro teria tido uma traumática tempestade em 1996. Morei quase minha vida inteira no Rio, já vivi grandes chuvas em diversos anos, não me lembro de 96 ter sido pior…)

Tecnicamente, Abraço de Mãe é muito bom. Bom elenco, bons cenários, boa reconstituição de época, efeitos especiais simples e eficientes. O melhor aqui é o clima de mistério que rola naquele asilo onde boa parte do filme se passa. Excelente uso da locação. Outro ponto a ser elogiado é o elenco. Principalmente a protagonista Marjorie Estiano. Sou fã dela pela série Sob Pressão, e aqui ela dá um show.

Mas… O clima é muito bom, a trama é envolvente e está andando num bom ritmo, mas o final aberto demais me incomodou. Preciso falar do final. Segue um aviso de spoilers:

SPOILERS!

Na minha humilde opinião, o final do filme é decepcionante. Abraço de Mãe levanta algumas coisas legais e instigantes, mas não desenvolve nada. Vemos que existe um monstro ou criatura, vemos garras e tentáculos, mas não sabemos o que é a criatura, se é algo sobrenatural ou alienígena ou sei lá o que poderia ser. Vemos que pessoas estavam esperando uma grande tempestade pra fazer um culto ou algo parecido, mas não sabemos o que seria aquilo. A filha do argentino estava sendo preparada, mas não sabemos para que.

Não acho que um filme precisa explicar todos os detalhes, mas levantar ideias boas e não desenvolvê-las me pareceu um desperdício. Sempre defendo filmes curtos, mas neste caso em particular, acho que seria melhor ver mais 10 minutos mostrando mais cenas sobre esses elementos misteriosos.

FIM DOS SPOILERS!

Mesmo decepcionado com o final, ainda acho que Abraço de Mãe foi uma boa experiência. Que vejamos mais terror nacional na Netflix!

Biônicos

Crítica – Biônicos

Sinopse (imdb): Em um futuro distópico em que as próteses robóticas dominam os esportes, duas irmãs competem no salto em distância. Só que essa rivalidade leva a um caminho sinistro.

Opa, ficção científica feita no Brasil!

Biônicos é o novo filme de Afonso Poyart. Poyart é um cara que merece o meu respeito, em 2012 ele fez 2 Coelhos, um dos melhores filmes nacionais que heu já vi. Três anos depois ele dirigiu Anthony Hopkins e Colin Farrell em Presságios de um Crime, e lembro de ter ido numa sessão no Roxy com presença do próprio Poyart. No ano seguinte, 2016, Poyart dirigiu Mais Forte Que o Mundo, contando a história do lutador José Aldo, outro filmão. Só por esses três títulos, Poyart já merece espaço no hall de melhores diretores brasileiros.

De lá pra cá, Poyart deu uma sumida. Vi no imdb que ele fez coisas pra TV. Até que estreou este Biônicos no streaming, anunciado como “o filme nacional mais caro da Netflix”. E apareceram alguns canais de youtube falando mal do filme. Realmente, Biônicos chama a atenção por ser extremamente bem feito. Mas por outro lado, o roteiro deixa a desejar. Vamulá.

O filme se passa num futuro próximo onde atletas amputados usam próteses biônicas que os deixam melhores que os atletas “normais”, a ponto de ter atletas que querem se amputar como uma espécie de “doping tecnológico”. Mas algumas coisas não fazem muito sentido, tipo um amputado tem direito a próteses, mas é acusado criminalmente se for responsável pela própria amputação. E isso acaba gerando uma das coisas mais forçadas do filme: a protagonista quer uma perna biônica, então ela força um acidente onde ela está de moto e um carro bate violentamente nela. Caramba! Como é que alguém vai conseguir controlar um acidente desses pra ser só um ferimento na perna? Ela podia ter morrido!

Agora, pra mim, o pior do roteiro é a personagem Maria, justamente a protagonista. Ela é antipática e invejosa. Sua irmã mais nova era uma atleta pcd, e sempre chegava em segundo lugar quando as duas competiam – por motivos óbvios. Quando surgiram as próteses biônicas, a irmã mais nova passou a chegar em primeiro lugar, e a protagonista nunca aceitou isso. E, pra piorar, a irmã mais nova é simpática e está sempre tratando bem a irmã. Acho que escolheram a protagonista errada.

O roteiro ainda tem mais alguns problemas aqui e ali, tipo um vilão caricato que tem atitudes sem sentido (além de um envolvimento romântico muito forçado com a protagonista), ou provas paralímpicas que mais parecem um videogame. Mas são problemas comuns de filmes desse  estilo, nada muito grave.

Agora, o visual é digno de ser um marco do cinema nacional. Não só toda a ambientação em um futuro meio cyberpunk, com figurinos e props que parecem coerentes com a proposta do filme (ficção científica nacional a gente pensa em figurinos com cara de Castelo Rá Tim Bum), como o cgi das próteses biônicas é muito bom! Essa parte ficou realmente muito bem feita!

(Só reclamo do cgi de um personagem que aparece na cena final, que parece uma cópia tosca do Ciborgue da Liga da Justiça. Aquele ficou com cara de novela do SBT.)

Além disso, tem algumas cenas muito boas. Lembro pouco de 2 Coelhos (não sei onde posso revê-lo, e não tenho o dvd!), mas lembro que tinha uma câmera lenta muito bem executada. Em tempos de Rebel Moon com câmera lenta mal aproveitada, Poyart mostra que ainda sabe usar o efeito. Tem uma cena onde chutam uma mesa que é daquelas pra guardar a cena e rever de vez em quando!

Tive um problema com o final. Como é na conclusão do filme, vou colocar avisos de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Na parte final aparece o grande vilão, interpretado por Miguel Falabella. Aí, na cena final, pelo que heu entendi, os irmãos se unem ao vilão. Péra, no fim do filme eles viram “do mal”? Heu entendi direito???

FIM DOS SPOILERS!

Mesmo com os problemas, gostei de ver uma ficção científica brasileira tecnicamente bem feita. Só espero que em uma próxima vez caprichem um pouco mais no roteiro.

Grande Sertão

Crítica – Grande Sertão

Sinopse (imdb): Em uma grande comunidade da periferia brasileira chamada “Grande Sertão”, onde uma luta entre policiais e bandidos assume ares de guerra, Riobaldo entra para o crime por amor a Diadorim, mas nunca tem a coragem de revelar sua paixão.

Heu sempre gosto de defender o cinema nacional. Mas às vezes isso é uma tarefa difícil.

Grande Sertão tem seus méritos, mas tem dois problemas bem complicados. O primeiro é que adaptaram o visual da história e trouxeram para os dias de hoje, mas o texto continua fiel ao original de Guimarães Rosa. Ou seja, os diálogos são rebuscados, parecendo um teatro. Pior, um teatro amador. Todos os diálogos são extremamente artificiais. Entendo a opção da produção de querer usar o texto original, mas, pelo menos pra mim, não funcionou.

(Me lembrei do Romeu + Julieta, de 1995, dirigido por Baz Luhrmann e estrelado por Leonardo DiCaprio e Claire Danes. Era um filme com visual contemporâneo mas com os diálogos em inglês shakespeariano. Mas, talvez por inglês não ser a minha língua nativa, não me lembro de ter ficado tão incomodado com aquela versão.)

E esse problema tem um agravante. Além das cenas normais, o filme tem uma narração, feita por Riobaldo, o personagem principal, mais velho (ele está de barba e cabelos grandes, com um visual diferente do resto do filme). Riobaldo faz uma narração que parece um monólogo teatral. Na minha humilde opinião, todas as cenas com a narração do Riobaldo poderiam ser cortadas do filme. Ficou artificial e arrastado, e ainda reforçou o ar de peça de teatro mal adaptada.

O outro problema é na caracterização do personagem Diadorim. Na história original, Diadorim nasceu mulher, mas se porta como homem para fazer parte do bando de Joca Ramiro (spoiler!). O problema é que Diadorim, interpretado por Luisa Arraes, se porta como mulher, se veste como mulher, tem um corte de cabelo feminino, em nenhum momento se parece com um homem. Diadorim parece um personagem da Michelle Rodriguez, ou da Ronda Rousey, ou da Gina Carano, ou da Ruby Rose, mulheres “porradeiras”, mas mesmo assim, mulheres.

Houve uma adaptação feita pela Globo em 1985 onde Bruna Lombardi interpretou Diadorim. Não vi ou não me lembro de ter visto, mas amigos críticos disseram que Bruna conseguiu criar um personagem que enganava. Aqui, Luisa Arraes não engana ninguém!

E assim como o outro problema, este também tem um “segundo degrau”. Sec XXI, 2024, fica estranho uma história que se passa nos dias de hoje com um protagonista assumidamente homofóbico. Se fosse uma história de época, dois jagunços, no meio do sertão, décadas atrás, era mais fácil de aceitar. Mas hoje, numa cidade grande? Ver uma mulher masculinizada trabalhando no meio de homens não espanta mais ninguém. Já que adaptaram o visual, trazendo do sertão pra uma favela, podiam ter adaptado o dilema moral de Diadorim.

Pena, porque tecnicamente falando, Grande Sertão é muito bem feito. A direção é de Guel Arraes, que tem um grande currículo, não só na TV (o cara estava em Armação Ilimitada e TV Pirata, nos anos 80!), como também no cinema (Arraes dirigiu O Auto da Compadecida, de 2000, um dos filmes nacionais mais populares de todos os tempos). Grande Sertão tem algumas cenas muito bem filmadas. Tem duas sequências, não sei se foram planos sequência, mas são planos longos, uma com Diadorim num corredor enfrentando vários policiais em movimentos que parecem um balé, na outra a câmera passeia entre Riobaldo, Diadorim e Zé Bebelo no meio de um grande tiroteio. Algumas das cenas de briga e de tiros também funcionam bem, o cinema nacional costuma ser deficiente nesse aspecto, e Grande Sertão não decepciona. O elenco também é bom: Caio Blat, Luisa Arraes, Rodrigo Lombardi, Luis Miranda, Eduardo Sterblitch, Luellem de Castro.

Pena, a boa parte técnica e o bom elenco não foram o suficiente, pelo menos pra mim. Porque os diálogos rebuscados e as atuações caricatas me tiravam da experiência cinematográfica, e Diadorim não engana ninguém. Grande decepção.

Meu Sangue Ferve Por Você

Crítica – Meu Sangue Ferve Por Você

Sinopse (imdb): Em 1979, Magal, um dos artistas mais populares do Brasil, conhece a deslumbrante Magali e se apaixona. Para conquistá-la, ele precisará vencer a resistência do empresário, além da desconfiança da família, dos amigos e da própria amada.

Antes de tudo, preciso falar que não curto as músicas do Sidney Magal. Nada contra, mas não é o meu estilo. Só conheço duas, uma delas conheço porque toco numa banda de karaokê; a outra só conheço o refrão. Mas, nada contra ver um filme sobre o cara.

Dirigido por Paulo Machline, Meu Sangue Ferve Por Você tem duas coisas que o tiram do lugar comum. Uma delas é um formato que é um musical, mas ao mesmo tempo não é um musical. Explico: não é um musical clássico daqueles que o roteiro usa diálogos cantados. Mas por outro lado, o filme tem vários números musicais com coreografias, usando as músicas do Sidney Magal. Ou seja, tem elementos de um musical, mas não é exatamente um.

A outra coisa é que não é uma “biografia do Sidney Magal”. Antes de começar o filme, aparece na tela que esta e uma “fabula magalesca”. Ou seja, o filme não tem nenhuma obrigação de ser fiel à realidade. Sabe quando vemos uma cinebiografia e ficamos na dúvida se aquilo realmente aconteceu? Bem, aqui, aquilo não necessariamente aconteceu, o filme já avisa logo de cara.

Digo mais: o filme não fala sobre a carreira do Sidney Magal, e sim sobre o relacionamento do casal Magal e Magali (que segundo o texto pós filme, realmente se conheceram em 1979, se casaram e estão juntos até hoje). Não sabemos como foi o início da carreira de Magal, e qual foi sua trajetória até o sucesso. O filme só mostra o recorte de como o casal se conheceu e ficou junto.

No elenco, Filipe Bragança manda bem como Sidney Magal. Li na wikipedia que ele é mais conhecido por ter feito Chiquititas, mas me lembro dele em Dom. Giovana Cordeiro faz a Magali (que, se bobear, tem mais tempo de tela que o próprio Magal). Também no elenco, Caco Ciocler, Emanuelle Araújo e Sidney Santiago.

Por fim, tem uma cena no meio dos créditos, onde a Emanuelle Araújo, que interpreta a mãe da Magali, canta “Meu Sangue Ferve por Você” em versão piano e voz. Ok, mas… Pra que essa cena? Ela não se conecta com nada no filme! O que ficou parecendo é que, como Emanuelle é cantora, quiseram colocá-la pra cantar uma música, mas não combinava com a personagem, então improvisaram algo pros créditos. Não ficou ruim, mas ficou esquisito.

Aumenta que É Rock’n’roll

Crítica – Aumenta que É Rock’n’roll

Sinopse (imdb): O filme acompanha a história da Rádio Fluminense, primeira rádio rock’n’roll FM do Brasil no início dos anos 1980. Criada por Luis Antonio Mello, a rádio fez história e conquistou muitos ouvintes desde sua criação em 1982.

Vamos a mais um dos filmes da minha lista de expectativas pra 2024!

Antes, uma contextualização pra galera mais nova: a rádio Fluminense foi muito importante para o rock nacional dos anos 80. Era a única rádio rock do Rio de Janeiro, e várias bandas mandavam fitas demo pra lá, antes de terem discos lançados por gravadoras. Bandas então iniciantes, mas que virariam nomes gigantes, como Paralamas do Sucesso e Legião Urbana. A rádio sempre foi alternativa, sempre foi “pequena”, mas foi fundamental para o início daquele que foi um dos maiores movimentos da música brasileira.

Dirigido por Tomas Portella (Isolados, Operações Especiais), Aumenta que é Rock’n’roll conta a história da rádio Fluminense, também chamada de “Maldita”, uma pequena rádio de Niterói que foi muito importante para o rock brasileiro dos anos 80. O filme e baseado no livro “A Onda Maldita”, escrito por Luis Antonio Mello – li o livro na época da faculdade, anos 90, mas não me lembro de quase nada.

Aumenta que é Rock’n’roll é quase uma cinebiografia de Luis Antonio Mello, o criador da rádio. Depois de um prólogo meio desnecessário mostrando o protagonista adolescente, o filme pula pra 1982, época que Luis Antonio criou o projeto de uma rádio com uma proposta diferente e acabou ganhando carta branca em uma antiga rádio caindo aos pedaços. O filme segue até o Rock in Rio, em janeiro de 1985.

Aparecem algumas “participações especiais”. Tem uma cena onde vemos o Cazuza – ele não fala o nome, mas fica claro. Evandro Mesquita é um vulto, de longe, mas reconhecemos a voz (desconfio que a voz seja do próprio Evandro). E temos atores interpretando os Paralamas do Sucesso e a Legião Urbana. Só não entendi por que não citam o Celso Blues Boy, já que sua música aparece duas vezes e dá título ao filme.

Aumenta que é Rock’n’roll é leve e divertido, e tem algumas sequências muito boas, como a promoção das formigas (que realmente aconteceu). A relação entre os dois personagens principais, interpretados por Johnny Massaro e Marina Provenzzano, também é bem construída, assim como a boa reconstituição de época. A trilha sonora, tanto nacional quanto internacional, também é boa. Mas… Quero fazer dois mimimis. Entendo a opção da produção do filme, mas preciso deixar o meu mimimi registrado.

O primeiro é sobre várias liberdades históricas tomadas ao longo do filme, como por exemplo mostrar que já tinha uma fita demo da Legião Urbana na gaveta no dia que ouviram pela primeira vez Você Não Soube me Amar, da Blitz (música que foi lançada num compacto em julho de 1982, enquanto a Legião Urbana começou em agosto); ou a inclusão, na trilha sonora, de músicas lançadas depois do período histórico retratado no filme (como Homem Primata, dos Titãs, que foi lançada em 1986, ou Que que País é Esse, da Legião, lançada em 87, ou uma breve aparição da Plebe Rude, que só lançou disco em 86). Mas, entendo a opção de colocar músicas famosas na trilha, o resultado, apesar de incorreto, ficou empolgante.

(Ainda tem os shows do Rock in Rio na ordem errada. A Blitz não tocou antes do Barão Vermelho em nenhum dos dias!)

O segundo mimimi é mais mimimi que o primeiro, mas esse não perdoo. Vemos a Legião Urbana tocando em um show. Por duas vezes a câmera dá um close no baterista e o que ele está fazendo é completamente diferente do que estamos ouvindo! Entendo alterar algumas datas para o filme fluir melhor, mas, músico tocando fora de sincronia é mais difícil de aceitar.

Mimimis à parte, gostei muito do resultado final. A gente sai do cinema empolgado! Ouvi uma pessoa dizendo que “a gente sai do cinema com vontade de ouvir rock”. Mas, ué, todos os dias tenho vontade de ouvir rock…

Jorge da Capadócia

Crítica – Jorge da Capadócia

Sinopse (Paris Filmes): Em 303 D. C., após ter vencido mais uma grande batalha, Jorge é condecorado como novo capitão do exército, quando o Imperador Diocleciano inicia sua última grande perseguição aos cristãos no império romano. Diante das cruéis ordenações impostas ao povo e a pressão para que se rendam aos deuses cultuados no império, Jorge, um homem acima de tudo, agora se vê diante de seu maior desafio ser fiel à sua fé e as suas convicções ou sucumbir às ordens do imperador Diocleciano.

E vamos para mais um filme nacional de gênero! Um épico bíblico contando a história de Jorge, soldado romano que se insurgiu contra o imperador, e que depois virou um dos santos mais populares – pelo menos aqui no Rio, onde vemos estátuas de São Jorge num cavalo derrotando um dragão em vários lugares.

Pena que, desta vez, infelizmente, a qualidade deixa a desejar.

Jorge da Capadócia foi produzido, dirigido e estrelado por Alexandre Machafer. Na parte da produção, Machafer mandou bem, Jorge da Capadócia tem figurinos bem cuidados e foi filmado em locações na Turquia (onde fica a Capadócia), e ainda tem um imponente dragão em cgi. Mas, as atuações são péssimas!

Nenhum dos atores parece estar atuando. Todos estão declamando textos, passa a impressão de que estamos vendo um teatro de escola. Essas atuações robóticas não me deixaram “entrar” no filme. A princípio achei que poderiam ser atores ruins, mas, como todo o elenco age assim, acredito que foi uma escolha da direção de atores. Na minha humilde opinião, uma escolha errada.

Além disso, rolam alguns defeitos técnicos meio feios. Só pra dar um exemplo: em uma das cenas onde Jorge está sendo torturado, quando mostra seu rosto, a imagem sai de foco e logo volta. Isso é comum em câmeras de foco automático, o foco sai e volta. Em primeiro lugar, uma produção destas não deveria usar foco automático. Mas, se saiu do foco, deveriam refazer a cena. Mas, vamos dizer que não dava pra refilmar, ora, era só consertar na edição: corta o trecho antes da perda do foco, como a tortura tinha acabado, ele poderia “voltar ao foco”.

Sobre o dragão, não é um cgi perfeito, parece um dragão de temporadas antigas de Game Of Thrones. Me parece que esse cgi vai vencer muito em breve. Mas, isso não me incomodou, visualmente, o dragão serve para o seu propósito. O que me incomodou foi outra coisa, mas talvez seja spoiler.

SPOILERS!

Não sou religioso, não conheço detalhes sobre a lenda de São Jorge. O que entendi pelo filme é que o dragão simboliza o Império Romano. Jorge se insurgiu contra o Império, e o dragão mostraria sua luta desigual. Mas, no fim do filme, Jorge se rende e morre. O Império Romano vence. Ora, se o dragão simboliza o Império, na verdade ele deveria ser derrotado por ele…

FIM DOS SPOILERS!

Mesmo com os problemas, mantenho o que sempre digo aqui: o cinema nacional precisa de filmes assim para se desenvolver. Que venham outros! E, de preferência, melhor atuados!

Uma Família Feliz

Crítica – Uma família feliz

Sinopse (imdb): Em um condomínio fechado no Rio de Janeiro, uma mãe é duramente acusada de machucar as filhas gêmeas e o bebê recém-nascido. No entanto, a verdade por trás das cercas pode revelar uma crueldade inesperada.

Olha que legal, semana passada falei de Evidências do Amor, uma comédia romântica nacional. E hoje é dia de falar de Uma Família Feliz, um suspense nacional. Dois filmes nacionais de gênero!

Escrito por Rafael Montes (Bom Dia Verônica) e dirigido por José Eduardo Belmonte (Carcereiros), Uma Família Feliz começa muito bem, somos jogados no meio de uma sequência tensa, onde não entendemos o que está acontecendo, e depois a linha temporal volta e a história realmente começa.

Conhecemos o casal Vicente e Eva. Vicente tem duas filhas do primeiro casamento, e Eva está grávida. Ricos e bonitos, aparentemente é a perfeita “família de comercial de margarina”. Mas, pouco depois, as crianças e o bebê começam a aparecer com machucados, e não sabemos quem é o responsável por isso. Eva está passando por depressão pós parto, e claro que todos começam a desconfiar dela.

Tem um detalhe que ajuda o clima a ficar esquisito: Eva trabalha fazendo bonecas realistas. São umas bonecas assustadoras!

Uma coisa curiosa e bem atual é que Eva é “julgada e condenada” pelos amigos e vizinhos, e sofre uma espécie de “cancelamento”, mesmo sem a gente saber se ela é culpada ou não.

Tecnicamente falando, o filme é muito bem feito. Os dois atores principais, Reynaldo Gianecchini e Grazi Massafera, estão muito bem – principalmente Grazi, que tem mais tempo de tela. O clima de suspense é bem construído. Mas… Achei o filme longo demais. Tem uma hora que cansa. Ok, já entendemos, podemos seguir em frente?

Não vou entrar em spoilers, mas não gostei do final. A sequência é bem filmada, bem conduzida, mas não entendi a motivação do personagem para agir daquele jeito. Mesmo assim, ainda recomendo o filme. Sempre defendo filme de gênero nacional!

Evidências do Amor

Crítica – Evidências do Amor

Sinopse (imdb): Marco e Laura se conhecem em um karaokê e cantam juntos “Evidências”. Desde então, eles se apaixonam e formam um casal que parecia perfeito, até o destino ter outros planos.

Uma comédia nacional, baseada numa música sertaneja / brega, estrelada pela Sandy. E sim, é um dos melhores filmes que vi no cinema nas últimas semanas!

Vamos por partes. Primeiro queria falar da minha relação com a música Evidências. Vi na wikipedia que a música é de 1990, e fez muito sucesso em 90 e 91. Estranho, nessa época heu estava entrando na UFRJ, heu frequentava várias festas universitárias, heu deveria conhecer a música. Mas, não. Não tenhi nenhuma recordação de ter ouvido. Até que, já na década de 2010, minha banda Perdidos na Selva ia tocar num casamento, e os noivos pediram Evidências. Achei estranho, um show de rock nacional alguém pedir Chitãozinho e Xororó, mas achei que o casal poderia ter alguma história com a música. Fui estudar, a música é boa, tem acorde sus, diminuto, quinta aumentada, é uma música gostosa de tocar. No show, o salão inteiro perdeu a linha na hora da música. Fiquei impressionado, “como assim todos conhecem essa música que heu nunca tinha ouvido falar?”. É, heu estava realmente por fora.

Anos depois, entrei pra banda de karaokê da Érika Martins, o Chuveiro in Concert. E posso afirmar: temos um repertório com 70 músicas, e a única música que toquei em TODOS os shows é Evidências. E sempre a galera perde a linha. Não sei qual é o feitiço que existe nessa música, mas é real. Evidências altera o comportamento das pessoas!

Agora vamos ao filme. Mas, antes, queria repetir um parágrafo que escrevi no texto sobre O Sequestro do Voo 375, que se encaixa perfeitamente aqui: “o cinema nacional é composto, basicamente, de dois tipos de filme: a comédia besta com cara de Globo Filmes, e o filme hermético feito para passar em festivais. E heu não falo mal de nenhum dos dois tipos de filme. Porque a comédia é besta, mas muita gente curte e muita gente vai ao cinema por causa disso, e heu sempre defendi um filme que leva público para o cinema. Por outro lado, o filme hermético leva o cinema nacional para festivais importantes como Cannes e Veneza. Defendo que existam esses tipos de filme. O que não defendo é que quase todos os filmes lançados no circuito sejam desses dois tipos. Heu acho que a gente deveria ter vários estilos de filmes, como ação, terror, suspense, ficção científica, aventura…”

Sim, Evidências do Amor é comédia. Mas não é “comédia de bordão”, não tem cara de Globo Filmes. Parece mais uma cópia das comédias românticas hollywoodianas. Sim, não é original, mas é diferente do “de sempre”. Então, acho que podemos classificá-lo como “filme de gênero”.

A proposta lembra Eduardo e Mônica, outra comédia romântica brasileira baseada em uma música muito popular. Ambos são muito muito bons, mas são filmes com propostas bem diferentes, Eduardo e Mônica se baseia mais na letra da música, Evidências do Amor usa a música apenas como pano de fundo.

Dirigido por Pedro Antônio (que já dirigiu outras comédias que heu, por preconceito, escolhi não ver), Evidências do Amor traz uma história engraçada e emocionante sobre um casal que se conheceu cantando Evidências num karaokê, mas se separaram às vésperas do casamento. Um ano depois, toda vez que ele ouve a música, ele tem um apagão e é levado para uma lembrança ruim do relacionamento.

A edição é muito boa. Heu vi no relógio: a introdução do filme tem 11 minutos, e nesses 11 minutos conta um resumo de toda a história do casal, desde o momento que se conheceram até a traumática separação, e ainda tem várias versões da música Evidências ao fundo. E aproveito pra elogiar a edição musical: são muitas versões da música, e todas soam bem no filme!

O elenco está bem. Fabio Porchat é um cara muito engraçado, às vezes ele exagera um pouco, mas aqui os exageros dele cabem no personagem. Já a Sandy não é engraçada, e às vezes me parecia que o casal não tinha muita química, não sei o quanto disso é porque a gente tem uma certa dificuldade em separá-la do seu passado – não tem como vê-la em tela e não lembrar de “Sandy & Jr”. Mesmo assim, funciona pro que o filme pede. No elenco secundário, preciso citar a Evelyn Castro, que protagoniza algumas cenas hilárias ao lado do Fábio Porchat (apesar de até agora heu não ter entendido muito bem a amizade dela com o personagem do Fábio, se ela é a zeladora do prédio, se é a síndica, se é a dona, sei lá).

Evidências do Amor não é um grande filme, não vai ganhar prêmios. Mas, na minha humilde opinião, é o que o cinema nacional precisa: filme de gênero de qualidade. Porque, assim como aconteceu ano passado com O Sequestro do Voo 375, o espectador que entrar num multiplex no fim de semana para ver o filme, vai sair feliz e satisfeito com o que viu. Viva o cinema nacional de gênero!

Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo

Crítica – Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo

Sinopse (imdb): Quando Mônica, Cebola, Magali, Cascão e Milena descobrem que o Museu do Limoeiro será leiloado, decidem se unir para salvá-lo. Enquanto investigam o que está acontecendo, eles se deparam com segredos assustadores do bairro do Limoeiro.

E vamos pra primeira grande decepção do ano…

A recente adaptação cinematográfica da Turma da Mônica dirigida por Daniel Rezende é muito boa, com os filmes Turma da Mônica Laços (2019) e Turma da Mônica Lições  (2021), e a série de 2022. Foi um feliz caso onde tudo dá certo, a escolha do elenco foi excelente e os roteiros são envolventes. Tudo funciona redondinho!

Ok, entendo que a produção deste Turma da Mônica Jovem não tem nada a ver com a outra produção (assim como acontece nos gibis). Mas como a qualidade daquele foi tão boa, claro que gerou expectativas!

E Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo é tão fraco…

Se no anterior tudo deu certo, parece que aqui tudo deu errado. Começo pelo roteiro preguiçoso. Vou dar um exemplo só. Determinada cena a Mônica e a Magali estão vasculhando um baú, e chega a tia da Magali e diz que elas terão que fazer um ritual de feitiçaria (ou algo parecido). Corta, vemos a Mônica sozinha fazendo o ritual. Ué, a tia não deveria estar por perto pra auxiliar no ritual? Mas, calma que piora. Algumas cenas depois a Mônica está com o mesmo livro, e a tia da Magali diz “você não pode pegar esse livro sozinha!” Ué?

A edição também tem falhas. Não só algumas cenas parecem desconexas, como tive a impressão de ter cenas de dia e de noite na mesma sequência. E os efeitos especiais me lembraram Shark Boy e Lava Girl. E, em 2024, não é uma boa referência você lembrar de Shark Boy e Lava Girl.

As atuações não são boas. E ainda pioram com a inevitável comparação: os quatro principais da outra versão da Turma da Mônica atuam melhor e, principalmente, são muito mais carismáticos. Naquela versão, acaba o filme e quero ver mais da turminha. Nesta versão, que eles fiquem presos no espelho, ninguém se importa!

Se o desenvolvimento do filme já estava mal, quando chega na parte final tudo piora. Várias coisas não fazem o menor sentido na conclusão, a ponto de, na cena chave onde as pessoas são salvas, aparece um personagem que ainda não tinha aparecido antes! E, pra piorar, o filme acaba com um gancho desnecessário. E ainda tem uma cena pós créditos péssima.

Depois da sessão, conversei com alguns críticos, alguém disse que o filme podia fazer que nem Scott Pillgrim e usar elementos de mangá – como acontece nas HQs. Podia ser uma saída. Mas, do jeito que ficou, parece uma produção pobre feita pra TV.

Ouvi algumas pessoas comentando como se fosse negativo o fato de Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo flertar com terror e ao mesmo tempo ser direcionado ao público infantojuvenil. Mas não vejo problemas nisso, a gente tem alguns filmes pra garotada que fazem isso e funcionam. O problema aqui é que o filme, infelizmente, é ruim.

Torço muito pra sair o filme do Chico Bento. Feito pela mesma galera da outra Turma da Mônica. E não faço questão da continuação deste Turma da Mônica Jovem: Reflexos do Medo.

O Sequestro do Voo 375

Crítica – O Sequestro do Voo 375

Sinopse (imdb): Um tratorista desempregado sequestra o voo 375 da VASP e ordena ao comandante Murilo que derrube o avião no Palácio do Planalto para matar o presidente – que ele considera culpado pela devastadora crise econômica do país.

Heu sempre defendi que a gente precisa ter mais filmes de gênero feitos no Brasil. E a notícia é boa quando a gente vê um filme de gênero nacional sendo lançado no circuito, e é melhor ainda quando o filme é bom.

Antes de entrar no filme, heu queria falar um pouquinho sobre cinema nacional, que é composto, basicamente, de dois tipos de filme: a comédia besta com cara de Globo Filmes, e o filme hermético feito para passar em festivais. E heu não falo mal de nenhum dos dois tipos de filme. Porque a comédia é besta, mas muita gente curte e muita gente vai ao cinema por causa disso, e heu sempre defendi um filme que leva público para o cinema. Por outro lado, o filme hermético leva o cinema nacional para festivais importantes como Cannes e Veneza. Defendo que existam esses tipos de filme. O que não defendo é que quase todos os filmes lançados no circuito sejam desses dois tipos. Heu acho que a gente deveria ter vários estilos de filmes, como ação, terror, suspense, ficção científica, aventura…

Por isso fico feliz quando eu vejo um filme como O Sequestro do Voo 375, que não tem cara de nenhum dos dois tipos citados, e é um filme que pode levar público para o cinema, e vai agradar o “espectador de multiplex”.

A história é muito boa. Em setembro de 1988, o Brasil passava por uma crise econômica muito severa e um cara, desesperado, resolveu sequestrar um avião e levá-lo até Brasília com o objetivo de jogar o avião em cima do Palácio Planalto para matar o presidente Sarney. Nessa época não existia raio X em voos domésticos, por isso o cara conseguiu embarcar com uma arma.

Por uma sorte minha, heu não lembrava de quase nada da história real – quem conhece a história, na verdade, está tomando um spoiler. Se você não se lembra, vai ter uma experiência melhor vendo o filme.

A princípio achei que não tinha história suficiente pra sustentar um longa metragem (o filme tem aproximadamente uma hora e quarenta, não sei exatamente qual é a duração e não achei nem no imdb, nem no filmeb, nem na wikipedia). Achei que o filme podia ficar chato no meio do caminho. Mas não, o diretor Marcus Baldini consegue segurar a tensão do espectador durante o filme inteiro, e a parte final é alucinante.

Heu preciso elogiar a reconstituição de época. O filme se passa em 1988 – ok não faz muito tempo, mas a gente vê várias roupas, penteados e apetrechos que não são mais comuns nos dias de hoje. Além disso, o avião da Vasp é quase um personagem, e a gente tem que lembrar que a Vasp é uma companhia que fechou há décadas. Segundo li em algum lugar, conseguiram um avião da Vasp cedido por um colecionador.

Um parágrafo para falar dos efeitos especiais. Por um lado os efeitos especiais são muito bons, vemos várias cenas aéreas com o avião da Vasp, além de várias cenas aéreas com o avião da Vasp acompanhado de um caça da Força Aérea Brasileira. Todas essas imagens aéreas são bem feitas, não sei se é computação gráfica, não sei se é algum modelo, não sei se pegaram um avião real e pintaram. Não sei qual foi o efeito, mas reconheço que essa parte ficou realmente muito boa. Por outro lado, na parte que o avião vai pousar, a sensação que deu é que acabou o dinheiro dos efeitos especiais e tiveram que contratar um estagiário qualquer. Os efeitos especiais do avião pousando sao um CGI muito vagabundo!

No elenco, nenhum grande nome. Danilo Grangheia está bem como o piloto. Já Jorge Paz às vezes é um pouco exagerado como o sequestrador, mas nada grave (a gente tem que lembrar que era uma pessoa fora do seu normal). Agora, achei estranha uma decisão da produção. No fim do filme, vemos imagens das pessoas reais, e todos os atores são bem diferentes. Não entendi por que não tentaram uma caracterização mais próxima da realidade.

O Sequestro do Voo 375 estreia no circuito dia 7 de dezembro.