A sessão de cinema mais louca da minha vida

A sessão de cinema mais louca da minha vida

Para comemorar o marco de mil inscritos, fiz uma enquete para saber qual seria o tema do vídeo. O tema que ganhou foi falar de algo pessoal em vez de uma análise de filme. Como este é um canal onde falo de cinema, que tal uma história que envolva cinema?

Vamulá. Já contei aqui sobre o Festival do Rio, que é um festival de cinema que acontece todos os anos, onde temos centenas de filmes ao longo de duas semanas. Mas, o que acontecia antes de existir o Festival do Rio? Vamos voltar um pouco na história.

Existia o FestRio. A última edição foi em 1987, heu tinha 16 anos, não acompanhei muito o FestRio – aliás, lembro de uma história que rolou nos corredores do Estação Botafogo, que não sei se foi verdade ou não, que o FestRio iria pra uma cidade do Nordeste, acho que Recife ou Fortaleza, o que não fazia o menor sentido. Com o fim do FestRio, o Estação Botafogo, que aquela época já ocupava um papel de protagonismo no cinema alternativo carioca, criou um festival nos mesmos moldes, a Mostra Banco Nacional, que durou de 1988 até 1998 (a partir de 99, a Mostra se juntou ao Rio Cine e virou o Festival do Rio que existe até hoje).

Assim como o Festival do Rio, a Mostra Banco Nacional era dividida em mostras temáticas. E na edição de 1994 teve uma mostra de filmes trash. E ainda teve o Roger Corman de convidado!

O Estação Botafogo tem 3 salas. A sala 1 é um cinema de tamanho “normal”, são 249 lugares. As outras duas salas são bem menores, 32 lugares na sala 2 e 66 na sala 3. A mostra trash era na sala 3, e, não me lembro por que, tinha ingressos mais baratos que o resto do festival. E heu ainda pagava meia entrada, heu era estudante da UFRJ na época!

Então, vamos ao dia onde passei 13 horas vendo filmes. Ok, não foram 13 horas direto, como o cinema era ao lado da minha casa, quando tinha um intervalo de 10 ou 15 minutos entre uma sessão e outra, dava pra dar um pulinho em casa. Sendo assim, me planejei pra ficar boa parte do dia no cinema.

O primeiro filme não era trash, era um filme da programação “normal”: Xeque Mate. Não me lembro absolutamente de nada deste filme, só me lembro que quis ver porque era o novo filme do Jim McBride, que tinha feito A Fera do Rock alguns anos antes, e também porque o horário era compatível com a maratona trash que viria a seguir.

Não me lembro exatamente quais eram os filmes depois. Achei pelo google uma lista da versão paulista da mostra, e não tenho certeza de quais eram os filmes que vi. Lembro de um Sinthia, a Boneca do Diabo, porque estava com um amigo e a gente tinha uma amiga chamada Cintia. E lembro que logo antes deste Sinthia, vimos Roger Corman passando pelo corredor, em direção à sala 1. (Hoje acho que heu iria ver o filme na sala 1 com a presença do Corman…)

Mas um dos pontos altos do evento começaria logo depois de Sinthia. Sabe The Rocky Horror Picture Show, que a galera faz sessões interativas, onde os espectadores interagem com o que acontece no filme? Pois bem, o filme seguinte era Papai Noel Conquista os Marcianos, um filme bobo, com uma trama absurda, onde o rei de Marte captura o Papai Noel. Mas, a pequena sala 3 do Estação Botafogo estava lotada, e TODOS os espectadores entraram na pilha de fazer troça do filme. Foi uma sessão divertidíssima, parecia que era um grupo de amigos de muitos anos, revendo o mesmo filme de sempre – mas não, ninguém se conhecia, só entramos na mesma pilha de galhofa.

A sessão foi tão marcante que, depois do filme, a organização da Mostra veio nos falar que o cara que trouxe os filmes trash tinha ficado impressionado e que nos ofereceria uma sessão dupla, de graça, depois da última sessão naquele dia!

Ainda teve um filme na programação oficial, não me lembro qual. Pode ter sido Carne e Sedução, pode ter sido Juventude Revoltada, pode ter sido A Caveira – achei esses nomes naquela lista paralela paulista. Mas, sinceramente, não me lembro.

O filme seguinte era o primeiro dos dois extras. Era um filme “inédito”, A Gangue das Garotas, de 1954. A história que contaram pra gente no dia foi que fizeram esse filme como uma peça educativa para alertar sobre o uso de heroína, mas, justamente porque mostrava pessoas se drogando, o filme teria sido proibido. Anos se passaram, acharam uma cópia, e estávamos vendo o “lançamento” de um filme feito 40 anos antes.

Mas o segundo ponto alto do evento estava por vir. Durante a exibição de A Gangue das Garotas, o projetor começou a dar um defeito e agarrava o filme. Quando começou o segundo filme extra, 2000 Maníacos, o projetor estava agarrando e o som ficou inaudível. O som fazia um “uóóóuóóóuóóó” o tempo todo, e ninguém conseguia entender o que estava sendo dito.

Para qualquer plateia normal, isso seria uma má notícia e a sessão seria cancelada. Mas, boa parte da plateia de Papai Noel Conquista os Marcianos estava presente. E todos continuavam no mesmo clima de galhofa. Ou seja, o “uóóóuóóóuóóó” era motivo de risos na plateia. Digo mais: em determinado momento, o som voltou ao normal, e a sala inteira, quase em uníssono, soltou um “ahnnn…” de lamento… E, pouco depois, o “uóóóuóóóuóóó” voltou, e todos comemoraram batendo palmas!

Por volta de 02h da madrugada a sessão acabou. Nada mal pra quem tinha chegado no cinema às 13h.

Tár

Tár

Sinopse (imdb): Situado no mundo internacional da música clássica ocidental, o filme é centrado em Lydia Tár, amplamente considerada uma das maiores compositoras-regentes vivas e a primeira diretora musical de uma grande orquestra alemã.

Bora pra mais um filme da lista do Oscar!

Tár (idem, no original) é o novo filme escrito e dirigido Todd Field. É apenas seu terceiro filme como diretor, e, curiosamente, seus filmes anteriores são de muitos anos atrás (Pecados Íntimos, de 2006; Entre Quatro Paredes, de 2001). Mas, o cara deve ter alguma moral nos bastidores, já que Tár é um projeto ambicioso.

Tenho três destaques para citar. O primeiro é a atuação da Cate Blanchett. Ela aprendeu alemão e aprendeu a reger uma orquestra. E ela está realmente sensacional interpretando Lydia Tár, a maestrina super premiada, inteligente e arrogante. Ainda acho que o Oscar vai para Michelle Williams por Fabelmans, mas se for para Cate Blanchett, ninguém vai reclamar.

Também preciso falar da parte musical. No post sobre Missa da Meia Noite, comentei sobre música diegética e não diegética. A música diegética é quando os personagens estão ouvindo – por exemplo, quando alguém liga um rádio ou toca um instrumento. Toda a música diegética de Tár foi executada pelo elenco. Cate Blanchett realmente toca o piano e rege a orquestra. Sophie Kauer, que faz a violoncelista Olga, nunca tinha atuado, ela era uma violoncelista que aprendeu a atuar. Isso faz uma enorme diferença na tela!

Por fim, não escondo de ninguém que curto planos sequência. E tem um muito bom aqui. Nada tão mirabolante como Babilônia, que comentei semana passada, mas mesmo assim, impressionante. Se lá a proposta era um caos organizado, aqui o foco é o diálogo. Lydia Tár está numa aula e desafia um aluno, que não gosta de Bach porque ele era branco, hétero e com muitos filhos. A câmera vai e volta, os atores vão e vem, tocam piano, e é uma cena longa, pouco mais de dez minutos! Melhor cena do filme, de longe!

Dito tudo isso, preciso dizer que reconheço os méritos de Tár, mas acho um exagero tantas indicações ao Oscar. É um bom filme, mas, tirando a indicação da Cate Blanchett, na minha humilde opinião o filme não deveria ser indicado às outras cinco estatuetas: filme, direção, roteiro original, edição e cinematografia. Além disso, é longo demais, são mais de duas horas e meia, chega a cansar.

Vale pela Cate Blanchett!

Oferenda ao Demônio

Oferenda Ao Demônio

Sinopse (FilmeB): O filho do dono de uma funerária volta para casa com sua esposa grávida. Mas, eles nem imaginam que um mal antigo com planos sinistros está os esperando.

E vamos para mais um filme genérico de terror…

Dirigido pelo pouco conhecido Oliver Park, Oferenda ao Demônio (The Offering, no original) traz um terror baseado em mitologia judaica. Tivemos algo parecido naquele Possessão de 2012, estrelado pelo Jeffrey Dean Morgan e pela Kyra Sedwick. A ideia era boa, mas aqui não souberam desenvolver direito. Em vez de desenvolver a mitologia, o roteiro se apoia nos clichês de sempre, e ainda traz algumas coisas que não fazem o menor sentido.

Vou dar um exemplo simples. Às vezes parece que não revisaram o roteiro antes de filmar. O filme começa com o cara voltando para a casa do pai, depois de sei lá quantos anos fora. O pai trabalha preparando cadáveres para funerais. Aí na cena seguinte o cara tá lá preparando um cadáver ao lado do pai. Deve ser normal você preparar um cadáver no meio de uma visita social, quem nunca?

Parte do filme lembra A Autópsia de Jane Doe, onde existe um cadáver sendo preparado, e tem algo “diferente” com esse cadáver. Mas Oferenda ao Demônio sai do necrotério para brincar de jump scares pela casa…

Pra piorar, Oferenda ao Demônio é cheio de jump scares, mas não tem nenhum bem construído – todos são previsíveis. Pior é que alguns podiam ter funcionado, tipo um vulto que surge na chapeleira quando visto através da câmera fotográfica. A criatura em cgi também é bem tosca. Saudade dos filmes de terror com efeitos práticos. Pelo menos a ambientação na casa velha é boa

Vou fazer um elogio, assim como fiz no texto sobre A Profecia do Mal. Tem uma cena onde a personagem olha no espelho e tudo está normal, aí quando se vira todos estão parados, “brincando de estátua”. Ok, não faz o menor sentido, mas o visual ficou legal.

No fim, fica a mesma sensação que tive uma semana atrás com A Profecia do Mal: mais um filme genérico ganhando espaço no circuito, enquanto outros melhores não têm previsão de lançamento. Ok, vi que Pearl tem previsão de lançamento esta semana, mas cadê filmes como X ou Speak no Evil?

Babilônia

Crítica – Babilônia

Sinopse (imdb): Um conto de ambições exageradas e excessos escandalosos, o filme traça a ascensão e queda de múltiplos personagens durante uma era de desenfreada decadência e depravação no início de Hollywood.

Depois de Whiplash e La La Land, claro que fico de olho em cada novo filme do Damien Chazelle (apesar de não ter curtido muito O Primeiro Homem).

Babilônia (Babylon, no original) é um filme do jeito que heu gosto. Tecnicamente impressionante, traz como pano de fundo os bastidores de Hollywood, e ainda tem uma parte musical absurdamente bem trabalhada. Vamos por partes.

Logo no início do filme tem um exemplo do que mais gosto no cinema: um plano sequência que deve ter sido um caos pra filmar! Está rolando uma festa, com álcool, drogas, gente pelada passando, diálogos, tem até uma galinha! O espectador desavisado olha e deve pensar “ora era só o diretor dizer “pirem!” e sair andando com a câmera. Mas não, cada elemento é bem pensado e faz parte de uma complexa coreografia que envolve todos os que estão em cena e também a equipe que está atrás da câmera. Adaptando o meme da Internet, “é pra isso que heu pago o ingresso do cinema!”

Esta cena não é o único momento bem filmado. Todo o filme é cheio de detalhes, são várias sequências muito boas – como aquela onde a equipe está pela primeira vez filmando com som. Mas também preciso falar de outro plano sequência impressionante, quando vemos um estúdio da época do cinema mudo, com várias produções sendo filmadas uma ao lado da outra.

Porque isso me leva ao segundo ponto: bastidores de Hollywood. A gente vê um monte de filmes e séries que mostram sets de filmagem, mas aqui vemos sets da época do cinema mudo, o que não é algo muito comum. Nunca tinha me tocado desse detalhe: como não tinha som, você podia ter um set exatamente ao lado de outro.

O terceiro ponto é o som do filme. Babilônia não é um musical, como La La Land, mas tem muitos momentos envolvendo música. Em vários momentos a câmera está em movimento e se aproxima de um músico, e então ouvimos este instrumento mais alto do que a massa sonora. Além disso, a trilha sonora composta por Justin Hurwitz (o mesmo de La La Land) é muito boa!

Nem tudo é perfeito. Além do filme ser um pouco longo demais, tem duas coisas que achei desnecessárias. Uma é a cena logo no início que envolve fezes de elefante. O filme começou e pensei “caramba, se for nessa pegada, vai ser complicado”. Felizmente a escatologia é pouca.

A outra parte desnecessária é uma viagem com a história do cinema que vemos bem no finzinho, e que acho que deveria ser reduzida. Afinal, estamos nos anos 50 e vemos imagens de filmes como Matrix e Avatar. Na minha humilde opinião, ficaria mais lógico se parassem nos anos 50, não?

Ouvi críticas com relação à sequência perto do fim com a participação do Tobey Maguire. Ok, concordo que é uma sequência que se você tira, o filme não perde nada. Mas… Me diverti na sequência. E sim, é bizarra, mas, se a gente lembrar que o filme começa com fezes de elefante, essa sequência está longe de ser o mais bizarro que vemos na tela.

Sobre o elenco, curioso ler os nomes Brad Pitt e Margot Robbie e sair do filme impressionado com Diego Calva (quem?). Babilônia acompanha a história de quatro personagens, e como essas quatro histórias se misturam – ou seja, não tem um personagem exatamente central. E o Manny do quase desconhecido Diego Calva é o cara que acaba conduzindo o filme. Mas, mesmo assim, ainda podemos dizer que Brad Pitt e Margot Robbie estão excelentes nos seus papéis – um grande astro em decadência e uma aspirante a estrela que funciona no cinema mudo mas não se adapta ao cinema falado. O quarto personagem seria o trompetista vivido por Jovan Adepo (Fiquei na dúvida sobre a importância de outros coadjuvantes, como a repórter de fofocas interpretada por Jean Smart, ou a Lady Fay Zhu interpretada pela Li Jun Li. Mas acho que o trompetista tem um arco melhor desenvolvido). Ainda no elenco, Olivia Wilde, Lukas Haas, Patrick Fugit, Eric Roberts, Samara Weaving, Jeff Garlin, Flea e Katherine Waterston.

É longo? Sim, concordo. É exagerado? Sim, também concordo. Mas curti. Saí do cinema com vontade de rever!

Batem À Porta

Crítica – Batem À Porta

Sinopse (imdb): Durante as férias, uma garota e seus pais são feitos reféns por estranhos armados que exigem que a família faça uma escolha para evitar o apocalipse.

Filme novo do M. Night Shyamalan sempre entra no radar. Afinal, mesmo quando ele faz filmes ruins, dá pra gente aproveitar algo.

Antes do filme, um parágrafo sobre o diretor. Deve ser difícil ser o Shyamalan. Seu primeiro filme foi muito muito bom (Shyamalan chegou a concorrer a dois Oscars, de melhor direção e melhor roteiro), e a partir do segundo, foi ladeira abaixo até o oitavo. Depois disso, ele alterna bons títulos (Fragmentado) com outros nem tanto (Vidro). Mas parece que nunca mais vai alcançar o seu primeiro trabalho. Mesmo assim, defendo os seus filmes, até os ruins, porque Shyamalan sabe dirigir. Ele sabe como posicionar e como mover sua câmera. Mesmo um filme ruim como Dama na Água tem sequências muito boas.

E é justamente esse talento com a câmera o melhor do seu novo filme, Batem À Porta (Knock at the Cabin no original). A história é curta, poderia ser contada em um episódio de Twilight Zone, e mesmo assim Shyamalan consegue manter a tensão ao longo de uma hora e quarenta minutos.

Quase todo o filme se passa dentro de uma cabana, com os sete personagens centrais (temos alguns flashbacks para contextualizar os protagonistas, e também algumas cenas pela TV). E vemos como Shyamalan trabalha: a câmera passeia pelo cenário e entre os personagens. Coisa discreta e bem sacada.

Diferente de boa parte dos filmes do diretor, Batem À Porta não tem nenhum plot twist bombástico. O foco do filme é saber se aquilo tudo é real ou se estamos diante de fanáticos religiosos. Isso talvez decepcione alguns espectadores.

Nem tudo funciona. Um defeito comum nos filmes do Shyamalan é ter muita explicação. Um exemplo que acontece aqui: determinado momento um personagem fala sobre uma catástrofe bíblica. Aí acontece algo que não é exatamente o texto bíblico, mas se encaixa perfeitamente. E então o personagem repete o texto, como se o espectador fosse burro e não tivesse acabado de ver aquilo.

No elenco, Dave Bautista convence mais a cada novo filme. Se antes ele era apenas um brucutu, já conseguimos vê-lo em papéis mais complexos. O outro nome famoso do elenco, Rupert Grint (Harry Potter) passou a impressão de “meu cachê é caro, então não vou ficar o filme todo, ok?”. Ainda no elenco, Jonathan Groff, Ben Aldridge, Kristen Cui, Nikki Amuka-Bird e Abby Quinn.

Ah, curiosidade sobre o elenco: a atriz Abby Quinn tem o mesmo nome da personagem da Demi Moore em A Sétima Profecia. A atriz nasceu em 1996, o filme é de 1988, será que foi coincidência ou homenagem?

(Tem uma cena onde o personagem de Bautista “se esconde”. Impossível não lembrar do Drax ficando “invisível”!)

Por fim, uma piada ruim. Antes de começar a sessão de imprensa, tinha uma imagem N tela dizendo pra compartilhar a hashtag “batemaporta”. Só li “Batema” porta…

A História Sem Fim

Crítica – A História sem Fim

Sinopse (imdb): Uma criança com problemas mergulha em um maravilhoso mundo de fantasia através das páginas de um livro misterioso.

Depois de muito tempo resolvi rever A História sem Fim. Sabe quando um filme envelhece mal? Poizé.

A História sem Fim é a adaptação do livro homônimo escrito por Michael Ende (curioso que o sobrenome do autor significa “fim”). Não sei como é o livro, mas o filme investe na metalinguagem, o garoto lê um livro e dentro do livro acontece a outra história. É uma história dentro da outra, e em alguns momentos pontuais elas se misturam. Ah, o escritor não gostou do desenvolvimento da produção e pediu pra ter o nome retirado dos créditos.

Nem todos sabem, mas A História sem Fim é uma produção alemã – era na época a produção mais cara da história do cinema alemão. A direção é de Wolfgang Petersen, que aproveitou o sucesso do filme e fez carreira em Hollywood, dirigiu vários filmes como Inimigo Meu, Epidemia, Força Aérea Um, Mar em Fúria e Tróia.

Parte da premissa ainda funciona. A História sem Fim tem como vilão o “Nada”, que cresce quando as pessoas param de ler e perdem a criatividade. Ou seja, essa parte ainda funciona nos dias de hoje.

Por outro lado, algumas coisas no roteiro não fazem mais sentido. Tipo logo no início, vemos que Bastian sofre bullying de três garotos maiores. E tem um monte de adultos em volta, e ninguém faz nada? Sei lá, de repente na época as pessoas não davam bola pro bullying, e a gente hoje vê que evoluímos nesse aspecto.

Mas a parte que me deu mais raiva do roteiro foi o cavalo afundando no pântano. O roteiro é claro quando diz que quem está triste afunda. Na minha humilde opinião, um cavalo fica triste é algo meio estranho mas, ok, aceito. Ok, o cavalo ficou triste. E sabe quem mais ficou triste? O Atreyu! Ficou muito mais triste que o cavalo! E por que ele não afundou???

Teve uma parte do roteiro que achei ruim na hora, mas, depois, entendi a ideia. Uma parte importante do final é que Bastian precisa dar um nome para a imperatriz. E não conseguimos ouvir qual foi o nome que ele deu! Mas, isso foi proposital. Acho que era pra deixar aberto para diferentes interpretações dos espectadores.

Vou dividir os comentários sobre os efeitos especiais em duas partes. Existe toda uma ambientação, com cenários e maquiagens, que ficou completamente datada. O filme tem cara de Castelo Rá Tim Bum. Mas, isso não é exatamente um defeito do filme, é uma característica, os realizadores tinham a intenção de fazer algo com esse visual. E, vamulá, não é algo mal feito. Só é muito datado.

Já os voos do Falcor, dragão com cara de cachorro, ficaram péssimos. Aquele chroma key é muito tosco. Impressionante como a gente via aquilo e aceitava na boa. Ah, aquele lobo também ficou muito ruim.

Também tenho dois comentários sobre a trilha sonora. A música tema Neverending Story, cantada por Limahl, é uma música muito boa e fez um enorme sucesso – foi até um ponto importante no encerramento de uma temporada recente de Stranger Things. E além dessa música, a trilha conta com uma outra música instrumental, também muito boa, que aparece em alguns pontos chave do filme.

O único nome a ser citado no elenco é Barret Oliver, que faz o Bastian. A fama de A História sem Fim abriu portas para ele em outros filmes da época, como Daryl e Cocoon (ambos de 1985). Mas seu último filme foi em 1989. Noah Hathaway (Atreyu) estava no Battlestar Galactica de 1978, e tem alguns títulos no imdb, mas nada relevante – seu terceiro título mais importante é Troll O Mundo do Espanto. Tami Stronach, a imperatriz, só fez este filme e não seguiu com a carreira de atriz. Dentre os coadjuvantes, acho que o único que heu reconheci é Deep Roy, que estava em Peixe Grande e A Fantástica Fábrica de Chocolate.

Foi lançada uma continuação em 1990, dirigida por um George Miller homônimo do cara que fez Mad Max, mas esse nunca revi…

Gangs Of London – Segunda Temporada

Crítica – Gangs Of London – Segunda Temporada

Sinopse (Amazon Prime): Um ano após a morte de Sean Wallace, o mapa de Londres foi reescrito e existe uma nova e brutal força no poder. Mas com uma rebelião sendo fermentada, quem vai ganhar a batalha pela alma de Londres?

Heu achei que tinha falado ano passado sobre a primeira temporada de Gangs Of London, mas não achei nem aqui nem no youtube. Devo ter comentado alguma coisa no Podcrastinadores, mas certamente apaguei minhas anotações. Vou comentar a segunda temporada, mas antes aproveitarei pra falar um pouco sobre a primeira.

Gangs Of London e uma série violentíssima, criada por Matt Flannery e Gareth Evans (responsáveis pelos dois Operação Invasão). Na primeira temporada a gente acompanha uma família irlandesa que lidera gangues de várias etnias, como nigerianos, paquistaneses, libaneses e albaneses, no submundo do crime da Londres dos dias de hoje.

A segunda temporada traz um novo e perigoso personagem que quer tomar o posto de líder dos criminosos. E se você não viu, recomendo não ler muita coisa porque existem surpresas ao longo da temporada.

Uma coisa que senti falta foi de um “previously”. Começou a temporada sem nada pra resumir o que tinha sido exibido um ano atrás. Tive que rever o último episódio da primeira temporada antes de seguir com a segunda.

Gangs Of London tem dois pontos fortes. Um, o mais claro é a qualidade e quantidade de violência gráfica. Não me lembro de nenhuma outra série de TV tão violenta. Vou além: arriscaria dizer que não existe nada mais brutal do que o episódio 5 da primeira temporada, uma das peças mais violentas da história do audiovisual, um espetáculo de tiros, explosões e sangue. A segunda temporada não tem nenhum episódio dirigido pelo Gareth Evans (o responsável pelos momentos de maior violência gráfica), mas tem alguns momentos com bastante gore.

O outro ponto a ser citado é o xadrez de poder que vemos na série. Vemos jogadas ousadas, onde os personagens não têm problema em sacrificar peças do tabuleiro para alcançar o objetivo. E aqui não tem ninguém bonzinho, o protagonista Elliot está longe de ser um cara “do bem”.

Tenho um mimimi sobre o novo personagem, Koba. Ok, a gente vê que ele é mau muito mau, mas quando ele surge em cena, um cara magrelo com o cabelo oxigenado, a gente lembra do Rafael Portugal. E lembrar do Rafael Portugal não é nada amedrontador.

Queria fazer outro comentário sobre o elenco. No sexto episódio a gente vê a Lale lutando contra vários oponentes. Quero ver um filme de ação com a atriz Narges Rashidi!

Heu preferia que a história tivesse terminado aqui, mas o último episódio deixa um gancho para uma terceira temporada. Que mantenham a qualidade!

A Profecia do Mal

Crítica – A Profecia do Mal

Sinopse (imdb): Um culto rouba o Sudário de Turim para propósitos perversos.

Ok, reconheço que um filme com esse nome e esse cartaz não prometia ter muita qualidade. Mas, admito que gosto do tema, então fui ao cinema conferir.

O problema de A Profecia do Mal (The Devil Conspiracy, no original) é que tudo é tão bagunçado que nem sei por onde começar. Ok, começo com um filme de terror onde não existe absolutamente nada assustador.

Mas acho que o pior é o roteiro, que traz duas tramas diferentes e aparentemente desconexas. Temos um cientista louco que quer clonar grandes gênios da humanidade (ele mostra uma criança clone do Vivaldi), e que quer o santo sudário para clonar Jesus Cristo. Paralelo a isso, temos um culto de adoradores de Lúcifer. Nada contra um filme abordar dois plots diferentes, mas, devo ter cochilado e não entendi onde eles se conectam. Por que diabos um grupo de adoradores de Lúcifer ia querer Jesus de volta?

Só sei que em determinado momento apareceu um “boitatá”, e desisti de tentar entender a lógica do filme. Aquela cena da gaiola pendurada com os caras em volta e a cobrinha passeando pelas mulheres não faz o menor sentido. Ok, entendo que a cobra de fogo simbolizava Lúcifer, mas, caramba, pra mim, cobra de fogo é um boitatá!

Se a gente pensar sobre o plot, o filme vai dar um bug e vai travar. Porque eles precisavam de uma mulher para gerar o bebê que seria possuído. Por que não pegar uma voluntária dentro do culto? Precisava sequestrar mulheres aleatórias? Pega uma voluntária que vai concordar com essa loucura toda. Mas, não, vamos sequestrar mulheres que não querem, só pra complicar.

(Isso porque não estou falando de querer trazer Lúcifer dentro de um clone de Jesus. Deixa quieto.)

O elenco caricato não ajuda. A protagonista Alice Orr-Ewing é a única aceitável entre os quatro principais nomes. O padre possuído pelo arcanjo Miguel é péssimo! E os dois líderes da seita / clonadores de dna seguem a mesma linha.

Talvez se o filme se assumisse um trash, aí, talvez, ficasse divertido. Porque nem isso o filme é. Tinha que ser mais escrachado e abraçar o absurdo com vontade. Mas manteve o ar sisudo, o que só piora.

Ok, vou fazer um elogio. Tem uma cena onde o personagem vai ser atacado, aí a câmera acompanha e dá uma cambalhota junto com os personagens. Um único take “inventivo”. Acho que tá bom de elogio.

Enfim, este é mais um exemplo de como as distribuidoras no Brasil não estão fazendo um bom trabalho. Enquanto X, Pearl ou Speak No Evil ainda não têm distribuição aqui, A Profecia do Mal estreia hoje no circuito.

That ’90s Show

Crítica – That ’90s Show

Sinopse (imdb): Agora é 1995 e Leia Forman está visitando seus avós durante o verão, onde irá conhecer a nova geração de Point Place, Winsconsin. As crianças estarão sob o olhar atento de Kitty e severo de Red.

Sou muito fã da série That ’70s Show. Talvez seja a minha sitcom favorita. Claro que vou ficar empolgado com um revival!

That ’90s Show cai naquela classificação de “requel” que a gente viu no último Pânico: é um reboot, porque temos novos personagens em uma nova história, mas ao mesmo tempo é um “sequel”, porque temos personagens do anterior reprisando os seus papeis. A série traz a filha adolescente de Eric e Donna indo passar as férias de verão na casa dos avós. E assim abrem-se os portões pra inúmeras referências à série antiga!

E o resultado? Bem, algumas coisas funcionam, outras não. Heu admito que a nostalgia me pegou em cheio e reconheço que adorei, mas consigo ver algumas falhas. Vamos a elas.

Tenho minhas dúvidas se o “formato sitcom” funciona hoje. Depois da piada, o ator precisa dar um tempo para a claque reagir. Não me lembro quando foi a última vez que tinha visto um programa assim, com claque. Achei muito estranho revisitar o formato.

Mas acho que o principal problema é a falta de desenvolvimento dos personagens. That ’70s Show tinha seis personagens principais e a gente conhecia a personalidade e as características de cada um deles. Já em That ’90s Show, temos dois personagens “iguais” – o Jay e o Nate estão fazendo o papel do “novo Kelso” (isso porque não estou falando sobre as meninas Gwen e Nikki, que também são bem parecidas). Some-se a isso a falta de carisma. Me parece que queriam criar um “novo Fez” com o Ozzie, mas o Fez original do Wilmer Valderrama era muito melhor.

Além disso, tem outro problema: vemos poucas coisas com a cara dos anos 90. Não sei se por culpa do roteiro preguiçoso, ou se porque os anos 90 são menos caricatos que os anos 70. O fato é: a outra série tinha cara de algo passado nos anos 70, essa não tem cara de algo passado nos anos 90.

Dito tudo isso, adorei voltar a Point Place e ao porão dos Forman. Adorei cada referência, como o Vista Cruiser ou um Kelso gritando “BURN!”. Adorei rever as geniais cenas de “roda de maconha”; adorei ver piadas repetidas, como o nome do país do Fez. Reconheço todas as falhas, mas adorei toda a temporada. E, poxa, é curtinha, são dez episódios, o primeiro tem meia hora, os outros têm vinte minutos cada.

Sobre a volta dos atores da outra série: Kurtwood Smith (Red) e Debra Jo Rupp (Kitty) são personagens centrais, estão em todos os episódios. De participações especiais, temos cinco dos seis principais: Topher Grace (Eric), Ashton Kutcher (Kelso), Mila Kunis (Jackie), Laura Preppon (Donna) e Wilmer Valderrama (Fez). Também temos participações de Tommy Chong (Leo) e Don Stark (Bob) (Tanya Roberts, que fazia a mãe da Donna, deu declarações de que queria participar, mas infelizmente faleceu oito meses antes de anunciarem o revival). Tem mais uma participação especial ligada a Barrados no Baile, mas essa não vou dizer aqui.

Por fim, vou esclarecer duas dúvidas que tive durante a temporada, relativas a participações. Temos um personagem, Fenton, que seria um rival do Fez, mas não me lembro dele. Fui catar no imdb, nem o personagem existiu na série anterior, nem o ator participou. Não entendi a reação da claque quando aparece o personagem. A outra dúvida é: cadê o Hyde? Fiquei esperando até o último episódio pra ver se ele aparecia, e nada. Aí fui ver o imdb, o ator Danny Masterson está sendo julgado por casos de estupro! Por isso ele não foi convidado…

Adorei revisitar, mas não sei se a série tem fôlego para mais uma temporada. Aguardemos.

M3gan

Crítica – M3gan

Sinopse (imdb): Uma engenheira de robótica de uma empresa de brinquedos constrói uma boneca realista que começa a ganhar vida própria.

Novo filme de terror, com produção de James Wan e Jason Blum, trazendo uma boneca assassina. Podia dar certo. Mas não deu…

Vamulá. A ideia de uma Inteligência Artificial que se torna algo do mal não é exatamente novidade, mas podia gerar um bom filme. O problema aqui é que tudo está muito bagunçado. O filme originalmente seria censura “R”, mas a produção mudou de ideia e cortou várias cenas violentas pra virar um filme “PG13”. Ou seja, é um filme de terror onde temos poucas mortes e zero gore. Desconfio que M3gan seria bem melhor com essas cenas…

Digo mais: o design da boneca é legal. Mas ela não é assustadora. Como podemos ter um filme de terror onde o vilão não assusta?

Com pouco terror, M3gan entra no drama. Parte do filme tenta desenvolver o problema de pais que não têm muito tempo para se dedicar aos seus filhos, mas não achei o assunto muito bem desenvolvido. E não sei se foi por causa disso, mas a parte “terror” demora pra começar. A primeira morte só acontece depois da metade do filme.

O nome do James Wan está nos cartazes, e tem gente achando que o filme é dele. Mais ou menos, ele produziu e é um dos roteiristas. Mas a direção é do pouco conhecido Gerard Johnstone, que fez o cult neozelandês Housebound em 2014.

Curioso o nome do James Wan estar no roteiro, porque este é bem fraco. Você precisa de uma grande suspensão de descrença pra relevar vários problemas, como por exemplo um grande (e caro) lançamento de uma grande empresa estar nas mãos de uma equipe tão pequena, e que pretendem lançar o produto sem testar antes. Isso fora  alguns outros probleminhas…

O roteiro é cheio de furos. Um me incomodou bastante, que é quando vemos que um personagem está roubando os planos da boneca. Só que isso não leva a nada! Pra que somos apresentados a um sub plot que não vai ser desenvolvido?

Algumas coisas ficaram bem ruins, como a “dancinha tik tok”. Ok, a gente sabe que aquela cena foi incluída pra viralizar, e deu certo, viralizou. Mas a cena não tem nada a ver com o resto do filme! Se o filme fosse assumidamente trash, essa dancinha seria sensacional. Mas ficou muito tosco.

No elenco, só dois papéis têm algum desenvolvimento: Allison Williams (Corra!) e a menina Violet McGraw. Todos os outros personagens são rasos. Já a boneca M3gan é interpretada por Amie Donald, mas ela usou uma máscara de boneca e foi substituída por cgi em parte do filme, não sei quais cenas tem a atriz e quais não tem. A voz da boneca é da Jenna Davis, o que, confesso, me criou uma confusão mental, porque me falaram o nome e pensei na Geena Davis, de Thelma e Louise e A Mosca.

M3gan pode até divertir o povo que vai ao multiplex aos domingos, mas termina com um gostinho de que podia ter sido bem melhor.