Censor

Crítica – Censor

Sinopse (imdb): Depois de assistir a um vídeo underground estranhamente familiar, Enid, uma censora de filmes, começa a resolver o mistério do passado do desaparecimento de sua irmã, embarcando em uma busca que dissolve a linha entre ficção e realidade.

Censor é o novo queridinho do cinema de terror alternativo. Vai ter gente que vai adorar, mas também tem gente que vai odiar. É diferente do “terror montanha russa”, estilo que o James Wan domina como poucos. Mas também não tem muita cara do terror cabeça da A24. Censor é diferentão, não tem jump scares e tem visual VHS anos 80 – inclusive na temática.

Filme de estreia da diretora Prano Bailey-Bond, Censor fala dos video nasty. É uma boa saber o que é isso pra entender o contexto do filme. Vou citar um trecho da wikipedia:
Video nasty é um termo coloquial no Reino Unido para se referir a uma série de filmes, normalmente filmes de terror e exploitation de baixo orçamento, distribuídos em videocassete que foram criticados por seu conteúdo violento pela imprensa, comentaristas sociais e várias organizações religiosas. O termo foi popularizado pela National Viewers ‘and Listeners’ Association (NVALA) no Reino Unido no início dos anos 1980. Esses lançamentos de vídeo não foram apresentados ao British Board of Film Classification (BBFC) devido a uma lacuna nas leis de classificação de filmes que permitiam que os vídeos contornassem o processo de revisão.

A protagonista Enid (Niamh Algar) trabalha nesse departamento de censura. E isso me fez pensar como deveria ser o nosso departamento de censura, aqui no Brasil, nos anos 70 e 80 – todos os filmes que eram exibidos no cinema e na tv precisavam antes exibir um certificado de censura. Adolescente, na minha ingenuidade, achava que aquele deveria ser o melhor emprego do mundo, porque o trabalho era ver filmes. Mas, pelo contrário, devia ser terrível trabalhar num ambiente que mutilava e proibia artes. Enfim, parte do nosso passado, que bom que isso não existe mais por aqui.

A ambientação nos anos 80 é bem legal, não só nos cenários, figurinos e fotografia, como em todo o uso do VHS, dentro e fora do filme – o formato de tela e a textura da imagem às vezes mudam para ficarem parecidos com as filmagens antigas.

Censor é curtinho, mas mesmo assim é irregular. A parte final parece um pouco abrupta, talvez a protagonista precisasse desenvolver um pouco mais até chegar naquele ponto. E, para um longa que fala abertamente de filmes exploitation, até que tem pouco gore. Mas mesmo assim, gostei no resultado. Inclusive, a sequência final é genial, com a edição mostrando bem pro espectador a diferença entre a realidade e o que se passa na cabeça da protagonista.

Prano Bailey-Bond começou bem. Aguardemos seu segundo filme.

The Misfits

Crítica – The Misfits

Sinopse (imdb): Depois de ser recrutado por um grupo de ladrões não convencionais, o renomado criminoso Richard Pace se vê envolvido em um elaborado roubo de ouro que promete ter implicações de longo alcance em sua vida e na vida de inúmeras outras pessoas.

Renny Harlin na direção, Kurt Wimmer no roteiro, Pierce Brosnam e Tim Roth no elenco. Ok, tinha chances de dar certo. Mas…

Há anos que Renny Harlin não faz nenhum grande filme, mas ele dirigiu alguns bons filmes nos anos 90, como Duro de Matar 2, Risco Total e A Ilha da Garganta Cortada. E Kurt Wimmer escreveu alguns roteiros como as refilmagens de Caçadores de Emoção e Vingador do Futuro, mas lembro dele por Equilibrium, que acho um bom filme de ação, apesar de um pouco desconhecido do grande público. Ok, reconheço que não são nomes do primeiro escalão. Mas um filme feito pela dupla podia ser bom.

Podia. Mas não foi. The Misfits é um lixo!

The Misfits até começa bem, a sequência inicial lembra um Guy Ritchie, edição rápida com personagens marginais engraçadinhos. Mas pouco depois tudo se perde, o filme resolve focar mais na comédia pastelão e o filme fica tão bobo que dá vontade de desistir.

Sério, heu NUNCA desisto de um filme, principalmente quando é um filme curto que já vi metade. Mas esse aqui deu vontade de parar, no trecho onde eles precisam convencer o diretor da prisão a comprar um determinado equipamento. As atuações são dignas de um humorístico ruim de TV aberta, me senti vendo A Praça É Nossa.

Fui até o fim, mas, olha, foi doloroso. O roteiro força umas barras absurdas, aquele plano não tem a menor lógica, e The Misfits vira um dos piores filmes de heist da história. Não tenho nem o que falar sobre a atuação, a não ser que senti pena do Tim Roth, que já mostrou que é um grande ator. Pierce Brosnam? Quando o vi cantando em Mamma Mia, achei que ele deveria ganhar uma punição por castigar nossos ouvidos daquele jeito. Hoje estou com pena dele, a punição foi severa demais. Pierce, heu te perdoo!

E o fim do filme deixa aberto o caminho pra uma continuação. Tenha medo, tenha muito medo!

Velozes e Furiosos 9

Crítica – Velozes e Furiosos 9

Velozes e Furiosos novo! Ninguém pediu, mas ninguém se importa!

Sinopse (filmeB): Dom Toretto está levando uma vida tranquila fora das pistas com Letty e seu filho, o pequeno Brian, mas sabem que a qualquer momento, isso pode mudar. Desta vez, uma ameaça forçará Dom a confrontar os pecados de seu passado e salvar aqueles que ele mais ama. Sua equipe se une contra uma trama mundial liderada por um assassino e motorista de alto desempenho: um homem que também é o irmão abandonado de Dom, Jakob.

Antes de tudo, preciso explicar a frase da introdução. na época do spin off Hobbes & Shaw a gente gravou um Podcrastinadores sobre a franquia, e durante a gravação a gente repetia diversas vezes “ninguém se importa”, porque a saga tem vários momentos onde tudo é feito de qualquer maneira, porque afinal, “ninguém se importa”. Foi uma gravação muito divertida, recomendo pra quem não ouviu!

Dito isso, preciso dizer que gosto da franquia – a partir do quarto filme. O primeiro Velozes e Furiosos é bom, mas é quase um plágio de Caçadores de Emoção. O segundo é fraco; o terceiro, pior ainda. Aí, no Velozes e Furiosos 4, abraçaram a galhofa, e os filmes passaram a ser absurdos e divertidos. São filmes de ação bem feitos, que nunca se levam a sério, e, principalmente, divertidos. E sempre lembro do lema da rede Luis Severiano Ribeiro: “cinema é a maior diversão”. Se sentei na poltrona do cinema e me diverti, tá valendo.

(Pra mim, Velozes e Furiosos é semelhante a 007 – bons filmes de ação, cheios de mentira e todos parecidos entre si. Mas isso é um assunto polêmico pra outro momento).

A direção está nas mãos de Justin Lin, que dirigiu o 3, o 4 e o 6, e que aqui entrega um filme tão absurdo e tão divertido quanto os últimos. Logo na parte inicial a gente tem uma sequência que mostra bem o tom do filme: uma perseguição que envolve carros, motos, helicópteros, artilharia pesada, e quando um carro vai passar por uma daquelas pontes suspensas, a ponte arrebenta e ele segue acelerando. Não faz sentido, mas… Ninguém se importa!

O novo vilão é o “irmão perdido” do Dominic Toretto. Por um lado isso é meio incoerente, porque um dos temas sempre repetidos na franquia é a importância da família – por que Dom não seguiria o próprio conselho? Bem, a justificativa dada pelo filme me convenceu. Mas, na verdade, o real motivo pra ter um irmão é porque Paul Walker faleceu, mas seu personagem não. Qual seria uma justificativa convincente pra trazer a Jordana Brewster de volta? Ora, o irmão sumido também é irmão dela. Assim ela tem motivo pra querer participar da aventura.

Agora, posso dizer que isso me convenceu, mas não dá pra dizer que o roteiro é bom. Nada faz muito sentido, eles precisam achar um artefato que está com um vilão malvadão, e tem um exército particular e também tem a Charlize Theron presa, e… É, nada faz muito sentido. Sorte que ninguém se importa!

Pelo menos as sequências de ação são bem feitas. A parte final, com os eletroímãs, é exagerada e também não faz muito sentido, mas é empolgante e muito bem filmada.

Preciso falar mal de duas coisas. A primeira é a duração do filme, são quase duas horas e meia, e tem umas partes cansativas no meio. Ok, entendo que a família é uma coisa importante, mas não precisa repetir tantas vezes, perdemos muito tempo nos dramas ligados ao tema.

A outra não sei se é spoiler, acho que não, porque está até no poster. Achei a volta do Han desnecessária. Nada contra o personagem, mas, na minha humilde opinião, se um personagem morreu, deixa ele morto. Sou contra essa ideia de ressuscitar personagens, porque acho que desvaloriza o fator morte. Han morreu no 3, mas ainda apareceu no 4 e no 5, que se passam antes do 3. E vamos combinar que a volta dele não era nada essencial para a trama, se ele não aparecesse, não só o filme não perdia nada como ainda seria um pouco mais curto.

Ah, sim, tem cena de carro no espaço. Absurdo, mas coerente com a saga. Quem reclamar disso tem que reclamar de todos os outros absurdos dos outros filmes.

Observações sobre o elenco. Vin Diesel, Michelle Rodriguez e Jordana Brewster fazem o de sempre. Dwayne Johnson e Jason Statham não aparecem no filme, mas John Cena serve como o grandão da vez (não, ele não atua bem, apenas disse que ele serve pro papel). Charlize Theron está maravilhosa como sempre, apesar de pouco aproveitada aqui. Kurt Russell aparece pouco, Gal Gadot aparece menos ainda (aparentemente a cena dela é tirada de outro filme). O destaque é pra Hellen Mirren, maravilhosa, que aparece em uma única cena, e transforma essa em uma das melhores cenas do filme. Também no elenco, Tyrese Gibson, Ludacris, Nathalie Emmanuel, Sung Kang e Thue Ersted Rasmussen

(Pra quem não sabe, Jordana Brewster é filha de uma brasileira, apesar de nunca ter feito nenhum filme aqui. Achei legal vê-la falando português em uma cena no fim do filme.)

Ah, tem uma cena durante os créditos, com gancho pro décimo filme. Claro que vai ter, né. Se vai ser bom? Ninguém se importa!

Infinite

Crítica – Infinite

Sinopse (imdb): Uma ficção científica que examina o conceito de reencarnação por meio de visuais notáveis e personagens bem estabelecidos que precisam usar suas memórias e habilidades aprendidas no passado para garantir que o futuro seja protegido de “infinitos” que buscam acabar com toda a vida no planeta.

(Esse “infinito” da sinopse é como chamam essas pessoas, que são capazes de reencarnar trazendo todas as habilidade das vidas anteriores.)

Infinite traz uma boa ideia inicial, mas falha miseravelmente no seu desenvolvimento. Me parece que quiseram criar um novo Matrix, mas o conceito foi tão mal desenvolvido que não só não convence ninguém, como cansa o espectador no meio do caminho. O filme até lembrou Tenet, que precisa ficar se explicando o tempo todo.

Não sei se isso vai acontecer com outros espectadores, mas esse conceito não me convenceu, de quando uma pessoa morre ela reencarna, mas só depois de um tempo é que descobre os seus “poderes”. Num mundo com 7 bilhões de pessoas, fica difícil de saber onde o cara vai reencarnar e continuar a vida ao lado dos companheiros também infinitos.

E ter o Mark Wahlberg no papel principal atrapalha. Vejam bem, gosto dele, ele é um bom astro de ação, ele tem carisma o suficiente pra segurar um filme desse porte, mas… Ele acabou de fazer 50 anos, este mês, tinha 48 na época das filmagens. Você não pode ter uma história que se baseia em uma pessoa trazer conhecimentos de vidas anteriores, e colocar um “velho” pro papel principal. Faria muito mais sentido se fosse um cara novo.

(Um pequeno parênteses pra explicar: heu tenho 50 anos, nasci no mesmo ano que o Mark Wahlberg. Não me considero velho, ainda acho que tenho muita coisa pra viver. Mas, hoje, se heu descobrisse que tenho várias habilidades de vidas passadas, não sei se mudaria muita coisa na minha vida atual. Agora, se heu descobrisse com 20 anos de idade, aí sim, seria uma nova vida completamente diferente.)

A direção ficou com Antoine Fuqua, que tem alguns bons filmes no currículo, como Dia de Treinamento, O Protetor e a refilmagem de Sete Homens e um Destino. Pelo menos Fuqua manda bem nas cenas de ação. A história é mal desenvolvida, mas pelo menos as cenas de ação são bem filmadas.

No elenco o outro grande nome é Chiwetel Ejiofor (Filhos da Esperança, 12 Anos de Escravidão, Doutor Estranho), que está péssimo aqui. Ele, como líder do grupo inimigo, não convence ninguém dos seus propósitos. Também no elenco, Sophie Cookson, Dylan O’Brien, Jason Mantzoukas, Rupert Friend e Toby Jones.

Claro que o filme termina com um gancho pra continuação, com a vantagem de poder trocar todo o elenco (estamos falando de reencarnação, nenhum ator precisa voltar). Mas, se o primeiro filme foi tão fraco, nem sei se quero ver o que vem depois.

Cruella

Crítica – Cruella

Sinopse (imdb): Um longa-metragem de live action seguindo uma jovem Cruella de Vil.

Não curto muito essa nova onda de live actions da Disney. Lembro de um Podcrastinadores recente onde falamos de Aladdin, Rei Leão, Dumbo e Christopher Robin (do Ursinho Puff), e lembro que falei mal de todos eles. Também posso incluir o desnecessário A Bela e A Fera, longo e chato. Nem vi Mulan, Malévola 2 e A Dama e o Vagabundo, tamanho o desânimo. Mas resolvi dar uma chance pra Cruella.

Que bom que dei a chance. Cruella é ótimo!

Dirigido pelo pouco conhecido Craig Gillespie (Eu Tonya), Cruella tem uma tarefa difícil: fazer o espectador gostar de uma pessoa que maltrata cachorrinhos. Olha, dá pra curtir a personagem, mas a gente precisa esquecer a Cruella do desenho. O filme Cruella funciona sozinho, mas não pode ser visto junto com o desenho clássico. Spoiler do bem: a Cruella do filme não mata nenhum cachorro!

(Sei que tiveram dois filmes, em 96 e 2000, mas nem me lembro direito, então minha referência continua sendo o desenho de 1961).

A Cruella da Emma Stone parece uma versão da Arlequina da Margot Robbie, uma vilã simpática e maluquinha, e, principalmente muito carismática – algo essencial para o grande público gostar de uma personagem má. E Emma Stone está fantástica! Às vezes um pouco exagerada, mas mesmo nesses momentos de over acting, ela funciona bem dentro da proposta da personagem. Aliás, a outra Emma, Emma Thompson também está ótima como a vilã mais vilã que a vilã protagonista. Também no elenco, Joel Fry, Paul Walter Hauser, Mark Strong, John McCrea e Kirby Howell-Baptiste.

Claro, precisamos falar também dos cachorros! Não sei o que foi cgi ou o que foi cachorro treinado (hoje em dia não duvido de nada), mas temos várias cenas divertidas com participações dos cachorros. As melhores são com o Wink, o cachorrinho de tapa olho.

Ah, a trilha sonora! Que trilha sonora fantástica! Deep Purple, Queen, Supertramp, Bee Gees, Blondie, The Clash, Black Sabbath, Rolling Stones, J Geils Band, versões de Beatles e Led Zeppelin, e todas se encaixam perfeitamente no filme! Se fosse nos anos 90, provavelmente ia comprar o cd com a trilha sonora e ficar ouvindo no carro, como fazia com as trilhas de Forrest Gump e Pulp Fiction.

Outro destaque, claro, são os figurinos e penteados, além de uma excelente reconstituição de época dos anos 70. Filmes lançados nesta época do ano nem sempre são lembrados na época do Oscar, mas Cruella deve ter indicações à estatueta!

Nem tudo é perfeito. Às vezes o tom fica um pouco bobo, afinal, é um prequel para um desenho animado, então algumas cenas são meio sem graça. Mas nada que atrapalhe o bom resultado final.

E, atenção! Tem uma cena pós créditos que liga o filme diretamente ao desenho!

Infiltrado

Crítica – Infiltrado

Filme novo do Guy Ritchie!

Sinopse (imdb): O enredo segue H, um personagem frio e misterioso que trabalha em uma empresa de caminhões de dinheiro responsável por movimentar centenas de milhões de dólares em Los Angeles todas as semanas

Gosto muito do Guy Ritchie. Lembro quando ele apareceu, com Jogos Trapaças e Dois Canos Fumegantes, no fim dos anos 90. Por causa do sucesso de Pulp Fiction (marco na cultura pop, palma de ouro em Cannes, Oscar de roteiro e sucesso de bilheteria), surgiram diversos filmes tentando copiar o “estilo Tarantino”: violência, personagens marginais, diálogos cool, trilha sonora moderninha, edição não convencional e às vezes fora da ordem – filmes como Get Shorty – O Nome do Jogo, Smoking Aces – A Última Cartada, Lucky Number Slevin e Coisas Para Fazer em Denver quando se está Morto. Jogos Trapaças pegou carona nessa moda, mas, com o tempo, Guy Ritchie mostrou que tinha mais conteúdo que a maioria da galera que surfou a mesma onda.

(Momento pra contar uma história pessoal. No fim de 1998, heu viajei pra Europa. Estava em Londres com a minha esposa, e a gente resolveu ir ao cinema pra ver um filme novo, de um cara estreante, que estavam comparando com o Tarantino. Claro, na Inglaterra, seria sem legendas, mas não ia ser a minha primeira vez vendo um filme sem legendas (na mesma viagem vi um filme em Amsterdã, com o som em inglês e legendas em holandês – não tem como não ler as legendas, e isso sempre me confundia!). Fomos ao cinema, mas os sotaques dos personagens são muito difíceis! A gente não estava entendendo nada! Mais pro fim, consegui entender mais ou menos a história, mas precisei rever no Brasil com legendas quando voltei…)

Com o tempo, Guy Ritchie se firmou com um estilo característico (apesar de alguns filmes fora da curva, como Rei Arthur e Aladdin). Mas, aqui, em Infiltrado (Wrath of Man, no original), Ritchie está um pouco diferente do que faz habitualmente. Infiltrado tem menos humor, tem menos personagens e situações engraçadinhas, é um filme de um modo geral mais sério.

Trata-se da refilmagem do francês Le Convoyeur, de 2004. Depois de ver a refilmagem, fui catar o original. É bem parecido, mas a refilmagem me pareceu melhor, mais refinado, mais bem construído.

Infiltrado é um filme sério e tenso, que traz mais de um ângulo pra mesma história, e tem alguns plot twists bem elaborados. E, falei tenso, né? A sequência final, quando tudo se resolve, é muito tensa, e muito bem filmada.

Jason Statham deve ser um velho amigo de Guy Ritchie, afinal Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes foi o primeiro longa metragem de ambos. Pouco depois, ainda fizeram Snatch: Porcos e Diamantes e Revolver, mas depois suas carreiras seguiram caminhos diferentes. Statham volta aqui, e se mostra o cara perfeito pra esse papel – um personagem sério, preciso e de poucas palavras. Também no elenco, Josh Hartnett, Holt McCallany, Scott Eastwood e Jeffrey Donovan, e uma ponta de Andy Garcia.

Nem tudo funciona. Por exemplo, tem uma personagem feminina que achei meio forçada – mas aí vi que no filme francês também tem uma mulher, então a refilmagem deve ter seguido a mesma ideia. Já o personagem do Andy Garcia não está no original francês, e se também não estivesse aqui, não faria falta – um personagem que pouco aparece e que não se explica direito o propósito dele.

Mesmo assim, ainda achei Infiltrado um grande filme de ação, com boas chances de entrar num top 10 aqui no heuvi. Recomendo!

Antes de terminar, só um comentário de uma coisa que achei curiosa. Nestes tempos de pandemia – já tem mais de um ano sem cinema como era antes – muitos grandes lançamentos estão sendo guardados pra depois, pra quando pudermos encher os cinemas novamente. E, olha só, já é o segundo filme do Guy Ritchie lançado durante a quarentena: ano passado tivemos Magnatas do Crime, que nem chegou a ser lançado nos cinemas aqui no Brasil, e agora Infiltrado. Será que conseguiremos ver na telona?

Marighella

Crítica – Marighella

(Pensei muito se valia a pena fazer um vídeo sobre esse filme. É que é difícil falar de Marighella sem falar de política, e não gosto de dar palpites sobre política. Acredito que quem vê meus vídeos, quem ouve meus podcasts e quem lê os meus textos está mais interessado no que tenho a dizer sobre cinema, tema que domino melhor. Mas, primeiro filme do Wagner Moura como diretor, gosto do Wagner Moura, bora falar do filme dele.)

Sinopse (filmeB): 1969. Marighella não teve tempo pra ter medo. De um lado, uma violenta ditadura militar. Do outro, uma esquerda intimidada. Cercado por guerrilheiros 30 anos mais novos e dispostos a reagir, o líder revolucionário escolheu a ação. Cinebiografia sobre Carlos Marighella, político, escritor e guerrilheiro contra a ditadura militar brasileira.

(Antes de entrar no filme, só um breve comentário sobre política: IMHO, não devemos ver política com paixão, e sim com razão. Não consigo entender quem torce por um político. O político deveria servir à população, e ser criticado sempre que fizer algo errado, independente da gente se alinhar com os ideais dele ou não.
E o tema “Marighella” chama a discussão política. Carlos Marighella tem seu valor por ter lutado contra a ditadura. Respeito muito as forças armadas, mas precisamos reconhecer que o período de intervenção militar foi um dos piores momentos da história do país. Censura, perda de liberdades individuais, prisões sem motivo, torturas, assassinatos. Quem pede a volta do regime militar não sabe o tamanho da bobagem que está pedindo. Nasci em 71, não vivi nenhum problema relacionado a isso, mas na minha adolescência existia um medo pairando no ar – será que os militares vão voltar?
Mas por outro lado, Marighella promovia violência, e heu nunca posso concordar com isso. Segundo a sua lógica, cometer crimes se justificava porque seria contra um mal maior. Sei não, não acho correto você tentar consertar uma coisa errada errando igual. Então, imho, por mais que ele tenha tido importância histórica, não acho certo colocá-lo num patamar de herói.)

Enfim, chega de papo sobre política, e vamos ao que interessa!

Sou fã do Wagner Moura, gosto do trabalho dele em Tropa de Elite, Homem do Futuro, Elysium, VIPs. Marighella é o seu primeiro filme como diretor. Algumas coisas funcionam, outras não.

Marighella começa muito bem, com um plano sequência bem legal mostrando um assalto a trem. Wagner Moura usa câmera na mão em várias partes do filme, o que funciona pra dar um ar mais documental, e algumas cenas são muito bem filmadas.

Agora, são pouco mais de duas horas e meia, e mesmo assim, tem coisa que não ficou bem. Vou dar dois exemplos. Um deles é a personagem da Adriana Esteves, que só vale porque é a Adriana Esteves. Tira esse personagem, o filme não perde nada. “Ah, mas ela está lá para mostrar um lado mais humano do Marighella”. Olha, o filho dele funciona melhor pra essa função. Inclusive a cena onde pai e filho tentam se encontrar é muito boa.

Outro exemplo é que, pelo filme parece que o Marighella só andava com uns 4 ou 5 companheiros. Ué, ele não foi um grande líder? Faltou algo no filme pra mostrar que ele tinha um alcance maior. Recentemente tivemos Judas e o Messias Negro, onde os líderes dos movimentos apareciam liderando muito mais gente.

Um aviso aos mais sensíveis: claro que tem cena de tortura, o que era algo previsível. A cena é forte, mas, heu esperava que ia ter ainda mais, achei que o filme focaria mais nesse triste aspecto da ditadura. É, até que foi bom não mostrar muito.

(Ah, fiquei com vontade de rever O Que É Isso Companheiro…)

Sobre o elenco, ouvi críticas relativas ao Seu Jorge, porque, pelas fotos que vemos na internet, Marighella não era negro. Mas isso não me incomodou, acho bobagem, hoje, em 2021, alguém se preocupar com etnias dos personagens. Na verdade o que me incomodou foi que, em algumas cenas, Seu Jorge aparece artificial demais. Parece que ele está lendo um texto, perdeu a naturalidade.

Outro nome me trouxe sentimentos dúbios. Bruno Gagliasso está bem na maior parte do filme, mas em algumas cenas ele parece um vilão caricato dos anos 80. Tem uma cena onde ele urina num cartaz com a cara do Marighella, e dá uma risada de vilão que causou vergonha alheia.

No fim, apesar de não ser um grande filme, acho que vale a pena. E quero mais filmes nacionais mostrando esse período!

Marighella ainda não foi lançado oficialmente no Brasil. Pra ver, só de maneira alternativa. Existe uma queda de braço entre o governo e a produção do filme. Não sei como está a briga agora, mas uns meses atrás soube que faltavam algumas burocracias pra Ancine liberar o filme (tem vários casos de filmes que demoram anos para serem lançados – Chatô demorou 20 anos pra chegar no circuito!). E é claro que o presidente quer atrapalhar o lançamento, então a gente não sabe o quanto dessa burocracia é algo que faz parte do sistema e o quanto é por ser um filme sobre o Marighella.

Possessão (1981)

Crítica – Possessão (1981)

Sinopse (imdb): Uma mulher começa a apresentar um comportamento cada vez mais perturbador depois de pedir o divórcio ao marido. As suspeitas de infidelidade logo dão lugar a algo muito mais sinistro.

Já comentei por aqui que na segunda metade dos anos 80 vi MUITA coisa no Estação Botafogo. Esse Possessão foi um dos mais marcantes dessa época. Heu tinha até uma camisa com essa imagem do pôster!

Mas, antes de entrar no filme, uma informação importante. Existem alguns filmes homônimos – uma vez pesquisei no imdb e achei 18 “Possessão”. Sem me esforçar muito, lembro de outros dois, um de 2002 com Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart; outro de 2012 com Jeffrey Dean Morgan e Kyra Sedgwick. Este é de 1981, com Isabelle Adjani e Sam Neill.

Escrito e dirigido por Andrzej Zulawski, Possessão (Possession, no original) é um filme difícil até de classificar. A classificação óbvia seria terror, mas certamente ia desagradar boa parte do público usual de terror. Tem sangue e gore, mas não só não tem jumpscares como tem muita coisa sem explicação no filme.

Sim, Possessão é daqueles filmes onde a gente não entende boa parte do que está acontecendo. Claro que existe algum simbolismo do “duplo” – tanto a Isabelle Adjani tem uma outra versão na professora (só muda a cor dos olhos); quanto o Sam Neill aparece numa versão rejuvenescida. Mas não existem explicações. Não se explica o que é a criatura no apartamento, nem por que a professora é igual à protagonista. E o fim do filme é uma grande interrogação.

O filme deve ter um monte de coisas subliminares, mas heu, particularmente, nem sempre curto ficar procurando significados ocultos. Possessão é um filme que dá pra relaxar e “entrar na viagem”. Agora, quem gosta de história com início, meio e fim, sugiro passar longe.

O elenco só tem dois nomes conhecidos, e ambos estão muito bem. Isabelle Adjani está sensacional, ela ganhou prêmio duplo de melhor atriz em Cannes em 1981, por esse filme e por Quartet. A cena do metrô fica grudada na memória! Sam Neill não fica atrás, tem uma cena impressionante onde ele tem um ataque aparentemente de epilepsia. Aliás, uma vez o Sam Neill falou que esse é o filme preferido dele.

Tem outro ator que heu queria citar, Heinz Bennet, que faz o amante. Que personagem sensacional! Ele aparece pouco, mas todas as vezes ele está ótimo. A cena dele dançando enquanto fala muito boa!

(Na mesma pegada tem a sequência do detetive particular perseguindo a Isabelle Adjani, com direito a um cara no trem comendo uma banana!)

Ah, tem a criatura. Sim, Possessão é filme cabeça, mas, sim, Possessão também é filme de monstro. A criatura foi criada por Carlo Rambaldi, famoso por ter criado o ET e movimentos na cabeça do Alien – ganhou um Oscar por cada um dos dois. Rambaldi tem uma frase que heu gosto: “[on computerized special effects] The mystery’s gone. It’s as if a magician had revealed all of his tricks.”

(Aliás alguém mais reparou a semelhança com Hellraiser no lance da mulher trazer homens e matá-los pra alimentar o monstro?)

Enfim, gostei. Mesmo sem entender muita coisa.

Sem Remorso

Crítica – Sem Remorso

Sinopse (imdb): Um Navy SEAL de elite segue um caminho para vingar o assassinato de sua esposa apenas para se encontrar dentro de uma conspiração maior.

Filmes baseados em Tom Clancy costumam ser bons. Com roteiro do Taylor Sheridan (Sicario, A Qualquer Custo), e com Michael B Jordan (Creed, Pantera Negra) no papel principal, vira um daqueles filmes que prometem ser um filmaço. Bora ver qualé.

Tom Clancy é um autor de best sellers, criou o personagem Jack Ryan, que já rendeu cinco filmes longa metragem e uma série de TV – A Caçada ao Outubro Vermelho (1990), onde é interpretado por Alec Baldwin; Jogos Patrióticos (1992) e Perigo Real e Imediato (1994), por Harrison Ford; A Soma de Todos os Medos (2002), por Ben Affleck; Operação Sombra: Jack Ryan (2014), por Chris Pine; e finalmente a série Jack Ryan (2018), com John Krasinski no papel. Vários filmes, vários atores, mas sempre o mesmo Jack Ryan, e sempre em boas tramas de ação e espionagem.

Dirigido pelo pouco conhecido Stefano Sollima (Sicario 2), Sem Remorso (Without Remorse, no original) não tem o Jack Ryan. O protagonista é John Kelly, e a proposta é que este seja o filme de origem de uma nova franquia, baseada nos livros / games Rainbow 6 (tudo do Tom Clancy). Dei uma pesquisada por alto, existe o livro Rainbow 6, mas me parece que o videogame é bem mais popular. Não li o livro e nem joguei o jogo, mas isso pouco importa pra este filme em particular.

(Jack Ryan não aparece e nem é citado, mas… Jamie Bell faz um personagem chamado Robert Ritter, mesmo nome do personagem de Henry Czerny em Perigo Real e Imediato. Ou seja, a princípio está tudo no mesmo universo.)

Não sei se por culpa do diretor (acredito que não), mas Sem Remorso é um filme genérico. O filme não é ruim, tem algumas boas cenas – gostei da sequência do avião – mas simplesmente não engrena.

Acho que o único destaque positivo está em Michael B Jordan, que realmente convence ao segurar um papel de protagonista de filme de ação. Também no elenco, Jamie Bell (que estava em Quarteto Fantástico junto com o Michael B Jordan), Jodie Turner-Smith e Guy Pearce.

Me lembrei dos meus tempos de videolocadora. Os lançamentos eram divididos em dois grupos: os filmes de ponta e os filmes de apoio. De ponta eram os blockbusters, aqueles que todo mundo queria ver, que tinha fila pra conseguir alugar. Os de apoio eram filmes novos, mas menos badalados, e na maior parte das vezes, de qualidade inferior. Daqueles que, se a gente perder, não perdeu muita coisa (Sempre fui mais de cinema e videolocadora do que de tv aberta, mas sei que tinha uma sessão na Globo onde passavam esses filmes, só não vou lembrar o nome da sessão).

Sem Remorso passa essa sensação. Um filme apenas ok.

Pena, porque tem uma cena pós créditos que traz um gancho pra continuação. Tempos atrás, o que definia uma continuação era a bilheteria. Hoje em dia, só no streaming, como é feita esta decisão se a franquia vai seguir ou não?

Aguardemos…

Espiral – O Legado de Jogos Mortais

Crítica – Espiral – O Legado de Jogos Mortais

Sinopse (imdb): Um gênio do crime desencadeia uma forma distorcida de justiça em Espiral, o novo capítulo aterrorizante do livro de Jogos Mortais.

Olha que curioso, anteontem falei de Invocação do Mal 3, filme novo de uma franquia inaugurada por James Wan. E hoje é dia de Espiral – O Legado de Jogos Mortais (Spiral, no original), filme novo de outra franquia inaugurada pelo mesmo James Wan. Pena que a qualidade não é a mesma…

Um tempo atrás li sobre um novo filme, que seria baseado em Jogos Mortais, e com Chris Rock e Samuel L Jackson no elenco. Taí, isso talvez desse um novo fôlego pra franquia, depois de 8 filmes onde a qualidade sempre foi ladeira abaixo.

Gosto muito do primeiro Jogos Mortais, um filme tenso, bem filmado, e com um dos melhores plot twists do cinema recente. Mas o segundo é pior que o primeiro, o terceiro é pior que o segundo, o quarto é pior que o terceiro, e por aí vai.

Ok, reconheço que Chris Rock hoje não é tem um star power muito grande. Mas se a gente lembrar bem, o maior nome do penúltimo filme era Callum Keith Rennie; e o maior nome do filme anterior era Costas Mandylor. Ou seja, ter Chris Rock e Samuel L Jackson é um upgrade.

Mas parece que foi tudo em vão. Espiral segue exatamente o mesmo formato dos outros filmes da saga. Algumas armadilhas criativas, umas boas cenas de torture porn, um final agitado e com som alto, e só. Não diria que é ruim, mas diria que é igual aos anteriores. Nem precisava mudar de nome.

Ah, sobre a expressão torture porn: não tem nada a ver com pornografia, é um termo usado pra cenas cujo único propósito é mostrar sangue e gore.

Sobre o elenco, Samuel L Jackson aparece pouco, o filme é do Chris Rock – que mostra que é um péssimo ator fora da comédia. Sim, ele até consegue não fazer piadas e ser sério, mas não convence no papel.

Preciso falar que, como fã de Tarantino, gostei de ver duas referências a Pulp Fiction (o nome do cofre “Jules & Vincent”, e um personagem Ezequiel).

Mas, no geral, é isso. Previsível, e desnecessário. Só pros fãs da franquia.