A Noiva!

Crítica – A Noiva!

Sinopse (imdb): Na Chicago dos anos 30, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada como a Noiva, provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.

Ano passado, a gente viu Frankenstein; este ano tem A Noiva de Frankenstein. Podia até ser uma continuação, mas uma produção não tem nada a ver com a outra.

A Noiva! (The Bride!, no original) é o novo filme escrito e dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal. Se seu primeiro filme como diretora, A Filha Perfeita, de 2021, era um projeto mais “simples”, baseado mais nas atuações das atrizes principais, aqui em A Noiva! ela resolve ousar e entrega uma produção de época, com cenários e maquiagens elaborados, e várias citações a outros filmes. Ela arriscou, e deu certo – o resultado ficou bem melhor que o seu primeiro e insosso filme.

(Gostei deste A Noiva!, mas, pelo meu gosto, na inevitável comparação, o Frankenstein do Guillermo Del Toro teve um resultado melhor…)

A criatura, aqui chamada de Frankenstein, procura uma médica que estudou as práticas do dr. Frankenstein, e pede uma companheira. Eles conseguem trazer de volta à vida um cadáver de uma mulher que acabou de morrer, que passa a viver uma louca aventura ao lado dele.

(A criatura aqui é chamada de “Frankenstein”, que na verdade seria o sobrenome do médico. É um erro, mas, deixemos assim.)

Se a criatura do Frankenstein é composta por diferentes pedaços de corpos costurados, parece que Maggie Gyllenhaal quis fazer algo parecido no seu filme. Tem desde Coringa 2 (quando começa uma rebelião de mulheres inspirada pela atitude da protagonista) até Bonnie & Clyde (o casal em fuga de carro pelo campo). Mas, na minha humilde opinião, a melhor citação foi ao Jovem Frankenstein, na melhor cena do filme, ao som de Puting on the Ritz.

Se por um lado essa mistura fica legal de se assistir, por outro lado o roteiro parece meio mal construído de vez em quando. Por exemplo, a personagem da médica some em determinado momento do filme. E a dupla de policiais não tem muita função na trama – aquele comentário de sempre: tire os policiais e o filme não perde nada.

Tecnicamente falando, o filme é muito bom. A maquiagem da criatura Frankenstein lembra a maquiagem clássica (diferente da recente versão do Del Toro, que tinha o rosto costurado). A Noiva! também traz algumas cenas bem violentas – aquela da cabeça sendo esmagada pela bota vai impressionar parte dos espectadores.

O elenco é bom, a diretora tem um grande currículo como atriz, então deve ser bem relacionada. Jessie Buckley e Christian Bale estão ótimos como o casal principal (ambos já tinham trabalhado com Maggie – Jessie estava no elenco de A Filha Perdida; Bale foi companheiro de cena em Batman O Cavaleiro das Trevas). Annette Bening também está bem como a médica, e Jake Gyllenhaal (irmão da diretora) faz uma espécie de Fred Astaire (um ator que canta, dança e sapateia). Se tem espaço pro irmão, também tem pro marido, Peter Sarsgaard, que faz uma dupla de policiais com Penélope Cruz.

Por fim, queria deixar um elogio à narrativa apresentada pela roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal. Seu filme é assumidamente feminista, em vários aspectos. Mas em nenhum momento vemos uma tentativa de lacração. Nada soa forçado. Parabéns, é assim que se faz!

Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Crítica – Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Sinopse (imdb): A noiva deve matar seu ex-patrão e amante Bill, que a traiu no ensaio de casamento, atirou na cabeça e levou sua filha por nascer. Mas primeiro, ela deve fazer sofrer os outros quatro membros do Esquadrão da Morte.

Vai estrear no cinema uma “nova versão” de Kill Bill. Mas, é nova de verdade?

Tive sentimentos opostos depois que acabou a sessão. Por um lado, é sempre bom ver Tarantino no cinema, e como seu último filme foi só em 2019, estava rolando uma certa “abstinência”… Mas por outro lado, tem muito pouca novidade. Basicamente, vemos o primeiro filme, aí tem um intervalo de 15 minutos, depois o segundo filme, aí são créditos estendidos, pra só lá no fim de tudo, uma sequência inédita em animação.

Um breve comentário sobre Kill Bill. É uma saga de uma mulher que quer se vingar de cinco ex companheiros que a deixaram para morrer. E é um filme para fãs de Tarantino. O filme é cheio de exageros estilísticos – além de várias lutas com muito sangue jorrando, rolam cenas em preto e branco, coreografia em contra luz, planos-sequência com a câmera passeando pelo cenário sem cortes à la Brian de Palma – tem espaço até uma sequência em desenho animado! Tarantino aqui confirma a sua vocação de liquidificador de cultura pop e faz inúmeras citações. Faroeste italiano, filme de artes marciais, anime, trash, blaxploitation, seriados antigos, tudo isso fica consonante com as suas características habituais: diálogos afiados, edição fora da ordem cronológica e trilha sonora “cool”.

Agora, vou entrar num assunto polêmico. A divulgação deste novo lançamento diz que esta é a versão que o próprio Tarantino queria fazer na época, mas o estúdio o forçou a dividir em dois filmes. Mas, pra mim, isso é marketing. Porque sempre interpretei Kill Bill como dois filmes diferentes. Calma que vou explicar meu ponto de vista. Tarantino, ao longo de sua carreira, de vez em quando aponta seus filmes para uma direção para logo depois mudar, surpreendendo o espectador. Ele cria uma expectativa, para depois frustrá-la. Esse é um dos motivos que me fazem gostar dos filmes dele: são filmes fora do óbvio. Um exemplo: em Pulp Fiction, a gente acha que o protagonista é o John Travolta, mas seu personagem morre de repente no meio do filme. Outro exemplo ainda mais explícito: em Oito Odiados, de repente o espectador descobre que tem um personagem escondido no subsolo da casa. É um ator famoso, não é um figurante sem importância. A gente vê aquilo e pensa que o filme tomará outro rumo com a entrada do novo personagem – mas este morre logo, e o filme não muda de rumo. Isso sem contar com Bastardos Inglórios, que altera fatos históricos, matando Hitler num incêndio. Analisando sob este ponto de vista, Tarantino encerrou Kill Bill vol 1 com uma longa e sangrenta batalha entre a Noiva e os Crazy 88. Um final bastante catártico. Aí quando vemos o vol 2, e sabemos que a Noiva vai finalmente enfrentar o Bill, vemos uma luta muito mais contida, usando um elemento citado despretensiosamente no meio do filme. Cadê a luta catártica? Não tem. Mais uma vez, Tarantino frustrou a expectativa criada por ele mesmo. Ou seja, pra mim, sempre foram dois filmes separados.

Agora, falemos sobre esta “nova versão”. A animação inédita traz Aki, uma nova personagem que quer matar a Noiva. Se entendi direito a irmã da Gogo Yubari. Tiro porrada e bomba num desenho curtinho de 8 minutos. Divertido, mas não justifica uma ida ao cinema só por isso.

De resto, tem bem pouca coisa de novidade. O anime mostrando a infância da O-Ren Ishii é um pouco maior, tem uma sequência a mais. Durante a luta contra os Crazy 88, antes tinha uma sequência em P&B, agora é tudo colorido (decisão que achei ruim, era legal de repente tudo ficar P&B, era mais uma surpresa no filme). E acho que trocaram algumas músicas na trilha sonora. Se teve mais alterações além dessas, não reparei – e olha que revi os dois Kill Bill não faz muito tempo. Ou seja, pelas alterações, não vale ver essa nova versão.

(Lembro de quando a trilogia clássica de Star Wars foi relançada nos cinemas em 1997. Eram filmes que heu já tinha visto diversas vezes. E realmente teve novidades – algumas ruins, como o Greedo atirando antes; outras boas, como janelas com paisagens na cidade das nuvens em Bespin. Aliás, a maioria das alterações foi boa. Naquela ocasião, nenhum fã saiu frustrado do cinema por ter visto um filme igual ao anterior!)

Gostei de ter visto Kill Bill: The Whole Bloody Affair. Mas gostei porque Tarantino no cinema é sempre legal. Mas queria ter visto mais material diferente, a divulgação engana o espectador.

Fique até o fim dos créditos!

Bugonia

Crítica – Bugonia

Sinopse (filmeb): Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena que tem a intenção de destruir o planeta Terra.

Pobres Criaturas foi um filme marcante em vários aspectos: um visual exuberante, uma temática delicada e polêmica, e uma atuação inspiradíssima da Emma Stone. Claro que o diretor Yorgos Lanthimos entrou no radar da maioria dos cinéfilos. Pouco depois de Pobres Criaturas, chegou no circuito Tipos de Gentileza, que heu gostei, mas é um filme claramente “menor” e muita gente não curtiu. Aí a expectativa foi transferida para o seu filme seguinte, este Bugonia.

Quando heu soube que Bugonia era refilmagem de uma ficção científica coreana que ninguém conhece, fui catar o filme original antes de ver o novo. Trata-se de Save the Green Planet!, dirigido por Jang Joon-hwan em 2003. É um filme realmente pouco conhecido – curiosamente, depois da sessão de imprensa, conversei com algumas pessoas, metade não tinha visto o filme coreano, a outra metade nem sabia que era refilmagem.

Não gostei muito do filme coreano, achei os personagens mal desenvolvidos – Bugonia é melhor. Mas respondo logo a pergunta: sim, a história é basicamente a mesma nos dois filmes: um alto executivo de uma grande empresa é sequestrado por dois malucos conspiracionistas que acham que se trata de um alienígena. A diferença é que no original é um executivo homem, sequestrado por um casal, e aqui é uma executiva mulher sequestrada por dois primos.

Uma coisa que o filme sabe muito bem trabalhar é a dúvida sobre a veracidade da tal teoria conspiratória. Afinal, vemos uma pessoa sendo sequestrada por um cara completamente lelé das ideias, que defende uma ideia absurda – será que isso pode ser verdade? Lembrei de Rua Cloverfield 10, quando passamos quase todo o filme sem saber se o papo do John Goodman é real ou não.

Bugonia é um filme bastante desconfortável. A boa trilha sonora de Jerskin Fendrix (o mesmo de Pobres Criaturas) ajuda no desconforto. Curiosidade: Fendrix compôs a trilha antes de ter acesso ao roteiro; Yorgos Lanthimos falou pra ele se basear em quatro palavras chave: abelhas, porão, espaçonave e “Emily bald”, o que seria algo como “Emma Stone careca”.

Visualmente falando, Bugonia não é tão exuberante quanto outros filmes do diretor. Não que isso seja algo necessariamente ruim, mas é que depois de A Favorita e Pobres Criaturas, a gente espera algo mais fora da caixinha, e o visual de Bugonia é mais, digamos, “careta”.

No elenco, Emma Stone e Jesse Plemons estão excelentes, ambos têm personagens desagradáveis e ao mesmo tempo muito interessantes. Outro destaque é para o estreante Aidan Delbis – Lanthimos queria alguém neurodivergente para o terceiro papel mais importante do filme, e Delbis é autista – e manda muito bem. Alicia Silverstone tem um papel mais discreto como a mãe do Jesse Plemons (apesar dos atores terem apenas 12 anos de diferença de idade).

Bugonia é melhor que Tipos de Gentileza, mas está bem abaixo de Pobres Criaturas. Prevejo uma galera “tênis verde” reclamando depois das sessões…

Chove Sobre Babel / Rains Over Babel

Crítica – Chove Sobre Babel

Sinopse (Festival do Rio): Em uma versão tropical-punk do Inferno de Dante, Chove Sobre Babel transporta o público para Babel, um bar lendário que serve como purgatório. Sob a vigilância de La Flaca, almas jogam anos de suas vidas em uma roleta com a própria Morte. Um grupo de desajustados se reúne nesse cenário surreal, onde amor, identidade e destino se entrelaçam em uma narrativa de resistência e reinvenção. Com estética steampunk e elementos de realismo mágico, num universo visualmente exuberante e politicamente audacioso.

A sinopse de Chove Sobre Babel (Llueve sobre Babel, no original) era sem dúvida a melhor sinopse do Festival do Rio. Tem gente que vai ao Festival atrás de filmes badalados e premiados, heu vou atrás de filmes malucos e diferentes. Agora, a sinopse não é 100% real. Tem elementos de realismo mágico (tem um lagarto falante!), mas não tem nada de steampunk…

Mas, ok, reconheço, escrito e dirigido pela hispano-colombiana Gala del Sol, Chove Sobre Babel é um filme bem fora da curva. Vou fazer dois comentários sobre o roteiro, um positivo e um negativo.

Pelo lado positivo, o roteiro traz vários elementos de misticismo e mitologia da Grécia Antiga. Tem referências às musas, ao cão de três cabeças de Hades, ao barqueiro do submundo Caronte, aos oráculos de Delfos, a Thanatos… Quem curte mitologia grega vai se esbaldar.

Dito isso, o roteiro não é bom. São muitos personagens e muitas histórias paralelas, acaba que o filme não aprofunda nenhuma delas. Só pra dar um exemplo simples: Chove Sobre Babel abre com o personagem Boticario e sua esposa, e tem uma narração em off falando características sobre ela – mas sua personagem some no filme. O Boticario tem um papel bem secundário, estranho o filme abrir com ele, mas ele continua lá o tempo todo; já sua esposa é tão irrelevante que até esqueci o nome da personagem.

E por aí o filme segue. Tem um pastor, conservador ao extremo – e seu filho é uma drag queen, que tem medo de se abrir para o rígido pai. Aí quando o jovem aparece como drag queen, o pastor começa a dançar de felicidade. Cadê o desenvolvimento para aquele personagem ter uma mudança tão drástica de comportamento?

Pelo menos o visual com seus cenários extravagantes é bonito. Queria ver outro filme da Gala del Sol, com um roteiro mais bem trabalhado.

Antes de encerrar, queria fazer um comentário sobre as legendas. A cópia exibida estava legendada. Mas era uma legenda muito ruim, cheia de erros. Vou então dizer a minha teoria sobre o que deve ter acontecido com as legendas neste caso aqui. Voltemos no tempo: anos atrás, os filmes eram em rolo. Legendar um filme nem sempre era algo viável, porque era necessário fazer uma nova cópia pra exibir apenas umas 3 ou 4 vezes. Por isso, anos atrás, era comum ter filmes sem legendas, ou com legendas em outra língua – e quando o filme já estava legendado, certamente ia entrar em cartaz. Aí inventaram a legenda eletrônica, uma coisa genial: as legendas ficam embaixo da tela, assim ninguém precisa fazer uma cópia do filme, pode exibir os rolos originais e depois devolver pro país de origem. Depois surgiram arquivos digitais. São arquivos grandes, não cabe num pen-drive, é um HD com o filme. Mas, é bem mais fácil e barato fazer uma cópia de um HD do que de rolos de película.

Minha teoria sobre o que aconteceu: usaram o google tradutor pra traduzir as legendas de Chove Sobre Babel – tem erros de português, erros de tradução, palavras que não foram traduzidas e muita, muita coisa com a formatação errada (tipo um espaço antes do hífen). Aí alguém deve ter pegado essa legenda que ninguém revisou e deve ter colocado no arquivo do filme. Não posso afirmar que foi isso, mas fico na torcida pra alguém revisar essas legendas se esse filme for exibido mais uma vez.

O Esquema Fenício

Crítica – O Esquema Fenício

Sinopse (imdb): Conto sombrio de espionagem que segue um relacionamento tenso entre pai e filha em uma empresa familiar. As reviravoltas giram em torno de traição e escolhas moralmente cinzentas.

E vamos para mais um Wes Anderson!

Vou copiar um parágrafo que escrevi ano passado, no texto sobre Asteroid City: “Wes Anderson é um dos poucos na Hollywood contemporânea que tem um estilo visual fácil de identificar. Seus filmes são sempre muito simétricos, cada frame é milimetricamente organizado, o cara deve ter TOC. As atuações são artificiais, mas isso parece proposital, e se encaixa bem na proposta visual.”

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, no original) segue esse caminho. Tudo simétrico e com atuações robóticas. Claro que isso não agrada qualquer público, mas precisamos reconhecer que o cara tem um estilo característico.

Agora, se falei que Asteroid City era um filme onde pouca coisa acontecia, aqui é o oposto. O roteiro de Anderson com o habitual parceiro Roman Coppola traz uma trama complexa, onde os três personagens principais se deslocam entre vários núcleos, desenvolvendo diversas negociações confusas. Algumas são bem divertidas, como o “momento basquete”, mas outras parece que estão lá só pra ter espaço pra participações especiais no elenco.

Sim, como de costume, o elenco é fantástico. Acho curioso como Anderson consegue tantos atores famosos para os seus filmes, já que é um formato que não privilegia boas atuações. E O Esquema Fenício não é diferente. Os papéis principais são de Benicio Del Toro, Mia Threapleton e Michael Cera (Mia é a única do elenco que não é conhecida, mas ela é filha de uma tal de Kate Winslet). Dentre os coadjuvantes principais, temos Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlet Johansson, Jeffrey Wright e Riz Ahmed. E ainda tem pontas de Bill Murray, F Murray Abraham, Willem Dafoe, Rupert Friend, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric e Hope Davis. Sobre as atuações, os três principais até têm personagens interessantes. O resto é tudo apático.

O Esquema Fenício é extremamente bem filmado, e tem alguns momentos hilários (ri alto com as flechas do filho do protagonista). A trilha sonora de Alexandre Desplat (outro colaborador habitual) também é boa. Mas, precisamos reconhecer que é um entretenimento para poucos…

Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Crítica – Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Sinopse (imdb): Um músico insone encontra uma estranha misteriosa, o que o leva a uma jornada que desafia tudo o que ele sabe sobre si mesmo.

Quando  recebi o convite para a cabine de imprensa de Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes (Hurry Up Tomorrow, no original), heu não tinha ideia do que se tratava o filme. Fui até catar o trailer, mas mesmo depois de vê-lo, continuei sem saber. (Normalmente evito ver trailers, mas esse heu estava na dúvida, vi para saber se valia a pena ou não.)

Achei curioso porque no pôster tinham três nomes de atores. Um nome que heu nunca tinha ouvido falar, e depois outros nomes conhecidos, Jenna Ortega e Barry Keoghan. Heu não sabia quem era esse cara principal, um tal de Abel Tesfaye, mas amigos meus me disseram que ele é o The Weeknd. Conheço a música, mas heu achava que “The Weeknd” era uma banda e não uma pessoa. Achei estranho um cara ter um nome artístico desses.

(Ok, não tenho muita moral pra falar do nome dos outros, mas achei bem estranho o cara se chamar “O Fim de Semana”. E isso acabou me gerando várias “piadinhas de tio” na cabeça, tipo, como é que será que a equipe chama ele? Ele tá na turnê, vão chamá-lo lá no quarto do hotel, “ô, seu The, vamos lá pra passagem de som?” Estranho, né?)

Ou seja, entrei no cinema sem ter ideia do que eu ia ver, e acabei vendo um videoclipe. Um videoclipe longo e chato.

Enfim, pra comentar esse filme vou precisar entrar em spoilers. Nada muito grave, não tem nada bombástico na narrativa, nenhum plot twist que vale a pena ser guardado. Mas heu sempre gosto de avisar quando eu vou entrar em spoilers, e vou falar da trama do filme. Então se você for spoilerfóbico, sugiro que pare o vídeo por aqui.

No filme a gente acompanha duas tramas em paralelo. Uma delas tem a Jenna Ortega, fugindo de alguma coisa que a gente não sabe o que que é. A outra tem um cantor e seu empresário, interpretado pelo Barry Keoghan. O cantor é Abel Tesfaye, também conhecido por The Weeknd. Ele tem mega shows em estádios lotados, e está com problemas. Problemas ligados a álcool e drogas; e problemas porque ele está querendo voltar para uma provável ex-namorada.

Acaba que os dois se encontram, ela vai no show dele e ficam juntos naquela noite. Na verdade, é uma cena bastante inverossímil, porque a Jenna Ortega tem um metro e meio de altura, e ela vai num show num estádio, e consegue chegar na grade, e quando chega lá, ele a vê, e ele sai do palco, e ela pula a grade, e consegue entrar no backstage. Na boa, ela nunca conseguiria entrar no backstage daquele jeito. Mas é filme, então a gente deixa pra lá.

Até aí o filme é bem besta. Mas, no dia seguinte daquela noite, no hotel, o filme ensaia pegar outro caminho, porque ela se mostra uma fã obsessiva. Pensei… Legal! O filme pode entrar numa onda meio Atração Fatal, onde ela vai revelar uma faceta meio obsessiva e não vai deixá-lo sair. Isso podia, finalmente, levar o filme para um caminho interessante. Mas infelizmente o filme só mostra o caminho legal, mas volta para a trama chata que estava desde o início.

Hurry Up Tomorrow me parece uma viagem de ego do The Weeknd, porque é um filme sobre um mega cantor, muito grande, muito importante – temos até um momento onde a personagem fica analisando as letras da música dele. Ok, o cara faz sucesso, respeito isso, reconheço que a música dele é boa, mas… O filme me pareceu um troço meio egocêntrico demais.

Além da história não ser boa, a forma como foi contada também não é. Me parece que o diretor, ou o diretor de fotografia, ou ambos, entraram numa de “quero ser diferente, quero ser cool, quero ser moderninho”. Então o filme abusa de luzes fortes e contrastes, além de ficar mudando o aspect ratio da tela (vários formatos de tela diferentes). Isso pode funcionar num videoclipe de 4 ou 5 minutos, mas não num longa de uma hora e quarenta e cinco.

Hurry Up Tomorrow deve funcionar para os fãs do The Weeknd (ou Abel Tesfaye). É um filme sobre ele, sobre as músicas dele. Mas eu acho que ele falhou, porque podia pensar em pessoas que não são seus fãs. Ele podia ter feito um filme para todos.

Megalopolis

Crítica – Megalopolis

Sinopse (imdb): A cidade de Nova Roma é palco de um conflito entre Cesar Catilina, um artista genial a favor de um futuro utópico, e o ganancioso prefeito Franklyn Cicero. Entre os dois está Julia Cicero, com a lealdade dividida entre o pai e o amado.

Poucos filmes realmente merecem o rótulo de “aguardado”. Megalopolis, novo filme de Francis Ford Coppola, é um desses. Não sei exatamente há quanto tempo, mas o projeto de Megalopolis já existe há décadas. E Coppola resolveu vender um vinhedo e bancar o custo de 120 milhões de dólares do próprio bolso!

E o resultado? Olha, não gostei do filme, mas gostei que ele foi feito. Já explico.

Vamulá. Francis Ford Coppola é um nome gigante na história do cinema. Ele dirigiu O Poderoso Chefão 1 e 2, presentes em qualquer lista de melhores filmes da história (ele também dirigiu o 3, mas este passa longe de listas de melhores). Ele arriscou tudo num projeto pessoal, Apocalypse Now, e ganhou muitos frutos com isso (incluindo dois Oscars e a Palma de Ouro em Cannes). Dois anos depois, arriscou de novo em outro projeto pessoal, O Fundo do Coração, mas desta vez foi um grande flop. Mesmo assim continuou, e nos anos 90 ainda fez o excelente Drácula de Bram Stoker, um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos.

Um cara talentosíssimo, com um currículo gigante, mas que me fazia pensar naquela frase do Tarantino, que disse que pretendia se aposentar depois do décimo filme. Porque os últimos Coppola que vi foram bem decepcionantes.

(Essa frase do Tarantino serve pra alguns diretores. John Carpenter, autor de vários clássicos, encerrou a carreira com Aterrorizada, um filme com cara de Supercine.)

Coppola estava no mesmo barco. Vi Tetro, com a presença do próprio, numa sessão lotada em Botafogo, mas o filme parece uma novela mexicana. Dois anos depois vi Twixt num Festival do Rio, outra decepção. Nem tive ânimo de ver Distant Vision, que ele fez em 2015 que nem sei se foi lançado no Brasil (no imdb não tem nem poster do filme!).

Pensando por este ângulo, foi uma agradável surpresa ver Megalopolis. É um filme confuso, muita coisa não funciona, mas… É um grande filme, com um grande elenco, e várias cenas memoráveis. Ou seja, se a gente for pensar em um último filme de um diretor octogenário (Coppola está com 85 anos!), Megalopolis é bem melhor que Tetro ou Twixt.

Depois dessa longa introdução, vamos ao filme? Em Nova Roma, uma cidade fictícia (segundo o que li, baseada em Nova York), rola uma briga política entre o prefeito e um arquiteto visionário que quer construir uma nova cidade baseada em um novo elemento criado por ele, o Megalon.

Tudo é contado em tom de fábula (assumido em uma frase de introdução ao filme), tudo é meio onírico, tem muitos simbolismos e muita coisa exagerada.

Mas achei o roteiro muito bagunçado. Por exemplo, a filha do prefeito se envolve com o arquiteto que é seu inimigo, e às vezes ela está com um, outras vezes com o outro, e o filme não deixa claro qual é a dela. Tem cenas que se estendem demais, como aquela cena do coliseu, tão longa que chega a cansar. Tem um narrador, vivido pelo Laurence Fishburne, que de repente some e não volta mais. Tem uma trama paralela de uma cantora que era valorizada por ser jovem e virgem, aí descobrem que ela não é jovem nem virgem, aí ela muda de estilo mas o filme esquece dela. E por aí vai…

Mas por outro lado, o elenco é repleto de grandes estrelas, e algumas sequências são belíssimas. É um filme grandioso, digno da carreira de um nome como Francis Ford Coppola.

Diferente dos últimos filmes do Coppola, Megalopolis conta com um grande elenco: Adam Driver, Giancarlo Esposito, Nathalie Emmanuel, Aubrey Plaza, Shia LaBeouf, Jon Voight, Laurence Fishburne, Talia Shire e Jason Schwartzman, entre outros. As atuações são exageradas, entendi que fazia parte da proposta de fábula onírica.

Quando acabou a sessão (sessão normal, não teve sessão pra imprensa), fiquei dividido. Não, não gostei do filme. Mas gostei de ver que Coppola continua grande.

I Saw the TV Glow

Crítica – I Saw the TV Glow

Sinopse (imdb): Dois adolescentes se conectam por causa de seu amor por um programa de TV sobrenatural, mas ele é misteriosamente cancelado.

Um amigo recomendou este novo filme da A24 usando as palavras “Porra, esqueci de te dizer, acho que vi o filme mais doido do car*lho da A24 até hoje. Que porra doida, bicho. Meu Deus. Não sei nem classificar o filme.”

E é isso mesmo. I Saw the TV Glow é uma “porra doida, bicho”.

Dois adolescentes esquisitões se aproximam porque ambos gostam de um programa de TV. Na verdade, ele não consegue acompanhar porque passa de noite e seus pais não deixam ele ficar acordado, então ele precisa passar a noite na casa dela, escondido, e depois ela passa a gravar e entregar fitas de VHS pra ele. Até que um dia ela diz que precisa ir embora, convida ele, mas ele não tem coragem. Ela desaparece, o programa é cancelado e ele fica duplamente sozinho. Ele tem uma vida medíocre, até que anos depois ela reaparece.

Sabe qual é o problema aqui? Heu não tenho nada contra filmes baseados em simbolismos, mas um filme desses precisa ser envolvente. De vez em quando vejo uns filmes onde não entendo nada, mas que o filme me envolve e me carrega na sua viagem. E não senti isso aqui. Achei I Saw the TV Glow apenas confuso. Um filme cabeça, confuso e, desculpe falar, chato.

Pelo que entendi lendo no imdb, o programa fictício Pink Opake é inspirado em Buffy. Talvez uma explicação seja que uma criança quando via Buffy achava um programa assustador, mas depois de adulta, ao rever, acharia a série meio boba.

(A fonte usada nos créditos de Pink Opake é a mesma fonte usada em Buffy. Uma das personagens de Pink Opake é chamada Tara, referencia à Tara Maclay, personagem de Buffy; e a atriz que interpretava Tara Maclay, Amber Benson, tem um papel aqui.)

Acabou o filme, fui catar explicações na internet. Li uma teoria que faz sentido: a diretora e roteirista Jane Schoenbrun é trans, então boa parte do que os personagens sentem está ligada a sentimentos reais que uma pessoa trans passa dentro da nossa sociedade. Ok, pode ser, isso explica algumas coisas. Mas pelo menos pra mim isso não “resolve o filme”, porque sempre defendo que um filme não deveria precisar de “manual de instruções”.

I Saw the TV Glow é estrelado por Justice Smith (Observadores) e Brigette Lundy-Paine (A Semente do Mal), que estão inexpressivos, mas não sei se isso é algo proposital pela proposta do roteiro. Agora, teve uma coisa que me incomodou. Inicialmente conhecemos os personagens adolescentes, pelo que entendi ele estaria no ensino fundamental e ela no ensino médio – heu chutaria que eles deveriam ter por volta de 13 e 15 anos, respectivamente, e nesse momento do filme, são interpretados por dois adolescentes. Aí a história pula dois anos, ou seja, eles teriam por volta de 15 e 17. Mas já vemos os atores adultos, e ambos têm quase 30 anos. Fica muito estranho ver um ator de 30 interpretando um adolescente do ensino médio. Era melhor contratar outros dois atores adolescentes…

Apesar de ser A24, não tenho ideia se I Saw the TV Glow vai estrear oficialmente aqui no Brasil. Mas só é recomendado pra quem curte uma “porra doida, bicho”.

Tipos de Gentileza

Crítica – Tipos de Gentileza

Sinopse (imdb): Um homem procura libertar-se do seu caminho predeterminado, um policial questiona o comportamento da sua esposa após um suposto afogamento e a busca de uma mulher para localizar um indivíduo profetizado para se tornar um guia espiritual.

Olha que surpresa agradável: menos de um ano depois do sensacional Pobres Criaturas, já tem filme novo do Yorgos Lanthimos em cartaz!

Antes de entrar no filme, um aviso aos desavisados: Yorgos Lanthimos não costuma fazer filmes convencionais. Temática fora do convencional, personagens fora do convencional, visual fora do convencional. Heu não sabia nada sobre Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness, no original), mas sabia que provavelmente iria encontrar um filme esquisitão.

E Tipos de Gentileza é por aí. São três histórias, independentes entre si, todas elas com temas malucos. Na primeira vemos um funcionário completamente submisso ao rico patrão, a ponto de, quando é dispensado por ele, topa fazer qualquer coisa para voltar a ser a sua “marionete”. Na segunda, uma mulher se acidenta e passa um tempo desaparecida, e quando volta, seu marido acha que ela é uma impostora. E a terceira traz um culto que está procurando uma pessoa com poderes sobrenaturais.

(Como quase sempre em um filme dividido em histórias independentes, o resultado é irregular, achei a segunda história mais fraca que as outras duas.)

Detalhe interessante: é o mesmo elenco, fazendo personagens diferentes. O trabalho de atuação e construção de personagens ficou excelente, você vê o mesmo ator, mas claramente é outro personagem, não dá nem pra pensar “ah, será que se passou um tempo e ele agora está diferente?”. Willem Dafoe e principalmente Jesse Plemons estão sensacionais. Também no “elenco de multiverso”, Emma Stone, Margaret Qualley, Hong Chau e Mamoudou Athie. Ah, o xará do diretor, Yorgos Stefanakos, é o único que faz o mesmo personagem nas três histórias.

Tipos de Gentileza abre espaço pra várias discussões comportamentais – nas três histórias, temos personagens dispostos a atitudes extremas em busca de aceitação. E é um filme que deixa pontas soltas pro espectador conectar como preferir. Mais uma vez, um filme de Yorgos Lanthimos deixa a gente pensando quando acaba a sessão…

A trilha sonora é de Jerskin Fendrix, sua segunda trilha, sendo que concorreu ao Oscar pela primeira (Pobres Criaturas). Se a outra trilha é muito estranha, essa daqui é ainda mais. Muitas vezes parece que tem um gato passeando em cima das teclas do piano. Trilha muito estranha, mas heu gostei.

O filme é longo, são duas horas e quarenta e quatro minutos. Não achei que precisava ser tão longo. Mas, não me cansou, talvez por serem três histórias independentes.

Por fim, tem uma cena no meio dos créditos, com o “coadjuvante quase principal” RMF.

Garotas em Fuga

Crítica – Garotas em Fuga

Sinopse (imdb): Em busca de um recomeço, Jamie, que lamenta o término com mais uma namorada, e sua amiga Marian, que precisa aprender a se soltar, embarcam em uma viagem improvisada para Tallahassee, que logo sai dos trilhos.

Sou fã dos irmãos Coen desde sempre. Eles começaram a carreira em 1984, mais ou menos na mesma época que comecei a ir ao cinema, acho que vi todos os filmes da dupla, sempre perto da época do lançamento, desde seu segundo filme, Arizona Nunca Mais, de 1987. (O primeiro, Gosto de Sangue, de 84, vi em VHS).

Uma curiosidade: até o filme O Amor Custa Caro (2003), Joel era creditado como diretor e Ethan como produtor, mas diziam que os dois faziam tudo juntos. A partir do filme seguinte, Matadores de Velhinha (2004) eles passaram a dividir os créditos. Provavelmente alguém deve ter avisado que se eles ganhassem um prêmio de direção, como aconteceria em 2008 por Onde Os Fracos Não Têm Vez, seria apenas um prêmio e não dois. (Em 97, eles foram indicados a 4 Oscars por Fargo: ganharam juntos por roteiro, e foram indicados juntos por edição. Mas Ethan foi indicado sozinho como produtor e Joel, sozinho, como diretor. Foi a única indicação “solitária” de cada um, todas as outras 14 indicações ao Oscar foram compartilhadas).

Aí, depois de quase 4 décadas, sei lá por que, eles pararam de filmar juntos. Catei pelo Google mas não achei qual foi a razão. Joel Coen, sozinho, fez A Tragédia de Macbeth, com Denzel Washington, filme que achei tão chato que nem terminei de ver. Achei que a “instituição Irmãos Coen” havia acabado. Pena.

Mas, ano passado vi o trailer deste Garotas em Fuga (Drive-Away Dolls, no original), que me lembrou o clima amalucado de alguns filmes dos Coen dos anos 80, como Arizona Nunca Mais, ou ainda Crimewave, dirigido por Sam Raimi mas com roteiro dos Coen. Gostei tanto do trailer que Garotas em Fuga entrou na minha lista de expectativas para 2024.

E então? Garotas em Fuga presta?

Bem, não é um grande filme. Na verdade, parece uma cópia meio tosca de filmes dos irmãos Coen. Mas é divertidíssimo!

Garotas em Fuga é um road movie com alguns elementos que eram frequentes em filmes dos irmãos, como personagens secundários bizarros e caricatos, e humor negro misturado com violência. E gostei do filme ter apenas uma hora e vinte e quatro minutos (os créditos começam com uma hora e dezessete!), é um filme bobinho, se fosse muito longo ia ser cansativo.

É um filme de lésbicas, então boa parte das piadas é dentro deste assunto. Mas achei que faltou um cuidado maior na hora de selecionar as piadas – algumas são boas, mas outras soam forçadas, me pareceu que estão lá só pra chocar. Além disso, Garotas em Fuga tem algumas vinhetas psicodélicas meio sem sentido, não entendi o que o Ethan Coen queria dizer com aquilo

No elenco, a dupla principal é interpretada por Margaret Qualley e Geraldine Viswanathan. As duas funcionam bem juntas, é aquela dupla clichê de uma certinha que precisa se dar bem com uma maluquinha. Nos papéis secundários, temos algumas surpresas. Pedro Pascal e Matt Damon têm papéis importantes, mas quase não aparecem. E a Miley Cyrus tem um papel chave, que, se bobear, aparece menos que os dois citados.

No fim, apesar de ser nitidamente um filme “menor”, fiquei feliz de ver um dos irmãos Coen voltando às origens e entregando um filme divertido. Mesmo “menor”, prefiro muito mais este Garotas em Fuga do que aquele Macbeth.