Backrooms: Um Não-Lugar

Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

Sinopse (imdb): Após o paciente de uma terapeuta desaparecer em uma dimensão além da realidade, ela precisa adentrar o desconhecido para salvá-lo.

(Pra variar, sinopse do imdb não está exatamente correta…)

Quando acabou a sessão de Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, no original), pensei: curti o filme, mas não entendi muito do que vi. Fui conversar com alguns amigos que estavam na mesma sessão. Alguns gostaram, outros não, mas uma coisa era unânime: ninguém tinha entendido.

Backrooms é daquele tipo de filme que abre espaço para várias interpretações e que não explica muita coisa. Heu queria fazer um comentário sobre o fim do filme, então, claro, vou colocar um aviso de spoilers. Mas não faz muita diferença você saber spoilers, porque afinal é o tipo do filme que você sai da sessão querendo conversar com alguém sobre o que você acabou de ver.

O conceito desses “backrooms” surgiu em 2019 em um post anônimo no 4Chan que falava sobre “uma dimensão paralela ou um labirinto infinito de escritórios vazios e corredores, caracterizados por paredes amareladas, carpete mofado e o zumbido contínuo de lâmpadas fluorescentes”. Em 2022 o jovem diretor Kane Parsons (então com 16 anos) fez uma série de curtas found footage usando esse conceito. Isso o credenciou para ser o mais jovem diretor contratado pela A24: Parsons fez Backrooms: Um Não-Lugar, seu primeiro longa, aos 19 anos de idade.

Antes de entrar na esquisitice, queria fazer um elogio que todos vão concordar: a cenografia do filme é fantástica! Segundo o imdb, a produção construiu cerca de 30.000 pés quadrados de labirintos de salas e corredores – o que fez com que alguns membros da equipe ocasionalmente se perdessem no set. Só aqueles cenários já valem o ingresso!

O conceito é explicado dentro do filme como “imagine se você descrever um cachorro para uma pessoa que nunca viu um cachorro, e depois pedir pra essa pessoa desenhar o cachorro. De longe, vai parecer um cachorro; mas de perto, algumas coisas não vão fazer sentido.” Isso é o que acontece nos cenários do filme.

Sobre o elenco, o filme se baseia, basicamente, nos dois atores principais, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve (e provavelmente estou pronunciando os dois nomes errados). Ambos estão muito bem. Backrooms não tem perfil de filme que vai concorrer a prêmios, mas cada um dos dois tem uma cena que parece aquele “clipe de Oscar”. Não estou dizendo que são atuações que merecem uma indicação, mas precisamos reconhecer que já vimos outras atuações que não foram lá grandes coisas concorrendo à estatueta, ou seja, não seria algo 100% injusto – mas, repito, acho muito difícil, infelizmente.

Como falei, quero comentar o final. Sim, é spoiler, mas, Backrooms é o tipo de filme que não tem muita importância você saber spoiler porque não tem nenhum grande plot twist. Mas, respeito: se você não gosta de spoiler, só pular essa parte.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Somos apresentados a um universo maluco onde ninguém entende o que está acontecendo. Aí tem um epílogo – a parte onde aparece o ator Mark Duplass – onde começam algumas explicações. Só que não chega a conclusão nenhuma. Ou seja, era melhor nem ter começado a explicar. Na minha humilde opinião, se você se propõe a explicar o que é aquele mundo, vá até o fundo. Ou então não explique nada. Mas aqui entra uma pincelada de explicação e deixa tudo no ar. Heu particularmente acharia melhor se não explicasse nada, se cortasse aquele epílogo, se acabasse sem a gente ter nenhuma ideia do que estava acontecendo. Porque aí o espectador é apresentado a um mundo maluco, que não faz sentido, e beleza, acaba o filme e vai pra casa pensando nas maluquices vistas na tela – algo meio David Lynch.

FIM DOS SPOILERS!

Backrooms é um filme que vai dividir o público. Duvido que seja um sucesso comercial. Mas gostei de ver algo assim, principalmente depois de saber que o diretor tem menos de vinte anos de idade.

Cansei de Ser Nerd

Crítica – Cansei de Ser Nerd

Sinopse (imdb): Aírton, um nerd convicto, vai à festa de reencontro de faculdade determinado a desmascarar o ritual assassino de um culto alienígena, limpar seu nome e recuperar o coração de sua alma gêmea. Ah, sim, e também sair vivo.

Recentemente recebi um link que tinha uma denúncia sobre uma rede de cinemas que estava usando uma brecha na regra de cota para exibição de filme nacional. Existe uma animação nacional chamada Zuzubalândia, de dois anos atrás, que é um desenho de apenas sessenta minutos, então essa rede de cinemas programava o desenho para passar cedo, assim que o cinema abre, num horário que o cinema ainda tem pouco movimento, assim eles podem cumprir a cota do cinema nacional e podem guardar os horários com maior público para os filmes que vendem mais ingressos – afinal o cinema também é um negócio, e precisa dar lucro. Claro que essa denúncia foi feita num grupo onde pessoas defendem a cota para filmes nacionais, porque acham que o filme nacional deveria estar no horário nobre do cinema. E heu até concordo parcialmente com isso, mas defendo que o caminho para se resolver isso é outro. Na minha humilde opinião o melhor caminho não é criar uma cota e forçar que o exibidor passe o filme nacional. O que a gente precisa fazer é ter mais filmes nacionais de qualidade. E, principalmente, uma maior variedade.

Quem me acompanha por aqui sabe que heu defendo a diversidade do cinema nacional. Sabe que heu defendo que existam filmes nacionais de gêneros diferentes. O filme nacional não precisa ser sempre selecionado para festivais, não precisa ser sempre um ganhador de prêmios. Pode ser apenas uma diversão leve e divertida. Existe espaço pra filme maomeno gringo, por que não exibir filme maomeno nacional?

Essa longa introdução é para falar que temos a partir desta semana a estreia de um novo filme desses no circuito nacional: Cansei de Ser Nerd. Não é um grande filme, não é um filme disruptivo, não é um filme que trará prêmios para o cinema brasileiro. Mas é uma boa diversão.

Em Cansei de Ser Nerd, um “nerd velho”, acusado injustamente na faculdade pelo desaparecimento e suposto assassinato de uma colega de classe, convence seu melhor amigo a ir com ele à festa de reunião da turma, para enfrentar fantasmas do passado e reencontrar seu crush da época.

O melhor de Cansei de Ser Nerd é o elenco, principalmente o trio principal. O protagonista Fernando Caruso tem carisma suficiente para segurar o filme, ele tem umas sacadas geniais – heu soube que ele acrescentou algumas coisas nerds no roteiro e que fazem todo sentido já que ele é o nerd do título do filme. Essas partes onde ele demonstra o quanto ele é nerd são as melhores coisas do filme. Inclusive, numa delas, me identifiquei: o personagem comenta que só tem camisas com estampas nerds, não tem nenhuma camisa lisa, e ele quer uma camisa lisa para se sentir um cara mais normal. Isso é a minha cara, meu armário não tem nenhuma camisa lisa…

Os dois principais coadjuvantes, Pedro Benevides e Bia Guedes, também funcionam muito bem. O trio tem uma química boa, eles trabalham juntos há tempos num grupo de stand-up chamado Comédia 4K (a quarta integrante do grupo, Thais Belchior, também está no elenco, mas no núcleo dos vilões). Eles funcionam muito bem juntos.

O filme começa bem, o clima de conspiração maluca misturado com invasão alienígena é bem divertido. Pena que a parte final é meio zoada, o roteiro não se decide entre continuar na comédia ou abraçar o cinema fantástico, e o encerramento não funciona muito bem. Além disso, tem uma parte no meio que o filme fica em preto e branco, não gostei dessa opção estética.

Mas mesmo com esse final bagunçado, achei a experiência positiva. Defendo filmes nacionais “fora da caixinha”! Recomendo!

Lindas e Letais

Crítica – Lindas e Letais

Sinopse (imdb): Um grupo de dançarinas que tenta escapar de uma pousada remota depois que o ônibus quebra a caminho de um concurso de dança.

Surgiu na Amazon Prime um filme novo da 87North. Como heu sempre fico de olho em quem está por trás dos filmes, já fiquei interessado, apesar de desconfiar que o filme não ia lá ser grandes coisas. E a prova disso é que o próprio thumbnail da Prime Video tem o nome errado do filme. O nome do filme é Lindas e Letais e na thumbnail eles colocaram “Linda” e Letais.

(Para quem não sabe o que é 87North: é uma produtora feita por dublês, ou seja, os filmes podem até ser ruins em alguns aspectos, mas as cenas de ação são sempre bem coreografadas e bem filmadas. Um dos fundadores da 87North é David Leitch, ex dublê e diretor de filmes como Trem Bala e O Dublê. Sempre fico de olho nos filmes desses caras!)

Em Lindas e Letais, um grupo de cinco bailarinas, mais a professora, vai para a Hungria para fazer uma apresentação. Mas quando chegam lá, o ônibus quebra e elas acabam presas numa espécie de hotel isolado no meio do nada, onde a professora morre e elas são perseguidas.

Como heu tinha desconfiado, Lindas e Letais tem cenas de ação muito boas, mas o filme é bem fraco. O roteiro é cheio de facilitações. Se a gente fosse fazer uma lista de forçações de barra e de conveniências de roteiro, esse vídeo ia ficar enorme… Só pra citar um exemplo: é um grupo de bailarinas americanas indo viajar para a Europa, e o ônibus quebra, ao lado de uma estalagem. E olha só, a dona da estalagem era bailarina também! Que coincidência, não? Pior, elas pegam chuva quando vão até lá, então precisam trocar de roupa. Qual é a roupa que elas colocam? A roupa da apresentação. Vem cá, você vai viajar para outro continente e não vai levar uma muda de roupas? Como assim?

Pelo menos as cenas de ação são bem feitas. Como acontece nos filmes da 87North, são cenas bem coreografadas e bem filmadas. Se a ideia era colocar bailarinas lutando, então as cinco usam suas roupas de bailarinas, batendo nos adversários enquanto fazem as coreografias de dança. É bastante inverossímil e ficou um pouco caricato, mas pelo menos são lutas divertidas de se ver.

É importante avisar que as lutas são muito violentas, não sei se isso pode causar gatilho em alguém. As meninas apanham muito. Isso às vezes fica bastante desconfortável. A coisa boa é que as meninas apanham, mas elas batem mais ainda, então pelo menos temos um “pay off”.

No elenco, o único nome grande é Uma Thurman – achei que ia ser um daqueles casos onde ela entra para fazer duas ou três cenas e some, isso acontece de vez em quando, vendem o nome de um ator ou atriz como uma isca, mas na verdade ele/ela só aparece em poucas cenas. Mas não, Uma Thurman tem um papel grande aqui, ela é a dona do hotel. Também não elenco, Maddie Ziegler, Lana Condor, Lydia Leonard, Avantika, Millicent Simmonds e Iris Apatow.

Lindas e Letais não é bom, mas para quem curte cenas de ação girl power, com mulheres batendo, vale a pena.

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Crítica – Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Sinopse (imdb): Um “Homem do Futuro” chega a uma lanchonete em Los Angeles, onde precisa recrutar a combinação perfeita de clientes para se juntarem a ele em uma missão para salvar o mundo da ameaça terminal de uma inteligência artificial rebelde.

Heu gosto de filmes malucos. Gosto de filmes que trilham caminhos fora do óbvio. E quando vi o trailer deste Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, me chamou a atenção que seria um filme bem fora do padrão.

Um homem com aparência de morador de rua entra num restaurante à noite e diz que veio do futuro e precisa da ajuda de algumas daquelas pessoas para salvar o mundo de um apocalipse tecnológico. Ele diz que já veio mais de cem vezes e todas deram errado. Claro que as pessoas a princípio não acreditam nele, mas ele consegue montar um grupo e eles saem para a missão.

A direção é de Gore Verbinski, mais conhecido por ter feito os três primeiros filmes da série Piratas do Caribe, e que depois ganhou o Oscar pela animação Rango, de 2011. Mas de lá pra cá, ele fez pouca coisa e não acertou: O Cavaleiro Solitário, de 2013, e A Cura, de 2016. Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é o seu primeiro filme em quase dez anos!

A estrutura do filme usa flashbacks pra mostrar como alguns daqueles personagens foram parar no restaurante naquela noite. Esses flashbacks parecem pequenos episódios de Black Mirror, são pessoas envoltas em problemas ligados à tecnologia – mas uma tecnologia que ainda não existe no nosso dia a dia.

Gostei do ritmo de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, mas preciso reconhecer que o filme é um pouco longo demais. Um filme maluco funciona melhor se tem perto de uma hora e meia, aqui são duas horas e quatorze, o filme chega a cansar.

O elenco é bom. Sam Rockwell funciona muito bem no papel de “maluco conspiracionista da vez”. Também no elenco, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Michael Peña e Zazie Beetz.

Segundo o FilmeB, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra tem previsão de estreia dia 23 de abril. Recomendo pra quem gosta de filmes malucos.

A Noiva!

Crítica – A Noiva!

Sinopse (imdb): Na Chicago dos anos 30, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada como a Noiva, provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.

Ano passado, a gente viu Frankenstein; este ano tem A Noiva de Frankenstein. Podia até ser uma continuação, mas uma produção não tem nada a ver com a outra.

A Noiva! (The Bride!, no original) é o novo filme escrito e dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal. Se seu primeiro filme como diretora, A Filha Perfeita, de 2021, era um projeto mais “simples”, baseado mais nas atuações das atrizes principais, aqui em A Noiva! ela resolve ousar e entrega uma produção de época, com cenários e maquiagens elaborados, e várias citações a outros filmes. Ela arriscou, e deu certo – o resultado ficou bem melhor que o seu primeiro e insosso filme.

(Gostei deste A Noiva!, mas, pelo meu gosto, na inevitável comparação, o Frankenstein do Guillermo Del Toro teve um resultado melhor…)

A criatura, aqui chamada de Frankenstein, procura uma médica que estudou as práticas do dr. Frankenstein, e pede uma companheira. Eles conseguem trazer de volta à vida um cadáver de uma mulher que acabou de morrer, que passa a viver uma louca aventura ao lado dele.

(A criatura aqui é chamada de “Frankenstein”, que na verdade seria o sobrenome do médico. É um erro, mas, deixemos assim.)

Se a criatura do Frankenstein é composta por diferentes pedaços de corpos costurados, parece que Maggie Gyllenhaal quis fazer algo parecido no seu filme. Tem desde Coringa 2 (quando começa uma rebelião de mulheres inspirada pela atitude da protagonista) até Bonnie & Clyde (o casal em fuga de carro pelo campo). Mas, na minha humilde opinião, a melhor citação foi ao Jovem Frankenstein, na melhor cena do filme, ao som de Puting on the Ritz.

Se por um lado essa mistura fica legal de se assistir, por outro lado o roteiro parece meio mal construído de vez em quando. Por exemplo, a personagem da médica some em determinado momento do filme. E a dupla de policiais não tem muita função na trama – aquele comentário de sempre: tire os policiais e o filme não perde nada.

Tecnicamente falando, o filme é muito bom. A maquiagem da criatura Frankenstein lembra a maquiagem clássica (diferente da recente versão do Del Toro, que tinha o rosto costurado). A Noiva! também traz algumas cenas bem violentas – aquela da cabeça sendo esmagada pela bota vai impressionar parte dos espectadores.

O elenco é bom, a diretora tem um grande currículo como atriz, então deve ser bem relacionada. Jessie Buckley e Christian Bale estão ótimos como o casal principal (ambos já tinham trabalhado com Maggie – Jessie estava no elenco de A Filha Perdida; Bale foi companheiro de cena em Batman O Cavaleiro das Trevas). Annette Bening também está bem como a médica, e Jake Gyllenhaal (irmão da diretora) faz uma espécie de Fred Astaire (um ator que canta, dança e sapateia). Se tem espaço pro irmão, também tem pro marido, Peter Sarsgaard, que faz uma dupla de policiais com Penélope Cruz.

Por fim, queria deixar um elogio à narrativa apresentada pela roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal. Seu filme é assumidamente feminista, em vários aspectos. Mas em nenhum momento vemos uma tentativa de lacração. Nada soa forçado. Parabéns, é assim que se faz!

Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Crítica – Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Sinopse (imdb): A noiva deve matar seu ex-patrão e amante Bill, que a traiu no ensaio de casamento, atirou na cabeça e levou sua filha por nascer. Mas primeiro, ela deve fazer sofrer os outros quatro membros do Esquadrão da Morte.

Vai estrear no cinema uma “nova versão” de Kill Bill. Mas, é nova de verdade?

Tive sentimentos opostos depois que acabou a sessão. Por um lado, é sempre bom ver Tarantino no cinema, e como seu último filme foi só em 2019, estava rolando uma certa “abstinência”… Mas por outro lado, tem muito pouca novidade. Basicamente, vemos o primeiro filme, aí tem um intervalo de 15 minutos, depois o segundo filme, aí são créditos estendidos, pra só lá no fim de tudo, uma sequência inédita em animação.

Um breve comentário sobre Kill Bill. É uma saga de uma mulher que quer se vingar de cinco ex companheiros que a deixaram para morrer. E é um filme para fãs de Tarantino. O filme é cheio de exageros estilísticos – além de várias lutas com muito sangue jorrando, rolam cenas em preto e branco, coreografia em contra luz, planos-sequência com a câmera passeando pelo cenário sem cortes à la Brian de Palma – tem espaço até uma sequência em desenho animado! Tarantino aqui confirma a sua vocação de liquidificador de cultura pop e faz inúmeras citações. Faroeste italiano, filme de artes marciais, anime, trash, blaxploitation, seriados antigos, tudo isso fica consonante com as suas características habituais: diálogos afiados, edição fora da ordem cronológica e trilha sonora “cool”.

Agora, vou entrar num assunto polêmico. A divulgação deste novo lançamento diz que esta é a versão que o próprio Tarantino queria fazer na época, mas o estúdio o forçou a dividir em dois filmes. Mas, pra mim, isso é marketing. Porque sempre interpretei Kill Bill como dois filmes diferentes. Calma que vou explicar meu ponto de vista. Tarantino, ao longo de sua carreira, de vez em quando aponta seus filmes para uma direção para logo depois mudar, surpreendendo o espectador. Ele cria uma expectativa, para depois frustrá-la. Esse é um dos motivos que me fazem gostar dos filmes dele: são filmes fora do óbvio. Um exemplo: em Pulp Fiction, a gente acha que o protagonista é o John Travolta, mas seu personagem morre de repente no meio do filme. Outro exemplo ainda mais explícito: em Oito Odiados, de repente o espectador descobre que tem um personagem escondido no subsolo da casa. É um ator famoso, não é um figurante sem importância. A gente vê aquilo e pensa que o filme tomará outro rumo com a entrada do novo personagem – mas este morre logo, e o filme não muda de rumo. Isso sem contar com Bastardos Inglórios, que altera fatos históricos, matando Hitler num incêndio. Analisando sob este ponto de vista, Tarantino encerrou Kill Bill vol 1 com uma longa e sangrenta batalha entre a Noiva e os Crazy 88. Um final bastante catártico. Aí quando vemos o vol 2, e sabemos que a Noiva vai finalmente enfrentar o Bill, vemos uma luta muito mais contida, usando um elemento citado despretensiosamente no meio do filme. Cadê a luta catártica? Não tem. Mais uma vez, Tarantino frustrou a expectativa criada por ele mesmo. Ou seja, pra mim, sempre foram dois filmes separados.

Agora, falemos sobre esta “nova versão”. A animação inédita traz Aki, uma nova personagem que quer matar a Noiva. Se entendi direito a irmã da Gogo Yubari. Tiro porrada e bomba num desenho curtinho de 8 minutos. Divertido, mas não justifica uma ida ao cinema só por isso.

De resto, tem bem pouca coisa de novidade. O anime mostrando a infância da O-Ren Ishii é um pouco maior, tem uma sequência a mais. Durante a luta contra os Crazy 88, antes tinha uma sequência em P&B, agora é tudo colorido (decisão que achei ruim, era legal de repente tudo ficar P&B, era mais uma surpresa no filme). E acho que trocaram algumas músicas na trilha sonora. Se teve mais alterações além dessas, não reparei – e olha que revi os dois Kill Bill não faz muito tempo. Ou seja, pelas alterações, não vale ver essa nova versão.

(Lembro de quando a trilogia clássica de Star Wars foi relançada nos cinemas em 1997. Eram filmes que heu já tinha visto diversas vezes. E realmente teve novidades – algumas ruins, como o Greedo atirando antes; outras boas, como janelas com paisagens na cidade das nuvens em Bespin. Aliás, a maioria das alterações foi boa. Naquela ocasião, nenhum fã saiu frustrado do cinema por ter visto um filme igual ao anterior!)

Gostei de ter visto Kill Bill: The Whole Bloody Affair. Mas gostei porque Tarantino no cinema é sempre legal. Mas queria ter visto mais material diferente, a divulgação engana o espectador.

Fique até o fim dos créditos!

Bugonia

Crítica – Bugonia

Sinopse (filmeb): Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena que tem a intenção de destruir o planeta Terra.

Pobres Criaturas foi um filme marcante em vários aspectos: um visual exuberante, uma temática delicada e polêmica, e uma atuação inspiradíssima da Emma Stone. Claro que o diretor Yorgos Lanthimos entrou no radar da maioria dos cinéfilos. Pouco depois de Pobres Criaturas, chegou no circuito Tipos de Gentileza, que heu gostei, mas é um filme claramente “menor” e muita gente não curtiu. Aí a expectativa foi transferida para o seu filme seguinte, este Bugonia.

Quando heu soube que Bugonia era refilmagem de uma ficção científica coreana que ninguém conhece, fui catar o filme original antes de ver o novo. Trata-se de Save the Green Planet!, dirigido por Jang Joon-hwan em 2003. É um filme realmente pouco conhecido – curiosamente, depois da sessão de imprensa, conversei com algumas pessoas, metade não tinha visto o filme coreano, a outra metade nem sabia que era refilmagem.

Não gostei muito do filme coreano, achei os personagens mal desenvolvidos – Bugonia é melhor. Mas respondo logo a pergunta: sim, a história é basicamente a mesma nos dois filmes: um alto executivo de uma grande empresa é sequestrado por dois malucos conspiracionistas que acham que se trata de um alienígena. A diferença é que no original é um executivo homem, sequestrado por um casal, e aqui é uma executiva mulher sequestrada por dois primos.

Uma coisa que o filme sabe muito bem trabalhar é a dúvida sobre a veracidade da tal teoria conspiratória. Afinal, vemos uma pessoa sendo sequestrada por um cara completamente lelé das ideias, que defende uma ideia absurda – será que isso pode ser verdade? Lembrei de Rua Cloverfield 10, quando passamos quase todo o filme sem saber se o papo do John Goodman é real ou não.

Bugonia é um filme bastante desconfortável. A boa trilha sonora de Jerskin Fendrix (o mesmo de Pobres Criaturas) ajuda no desconforto. Curiosidade: Fendrix compôs a trilha antes de ter acesso ao roteiro; Yorgos Lanthimos falou pra ele se basear em quatro palavras chave: abelhas, porão, espaçonave e “Emily bald”, o que seria algo como “Emma Stone careca”.

Visualmente falando, Bugonia não é tão exuberante quanto outros filmes do diretor. Não que isso seja algo necessariamente ruim, mas é que depois de A Favorita e Pobres Criaturas, a gente espera algo mais fora da caixinha, e o visual de Bugonia é mais, digamos, “careta”.

No elenco, Emma Stone e Jesse Plemons estão excelentes, ambos têm personagens desagradáveis e ao mesmo tempo muito interessantes. Outro destaque é para o estreante Aidan Delbis – Lanthimos queria alguém neurodivergente para o terceiro papel mais importante do filme, e Delbis é autista – e manda muito bem. Alicia Silverstone tem um papel mais discreto como a mãe do Jesse Plemons (apesar dos atores terem apenas 12 anos de diferença de idade).

Bugonia é melhor que Tipos de Gentileza, mas está bem abaixo de Pobres Criaturas. Prevejo uma galera “tênis verde” reclamando depois das sessões…

Chove Sobre Babel / Rains Over Babel

Crítica – Chove Sobre Babel

Sinopse (Festival do Rio): Em uma versão tropical-punk do Inferno de Dante, Chove Sobre Babel transporta o público para Babel, um bar lendário que serve como purgatório. Sob a vigilância de La Flaca, almas jogam anos de suas vidas em uma roleta com a própria Morte. Um grupo de desajustados se reúne nesse cenário surreal, onde amor, identidade e destino se entrelaçam em uma narrativa de resistência e reinvenção. Com estética steampunk e elementos de realismo mágico, num universo visualmente exuberante e politicamente audacioso.

A sinopse de Chove Sobre Babel (Llueve sobre Babel, no original) era sem dúvida a melhor sinopse do Festival do Rio. Tem gente que vai ao Festival atrás de filmes badalados e premiados, heu vou atrás de filmes malucos e diferentes. Agora, a sinopse não é 100% real. Tem elementos de realismo mágico (tem um lagarto falante!), mas não tem nada de steampunk…

Mas, ok, reconheço, escrito e dirigido pela hispano-colombiana Gala del Sol, Chove Sobre Babel é um filme bem fora da curva. Vou fazer dois comentários sobre o roteiro, um positivo e um negativo.

Pelo lado positivo, o roteiro traz vários elementos de misticismo e mitologia da Grécia Antiga. Tem referências às musas, ao cão de três cabeças de Hades, ao barqueiro do submundo Caronte, aos oráculos de Delfos, a Thanatos… Quem curte mitologia grega vai se esbaldar.

Dito isso, o roteiro não é bom. São muitos personagens e muitas histórias paralelas, acaba que o filme não aprofunda nenhuma delas. Só pra dar um exemplo simples: Chove Sobre Babel abre com o personagem Boticario e sua esposa, e tem uma narração em off falando características sobre ela – mas sua personagem some no filme. O Boticario tem um papel bem secundário, estranho o filme abrir com ele, mas ele continua lá o tempo todo; já sua esposa é tão irrelevante que até esqueci o nome da personagem.

E por aí o filme segue. Tem um pastor, conservador ao extremo – e seu filho é uma drag queen, que tem medo de se abrir para o rígido pai. Aí quando o jovem aparece como drag queen, o pastor começa a dançar de felicidade. Cadê o desenvolvimento para aquele personagem ter uma mudança tão drástica de comportamento?

Pelo menos o visual com seus cenários extravagantes é bonito. Queria ver outro filme da Gala del Sol, com um roteiro mais bem trabalhado.

Antes de encerrar, queria fazer um comentário sobre as legendas. A cópia exibida estava legendada. Mas era uma legenda muito ruim, cheia de erros. Vou então dizer a minha teoria sobre o que deve ter acontecido com as legendas neste caso aqui. Voltemos no tempo: anos atrás, os filmes eram em rolo. Legendar um filme nem sempre era algo viável, porque era necessário fazer uma nova cópia pra exibir apenas umas 3 ou 4 vezes. Por isso, anos atrás, era comum ter filmes sem legendas, ou com legendas em outra língua – e quando o filme já estava legendado, certamente ia entrar em cartaz. Aí inventaram a legenda eletrônica, uma coisa genial: as legendas ficam embaixo da tela, assim ninguém precisa fazer uma cópia do filme, pode exibir os rolos originais e depois devolver pro país de origem. Depois surgiram arquivos digitais. São arquivos grandes, não cabe num pen-drive, é um HD com o filme. Mas, é bem mais fácil e barato fazer uma cópia de um HD do que de rolos de película.

Minha teoria sobre o que aconteceu: usaram o google tradutor pra traduzir as legendas de Chove Sobre Babel – tem erros de português, erros de tradução, palavras que não foram traduzidas e muita, muita coisa com a formatação errada (tipo um espaço antes do hífen). Aí alguém deve ter pegado essa legenda que ninguém revisou e deve ter colocado no arquivo do filme. Não posso afirmar que foi isso, mas fico na torcida pra alguém revisar essas legendas se esse filme for exibido mais uma vez.

O Esquema Fenício

Crítica – O Esquema Fenício

Sinopse (imdb): Conto sombrio de espionagem que segue um relacionamento tenso entre pai e filha em uma empresa familiar. As reviravoltas giram em torno de traição e escolhas moralmente cinzentas.

E vamos para mais um Wes Anderson!

Vou copiar um parágrafo que escrevi ano passado, no texto sobre Asteroid City: “Wes Anderson é um dos poucos na Hollywood contemporânea que tem um estilo visual fácil de identificar. Seus filmes são sempre muito simétricos, cada frame é milimetricamente organizado, o cara deve ter TOC. As atuações são artificiais, mas isso parece proposital, e se encaixa bem na proposta visual.”

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, no original) segue esse caminho. Tudo simétrico e com atuações robóticas. Claro que isso não agrada qualquer público, mas precisamos reconhecer que o cara tem um estilo característico.

Agora, se falei que Asteroid City era um filme onde pouca coisa acontecia, aqui é o oposto. O roteiro de Anderson com o habitual parceiro Roman Coppola traz uma trama complexa, onde os três personagens principais se deslocam entre vários núcleos, desenvolvendo diversas negociações confusas. Algumas são bem divertidas, como o “momento basquete”, mas outras parece que estão lá só pra ter espaço pra participações especiais no elenco.

Sim, como de costume, o elenco é fantástico. Acho curioso como Anderson consegue tantos atores famosos para os seus filmes, já que é um formato que não privilegia boas atuações. E O Esquema Fenício não é diferente. Os papéis principais são de Benicio Del Toro, Mia Threapleton e Michael Cera (Mia é a única do elenco que não é conhecida, mas ela é filha de uma tal de Kate Winslet). Dentre os coadjuvantes principais, temos Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlet Johansson, Jeffrey Wright e Riz Ahmed. E ainda tem pontas de Bill Murray, F Murray Abraham, Willem Dafoe, Rupert Friend, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric e Hope Davis. Sobre as atuações, os três principais até têm personagens interessantes. O resto é tudo apático.

O Esquema Fenício é extremamente bem filmado, e tem alguns momentos hilários (ri alto com as flechas do filho do protagonista). A trilha sonora de Alexandre Desplat (outro colaborador habitual) também é boa. Mas, precisamos reconhecer que é um entretenimento para poucos…

Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Crítica – Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Sinopse (imdb): Um músico insone encontra uma estranha misteriosa, o que o leva a uma jornada que desafia tudo o que ele sabe sobre si mesmo.

Quando  recebi o convite para a cabine de imprensa de Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes (Hurry Up Tomorrow, no original), heu não tinha ideia do que se tratava o filme. Fui até catar o trailer, mas mesmo depois de vê-lo, continuei sem saber. (Normalmente evito ver trailers, mas esse heu estava na dúvida, vi para saber se valia a pena ou não.)

Achei curioso porque no pôster tinham três nomes de atores. Um nome que heu nunca tinha ouvido falar, e depois outros nomes conhecidos, Jenna Ortega e Barry Keoghan. Heu não sabia quem era esse cara principal, um tal de Abel Tesfaye, mas amigos meus me disseram que ele é o The Weeknd. Conheço a música, mas heu achava que “The Weeknd” era uma banda e não uma pessoa. Achei estranho um cara ter um nome artístico desses.

(Ok, não tenho muita moral pra falar do nome dos outros, mas achei bem estranho o cara se chamar “O Fim de Semana”. E isso acabou me gerando várias “piadinhas de tio” na cabeça, tipo, como é que será que a equipe chama ele? Ele tá na turnê, vão chamá-lo lá no quarto do hotel, “ô, seu The, vamos lá pra passagem de som?” Estranho, né?)

Ou seja, entrei no cinema sem ter ideia do que eu ia ver, e acabei vendo um videoclipe. Um videoclipe longo e chato.

Enfim, pra comentar esse filme vou precisar entrar em spoilers. Nada muito grave, não tem nada bombástico na narrativa, nenhum plot twist que vale a pena ser guardado. Mas heu sempre gosto de avisar quando eu vou entrar em spoilers, e vou falar da trama do filme. Então se você for spoilerfóbico, sugiro que pare o vídeo por aqui.

No filme a gente acompanha duas tramas em paralelo. Uma delas tem a Jenna Ortega, fugindo de alguma coisa que a gente não sabe o que que é. A outra tem um cantor e seu empresário, interpretado pelo Barry Keoghan. O cantor é Abel Tesfaye, também conhecido por The Weeknd. Ele tem mega shows em estádios lotados, e está com problemas. Problemas ligados a álcool e drogas; e problemas porque ele está querendo voltar para uma provável ex-namorada.

Acaba que os dois se encontram, ela vai no show dele e ficam juntos naquela noite. Na verdade, é uma cena bastante inverossímil, porque a Jenna Ortega tem um metro e meio de altura, e ela vai num show num estádio, e consegue chegar na grade, e quando chega lá, ele a vê, e ele sai do palco, e ela pula a grade, e consegue entrar no backstage. Na boa, ela nunca conseguiria entrar no backstage daquele jeito. Mas é filme, então a gente deixa pra lá.

Até aí o filme é bem besta. Mas, no dia seguinte daquela noite, no hotel, o filme ensaia pegar outro caminho, porque ela se mostra uma fã obsessiva. Pensei… Legal! O filme pode entrar numa onda meio Atração Fatal, onde ela vai revelar uma faceta meio obsessiva e não vai deixá-lo sair. Isso podia, finalmente, levar o filme para um caminho interessante. Mas infelizmente o filme só mostra o caminho legal, mas volta para a trama chata que estava desde o início.

Hurry Up Tomorrow me parece uma viagem de ego do The Weeknd, porque é um filme sobre um mega cantor, muito grande, muito importante – temos até um momento onde a personagem fica analisando as letras da música dele. Ok, o cara faz sucesso, respeito isso, reconheço que a música dele é boa, mas… O filme me pareceu um troço meio egocêntrico demais.

Além da história não ser boa, a forma como foi contada também não é. Me parece que o diretor, ou o diretor de fotografia, ou ambos, entraram numa de “quero ser diferente, quero ser cool, quero ser moderninho”. Então o filme abusa de luzes fortes e contrastes, além de ficar mudando o aspect ratio da tela (vários formatos de tela diferentes). Isso pode funcionar num videoclipe de 4 ou 5 minutos, mas não num longa de uma hora e quarenta e cinco.

Hurry Up Tomorrow deve funcionar para os fãs do The Weeknd (ou Abel Tesfaye). É um filme sobre ele, sobre as músicas dele. Mas eu acho que ele falhou, porque podia pensar em pessoas que não são seus fãs. Ele podia ter feito um filme para todos.