Crítica – O Agente Secreto
Sinopse (Festival do Rio): Brasil, 1977. Fugindo de um passado misterioso, Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos quarenta, volta ao Recife em busca de um pouco de paz, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.
Antes de tudo, preciso dizer que não sou um grande fã do Kleber Mendonça Filho. Respeito seu trabalho, já vi alguns dos seus filmes, mas, diferente de alguns amigos próximos, não acho nada tão genial. Vi O Som ao Redor, o filme não me disse nada. Gostei de Bacurau, mas não achei melhor que, por exemplo, Aumenta que É Rock’n’Roll. Um novo filme do Rodrigo Aragão me empolga muito mais que um novo do Kleber Mendonça Filho. Digo isso porque amigos críticos entraram na sessão de O Agente Secreto com uma pré disposição para adorarem o filme, e esse não é o meu caso.
Ou seja, reconheço que O Agente Secreto é muito bom. Mas não achei essa perfeição toda que estão propagando por aí aos quatro ventos…
O Agente Secreto acompanha a vida de Marcelo, pesquisador universitário, em Recife, em 1977. Marcelo está fugindo de algo que não é muito explicado no filme*, e vive numa espécie de pensão com outras pessoas em situação semelhante. Curiosamente, não tem nenhum agente secreto na trama.
(*O filme mostra uma discussão que Marcelo tem com um homem corrupto e poderoso. Mas essa simples discussão não seria algo grande o suficiente pro cara mandar matá-lo. Deve ter algo a mais que não é dito ao espectador – assim como a morte da esposa de Marcelo, que não explicam o que aconteceu. São coisas essenciais para acompanhar o filme? Não, o espectador pode seguir sem saber. Mas não acho que seria ruim deixar o espectador por dentro do que está acontecendo.)
Claro que vai rolar comparação com Ainda Estou Aqui, afinal são dois filmes passados nos anos 70 durante o regime militar, e O Agente Secreto é o filme brasileiro enviado ao Oscar este ano. Mas são filmes beeem diferentes.
(Um parênteses sobre o Oscar de melhor filme internacional. Cada país tem direito a enviar um filme para o Oscar. A Academia escolhe cinco, que são os que vão efetivamente concorrer. O Agente Secreto ainda não está concorrendo. É o filme enviado pelo Brasil, mas ainda não saiu a lista dos cinco que vão concorrer à estatueta.)
A ambientação de época é perfeita. O ritmo do filme é envolvente, mas, são duas horas e trinta e oito minutos, chega a cansar um pouco. A trama tem uns saltos temporais, umas inserções nos dias de hoje com duas estudantes universitárias, que são bem menos interessantes que a trama principal – essas inserções poderiam ser eliminadas do filme, ficando só o epílogo.
O elenco está muito bem. Wagner Moura está excelente, tanto que está cotado para ser indicado ao Oscar de melhor ator (existe um site de apostas para o Oscar onde Wagner figura na lista dos cinco prrováveis). Outro destaque é Tânia Maria, a senhorinha que cuida da pensão. Não me parece uma atuação, tive a impressão de que ela deve ter assim na vida real. Personagem ou não, ela é ótima. Também no elenco, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes e uma divertida ponta de Udo Kier (que já tinha trabalhado com Kleber em Bacurau).
Preciso falar da cena da “perna peluda”! No meio do filme, rola uma sequência falando de uma notícia de jornal sobre a “perna peluda”. Heu gostei da sequência, mas acho que não tem nada a ver com o resto do filme. Vemos uma perna meio apodrecida ganhar vida e pular até uma praça onde várias pessoas estão envolvidas em atos sexuais nem sempre convencionais, e a perna começa a atacar. Mas, sabe qual é o problema? É uma sequência completamente desconexa do resto do filme. Se você tirar essa sequência, a trama segue exatamente igual. Digo mais: vai ter gente incomodada com as imagens gráficas das pessoas transando em público. Mas, como disse, heu gostei. Heu veria um filme inteiro com a perna peluda!
Não gostei do final, de como a trama se encerra. Vou tentar falar evitando spoilers. O filme entra num ritmo eletrizante, com tiroteios e perseguições, e isso é interrompido por uma notícia de jornal falando como a história terminou. Ok, o espectador sabe a conclusão, mas foi bem anticlimático. Depois disso tem um epílogo que é até legal, mas a história mesmo se encerra naquela notícia de jornal, o epílogo se passa anos depois.
Agora a gente fica na torcida pra lista dos indicados ao Oscar!
Crítica – Guerra Civil




