Primitive War

Crítica – Primitive War

Sinopse (imdb): Vietnã, 1968. A equipe de reconhecimento do Esquadrão Abutre vai para um vale isolado para investigar o desaparecimento de um pelotão de boinas verdes. Sua missão toma um rumo sombrio quando descobrem uma ameaça invisível.

A premissa lembra um filme da Asylum: guerra do Vietnã com dinossauros. Mas, preciso reconhecer que o resultado aqui é bem melhor que a média da Asylum.

Primitive War é um filme australiano, baseado no livro homônimo escrito por Ethan Petrus em 2017. Não conheço o livro, vou falar só do filme. Acompanhamos uma equipe que precisa resgatar um grupo de boinas verdes. O problema é que encontram dinossauros quando chegam lá, o que muda todo o planejamento.

Claro que o grande lance são os dinossauros, principalmente em tempos onde temos alguns Jurassic World decepcionantes. E preciso dizer que quem curte dinossauros não vai se decepcionar: são muitos, de várias espécies diferentes. E alguns são ligeiramente diferentes do padrão “Jurassic Park” que estamos acostumados há 30 anos – por exemplo, alguns dinossauros têm penas! Não tem gente por aí que diz que aves são dinossauros?

Primitive War é um filme de baixo orçamento, e em algumas cenas vemos dinossauros meio toscos. Mas preciso dizer que durante a maior parte do filme o cgi dos dinossauros é muito bem feito. E se a gente pensar que Primitive War teve orçamento de 7 milhões, contra 180 milhões do último Jurassic World, o resultado ficou muito acima do esperado.

(Elogio os dinossauros, mas preciso reclamar do barulho tosco de quando o Tiranossauro Rex fecha a mandíbula. O som parece uma colher de pau batendo num balde de plástico. Talvez o cara tenha pesquisado e este talvez seja mais próximo do que deveria ser o som real. Mas, caramba, ficou muito tosco!)

Primitive War foi escrito, produzido, dirigido e editado por Luke Sparke, que ainda foi o responsável pelo design de produção e está creditado como produtor e supervisor de efeitos especiais. Vou além: Carly Sparke e Tracey Rose Sparke, mesmo sobrenome (catei no Google, não descobri se são esposa, irmã, filha, mãe… mas devem ser da família), estavam na produção, na escolha do elenco e no figurino. Ou seja, estamos diante de um projeto muito pessoal. Parabéns a Luke Sparke, mas, talvez fosse uma boa ideia ter alguém no topo da produção pra dizer “menos”… O resultado ficou muito bom, mas é longo demais. Um filme com essa temática não precisa ter mais de uma hora e meia, e Primitive War tem duas horas e treze minutos!

Primitive War chega a cansar, porque não tem necessidade de ser tão longo. Aí a gente começa a pensar em personagens inúteis, como por exemplo aquela vietnamita que andava com os russos, uma personagem tão irrelevante que nem consegui ver direito se ela sobreviveu no fim ou não. E aquele vilão russo é a coisa mais trash do filme. Não precisava disso, uma trama de soldados fugindo de dinossauros já seria suficiente.

O elenco também lembra Asylum, que costuma pegar sub celebridades hollywoodianas que precisam pagar boletos. Os principais aqui são Ryan Kwanten, que era um personagem secundário em True Blood, e Tricia Helfer, a Caprica Six de Battlestar Galactica – dois atores ok, mas que não têm muito mais a apresentar nos seus currículos. Também tem Jeremy Piven num papel menor. Ninguém está bem, mas ninguém está mal. Afinal, o importante é ver dinossauros.

O resultado final de Primitive War é bem melhor que o esperado. Ainda aguardo Luke Sparke numa produção um pouco melhor, onde alguém pode dar conselhos sobre alguns detalhes que podem melhorar sua obra. Mas fica aqui um parabéns!

Depois da Caçada

Crítica – Depois da Caçada

Sinopse (imdb): Uma professora universitária se vê em uma encruzilhada pessoal e profissional quando um aluno famoso faz uma acusação contra um de seus colegas e um segredo obscuro de seu próprio passado ameaça vir à tona.

E vamos ao novo Luca Guadagnino, filme escolhido para abrir o Festival do Rio 2025. Bem filmado, bem atuado, mas, pena, o resultado ficou meio fuén.

Depois da Caçada (After The Hunt, no original) segue Alma, que faz parte de um grupo de intelectuais da universidade de Yale. Até que Maggie, sua aluna favorita, acusa Hank, seu colega, de abuso sexual. Alma agora não sabe como lidar com as acusações, afinal ela foi mentora de ambos. Ela se encontra entre a lealdade institucional e a solidariedade; entre a ética e a autopreservação. Ao mesmo tempo vamos descobrir que ela também guarda esqueletos no armário.

Guadagnino constrói uma espiral de desconforto que propõe um estudo sobre o julgamento e o poder: quem tem o direito de decidir o que é verdade? Mas, Depois da Caçada não é um “filme do movimento MeToo”, e sim um estudo sobre o medo do erro moral – medo de ser cúmplice, de julgar injustamente, de perder prestígio.

(Leve spoiler: uma coisa que gostei no roteiro é que não sabemos ao certo quem tem razão, se é a acusadora ou o acusado. Tire suas próprias conclusões!)

Depois da Caçada é bem filmado e tem bons atores. Mas sabe quando um filme não empolga? É o caso aqui. O filme segue num marasmo interminável – são intermináveis duas horas e dezoito minutos de projeção. E um monte de diálogos com papo cabeça chato não ajudam. Pra piorar, a trama se encerra, mas depois tem um epílogo completamente desnecessário.

O elenco tem alguns bons atores, que estão ok, apesar do filme ser desinteressante. Julia Roberts e Andrew Garfield são carismáticos e estão bem. Gostei de ver Michael Stuhlbarg num papel um pouco mais importante, o cara sempre foi aquele coadjuvante que a gente nem lembra o nome. Também no elenco, Ayo Edebiri e Chloe Sevigny.

Os créditos iniciais são iguais ao estilo usado sempre por Woody Allen. Aliás, todo o filme tem um quê de Woody Allen. Será que é uma indireta porque Allen também passou por um problema semelhante?

Por fim, um comentário sobre a trilha sonora. Tem algumas músicas em português. E preciso dizer que isso atrapalhou, porque o cérebro se confunde entre prestar atenção nas legendas ou nas letras das músicas.

Tron: Ares

Crítica – Tron: Ares

Sinopse (imdb): Um altamente sofisticado programa, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa.

O primeiro Tron, de 1982, foi um grande marco nos efeitos especiais. Revisto hoje, o filme é meio besta, e os efeitos parecem vergonhosos, mas, na época, explodiu cabeças: era um filme que se passava parcialmente dentro de um computador!

(Heu nasci em 1971. Vi Tron no cinema, na época do lançamento, e achei aquilo o máximo. Mas… revi semana passada, antes de ver o novo, e constatei que os efeitos estão realmente vencidos. É tudo meio monocromático, às vezes parece até animação em rotoscopia. E os gráficos só com linhas, objetos sem volume 3D, são muito toscos.)

Foi um marco, mas até onde sei, nunca teve um grande fandom. Muita gente respeita, mas pouca gente é fã. Tanto que a continuação só veio 28 anos depois, em 2010. E Tron: Legacy é um filme tão esquecível que só me lembro da trilha sonora do Daft Punk e do efeito de rejuvenescimento digital no Jeff Bridges, que na época era novidade, mas hoje em dia já “perdeu a validade”

Mais quinze anos, e chega ao circuito o terceiro filme. Ninguém pediu, ninguém se importa, mas está em cartaz

(Antes, uma piadinha ruim sobre o nome. “Tron Três” parece trava línguas, “um tigre, dois tigres, Tron três tigres”. E “Tron Ares” soa bem parecido com o ex jogador do Fluminense, “Jhon Arias”. Quando ouço alguém falando “Tron Ares” muitas vezes me confundo.)

Dirigido por Joachim Rønning, Tron: Ares volta ao universo criado no primeiro filme, mas com uma novidade: agora os programas podem sair do computador e interagir com humanos no mundo real. Mas, mais uma vez, o resultado não empolga. Tron: Ares é um filme bonito, com efeitos especiais excelentes, uma boa trilha sonora, mas só isso. Será esquecido, assim como Tron: Legacy.

Bem, reconheço que algumas sequências são boas. Sabe aquelas motos que fazem uma “parede” por onde passam, criando um labirinto em um jogo? A gente vê uma cena com essas motos numa rua no mundo real. Ok, aquilo não faz sentido se a gente parar pra pensar, aquelas paredes de energia iam causar danos generalizados, gente ia morrer – mas a cena ficou bonita. Também gostei de uma cena que mostra um sistema sendo invadido e o antivírus reagindo, e vemos isso como se fossem guerreiros. Boa sacada.

E tem uma sequência pra afagar a memória de quem lembra do primeiro filme, uma sequência emulando o cenário e os efeitos “velhos”. Foi legal rever aqueles cenários, mas tenho um mimimi. Aparece o Jeff Bridges, cujo personagem ficou lá. Mas, caramba, é um ambiente digital, por que ele está velho? Seria mais legal vê-lo exatamente igual ao visual que ele tinha em 1982. Certamente hoje ia ficar melhor que o Jeff Bridges rejuvenescido digitalmente que a gente viu quinze anos atrás.

(Aproveito pra outro mimimi: o filme se chama Tron, mas o personagem Tron não aparece. Nada a ver!)

Comentários sobre a trilha sonora. O primeiro filme traz trilha da Wendy Carlos (pioneira do uso de sintetizadores na música clássica, autora das trilhas de Laranja Mecânica (quando ainda assinava Walter Carlos) e O Iluminado); o segundo tem a trilha assinada pelo grupo Daft Punk – ambas as trilhas são excelentes. Agora a trilha ficou a cargo da banda Nine Inch Nails, e também é um dos pontos altos do filme. Mas… Reconheço que o trabalho do Nine Inch Nails foi muito bom, mas não tem nenhum tema marcante, e o segundo filme tinha. Se heu for assistir um show, vou preferir Nine Inch Nails do que Daft Punk, mas preciso reconhecer que o Daft Punk fez um trabalho melhor.

No elenco, Jared Leto faz aquele clichê da IA que começa a questionar seu criador – mas ele mais uma vez não convence. Evan Peters se sai melhor dentro de outro clichê, o CEO rico que se acha dono do mundo. Greta Lee está apenas ok, e Gillian Anderson está desperdiçada (assim como Jeff Bridges).

Rola uma cena pós créditos com um gancho pra mais um Tron. Claro que vou ver se fizerem. Mas não faço questão.

Honey, Não!

Crítica – Honey, Não!

Sinopse (Festival do Rio): Honey O’Donahue é uma detetive particular que se envolve na investigação de mortes estranhas ligadas a uma igreja misteriosa da Califórnia liderada por um padre carismático. Conforme aprofunda o caso, Honey se depara com segredos, sedução e mentiras, embarcando numa trama que mistura mistério, humor ácido e thriller policial.

Claro que o novo filme do Ethan Coen estaria na minha lista do Festival do Rio!

Ano passado comentei Garotas em Fuga, filme anterior do diretor Ethan Coen, que aliás é bem parecido com este em vários aspectos. Mas antes de comentar Honey, Não!, um breve parágrafo pra quem perdeu o último texto: os irmãos Joel e Ethan Coen, juntos, fizeram dezenas de filmes ao longo de quase 40 anos, sempre dividindo roteiro, produção e direção. Até que, sei lá por que, começaram a trabalhar separados. Um conhecido me falou que leu uma entrevista onde eles disseram que não brigaram, mas um deles estaria cansado e queria dar um tempo. O curioso é que os dois continuam em ação, então não sei quem estaria dando o tal tempo. Enfim, separados, Joel Coen fez Macbeth, que heu não gostei; e Ethan Coen fez Garotas em Fuga, um filme “menor”, meio bobinho, mas que curti bem mais do que o pretensioso Macbeth.

Honey, Não! (Honey Don’t, no original) segue o estilo de Garotas em Fuga, e por isso vou repetir alguns trechos do que falei um ano atrás. O filme lembra o clima amalucado de algumas produções dos Coen dos anos 80, como Arizona Nunca Mais, ou ainda Crimewave, dirigido por Sam Raimi mas com roteiro dos Coen. Não é um grande filme, na verdade, parece uma cópia meio tosca do que os irmãos faziam. Mas, assim como o filme anterior, é divertidíssimo!

Honey, Não! traz alguns elementos que eram frequentes em filmes dos irmãos, como personagens secundários bizarros e caricatos, e humor negro misturado com violência. Além disso tem cenas de sexo bem gráficas, talvez incomode parte do público. Garotas em Fuga era um road movie, Honey, Não! é um policial. Pelo pôster, achei que ia ter uma pegada de exploitation, mas ficou só na impressão.

O roteiro podia ser melhor, algumas coisas não são bem desenvolvidas, como por exemplo o pai da protagonista. E achei que faltou uma construção melhor na revelação do assassino. Mas, a proposta era um filme B…

No elenco, novamente Margaret Qualley protagoniza, desta vez ao lado de Aubrey Plaza e Chris Evans, todos estão bem. Também no elenco, Lera Abova, Don Swayze e um Charlie Day completamente sem noção, no limite entre o insuportável e o muito engraçado.

O roteiro é assinado por Ethan Coen e sua esposa Tricia Cooke. O casal prometeu uma trilogia de filmes B lésbicos. Ou seja, em breve teremos mais um filme neste mesmo estilo. Segundo o que achei no Google, o próximo será Go, Beavers!

Conversei com alguns amigos, a maioria não gostou de Honey Não!. Heu concordo que é um filme “menor” (assim como Garotas em Fuga). Mas me diverti assistindo. Quero ver Go, Beavers!

Coração de Lutador

Crítica – Coração de Lutador

Sinopse (imdb): A história do campeão de artes marciais mistas e do UFC, Mark Kerr.

De vez em quando a gente vê astros de blockbusters em projetos que parecem feitos para tentar ganhar prêmios de atuação. Chegou a vez do Dwayne Johnson.

Dono de um carisma enorme, Dwayne Johnson, também conhecido como The Rock, é um dos maiores nomes da Hollywood contemporânea. Mas, precisamos reconhecer que ele sempre está igual em todos os filmes, parece que sempre repete o mesmo personagem. E aqui, em Coração de Lutador (The Smashing Machine, no original), ele finalmente mostra que sabe atuar.

Pena que o filme não é lá grandes coisas…

Antes de tudo, preciso falar que não acompanho MMA. Nunca tinha ouvido falar de Mark Kerr. Ou seja, meus comentários serão só sobre o filme, não entrarei em comparações com a vida real.

Situado no fim dos anos 90, Coração de Lutador mostra três anos da carreira de Mark Kerr, numa época que o vale tudo era mais violento e pagava menos do que hoje. Kerr foi um nome importante para a época. Vemos algumas de suas lutas, ao mesmo tempo que acompanhamos seus problemas com drogas e um relacionamento nada saudável com a namorada Dawn (interpretada pela Emily Blunt, que já tinha trabalhado com Dwayne Johnson em Jungle Cruise).

A direção e o roteiro são de Benny Safdie, que fez o elogiado Joias Brutas (filme que não vi). Curiosamente, Joias Brutas também é estrelado por um ator com fama de fazer sempre o mesmo tipo de personagem, Adam Sandler. A diferença é que Sandler já tinha mostrado que sabe atuas em outros (poucos) filmes.

Coração de Lutador tem um problema grave: é um filme de luta com cenas de lutas mal filmadas. Alguns filmes que mostram esportes capricham em momentos decisivos, mas aqui não tem nenhuma cena memorável. Podiam ter pensado em melhores coreografias e ângulos de câmera. Lembro de Creed, um filme que não curti muito, mas que tem uma sensacional luta em plano sequência que vale o ingresso.

Sobre o Dwayne Johnson, li no imdb que ele teria perdido quase 30 kg para o papel. Mas como ele sempre foi um cara muito grande, confesso que nem reparei se ele estava menos forte. Agora, ele com cabelo ficou realmente diferente. Tem uma cena onde ele raspa o cabelo, aí volta a ficar o The Rock que a gente está acostumado.

Ah, sim, ele está atuando bem. Pela primeira vez, vemos Dwayne Johnson em um papel diferente do de sempre. Agora, se isso é o suficiente pra ganhar um Oscar, aí é outro papo – acabei de ver o Sean Penn em Uma Batalha Após a Outra, aquela atuação realmente merece um Oscar. Mas, sim, Dwayne Johnson está muito bem e provou que sabe atuar.

O único outro nome conhecido no elenco é Emily Blunt. Os outros dois nomes mais importantes do elenco, o amigo e o treinador, são interpretados por nomes ligados à luta na vida real: Ryan Bader, que é lutador, e Bas Rutten, ex lutador que treinou Mark Kerr.

Coração de Lutador não é lá grandes coisas, e ainda piora por causa de um final horroroso, daquele que deixa o espectador com gosto ruim na boca ao fim da sessão. O filme fala da carreira do Mark Kerr durante alguns anos no fim dos anos 90. Aí no fim tem um epílogo, nos dias de hoje, com o Mark Kerr real, num mercado, como se estivesse sendo filmado por um paparazzi. O problema é que se o espectador não conhece o Mark Kerr, fica se perguntando “quem diabos é esse cara?” Um filme mostrar fotos do personagem real durante os créditos é uma coisa legal. Mas um trecho de filme com o cara? Pra que???

Parabéns pro Dwayne Johnson, boa atuação. Agora aguardemos um filme melhor.

A Grande Viagem da Sua Vida

Crítica – A Grande Viagem da Sua Vida

Sinopse (imdb): Um conto imaginativo de dois estranhos e a inacreditável jornada que os conecta.

Quando recebi o convite para a sessão de imprensa de A Grande Viagem da Sua Vida, fui ver o imdb. Pelas imagens coloridas e pela sinopse “um conto imaginativo”, “inacreditável jornada”, achei que tinha cara de ser algo fora da caixinha. Podia ser ruim com força, ou podia ser uma agradável viagem.

A notícia é boa. A Grande Viagem da Sua Vida é um filme romântico, mas com um pé no bizarro. Isso o diferencia de outros filmes românticos bestas, como o recente Amores Materialistas, que é tão “água de salsicha” que nem tive vontade de comentar aqui no heuvi.

(Ouvi gente dizendo que A Grande Viagem da Sua Vida é uma comédia romântica. Olha, tem algumas cenas engraçadas (ri alto na piada sobre a idade da Margot Robbie), mas não chamaria este filme de comédia. O drama é bem mais forte.)

Logo de cara o filme já flerta com o fantástico. Coisas surreais vão acontecendo com os personagens, tipo conversar com o GPS do carro ou encontrar portas mágicas espalhadas pela paisagem. Nunca tinha ouvido falar do diretor Kogonada, fiquei até curioso em procurar outros trabalhos dele. Gostei de como ele conduz a história, sem explicar o que está acontecendo. Apenas relaxe e se deixe levar.

Claro que o grande chamariz para o filme é o casal de atores principais, Margot Robbie e Colin Farrell. Ambos estão muito bem, e convencem em suas jornadas. E foi divertido ver Colin Farrell cantando num teatro musical de escola. Aliás, o filme todo é basicamente só com os dois – Phoebe Waller-Bridge tem um papel pequeno no início e no final do filme, e Kevin Kline tem uma participação tão rápida que nem reconheci quando ele apareceu.

Também queria elogiar a trilha sonora de Joe Hisaishi, com temas que às vezes lembram o minimalismo do Philip Glass. A fotografia também chama atenção.

Por ser “fora da caixinha”, vai ter espectador incomodado. Mas heu gostei do filme romântico com um pé no bizarro.

A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Crítica – A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Sinopse (imdb): Um grupo de adolescentes participa de um concurso anual conhecido como “The Long Walk”, no qual eles devem manter uma certa velocidade de caminhada ou levar um tiro.

É um bom ano pra quem gosta de adaptações de Stephen King. Já tivemos O Macaco e A Vida de Chuck. A Longa Marcha – Caminhe ou Morra é o terceiro de 2025. E mais pro fim do ano deve estrear O Sobrevivente.

O livro A Longa Marcha foi lançado em julho de 1978. Segundo a Wikipedia, foi o sexto livro escrito por Stephen King, sob o pseudônimo de Richard Bachman (por coincidência, em O Sobrevivente ele também usou o mesmo pseudônimo). Segundo o imdb, George Romero pretendia adaptar o livro em 1988, mas não rolou. Anos depois, nos anos 2000, Frank Darabont chegou a comprar os direitos, mas não desenvolveu o filme e o prazo expirou.

Por que demorou tanto tempo? Não sei. Mas, visto hoje, parece uma versão de filmes de distópicos para jovens adultos, como Jogos Vorazes. Quando Stephen King escreveu o livro, ele tinha em mente a Guerra do Vietnã, e como jovens eram levados para a morte. Mas, nos dias de hoje, quando estamos acostumados com reality shows, a trama ganhou outro olhar. 50 jovens participam de uma prova onde precisam andar, sempre no mesmo ritmo. Quem parar ou apenas diminuir o ritmo morre executado. O jogo só acaba quando só sobra um vivo. Consigo ver essa prova – sem as mortes – transmitida pela tv.

A direção é de Francis Lawrence – coincidência ou não, diretor de três Jogos Vorazes. O roteirista é JT Mollner, do excelente Strange Darling. Admito que quando li o nome do roteirista, achei que veria algo fora do convencional, mas, diferente daquele filme, o roteiro aqui é linear. Mesmo assim, o roteiro é muito bom, são muitos bons diálogos, dá vontade de continuar acompanhando aquela galera e suas histórias.

O protagonista Cooper Hoffman declarou que durante as filmagens eles andavam 15 milhas por dia – disse que foram 400 milhas no total. Parte do cansaço mostrado pelos personagens é real! As filmagens foram em ordem cronológica, e os atores não se conheciam antes. Ao longo dos dias de filmagem andando, eles foram se conhecendo melhor. Boa sacada, isso acontece com os personagens ao mesmo tempo que com os atores.

O elenco traz jovens ainda pouco conhecidos, como Cooper Hoffman (Licorice Pizza), David Jonsson (Alien Romulus), Ben Wang (Karate Kid Lendas) e Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit). São apenas dois nomes famosos entre os “adultos”, Judy Greer, como a mãe do protagonista, e Mark Hamill como o Major, o grande símbolo do autoritarismo desta sociedade distópica.

A Longa Marcha está sendo vendido como filme de terror. Acho isso um erro. O filme fica entre o thriller e o drama, não tem nada de terror. Talvez apenas a primeira morte seja um pouco mais gráfica. Provavelmente vai ter espectador decepcionado nas salas de cinema.

Queria comentar a cena final. Mas, claro, é a cena final, preciso de um aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

No fim, sobram os dois principais, que chegam a um local onde tem uma multidão em volta. Quem ganhar tem direito a um desejo. Ray diz que ia pedir uma carabina pra matar o Major – que anos antes matou seu pai. Mas Ray desiste da prova pra deixar McVries ganhar. McVries então resolve vingar o amigo, pede a carabina e mata o major. Depois, larga a carabina no chão, e segue andando. Mas vejam que ele agora está sozinho, não tem mais ninguém em volta. Cadê a multidão? O filme não deixa claro, mas a minha interpretação é que mataram ele quando atirou no major. O que você acha que aconteceu?

FIM DOS SPOILERS!

A Longa Marcha teve uma sessão em SP com esteiras para alguns espectadores assistirem ao filme andando. Boa ideia, deve ser uma boa experiência, pena que não teve no Rio.

Red Sonja (2025)

Crítica – Red Sonja (2025)

Sinopse (imdb): Uma adaptação da história em quadrinhos Red Sonja, uma guerreira vingativa conhecida como “Diabo com uma espada”.

40 anos depois, temos um novo filme da Red Sonja!

Antes do filme, um breve comentário sobre o nome “Sonja”. Na minha juventude, sempre ouvi “Sonja”, com som de “J”. Mas sei que em alguns idiomas o “J” tem som de “I”, e achava que deveria ser “Sonia”. Bem, prestei atenção no filme, a pronúncia é “Sonia” mesmo.

(Lembro do meu ensino fundamental, em Petrópolis, tinha uma coleguinha chamada “Vanja”, todos pronunciavam com som de “J”, inclusive ela. Me pergunto se era realmente essa a pronúncia correta…)

Enfim, vamos ao novo Red Sonja. Mas antes um aviso. Nunca li os quadrinhos da personagem, e não me lembro de nada do filme de 1985, que aqui no Brasil ganhou o título Guerreiros de Fogo, estrelado por Brigitte Nielsen e Arnold Schwarzenegger. Ou seja, os comentários serão só sobre o filme de 2025.

Vi no imdb que, ao longo de décadas, houve várias tentativas de se fazer um novo filme com a personagem, incluindo uma versão em 2008 que seria dirigida pelo Robert Rodriguez e estrelada pela Rose McGowan (e que certamente ia ser melhor do que esta versão). Também rolava uma ideia de que estaria no mesmo universo do Conan estrelado pelo Jason Momoa, de 2011. Foram várias trocas de diretor e elenco e vários atrasos de lá pra cá.

Dirigido por MJ Basset e estrelado por Matilda Lutz, Red Sonja tem um problema grave: parece uma produção de baixo orçamento para a TV, de algumas décadas atrás. Durante o filme, me lembrei de Legend of the Seeker, seriado meia boca do mesmo estilo “guerreiros e feitiçaria” que passava em alguma TV a cabo. Não era ruim, mas era bem tosquinha.

Claro, os efeitos especiais em cgi aqui são bem fracos. Tem uma cena com um ciclope gigante que parece PlayStation velho. Mas quem me conhece sabe que isso nem me incomoda muito. Porque, pra mim, o pior foram as batalhas – todas ruins. No mesmo ano que vimos a Ana de Armas em Bailarina, foi triste ver as cenas de ação, todas mal coreografadas e mal filmadas. Tem até algum sangue lááá longe, mas a violência é quase zero, os golpes nunca mostram o que foi golpeado. Essa pobreza visual reforça a cara de produto de baixo orçamento pra TV.

(Curioso lembrar que poucos anos atrás a mesma Matilda Lutz fez Vingança, que é bem mais violento e tem muito mais sangue!)

Tudo é muito “limpo”. Zero nudez, pouca violência. Não conheço as HQs, mas desconfio que devia ter uma proposta mais, digamos “apelativa”. E quase que o filme foi nesse sentido, olha o que li no imdb: “Durante o longo e caótico desenvolvimento deste segundo filme da Red Sonja, que começou em algum momento no início dos anos 2000, a maioria dos roteiros iniciais sempre incluía muita nudez feminina e violência sangrenta e gráfica. Por exemplo, no roteiro de 2001, havia uma cena prolongada em que Sonja era perseguida enquanto nadava nua em um lago e, em seguida, tinha que lutar nua contra agressores monstruosos que tentavam agredi-la sexualmente.” Não sei se ia ser melhor ou pior, mas seria um filme bem diferente deste.

Se tem um elogio que posso fazer é para alguns cenários com esculturas gigantes em volta. Provavelmente tudo em cgi, mas ficou bonito. E sobre o visual, uma coisa curiosa: na primeira vez que Sonja vai pra arena, ela recebe um biquíni de metal, e rola um diálogo que ela tem que usar aquilo que não protege nada, só porque o público gosta. Ok, ela era uma escrava transformada em gladiadora, precisava usar isso. Mas, depois que se liberta, por que continua com o biquíni de metal até o fim do filme?

No elenco, Matilda Lutz não faz feio, mas ela não tem o porte físico que uma personagem dessas pede, nem as habilidades de lutas para convencer o espectador. Para Anônimo, Bob Odenkirk praticou lutas por dois anos – e quando o vemos em tela, ele convence, apesar de não ter o porte físico. Talvez Matilda precisasse praticar mais. No resto do elenco, achei curioso ver Rhona Mitra em um papel pequeno – pelo que entendi ela esteve cotada para estrelar uma das várias tentativas durante os vários anos de pré produção, devem ter oferecido um papel para ela como prêmio de consolação. O resto do elenco todo é de atores ruins e desconhecidos.

Red Sonja tem tanta cara de produto pra TV que a história fecha, mas tem uma cena no fim com um gancho para uma nova aventura – inclusive cita o “rei bárbaro da Ciméria”, que provavelmente deve ser o Conan. Semana que vem, no mesmo canal!

Invocação do Mal 4: O Último Ritual

Crítica – Invocação do Mal 4: O Último Ritual

Sinopse (imdb): Quando Ed e Lorraine Warren, o casal de investigadores paranormais, se encontram presos a mais um medonho caso envolvendo criaturas misteriosas, eles se veem na obrigação de resolverem tudo pela última vez.

Os dois primeiros Invocação do Mal, de 2013 e 2016, foram dirigidos por James Wan, um dos maiores nomes do terror contemporâneo, e são dois filmes muito acima da média. E o que acontece com Hollywood quando um filme faz sucesso? Continuações e spin offs, claro. Pena que quase sempre com qualidade inferior.

Aqui, no “Invocaverso”, este é o nono filme. É a terceira continuação de Invocação do Mal, e foram dois spin offs, Annabelle (que teve duas continuações) e A Freira (uma continuação). Rolou um boato de que A Maldição da Chorona ia entrar no Invocaverso, mas não vi nenhuma confirmação sobre isso. James Wan só dirigiu os dois primeiros, e, sim, os sete outros filmes são mais fracos.

Os quatro Invocação do Mal trazem como protagonistas o casal Ed e Lorraine Warren, que, pra quem não sabe, existiu na vida real. Eles realmente eram investigadores de fenômenos paranormais. Ou seja, parte do que vemos nos filmes é real.

A direção deste quarto filme é de Michael Chaves, que já tinha dirigido o terceiro Invocação (além de A Freira 2 e A Maldição da Chorona). Chaves parece querer emular o estilo de câmera do “patrão” James Wan, e às vezes até consegue. Serei generoso: neste Invocação do Mal 4 ele consegue um bom resultado. Não é melhor que os primeiros, mas diria que é melhor que o terceiro. Chaves consegue criar um bom clima e alguns dos jump scares são bem bolados. Vou além: algumas cenas são muito boas. Tem uma cena envolvendo um quarto escuro e um fio de telefone que é simples e muito eficiente, e a cena dos espelhos na prova do vestido de noiva é sensacional. Ah, preciso citar a trilha sonora, muito bem usada.

Agora, nem tudo funciona. O filme às vezes não se decide se a gente vai acompanhar a família que comprou o espelho assombrado, ou os momentos onde a filha do casal Warren tem problemas com a sua crescente mediunidade. E teve uma coisa que achei bem mal feita: vemos três fantasmas ligados ao espelho, mas em determinado momento a gente descobre que existe um mal maior por trás dos fantasmas, e o filme não chega a desenvolver esse mal. Ora, se não é pra ter isso no filme, por que não ficar apenas nos fantasmas?

No elenco, Vera Farmiga e Patrick Wilson continuam ótimos como o casal Warren. Tem um prólogo com eles mais novos, são outros atores, o homem é até parecido com Patrick Wilson, mas a mulher é bem diferente, acho que podiam ter chamado a Taissa Farmiga, irmã da Vera, 21 anos mais nova, bem mais parecida (apesar de Taissa estar em A Freira). Trocaram a atriz que faz a filha Judy, no terceiro filme era Sterling Jerins, agora é Mia Tomlinson, deve ser porque neste filme a filha já é adulta – mas não duvido que Judy Warren apareça em algum spin off.

O final do filme é bem “final de novela”. Preste atenção nas pessoas que estão na plateia do evento, são personagens dos outros filmes da saga. Provavelmente Invocação do Mal acaba aqui. Agora, os Warren têm um quarto com centenas de objetos assombrados ou possuídos. Claro que os spin offs devem continuar.

Ladrões

Crítica – Ladrões

Sinopse (imdb): O ex-jogador de beisebol Hank Thompson se envolve em uma perigosa luta pela sobrevivência em meio ao submundo do crime da Nova York dos anos 90, forçado a navegar em um submundo traiçoeiro que ele nunca imaginou.

A primeira coisa que precisamos falar do novo filme dirigido por Darren Aronofsky é que não tem cara de Darren Aronofsky. Não sei se foi um trabalho encomendado por um estúdio, ou se o diretor simplesmente resolveu variar o estilo. Isso pode ser uma boa ou uma má notícia, dependendo se você é fã dos filmes dele ou não. O fato é que não se deve esperar um filme no estilo que ele está acostumado a apresentar.

Lembro de quando vi Pi em alguma TV a cabo no início do século. Vi algum valor no filme, mas definitivamente não gostei. Aliás, o único filme do Aronofsky que realmente gosto é Cisne Negro – mas reconheço qualidades em outras obras, como Réquiem Para um Sonho, Noé e Mãe. Seus filmes normalmente são cheios de simbolismos, sempre têm um pé no filme cabeça. E Ladrões (Caught Stealing, no original) não tem nada disso. Além de ser bem humorado, é um filme mais, digamos, direto – o que heu não acho nada ruim, diga-se de passagem.

(Na saída da sessão de imprensa, um amigo comentou que Ladrões parecia um filme do Guy Ritchie. Ok, a comparação tem lógica, Ladrões tem violência, humor e personagens marginais esquisitões. Mas, pelo menos pra mim, o “estilo Guy Ritchie” tem mais a ver com edição de cortes rápidos do que personagens esquisitos. Dito isso, ok, concordo que poderia ser um novo Guy Ritchie.)

Nova York, anos 90. Quando mais jovem, Hank (Austin Butler) era uma promessa no baseball, mas sofreu um acidente e teve que largar o esporte. Vive como barman e tem uma vida tranquila com a namorada. Até que Hank recebe um pedido de seu vizinho punk para que cuide do seu gato enquanto ele precisa viajar, e isso o coloca no meio de uma briga entre violentos mafiosos ucranianos e igualmente violentos judeus ortodoxos. E cada dia que se passa, Hank está mais envolvido, mesmo sem ter nada a ver com isso inicialmente.

O clima é meio Depois de Horas, do Scorsese. Em ambos os filmes, o protagonista quer voltar à sua vida normal, mas continua cada vez mais envolto em uma situação onde ele não queria estar. Aronofsky disse que foi coincidência, mas Griffin Dunne, protagonista de Depois de Horas, tem um papel aqui.

Aliás, Ladrões tem um elenco estelar, e todos estão muito bem. Austin Butler está muito bem, num papel bem diferente dos seus dois papéis famosos recentes, em Elvis e Duna. Confesso que não reconheci Griffin Dunne, quando subiram os créditos deu vontade de “rebobinar a fita” pra ver o personagem. Matt Smith está engraçadíssimo como o punk, e Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio estão quase irreconhecíveis como os judeus ortodoxos. Também no elenco, Regina King, Zoë Kravitz, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov, Bad Bunny, Carol Kane e Tenoch Huerta – o Namor da Marvel – tem uma ponta no finzinho do filme. Ah, passamos o filme todo ouvindo a voz da mãe do protagonista, mas ela só aparece em uma cena no meio dos créditos, e vemos que é a Laura Dern – não creditada. Por fim, o gato é interpretado por Tonic the Cat, em seu terceiro filme! (os outros foram Cemitério Maldito de 2019 e Feriado Sangrento).

Ladrões tem um bom ritmo. O clima é tenso, tudo se passa em alguns dias, e estamos sempre acompanhando as roubadas onde o protagonista está envolvido. O filme é bem violento, mas sabe equilibrar com alguns momentos bem engraçados.

Pra quem curte ver créditos: foram animados no ritmo da música e ficam mudando o tempo todo. Boa sacada.

Como falei no início, Ladrões não tem cara de Aronofsky. Mas reconheço que gostei desta nova faceta do diretor.