Anaconda (2025)

Anaconda (2025)

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos que enfrenta a crise da meia-idade se prepara para refazer seu filme juvenil favorito, mas quando entram na selva, as coisas ficam feias.

Quando soube de um novo Anaconda, fui catar a versão de 1997 pra rever. Aquele filme é bem ruim. Mas, pelo trailer, esta nova versão parecia que ia ser mais divertida. E meu pressentimento estava certo. O novo Anaconda é divertidíssimo!

O protagonismo aqui é dividido entre o Jack Black e o Paul Rudd. Quando adolescentes, eles faziam curtas amadores com mais dois amigos; hoje, Jack Black faz vídeos de casamento, enquanto Paul Rudd é um ator frustrado em Hollywood. A turma se reúne para fazer um remake de baixíssimo orçamento do Anaconda de 97, quando uma equipe vai pro Amazonas fazer um documentário sobre uma tribo indígena e é atacada por uma cobra gigante. Mas a grande diferença é que aquele filme se levava a sério, enquanto aqui a galhofa é assumida. Ri alto diversas vezes ao longo da sessão!

Teve uma cena que achei simples e genial, logo no início do filme, quando conhecemos o trabalho do Jack Black. Ele descreve como seria a ideia dele do vídeo de casamento, e começa a cantarolar a música que ele imaginou para a cena, e a trilha do filme começa a acompanhar o que ele está cantarolando. No cinema, música diegética é aquela que os personagens estão ouvindo, tipo o Jack Black cantarolando; música não diegética é quando só o espectador ouve, é a trilha sonora que está acompanhando o cantarolar. Gosto quando um filme quebra essa barreira entre a música diegética e a não diegética.

(Preciso dizer que me identifiquei com o momento que eles se reúnem pra rever o filme que fizeram quando adolescentes. Assisti Anaconda ao lado do Eduardo Miranda, do canal Projeto Cinevisão, e ele estava comigo quando filmei O Boitatá, um dos meus primeiros curtas, há quase 14 anos…)

A direção é de Tom Gormican, o mesmo de O Peso do Talento, aquele filme onde um milionário quer conhecer o Nicolas Cage. Ou seja, o cara sabe brincar com a metalinguagem, usando piadas ligadas ao cinema. E aqui são várias, tem algumas geniais – a do Jordan Peele é sensacional! Aliás, a única coisa boa de ter revisto Anaconda de 97 foi pegar o contexto de todas as piadas sobre aquele filme.

No resto do elenco, o destaque vai pra Selton Mello, e juro que isso não é um comentário bairrista. Selton faz um brasileiro que cuida de cobras. Ele não é um dos principais, mas ele tem um papel bem grande, e posso dizer tranquilamente que ele rouba todas as cenas que aparece. Um dos momentos mais engraçados do filme é quando estão conversando sobre cabeçadas, ele fala de colocar um “brazilian twist” e grita “TOMA!”, e todo o elenco começa a gritar “TOMA!” com ele. Não li em lugar algum, mas não acharia estranho isso ser sugestão do próprio Selton – duvido que um roteirista gringo tenha pensado em gritar “TOMA!” no meio de uma cena de briga. No resto do elenco, Thandiwe Newton, Steve Zahn e Daniela Melchior. Aliás, Daniela, que é portuguesa, aparece falando português, mas sem nenhum sotaque, me pareceu dublada.

(No cinema tinham duas salas passando Anaconda, uma com a cópia dublada e a outra, legendada. Quando o filme começou, com um diálogo em português, fiquei com medo de ter entrado na sala errada. Não, são só algumas cenas em português.)

Aliás, assim como tem uma atriz portuguesa que parece dublada, nos créditos descobri que Anaconda foi filmado na Austrália. Ué, por que não filmar no Amazonas? Pelo menos ouvimos diálogos e lemos cartazes em português. Décadas atrás Hollywood não respeitava isso – inclusive no filme de 97 tem um personagem brasileiro que fala português com sotaque.

(E todo brasileiro vai dar uma gargalhada ao ver que, dos EUA pro Amazonas, eles passam pelo Rio de Janeiro. Tem uma cena mostrando o Corcovado!)

Os efeitos especiais são apenas ok. Em algumas cenas, a cobra não convence. Sorte que o objetivo do filme é galhofa e não mostrar uma cobra assustadora.

Agora, se por um lado o roteiro é bem divertido, por outro precisamos reconhecer que são várias forçadas de barra. Sem spoilers, mas o modo como a cobra é derrotada no final não fez o menor sentido! Além disso, tem uma sequência envolvendo um personagem fazendo xixi que achei uma piada ruim e demasiadamente prolongada.

Ah, tem cenas pós créditos. Uma delas é genial, mostra um videozinho de casamento feito pelo Jack Black. E tem um possível gancho pra continuação. Que seja tão divertido como este!

 

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Os Roses – Até que a Morte os Separe

Crítica – Os Roses – Até que a Morte os Separe

Sinopse (imdb): O ciúme de um casal aparentemente perfeito irrompe quando a carreira profissional do marido implode, revelando rachaduras na fachada de sua vida familiar ideal.

Antes de ver a refilmagem, fui rever o original, que heu não via provavelmente desde a época. Lançado em 1989, A Guerra dos Roses trazia o mesmo trio de atores principais de Tudo Por uma Esmeralda e a Joia do Nilo, Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, e por isso, na época, teve gente achando que era uma continuação. Mas não, nada a ver, é uma história completamente diferente.

Dirigido por DeVito, o filme contava a história de um casal antes apaixonado que aos poucos começa a se odiar cada vez mais. O humor é meio cartunesco, algumas coisas são muito exageradas. É uma comédia divertida, mas algumas coisas envelheceram bem mal – ele mata o gato dela, e depois o filme dá a entender que ela fez patê com o cachorro dele (aparece um cachorro, meio que pra limpar a barra, mas o filme não confirma nem sim nem não).

A direção agora é de Jay Roach, diretor dos três filmes do Austin Powers. Os Roses – Até que a Morte os Separe (The Roses, no original) não quer ser igual ao filme anterior. Na verdade, só o argumento é igual: casal antes apaixonado começa a se odiar cada vez mais. Mas todo o desenvolvimento é bem diferente, nem os personagens têm os mesmos nomes.

A refilmagem é mais “pé no chão”, as brigas são menos exageradas, o que combina mais com os dias de hoje. Inclusive, achei que as motivações para a separação aqui são melhor exploradas: ele a inveja por causa do sucesso profissional; ela o inveja por causa do maior contato com os filhos.

O melhor de Os Roses é o casal de protagonistas. Afinal, Benedict Cumberbatch e Olivia Colman são grandes atores, e é sempre agradável vê-los em tela. O carisma da dupla segura o interesse do espectador até o fim do filme. Já o resto do elenco é apenas ok. Allison Janney só aparece em uma cena; Andy Samberg aparece mais mas tem pouco espaço. Só não gostei da Kate McKinnon, que repete o mesmo estilo de piadas sem noção que ela costuma fazer em outros filmes.

Os Roses – Até que a Morte os Separe não é um grande filme, mas é uma diversão honesta. Pena que veio logo depois de Corra que a Polícia Vem Aí, que é bem mais engraçado.

Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Crítica – Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Sinopse (imdb): Apenas um homem tem as habilidades necessárias para liderar o Esquadrão Policial e salvar o mundo.

Lembro quando anunciaram o novo Corra Que a Polícia Vem Aí. Não tenho ideia do motivo de terem escalado Liam Neeson para o papel principal – talvez pela piada besta dele ter o sobrenome parecido com o protagonista anterior, Leslie Nielsen. Enfim, não sei o motivo, mas posso afirmar que foi uma boa escolha. Corra Que a Polícia Vem Aí é divertidíssimo, e Liam Neeson está ótimo no papel!

Mas antes de entrar no filme, uma pequena recapitulação. Nem todos lembram, mas antes do primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí, existiu um seriado, lançado em 1982, que acho que não passou nas tvs brasileiras na época, mas tenho certeza de que foi lançado em VHS no fim dos anos 80 ou início dos 90 (sei disso porque heu vi, eram só seis episódios de vinte e poucos minutos cada, dava pra ver tudo alugando as fitas). A série era uma criação do trio ZAZ, David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, os mesmos criadores de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu e Top Secret, duas das melhores comédias nonsense da história do cinema. Lançado em 1988, o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí foi dirigido por David Zucker com roteiro do trio, e o mesmo aconteceu com o segundo, Corra Que a Polícia Vem Aí 2 1/2, de 1991. Em 94 fizeram o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3, que já tinha outro diretor e outro roteirista.

Anos se passaram, agora chegou a continuação, Corra Que a Polícia Vem Aí (o mesmo nome, problema semelhante ao recente Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado – por que não colocar um número???). Nenhum dos três ZAZ está presente aqui. A direção é de Akiva Schaffer, diretor do excelente (e pouco conhecido) Tico e Teco e os Defensores da Lei. A boa notícia é que Schaffer consegue recriar o estilo de humor nonsense semelhante ao do trio. Sabe aquele humor absurdo, tipo o protagonista mastigar um revólver para mostrar que é muito forte? Poizé, isso acontecia naqueles filmes e também acontece aqui.

Vou além: Schaffer também usa uma coisa que heu chamo de “piada em duas camadas” (nem sei se esse termo existe), que é quando o filme está contando uma piada, e lá ao fundo acontece outra piada diferente. Tipo quando, logo no início,  Frank Debrin entra na delegacia e estão tirando a foto de um suspeito (o “mugshot”) e tem um ventilador pro cabelo do suspeito ficar esvoaçante. Isso não é importante pra trama, é algo que está lá ao fundo – mesmo assim, é uma piada bem construída e bem executada. Isso tinha de monte nos filmes dos ZAZ, Schaffer soube recriar a ideia, você pode rever o filme e encontrar novas piadas que estão ao fundo das cenas.

Há tempos heu não via uma comédia tão engraçada numa sala de cinema. Atualmente, os filmes mais engraçados são os filmes de super herói, tipo Deadpool e Wolverine. Fui checar aqui no heuvi, de um ano pra cá só vi seis comédias: Golpe de Sorte em Paris, Anora, Operação Natal, Lobos, Bridget Jones e O Esquema Fenício – nenhum dos seis chega a causar gargalhadas. Vou te falar que Corra Que a Polícia Vem Aí sozinho tem mais piadas que todos os seis somados!

(Vou falar uma heresia. Semana passada revi o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí de 1988, pra me lembrar do clima do filme. E preciso dizer que ri mais neste novo filme de 2025.)

E, assim como Leslie Nielsen funcionava muito bem como o Frank Debrin pai nos filmes dos anos 80 e 90, Liam Neeson aqui está ótimo. O personagem tem que ser um cara completamente sem noção, e manter uma expressão séria diante de vários absurdos. Heu ia dizer que é o melhor filme do Liam Neeson em muito tempo, mas isso é fácil, ele só tem feito porcarias de um bom tempo pra cá. Ah, curiosidade: não parece, mas Liam Neeson hoje é bem mais velho do que Leslie Nielsen quando fazia os filmes. Neeson está com 72 anos; Nielsen tinha 67 quando filmou o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3.

Claro, nem todas as piadas funcionam. Mas é uma crítica que também faço aos filmes antigos, porque não acho graça em “piada de pum” – como quando Frank Debrin está mostrando as filmagens da câmera corporal e a gente vê que ele teve diarreia. Mas, como esse estilo de piada também estava nos outros filmes, não cabe reclamar agora – no primeiro filme, Frank Debrin vai ao banheiro com um microfone de lapela ligado ao som de uma entrevista coletiva. Mesmo assim, as boas piadas superam as piadas ruins.

No elenco, o único nome que vale ser citado além de Neeson é Pamela Anderson, que entrou bem no clima das piadas absurdas. Também no elenco, Danny Houston, Kevin Duran, Paul Walter Hauser e CCH Pounder.

No fim do filme, são duas cenas pós créditos. Mas as piadas não ficam só nessas duas cenas. Tem uma música nos créditos que é continuação de uma piada do filme; e ao longo dos créditos, várias piadinhas espalhadas. Vale ficar pra ler.

Por fim, a sessão de imprensa foi dublada, o que achei ruim. Entendo que queiram adaptar algumas piadas para o público brasileiro, mas sempre acho que um filme perde com a dublagem.

O Esquema Fenício

Crítica – O Esquema Fenício

Sinopse (imdb): Conto sombrio de espionagem que segue um relacionamento tenso entre pai e filha em uma empresa familiar. As reviravoltas giram em torno de traição e escolhas moralmente cinzentas.

E vamos para mais um Wes Anderson!

Vou copiar um parágrafo que escrevi ano passado, no texto sobre Asteroid City: “Wes Anderson é um dos poucos na Hollywood contemporânea que tem um estilo visual fácil de identificar. Seus filmes são sempre muito simétricos, cada frame é milimetricamente organizado, o cara deve ter TOC. As atuações são artificiais, mas isso parece proposital, e se encaixa bem na proposta visual.”

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, no original) segue esse caminho. Tudo simétrico e com atuações robóticas. Claro que isso não agrada qualquer público, mas precisamos reconhecer que o cara tem um estilo característico.

Agora, se falei que Asteroid City era um filme onde pouca coisa acontecia, aqui é o oposto. O roteiro de Anderson com o habitual parceiro Roman Coppola traz uma trama complexa, onde os três personagens principais se deslocam entre vários núcleos, desenvolvendo diversas negociações confusas. Algumas são bem divertidas, como o “momento basquete”, mas outras parece que estão lá só pra ter espaço pra participações especiais no elenco.

Sim, como de costume, o elenco é fantástico. Acho curioso como Anderson consegue tantos atores famosos para os seus filmes, já que é um formato que não privilegia boas atuações. E O Esquema Fenício não é diferente. Os papéis principais são de Benicio Del Toro, Mia Threapleton e Michael Cera (Mia é a única do elenco que não é conhecida, mas ela é filha de uma tal de Kate Winslet). Dentre os coadjuvantes principais, temos Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlet Johansson, Jeffrey Wright e Riz Ahmed. E ainda tem pontas de Bill Murray, F Murray Abraham, Willem Dafoe, Rupert Friend, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric e Hope Davis. Sobre as atuações, os três principais até têm personagens interessantes. O resto é tudo apático.

O Esquema Fenício é extremamente bem filmado, e tem alguns momentos hilários (ri alto com as flechas do filho do protagonista). A trilha sonora de Alexandre Desplat (outro colaborador habitual) também é boa. Mas, precisamos reconhecer que é um entretenimento para poucos…

Bridget Jones: Louca pelo Garoto

Crítica – Bridget Jones: Louca pelo Garoto

Sinopse (imdb): Bridget Jones agora viúva e solteira, vive com a ajuda de sua família, amigos e o ex-amante, Daniel. De volta ao trabalho e aos aplicativos, ela é perseguida por um homem mais jovem e talvez – pelo professor de ciências de seu filho.

Antes de tudo, preciso falar que não sou o público alvo ideal de Bridget Jones. Não me lembro de nada do primeiro filme, não sei se vi o segundo, nem sabia que existia um terceiro filme (como este terceiro é de 2016, provavelmente não vi, heu já escrevia críticas nessa época). Também sei que existe um livro que serviu de base, e não li. Meus comentários serão com isso em mente.

Vamulá. Bridget Jones: Louca pelo Garoto (Bridget Jones: Mad About the Boy, no original) é mais uma comédia romântica bobinha e previsível. Algumas cenas boas aqui e ali, alguns momentos constrangedores de vergonha alheia e um final tão óbvio que qualquer um que viu o trailer vai saber exatamente o que vai acontecer.

Achei algumas cenas péssimas! Tem uma cena que é o “dia da profissão”, onde os pais vão à escola falar sobre o seu trabalho. Bridget Jones é produtora de um programa de TV, no primeiro dia de trabalho ela estava organizando uma edição com a Fergie de convidada. Mas na hora de falar com as crianças na turma ela resolveu inventar uma entrevista com o professor pra discutir temas nada a ver.

Aliás, falando do professor, é um personagem muito mal construído. O cara é professor, mas também é inspetor, porque fica na rua organizando a entrada dos alunos. E está em TODOS os lugares da escola. E ainda por cima é músico! Acho que se o roteiro pedisse, ele também seria capaz de fazer uma cirurgia…

Felizmente nem tudo é ruim. Confesso que gostei de algumas cenas, como aquela onde o garotão salva o cachorro na piscina – apesar de ter um grande furo no roteiro, afinal ele não teria como saber quem é o dono do cachorro. Também achei bonita a cena onde a família manda mensagens para o falecido pai, através de balões coloridos.

No elenco, Renée Zellweger às vezes soa caricata, mas acho que o papel pede isso (como falei, não lembro dos outros filmes); Colin Firth, que era o principal papel masculino nos outros filmes, aqui faz aparições pontuais. Chiwetel Ejiofor faz o super professor, personagem ruim, mas ele não está exatamente mal; Leo Woodall faz o garotão novinho, papel sem muita profundidade. Hugh Grant, irônico e sarcástico, está ótimo – fiquei me questionando se ele sempre foi bom assim ou se agora que está mais velho melhorou (elogiei ele em Herege, Wonka, Magnatas do Crime…). Também tem uma divertida ponta da Emma Thompson.

Enfim, achei o filme meio besta. Mas talvez o problema seja heu, e não o filme. Duas fileiras atrás de mim no cinema, um cara dava gargalhadas altas a cada 30 segundos! Queria estar me divertindo como ele…

Lobos

Crítica – Lobos

Sinopse (imbd): Dois solucionadores rivais se cruzam quando ambos são chamados para encobrir o erro de uma importante figura pública de Nova York. Durante uma noite conturbada, eles terão que deixar de lado suas diferenças e egos para concluir o serviço.

Pulp Fiction é um filme genial em vários aspectos. Um dos vários méritos do filme é sua rica galeria de personagens. Harvey Keitel faz um papel pequeno: o mr. Wolf, uma pessoa para chamada para “resolver problemas”.

Agora, 30 anos depois, aparece um filme onde os dois personagens principais têm a mesma profissão do personagem de Pulp Fiction. E se alguém tiver dúvida se foi coincidência ou não, é só ver as placas dos carros, o carro do Harvey Keitel tem a placa 3ABM581; o do George Clooney, 3ABM582.

A melhor coisa de Lobos (Wolfs, no original) é a química entre seus dois protagonistas, Brad Pitt e George Clooney, que além de amigos na vida real, já trabalharam juntos em cinco outros filmes (a trilogia Onze Homens e um Segredo, Queime Depois de Ler, e uma breve aparição de Pitt em Confissões de uma Mente Perigosa, dirigido por Clooney). Tanto Pitt quanto Clooney estão ótimos individualmente, como um está perfeito ao lado do outro. Comentei recentemente sobre Operação Natal, um filme onde a dupla principal, Dwayne Johnson e Chris Evans, não está bem; aqui em Lobos é o oposto. A gente sente a química em cada troca de olhares entre os dois protagonistas

O roteiro e a direção são de Jon Watts, mais famoso por ter dirigido os três filmes recentes do Homem Aranha, De Volta ao Lar, Longe de Casa e Sem Volta para Casa (expulso de casa, fique em casa, etc). Gostei de como Watts conduz seu filme, vou procurar filmes anteriores dele. Alguns detalhes são muito bem sacados, como por exemplo a cena onde os dois protagonistas descobrem ao mesmo tempo que precisam de óculos pra ler o menu. E tem uma cena de atropelamento que é genial, uma cena que poderia constar em listas de melhores cenas do ano! Além disso, gostei da trilha sonora.

Depois de publicar meu texto sobre Anora, li algumas críticas comparando com Depois de Horas. Discordo. Na verdade, achei que Lobos lembra mais Depois de Horas: o filme todo se passa em uma noite, e os personagens vão se metendo em uma escalada de problemas que vai ficando pior a cada novo passo.

No elenco, claro que o destaque é da dupla principal. Mas Austin Abrams, o terceiro nome do elenco, também está bem. Ah, a voz ao telefone é de Frances McDormand, que também estava em Queime Depois de Ler com os dois protagonistas.

Talvez tenha gente reclamando que Lobos tem muitos clichês. Verdade, tem sim. Mas achei todos muito bem utilizados. Achei o filme divertidíssimo!

Operação Natal

Crítica – Operação Natal

Sinopse (imdb): Após um sequestro chocante no Polo Norte, o Comandante da Força-Tarefa E.L.F. faz uma parceria com o caçador de recompensas mais infame do mundo para salvar o Natal.

Às vezes penso em fazer uma seção de “críticas curtas”. Este Operação Natal funcionaria neste formato: “Filme genérico de Natal estrelado por Dwayne Johnson e Chris Evans. Era melhor ter ido direto pro streaming”.

Só isso. Porque não tem muito mais o que falar sobre Operação Natal (Red One, no original). Mas, vamos tentar nos aprofundar.

Dirigido por Jake Kasdan, filho de Lawrence Kasdan (roteirista de O Império Contra Ataca e Caçadores da Arca Perdida) e diretor dos dois Jumanji recentes, Operação Natal traz uma história natalina genérica, bobinha e cheia de clichês. Não se transformará num novo “clássico natalino”, tampouco ganhará haters. Apenas mais um filme descartável.

Operação Natal se baseia no carisma das suas estrelas. O problema é que nenhum parece inspirado. Assim como em outros filmes recentes, igualmente esquecíveis, como Alerta Vermelho (Johnson) e Agente Oculto (Evans) – coincidência ou não filmes para o streaming – a dupla de astros aqui só cumpre tabela. J.K. Simmons está bem como um Papai Noel fortão, mas aparece pouco. Completam o elenco principal Lucy Liu e Kiernan Shipka.

O roteiro não é ruim, mas tem umas forçadas. Por exemplo, depois de Aruba, não existe nenhuma justificativa pra manter Chris Evans no rolê. E alguns efeitos especiais têm cara de que vão perder a validade logo logo.

Em defesa do filme, gostei do universo criado, misturando mágica com tecnologia, e abrindo espaço pra uma franquia usando seres mitológicos. Mas é pouco. Não sei se quero ver outro filme se for tão genérico quanto este.

Por fim, uma coisa que achei curiosa e não entendi o motivo. Por duas vezes, em cenas na oficina do Papai Noel, a gente ouve vozes ao fundo em português. Uma frase é nítida, o resto tem que prestar atenção. E isso na versão original, não vi a versão dublada. (Na sequência em Aruba também parece outra língua nas vozes ao fundo, mas não consegui identificar.) O que acho que aconteceu? De repente alguém da equipe técnica pegou alguns diálogos em uma “língua exótica”, algo que a maior parte do mundo não conseguiria identificar. Será que foi isso?

Anora

Crítica – Anora

Sinopse (imdb): Anora, uma jovem trabalhadora sexual do Brooklyn, conhece e impulsivamente se casa com o filho de um oligarca russo. Quando a notícia chega à Rússia, seu conto de fadas é ameaçado quando os pais dele partem para Nova York para anular o casamento.

Fiquei na dúvida se valia falar sobre Anora agora. Teve uma sessão de imprensa, e no dia da sessão avisaram que a distribuidora adiou o lançamento pra janeiro do ano que vem, visando a temporada de prêmios. Ou seja, quase não tem nenhuma crítica do filme, porque quase ninguém viu, e vai demorar pra galera conseguir assistir.

Pensei em só comentar depois, mas aí me toquei que vou acabar me esquecendo de detalhes do filme. Então vamos nessa!

Escrito e dirigido por Sean Baker, Anora chega com uma grande credencial: foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Mas aí a gente lembra que o último vencedor foi Anatomia de uma Queda. E antes, foi Triângulo da Tristeza. E antes, Titane. E antes, Parasita. E, preciso dizer isso: achei Anora beeem inferior a esses todos.

(Talvez Titane esteja um degrau abaixo dos outros quatro, mas pelo menos é um filme diferentão, o que conta pontos em uma premiação como Cannes.)

Dito isso, vou falar algo polêmico. Não achei Anora grandes coisas. Pra mim, parece um American Pie melhorado.

Ok, talvez seja um exagero. American Pie é uma comédia besteirol cheia de piadas de cunho sexual, e Anora tem muito sexo, mas só o meio do filme que tem uma pegada de humor mais escrachado. Inclusive, o final do filme mira no drama.

Mas, repito, não consegui ver as qualidades que a galera está vendo. Ani é uma dançarina erótica e garota de programa que se envolve com um jovem russo, herdeiro de uma família milionária. A primeira parte mostra a relação dos dois, a segunda desenvolve problemas com capangas da família russa, e a parte final é a conclusão triste da história da jovem Ani. É ruim? Não, a trama é envolvente e a parte comédia no meio do filme tem algumas situações bem engraçadas. Mas, se a gente pensar que esse filme foi considerado o melhor de Cannes este ano, ou a competição estava bem fraca, ou tem alguma coisa errada aí. Sendo que A Substância estava concorrendo, voto na segunda opção.

Um dos problemas de Anora é que é difícil ter alguma empatia pelo casal protagonista. Ele é um milionário mimado que compra todos em sua volta; ela só está com ele por causa do dinheiro. Em momento algum o filme mostra algo mais afetivo na relação dos dois. Vejam bem: não tenho absolutamente nada contra ela ser uma trabalhadora do sexo, alguém na sua profissão pode ter um parceiro e ter uma vida em família. Mas esta realidade não é mostrada aqui.

Sobre o elenco, Mikey Madison (Pânico 5, Era Uma Vez em Hollywood) está bem em sua nova versão de Uma Linda Mulher. Pena que é uma personagem meio vazia – o filme foca nas festas, no luxo, no sexo e nas drogas e esquece de desenvolver o lado humano da personagem. Já o Ivan de Mark Eydelshteyn podia ser interpretado por qualquer um, ele passa o filme todo jogando videogame, fazendo sexo ou fugindo.

Sobram muitas cenas de nudez e sexo, e uma parte comédia que vai arrancar gargalhadas da plateia. Ou seja, nem está tão longe assim de American Pie…

Golpe de Sorte em Paris

Crítica – Golpe de Sorte em Paris

Sinopse (imdb): O vínculo de dois jovens leva à infidelidade conjugal e, por fim, ao crime.

Outro dia, quando falava de Tipos de Gentileza, lançado menos de um ano depois de Pobres Criaturas, que parece ter tido uma produção bem complexa (cenários, figurinos, efeitos, etc), lembrei que teve uma época que Woody Allen lançava um filme por ano. Pelo menos olhando de fora, filmes do Woody Allen me parecem ser produções mais simples, então era mais fácil fazer um por ano. Mas mesmo assim, não são filmes ruins, Allen manja dos paranauês e quase sempre entregava filmes acima da média. Como já comentei aqui no heuvi, “um Woody Allen mediano é melhor que muito filme por aí”.

Quando de repente entrou em cartaz o novo filme escrito e dirigido por Allen, Golpe de Sorte em Paris (Coup de chance, no original), seu quinquagésimo filme!

(Falei “de repente” porque não teve sessão de imprensa, teve uma pré estreia e heu nem soube…)

Golpe de Sorte em Paris é semelhante a boa parte da filmografia de Allen: uma boa história, bem filmada, com bons atores e belos cenários, desta vez em Paris. Sim, já vimos tudo isso antes, mas, caramba, o cara tá com quase 89 anos e já fez 50 filmes. Um especialista na sua obra vai dizer “ele está se repetindo”, mas o espectador comum vai entrar no cinema e se divertir.

O roteiro é bem estruturado. Inicialmente vemos uma jovem mulher, casada com um cara muito rico que a usa de “esposa troféu”, e que encontra um antigo flerte da época do colégio. O triângulo amoroso é construído, ela fica entre o rico e o sonhador. Até que um plot twist lá pelo meio do filme muda completamente o rumo da história, e mais não digo porque não vou dar spoilers.

Vou além: já comentei aqui algumas vezes, um bom final melhora um filme médio. Isso acontece aqui. A parte final tem uma sacada que achei genial, e posso afirmar que nunca imaginei que o roteiro iria por aquele caminho. E, pelo menos na sessão onde assisti, numa sala quase lotada, a reação do público foi positiva, rolou uma grande gargalhada generalizada, a maior de todo o filme.

O elenco, liderado por Lou de Laâge, Niels Schneider e Melvil Poupaud, é todo francês. Aliás, foi a primeira vez que Allen dirigiu um filme onde a língua principal não é o inglês. Fiquei na dúvida se ele sabe o suficiente pra acompanhar os diálogos, ou se tinha alguém pra esta função enquanto ele cuidava do resto – uma coisa que Allen faz muito e que acontece aqui são planos longos com diálogos e a câmera passeando entre os atores.

Entrei no cinema sem esperar nada e saí com um sorriso no rosto. Não é um grande filme, mas, repito, “é melhor que muito filme por aí”.