Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo

Crítica – Tudo em todo lugar ao mesmo tempo

Sinopse (imdb): Uma idosa imigrante chinesa se envolve em uma aventura louca, onde só ela pode salvar o mundo explorando outros universos que se conectam com as vidas que ela poderia ter levado.

Este ano tivemos um bom filme com o subtítulo “Multiverso da Loucura”. Quem diria que pouco mais de um mês depois teríamos outro bom filme usando multiversos, e ainda mais louco que o primeiro filme?

Escrito e dirigido pela dupla “Daniels” (Dan Kwan e Daniel Scheinert), Tudo em todo lugar ao mesmo tempo (Everything Everywhere All at Once no original) usa o conceito de multiverso de maneira insana. Algumas sequências têm poucos segundos e conseguem mostrar diversos cenários e figurinos misturados. Parece aquela sequência do gerador de imprevisibilidade de O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas que dura muito mais tempo. É tudo muito intenso, pisque o olho e perdeu partes da viagem.

Tudo em todo lugar ao mesmo tempo tem várias sequências geniais. Para ativar a viagem entre os multiversos, a pessoa precisa fazer algo inesperado. Se a primeira coisa inesperada é comer um batom, essa “inesperabilidade” vai escalando até coisas completamente malucas conforme o filme avança. E como tudo é possível, vemos por exemplo uma batalha entre a vilã e alguns guardas onde cada guarda é derrotado de maneira mais criativa possível.

Não sei se podemos chamar Tudo em todo lugar ao mesmo tempo de comédia, mas tem cenas engraçadíssimas. Tem uma luta na parte final onde a protagonista enfrenta um adversário sem calças, e com algo enfiado naquela parte famosa da anatomia da Anitta. Tem uma divertidíssima citação ao Ratatouille. E o universo com as pessoas com salsichas no lugar dos dedos das mãos é hilário!

Acho que o que mais chama a atenção é a edição. Fiquei imaginando, deve ter dado um trabalho hercúleo organizar todas aquelas imagens misturadas de forma que ainda fizessem algum sentido. E ainda tem inúmeras mudanças de formato de tela (aspect ratio), o que confunde ainda mais.

Mas, também preciso falar da protagonista Michelle Yeoh. Já falei dela outras vezes, mas aqui acho que foi sua melhor atuação. Ela consegue transparecer todos os conflitos de todas as versões de sua personagem – e ainda mostra nas cenas de luta a habilidade que a gente já conhece desde O Tigre e o Dragão – sem uma atriz que luta artes marciais o filme não seria o mesmo. Não será surpresa vê-la concorrendo ao Oscar ano que vem.

Ainda no elenco, preciso falar de dois nomes. Primeiro, a agradável surpresa que foi rever Ke Huy Quan, que foi o Short Round em Indiana Jones e o Templo da Perdição e o Data em Goonies, e não lembro de nenhum outro filme dele desde 1985 (vi no imdb, ele fez pouca coisa de lá pra cá, e nada relevante). Além dele, vemos Jamie Lee Curtis num papel diferente de tudo o que ela já fez. Também no elenco, Stephanie Hsu e James Hong.

Os efeitos especiais são simples e eficientes. Tem um efeito recorrente onde a protagonista parece ser puxada em alta velocidade, que não requer malabarismos em cgi e tem um efeito excelente na tela.

Tudo em todo lugar ao mesmo tempo é longo, duas horas e dezenove minutos, e não mantém o pique até o final. Achei a segunda metade bem inferior à primeira. Ok, talvez o filme ficasse louco demais se fosse o tempo todo no mesmo ritmo insano, mas sei lá podiam ter reduzido a segunda metade.

Mas mesmo com o final longo demais, Tudo em todo lugar ao mesmo tempo é um filme altamente recomendado. Afinal, não é todo dia que vemos algo realmente diferente no cinema.

O Peso do Talento

Crítica – O Peso do Talento

Sinopse (filmeB): Depois de perder seu dinheiro, Nicolas Cage precisa recuperar-se financeiramente, mas o problema foi a solução que ele encontrou: aceitar o valor de US$ 1 milhão para ir à festa de aniversário de um super fã que também é um chefão do crime. Parecia que ia dar certo, mas o inesperado acontece quando uma agente da CIA o recruta para viver o papel de sua vida: Nicolas Cage e seus grandes sucessos nas telonas.

A ideia de O Peso do Talento (The Unbearable Weight of Massive Talent, no original) era interessante. Fazer um filme em cima dos exageros do Nicolas Cage, estrelado pelo próprio Nicolas Cage.

Cage era o nome certo para um projeto destes. Não consigo pensar em outro nome que funcionaria tão bem. O cara estrelou vários filmes de sucesso, ganhou o Oscar, e ficou conhecido por ser um cara extravagante e que gosta de gastar dinheiro em coisas caras e nem sempre necessárias. De uns anos pra cá, sua carreira entrou numa espiral de filmes de gosto duvidoso, mas que, diferente de um Bruce Willis (que, doente, fez uma série de filmes vagabundos onde pouco aparecia, para juntar um pé de meia), Cage continua atuando intensamente, quase sempre com o seu over acting que se tornou uma de suas principais características. Nome perfeito para um projeto que satiriza ele mesmo!

E realmente Cage é uma das melhores coisas daqui. Temos várias referências aos seus filmes como A Outra Face, Despedida em Las Vegas, A Rocha, 60 Segundos… E tem uma coisa que gostei, que é um Nicolas Cage imaginário, mais novo (me parece o Cage de Coração Selvagem), que aparece conversando com o Cage atual.

Outro ponto positivo é Pedro Pascal, que interpreta o milionário fã do Nicolas Cage. Não só Pascal está muito bem, como sua química com Cage é ótima. No resto do elenco, o único nome que me chamou a atenção foi uma ponta de Neil Patrick Harris.

O filme tem algumas cenas bem engraçadas, outras meio bobas. Pra ser sincero, achei divertido, mas apenas isso, mas, na sessão onde fui, tinha gente perdendo o fôlego de tanto rir. Ou seja, não achei tão engraçado, mas presenciei gente que achou.

Por fim, sempre fico feliz de ver filmes no cinema, mas tenho minhas dúvidas se este O Peso do Talento não teria um público maior se fosse lançado em streaming. Hoje em dia é difícil levar a galera para as salas de cinema, não sei se o filme terá o público almejado.

Jackass Forever

Crítica – Jackass Forever

Sinopse (imdb): Após 11 anos, a equipe Jackass retorna para sua cruzada final.

É complicado falar de Jackass. Porque quem vai ver Jackass sabe exatamente o que está vendo. Pra fazer uma análise crítica a gente precisa ter isso em mente.

Pra quem não conhece Jackass: era uma série da MTV do início dos anos 2000 onde um grupo de malucos faziam várias pegadinhas, alternando entre coisas perigosas e momentos escatológicos. E sempre se sacaneavam e se divertiam muito no processo – era nítido que entre eles era uma grande curtição. Depois da MTV, eles fizeram alguns filmes para o cinema. Falei aqui no heuvi sobre o filme Jackass 3D, de 2010, vou copiar aqui alguns trechos do que escrevi naquela ocasião:

Um grupo de insanos inconsequentes (li em algum lugar que são dublês) começou um programa na MTV, dez anos atrás, onde a ideia era, basicamente, ver eles mesmos se ferrando. Ou eles faziam algo perigoso e alguém saía machucado, ou então algo nojento. A parte da nojeira não me atrai, mas os momentos onde eles quase sempre se machucam são muito engraçados. (…) É difícil falar de um filme desses. Afinal, quem se propõe a ver, já sabe o que vai encontrar. Quem não curte, passa longe de filmes assim!

Disse isso na época, e repito aqui. A parte da nojeira realmente continua sem graça, tipo, esperma de porco? Sério? Mas, algumas das pegadinhas são realmente engraçadas. Em alguns momentos, me vi rindo alto, como no momento marching band, ou no sapateado em cima de uma plataforma de choque, ou a cena do conserto da lâmpada no poste, ou o toboágua que não caía na água.

E preciso dizer que alguns momentos foram realmente corajosos. Tem duas pegadinhas, uma envolvendo uma aranha, outra com um urso, que são momentos bem tensos. E Johnny Knoxville se machucou sério na tourada!

Uma coisa legal é que boa parte da galera das antigas está de volta – se a gente pensar que esse tipo de pegadinha envolve riscos físicos, é bem mais complicado para serem performadas por pessoas de 40 e muitos anos do que pessoas de 20 e poucos. A gente vê a volta dos cinquentões (ou quase) Johnny Knoxville, Steve-O, Wee Man, Preston Lacy, Chris Pontius e Dave England (os mais velhos são de 1969, os mais novos de 1973). Acho que do time principal antigo só faltam dois: Ryan Dunn, que faleceu num acidente de carro, e Bam Margera, que se desentendeu com a produção do filme e se desligou do projeto (ele aparece em uma das pegadinhas, filmada antes da sua saída). A direção ainda é de Jeff Tremaine, diretor desde a época da MTV. E Spike Jonze, um dos criadores, também continua com a turma. E junto deles vemos alguns novos nomes – me parece que isso seria uma saída pra continuar a franquia mesmo sem os originais.

Dito tudo isso, preciso reconhecer que Jackass é meio bobo. Mas, admito, também sou meio bobo e me diverti vendo.

Metal Lords

Crítica – Metal Lords

Sinopse (imdb): Dois amigos se reúnem para formar uma banda de heavy metal com uma violoncelista para participar de uma competição de bandas.

Às vezes a gente tem uma decepção, como foi com o recente Águas Profundas, que tem um bom diretor e um bom casal de protagonistas, mas que apesar disso é um filme bem ruim. E outras vezes a gente tem uma grata surpresa, quando vamos ver uma comédia adolescente sem ninguém muito conhecido no elenco principal, mas que proporciona divertidas e agradáveis duas horas em frente à tela. É o caso deste Metal Lords, nova comédia da Netflix.

Metal Lords foi dirigido por Peter Sollett, e escrito por D.B. Weiss, que curiosamente foi o co-criador e showrunner de Game of Thrones – que não tem nada a ver com este filme. Mas, lembrei de um vídeo que rolou um tempo atrás que tem tudo a ver. Era uma espécie de jam session de guitarristas tocando o tema de Game of Thrones, com o próprio D.B. Weiss tocando guitarra ao lado de Ramin Djawadi (compositor do tema), Tom Morello (Rage Against The Machine), Scott Ian (Anthrax) e Nuno Bettencourt (Extreme). E ele não faz feio! Ou seja, D.B. sempre foi um cara do rock. Ah, Ramin Djawadi e Tom Morello trabalharam na trilha sonora de Metal Lords.

Ok, a gente tem que reconhecer que Metal Lords não traz nada de novo. A gente já sabe como o filme vai se desenvolver e como vai terminar. Não é um filme para figurar em listas de melhores do ano. Mas, pode entrar em listas de bons filmes com temática rock’n’roll, como Escola de Rock, Still Crazy ou Rock Star. E, principalmente, é um filme leve e agradável, que deixa a gente com vontade de rever na primeira oportunidade.

Me perguntaram se me identifiquei com a banda, afinal, comecei a tocar na época do colégio, e tive uma fase de heavy metal no currículo. Mas, na verdade, na época do colégio minha banda era mais parecida com a banda “rival”, só comecei a tocar metal anos depois. Mas, claro, vivi algumas daquelas situações presentes no filme.

Gostei muito do trio principal do elenco, tanto pelos atores quanto pelos personagens. Falei que o elenco principal era de desconhecidos, né? Mais ou menos. O protagonista Jaeden Martell estava em It e Entre Facas e Segredos, não é um rosto completamente novo. Mas aqui em Metal Lords é que ele realmente tem espaço para mostrar um bom trabalho. Seu personagem Kevin tem um bom desenvolvimento, tanto na parte musical quanto na personalidade. Adrian Greensmith faz um personagem que é meio caricato, mas, acreditem, conheci gente igual. O garoto que só pensa no metal, filho de pai rico, com problemas de relacionamento com todos em volta – inclusive o pai. A menina Isis Hainsworth também é ótima, tanto a atriz quanto a personagem, mas achei que a mudança dela ficou meio abrupta. Mas, gostei da “nova Emily”.

Esqueci de falar, vemos os garotos tocando os instrumentos. Podem até não ser grandes músicos (não dá pra saber), mas pelo menos demonstram bem na tela.

Preciso citar aqui uma cena que achei muito boa, que é quando Kevin aprende a tocar War Pigs. No início do filme a gente vê que o garoto não toca direito e tem problemas com ritmo. Durante a War Pigs, vemos a evolução do Kevin, tanto na parte técnica tocando bateria, quanto na parte de postura e de figurino. A cena ficou muito legal!

Tem um detalhe que vou implicar, mas sei que é um preciosismo. A cena final, quando eles tocam na batalha das bandas, aquela música nunca seria tocada daquele jeito sem ensaio. Nem com músicos profissionais, muito menos com músicos amadores. Já subi no palco sem ensaio, mas eram músicas mais conhecidas e com menos convenções. Certamente eles errariam a execução. Mas… É “filme de sessão da tarde”, a gente releva isso e aceita que a música saiu sem nenhum tropeço.

Tem uma outra cena que achei genial, mas não sei se é spoiler, então vou colocar os avisos.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Tem uma cena onde Kevin “ouve vozes na sua cabeça”. Aí aparecem Scott Ian (Anthrax), Tom Morello (Rage Against the Machine), Kirk Hammett (Metallica) e Rob Halford (Judas Priest) para conversar com ele. Achei genial! Mas acho uma boa citar aqui quem são, porque o filme não explica quem é quem. Só quem realmente conhece as bandas de metal é que vai reconhecer.

FIM DOS SPOILERS!

Nem sei se era pra falar tanta coisa de um filme tão despretensioso, mas é que curti e terminei a sessão empolgado. Recomendo pra todos os que gostam de música!

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola

Crítica – Como se Tornar o Pior Aluno da Escola

Sinopse (google): Os estudantes Bernardo e Pedro têm dificuldades para cumprir todas as regras de uma escola que adota medidas politicamente corretas graças ao diretor Ademar. No banheiro do colégio, Pedro encontra um diário com dicas para instaurar o caos na escola sem ser notado.

Lançado em 2017, Como se Tornar o Pior Aluno da Escola virou “o assunto da semana” por causa de uma polêmica sem sentido. Mas, antes de falar da polêmica, vamos falar sobre o filme?

Não tinha visto Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, mas vi Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro, que é um divertido trash movie brasileiro, também dirigido pelo mesmo Fabrício Bittar. O humor tem qualidade duvidosa e às vezes resvala na grosseria gratuita. Mas o filme é engraçadíssimo! E, vou além: acho importante um filme desses, que quebra o estilo padrão de quase 100% do cinema nacional. Sempre gosto de ver filmes com propostas diferentes.

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola tem algumas semelhanças com Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro. O humor também resvala na grosseria. Mas, pelo menos na minha opinião, Como se Tornar o Pior Aluno da Escola tem um problema bem mais grave: as piadas são sem graça. Dei umas duas ou três risadas leves ao longo de todo o filme. Pouco não?

Existe uma outra crítica que pode ser feita com relação ao humor apresentado no filme, mas aí seria uma crítica ao estilo. É que heu, particularmente, não curto muito piadas escatológicas. Piada com xixi, cocô e pum tem que ser genial pra ter graça – porque mostrar alguém fazendo som de pum com as axilas não é engraçado. Mas, esse tipo de humor vende, tem parte do público que gosta de humor escatológico, então entendo que o filme opte por este caminho.

Mas não é só o humor grosseiro. Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é repleto de cenas que não fazem o menor sentido, começando com o ponto de partida do filme: por que um adulto ajudaria dois adolescentes daquele jeito? E a partir daí, várias situações ilógicas, como o cara levando adolescentes numa boate onde não entram menores de idade. Detalhe:o carro foi roubado na frente do dono e dos motoristas do hotel e ninguém fala nada!

Se isso tudo viesse com boas piadas, heu até relevava o roteiro esdrúxulo. Mas se é piada de xixi cocô e pum, a tolerância diminui…

Pelo lado bom, a edição do filme é muito boa. O filme usa os rabiscos do “livro” para emendar as cenas, isso deu agilidade. A trilha sonora rock’n’roll também combina bem com a proposta. E, perto do fim, tem uma cena – uma única cena – onde Danilo Gentili e Carlos Villagrán conversam, onde a metalinguagem rola solta. A cena é muito boa, eles sacaneiam as carreiras de ambos os atores, e ainda tem quebra da quarta parede. Ah, se todo o filme fosse nessa pegada…

Sobre o elenco, nenhuma boa atuação. O garoto principal Bruno Munhoz não é ruim, mas não faço questão de revê-lo em novas produções. Daniel Pimentel, o amigo gordinho, é ruim, mas não sei se é culpa do ator ou do roteiro, que transformou o personagem em um alívio cômico sem graça. Danilo Gentili não é um bom ator, ele funciona muito melhor como apresentador. Talvez com um bom diretor de atores ele estivesse melhor aqui. Fábio Porchat tem uma ponta, aparece em duas cenas, no papel desconfortável. Nem dá pra julgar a sua atuação. Aliás, se a gente parar pra pensar, essas duas cenas poderiam ser cortadas e o filme não perderia nada. Carlos Villagrán, o Quico do Chaves, faz o diretor da escola, uma presença interessante, mas um papel caricato e sem nenhuma profundidade. Ah, achei engraçado ver Rogério Skylab entre os professores. Também no elenco, Joana Fomm, Moacir Franco e Raul Gazolla.

Não é um grande filme. Mesmo assim, defendo a existência de um filme nacional assim, com humor grosseiro. Assim como Exterminadores do Além contra a Loira do Banheiro, Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é um filme diferente do rótulo “cinema nacional”.

Agora, vamos à polêmica. Danilo Gentili é um cara que sempre se envolveu em polêmicas em sua carreira. Claro que ele coleciona inimigos com este comportamento. Aparentemente um desses inimigos resolveu espalhar uma fake news, e recortou uma cena onde aparece um pedófilo. Só que é desonesto você mostrar parte da cena sem mostrar o conceito onde ela está inserida. Porque os protagonistas têm contato com o pedófilo, e isso é mostrado como algo extremamente negativo. Em momento algum o pedófilo é exaltado.

E o pior foi acusar o ator Fábio Porchat, que apenas interpreta um papel. Sim, acusaram um ator por atuar. Seriously?

E como tem muita gente preguiçosa por aí, a galera saiu compartilhando como se fosse verdade. Como se Como se Tornar o Pior Aluno da Escola realmente fizesse apologia à pedofilia. A cena é ruim, é desconfortável, é desnecessária, mas não é apologia. Se qualquer um quiser falar mal do filme, é fácil. O filme não é lá grandes coisas, tem um monte de coisas reais pra se falar contra o filme.

Mas, espalhar fake news aparentemente é mais fácil.

Bem, acho que o tiro saiu pela culatra. Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é de 2017, ninguém mais se lembrava da existência do filme. Danilo Gentili deve estar feliz com a divulgação retardatária.

Eduardo e Mônica

Crítica – Eduardo e Mônica

Sinopse (imdb): Será que o romance entre uma estudante de medicina e um colegial pode dar certo? Um casal que deve superar suas diferenças significativas para viver um grande amor.

Preciso falar que rolava um certo pé atrás com este filme. É dirigido por René Sampaio, o mesmo diretor de Faroeste Caboclo, que é um bom filme, mas que altera algumas partes essenciais da música original. Ok, admito, o meu head canon me atrapalhou. Mas não consegui curtir aquele filme por causa das adaptações.

Felizmente, aqui em Eduardo e Mônica as adaptações funcionaram – pelo menos para mim – e posso dizer que “entrei no filme”.

Tudo funciona redondinho no filme, que usa o formato de comédia romântica – duas pessoas se conhecem, se gostam, se estranham, se separam, se reconciliam, etc. Fórmula batida, mas eficiente.

Os trechos da música entram naturalmente no roteiro, tipo rola um telefonema onde eles decidem se encontrar e o Eduardo sugere uma lanchonete enquanto a Mônica sugere um filme da nouvelle vague – ou seja, um filme do Godard. Sim, alguns elementos da música estão colocados discretamente, por exemplo, na música a Mônica cita Mutantes, no filme tem uma rodinha de violão tocando Ando Meio Desligado.

Uma boa sacada foi situar o filme na década de 80. Não fala exatamente em quais anos, mas a gente sabe que se passam alguns anos durante o filme. Tem pelo menos dois indicativos: Eduardo tem um poster do Fluminense campeão brasileiro de 1984 no quarto; e um tempo depois aparece ele fazendo o vestibular em 1987.

A reconstituição de época é muito bem feita – tem um personagem que usa mochila da Company! E tem uma cena que a galera da nossa idade vai lembrar do perrengue que era telefonar interurbano com fichas de telefone!

Tem um detalhe que gostei mas que vai passar desapercebido por boa parte da audiência. Tem uma trilha sonora instrumental, tocada por violões e outras cordas, que evoca os acordes da música título. Fica aquele clima no ar, mas sem entrar na música propriamente dita (que só é tocada nos créditos finais).

A música não citava nada de política, mas política era um tema recorrente na época, o Brasil estava saindo da ditadura militar, e duas das principais bandas que vieram de Brasília traziam política e críticas sociais nas suas letras (Legião Urbana e Plebe Rude). No filme, o pai da Mônica foi exilado por causa da ditadura, e o avô do Eduardo é um ex militar. Achei uma boa sacada.

Ok, vou reclamar de uma coisa. Admito que é um problema que acontece muito no audiovisual: a idade dos atores. Não sei exatamente quando foi filmado, a data no imdb é 2020, ou seja, essas filmagens já aconteceram há um tempo. Hoje, Alice Braga tem 38 anos, e Gabriel Leone (Dom) tem 28. A diferença de idade entre os dois é boa, compatível com ele fazendo vestibular enquanto ela se forma em medicina. Mas, o Gabriel Leone, com vinte e muitos anos, dizendo “eu tenho 16 anos” não ficou legal. Mas, sei que é um problema recorrente no cinema, lembro de um Espetacular Homem Aranha onde a Emma Stone, com vinte e muitos, grita “eu tenho dezessete anos!”.

Dito isso, preciso dizer que os dois estão ótimos, são grandes atores e a química entre o casal está perfeita. Excelente escolha de elenco.

(Tem uma participação de Fabricio Boliveira, que fez o João de Santo Cristo no Faroeste Caboclo. Será que existe um “legiãoverso”?)

Como falei, ao fim do filme estava feliz e com vontade de rever. E ao mesmo tempo frustrado, porque não sei quando o filme será lançado – inicialmente a data de estreia era pra ser 06 de janeiro, mas já adiaram de novo pro dia 20.

Mas, posso dizer que, dos últimos quatro filmes que vi no cinema, dois nacionais (Eduardo e Mônica e Turma da Mônica Lições) e dois blockbusters gringos (Matrix e King’s Man), os nacionais são muito melhores!

Não Olhe Para Cima

Crítica – Não Olhe Para Cima

Sinopse (imdb): Conta a história de dois astrônomos que participam de uma gigantesca cobertura de imprensa para alertar a humanidade sobre a aproximação de um cometa que destruirá a Terra.

Um pouco atrasado, vamos falar de Não Olhe Para Cima. Ia escrever aqui semana passada, mas resolvi fazer os posts de retrospectiva e expectativas. Bem, vamos ao filme.

Tem dois tipos de pessoas que se incomodaram com Não Olhe Para Cima – existe o lado social e o lado cinematográfico. Vamos por partes. Não Olhe Para Cima é o filme novo de Adam Mckey. Se a gente analisar os seus dois últimos filmes, podemos ver um padrão em pelo menos dois aspectos: um bom trabalho com os atores, e uma edição nada convencional. Essa parte da edição sei que vai incomodar muita gente. Pra citar um exemplo claro: em Vice, seu filme anterior, sobem os créditos finais no meio do filme! Aqui em Não Olhe Para Cima não tem nada tão radical, mas mesmo assim, estamos longe da narrativa convencional (em determinado momento do filme aparece um QR Code na tela, que direciona a um clipe da Ariana Grande).

Pra curtir Não Olhe Para Cima tem que embarcar na proposta do diretor. Conheço gente que simplesmente largou o filme no meio por causa dessas maluquices.

Além disso tem a parte ideológica. Não Olhe Para Cima foi criado para criticar o aquecimento global. Mas, pelo menos aqui no Brasil polarizado de 2021, virou uma cutucada explícita nos negacionistas da vacina. E vários aspectos são muito semelhantes a situações vividas aqui no Brasil, inclusive tem personagens que parecem inspirados em pessoas da nossa política. Mas, existem dezenas de textos analisando o filme sob este ângulo, então aqui no heuvi vou focar mais no lado cinematográfico, ok?

O destaque, claro, é o elenco. Só de ganhadores do Oscar, são cinco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Cate Blanchett e Mark Rylance; e ainda tem outros dois que já foram indicados (Jonah Hill e Timothée Chalamet). E ainda tem Rob Morgan, Ron Perlman, Tyler Perry, Ariana Grande, Himesh Patel e Melanie Lynskey. E ainda tem uma ponta do Chris Evans!

De um modo geral, todos estão bem. Se for pra escolher um destaque, seria o Leonardo DiCaprio, quem tem um personagem melhor desenvolvido e com mais camadas. E se for escolher um destaque negativo, seria Meryl Streep. Não, ela não está mal, Meryl Streep não consegue atuar mal nunca, mas ela está apenas ok. Já vi filmes fracos onde o destaque era a atuação da Meryl Streep, ela estar apenas ok não é aceitável.

(Uma pequena curiosidade: o personagem de DiCaprio é casado com Melanie Lynskey. E cada um dos dois tem um filme marcante na carreira onde o par romântico é a Kate Winslet – Titanic (97) e Almas Gêmeas (94).)

O roteiro e a direção de Adam McKay acertam o ponto exato da comédia. No início de sua carreira, McKay fez alguns filmes com Will Ferrell, filmes que até têm seus bons momentos, mas têm muitas piadas bobas. Depois McKay entrou numa fase mais “séria”, trocando o humor escrachado pela ironia, nos filmes A Grande Aposta e Vice. Na minha humilde opinião, Não Olhe Para Cima é o seu melhor trabalho, com uma edição precisa e bons efeitos especiais nos momentos do meteoro.

Teve uma coisa que não gostei. A ameaça é mundial, e quase todo o filme só mostra como se fosse um problema só nos EUA – tem uma breve cena onde falam de um plano frustrado envolvendo China, Rússia e Índia. Acho que seria melhor mostrar núcleos em outros países, a trama ia ficar mais rica.

Mesmo assim, o resultado final ficou muito bom. É uma comédia com humor ácido, que acerta o ponto exato na crítica.

Ah, são duas cenas pós créditos. Tem uma piadinha lááá no fim, coisa incomum quando se trata de Netflix – normalmente eles não deixam ver os créditos e te jogam pra ver outro filme / série.

Te Pego Lá Fora

Crítica – Te Pego Lá Fora

Sinopse (imdb): Um nerd se mete em problemas com o novo bandido, um garoto mau que o desafia a lutar em sua escola secundária após o fim do dia.

Te Pego Lá Fora (Three O’Clock High, no original) é um clássico filme de sessão da tarde sobre high school americana. Mas, ao mesmo tempo, é um filme que é muito mais do que isso.

Na trívia do imdb, encontrei uma citação que exemplifica bem o que quero dizer. O diretor Phil Joanou, estreante, disse que se inspirou em Depois de Horas e Touro Indomável antes de filmar. Steven Spielberg, que era produtor executivo, foi ver o filme achando que seria algo na pegada de Karate Kid. Depois do filme assistido, ele teria perguntado a Joaunou: “O que aconteceu com Karatê Kid? Você fez um filme do Scorsese!”

O roteiro de Te Pego Lá Fora tem todos os clichês de filmes de high school dos anos 80. Mas o modo como foi filmado em nada se assemelha àqueles filmes. O modo como Joanou posiciona e movimenta a sua câmera é diferenciado.

Curiosamente, o diretor Phil Joanou não tem um grande currículo no cinema. Ele é mais conhecido por vários trabalhos junto com a banda U2 – inclusive, ele dirigiu o famoso documentário Rattle and Hum. O mesmo comentário posso fazer sobre o elenco. Te Pego Lá Fora não tem nenhum ator que ficou conhecido. Só pra dar um exemplo, o protagonista Casey Siemaszko era um dos caras que andava ao lado do Biff em De Volta para o Futuro – coadjuvante do coadjuvante! É, aqui não tem muito o que falar sobre os atores.

Uma coisa curiosa sobre o elenco era a idade dos dois principais. Não sei quando foi filmado, mas Te Pego Lá Fora foi lançado em 1987, e tanto Casey Siemaszko quanto Richard Tyson nasceram em 1961 – eles interpretavam adolescentes de 16 ou 17 anos, mas já tinham 26! O diretor Phil Joanou também é de 61, ele é alguns meses mais novo que os seus “adolescentes”.

O roteiro de Thomas Szollosi e Richard Christian Matheson, filho do famoso Richard Matheson (Amor Além da Vida, Eu Sou a Lenda) traz vários clichês de filmes de high school, mas está longe de ser um roteiro ruim. Quase toda a trama se passa em um único dia (só no finzinho do filme a gente vê o dia seguinte), e durante toda a projeção a gente fica acompanhando um relógio marcando a hora, acentuando a tensão que paira no ar, contando os minutos que faltam para a briga.

A trilha sonora é da banda Tangerine Dream, que fez dezenas de trilhas na época. O curioso é que não lembro de nenhum tema composto por eles…

A bilheteria não foi boa, o filme custou 6 milhões de dólares e rendeu menos que 4 milhões. Injusto, este filme merecia uma bilheteria melhor.

Steven Spielberg foi produtor executivo deste filme, mas, sabe-se lá por qual motivo, pediu pra tirar o nome dos créditos (ouvi falar de uma briga com Aaron Spelling, que era outro produtor executivo). Rolam boatos pela internet que Spielberg teria dirigido uma cena do filme, a cena no fim onde a professora volta e beija o protagonista. Hoje em dia algo assim nunca aconteceria, mas, nos anos 80, a galera era mais relaxada neste assunto. Enfim, a cena ficou bem divertida.

Por fim, queria falar de uma teoria maluca que rola na internet, de que este colégio seria o mesmo de Curtindo a Vida Adoidado. A atriz Annie Ryan, que aqui tem um papel importante, fez uma ponta no filme do Ferris Bueller.

Alerta Vermelho

Crítica – Alerta Vermelho

Sinopse (imdb): Um agente da Interpol rastreia o ladrão de arte mais procurado do mundo.

Grande lançamento da Netflix, Alerta Vermelho (Red Notice, no original) chega com a divulgação de ser “o filme mais caro da história da Netflix”. Pena que o dinheiro não garantiu a qualidade.

Escrito e dirigido por Rawson Marshall Thurber (que já tinha feito outros dois filmes com Dwayne Johnson, Um Espião em Meio e Arranha Céu), Alerta Vermelho tem como grande mérito o carisma de seus três atores principais, Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot. Realmente, nessa parte o filme funciona. Agora, o roteiro…

Alerta Vermelho tem tantas conveniências no roteiro que chega um ponto que o espectador diz “chega!”. Ok, a gente entende que é Hollywood, filme pipoca, pra desligar o cérebro e curtir, mas precisa saber dosar. Porque é difícil chegar ao fim sem pensar “pô, aí não, forçaram a barra”.

Pra piorar, alguns cenários são bem básicos, nem parece “o filme mais caro”. Tem uma cena numa floresta, logo depois da cachoeira, que quase dá pra ver a parede do estúdio, de tão artificial.

(E, olha, quando mostram o ponto no mapa na América Latina, heu acho que aquilo é no Brasil e não na Argentina…)

Agora, preciso admitir que me diverti em vários momentos. Reconheço que os trio principal de atores repete os papeis de sempre, mas esses papeis funcionam bem.

Aliás, preciso dizer que Ryan Reynolds acertou em cheio pelo menos duas vezes. Uma é quando o filme entra numa vibe Caçadores da Arca Perdida e ele assobia o tema do Indiana Jones; a outra é quando ele diz que está procurando “uma caixa que diz MacGuffin”. Ri alto nessas duas piadas.

(MacGuffin era um termo usado por Hitchcock pra falar de alguma coisa que os personagens estão procurando, mas que não tem importância pro espectador. Segundo a wikipedia, “é um dispositivo do enredo, na forma de algum objetivo, objeto desejado, ou outro motivador que o protagonista persegue, muitas vezes com pouca ou nenhuma explicação narrativa. A especificidade de um MacGuffin, normalmente, é sem importância para a trama geral.”)

Ou seja, Alerta Vermelho só serve se você for fã dos atores e se desligar de todo o resto. Dá pra se divertir, mas é bem esquecível.

Alerta Vermelho está na Netflix, mas também teve lançamento nos cinemas. Achei uma estratégia estranha. Lembro que quando O Irlandês estreou na Netflix, houve sessões nos cinemas. Mas, IMHO, O Irlandês é um filme com mais atrativos pra levar o espectador pro cinema. Tenho minhas dúvidas se este Alerta Vermelho vendeu algum ingresso.

Free Guy

Crítica – Free Guy

Sinopse (imdb): Um caixa de banco descobre que ele é na verdade um NPC dentro de um violento videogame de mundo aberto.

Antes de tudo, uma explicação pra quem não sabe o que é um NPC. É um “non player character”, ou um “personagem não jogável”. Em alguns videogames, você cria o seu personagem, e ele interage com outros personagens que estão no jogo. Alguns são controlados por outros jogadores, enquanto outros são controlados pelo computador. Esses são os NPC.

Dirigido por Shawn Levy (diretor da trilogia Noite no Museu, e que nos últimos anos dirigiu vários episódios de Stranger Things), Free Guy: Assumindo o Controle (Free Guy, no original) parece uma mistura de Show de Truman, Tron, Detona Ralph e mais algumas coisinhas. Às vezes, misturar tudo pode ter cara de cópia – falei disso no texto sobre Gunpowder Milkshake. Mas às vezes a mistura fica boa, e felizmente é o caso aqui. E, ainda sobre as ideias recicladas: o roteiro é de Matt Lieberman e Zakk Penn – este último também é o roteirista de O Último Grande Herói e Jogador Nº1. Ou seja, ele já tinha abordado temas parecidos.

Free Guy é mais um filme que foi adiado pela pandemia. Lembro de ter visto o trailer meses atrás. Agora, finalmente o filme chega às telas.

O modo como o jogo mostra o jogo é genial. É uma cidade com tiroteios, explosões, tanques nas ruas, mas sob o ponto de vista do “morador” da cidade. Isso traz algumas cenas muito engraçadas. Além disso, tem várias coisas acontecendo em segundo plano, tipo um carro que muda de cor porque está sendo personalizado; ou jogadores que ainda não pegaram a manha e seus avatares andam sem rumo; ou avatares fazendo dancinhas. A Free City foi inspirado na Liberty City do GTA, e o jogo também traz elementos do Fortnite.

Acho que o maior mérito de Free Guy está em seu protagonista. Ryan Reynolds criou um personagem sonso e irônico, que se adapta a alguns papeis. Guy parece ser uma versão light do mesmo Deadpool de sempre (papel também parecido com Dupla Explosiva 2, que comentei aqui outro dia). Guy é aquele cara super feliz na vidinha medíocre, enquanto é assaltado e apanha todos os dias. Não consigo pensar num ator melhor pra isso.

Aproveito pra falar do resto do elenco. O outro nome a ser citado é Taika Waititi, que virou uma personalidade importante depois que dirigiu Thor Ragnarok e ganhou Oscar de roteiro por Jojo Rabbit. Ele aqui está caricato ao extremo como o vilão. Sei que foi proposital, mas acho que ele exagerou um pouco, passou do ponto. Também no elenco, Jodie Comer, Joe Keery, Utkarsh Ambudkar, Lil Rel Howery e Channing Tatum num papel pequeno e muito engraçado. Ah, tem um cameo genial, mas não vou falar por causa de spoilers.

Free Guy tem uma segunda parte fora do videogame, com toda uma trama que inclusive explica por que o personagem título age daquele jeito. Afinal, ia cansar se ficasse só nas piadinhas do jogo. Agora, não que essa parte seja ruim, mas senti uma queda de ritmo, prefiro a parte dentro do jogo.

Free Guy estreia semana que vem nos cinemas. Vou voltar com os filhos pra rever!