Dia D

Crítica – Dia D

Sinopse (imdb): Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém abrisse seus olhos e mostrasse para você, você ficaria com medo?

Dia D (Disclosure Day, no original) estava na minha lista de expectativas para 2026, primeiro por ser o novo Spielberg, mas também por ser um Spielberg falando de alienígenas – claro que Contatos Imediatos do Terceiro Grau e ET O Extraterrestre vieram à memória.

Sou fã do Steven Spielberg por dois motivos. O primeiro é emocional: fui adolescente nos anos 80, e naquela época muitos filmes pipoca tinham Spielberg na direção ou produção (como Gremlins, Goonies, De Volta Para o Futuro, O Enigma da Pirâmide e Roger Rabbit, entre outros). Cresci vendo o nome do Spielberg se associando a cinema pipoca de boa qualidade.

Mas também sou fã do cara por um motivo que não sei se consigo descrever. Gosto muito do jeito como ele filma. Spielberg sabe, como poucos, como posicionar e como mover sua câmera. São detalhes discretos, que a maior parte do público nem repara, mas se você prestar atenção, vai se deliciar ainda mais com seus filmes. Faça isso na próxima vez que estiver assistindo um de seus filmes, preste atenção no ponto de vista da câmera. Sua experiência cinematográfica ficará ainda melhor!

Em Dia D, a trama se divide em dois núcleos, que vão se encontrar lá na frente. Em um deles, um homem, que era funcionário de uma empresa de tecnologia, foge com vários segredos, e pretende revelá-los. No outro, uma repórter meteorológica passa a agir de maneira estranha depois que recebe a visita de um passarinho. Sim, essa frase sozinha é meio esquisita, mas tem sentido dentro do filme.

O roteirista é David Koepp, que tem alguns grandes filmes no currículo, como Jurassic Park, O Quarto do Pânico, o primeiro Missão Impossível e o Homem Aranha de 2002. O roteiro tem alguns pontos positivos, mas heu diria que tem mais elementos para crítica do que para elogio. Mas antes de criticar, heu queria elogiar um detalhe: está rolando uma terceira guerra mundial durante o filme, e isso é deixado completamente em segundo plano. O espectador que não estiver prestando atenção nem vai reparar nesse detalhe.

O roteiro tem problemas. Tem problemas básicos e comuns como, por exemplo, uma empresa top que tem alguns seguranças que são completamente bestas, que qualquer um consegue enganar. Ficou meio bobo ter “os Três Patetas” como seguranças. E tem outros problemas que são mais específicos, como por exemplo citar religião mas não se profundar no tema. Existe um questionamento: algumas religiões se baseiam na ideia de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança – mas se existem alienígenas inteligentes, diferentes de nós, quem os criou? Será o mesmo Deus? Algumas religiões podem entrar em colapso o dia que confirmarem vida alienígena inteligente. Isso é citado, mas não é desenvolvido. Se não vai desenvolver, para que citar? Acho que era melhor nem ter tocado no assunto. A personagem Jane podia protagonizar esse ponto do questionamento religioso, mas o roteiro deixa isso de lado. Acaba que a principal função da personagem é estar na hora certa que o roteiro está precisando que ela entregue um determinado objeto.

Mas heu acho que o pior do roteiro é que eles resolvem criar um plano mirabolante para explicar o que está acontecendo, e é um plano confuso e ineficiente. Se você vai criar algum artifício pra explicar, ou faz direito, ou nem precisa explicar – pelo menos é assim que heu penso. Menos é mais.

O elenco é bom. Emily Blunt está ótima, não será surpresa vê-la na lista de indicadas ao Oscar ano que vem. Josh O’Connor também está bem. E achei curioso ver Colin Firth como vilão. Também no elenco, Colman Domingo, Eve Hewson e Wyatt Russell (dois nepo babies, filha do Bono do U2 e filho do Kurt Russell).

Ah, claro, a trilha sonora é ótima. John Williams tinha decidido se aposentar, Steven Spielberg o convenceu a sair da aposentadoria para este filme.

Quero comentar o final, mas antes queria fazer um mimimi sobre o título nacional. O filme se chama originalmente “Disclosure Day”, ou seja, o nome deveria ser “O Dia da Revelação”. Mas resolveram chamar de “Dia D”, o mesmo nome da maior operação militar anfíbia da história, em 6 de junho de 1944, quando os aliados finalmente começaram a virar o jogo contra o nazismo. Ou seja, o espectador brasileiro entra no cinema achando que vai ver uma história sobre o ponto onde humanos vão começar a reação contra uma possível invasão alienígena – e o filme fala de outra coisa. Péssima escolha de nome brasileiro!

A cena final desagradou parte do público. Conheço gente que não gostou do fim. Heu queria fazer um comentário sobre isso. Mas como estou falando do fim do filme, é claro que é um spoiler. Então vou colocar o aviso de spoilers e se você quiser ouvir comentários sobre o fim, siga até o fim.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Os protagonistas conseguem entrar num telejornal ao vivo e divulgam várias imagens de alienígenas no planeta Terra. Aos poucos outros canais de televisão começam a replicar essas notícias e o mundo inteiro pára para ver a revelação sobre alienígenas na Terra. Ao fim, eles trazem um alienígena que estava com eles para falar a mensagem final. A personagem da Emily Blunt entende a língua dos alienígenas, então ela ouve a mensagem. E ela vai para frente da câmera para falar a mensagem – e o filme acaba. Não ouvimos a tal mensagem, porque quando ela vai começar a falar, começam os créditos.

É claro que isso gera uma frustração no espectador. Afinal você passa duas horas e meia acompanhando uma história sobre um segredo envolvendo alienígenas. E quando vai finalmente ouvir qual é esse segredo, o filme acaba. Mas heu entendi que o propósito do Spielberg não era contar qual era o segredo, e sim contar a história das pessoas que estão querendo revelar esse segredo. Pensando sobre esse ponto de vista, eu até gostei do final.

Heu entendo o espectador que saiu do cinema frustrado. Me diz aqui, você achou o final satisfatório ou você queria saber qual era o segredo?

Os Fabelmans

Crítica – Os Fabelmans

Sinopse (imdb): Crescendo no Arizona da era pós Segunda Guerra Mundial, um jovem chamado Sammy Fabelman descobre um segredo de família e explora como o poder dos filmes pode ajudá-lo a ver a verdade.

De vez em quando a gente vê filmes onde os diretores mostram lembranças de sua juventude. Chegou a vez de ver uma história trazendo o que seria um jovem Steven Spielberg.

Mas, antes de entrar no filme, posso fazer alguns comentários sobre o diretor Spielberg? Sou fã do cara desde a minha adolescência. Nos anos 80, o nome Steven Spielberg estava presente em muitos dos bons filmes lançados nos cinemas. Não só ele dirigiu vários filmes importantes, como ET, Caçadores da Arca Perdida, Indiana Jones e o Templo da Perdição e No Limite da Realidade; como também produziu muita coisa, tipo De Volta Para o Futuro, Roger Rabbit, Gremlins, Goonies, Viagem Insólita, Enigma da Pirâmide, Poltergeist, Te Pego Lá Fora… O cara era sinônimo de cinema pop de boa qualidade.

Mas heu me lembro que a crítica não o levava a sério. Tanto que em 1985 ele dirigiu um filme sério, A Cor Púrpura, e o filme foi indicado a 11 Oscars – mas não foi indicado a diretor. E não venceu nenhum dos Oscars.

Heu, moleque, nem dava bola pra crítica, e continuava fã daquele diretor e produtor que continuava fazendo filmes mágicos. Até que em 1993 / 94 parece que finalmente a crítica se rendeu ao talento e genialidade de Spielberg. No Oscar de 94, A Lista de Schindler ganhou 7 Oscars, incluindo dois para o próprio Spielberg, diretor e produtor (ele ganharia mais um de diretor em 99 por Resgate do Soldado Ryan). E não era só isso: em 93 Spielberg tinha lançado dois filmes, o outro era Parque dos Dinossauros, que não só ganhou 3 Oscars, como ainda se tornou a maior bilheteria da história – batendo o próprio recorde, já que até então a maior bilheteria era ET!

(Lembro de uma foto no jornal com Spielberg abraçando dez estatuetas, acho que era uma espécie de “vingança” porque pouco depois dele perder todos os prêmios por A Cor Púrpura, O Último Imperador tinha ganhado nove Oscars. O tempo mostrou que Spielberg seria maior do que isso.)

E por que estou falando isso tudo? Porque pra mim é uma satisfação ver que o cara que heu era fã há 30, 35 anos atrás, hoje é reverenciado como um dos maiores nomes da história do cinema! E, para um fã, ver um filme como Os Fabelmans é uma delícia!

Porque, se a gente parar pra pensar, diferente da maioria dos filmes do Spielberg, Os Fabelmans é meio simples demais. Não temos uma história mirabolante nem efeitos especiais impressionantes, temos uma história simples de um adolescente apaixonado por cinema, e seus problemas comuns a muitos outros adolescentes, como separação dos pais, mudanças de cidade, ou bullying na escola (por causa de anti semitismo). E mesmo assim é uma história emocionante!

Os Fabelmans é inspirado na adolescência do próprio Spielberg – o roteiro foi escrito por Tony Kushner (Munique, Lincoln, Amor Sublime Amor) em parceria com Spielberg – é a primeira vez que ele roteiriza um filme desde Inteligência Artificial, de 2001. Não sei o que realmente aconteceu e o que foi apenas inspirado, mas li no imdb que os filmes em super 8 são recriações de filmes super 8 que Spielberg fez na época.

(O imdb atualizou a página do Spielberg e incluiu 6 curtas que ele fez entre 1959 e 68. Ele começou a filmar aos 13 anos! Quero ver esses curtas!!!)

As cenas das filmagens são deliciosas, assim como as cenas que mostram a exibição dos filmes. Tem alguns detalhes geniais, tipo ele furando o filme para criar os efeitos especiais dos tiros de revólver, ou quando os extras mortos no chão se levantam e correm para deitar em outro lugar enquanto a câmera foca no ator que está em pé.

Lembrando que temos os filmes feitos pelo personagem Sammy, e que tudo isso é filmado pela câmera do Spielberg. E ver um filme dirigido pelo Spielberg sempre é um prazer! A cena onde a Michelle Williams dança é belíssima!

Mas Os Fabelmans ainda tem outras coisas muito boas. Paul Dano, Seth Rogen e o jovem Gabriel LaBelle estão muito bem, mas Michelle Williams está sensacional. Tem uma cena, onde Sammy Fabelman está chateado com a mãe, e ela tenta conversar com o filho, mas Sammy em vez de falar a coloca pra assistir um filminho que ele montou. Não vemos o filminho (a gente já sabe o que tem lá), só vemos a reação da Michelle Williams. Olha, não sei com quem ela vai concorrer, mas temos uma indicada muito forte ao Oscar de melhor atriz!

Ainda no elenco: o fim do filme traz uma divertida participação especial do David Lynch. E essa participação interfere na cena final, justo a cena que termina o filme para começarem os créditos. E essa cena me deixou com um sorriso no rosto!

Te Pego Lá Fora

Crítica – Te Pego Lá Fora

Sinopse (imdb): Um nerd se mete em problemas com o novo bandido, um garoto mau que o desafia a lutar em sua escola secundária após o fim do dia.

Te Pego Lá Fora (Three O’Clock High, no original) é um clássico filme de sessão da tarde sobre high school americana. Mas, ao mesmo tempo, é um filme que é muito mais do que isso.

Na trívia do imdb, encontrei uma citação que exemplifica bem o que quero dizer. O diretor Phil Joanou, estreante, disse que se inspirou em Depois de Horas e Touro Indomável antes de filmar. Steven Spielberg, que era produtor executivo, foi ver o filme achando que seria algo na pegada de Karate Kid. Depois do filme assistido, ele teria perguntado a Joaunou: “O que aconteceu com Karatê Kid? Você fez um filme do Scorsese!”

O roteiro de Te Pego Lá Fora tem todos os clichês de filmes de high school dos anos 80. Mas o modo como foi filmado em nada se assemelha àqueles filmes. O modo como Joanou posiciona e movimenta a sua câmera é diferenciado.

Curiosamente, o diretor Phil Joanou não tem um grande currículo no cinema. Ele é mais conhecido por vários trabalhos junto com a banda U2 – inclusive, ele dirigiu o famoso documentário Rattle and Hum. O mesmo comentário posso fazer sobre o elenco. Te Pego Lá Fora não tem nenhum ator que ficou conhecido. Só pra dar um exemplo, o protagonista Casey Siemaszko era um dos caras que andava ao lado do Biff em De Volta para o Futuro – coadjuvante do coadjuvante! É, aqui não tem muito o que falar sobre os atores.

Uma coisa curiosa sobre o elenco era a idade dos dois principais. Não sei quando foi filmado, mas Te Pego Lá Fora foi lançado em 1987, e tanto Casey Siemaszko quanto Richard Tyson nasceram em 1961 – eles interpretavam adolescentes de 16 ou 17 anos, mas já tinham 26! O diretor Phil Joanou também é de 61, ele é alguns meses mais novo que os seus “adolescentes”.

O roteiro de Thomas Szollosi e Richard Christian Matheson, filho do famoso Richard Matheson (Amor Além da Vida, Eu Sou a Lenda) traz vários clichês de filmes de high school, mas está longe de ser um roteiro ruim. Quase toda a trama se passa em um único dia (só no finzinho do filme a gente vê o dia seguinte), e durante toda a projeção a gente fica acompanhando um relógio marcando a hora, acentuando a tensão que paira no ar, contando os minutos que faltam para a briga.

A trilha sonora é da banda Tangerine Dream, que fez dezenas de trilhas na época. O curioso é que não lembro de nenhum tema composto por eles…

A bilheteria não foi boa, o filme custou 6 milhões de dólares e rendeu menos que 4 milhões. Injusto, este filme merecia uma bilheteria melhor.

Steven Spielberg foi produtor executivo deste filme, mas, sabe-se lá por qual motivo, pediu pra tirar o nome dos créditos (ouvi falar de uma briga com Aaron Spelling, que era outro produtor executivo). Rolam boatos pela internet que Spielberg teria dirigido uma cena do filme, a cena no fim onde a professora volta e beija o protagonista. Hoje em dia algo assim nunca aconteceria, mas, nos anos 80, a galera era mais relaxada neste assunto. Enfim, a cena ficou bem divertida.

Por fim, queria falar de uma teoria maluca que rola na internet, de que este colégio seria o mesmo de Curtindo a Vida Adoidado. A atriz Annie Ryan, que aqui tem um papel importante, fez uma ponta no filme do Ferris Bueller.

Amor, Sublime Amor

Crítica – Amor, Sublime Amor

Sinopse (imdb): Uma adaptação do musical de 1957 que explora o amor proibido e a rivalidade entre os Jets e os Sharks, duas gangues de rua de adolescentes de diferentes origens étnicas.

Outro dia falei aqui de Tick Tick Boom, que citava Stephen Sondheim. E olha só a coincidência: hoje é dia de falar de um musical escrito pelo próprio Sondheim (que infelizmente faleceu menos de um mês antes da estreia do filme).

Amor Sublime Amor (West Side Story, no original) é a refilmagem do clássico homônimo lançado em 1961, que por sua vez era a adaptação do musical da Broadway de 1957. O filme de 1961 é o musical mais bem sucedido da história do cinema, ganhou 10 Oscars (incluindo melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro adaptado), 3 Globos de Ouro e 2 Grammys. A história se baseia no clássico Romeu e Julieta, onde dois jovens de universos rivais se apaixonam.

Gosto de musicais, mas nunca vi a peça e nem me lembro se já tinha visto o filme Amor Sublime Amor. Mas o que me interessava aqui era o diretor. É a primeira vez que Steven Spielberg dirigiu um musical. Sou fã do Spielberg, assumo. Cada filme novo que ele faz é bem vindo!

Você pode falar várias coisas negativas sobre o Spielberg, mas ninguém pode falar que o cara não sabe filmar. Aliado ao habitual diretor de fotografia Janusz Kaminski, Spielberg apresenta um filme com o visual fantástico, São várias cenas que enchem os olhos. Só pra citar um exemplo: a cena onde vai ter a briga começa com a câmera no teto, vendo as sombras das duas gangues rivais entrando. Ficou muito legal. Ou então a cena onde Tony conhece Maria, que tem tantos lens flare que lembrei do JJ Abrams.

Agora, tenho um comentário negativo, de alguém que não viu a peça e não se lembra do filme de sessenta anos atrás. Em termos cinematográficos, achei ruim a ordem das músicas. A trama vai num crescente até o clímax que é a luta entre as gangues. E depois disso ainda tem 40 minutos de filme! A música seguinte mostra a protagonista feminina numa grande loja de departamentos, e a gente se pergunta “pra que? A história já acabou!”. No teatro podia funcionar, mas no cinema seria melhor outra ordem das músicas.

No elenco principal, acho que o único que heu conhecia é Ansel Elgort, protagonista de Baby Driver (filme que considero um “musical diferente”). O papel principal feminino é da estreante Rachel Zegler, que ganhou um teste de elenco com 30 mil candidatas. Gostei de Mike Faist, que faz o Riff; e de Ariana DeBose, que faz a Anita. E, para os fãs do filme de 60 ano atrás, Rita Moreno, que fez a Anita naquela versão (e ganhou o Oscar pelo papel) está de volta para outro papel secundário.

Antes de terminar o texto, preciso falar das legendas. São dois grande problemas. O primeiro descobri que a culpa não é da distribuição brasileira: os diálogos em espanhol não têm legendas. Spielberg declarou que queria apenas atores latinos para os papeis dos porto-riquenhos, e até aí ele está super certo e ninguém vai discordar. Mas, o que as legendas têm a ver com isso? Segundo o imdb, Spielberg teria dito “Se eu legendasse o espanhol, estaria simplesmente sobrepondo o inglês ao espanhol e dando ao inglês o poder sobre o espanhol. Isso não ia acontecer nesse filme, eu precisava respeitar a língua o suficiente para não legendar.” Desde quando legendar um diálogo em outra língua é um desrespeito??? Desculpa, Spielberg, sou seu fã, mas desta vez você pisou na bola.

A outra crítica é pra quem fez as legendas que estavam na sessão de imprensa – ou seja, provavelmente estarão nas cópias em cartaz. Em vez de traduzir as canções, rolou uma adaptação. Não sei se o tradutor usou alguma versão pré existente com outra letra, ou se simplesmente quis adaptar as sílabas à melodia, mas, o fato é que na tela a gente ouve uma coisa e lê outra. Ficou bem difícil acompanhar o filme assim.

Jogador N° 1

Jogador Numero 1Crítica – Jogador N° 1

Sinopse (imdb): Quando o criador de um mundo de realidade virtual chamado OASIS morre, ele lança um vídeo no qual ele desafia todos os usuários do OASIS a encontrar seu Easter Egg, que dará ao descobridor sua fortuna.

Não sei como os mais novos veem o cinema de algumas décadas atrás. Mas Steven Spielberg era um dos maiores nomes do cinema pop dos anos 80. Não só o cara dirigiu vários filmes essenciais (como ET, No Limite da Realidade, os três Indiana Jones), como produziu muito mais (De Volta para o Futuro, Goonies, Gremlins, O Enigma da Pirâmide, Viagem Insólita). Spielberg era sinônimo de bom entretenimento.

(A partir de 1985, com A Cor Púrpura, Spielberg começou a alternar a carreira entre filmes sérios e filmes pop, caminho que o levou aos Oscars de melhor diretor com A lista de Schindler (1994) e O Resgate do Soldado Ryan (1998)).

Toda essa introdução é pra explicar que Spielberg fez um filme para aqueles que acompanharam sua carreira nos anos 80. Todo quarentão saudosista vai adorar Jogador N° 1 (Ready Player One, no original)!

O que chama mais atenção em Jogador N° 1 são as inúmeras referências. O filme é repleto de citações a outros filmes, séries e videogames. Um exemplo que está no trailer: no grid de largada de uma corrida estão o Mach V de Speed Racer, o Batmóvel dos anos 60, o Interceptor de Mad Max e a van do Esquadrão Classe A – e o protagonista dirige o DeLorean de De Volta para o Futuro!

Acho que a única vez que o cinema viu um crossover parecido foi em Uma Cilada para Roger Rabbit (que, não por acaso, tinha Spielberg na produção), onde vimos ao mesmo tempo Mickey e Pernalonga, Pato Donald e Patolino, dentre inúmeros outros. Só que aqui a quantidade de referências é muito maior!

“Mas, será que o filme é só isso?” Bem, fica difícil julgar uma obra dessas sem se influenciar pelas referências. Tenho uma dúvida sincera se Jogador N° 1 sobrevive para a geração dos mais novos, que não viveram tudo isso. Acredito que sim, porque nenhuma das referências é essencial para a trama, todas estão ao fundo. Mas, ok, admito que a geração millennial não deve curtir tanto quanto os quarentões.

Independente das referências, Jogador N° 1 é uma divertida aventura – como Spielberg fazia muito anos atrás. A cena da corrida de carros é alucinante, e o momento “homenagem a um clássico do terror” é sensacional. São duas horas e vinte que passam rapidinho.

Precisamos falar dos efeitos especiais. Boa parte do filme se passa dentro do videogame, efeitos médios iam enfraquecer a história. Mas os efeitos aqui são excelentes, enchem os olhos de detalhes, todos perfeitos.

A trilha sonora também é muito boa. John Williams estava ocupado com The Post (o filme anterior de Spielberg), então Alan Silvestri foi chamado (é somente a terceira vez que Williams não faz a trilha de um filme do Spielberg!). Silvestri, o mesmo de De Volta para o Futuro, faz um bom trabalho na parte orquestrada. E a parte que usa músicas pop também traz uma excelente seleção, com Van Halen, Tears For Fears, Daryl Hall & John Oates, Joan Jett, Twisted Sister, New Order…

O elenco é encabeçado por Tye Sheridan (Como Sobreviver a um Ataque Zumbi). Gostei de ver Simon Pegg e Mark Rylance com maquiagens que os deixaram bem diferentes. Ben Mendelsohn faz o vilão (como em Rogue One). Também no elenco, Olivia Cooke, Lena Waithe, Philip Zhao, Win Morisaki, Hannah John-Kamen, Ralph Ineson e Susan Lynch. E, se for preciso escolher um ponto negativo, escolho T.J. Miller, as piadinhas do seu I-R0k nunca estavam bem colocadas.

Agora preciso rever o filme. Para me divertir novamente, e também para procurar mais referências. Obrigado, sr. Spielberg. Obrigado por mais um momento de sonho. Obrigado por mais um filme inesquecível!

O Bom Gigante Amigo

BGACrítica – O Bom Gigante Amigo

Filme novo do Spielberg!

Uma menina encontra um gigante que, apesar de sua aparência intimidadora, se mostra uma alma bondosa, que sofre na mão dos outros gigantes porque, ao contrário deles, se recusa a comer crianças.

O Bom Gigante Amigo (The BFG, no original) foi dirigido por Steven Spielberg mas, antes de tudo, trata-se de uma produção da Disney. Digo mais: é uma produção da Disney direcionada ao público infantil.

O Bom Gigante Amigo é muito bobinho. Tudo é muito inocente. O filme é baseado no livro de Roald Dahl (que também escreveu o livro que originou A Fantástica Fábrica de Chocolate) de 1982 – talvez funcionasse na época, mas não no mundo de hoje.

Pra piorar, o roteiro tem falhas no ritmo, se mostra arrastado em certos momentos. Digo mais: parece que o roteiro foi alterado. Rebecca Hall é um dos maiores nomes do elenco e seu personagem é uma coadjuvante inutilizada. E, na boa, as piadas com gases foram desnecessárias. Triste saber que foi o último roteiro de Melissa Mathison, falecida ano passado, a mesma que escreveu ET, O Extra Terrestre.

Pelo menos a parte técnica é impecável. O gigante interpretado por Mark Rylance, feito por captura de movimento, é um assombro de tão bem feito. Não sei se o mérito é de Rylance ou da tecnologia usada (acredito que um pouco de cada), mas o realismo do “BGA” é impressionante. Mais uma vez, a gente fica na dúvida se um personagem desses merece uma nova categoria no Oscar.

Mas é pouco. Spielberg já fez coisa muito melhor, a Disney também. Uma parceria entre esses dois monstros do cinema contemporâneo pedia algo de maior qualidade.

Ponte dos Espiões

  Ponte dos Espiões - posterCrítica – Ponte dos Espiões

Uêba! Filme novo do Spielberg com o Tom Hanks!

Durante a Guerra Fria, um advogado especializado em seguros é contratado para defender um espião russo. Quando vê que será impossível defendê-lo, propõe que ele seja usado como uma apólice de seguro para uma eventual futura troca de prisioneiros com a União Soviética.

Logo de cara, já sabemos que veremos um filmão, afinal, temos um dos melhores atores contemporâneos repetindo a parceria com um dos melhores diretores contemporâneos – eles já trabalharam juntos outras três vezes, em O Resgate do Soldado Ryan, O Terminal e Prenda-me se for Capaz. Mas, se por um lado isso é garantia de qualidade, por outro lado a gente sobe as expectativas. Ainda mais quando lê que o roteiro é dos irmãos Coen.

Vamulá. Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, no original) não é um grande filme, para ficar na história, como Soldado Ryan foi. Mas é um eficiente filme sobre a Guerra Fria. E Spielberg é muito competente ao formatar isso: não só a fotografia e a trilha sonora são muito bem cuidadas, como a sua câmera flui como poucos diretores da atualidade sabem fazer.

(Curiosamente, a parte que mais me decepcionou foi ver que o roteiro, apesar de bem escrito, não tem “cara” de irmãos Coen…)

Ponte dos Espiões foi inspirado em fatos reais. A ponte, inclusive, existe, e foi usada para troca de prisioneiros. Será uma boa aula de história para as gerações mais novas que não viveram a Guerra Fria. Só não gostei do maniqueísmo (que já era previsível): o preso russo fica calmamente pintando quadros na cadeia dos EUA, enquanto o americano é torturado na cadeia soviética.

É interessante vermos um filme como Ponte dos Espiões nos dias de hoje, quando temos verdadeiras batalhas nas redes sociais defendendo e atacando criminosos e justiceiros. Abel, o espião russo, foi julgado e condenado pela opinião pública mesmo antes de entrar no tribunal. Se existisse na época da Guerra Fria, o facebook estaria bombando!

No elenco, o único grande nome é Tom Hanks, que consegue dar credibilidade ao seu “segundo homem mais odiado do país”  (o primeiro era o espião que ele defendeu). Também no elenco, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan e Austin Stowell.

Pelo clima do filme e pela época do ano que foi lançado, não me espantarei se Ponte dos Espiões estiver na lista do Oscar ano que vem…

Jurassic World

Jurassic World - PosterCrítica – Jurassic World

Vinte e dois anos depois, a ilha Nublar agora tem um parque temático de dinossauros em pleno funcionamento, como originalmente idealizado por John Hammond. Mas, como depois de dez anos de funcionamento as visitas começam a cair, uma nova atração é criada para reacender a atenção do público.

Apesar de parecer um reboot, Jurassic World é uma continuação. Diferente dos filmes anteriores, agora vemos o parque temático funcionando a todo vapor, com milhares de visitantes por dia para ver dinossauros vivos. As mortes que aconteceram no filme de 1993 são mencionadas, mas os planos de fazer uma atração turística foram mantidos.

(O segundo (1997) e o terceiro (2001) filmes são ignorados. É, talvez tenha sido uma boa ideia, ninguém sentiu falta).

A dúvida: é uma continuação digna do primeiro filme ou é tão fraco quanto as duas continuações já existentes?

Alvíssaras! O novo filme é muito bom!

Acredito que nostalgia seja a palavra certa para definir Jurassic World. Revemos os Velociraptors e o Tiranossauro Rex, revemos a ilha e algumas locações do primeiro filme, revemos até duas crianças perdidas na ilha e o BD Wong voltando ao papel do dr. Henry Wu do primeiro filme. E, pontuando toda a nostalgia, a trilha sonora de Michael Giacchino usa e abusa do tema original do John Williams. Todo mundo sai do cinema cantando o pã-rã-rã… rã-rã… do filme de 93.

Os fãs do filme original vão se deleitar. As interações dos personagens com os dinossauros estão bem mais desenvolvidas. E uma cena em particular, envolvendo o Tiranossauro, fez o cinema bater palmas – coisa rara em uma sessão de imprensa.

Talvez este seja o ponto fraco do filme dirigido pelo desconhecido Colin Trevorrow. Ele respeita até demais o primeiro filme, a ponto de parecer um reboot. E tudo fica um pouco previsível.

Pelo menos o roteiro é bem escrito e o filme tem um bom ritmo – se não temos novidades, pelo menos temos clichês bem usados. Adorei a curta cena com o mercenário barbudo no helicóptero, assim como a despedida do funcionário nerd com sua colega (aliás, este personagem foi um excelente alívio cômico).

Sobre os efeitos especiais, precisamos nos lembrar que no Parque dos Dinossauros de 1993 foi a primeira vez que vimos dinossauros “reais”. Na época, o diretor Steven Spielberg (que está aqui como produtor executivo) conseguiu um perfeito equilíbrio entre cgi, stop motion e animatronics e, pela primeira vez na história do cinema, os dinossauros pareciam que realmente estavam lá, interagindo com os atores.

Hoje em dia, o cgi chegou a um nível de qualidade tão grande que os efeitos aqui também são excelentes. Não li em nenhum lugar, mas arrisco dizer que aqui deve ser tudo cgi. Mas é um cgi impressionantemente bem feito!

Liderando o elenco, Chris Pratt mostra mais uma vez que é um dos nomes mais “quentes” de Hollywood hoje em dia. Depois de ser o protagonista de Uma Aventura LegoGuardiões da Galáxia, o cara mostra todo o seu carisma neste filme e ainda está cotado para ser o novo Indiana Jones! Também no elenco, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Irrfan Khan, Omar Sy, Jake Johnson, Lauren Lapkus, Ty Simpkins e Nick Robinson. Só não entendi por que chamaram a Judy Greer para um papel tão pequeno – será que pensam nela para alguma continuação?

Sobre continuação, o filme não deixa o final aberto. Mas do jeito que os executivos de Hollywood pensam hoje em dia, acho difícil não termos um Jurassic World 2 nos próximos anos. Ok, que venha, se for tão divertido quanto este!

Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988)

roger rabbitCrítica – Uma Cilada Para Roger Rabbit

Hora de rever o genial Roger Rabbit!

Um detetive alcoólatra que odeia desenhos é a única esperança de um coelho quando este é acusado de assassinato.

Lançado em 1988, Uma Cilada Para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, no original) foi um filme revolucionário. Misturar atores “live action” com desenhos animados não era novidade, mas isso sempre acontecia com a câmera parada, e o desenho em apenas duas dimensões – era um ator e uma “folha de papel”. Aqui, os desenhos tinham volume, e a câmera não era estática. Pela primeira vez tínhamos desenhos “sólidos” contracenando com atores! E precisamos nos lembrar que não existia cgi – foi tudo desenhado na mão!

Uma Cilada Para Roger Rabbit tinha outra característica incomum. Devido a uma série de acordos entre diferentes estúdios, nós temos personagens de universos diferentes interagindo. Em uma cena, Patolino e Pato Donald tocam piano; em outra, Mickey e Pernalonga pulam de paraquedas. São vários os personagens da Disney e da Warner, além de outros como Betty Boop, Droopy e Pica-Pau. Não me lembro, na história do cinema, de um “crossover” de personagens tão expressivo como este.

Tudo isso seria pouco importante se o filme fosse fraco – o que felizmente não é. Uma Cilada Para Roger Rabbit é divertidíssimo, traz uma boa homenagem aos filmes noir, no personagem Eddie Valiant, e ao mesmo tempo ao humor de desenhos animados antigos. O humor presente no filme é genial! A sequência inicial – o curta do bebê procurando os biscoitos – é de rolar de rir. E ao longo do filme vemos várias cenas com este estilo de humor absurdo, sempre com um pé no humor negro – como nos bons tempos dos desenhos do Pernalonga, do Pica Pau e do Tom & Jerry (que não estão no filme, infelizmente).

Uma Cilada Para Roger Rabbit foi produzido pela Disney e pela Amblin, produtora de Steven Spielberg. A direção ficou a cargo de Robert Zemeckis, que estava em ótima fase – Roger Rabbit foi feito entre De Volta Para o Futuro (1985) e as suas continuações (lançadas em 89 e 90). Não sei se a experiência em Roger Rabbit teve alguma influência nisso, mas anos depois Zemeckis voltaria ao universo das animações, com os longas Expresso Polar (2004), Beowulf (07) e Os Fantasmas de Scrooge (09).

No elenco, o pouco conhecido Charles Fleischer tem o destaque: é dele a voz do Roger Rabbit, e, de quebra, ele ainda faz as vozes do Benny The Cab e de duas doninhas. Mas não podemos menosprezar o trabalho de Bob Hoskins, que teve que contracenar boa parte do tempo com um personagem inexistente (diz a lenda que Fleischer teria vestido uma fantasia de coelho para ajudar Hoskins durante as filmagens). Outra voz importante é a de Kathleen Turner, no papel de Jessica Rabbit (quando ela canta, é dublada pela Amy Irving, então sra. Spielberg). Curioso notar que, nesta época, Turner e sua voz grave eram símbolos sexuais – mas poucos anos depois, ela interpretaria um travesti na série Friends. E, claro, não podemos deixar de citar Christopher Lloyd, ótimo como o vilão. Ah, de curiosidade: o próprio Mel Blanc, que fazia as vozes de todos os personagens da turma do Pernalonga nos desenhos clássicos, trabalhou na dublagem aqui, repetindo seus personagens famosos – é dele as vozes do Pernalonga, do Patolino, do Gaguinho, do Frajola e do Piu Piu.

Uma Cilada Para Roger Rabbit ganhou 4 Oscars – efeitos visuais, edição, som e efeitos sonoros. Também foi indicado para fotografia e direção de arte. Mas o que chama a atenção são os efeitos visuais – se bem que, para os nossos olhos atuais, acostumados com cgis perfeitos, alguns efeitos já não são tão impressionantes.

Entre os extras do dvd e do blu-ray, têm os três engraçadíssimos curtas que fizeram com o Roger Rabbit e o Baby Herman na época. Lembro que um deles, o da montanha russa, passou nos cinemas brasileiros na época, antes de algum filme – não me lembro qual. Os outros dois, só vi quando comprei o dvd.

Por fim, uma coisa curiosa. Tenho o dvd e o blu-ray nacionais. Como vi com meus filhos, procurei a versão dublada. E tive que ver o dvd, porque no blu-ray nacional, edição especial de 25 anos, não tem dublado em português – além do original em inglês, só tem dublado em francês e em russo…

Indiana Jones e a Última Cruzada

indiana jones e a ultima cruzadaCrítica – Indiana Jones e a Última Cruzada

Depois de Os Caçadores da Arca Perdida e O Templo da Perdição, chegamos ao fim da trilogia!

1938. Indiana Jones recebe um diário com todas as informações sobre o paradeiro do Santo Graal, escrito por seu pai, o professor Henry Jones, que foi capturado pelos nazistas.

Sim, falei trilogia. Sim, sei que são quatro filmes. Mas o quarto filme veio beeem depois, então podemos chamar de trilogia os três primeiros, todos lançados nos anos 80.

Mais uma vez dirigido por Steven Spielberg e com história escrita por George Lucas, Indiana Jones e a Última Cruzada foi lançado em 1989, e volta ao tom menos galhofeiro, mais parecido com o primeiro filme.

Temos pelo menos duas novidades interessantes. A primeira é uma sequência com o Indiana adolescente, interpretado por River Phoenix, introduzindo vários elementos da mitologia “indianajonesiana” – o chicote, o chapeu, o medo de cobras, etc.

A segunda é a presença de Sean Connery. Desde o primeiro filme, falavam que o Indiana era uma versão do James Bond. Ter o “primeiro James Bond” no elenco, justamente como o pai do Indy, foi uma comprovação disso.

A trama é boa, tem bom ritmo, bons efeitos especiais, Harrison Ford e Sean Connery têm uma boa química, quase tudo funciona. O ponto fraco é justamente a parte final. Aquele cavaleiro preso há 700 anos não convence…

Mesmo assim, o resultado final é bem acima da média, o filme é quase tão bom quanto o primeiro.