Waterworld: O Segredo das Águas

Crítica – Waterworld: O Segredo das Águas

Sinopse (imdb): Num futuro em que o gelo dos pólos derreteu, quase toda a terra está submersa. Um homem solitário, com relutância, ajuda uma mulher e uma jovem a encontrar um terreno firme.

Tive a ideia de fazer uma lista de filmes injustiçados. Filmes que as pessoas se acostumaram a falar mal, mas não são tão ruins assim. Só que é uma lista que dá trabalho, porque preciso rever cada filme para julgar se merece ou não estar numa lista de injustiçados. GG, meu companheiro de Podcrastinadores, sugeriu Waterworld: O Segredo das Águas, um dos maiores fracassos comerciais da história do cinema. Aproveitei que revi e vou comentar aqui.

Waterworld surgiu como uma “versão aquática de Mad Max“: um mundo pós apocalíptico, um herói solitário, vilões bizarros e a luta por recursos (água/combustível). A diferença é que em vez de deserto, o planeta está inundado depois do derretimento das calotas polares. Aliás, Peter Rader, um dos roteiristas de Waterworld, admitiu a inspiração em Mad Max 2. Mais: o diretor de fotografia Dean Semler trabalhou em Mad Max 2 e Mad Max 3.

Waterworld é mal falado, mas nem é tão ruim assim. O lance é que foi uma produção muito cara, e o retorno nas bilheterias não refletiu o investimento. O filme tinha o orçamento de 175 milhões de dólares – o maior orçamento da história até aquela data, mas pouco depois Titanic bateu esse recorde (a diferença é que Titanic foi um sucesso de bilheteria). Detalhe: o próprio Kevin Costner pagou 22 milhões do próprio bolso! E se você tem um filme muito caro, a bilheteria tem que ser muito grande…

(Fui na wikipedia agora pra ver a lista dos filmes mais caros. Hoje, em 2026. O mais caro foi Star Wars ep 9, que custou 490 milhões. Na wikipedia tem uma lista com 68 títulos, o último dessa lista custou 204 milhões. Curiosamente, todos os 68 filmes são deste século.)

A direção é de Kevin Reynolds, que já tinha dirigido Kevin Costner em outros dois filmes, Fandango (1985) e Robin Hood (1991). Mas, segundo o imdb, há rumores de que Kevin Reynolds e Kevin Costner tiveram uma grande discussão sobre o filme, o que resultou na saída de Reynolds do projeto, deixando Costner na direção e na supervisão da edição. Reynolds teria dito que “Kevin Costner só deveria estrelar filmes que ele mesmo dirige. Dessa forma, ele pode trabalhar com seu ator e diretor favoritos.” Mesmo com a saída, Kevin Reynolds continuou creditado como diretor.

Filmar no mar era um grande desafio. Um dos maiores problemas era que boa parte do elenco e equipe ficavam enjoadas. Além disso, boa parte das cenas precisavam ser filmadas a duas milhas da costa, pra ter pelo menos 270 graus de mar aberto. As condições climáticas locais geralmente pioravam à tarde, então a maior parte das filmagens tinha que ser interrompida depois das 15h ou 16h. Para piorar a situação, cerca de 30 barcos adicionais, usados ​​pelo elenco e equipe, eram necessários para iluminação, câmeras, maquiagem, alimentação, figurinos etc., e nenhum deles tinha banheiro. As filmagens tinham que ser interrompidas repetidamente para que as pessoas pudessem ser levadas a banheiros químicos em uma balsa ancorada perto da costa. Todas essas limitações geralmente permitiam apenas cinco ou seis tomadas por dia de filmagem, estendendo significativamente o cronograma.

Era complicado, mas pelo menos temos algumas sequências realmente muito boas. Toda a sequência do ataque dos smokers ao atol é muito boa. E o trimarã do protagonista Mariner (o personagem não tem nome) é um barco muito bem estruturado, cheio de surpresas, e Kevin Costner parece muito à vontade fazendo de tudo no barco. Eram os anos 90, cgi ainda era algo sem muita força, e não existiam drones com câmeras. Então, durante algumas vezes durante o filme, a gente vê um close meio tremido no ator, e a câmera se afasta, mostrando o barco velejando – provavelmente cena feita com helicópteros. Antes de começarem as filmagens, Costner ficou três semanas velejando com o trimarã pra se acostumar.

O vilão, interpretado por Dennis Hopper, é bem ruim. Mas… Naquela época, vilões caricatos eram comuns. Vou deixar só um exemplo: Goonies é um filme cultuado pela maioria das pessoas, e os vilões daquele filme são tão caricatos quanto o daqui. E esse aqui é menos pior que o “Master Blaster”, do Mad Max 3. Ou seja, vilão ruim, mas coerente com a época.

O roteiro também tem várias forçadas de barra, mas que – de novo – eram comuns na época. Várias conveniências de roteiro se espalham pelo filme, tipo o balão aparecendo do nada pra salvar os personagens quando o barco estava danificado. E aquele bungee jump no fim talvez tenha sido um pouco demais – mas pelo menos a cena é empolgante. Enfim, anos 90…

No elenco, é um “filme do Kevin Costner”, que já era um nome gigante em Hollywood – cinco anos antes ele ganhou dois Oscars, melhor filme e melhor diretor, por Dança com Lobos. Gostei do personagem dele, que é um cara quieto e mal-humorado, e que precisa ter que conviver, a contragosto, com uma mulher e uma criança. E, vamos ser sinceros, uma criança bem chata. Os outros dois nomes grandes do elenco são Jeanne Tripplehorn e Dennis Hopper. A menina Tina Majorino está por aí até hoje, mas nunca mais teve um papel de sucesso. Ah, prestem atenção no piloto de avião que aparece rapidinho e debaixo de muita fuligem – é o Jack Black ainda antes de ser famoso.

(Aliás, li no imdb um fato curioso. A personagem da Jeanne Triplehorn tem uma cena de nudez bem discreta, e não é nudez gratuita – ela quer que o Mariner proteja a criança, então se oferece pra ele. É uma cena rápida, de costas. Mas Jeanne se recusou a fazer a cena. O curioso é que poucos anos antes ela mostrou bem mais em Instinto Selvagem…)

Revisto hoje, Waterworld está longe de ser ruim. É um bom filme pipoca. Tem seus problemas aqui e ali, mas se a gente desligar o fato de ter sido um grande prejuízo comercial, vai curtir a sessão.

Bugonia

Crítica – Bugonia

Sinopse (filmeb): Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena que tem a intenção de destruir o planeta Terra.

Pobres Criaturas foi um filme marcante em vários aspectos: um visual exuberante, uma temática delicada e polêmica, e uma atuação inspiradíssima da Emma Stone. Claro que o diretor Yorgos Lanthimos entrou no radar da maioria dos cinéfilos. Pouco depois de Pobres Criaturas, chegou no circuito Tipos de Gentileza, que heu gostei, mas é um filme claramente “menor” e muita gente não curtiu. Aí a expectativa foi transferida para o seu filme seguinte, este Bugonia.

Quando heu soube que Bugonia era refilmagem de uma ficção científica coreana que ninguém conhece, fui catar o filme original antes de ver o novo. Trata-se de Save the Green Planet!, dirigido por Jang Joon-hwan em 2003. É um filme realmente pouco conhecido – curiosamente, depois da sessão de imprensa, conversei com algumas pessoas, metade não tinha visto o filme coreano, a outra metade nem sabia que era refilmagem.

Não gostei muito do filme coreano, achei os personagens mal desenvolvidos – Bugonia é melhor. Mas respondo logo a pergunta: sim, a história é basicamente a mesma nos dois filmes: um alto executivo de uma grande empresa é sequestrado por dois malucos conspiracionistas que acham que se trata de um alienígena. A diferença é que no original é um executivo homem, sequestrado por um casal, e aqui é uma executiva mulher sequestrada por dois primos.

Uma coisa que o filme sabe muito bem trabalhar é a dúvida sobre a veracidade da tal teoria conspiratória. Afinal, vemos uma pessoa sendo sequestrada por um cara completamente lelé das ideias, que defende uma ideia absurda – será que isso pode ser verdade? Lembrei de Rua Cloverfield 10, quando passamos quase todo o filme sem saber se o papo do John Goodman é real ou não.

Bugonia é um filme bastante desconfortável. A boa trilha sonora de Jerskin Fendrix (o mesmo de Pobres Criaturas) ajuda no desconforto. Curiosidade: Fendrix compôs a trilha antes de ter acesso ao roteiro; Yorgos Lanthimos falou pra ele se basear em quatro palavras chave: abelhas, porão, espaçonave e “Emily bald”, o que seria algo como “Emma Stone careca”.

Visualmente falando, Bugonia não é tão exuberante quanto outros filmes do diretor. Não que isso seja algo necessariamente ruim, mas é que depois de A Favorita e Pobres Criaturas, a gente espera algo mais fora da caixinha, e o visual de Bugonia é mais, digamos, “careta”.

No elenco, Emma Stone e Jesse Plemons estão excelentes, ambos têm personagens desagradáveis e ao mesmo tempo muito interessantes. Outro destaque é para o estreante Aidan Delbis – Lanthimos queria alguém neurodivergente para o terceiro papel mais importante do filme, e Delbis é autista – e manda muito bem. Alicia Silverstone tem um papel mais discreto como a mãe do Jesse Plemons (apesar dos atores terem apenas 12 anos de diferença de idade).

Bugonia é melhor que Tipos de Gentileza, mas está bem abaixo de Pobres Criaturas. Prevejo uma galera “tênis verde” reclamando depois das sessões…

Enterre Seus Mortos

Crítica – Enterre Seus Mortos

Sinopse (imdb): Em uma paisagem rural apocalíptica, o coletor de animais atropelados Edgar Wilson planeja uma fuga com sua namorada Nete, mas tem sonhos violentos.

Enterre Seus Mortos passou no Festival do Rio ano passado, não consegui ver, mas alguns amigos viram, e todos foram unânimes: era um dos piores filmes daquele ano. Mais de um ano depois, passou nos cinemas e finalmente tive oportunidade de assistir, e concordo com eles. Pensei em não fazer texto sobre Enterre Seus Mortos, porque não gosto muito de falar mal de terror nacional. Mas Enterre Seus Mortos foi tão decepcionante que talvez ele volte no top 10 de piores do ano. Então bora comentar logo.

Enterre Seus Mortos é o novo filme dirigido por Marco Dutra. Não sou muito fã do estilo dele, mas já vi alguns dos seus filmes. E ele merece respeito porque quase sempre consegue colocar seus filmes no circuito, coisa rara em se falando em terror nacional. O filme foi baseado no livro homônimo, escrito por Ana Paula Maia, que co-escreveu o roteiro com Dutra.

(Enterre Seus Mortos estava em cartaz. Fui ao Cinemark Downtown numa segunda feira para assistir. E heu era o ÚNICO dentro da sala de cinema. Fico triste pela bilheteria ruim. Mas, olhando pelo lado egoísta, olha só, não tinha ninguem usando celular…)

Enterre Seus Mortos começa bem. O espectador cai direto num mundo apocalíptico, onde pessoas estão fugindo do planeta e uma religião fundamentalista toma conta da sociedade. Somos apresentados a Edgar Wilson, um cara cujo trabalho é recolher animais mortos que podem estar contaminados.

(Sabe aquelas coisas que só heu penso? Toda vez que ouvia “Edgar Wilson” me lembrava de Ed Wilson, cantor da época da Jovem Guarda, um dos fundadores da banda Renato e Seus Blue Caps…)

A trama é arrastada, mas reconheço que estava gostando desse clima apocalíptico maluco. Mas, na parte final, o filme muda para uma direção completamente diferente. Mas vou ter que entrar nos spoilers pra comentar isso.

SPOILERS!

A distopia apocalíptica estava andando bem. Mas do nada mudam o foco do filme e vira um filme de possessão demoníaca. De onde veio isso?

Depois ainda tem uma maluquice de uma menina polvo. Mas quando isso apareceu, o filme já tinha me perdido com a possessão.

FIM DOS SPOILERS!

No elenco, gostei de ver Selton Mello num papel um pouco diferente do de sempre. Não que seja uma grande atuação, não é. Mas, sabe aquele estilo sempre igual, que ele repete em qualquer filme ou programa de TV? Aqui ele não está igual. Já Marjorie Estiano, grande atriz, aqui só faz o feijão com arroz. Também no elenco, Betty Faria, Danilo Grangheia e Gilda Nomacce.

Gosto do Marco Dutra, gosto de prestigiar terror nacional. Tomara que 2025 tenha dez filmes piores…

O Sobrevivente (2025)

Crítica – O Sobrevivente (2025)

Sinopse (imdb): Um homem se junta a um reality show no qual os competidores, que podem ir a qualquer lugar, são caçados por “caçadores” empregados para matá-los.

Finalmente estreou o novo O Sobrevivente! E tenho propriedade pra falar essa frase. Coloquei esse filme na minha lista de expectativas para 2023! Citei a existência desse filme em 29 de dezembro de 2022!

Na verdade esta nova versão não é uma refilmagem do filme de 1987, sucesso de Arnold Schwarzenegger. É outro filme baseado no mesmo livro, lançado em 1982, de autoria de Richard Bachman (que era pseudônimo de um tal de Stephen King). Revi a versão de 87, realmente precisava de uma modernizada. Aquele filme é divertido, mas envelheceu muito mal.

Em O Sobrevivente, conhecemos Ben Richards, um cara esquentadinho, que perdeu o emprego e tem uma filha doente. Desesperado pela falta de grana, resolve se candidatar a uma vaga em um reality show para conseguir dinheiro para comprar remédio pra sua filha. Mas, como tem um perfil de brigão, o colocam no The Running Man, programa que paga muito bem, mas de onde quase ninguém sai vivo.

Mesmo sabendo que não é uma refilmagem, a comparação é inevitável – e o próprio filme não ignora isso, as cédulas do “new dolar”, dinheiro usado no filme, têm o rosto do Arnold Schwarzenegger. O filme de 87 tem alguns detalhes melhor desenvolvidos, mas, no geral, esta nova versão é melhor.

O filme dos anos 80 era colorido e cheio de divertidas frases de efeito, mas se a gente parar pra pensar, a competição em si não fazia muito sentido – são muitos furos de roteiro. Aqui temos um contexto mais bem estruturado, é uma sociedade futurista distópica com pessoas pobres desesperadas, e uma mídia que sabe explorar esse desespero em números de audiência. E a dinâmica do programa também está melhor, com os corredores escondidos por diferentes cidades, e os caçadores aguardando o horário nobre para agir.

Agora, os caçadores espalhafatosos do outro filme são melhores que os daqui. Na verdade, aqui são cinco, mas a gente só conhece a história da um deles. Outro tem uma única cena com diálogos e só. Os outros três só estão lá como figuração.

Teve uma coisa que não gostei. Ao longo do filme, Ben Richards fica mudando sua postura em relação a confiar ou não no chefão Killian. Porque, se ele não confia no que o Killian diz, como vai confiar que sua esposa vai receber o pagamento?

Ah, tem mais uma coisa: naquele mundo futurista onde postes na rua têm detectores de DNA, aqueles braceletes certamente teriam um GPS!

No elenco, Glen Powell continua galgando seu espaço no panteão de grandes estrelas de Hollywood. Killian é interpretado por Josh Brolin, que consegue ser canalha e sedutor ao mesmo tempo. Já mencionei aqui que sou fã da voz do Colman Domingo, achei legal vê-lo como o apresentador do programa. Também no elenco, Katy O’Brian, William H. Macy, Michael Cera, Emilia Jones e Lee Pace.

(Aliás, impossível não lembrar de Assassino Por Acaso quando o Glenn Powell começa a experimentar disfarces…)

O Sobrevivente tem algumas boas cenas de ação, e toda a sequência com o Michael Cera é bem divertida (lembrando que ele já tinha trabalhado com o diretor quinze anos antes, em Scott Pilgrim). Mas o resultado final parece apenas um filme burocrático, daqueles encomendados por grandes estúdios. Filme que vai divertir o público, mas será esquecido pouco depois. Olhando a carreira do Edgar Wright, é uma pena. Porque, na comparação, talvez O Sobrevivente seja o seu filme mais fraco.

Predador: Terras Selvagens

Crítica – Predador: Terras Selvagens

Sinopse (imdb): Um jovem predador marginalizado de seu clã encontra um aliado improvável em sua jornada em busca do melhor adversário.

O primeiro Predador, de 1987, apresentava um antagonista diferente. Ele não era exatamente um vilão, na verdade era um caçador em um safári interplanetário, que enfrentava o protagonista porque achava que ele era um bom adversário. A partir do segundo filme isso ficou mais claro: a cultura dos yautjas (o nome da espécie) é guerrear contra adversários mais fortes que eles. Isso abre espaço para um universo gigantesco, afinal podemos ver inúmeros filmes mostrando yautjas lutando em ambientes estranhos, contra adversários ainda mais estranhos.

Dirigido por Dan Trachtenberg (que está cuidando bem da franquia, ele também dirigiu os bons O Predador – A Caçada e a animação Predador: Assassino de Assassinos), Predador: Terras Selvagens (Predator: Badlands, no original) faz algo que a gente ainda não tinha visto: traz um yautja como protagonista. Digo mais: não só não se passa no nosso planeta, como também não tem nenhum humano. E não é que o resultado funcionou?

Predador: Terras Selvagens nos apresenta Dek (acho que é o primeiro filme onde ouvimos o nome de um yautja), que é fraco e rejeitado por um pai abusivo, e que por isso resolve tentar conseguir um prêmio difícil: matar uma criatura que nenhum yautja até hoje conseguiu matar. Detalhe: essa criatura está em Genna, um planeta muito perigoso.

O planeta Genna é um dos pontos altos do filme. A geografia parece a da Terra (foi filmado na Nova Zelândia), mas foram criadas uma fauna e uma flora onde tudo apresenta perigo. Todos os bichos e plantas parecem querer matar o protagonista, que acaba se associando a Thia, uma robô sem pernas, de propriedade da Weyland Yutani – sim, a mega corporação da franquia Alien, deixando claro que no futuro provavelmente teremos novos Alien vs Predador (e espero que melhores do que os que já fizeram). Aliás, o modo de carregar o robô nas costas foi uma homenagem ao Império Contra Ataca, quando Chewbacca carrega C3P0 desmontado do mesmo jeito.

Gostei muito da dinâmica da dupla Dek / Thia. Mas, é uma parte do filme que traz algum humor, e amigos meus não gostaram disso. Como pra mim “cinema é a maior diversão”, não vou reclamar de algumas situações engraçadas criadas pela dupla. E não é só isso: durante parte do filme a dupla vira trio, quando Bud, uma nova criatura que parece um macaco de olhos grandes, se junta à trupe. E Bud tem alguns momentos que são bem engraçados. (Além disso, o visual do Bud é perfeito pra fazer bichos de pelúcia. Me parece que a Disney quer um novo Grogu.)

Tecnicamente falando, Predador: Terras Selvagens é um absurdo. Todo o visual do novo planeta é perfeito – a gente sabe que boa parte é cgi, mas não dá pra saber o que é real e o que é computador. Outro detalhe importante: boa parte do filme os diálogos são na língua yautja. Sim, criaram uma nova língua para este filme. A trilha sonora com vozes graves que lembram mantras tibetanos também é muito boa.

Sobre as cenas de luta, tenho um elogio e uma reclamação. O elogio é pra uma coreografia onde a Thia está separada de suas pernas, mas elas continuam coordenadas com o torso. Assim temos uma luta onde metade do lutador está em um lado, a outra metade está no outro, e as metades atuam em sintonia, foi uma boa sacada. Agora, por outro lado, a cena da batalha final é muito bagunçada, a gente não consegue entender o que está acontecendo, muita coisa embolada na tela, parece um filme de Transformers com aquelas lutas muito mal filmadas.

Quero fazer um mimimi, com cuidado pra não entrar em spoilers. Determinado momento do filme, Dek dá uma magaiverizada e resolve usar a fauna e a flora local para criar armas. Ele pega plantas e bichos para usar contra os inimigos. Até aí, ok, é uma ótima sacada. Mas tem um animal que ele coloca no ombro, e o bicho vira uma arma. Que ele consiga domesticar o animal e usá-lo a seu favor, ok; mas, a ponto do bicho virar adestrado e funcionar junto com o pensamento? Forçou a barra…

O elenco é muito pequeno, na verdade, só existem seis nomes nos créditos oficiais. Thia é interpretada por Elle Fanning, que está bem como a robô tagarela. Dimitrius Schuster-Koloamatangi faz Dek, mas, claro, não vemos seu rosto. Curiosidade: ele tem só 1,80m de altura, foi a primeira vez que um ator de menos de 2 metros interpreta um yautja (Kevin Peter Hall, que fez os dois primeiros filmes Predador, tinha 2,24m!). O filme é quase todo em cima dos dois. Tem outro ator creditado como a voz do Bud, mais o pai e o irmão do Dek, e um único ator interpreta todos os outros robôs que aparecem na parte final do filme.

Predador: Terras Selvagens estreou esta semana no circuito. Boa opção pra quem gosta do gênero.

Tron: Ares

Crítica – Tron: Ares

Sinopse (imdb): Um altamente sofisticado programa, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa.

O primeiro Tron, de 1982, foi um grande marco nos efeitos especiais. Revisto hoje, o filme é meio besta, e os efeitos parecem vergonhosos, mas, na época, explodiu cabeças: era um filme que se passava parcialmente dentro de um computador!

(Heu nasci em 1971. Vi Tron no cinema, na época do lançamento, e achei aquilo o máximo. Mas… revi semana passada, antes de ver o novo, e constatei que os efeitos estão realmente vencidos. É tudo meio monocromático, às vezes parece até animação em rotoscopia. E os gráficos só com linhas, objetos sem volume 3D, são muito toscos.)

Foi um marco, mas até onde sei, nunca teve um grande fandom. Muita gente respeita, mas pouca gente é fã. Tanto que a continuação só veio 28 anos depois, em 2010. E Tron: Legacy é um filme tão esquecível que só me lembro da trilha sonora do Daft Punk e do efeito de rejuvenescimento digital no Jeff Bridges, que na época era novidade, mas hoje em dia já “perdeu a validade”

Mais quinze anos, e chega ao circuito o terceiro filme. Ninguém pediu, ninguém se importa, mas está em cartaz

(Antes, uma piadinha ruim sobre o nome. “Tron Três” parece trava línguas, “um tigre, dois tigres, Tron três tigres”. E “Tron Ares” soa bem parecido com o ex jogador do Fluminense, “Jhon Arias”. Quando ouço alguém falando “Tron Ares” muitas vezes me confundo.)

Dirigido por Joachim Rønning, Tron: Ares volta ao universo criado no primeiro filme, mas com uma novidade: agora os programas podem sair do computador e interagir com humanos no mundo real. Mas, mais uma vez, o resultado não empolga. Tron: Ares é um filme bonito, com efeitos especiais excelentes, uma boa trilha sonora, mas só isso. Será esquecido, assim como Tron: Legacy.

Bem, reconheço que algumas sequências são boas. Sabe aquelas motos que fazem uma “parede” por onde passam, criando um labirinto em um jogo? A gente vê uma cena com essas motos numa rua no mundo real. Ok, aquilo não faz sentido se a gente parar pra pensar, aquelas paredes de energia iam causar danos generalizados, gente ia morrer – mas a cena ficou bonita. Também gostei de uma cena que mostra um sistema sendo invadido e o antivírus reagindo, e vemos isso como se fossem guerreiros. Boa sacada.

E tem uma sequência pra afagar a memória de quem lembra do primeiro filme, uma sequência emulando o cenário e os efeitos “velhos”. Foi legal rever aqueles cenários, mas tenho um mimimi. Aparece o Jeff Bridges, cujo personagem ficou lá. Mas, caramba, é um ambiente digital, por que ele está velho? Seria mais legal vê-lo exatamente igual ao visual que ele tinha em 1982. Certamente hoje ia ficar melhor que o Jeff Bridges rejuvenescido digitalmente que a gente viu quinze anos atrás.

(Aproveito pra outro mimimi: o filme se chama Tron, mas o personagem Tron não aparece. Nada a ver!)

Comentários sobre a trilha sonora. O primeiro filme traz trilha da Wendy Carlos (pioneira do uso de sintetizadores na música clássica, autora das trilhas de Laranja Mecânica (quando ainda assinava Walter Carlos) e O Iluminado); o segundo tem a trilha assinada pelo grupo Daft Punk – ambas as trilhas são excelentes. Agora a trilha ficou a cargo da banda Nine Inch Nails, e também é um dos pontos altos do filme. Mas… Reconheço que o trabalho do Nine Inch Nails foi muito bom, mas não tem nenhum tema marcante, e o segundo filme tinha. Se heu for assistir um show, vou preferir Nine Inch Nails do que Daft Punk, mas preciso reconhecer que o Daft Punk fez um trabalho melhor.

No elenco, Jared Leto faz aquele clichê da IA que começa a questionar seu criador – mas ele mais uma vez não convence. Evan Peters se sai melhor dentro de outro clichê, o CEO rico que se acha dono do mundo. Greta Lee está apenas ok, e Gillian Anderson está desperdiçada (assim como Jeff Bridges).

Rola uma cena pós créditos com um gancho pra mais um Tron. Claro que vou ver se fizerem. Mas não faço questão.

Guerra dos Mundos 2025

Crítica – Guerra dos Mundos 2025

Sinopse (imdb): Uma jornada fictícia com elementos realistas, que explora questões contemporâneas sobre privacidade e vigilância.

Com atraso de cinco anos, chegou na Prime uma nova versão da conhecida história Guerra dos Mundos, escrita por HG Wells em 1898.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds, no original) foi filmado em 2020, no meio da pandemia. Os atores não interagem presencialmente, o filme é todo online, através de uma tela de computador, num formato chamado “screenlife”. Um dos produtores é Timur Bekmambetov, que já produziu alguns bons filmes no estilo, como Unfriended (2014), Buscando (2018) e Desaparecida (2023). O filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. O problema é que – diferente desses três exemplos que citei, não souberam desenvolver a proposta aqui.

A direção é de Rich Lee, que tem uma longa carreira em videoclipes, e que está estreando no cinema. E o resultado foi bem ruim. Os efeitos especiais não são bons, mas isso até nem me incomodou muito. Porque tem tanta coisa pior…

Guerra dos Mundos até começa bem. Heu diria que os primeiros 20 minutos, quando mostra a invasão alienígena, até são bons. O problema é quando começam as reações de defesa dos personagens. O filme toma vários caminhos que não fazem o menor sentido. Começo por um básico: se os aliens estão atacando toda a tecnologia terrestre, como é que o cara continua com acesso à Internet e a vários gadgets, como câmeras e drones?

Tudo é tão absurdo que em determinado momento aparece uma propaganda da Amazon, num dos piores exemplos de product placement da história recente. Detalhe: se o prédio é tão vigiado que cara não pode entrar com um pendrive, como é que um drone consegue facilmente entrar pela janela?

Conforme o filme se aproxima do final, os absurdos são cada vez maiores, a ponto de um dos personagens conseguir acertar os tripods alienígenas com mísseis. De onde vieram esses mísseis? Será que não era uma boa pensar em soluções menos absurdas?

O elenco também não funciona. Durante a maior parte do tempo a gente fica vendo o Ice Cube, que não tem carisma pra sustentar um filme desses. O elenco de apoio também não está bem, com Eva Longoria, Clark Gregg, Iman Benson e Henry Hunter Hall.

Guerra dos Mundos está na Amazon Prime. Fujam!

Ash: Planeta Parasita

Crítica – Ash: Planeta Parasita

Sinopse (imdb): Uma mulher acorda em um planeta distante e encontra a tripulação de sua estação espacial brutalmente morta. Sua investigação sobre o que aconteceu desencadeia uma terrível cadeia de eventos.

Gosto da mistura de terror e ficção científica. Gosto muito de filmes como Alien, O Enigma de Outro Mundo, Força Sinistra, A Experiência e Prova Final. Pena que nem todos os filmes deste subgênero são bons. Ash: Planeta Parasita (Ash, no original) infelizmente faz parte desse grupo.

Acompanhamos Riya, uma exploradora espacial que acorda sozinha numa base onde todos os companheiros de equipe estão mortos. Detalhe: ela tem amnésia e não se lembra do que aconteceu. Ela encontra um sobrevivente e tenta juntar as peças pra descobrir as respostas para suas dúvidas.

Mas sabe qual é o problema aqui? Falta história. Ash é curto, uma hora e meia, e podia ter a metade da duração.

A direção é de Flying Lotus, nunca tinha ouvido falar, depois que vi o filme descobri que ele também é músico. Flying Lotus parece que sabe que tem pouca história pra contar, aí fica preenchendo espaços vazios com jump scares bestas, onde aparece um relance de algo assustador ao som de um ruído alto. Um perfeito exemplo de jump scare mal feito.

(Parágrafo à parte para falar de jump scares. O jump scare bem feito é aquele que dá um susto no espectador, a ponto dele “dar um pulo”. Muitos filmes usam jump scares clichês, dentro de uma fórmula: música sobe, parece que vai ter algo, não tem, conta 1 2 3 e PÁ!, susto na tela. Quem está acostumado com filmes de terror já sabe quando vem um desses e não se assusta, mas, ok, boa parte do cinema é feita em cima de clichês. O jump scare bem feito não prepara o espectador e realmente dá um susto. Agora, na minha humilde opinião, pior que jump scare previsível são os jump scares daqui. A trama segue normalmente, e de repente PÁ!, uma imagem grotesca e um som alto. Ok, assusta o espectador. Mas são jump scares que não agregam à trama, não criam medo. São jogados só pra causar desconforto.)

Por outro lado, a ambientação do filme é boa. O visual do planeta alienígena é bonito, principalmente quando mostra o céu. Também gostei do design das roupas dos astronautas. A maquiagem da parte final também é bem legal, lembra O Enigma de Outro Mundo.

No elenco, Eiza González ocupa a tela durante quase todo o filme, às vezes sozinha, outras vezes dividindo espaço com Aaron Paul. Iko Uwais, de The Raid, tem um papel pequeno, e fiquei feliz que o colocaram pra lutar, mesmo que rapidinho.

Na parte final, o ritmo de Ash melhora. Se todo o filme fosse todo como nos últimos minutos, a experiência seria bem melhor. Infelizmente, o resultado ficou bem chato.

M3gan 2.0

Crítica – M3gan 2.0

Sinopse (imdb): Dois anos após o incidente M3GAN, Gemma ressuscita sua boneca IA para enfrentar Amelia, um robô militar criado por contratantes que roubaram a tecnologia de M3GAN.

O primeiro M3gan já não foi grandes coisas. Aí anunciaram uma continuação, com o mesmo elenco, o que me parecia ser uma péssima ideia – afinal, no fim do primeiro filme, a boneca tenta assassinar a família e é destruída. Entendo uma corporação gananciosa querer vender uma nova boneca, mas não entendo como a família vai se arriscar de novo. Por causa disso, fui ao cinema com zero expectativas.

E preciso dizer que me diverti. Dirigido pelo mesmo Gerard Johnstone do primeiro filme, M3gan 2.0 não chega a ser exatamente “bom”, mas é muito divertido!

Logo de cara, na sequência inicial, a gente vê uma outra boneca-robô (interpretada por Ivanna Sakhno, que estava em Ahsoka), e ela anda pela parede de uma maneira bem tosca, parecendo um stop motion mal feito, e logo depois a gente vê a sombra dela arrancando a cabeça de um adversário com um soco. Ou seja, o filme está nos dizendo que não é pra levar a sério. Se você entrar nessa onda trash, vai se divertir!

A minha preocupação era que M3gan 2.0 fosse uma cópia mal feita do primeiro M3gan, principalmente pela repetição das duas atrizes principais, Allison Williams e Violet McGraw, cujos personagens não iam querer mais a boneca M3gan. Por isso a boneca entra numa onda Exterminador do Futuro 2 para tentar convencê-las que agora ela está lá para protegê-las. Além disso, o gênero do filme muda, tem pouco terror aqui, M3gan 2.0 está mais para uma ação misturada com ficção científica, além de uma boa dose de humor.

Já que falei de Exterminador do Futuro, queria citar que M3gan 2.0 traz algumas referências bem divertidas. Tem uma citação clara à série Super Máquina, e tem um momento que vemos uma mão andando como em Evil Dead 2 (mas pode ser uma mão inspirada em outro filme). Também tem uma engraçada ligação com os filmes do Steven Seagal. Ah, tem um momento hilário onde a M3gan canta uma música, não sei se a música já existe ou se foi criada para o filme, perguntei para algumas pessoas depois da sessão de imprensa, ninguém reconheceu a música (dei uma googlada, parece que é This Woman’s Work, da Kate Bush, mas não tenho certeza disso).

A cena mais famosa do primeiro filme é uma dancinha tosca. Claro que ia ter dança aqui. E preferi a deste segundo filme. No filme anterior, era uma dança que não tinha nada a ver com o resto da sequência, aqui pelo menos inventaram um concurso de dança.

Agora, precisamos reconhecer que o roteiro tem vários momentos que não não seguem nenhuma lógica. Dava pra fazer uma lista, que vai crescendo conforme o filme se aproxima do final. E aquele plot da IA guardada num cofre há décadas não faz o menor sentido!

Os personagens são todos caricatos. Como falei lá no início, se você entrar na onda trash, vai entender a proposta. Tem um policial do FBI que é tosco tosco tosco, e o vilão, além de ruim, é previsível. E Jemaine Clement abraçou a galhofa e está sensacional com o seu milionário caricato. Claro, nesse espírito, funciona quando a M3gan fala um monte de frases de efeito como “segurem suas pepecas!”.

No fim, saí feliz da sessão, M3gan 2.0 é um filme divertido. Não é bom, ficará longe de listas de recomendações. Mas, quem é somelier de cinema trash vai curtir!

Consertando Andor – Segunda Temporada

Consertando Andor – Segunda Temporada

Andor foi um dos melhores produtos de Star Wars desde a compra pela Disney. Vou além: a primeira temporada de Andor pode figurar entre os melhores produtos de todos os filmes e séries de Star Wars, desde o primeiro filme, em 1977. Andor era mencionado como “Star Wars para adultos” – uma história séria, com tema político, situada no universo de Star Wars, mas sem Jedi, sem sabre de luz, sem ewoks e gungans.

A primeira temporada foi realmente muito boa. Ia ser difícil fazer uma segunda do mesmo nível. E infelizmente aconteceu o esperado: a segunda temporada está longe de ser ruim, mas decepcionou boa parte dos fãs.

São quatro blocos de três episódios cada, fazendo um total de doze. Cada três episódios é como se fosse um filme, situado nos anos antes da Batalha de Yavin. Mas o problema é que, diferente da primeira temporada, aqui só parte é memorável. Temos alguns episódios esquecíveis. Resumindo muito resumidamente: os episódios 8, 9 e 10 são do nível da primeira temporada, mas o resto podia ser melhorado.

Vou seguir a sugestão do meu amigo e ex-companheiro de Podcrastinadores, Rod Montaleão, e fazer uma breve lista que melhoraria bastante esta temporada.

Claro, vou ter que entrar em spoilers. Vamulá?

1-Início chato: Acontece muito pouca coisa nos seis primeiros episódios. Entendo a ideia de se colocar cada bloco de três episódios com um intervalo de um ano entre eles, mas, ficou ruim. Era melhor uma temporada com nove episódios no total. Solução: editar esses seis episódios, cortar metade do material e transformá-los em três. Por exemplo, toda aquela parte do Cassian preso pelos “guerrilheiros trapalhões” em Yavin foi completamente desnecessária.

2-“Ordem errada”: Os episódios 8 e 9 são muito bons. O episódio 8, com o massacre em Ghorman, é sensacional e merece entrar em listas de melhores momentos de todo o Star Wars. O episódio 9, com o discurso e posterior fuga da Mon Mothma, não fica pra trás. Isso é tão bom que deveria ser o encerramento da série. O episódio 10 traz a morte do Luthen, outro bom episódio, mas, essa morte poderia ter acontecido antes do discurso da Mon Mothma, criando um crescente de tensões. Solução: trocar a ordem dos episódios, pra encerrar a série com a fuga da Mon Mothma (que inclusive pode ser diretamente ligado a o episódio S03E18 de Rebels).

3-Final com gancho: Todos sabemos que Andor é prequel para Rogue One. Então a série acabar com gancho pro filme nem é ruim. Mas é anti climático. Pra quem vai emendar Rogue One depois do último episódio, fica perfeito, mas deixa a série refém. Solução: altera aquele final cheio de ganchos pro filme.