Consertando Branca de Neve

Consertando Branca de Neve

(COM SPOILERS!)

1- Em primeiro lugar, a história original fala que a personagem tem “a pele branca como a neve, os lábios vermelhos como o sangue e os cabelos pretos como o ébano.” Não sou contra mudar personagens, desde que seja uma mudança bem feita. Mas tem casos onde não dá. Branca de Neve é um desses casos, não dá pra ser uma latina! Solução: Troque a protagonista!

2- Resolveram tirar o príncipe que salva a Branca de Neve. Acho um erro, porque quem gosta da história original, gosta deste detalhe. Mas, ok, adaptaram pros dias de hoje, o personagem existe mas é um “ladrão do bem”. Aí inventaram um grupo que o acompanha, grupo que não estava na história clássica, e tem várias representatividades. Já é uma grande forçação isso, mas calma que piora. O problema é que, tirando um (o anão), essas pessoas do grupo são meros figurantes. Não têm nomes, não têm diálogos, não têm nenhuma importância para a trama. Caramba, se você vai incluir diversidade no seu filme, dê alguma relevância pra esses personagens! Solução: crie uma sequência deles tentando tirar o amigo da prisão!

3- A Rainha manda o caçador levar a Branca de Neve pra floresta e matá-la, e diz pra trazer seu coração numa caixa. No desenho, o caçador diz pra Branca de Neve fugir e leva um coração de um animal. No filme, tem uma maçã dentro da caixa! Como assim a Rainha não abriu a caixa pra conferir? Solução: não altere a história original!

4- A Rainha manda guardas atrás da Branca de Neve, que está com os bandidos. Os guardas os cercam, com bestas apontadas. O mocinho levanta as mãos e se rende, e pede pra não atirarem, e o bando faz o mesmo. Mas, de repente, eles sacam espadas e atacam os guardas. Caramba! Os guardas estavam armados com bestas! Era só atirarem! Solução: tire as bestas e coloque guardas com espadas, cercando os bandidos.

5- Algumas coisas foram atualizadas para os dias de hoje, ok, a gente entende que se passaram quase 90 anos. Mas não entendo como não adaptaram o beijo do príncipe / ladrão no final. O cara encontra a Branca de Neve morta, e dá um beijo na boca dela? Quem beijaria a boca de um cadáver??? Solução: um beijo na cabeça ou na testa, ia ser menos “creepy”.

Branca de Neve

Crítica – Branca de Neve

Sinopse (imdb): Adaptação em live-action do filme de animação da Disney de 1937 “Branca de Neve e os Sete Anões”.

Estreou o filme mais polêmico de todos os tempos da última semana!

Não tem como não falar desta nova versão de Branca de Neve (Snow White, no original) sem lembrar das diversas polêmicas. Teve a escalação de uma atriz latina para um papel que deveria ser “branca como a neve”; teve esta mesma protagonista dando entrevistas falando mal da história original; teve a polêmica entre as duas atrizes principais, uma apoiando Israel e outra apoiando a Palestina; teve o Peter Dinklage reclamando da história desvalorizar os anões, e por isso supostamente os atores foram trocados por cgi… Muitas polêmicas, mas hoje vou falar do filme. (Sobre as polêmicas, procurem outros sites.)

Dirigido por Marc Webb (que fez os filmes do Homem Aranha com o Andrew Garfield), Branca de Neve se propõe a atualizar a história contada no desenho lançado em 1937. Algumas alterações até funcionaram, mas outras não. Mas, no fim, nem é um filme tão ruim. É apenas mais um live action desnecessário – como aliás, quase todos os live actions da Disney (na minha humilde opinião, o único live action bom é Cruella, que não é uma adaptação, é um spin off com uma história independente do desenho original). Ou seja, a gente esperava um grande lixo, mas é apenas mais um filme esquecível. E, claro, inferior à obra original.

Rachel Zegler foi uma escolha errada, porque na história original, a rainha fala “Como eu queria ter uma filha com a pele branca como a neve, lábios vermelhos como sangue e cabelos negros como ébano.” Tiveram que alterar a origem dela, no filme ela se chama Branca de Neve porque nasceu num dia que estava nevando – uma grande forçação de barra. Além disso, ela deu a entender através de entrevistas que não gosta do desenho. Pra que escalar uma atriz assim? Mas, pelo menos ela canta bem. Pena que Branca de Neve não tem nenhuma música empolgante – a única música que fica na cabeça quando acaba o filme é a dos anões, que todo mundo já conhece há décadas: “Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou…”

Escalar Rachel Zegler e Gal Gadot trazia outro problema, semelhante ao filme de 2012, Branca de Neve e o Caçador, quando Kristen Stewart era a Branca de Neve e Charlize Theron era a Rainha Má. Uma das falas mais famosas da história original é “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?” – e, assim como Kristen Stewart nunca vai ser mais bela que Charlize Theron, Rachel Zegler nunca vai ser mais bela que Gal Gadot. Mas, reclamei disso em 2012, não sei se vale reclamar igual agora, treze anos depois. O que posso dizer sobre a Gal Gadot: ela está caricata, talvez um pouco acima do que deveria estar, mas não chega a atrapalhar. E ela canta, até canta bem, mas, nos dias de hoje, não sei se é a voz dela ou não.

Sobre os anões: eles viraram criaturas mágicas que vivem na floresta há centenas de anos, e todos são em cgi. Achei que ficou bom. O cgi dos anões é muito bem feito – assim como o cgi dos animais da floresta. Não sei muito sobre os bastidores da polêmica com o Peter Dinklage, se os anões em cgi foi por causa disso, mas sei que o resultado final, pelo menos pra mim, foi satisfatório.

Agora, o que foi bem ruim foi um núcleo de personagens que acompanha o “mocinho” – agora não pode ser mais príncipe, porque a Branca de Neve, empoderada, não pode ser salva por um príncipe (decisão que a produção tomou, que questiono se foi correta ou não). Enfim, em vez de príncipe, é um ladrão, e esse ladrão tem um bando, que não estava na história clássica, e que tem várias representatividades – e que parece saído de uma faculdade de Humanas na UFRJ. Já é uma grande forçação isso, mas calma que piora. O problema é que, tirando um (logo o anão!), essas pessoas do grupo são meros figurantes. Não têm nomes, não têm diálogos, não têm nenhuma importância para a trama. Caramba, se você vai incluir diversidade no seu filme, dê alguma relevância pra esses personagens!

Algumas coisas foram atualizadas para os dias de hoje, ok, a gente entende que se passaram quase 90 anos. Mas não entendo como não adaptaram o beijo do príncipe / ladrão no final. O cara encontra a Branca de Neve morta, e dá um beijo na boca dela? Quem beijaria a boca de um cadáver??? Não seria melhor um beijo na cabeça?

Enfim, Branca de Neve nem é tão ruim quanto esperado, mas é esquecível. O desenho ainda é muito melhor.

A Grande Arte

Crítica – A Grande Arte

Sinopse (imdb): Um fotógrafo americano no Rio de Janeiro se envolve no mundo da “cultura da faca” quando decide encontrar o assassino de uma de suas modelos.

Empolgado com o Oscar para Ainda Estou Aqui, fui catar o primeiro longa de ficção dirigido por Walter Salles. Vi na época que passou no cinema, em 1991 ou 92, não sei ao certo, mas nunca tinha revisto.

Baseado em Rubem Fonseca, A Grande Arte (que teve o nome Exposure lá fora) nem parece um filme nacional. Não só é um filme tecnicamente superior à média do que era feito na época, como os três principais nomes no elenco são gringos: Peter Coyote, Tchéky Karyo e Amanda Pays.

Nenhum dos três nomes é muito grande, mas eram nomes com alguma carreira. Peter Coyote talvez seja o maior deles, afinal ele estava num dos filmes mais vistos de dez anos antes, um tal de E.T. – O Extraterrestre. Tchéky Karyo é um daqueles coadjuvantes que a gente já viu em dezenas de filmes, mas não consegue se lembrar dele como protagonista – lembrava dele de Nikita, do Luc Besson, lançado pouco antes (1990). Amanda Pays é menos conhecida, mas lembro de vê-la no trash Criação Monstruosa, que assisti no finado cinema Studio Catete. O elenco nacional conta com Raul Cortez, Giulia Gam, Cassia Kiss, Paulo José, Eduardo Conde, Tonico Pereira e Tony Tornado.

No filme, conhecemos Peter Mandrake, fotógrafo gringo que está passando um tempo no Rio. Ele resolve investigar o assassinato de uma das suas modelos, e acaba se metendo com gente perigosa e poderosa. Quando vê outro gringo se defendendo de um assalto usando uma faca, ele o procura pra aprender a usar a faca como arma. (Não sou um especialista em Rubem Fonseca, não sei se ele usa o nome Mandrake de maneira recorrente. Sei que vinte anos atrás tinha uma série homônima na HBO, também baseada em Rubem Fonseca, com o Marcos Palmeira interpretando um advogado chamado Paulo Mandrake. Mas não sei se seria o mesmo Mandrake. Pena que não sei onde ver esta série hoje em dia.)

Walter Salles estava estreando na ficção, mas já tinha dirigido quatro documentários – três filmes e uma série. Mas ele já mostrava que manjava dos paranauês, tecnicamente o filme é muito bom. Digo mais: tem uma cena logo no início que deve ter sido muito difícil de filmar e “explodiu a cabeça” de muita gente: a câmera está dentro do quarto, sai pela janela e faz um voo pela cidade. Hoje seria moleza, drones comprados na AliExpress filmam isso. Mas, naquela época? Provavelmente uma câmera com zoom, de dentro de um helicóptero…

(Tem outra cena parecida, se afastando de um trem em movimento.)

Ainda na parte técnica: um elogio e uma crítica. O elogio é sobre o treinamento de facas entre Mandrake e Hermes. Tem uma sequência com a câmera rodando enquanto os dois fazem a coreografia que não deixa nada a desejar perante ao cinema hollywoodiano da época. Por outro lado, tem uma cena de briga dentro do trem (logo a cena da Cassia Kiss!) que é bem tosca. Nem parece fazer parte do mesmo filme.

Quase todo o filme é falado em inglês, com algumas cenas em português e outras em espanhol. Talvez pela dificuldade da língua estrangeira, mas achei algumas atuações bem ruins. Aquele anão é péssimo!

A Grande Arte é um filme bonito, mas no geral achei meio besta. Walter Salles fez coisa melhor depois – tanto que seu último filme ganhou o Oscar de melhor filme internacional. Mas foi uma boa estreia!

The Electric State

The Electric State

Sinopse (imdb): Uma adolescente órfã atravessa o oeste americano com um robô doce, mas misterioso, e um excêntrico vagabundo, em busca de seu irmão mais novo.

Os irmãos Joe e Anthony Russo eram ilustres desconhecidos, até que dirigiram quatro dos melhores filmes do MCU: Capitão América O Soldado Invernal, Capitão América Guerra Civil, Vingadores Guerra Infinita e Vingadores Ultimato – detalhe que este último é a segunda maior bilheteria da história do cinema. Mas, depois de Ultimato, lançaram dois filmes bem fuén: Cherry e Agente Oculto. Não são filmes ruins, mas são filmes bobos e genéricos.

The Electric State segue a mesma onda. Não é ruim, mas é bobo e genérico.

O filme se passa nos anos 90, mas é uma realidade paralela onde vivemos com robôs inteligentes (o que me faz questionar por que situar a trama nos anos 90, porque, se é uma realidade paralela, podia ser hoje em dia). Os robôs se rebelam, rola uma guerra entre humanos e robôs, e humanos ganham a guerra usando robôs controlados remotamente (ou seja, é tudo robô). Ter um robô passa a ser “crime de traição”. A protagonista, uma “adolescente” de vinte anos de idade, recebe a visita de um robô, que acredita ser controlado pelo seu irmão que foi declarado morto, e resolve acompanhá-lo numa aventura dentro do mundo dos robôs.

Vamulá. Tecnicamente falando, The Electric State é muito bom. É uma superprodução de 320 milhões de dólares onde boa parte deve ter ido pras equipes de efeitos especiais. São muitas cenas de atores interagindo com robôs – a maior parte deve ser cgi, mas nenhuma cena passa a sensação de ser fake. Realmente parece que os robôs são reais. Nesta parte, nenhuma queixa.

Agora, o roteiro é tão mal escrito que deu vontade de fazer uma lista de tosqueiras mais toscas… Então vou fazer mais alguns comentários, depois vou soltar um aviso de spoilers, e listar dez tosqueiras.

Tenho sensações dúbias quanto à trilha sonora. Porque é daquele tipo de filme que usa músicas pop pra despertar a nostalgia dentro do espectador, e neste aspecto as músicas são muito bem usadas. Sim, sei que é um truque sujo, mas é legal ouvir Journey, Danzig, Judas Priest, Oasis, The Clash e Marky Mark – inclusive esta última ainda traz uma boa piada. Aliás, a melhor piada do filme envolve a Cavalgada das Valquírias, de Wagner. Agora, por outro lado, é triste ler nos créditos que a trilha original é do Alan Silvestri, e tentar lembrar da trilha e não conseguir. Sim, a trilha original é tão genérica quanto o resto do filme, não tem nenhum tema marcante.

Sobre o elenco: Millie Bobby Brown e Chris Pratt interpretam Millie Bobby Brown e Chris Pratt. Ambos fazem o de sempre, o que pode ser bom dependendo da proposta do espectador, mas, não é nenhum trabalho de atuação que mereça destaque. Stanley Tucci faz o vilãozão genérico; e, lembram que comentei que Giancarlo Esposito estava desperdiçado em Capitão América 4? Aqui ele está mais desperdiçado ainda! Alguém precisa avisá-lo urgentemente que ele precisa largar esse estereótipo, já cansou! Ke Huy Quan tem um bom papel, pena que é tão clichê que adivinhei o que ia acontecer assim que ele apareceu. Jason Alexander tem um papel pequeno e engraçado. Além disso The Electric State tem robôs com as vozes de Woody Harrelson, Anthony Mackie, Brian Cox, Jenny Slate, Hank Azaria, Colman Domingo e Alan Tudik – e preciso dizer que não reconheci Anthony Mackie, mesmo lendo seu nome nos créditos (talvez seja o único elogio que faço ao elenco).

E aí a gente volta pro assunto do início do texto: The Electric State é ruim? Não. O cara que ligar a Netflix atrás de uma diversão efêmera e despretensiosa vai curtir. O problema é você lembrar dos currículos das pessoas envolvidas e pensar que podia ser muito melhor…

Vitória

Crítica – Vitória

Sinopse (imdb): Baseado em uma história real, o filme conta a história de uma senhora de 80 anos que, sozinha, desmantelou um esquema de tráfico de drogas em Copacabana.

Lembro de quando gravamos o Podcrastinadores de Expectativas pra 2025, e o host, GG, trouxe este filme. A curiosidade era em dois aspectos. O primeiro era porque era uma história real, e uma história real muito boa. O outro era porque era o novo filme da Fernanda Montenegro – em tempos de overdose de Fernandinha, é legal ver que a Fernandona ainda está em forma.

Mas, infelizmente, temos pouca coisa a mais pra se comentar sobre Vitória

Pra quem não conhece ou não se lembra: em 2005, uma senhorinha, moradora de Copacabana, resolveu denunciar à polícia sobre o tráfico que tomou conta do morro ao lado da janela do seu apartamento. Como é ignorada pela polícia, ela resolve comprar uma filmadora e registra várias irregularidades, incluindo tráfico de drogas, assassinato e corrupção policial. Ela quer tornar públicas suas gravações, mas não quer sair do seu apartamento. Mas, eventualmente, acaba cedendo e entrando no sistema de proteção à testemunha.

Vitória teve um problema grave durante a produção, que não sei ao certo o quanto afetou o resultado. O filme seria dirigido por Breno Silveira (criador da série Dom), mas ele morreu de ataque cardíaco fulminante durante o período de filmagens. Andrucha Waddington, parceiro de longa data, assumiu a direção. E não sei o que foi filmado por cada um – procurei saber, mas ouvi várias versões – desde que Breno só filmou a primeira cena, até que ele teria filmado quase tudo e Andrucha só teria finalizado. Gosto muito do trabalho do Andrucha (Sob Pressão, O Juízo), e ele assina Vitória, mas não sei o quanto do filme é realmente dele.

(Ah, e pra quem não sabe, Andrucha é casado com a Fernanda Torres. Sim, virou um projeto em família, quem assumiu a direção foi o genro da atriz principal.)

Sobre as locações: fui morador de Copacabana por 16 anos, e não sei qual morro é aquele que aparece no filme. As cenas do calçadão foram filmadas no Leme, a rua onde a protagonista mora é no Catete, e existe um morro com o mesmo nome do morro do filme, mas no Centro em vez de Copacabana. Me parece que criaram um local fictício no Rio.

Como falei lá em cima, um dos maiores méritos é a protagonista Fernanda Montenegro. Ela hoje está com 95 anos, não sei que idade tinha quando foi filmado. Mas é impressionante ver uma nonagenária “carregando” um filme. Praticamente todo Vitória é em cima da sua personagem, que passa a impressão de estar muito bem fisicamente! Conheço pessoas com muito menos idade que estão muito mais fragilizadas!

No resto do elenco, queria destacar o menino Thawan Lucas, que faz o Marcinho, garoto que ajuda a protagonista. Ele está muito bem, guardemos este nome para o futuro!

Agora, fora isso, não tem muito mais o que se falar sobre Vitória. Não é ruim, tecnicamente é um filme correto. Mas não é empolgante. A impressão que fica é que se tirasse a Fernanda Montenegro, seria um filme besta.

(Ah, se tem gente pensando na Fernandona pro Oscar ano que vem, calma, galera. Acho muito difícil um filme como Vitória chamar a atenção da Academia.)

Por fim, queria falar de uma polêmica meio vazia. Tem gente reclamando que a “Vitória” original era negra, então seria errado ela ser interpretada pela Fernanda Montenegro, uma branca. Mas, a Vitória original estava escondida, no sistema de proteção à testemunha. Ninguém sabia como ela era fisicamente! Só foi divulgada sua imagem depois que ela faleceu, e o filme já estava sendo feito. Ou seja, não foi “white washing”. E, convenhamos, acho que se ela estivesse viva, duvido que reclamasse de ser interpretada por uma das maiores atrizes do Brasil!

Mickey 17

Crítica – Mickey 17

Sinopse (imdb): Segue Mickey 17, um “dispensável”, que é um funcionário descartável em uma expedição humana enviada para colonizar o mundo gelado de Niflheim. Depois que uma iteração morre, um novo corpo é regenerado com a maioria de suas memórias.

Finalmente foi lançado o aguardado novo filme de Bong Joon-Ho, depois que ele surpreendeu o mundo cinematográfico em 2020 ao levar 4 Oscars para Parasita, incluindo o de melhor filme – a primeira (e até agora única) vez que um filme não falado em inglês ganhou o Oscar principal. (Além de melhor filme, Parasita ganhou melhor diretor, melhor roteiro original e melhor filme internacional).

(A previsão era lançar ano passado, tanto que o filme estava na minha lista de expectativas para 2024…)

Mickey 17 é a adaptação do livro Mickey 7, de Edward Ashton. Soube que teve sessões de imprensa em outras cidades no Brasil onde críticos ganharam o livro, mas aqui no Rio não deram nada. Mas li no imdb o motivo de ser um número diferente: Bong falou que queria alterar pra poder matar o Mickey mais dez vezes.

O filme traz uma ideia boa. Mickey está endividado, então resolve se juntar a uma equipe que está saindo da Terra para colonizar um planeta distante. Como não tem muitas habilidades, resolve optar pelo cargo que lhe parecia mais fácil de ser contratado: o “dispensável”. Sempre que tem alguma tarefa perigosa, com risco de vida, ele vai executar. E quando morre, imprimem uma nova cópia, igual ao que acabou de falecer, inclusive com as mesmas memórias.

Aliás, tem uma coisa curiosa: várias vezes no filme perguntam ao Mickey “como é morrer?” Ora, se ele está sendo reimpresso com a memória até aquele dia, não tem como ele saber como é morrer! Não tem como recuperar a memória da morte!

(Achei estranho ter cópias com personalidades diferentes. Acho que se é pra ser igual, seria igual em tudo. Mas, impressão de corpo humano não existe na vida real, então, como estamos falando de ficção científica, vou aceitar que altere a personalidade.)

A parte técnica é muito boa. Robert Pattinson faz dois Mickeys, o 17 e o 18, e eles interagem boa parte do filme. Ok, não é a primeira vez que vemos um ator interpretando “gêmeos”, mas reconheço que o resultado aqui ficou perfeito.

Além disso tem as criaturas habitantes do planeta Niflheim (o nome do planeta é uma referência à mitologia nórdica, é um reino em estado permanente de inverno, a vida após a morte para aqueles que não morrem de forma heroica). Bong Joon-Ho já filmou monstros antes, o primeiro filme que vi dele foi O Hospedeiro, de 2006. Mas aqui são vários monstrinhos, e, que nem acontece com os “gêmeos”, o resultado é perfeito.

Assim como em outros filmes do diretor, os teóricos de plantão podem encontrar camadas para alimentar discussões sociológicas. Um amigo meu falou que seria uma crítica ao capitalismo, “onde você vai trabalhar até morrer”. Também podemos enxergar o personagem do Mark Ruffalo como um líder que mistura política com religião. Ou seja, é “filme de monstro e nave espacial”, mas também tem seu lado cabeça.

Sobre o elenco, é impressionante como, a cada filme, Robert Pattinson se mostra um ator melhor. Já tinha comentado isso em filmes tão díspares como O Farol e Batman, e aqui mais uma vez ele está muito bem, e ainda tem a oportunidade de fazer dois papéis completamente diferentes – Mickey 17 e Mickey 18 só são parecidos fisicamente, pois têm personalidades bem distintas. Por outro lado, achei Mark Ruffalo além do ponto. Entendo a opção de colocá-lo como um líder caricato, mas ficou over. Toni Collette, sua parceira, está melhor. Também no elenco, Naomi Ackie (Pisque Duas Vezes), Anamaria Vartolomei (O Império) e Steven Yeun (Não Não Olhe).

Mickey 17 pode não ser tão bom quanto Parasita. Mas mesmo sendo um filme menor, gostei, achei tão bom quanto O Hospedeiro ou O Expresso do Amanhã.

O Macaco

Crítica – O Macaco

Sinopse (imdb): Quando os gêmeos Bill e Hal encontram no sótão um velho macaco de brinquedo do pai, começa uma série de mortes terríveis. Os irmãos decidem jogar o brinquedo fora e seguir em frente com suas vidas, distanciando-se com o passar dos anos.

O Macaco (The Monkey, no original) estava na minha lista de expectativas para 2025, por ser uma história do Stephen King, e dirigida por Osgood Perkins, que ano passado apresentou o bom Longlegs.

Gostei de Longlegs e gostei ainda mais de O Macaco. Se o primeiro era um terror sério, o segundo traz várias cenas de humor negro que fizeram o cinema dar gargalhadas várias vezes ao longo da projeção. São muitas cenas de mortes, e com muito gore. E ao mesmo tempo são cenas engraçadíssimas! Às vezes lembra o clima da franquia Premonição, onde a gente fica esperando mortes cada vez mais absurdas.

O humor negro não está só nas mortes. Vários diálogos também são neste estilo. E preciso dizer que adorei o tom do humor. Olha, há muito tempo heu não ria tanto numa sessão. Lembro que há pouco vi a comédia Bridget Jones Louca Pelo Garoto, e não ri quase nada…

Não li o conto original do Stephen King. Não sei se já era engraçado, ou se o humor negro foi uma adição do diretor e roteirista Oz Perkins (que é filho do Anthony Perkins, pra quem não sabe). Independente de quem é o autor, achei perfeito, este é o meu estilo de humor!

(Alguns amigos meus estão chamando O Macaco de “terrir”. Sei lá, pra mim, “terrir” está mais ligado ao estilo do Ivan Cardoso, filmes tipo As Sete Vampiras ou O Escorpião Escarlate, que eram filmes de terror, mas meio trash. O Macaco não é nada trash!)

O Macaco apresenta um brinquedo que, quando dão corda e ele bate no tambor, uma morte aleatória vai acontecer. O irmãos gêmeos Bill e Hal herdam esse brinquedo, mas tentam se afastar depois que descobrem os efeitos desagradáveis e imprevisíveis.

Curiosidade sobre o brinquedo: segundo o imdb, Oz Perkins resolveu fazer o macaco bater em um tambor em vez de pratos porque os direitos da versão com pratos são de propriedade da The Walt Disney Company, já que o brinquedo apareceu como personagem em Toy Story 3. O que é irônico, porque o macaco com pratos estava em Toy Story 3 porque seu diretor Lee Unkrich é fã de Stephen King.

Oz Perkins, na minha humilde opinião, está num bom momento da carreira. Lembro de quando vi Maria e João, o Conto das Bruxas, que achei bem filmado, mas entediante. Longlegs foi bem melhor, parecia uma uma mistura de Silêncio dos Inocentes com Zodíaco, mas em versão terror. O cara sabe filmar, sabe posicionar sua câmera, seus filmes fogem do óbvio. E agora, com O Macaco, Perkins acertou em cheio. E ainda tem um filme novo dele, Keeper, com previsão de lançar em outubro deste ano!

Os gêmeos Bill e Hal são interpretados pelo mesmo ator: Christian Convery quando adolescentes; Theo James quando adultos. Eles estão bem: achei que eram dois atores diferentes interpretando os adolescentes. Tatiana Maslany interpreta a mãe durante a primeira parte do filme. O Macaco ainda tem participações especiais de Elijah Wood e Adam Scott, cada um faz uma cena. E o diretor Oz Perkins tem um papel bem divertido, o tio dos meninos.

Alguns amigos meus falaram mal de O Macaco quando acabou a sessão. Mas te garanto que a sala inteira do cinema estava gargalhando alto. Acho que esses amigos esperavam um filme sério…

O Brutalista

Crítica – O Brutalista

Sinopse (imdb): Quando o visionário arquiteto László Toth e sua esposa Erzsébet fogem da Europa do pós-guerra em 1947 para reconstruir seu legado e testemunhar o nascimento da América moderna, suas vidas são mudadas por um misterioso e rico cliente.

Tem filmes que, quando acabam, o rascunho do meu texto está pronto dentro da minha cabeça. Vou falar disso, daquilo, comentar sobre aquele problema, fazer aquele elogio… É só colocar no papel e formatar. Agora, tem outros filmes que não tenho ideia nem por onde começar meus comentários. O Brutalista está nesta categoria.

Antes de tudo, uma informação útil, que heu não sabia. Enganado pelo título e pelo cartaz, fui ao cinema ver um “Adrien Brody brutal”. Achei que era um filme violento. Não sabia que “brutalismo” é um estilo de arquitetura. Vou copiar aqui um trecho da wikipedia:

O estilo arquitetônico Brutalismo (também chamado de arquitetura brutalista), que surgiu no início do século XX e alcançou seu auge nas décadas de 1950 a 1970, é conhecido por sua estética ousada e impiedosa, caracterizada pelo uso de concreto bruto e aparente. O nome “Brutalismo” deriva da palavra francesa “brut”, que significa “cru” ou “bruto,” e não se refere à violência, como muitas pessoas podem supor. O concreto é o material central no Brutalismo, e os arquitetos que seguem esse estilo fazem questão de deixar a textura e a superfície do concreto visíveis, muitas vezes sem revestimento ou acabamento adicional. Isso cria uma sensação de honestidade e autenticidade na construção.”

Ou seja, “não se refere à violência”. Não criei expectativas, mas achei que era outro tipo de filme!

Ah, outra informação importante: László Toth é um personagem fictício. É bom deixar isso claro, porque a construção do filme passa a impressão de que ele existiu (principalmente pelo epílogo do filme).

Vamos ao filme. O Brutalista (The Brutalist, no original) acompanha a história de László Toth, arquiteto, judeu, húngaro, que fugiu da Segunda Guerra e foi aos EUA tentar uma vida nova. Se na Europa ele tinha problemas relativos à guerra, ele encontrou outro tipo de problema no seu novo país. Seu primo largou o sobrenome húngaro e se casou com uma americana, mas László quer manter suas raízes. Depois, quando encontra um cara rico que contratá-lo, ele precisa lutar para manter sua obra do jeito que ele idealizou.

A direção é de Brady Corbet, que teve uma carreira modesta como ator (estava no elenco de Melancolia e na versão americana de Funny Games), e que de uns anos pra cá resolveu dirigir. Apesar de ser apenas seu terceiro filme como diretor, Corbet já parece um veterano – O Brutalista é um “filme de gente grande”, uma super produção de época, grandiosa, com cenários e figurinos caprichados, apesar de ter um orçamento relativamente modesto (10 milhões de dólares segundo o imdb).

Vamos falar da pausa? Sim, rola uma pausa de 15 minutos. Isso não é da sala de cinema, está dentro do filme. O Brutalista tem três horas e trinta e quatro minutos, mas são três horas e dezenove de filme. No meio da projeção, aparece uma imagem com um contador marcando o tempo em contagem regressiva. Heu sou super a favor de pausas em filmes longos, acho que todo filme de mais de duas horas deveria ter uma pausa, dá pra ir ao banheiro ou passar na bombonière, é bom pro espectador e também pro cinema, pena que isso não é uma prática comum. Mas, por outro lado, O Brutalista não precisava ter mais de três horas. O filme cansa em alguns momentos. Sou a favor da pausa, mas também sou a favor de filmes mais curtos. Um filme só deveria ser longo se ele realmente precisar!

O Brutalista é dividido em duas parte e um curto epílogo. A divisão entre as partes é nítida, tanto que a pausa acontece entre elas. Agora, achei o epílogo desnecessário. Se László Toth fosse uma pessoa real, ok, justificava mostrá-lo velhinho. Mas, para um personagem fictício, achei que não precisava.

O Brutalista ainda tem outro problema, que é o final. Acontece uma coisa com um personagem, que poderiam ter deixado o personagem pra lá e seguido com a história. Mas não, o filme foca no que aconteceu com esse personagem – pra depois não concluir. Caramba, se a gente seguiu essa história paralela, que pelo menos a gente saiba a conclusão!

O elenco está muito bem. O trio principal, Adrien Brody, Felicity Jones e Guy Pierce, merece as indicações ao Oscar (mas não achei que Brody deveria ter ganhado seu segundo Oscar…). Rolou uma polêmica ligada ao uso de IA nas vozes do casal principal, alguém me disse que era pra ajudar a criar os sotaques húngaros dos personagens, mas me parece mais lógico que seja para melhorá-los enquanto falam em húngaro – é bem mais fácil o cara falar na sua língua imitando um sotaque do que ser fluente em uma língua estrangeira. Tinha gente achando que o Oscar não iria para Brody por causa disso, mas parece que os votantes da Academia não se incomodaram.

Também queria falar dos créditos, tanto os iniciais quanto os finais. São créditos em formatos diferentes do óbvio. Nada de excepcional, mas gostei, justamente por ser algo diferente do que estamos vendo todos os dias.

Alguns amigos meus adoraram O Brutalista, dizendo que seria um dos melhores filmes do ano. E o filme ganhou o Globo de Ouro e foi indicado a dez Oscars. Mas, heu preciso dizer que o filme não me empolgou. Não é um filme ruim, longe disso, é um filme bonito, bem filmado, bem atuado, mas, pelo menos pra mim, apenas mais um filme.

Oscar 2025

Oscar 2025 – Bom Resultado, mas com gosto amargo

Ontem à noite rolou o Oscar mais aguardado da história, sob o ponto de vista dos cinéfilos brasileiros. Afinal, pela primeira vez, tínhamos um filme concorrendo ao prêmio principal. E, viva! Merecidamente, Ainda Estou Aqui ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro! Finalmente entramos no seleto “clube” de países que já ganharam este prêmio (aqui na América do Sul, até ontem, só Argentina e Chile tinham ganhado).

Mas, a cerimônia foi besta, previsível, sem graça, e terminou com gosto amargo para os brasileiros.

Vou comentar tudo, mas, antes, um breve histórico do Brasil no Oscar. O Brasil já tinha concorrido quatro vezes ao Oscar de Filme Internacional, ou Oscar de Filme em Língua Estrangeira (popularmente chamado aqui no Brasil de “Oscar de filme estrangeiro”): 1963 com O Pagador de Promessas, 1996 com O Quatrilho, 1998 com O Que É Isso Companheiro?, e 1999 com Central do Brasil. Mas perdemos as quatro vezes. Orfeu Negro, co-produção Brasil, França e Itália, ganhou em 1960, mas o filme foi indicado pela França, não pelo Brasil. O Beijo da Mulher Aranha concorreu, em 1986, a melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado e ganhou melhor ator (William Hurt), mas é uma co-produção Brasil e EUA, falado em inglês. Em 2004, Cidade de Deus concorreu a quatro prêmios, mas não ganhou nenhum: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição. Carlos Saldanha, carioca, concorreu ao Oscar duas vezes, mas por produções gringas: melhor curta de animação em 2004 (Gone Nutty), e melhor longa de animação em 2018 (Touro Ferdinando). Diários de Motocicleta, outro Walter Salles, mas co-produzido por oito países diferentes, concorreu a melhor roteiro adaptado e ganhou melhor canção (Al Otro Lado Del Rio, de Jorge Drexler). Sergio Mendes e Carlinhos Brown também concorreram a melhor canção em 2012, por Rio, mas não ganharam. Além desses, alguns documentários também concorreram, mas não ganharam.

(Argentina ganhou em 1986 com A História Oficial e em 2010 com O Segredo dos seus Olhos; Chile ganhou em 2018 com Uma Mulher Fantástica).

A expectativa para 2025 era grande, porque pela primeira vez um filme brasileiro estava indicado ao Oscar principal. Em 1999, Central do Brasil concorreu a filme estrangeiro e também a melhor atriz; este ano estávamos concorrendo a filme estrangeiro, atriz e também filme principal! E cinco anos atrás Parasita ganhou filme estrangeiro e filme principal, ou seja, era esta a esperança dos brasileiros!

Agora, a premiação foi burocrática. Não tivemos grandes polêmicas, não tivemos grandes números musicais, não tivemos discursos empolgantes, não tivemos participações especiais emocionantes. Me pareceu o Oscar mais besta dos últimos anos. Conan O’Brien foi o apresentador, ele fez algumas boas piadas, mas outras foram bem bobas.

Quase todas as premiações foram previsíveis. Se bobear, bolões de apostas tiveram empates. Por exemplo, Kieran Culkin e Zoe Saldaña ganharam vários prêmios antes do Oscar, já era meio óbvio que iam repetir aqui. Podemos dizer o mesmo sobre Flow como melhor animação, ou prêmios de som e efeitos visuais pra Duna.

O grande vencedor da noite foi Anora: filme, roteiro original, edição, direção e atriz (Mikey Madison). Sean Baker, que foi o diretor, roteirista, editor e um dos produtores, saiu da festa com quatro estatuetas! O Brutalista ganhou três: fotografia, trilha sonora e ator (Adrien Brody); Wicked ganhou dois: figurino e design de produção; Emilia Pérez ganhou dois: canção e atriz coadjuvante (Zoe Saldaña). Conclave e A Substância, dois dos meus preferidos, cada um só ganhou um Oscar (roteiro adaptado e maquiagem, respectivamente), o que, na minha humilde opinião, foi uma falha – mas continua dentro da previsibilidade.

Quando Penelope Cruz surgiu para apresentar melhor filme internacional, finalmente os brasileiros puderam respirar aliviados: o prêmio era nosso! Finalmente reconheceram que Ainda Estou Aqui é melhor que Emilia Pérez em todos os aspectos!

E por que digo que terminou com gosto amargo? Porque os dois últimos prêmios da noite foram melhor atriz e melhor filme. Estávamos indicados aos dois. E perdemos os dois… 🙁

Acredito que boa parte do Brasil foi dormir decepcionado por causa das duas derrotas. Mas, caramba! Conseguimos um Oscar! É motivo pra comemorar!

Enfim, já temos o primeiro Oscar. Rumo aos próximos!

Entre Montanhas

Crítica – Entre Montanhas

Sinopse (imdb): Dois agentes altamente treinados se aproximam à distância após serem enviados para proteger lados opostos de um desfiladeiro misterioso. Quando um mal emerge, eles precisam trabalhar juntos para sobreviver ao que está lá dentro.

Aconteceu algo curioso. Entre Montanhas (The Gorge, no original) é um filme de streaming, da Apple TV. Comecei a ver, bateu sono, aí parei na metade, e terminei no dia seguinte. E Entre Montanhas é daquele tipo de filme que muda de rumo no meio, e achei a segunda metade bem inferior à primeira…

(Aliás, por que diabos chamar de “Entre Montanhas” um filme que no original se chama “O Desfiladeiro”? O nome original tem muito mais a ver!)

Vamulá. Dois atiradores de elite, de nacionalidades diferentes, que não se conhecem, são escalados para passar um ano, isolados do mundo, cada um em uma torre, de lados opostos de um desfiladeiro. Algo misterioso está lá embaixo, e eles só precisam vigiar. Teoricamente eles não poderiam entrar em contato um com o outro, mas começam a se comunicar através de cartazes, um escreve e o outro vê através de binóculos. Aliás, tem um momento onde o Miles Teller toca bateria (como em Whiplash) e a Anya Taylor-Joy joga xadrez (como em O Gambito da Rainha), e coincidentemente isso já estava no roteiro antes do elenco ser escolhido.

Essa parte da comunicação à distância é a melhor parte do filme. Tem um momento onde o ritmo é quebrado e vemos algo tentando sair do desfiladeiro. A sequência é boa, mas heu acho que podia mostrar menos sobre o que estava lá embaixo – sempre defendo que o quanto menos a gente sabe, maior é o medo que a gente sente. Mas pelo menos a sequência é empolgante e bem filmada.

Até aí, heu estava gostando do filme. Mas na segunda metade, algo acontece e os dois vão parar dentro do desfiladeiro. E aí o filme entra numa onda de clichês (como quando encontram um filme em super 8 que vai explicar tudo) e forçadas de barra no roteiro (como os dois conseguirem fazer tudo e sobreviver num ambiente onde milhares de soldados tentaram e todos morreram). Não que o filme fique ruim, mas é que cai no “mais do mesmo”.

A direção é de Scott Derrickson, que tem um histórico no cinema de terror: O Exorcismo de Emily Rose, A Entidade, Livrai-nos do Mal, O Telefone Preto (além de um Marvel, Doutor Estranho). Por ser alguém do meio, achei que a segunda metade do filme podia ser mais “terror”. Pena, virou um sub Resident Evil, naquela linha entre ação, terror e ficção científica.

No elenco, quase o filme todo é em cima de Miles Teller e Anya Taylor-Joy, que estão bem, e convencem, tanto como atiradores, quanto como o improvável casal. Sigourney Weaver faz uma ponta de luxo, caricata, mas pouco aparece. E acho que o único outro personagem relevante é interpretado por Sope Dirisu, de Gangs of London.

A segunda metade tem uma falha grave de roteiro. Mas como é no fim do filme, vou colocar um aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

A gente descobre que lá embaixo existe uma contaminação. Mas tem um rio correndo. Ué, a água que sai do desfiladeiro e vai “para o mundo” não está contaminada?

FIM DOS SPOILERS!

No fim, Entre Montanhas é um filme apenas ok. Não vai deixar o espectador com raiva, mas também não vai mudar a vida de ninguém. Só fico triste com a queda de qualidade no meio do filme. Seria melhor se não tivesse caído no clichê.