Menino do Rio

Crítica – Menino do Rio

Sinopse (imdb): Aventuras românticas de um grupo de adolescentes e surfistas do Rio de Janeiro.

E vamos a mais um filme da playlist rock nacional anos 80!

Falei dos três filmes do Lael Rodrigues, lançados em 1984, 85 e 87, época que o rock nacional estava na crista da onda. Menino do Rio é de 1982, o rock era novidade. Ou seja, este está mais para um filme sobre jovens, que usa o rock nacional na trilha sonora; do que um “filme do RockBR”.

Escrito por Bruno Barreto e dirigido por Antônio Calmon, Menino do Rio nos apresenta Valente, típico “playboy da zona sul” (apesar de não morar na zona sul). Ele surfa, voa de asa delta, e trabalha fazendo pranchas. Claro, tem um pai rico. Valente conhece Patrícia, e eles começam a namorar, mas se separam por um motivo bem imaturo, na minha humilde opinião (se bem que até hoje tem gente que pensa que nem ele).

(O filme não deixa claro onde ele mora, mas tem cara de ser naquelas praias depois do Recreio. Me pareceu ser a praia depois do Pontal.)

A história é original, mas o personagem foi inspirado em uma pessoa real, José Arthur Machado, também conhecido como Petit, um surfista com um dragão tatuado no braço (numa época que quase ninguém tinha tatuagens), que inspirou Caetano Veloso a escrever a música Menino do Rio em 1979. Petit tem uma história triste: sofreu um acidente de moto em 1987 e acabou cometendo suicídio dois anos depois.

Menino do Rio tem o perfil das produções nacionais da época. Produção boa, som ruim. E, claro alguma nudez gratuita. Foi um grande sucesso de público na época, tornando-se um fenômeno cultural e um dos filmes nacionais de maior bilheteria do período.

Queria fazer dois comentários sobre a parte musical do filme. O primeiro é que, diferente dos quatro filmes comentados nas últimas semanas (Bete Balanço, Rock Estrela, Rádio Pirata e As Sete Vampiras), a música Menino do Rio, sucesso em 1980 na voz de Baby Consuelo, não toca no filme. Curiosamente, a música Garota Dourada toca, mais de uma vez, na versão conhecida e em uma versão instrumental, mais lenta, num momento triste do filme. E a continuação de Menino do Rio se chama justamente Garota Dourada.

O outro comentário é sobre o momento que a música brasileira estava passando. Nos filmes do Lael Rodrigues, o RockBR estava no auge da fama; mas aqui, em 1982, ainda era novidade. Vamos voltar um pouco no tempo. Em 1980, o rock brasileiro era underground. Rita Lee já tinha deixado o Tutti Frutti e estava fazendo um som mais pop, tinha lançado um disco com Lança Perfume, Baila Comigo e Bem Me Quer; Raul Seixas estava na área, mas sua carreira não estava em alta. Até que, em 1981, a Gang 90 tocou Perdidos na Selva no festival MPB Shell, da rede Globo, e lançou uma fagulha que incendiaria a música brasileira: em 1982, foram lançados discos da Blitz, Lobão, Lulu Santos, Barão Vermelho, Rádio Táxi e Herva Doce. Ou seja, na época que Menino do Rio foi feito, o rock nacional ainda não era um produto consolidado – mas certamente o sucesso do filme ajudou a explosão do RockBR.

O elenco é bom. Valente é interpretado por André de Biase, que alguns anos depois seria protagonista de um seriado que marcou a minha geração: Armação Ilimitada. Patrícia era Cláudia Magno, que fez sucesso em novelas, mas faleceu precocemente aos 35 anos. Dois nomes curiosos estão entre os principais coadjuvantes. Um é Sérgio Mallandro, o caricato “glu glu ié ié” tem um papel grande, rolam boatos de que ele improvisou boa parte dos diálogos. Outro é Evandro Mesquita, vocalista e principal nome da Blitz. Digo que sua presença é curiosa porque não tem Blitz na trilha sonora (Cazuza atua em Bete Balanço, filme que tem mais de uma música do Barão Vermelho). Também no elenco, Ricardo Graça Melo, Cissa Guimarães, Claudia Ohana, Nina de Pádua e Tania Boscoli.

Em 1983 veio a continuação, Garota Dourada, dirigida pelo mesmo Antônio Calmon. Em breve comento aqui!

Casa de Dinamite

Crítica – Casa de Dinamite

Sinopse (imdb): Centrado nos funcionários da Casa Branca que lidam com um ataque iminente de mísseis contra os Estados Unidos, esse drama emocionante se desenrola em tempo real à medida que as tensões aumentam.

Filme novo da Kathryn Bigelow, com elenco cheio de gente legal!

A trama é simples: alguém, no Pacífico – ainda não sabem quem – lançou um míssil nuclear, em direção aos EUA, com possibilidade de atingir uma grande cidade. Eles só têm 19 minutos antes do impacto, pra tentar alguma defesa, ou pra pensar em retaliação.

Heu gosto do formato do roteiro de Noah Oppenheim (curioso um cara com esse sobrenome escrever um roteiro usando uma arma nuclear…). A gente acompanha a história, e depois recomeça tudo sob outro ponto de vista. Quando revemos, às vezes vemos parte dos diálogos mas pelo ponto de vista de outro interlocutor, outras vezes vemos novos elementos. Ok, tem o problema da gente já saber algumas coisas quando revemos, mas mesmo assim o roteiro consegue segurar a atenção do espectador.

(Essa trama me lembrou Maré Vermelha, do Tony Scott, onde um submarino perde o contato com a base, e seus próximos passos podem impedir uma guerra ou começá-la.)

Olhando de longe, Casa de Dinamite lembra o recente Guerra dos Mundos, porque quase todas as cenas são internas, nos bastidores. Mas é a única semelhança. Casa de Dinamite é infinitamente superior. Kathryn Bigelow é muito eficiente ao usar uma câmera nervosa entre o elenco, mantendo a tensão lá no alto.

Não gostei do final. Mas podem ficar tranquilos que não vou falar spoilers. O espectador acompanha um momento tenso, mais de uma vez, e o filme aponta a direção do que vai acontecer, mas não mostra. Kathryn Bigelow quis focar seu filme nas pessoas que estavam conectadas ao evento, e não no que aconteceria no mundo logo depois. Entendo essa opção, mas foi muito anti climático.

O elenco é muito bom. Não tem um protagonista, a trama fica entre os núcleos. Todos estão bem: Rebecca Ferguson, Idris Elba, Jared Harris, Anthony Ramos, Greta Lee, Jason Clarke, Gabriel Basso e Willa Fitzgerald, entre outros.

Casa de Dinamite estreou recentemente na Netflix.

Primitive War

Crítica – Primitive War

Sinopse (imdb): Vietnã, 1968. A equipe de reconhecimento do Esquadrão Abutre vai para um vale isolado para investigar o desaparecimento de um pelotão de boinas verdes. Sua missão toma um rumo sombrio quando descobrem uma ameaça invisível.

A premissa lembra um filme da Asylum: guerra do Vietnã com dinossauros. Mas, preciso reconhecer que o resultado aqui é bem melhor que a média da Asylum.

Primitive War é um filme australiano, baseado no livro homônimo escrito por Ethan Petrus em 2017. Não conheço o livro, vou falar só do filme. Acompanhamos uma equipe que precisa resgatar um grupo de boinas verdes. O problema é que encontram dinossauros quando chegam lá, o que muda todo o planejamento.

Claro que o grande lance são os dinossauros, principalmente em tempos onde temos alguns Jurassic World decepcionantes. E preciso dizer que quem curte dinossauros não vai se decepcionar: são muitos, de várias espécies diferentes. E alguns são ligeiramente diferentes do padrão “Jurassic Park” que estamos acostumados há 30 anos – por exemplo, alguns dinossauros têm penas! Não tem gente por aí que diz que aves são dinossauros?

Primitive War é um filme de baixo orçamento, e em algumas cenas vemos dinossauros meio toscos. Mas preciso dizer que durante a maior parte do filme o cgi dos dinossauros é muito bem feito. E se a gente pensar que Primitive War teve orçamento de 7 milhões, contra 180 milhões do último Jurassic World, o resultado ficou muito acima do esperado.

(Elogio os dinossauros, mas preciso reclamar do barulho tosco de quando o Tiranossauro Rex fecha a mandíbula. O som parece uma colher de pau batendo num balde de plástico. Talvez o cara tenha pesquisado e este talvez seja mais próximo do que deveria ser o som real. Mas, caramba, ficou muito tosco!)

Primitive War foi escrito, produzido, dirigido e editado por Luke Sparke, que ainda foi o responsável pelo design de produção e está creditado como produtor e supervisor de efeitos especiais. Vou além: Carly Sparke e Tracey Rose Sparke, mesmo sobrenome (catei no Google, não descobri se são esposa, irmã, filha, mãe… mas devem ser da família), estavam na produção, na escolha do elenco e no figurino. Ou seja, estamos diante de um projeto muito pessoal. Parabéns a Luke Sparke, mas, talvez fosse uma boa ideia ter alguém no topo da produção pra dizer “menos”… O resultado ficou muito bom, mas é longo demais. Um filme com essa temática não precisa ter mais de uma hora e meia, e Primitive War tem duas horas e treze minutos!

Primitive War chega a cansar, porque não tem necessidade de ser tão longo. Aí a gente começa a pensar em personagens inúteis, como por exemplo aquela vietnamita que andava com os russos, uma personagem tão irrelevante que nem consegui ver direito se ela sobreviveu no fim ou não. E aquele vilão russo é a coisa mais trash do filme. Não precisava disso, uma trama de soldados fugindo de dinossauros já seria suficiente.

O elenco também lembra Asylum, que costuma pegar sub celebridades hollywoodianas que precisam pagar boletos. Os principais aqui são Ryan Kwanten, que era um personagem secundário em True Blood, e Tricia Helfer, a Caprica Six de Battlestar Galactica – dois atores ok, mas que não têm muito mais a apresentar nos seus currículos. Também tem Jeremy Piven num papel menor. Ninguém está bem, mas ninguém está mal. Afinal, o importante é ver dinossauros.

O resultado final de Primitive War é bem melhor que o esperado. Ainda aguardo Luke Sparke numa produção um pouco melhor, onde alguém pode dar conselhos sobre alguns detalhes que podem melhorar sua obra. Mas fica aqui um parabéns!

Depois da Caçada

Crítica – Depois da Caçada

Sinopse (imdb): Uma professora universitária se vê em uma encruzilhada pessoal e profissional quando um aluno famoso faz uma acusação contra um de seus colegas e um segredo obscuro de seu próprio passado ameaça vir à tona.

E vamos ao novo Luca Guadagnino, filme escolhido para abrir o Festival do Rio 2025. Bem filmado, bem atuado, mas, pena, o resultado ficou meio fuén.

Depois da Caçada (After The Hunt, no original) segue Alma, que faz parte de um grupo de intelectuais da universidade de Yale. Até que Maggie, sua aluna favorita, acusa Hank, seu colega, de abuso sexual. Alma agora não sabe como lidar com as acusações, afinal ela foi mentora de ambos. Ela se encontra entre a lealdade institucional e a solidariedade; entre a ética e a autopreservação. Ao mesmo tempo vamos descobrir que ela também guarda esqueletos no armário.

Guadagnino constrói uma espiral de desconforto que propõe um estudo sobre o julgamento e o poder: quem tem o direito de decidir o que é verdade? Mas, Depois da Caçada não é um “filme do movimento MeToo”, e sim um estudo sobre o medo do erro moral – medo de ser cúmplice, de julgar injustamente, de perder prestígio.

(Leve spoiler: uma coisa que gostei no roteiro é que não sabemos ao certo quem tem razão, se é a acusadora ou o acusado. Tire suas próprias conclusões!)

Depois da Caçada é bem filmado e tem bons atores. Mas sabe quando um filme não empolga? É o caso aqui. O filme segue num marasmo interminável – são intermináveis duas horas e dezoito minutos de projeção. E um monte de diálogos com papo cabeça chato não ajudam. Pra piorar, a trama se encerra, mas depois tem um epílogo completamente desnecessário.

O elenco tem alguns bons atores, que estão ok, apesar do filme ser desinteressante. Julia Roberts e Andrew Garfield são carismáticos e estão bem. Gostei de ver Michael Stuhlbarg num papel um pouco mais importante, o cara sempre foi aquele coadjuvante que a gente nem lembra o nome. Também no elenco, Ayo Edebiri e Chloe Sevigny.

Os créditos iniciais são iguais ao estilo usado sempre por Woody Allen. Aliás, todo o filme tem um quê de Woody Allen. Será que é uma indireta porque Allen também passou por um problema semelhante?

Por fim, um comentário sobre a trilha sonora. Tem algumas músicas em português. E preciso dizer que isso atrapalhou, porque o cérebro se confunde entre prestar atenção nas legendas ou nas letras das músicas.

Bom Menino

Crítica – Bom Menino

Sinopse (imdb): Um cão fiel se muda com seu tutor para uma casa de campo. Lá, ele descobre forças sobrenaturais escondidas nas sombras. Quando as entidades sombrias ameaçam seu dono, o corajoso cão deve lutar para protegê-lo.

A ideia era muito boa, um filme de terror sob o ponto de vista de um cachorro. Pena que o roteiro é fraco.

Mas antes de tudo, preciso falar uma coisa, responder a dúvida que paira na cabeça de todos os que leram essa sinopse e que gostam de cachorro. Espero que não seja spoiler, mas acho importante avisar: não, o cachorro não morre, nem tem nenhuma maldade com ele. Podem ver tranquilamente, se esse for o caso.

Vamos ao filme. Dirigido por Ben Leonberg, Bom Menino (Good Boy, no original) conta a história pelo ponto de vista do cachorro. E sem cgi! O filme todo é focado no cachorro e nas suas reações, enquanto o seu dono enfrenta problemas típicos de filmes de terror.

Tenho um grande elogio e uma grande crítica. Vou começar pelo elogio. O cachorro Indy é sensacional. Rolam piadas na Internet que ele deveria ser indicado ao Oscar, e é uma piada com fundo de verdade. Indy é o cachorro do diretor Ben Leonberg, e o cara fez mágica ao filmar seu doguinho. Tenho cachorro, tenho noção do quanto difícil é conseguir uma expressividade assim de um bicho de estimação.

O filme é curto, mas demorou 400 dias ao longo de três anos para ser filmado. Imagina o trabalho “de formiguinha” para conseguir tantos bons takes! Parabéns para o Indy e para seu dono Ben Leonberg!

Agora, precisamos trazer uma crítica: é um cachorro, ele não fala, tudo fica muito limitado. Então temos várias ideias repetidas. Ou seja, é um filme de uma hora e treze minutos que se arraaasta. Chega a ser chato. Indy merecia um roteiro melhor!

Sobre o elenco, o único nome importante é o do cachorro Indy. Inclusive, quase não vemos os rostos dos outros personagens. O filme é do cachorro!

Por fim, um mimimi sobre o título nacional. Já ouvi pessoas em inglês chamando cachorro de “good boy”, mas nunca ouvi a tradução em português. Acho que o melhor título em português seria “Bom Cachorro”…

O Agente Secreto

Crítica – O Agente Secreto

Sinopse (Festival do Rio): Brasil, 1977. Fugindo de um passado misterioso, Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos quarenta, volta ao Recife em busca de um pouco de paz, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.

Antes de tudo, preciso dizer que não sou um grande fã do Kleber Mendonça Filho. Respeito seu trabalho, já vi alguns dos seus filmes, mas, diferente de alguns amigos próximos, não acho nada tão genial. Vi O Som ao Redor, o filme não me disse nada. Gostei de Bacurau, mas não achei melhor que, por exemplo, Aumenta que É Rock’n’Roll. Um novo filme do Rodrigo Aragão me empolga muito mais que um novo do Kleber Mendonça Filho. Digo isso porque amigos críticos entraram na sessão de O Agente Secreto com uma pré disposição para adorarem o filme, e esse não é o meu caso.

Ou seja, reconheço que O Agente Secreto é muito bom. Mas não achei essa perfeição toda que estão propagando por aí aos quatro ventos…

O Agente Secreto acompanha a vida de Marcelo, pesquisador universitário, em Recife, em 1977. Marcelo está fugindo de algo que não é muito explicado no filme*, e vive numa espécie de pensão com outras pessoas em situação semelhante. Curiosamente, não tem nenhum agente secreto na trama.

(*O filme mostra uma discussão que Marcelo tem com um homem corrupto e poderoso. Mas essa simples discussão não seria algo grande o suficiente pro cara mandar matá-lo. Deve ter algo a mais que não é dito ao espectador – assim como a morte da esposa de Marcelo, que não explicam o que aconteceu. São coisas essenciais para acompanhar o filme? Não, o espectador pode seguir sem saber. Mas não acho que seria ruim deixar o espectador por dentro do que está acontecendo.)

Claro que vai rolar comparação com Ainda Estou Aqui, afinal são dois filmes passados nos anos 70 durante o regime militar, e O Agente Secreto é o filme brasileiro enviado ao Oscar este ano. Mas são filmes beeem diferentes.

(Um parênteses sobre o Oscar de melhor filme internacional. Cada país tem direito a enviar um filme para o Oscar. A Academia escolhe cinco, que são os que vão efetivamente concorrer. O Agente Secreto ainda não está concorrendo. É o filme enviado pelo Brasil, mas ainda não saiu a lista dos cinco que vão concorrer à estatueta.)

A ambientação de época é perfeita. O ritmo do filme é envolvente, mas, são duas horas e trinta e oito minutos, chega a cansar um pouco. A trama tem uns saltos temporais, umas inserções nos dias de hoje com duas estudantes universitárias, que são bem menos interessantes que a trama principal – essas inserções poderiam ser eliminadas do filme, ficando só o epílogo.

O elenco está muito bem. Wagner Moura está excelente, tanto que está cotado para ser indicado ao Oscar de melhor ator (existe um site de apostas para o Oscar onde Wagner figura na lista dos cinco prrováveis). Outro destaque é Tânia Maria, a senhorinha que cuida da pensão. Não me parece uma atuação, tive a impressão de que ela deve ter assim na vida real. Personagem ou não, ela é ótima. Também no elenco, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes e uma divertida ponta de Udo Kier (que já tinha trabalhado com Kleber em Bacurau).

Preciso falar da cena da “perna peluda”! No meio do filme, rola uma sequência falando de uma notícia de jornal sobre a “perna peluda”. Heu gostei da sequência, mas acho que não tem nada a ver com o resto do filme. Vemos uma perna meio apodrecida ganhar vida e pular até uma praça onde várias pessoas estão envolvidas em atos sexuais nem sempre convencionais, e a perna começa a atacar. Mas, sabe qual é o problema? É uma sequência completamente desconexa do resto do filme. Se você tirar essa sequência, a trama segue exatamente igual. Digo mais: vai ter gente incomodada com as imagens gráficas das pessoas transando em público. Mas, como disse, heu gostei. Heu veria um filme inteiro com a perna peluda!

Não gostei do final, de como a trama se encerra. Vou tentar falar evitando spoilers. O filme entra num ritmo eletrizante, com tiroteios e perseguições, e isso é interrompido por uma notícia de jornal falando como a história terminou. Ok, o espectador sabe a conclusão, mas foi bem anticlimático. Depois disso tem um epílogo que é até legal, mas a história mesmo se encerra naquela notícia de jornal, o epílogo se passa anos depois.

Agora a gente fica na torcida pra lista dos indicados ao Oscar!

O Telefone Preto 2

Crítica – O Telefone Preto 2

Sinopse (imdb): Enquanto Finn, de 17 anos, lida com a vida após seu cativeiro, sua irmã recebe ligações do telefone preto em seus sonhos e tem visões perturbadoras de três meninos perseguidos no acampamento de Alpine Lake.

Quatro anos atrás, terminei minha crítica de O Telefone Preto com a pergunta: será que veremos novamente o vilão “Grabber”? Bem, o filme custou 18 milhões e a bilheteria foi mais de 161 milhões. Além disso, é uma produção da Blumhouse, que tem várias franquias. Então, para surpresa de ninguém, chegou a continuação.

O problema é que – spoiler do primeiro filme – o vilão morreu. E agora? Como criar algo com um vilão que não está no mundo dos vivos? Por sorte, o filme tem temática sobrenatural. O Grabber virou uma espécie de Freddy Kruger – voltarei a esse ponto mais tarde.

O Telefone Preto 2 (Black Phone 2, no original) repete Scott Derrickson na direção, além de quase todo o elenco. Se passaram alguns anos, as crianças agora são quase jovens adultos, que vivem com o trauma do que aconteceu no primeiro filme. Gwen, a irmã mais nova, tem pesadelos que se mostram cada vez mais perigosos. Eles resolvem ir a uma espécie de acampamento de férias num lago congelado para investigar, e acabam presos lá por causa de uma nevasca.

Assim como no filme anterior, Scott Derrickson consegue criar um bom clima de tensão ao longo do filme. Agora não temos mais um cárcere num porão, mas por outro lado, durante boa parte do filme os personagens estão presos no tal acampamento, isolado por causa da neve – o visual é uma mistura de Sexta Feira 13 (Crystal Lake) com O Iluminado (isolados pela neve). A ambientação no início dos anos 80 também é muito boa, assim como aconteceu no filme anterior (que era no fim dos anos 70).

Scott Derrickson sabe usar sua câmera, e algumas sequências são bem legais. Tem uma onde o personagem está numa cabine telefônica e a câmera está rodando em volta que é muito boa! E ainda tem algumas cenas onde o gore é bem usado.

Sobre a citação ao Freddy Kruger, determinado momento o filme entra numa vibe meio Hora do Pesadelo 3 Os Guerreiros dos Sonhos. Em ambos os filmes, o personagem que está sonhando precisa aprender a lutar dentro do sonho para enfrentar o vilão. Ou seja, ideia repetida. Só não achei um problema porque Hora do Pesadelo 3 foi lançado 38 anos atrás. Ok, já tá liberado reciclar a ideia.

No elenco, Mason Thames e Madeleine McGraw cresceram, e o roteiro soube aproveitar isso, agora os personagens são quase adultos. Aliás, o ator que faz o Ernesto também estava no primeiro filme. Se no outro filme Finn era o principal, agora Gwen tem mais protagonismo. E é curioso que Ethan Hawke não mostra o rosto nenhuma vez. Pode até ser outro ator debaixo da máscara e da maquiagem – imagino ele conversando com o diretor (devem ser amigos, já fizeram três filmes juntos), “Scott, deve estar uma friaca lá, filma com o meu dublê e depois coloco a voz!”.

O Telefone Preto 2 não é o melhor terror do ano, mas não vai fazer feio com a garotada que curte terror pipoca no fim de semana no shopping.

The Mastermind

Crítica – The Mastermind

Sinopse (Festival do Rio): Massachusetts, anos 70. A Guerra do Vietnã e o início do movimento feminista dominam o pano de fundo americano. A vida de JB Mooney, um carpinteiro e chefe de família, está no marasmo. Para fazer dinheiro, ele planeja um grande roubo de obras de arte valiosas num museu. Mas lidar com o produto do roubo se revela inacreditavelmente mais complicado que o assalto em si.

The Mastermind não estava na minha lista de filmes deste ano no Festival do Rio. Mas apareceu uma sessão compatível com o meu horário. Fui ler sobre o filme, é o novo projeto da diretora Kelly Reichardt, diretora de First Cow, um filme que ainda não vi, mas que mais de uma pessoa me recomendou. Ok, não vi First Cow, mas posso começar pelo seu mais novo filme.

Mas talvez fosse melhor não ter ido. The Mastermind foi talvez o pior dos onze filmes que vi no Festival do Rio deste ano.

Para explicar por que achei tão ruim, vou precisar entrar em spoilers, ok? Nada grave, não existe nenhum plot twist.

Em The Mastermind, acompanhamos JB, um cara todo errado. O cara pega dinheiro emprestado com sua mãe, dizendo que é para investir num novo negócio. Mas na verdade ele quer roubar quatro quadros de um museu, o dinheiro é para pagar os capangas. Mas são quadros que aparentemente não têm muito valor, e ele não tem nenhum esquema para repassá-los. Ou seja, ele precisa abandonar esposa e filhos para fugir. Sim, ele engana a própria mãe e abandona a própria família por causa de um roubo mal planejado. Mas calma que piora: no fim do filme ele rouba uma velhinha atrás de alguns dólares.

Se um cara desses é preso, o espectador nem vai se importar. Que tipo de protagonista é esse?

No elenco, o filme todo se passa em cima do Josh O’Connor, em um personagem completamente sem carisma, acredito que mais por culpa do roteiro do que do ator. E achei curioso ver Alana Haim, que “anteontem” era adolescente, em Licorice Pizza, aqui interpretando uma mãe de dois adolescentes.

Pra não dizer que nada se salva, a trilha sonora, feita com um jazz furioso, é boa. Às vezes soa demais, mas mesmo assim é a única coisa que se salva.

Não desisti de First Cow. Mas foi pro fim da fila.

Tron: Ares

Crítica – Tron: Ares

Sinopse (imdb): Um altamente sofisticado programa, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa.

O primeiro Tron, de 1982, foi um grande marco nos efeitos especiais. Revisto hoje, o filme é meio besta, e os efeitos parecem vergonhosos, mas, na época, explodiu cabeças: era um filme que se passava parcialmente dentro de um computador!

(Heu nasci em 1971. Vi Tron no cinema, na época do lançamento, e achei aquilo o máximo. Mas… revi semana passada, antes de ver o novo, e constatei que os efeitos estão realmente vencidos. É tudo meio monocromático, às vezes parece até animação em rotoscopia. E os gráficos só com linhas, objetos sem volume 3D, são muito toscos.)

Foi um marco, mas até onde sei, nunca teve um grande fandom. Muita gente respeita, mas pouca gente é fã. Tanto que a continuação só veio 28 anos depois, em 2010. E Tron: Legacy é um filme tão esquecível que só me lembro da trilha sonora do Daft Punk e do efeito de rejuvenescimento digital no Jeff Bridges, que na época era novidade, mas hoje em dia já “perdeu a validade”

Mais quinze anos, e chega ao circuito o terceiro filme. Ninguém pediu, ninguém se importa, mas está em cartaz

(Antes, uma piadinha ruim sobre o nome. “Tron Três” parece trava línguas, “um tigre, dois tigres, Tron três tigres”. E “Tron Ares” soa bem parecido com o ex jogador do Fluminense, “Jhon Arias”. Quando ouço alguém falando “Tron Ares” muitas vezes me confundo.)

Dirigido por Joachim Rønning, Tron: Ares volta ao universo criado no primeiro filme, mas com uma novidade: agora os programas podem sair do computador e interagir com humanos no mundo real. Mas, mais uma vez, o resultado não empolga. Tron: Ares é um filme bonito, com efeitos especiais excelentes, uma boa trilha sonora, mas só isso. Será esquecido, assim como Tron: Legacy.

Bem, reconheço que algumas sequências são boas. Sabe aquelas motos que fazem uma “parede” por onde passam, criando um labirinto em um jogo? A gente vê uma cena com essas motos numa rua no mundo real. Ok, aquilo não faz sentido se a gente parar pra pensar, aquelas paredes de energia iam causar danos generalizados, gente ia morrer – mas a cena ficou bonita. Também gostei de uma cena que mostra um sistema sendo invadido e o antivírus reagindo, e vemos isso como se fossem guerreiros. Boa sacada.

E tem uma sequência pra afagar a memória de quem lembra do primeiro filme, uma sequência emulando o cenário e os efeitos “velhos”. Foi legal rever aqueles cenários, mas tenho um mimimi. Aparece o Jeff Bridges, cujo personagem ficou lá. Mas, caramba, é um ambiente digital, por que ele está velho? Seria mais legal vê-lo exatamente igual ao visual que ele tinha em 1982. Certamente hoje ia ficar melhor que o Jeff Bridges rejuvenescido digitalmente que a gente viu quinze anos atrás.

(Aproveito pra outro mimimi: o filme se chama Tron, mas o personagem Tron não aparece. Nada a ver!)

Comentários sobre a trilha sonora. O primeiro filme traz trilha da Wendy Carlos (pioneira do uso de sintetizadores na música clássica, autora das trilhas de Laranja Mecânica (quando ainda assinava Walter Carlos) e O Iluminado); o segundo tem a trilha assinada pelo grupo Daft Punk – ambas as trilhas são excelentes. Agora a trilha ficou a cargo da banda Nine Inch Nails, e também é um dos pontos altos do filme. Mas… Reconheço que o trabalho do Nine Inch Nails foi muito bom, mas não tem nenhum tema marcante, e o segundo filme tinha. Se heu for assistir um show, vou preferir Nine Inch Nails do que Daft Punk, mas preciso reconhecer que o Daft Punk fez um trabalho melhor.

No elenco, Jared Leto faz aquele clichê da IA que começa a questionar seu criador – mas ele mais uma vez não convence. Evan Peters se sai melhor dentro de outro clichê, o CEO rico que se acha dono do mundo. Greta Lee está apenas ok, e Gillian Anderson está desperdiçada (assim como Jeff Bridges).

Rola uma cena pós créditos com um gancho pra mais um Tron. Claro que vou ver se fizerem. Mas não faço questão.

Lago dos Ossos / Bone Lake

Crítica – Lago dos Ossos

Sinopse (Festival do Rio): Um casal, buscando se reconectar intimamente, aluga uma casa à beira de um lago para passar o fim de semana. Porém, outro casal também aparece. Ao perceberem que a propriedade foi reservada duas vezes ao mesmo tempo por engano, os dois casais concordam timidamente em compartilhar o espaço e aproveitar ao máximo o fim de semana juntos. O que começa promissor como amizade logo se transforma em uma série distorcida de sexo e mentiras, e o idílico fim de semana rapidamente desaba em uma torrente de violência orgiástica, com doses generosas de sensualidade e sede de sangue.

A sessão de Lago dos Ossos (Bone Lake, no original) teve presença ilustre, o ator Marco Pigossi (Cidade Invisível) estava lá para apresentar o filme (sim, filme gringo com ator brasileiro). E antes da sessão falaram do conceito da mostra Midnight Movies: filmes estranhos, com violência e com sexo – e Lago dos Ossos tem tudo isso misturado.

A premissa inicial é bem parecida com Barbarian – Noites Brutais, mas são filmes bem diferentes. Um casal vai passar um fim de semana numa casa à beira de um lago. Mas outro casal também aparece, o dono reservou para os dois casais. Os quatro então resolvem dividir a casa. Mas o segundo casal tem um comportamento, digamos, bem estranho.

Dirigido por Mercedes Bryce Morgan, Lago dos Ossos às vezes lembra Speak no Evil, onde pessoas que não se conhecem bem estão sob o mesmo teto, e o comportamento de uns torna a convivência bastante desconfortável. O segundo casal é muito sem noção!

O roteiro é bem estruturado. Tem um plot twist lá no meio onde a gente passa a ver tudo sob outro ponto de vista. E a parte final tem um divertido banho de sangue.

Agora, tem uma coisa que não entendi. O filme abre com uma sequência onde um casal, ambos nus, correm por uma floresta, enquanto alguém está atirando flechas neles. É uma sequência bem gráfica, a ponto de vermos o close de um saco sendo atravessado por uma flecha. E aí começa o filme, onde a nudez é toda bem comportada, parece que estamos num filme de sessão da tarde. Olha, não acho que nudez seja algo necessário, mas a nudez aqui não seria gratuita. E se o filme abre com imagens tão explícitas, por que o puritanismo no resto do filme?

O elenco tem basicamente quatro nomes: Marco Pigossi, Maddie Hasson, Alex Roe e Andra Nechita. Todos estão bem, e tenho um elogio extra ao inglês de Pigossi: sua pronúncia é perfeita! Wagner Moura estava ano passado em Guerra Civil, inglês fluente, mas a gente sente que ele é estrangeiro. Marco Pigossi consegue enganar!

Pigossi falou que Lago dos Ossos estreia aqui no Brasil em fevereiro. Não é um grande filme, mas quem entrar na onda vai se divertir.