A Própria Carne

Crítica – A Própria Carne

Sinopse (Festival do Rio): Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram.

E vamos ao terror do Jovem Nerd!

Reconheço que A Própria Carne foi uma agradável surpresa. Explico. Em primeiro lugar, Jovem Nerd hoje é mais conhecido como um bem humorado podcast. Não é um podcast de humor, mas certamente tem momentos engraçados. E em segundo lugar, o diretor do filme é Ian SBF, mais conhecido por dirigir dezenas (talvez centenas) de esquetes do canal Porta dos Fundos. Além disso, muitas vezes o cinema de terror flerta com o trash galhofa. Não acho isso algo negativo, gosto muito dos filmes do Rodrigo Aragão e do Paulo Biscaia Filho, ambos têm um pé fincado no trash, só estou constatando que existe essa conexão.

Quando ouvi falar que o Jovem Nerd ia fazer um filme de terror, achei que ia pro caminho da comédia trash. Mas não, olha que boa notícia: A Própria Carne é um filme sério e tenso! Zero trash!

(Não tenho nenhum contato direto com a galera do Jovem Nerd. O Azaghal uma vez gravou um áudio pro Podcrastinadores, mas foi só isso, sem uma interação. Sou amigo do Carlos Voltor e do Afonso 3D, que são ligados ao Jovem Nerd.)

Além do clima sério e tenso, outro elogio aqui vai para a bem cuidada produção de época. Cenários, figurinos e props, tudo está muito bem feito, nem parece uma produção independente.

Agora, o maior mérito de A Própria Carne está na escolha do ator Luiz Carlos Persy, mais famoso por ser o dublador de nomes como Stellan Skarsgård, Ralph Fiennes, Bryan Cranston e John Goodman. Persy está sensacional, cada frase proferida por ele causa medo. Seu personagem, o velho que cuida da cabana, é assustador, e, de longe, a melhor coisa do filme.

Por outro lado, não gostei da Jade Mascarenhas, a personagem dela não me passou consistência – quando estão cuidando da perna de um dos soldados, ela está rindo, achei meio nada a ver. Os três soldados desertores estão ok: George Sauma, Jorge Guerreiro e Pierre Baitelli.

Na parte final, o roteiro dá umas escorregadas. Os três desertores sabem que estão numa roubada, mas nada fazem pra tentar fugir. A história se encerra, mas o final deixa um gancho pra uma continuação – mas na minha humilde opinião, o melhor seria parar por aí mesmo.

A Própria Carne não é um grande marco do terror nacional, mas é uma diversão honesta. Quem venham outros filmes brasileiros do mesmo nível!

Honey, Não!

Crítica – Honey, Não!

Sinopse (Festival do Rio): Honey O’Donahue é uma detetive particular que se envolve na investigação de mortes estranhas ligadas a uma igreja misteriosa da Califórnia liderada por um padre carismático. Conforme aprofunda o caso, Honey se depara com segredos, sedução e mentiras, embarcando numa trama que mistura mistério, humor ácido e thriller policial.

Claro que o novo filme do Ethan Coen estaria na minha lista do Festival do Rio!

Ano passado comentei Garotas em Fuga, filme anterior do diretor Ethan Coen, que aliás é bem parecido com este em vários aspectos. Mas antes de comentar Honey, Não!, um breve parágrafo pra quem perdeu o último texto: os irmãos Joel e Ethan Coen, juntos, fizeram dezenas de filmes ao longo de quase 40 anos, sempre dividindo roteiro, produção e direção. Até que, sei lá por que, começaram a trabalhar separados. Um conhecido me falou que leu uma entrevista onde eles disseram que não brigaram, mas um deles estaria cansado e queria dar um tempo. O curioso é que os dois continuam em ação, então não sei quem estaria dando o tal tempo. Enfim, separados, Joel Coen fez Macbeth, que heu não gostei; e Ethan Coen fez Garotas em Fuga, um filme “menor”, meio bobinho, mas que curti bem mais do que o pretensioso Macbeth.

Honey, Não! (Honey Don’t, no original) segue o estilo de Garotas em Fuga, e por isso vou repetir alguns trechos do que falei um ano atrás. O filme lembra o clima amalucado de algumas produções dos Coen dos anos 80, como Arizona Nunca Mais, ou ainda Crimewave, dirigido por Sam Raimi mas com roteiro dos Coen. Não é um grande filme, na verdade, parece uma cópia meio tosca do que os irmãos faziam. Mas, assim como o filme anterior, é divertidíssimo!

Honey, Não! traz alguns elementos que eram frequentes em filmes dos irmãos, como personagens secundários bizarros e caricatos, e humor negro misturado com violência. Além disso tem cenas de sexo bem gráficas, talvez incomode parte do público. Garotas em Fuga era um road movie, Honey, Não! é um policial. Pelo pôster, achei que ia ter uma pegada de exploitation, mas ficou só na impressão.

O roteiro podia ser melhor, algumas coisas não são bem desenvolvidas, como por exemplo o pai da protagonista. E achei que faltou uma construção melhor na revelação do assassino. Mas, a proposta era um filme B…

No elenco, novamente Margaret Qualley protagoniza, desta vez ao lado de Aubrey Plaza e Chris Evans, todos estão bem. Também no elenco, Lera Abova, Don Swayze e um Charlie Day completamente sem noção, no limite entre o insuportável e o muito engraçado.

O roteiro é assinado por Ethan Coen e sua esposa Tricia Cooke. O casal prometeu uma trilogia de filmes B lésbicos. Ou seja, em breve teremos mais um filme neste mesmo estilo. Segundo o que achei no Google, o próximo será Go, Beavers!

Conversei com alguns amigos, a maioria não gostou de Honey Não!. Heu concordo que é um filme “menor” (assim como Garotas em Fuga). Mas me diverti assistindo. Quero ver Go, Beavers!

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Fim de Semana Macabro

Crítica – Fim de Semana Macabro

Sinopse (Festival do Rio): Nikiya é uma órfã que se sente sozinha e anseia por uma família. Ela começa a encontrar um senso de pertencimento em seu noivo, Luke, e insiste para conhecer a família dele, que resiste à ideia. Para agradá-la e por amor a ela, Luke finalmente faz o sacrifício. Na visita à cidade natal dele, no interior, ao conhecer as pessoas, Nikiya descobre a verdade por trás do afastamento de Luke, revelando dinâmicas familiares obscuras e conflitos, transformando a viagem num pesadelo.

Já tinha ouvido falar de Nollywood, a indústria cinematográfica da Nigéria, mas nunca tinha visto nenhum filme de lá. Quando vi na programação um terror nigeriano, fui logo ver.

Um casal de namorados está planejando o casamento, mas ela insiste em conhecer a família dele. Relutante, ele aceita viajar com ela pra eles passarem um fim de semana com a família dele. E claro que tem algo de errado com a tal família.

Dirigido por Daniel Oriahi, Fim de Semana Macabro (The Weekend, em inglês) chamou a atenção por ser o primeiro (e até agora único) filme nigeriano a ser selecionado pelo Tribeca Festival, em Nova York. E é bom? Bem, vamos por partes. A ideia é boa, mas achei mal desenvolvida.

Quase sempre defendo que um filme original é melhor que uma refilmagem. São raros os casos de refilmagens melhores. Mas aqui acho que seria benéfico. Porque Fim de Semana Macabro tem erros básicos, vou citar dois exemplos. Um é erro de edição: um personagem está com as duas mãos para a frente – corta pra uma personagem falando “abaixe a arma” – corta pro primeiro personagem abaixando os braços e pegando uma arma. Caramba, era só trocar os takes! Outro erro, de sonorização: a gente sabe que muitos dos sons que a gente ouve são colocados depois, não eram sons que estavam acontecendo no set. Até aí, ok. O problema é que aqui alguns efeitos sonoros ficaram desproporcionais, como alguém apoiando um copo numa mesinha e o som é de vidro sendo arrastado; ou uma cena onde cortinas balançam ao vento, e o som do vento parece ondas em uma praia.

Algumas atuações também não são boas, como o pai do protagonista. Mas isso também acontece muito no cinema em geral…

O roteiro também tem algumas coisas que não fazem muito sentido, tipo o cara ser aprisionado, sem camisa, e só verem sua “marca de família” logo antes do momento onde ele seria executado. Ok, o espectador precisa saber da colheita, mas podiam ter contado de outra forma. E isso porque não estou falando de um fim de semana que dura vários dias…

Apesar desses problemas técnicos, achei uma boa experiência. O grande segredo guardado pelo roteiro não chega a ser um plot twist porque já era meio previsível, mas mesmo assim a história flui bem, o filme tem um bom ritmo. Só achei que podia ter um pouco mais de gore…

Fim de Semana Macabro foi um grande sucesso quando lançado nos cinemas nigerianos ano passado, e é recordista de indicações no Africa Movie Academy Awards, com 16 indicações – ganhou 4, incluindo melhor filme. Não tem cara de filme que vai ser lançado por aqui…

Coração de Lutador

Crítica – Coração de Lutador

Sinopse (imdb): A história do campeão de artes marciais mistas e do UFC, Mark Kerr.

De vez em quando a gente vê astros de blockbusters em projetos que parecem feitos para tentar ganhar prêmios de atuação. Chegou a vez do Dwayne Johnson.

Dono de um carisma enorme, Dwayne Johnson, também conhecido como The Rock, é um dos maiores nomes da Hollywood contemporânea. Mas, precisamos reconhecer que ele sempre está igual em todos os filmes, parece que sempre repete o mesmo personagem. E aqui, em Coração de Lutador (The Smashing Machine, no original), ele finalmente mostra que sabe atuar.

Pena que o filme não é lá grandes coisas…

Antes de tudo, preciso falar que não acompanho MMA. Nunca tinha ouvido falar de Mark Kerr. Ou seja, meus comentários serão só sobre o filme, não entrarei em comparações com a vida real.

Situado no fim dos anos 90, Coração de Lutador mostra três anos da carreira de Mark Kerr, numa época que o vale tudo era mais violento e pagava menos do que hoje. Kerr foi um nome importante para a época. Vemos algumas de suas lutas, ao mesmo tempo que acompanhamos seus problemas com drogas e um relacionamento nada saudável com a namorada Dawn (interpretada pela Emily Blunt, que já tinha trabalhado com Dwayne Johnson em Jungle Cruise).

A direção e o roteiro são de Benny Safdie, que fez o elogiado Joias Brutas (filme que não vi). Curiosamente, Joias Brutas também é estrelado por um ator com fama de fazer sempre o mesmo tipo de personagem, Adam Sandler. A diferença é que Sandler já tinha mostrado que sabe atuas em outros (poucos) filmes.

Coração de Lutador tem um problema grave: é um filme de luta com cenas de lutas mal filmadas. Alguns filmes que mostram esportes capricham em momentos decisivos, mas aqui não tem nenhuma cena memorável. Podiam ter pensado em melhores coreografias e ângulos de câmera. Lembro de Creed, um filme que não curti muito, mas que tem uma sensacional luta em plano sequência que vale o ingresso.

Sobre o Dwayne Johnson, li no imdb que ele teria perdido quase 30 kg para o papel. Mas como ele sempre foi um cara muito grande, confesso que nem reparei se ele estava menos forte. Agora, ele com cabelo ficou realmente diferente. Tem uma cena onde ele raspa o cabelo, aí volta a ficar o The Rock que a gente está acostumado.

Ah, sim, ele está atuando bem. Pela primeira vez, vemos Dwayne Johnson em um papel diferente do de sempre. Agora, se isso é o suficiente pra ganhar um Oscar, aí é outro papo – acabei de ver o Sean Penn em Uma Batalha Após a Outra, aquela atuação realmente merece um Oscar. Mas, sim, Dwayne Johnson está muito bem e provou que sabe atuar.

O único outro nome conhecido no elenco é Emily Blunt. Os outros dois nomes mais importantes do elenco, o amigo e o treinador, são interpretados por nomes ligados à luta na vida real: Ryan Bader, que é lutador, e Bas Rutten, ex lutador que treinou Mark Kerr.

Coração de Lutador não é lá grandes coisas, e ainda piora por causa de um final horroroso, daquele que deixa o espectador com gosto ruim na boca ao fim da sessão. O filme fala da carreira do Mark Kerr durante alguns anos no fim dos anos 90. Aí no fim tem um epílogo, nos dias de hoje, com o Mark Kerr real, num mercado, como se estivesse sendo filmado por um paparazzi. O problema é que se o espectador não conhece o Mark Kerr, fica se perguntando “quem diabos é esse cara?” Um filme mostrar fotos do personagem real durante os créditos é uma coisa legal. Mas um trecho de filme com o cara? Pra que???

Parabéns pro Dwayne Johnson, boa atuação. Agora aguardemos um filme melhor.

Uma Batalha Após a Outra

Crítica – Uma Batalha Após a Outra

Sinopse (imdb): Quando seu inimigo maligno ressurge após 16 anos, um grupo de ex-revolucionários se reúne para resgatar a filha de um dos seus.

Ao fim da sessão de imprensa, ouvi alguns amigos fazendo grandes elogios. Mais tarde, um amigo, ex crítico, cuja opinião heu respeito muito, me mandou uma mensagem: “filmaço”. Abri o youtube, vários vídeos com o título “melhor filme do ano”.

Caramba, será que fui o único que não achou isso tudo? Reconheço virtudes em Uma Batalha Após a Outra, mas se bobear nem vai entrar no meu top 10 de 2025.

Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, no original) é o novo filme escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, um cara que não faz filmes ruins – seus filmes mais fracos são melhores que o média do que é lançado no circuito. Heu particularmente sou muito fã de Boogie Nights, um de seus primeiros filmes.

Vamos aos elogios óbvios. O elenco está todo muito bem, mas preciso destacar Sean Penn, que faz um militar obcecado e completamente desequilibrado. Penn está assustador, cada olhar, cada gesto, até o jeito de andar, será uma surpresa se não for indicado ao Oscar. Leonardo DiCaprio também está excelente, ele faz um cara que acreditava numa causa mas com o tempo deixou a causa pra lá e agora vive chapado e paranoico, parece uma versão menos engraçada do “dude Lebowski”. E ainda tem o Benicio Del Toro, num papel menor, mas também ótimo.

Uma coisa que achei boa é que todos os personagens têm falhas de caráter – num mundo polarizado, seria fácil “escolher um lado”, mas aqui, todos os lados estão errados. O filme abre com Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma mulher forte, guerrilheira contra o sistema – mas que é uma péssima mãe e ainda de dedurou os companheiros. O militar Lockjaw (Sean Penn), seu antagonista direto, poderia ser um símbolo da luta pelo que é correto – mas está tentando entrar para um seleto grupo de supremacistas brancos, uma espécie de Ku Klux Klan moderna. E o protagonista Bob (Dicaprio), como falei, vive bêbado e drogado.

Preciso falar da sensacional cena de perseguição de carros. A gente está acostumado a ver boas cenas de perseguição em filmes de ação, mas aqui a pegada é outra, outra proposta, outro ritmo. É uma longa estrada, reta, mas com ondulações que parecem uma montanha russa – lembro de uma estrada parecida no caminho de Rio das Ostras, o carro sobe e desce diversas vezes seguidas. Aqui, a câmera se posiciona de maneira que a gente vê os carros subindo e descendo, eles aparecem e somem logo depois. Foi uma sacada genial. E o desfecho da perseguição é muito bom.

A trilha sonora é estranha, parece que um gato está passeando em cima de um piano. Estranha, mas encaixa perfeitamente com o clima tenso do filme. Gostei!

Uma Batalha Após a Outra é bom, reconheço. Só que é um filme que não “me pegou”. Os atores são bons, os personagens são bem construídos, mas são pessoas desagradáveis, fica difícil se identificar e torcer por algum deles. Além disso, é longo demais, duas horas e quarenta e um minutos, me cansou. Reconheço os méritos, mas não achei tudo isso.

A Grande Viagem da Sua Vida

Crítica – A Grande Viagem da Sua Vida

Sinopse (imdb): Um conto imaginativo de dois estranhos e a inacreditável jornada que os conecta.

Quando recebi o convite para a sessão de imprensa de A Grande Viagem da Sua Vida, fui ver o imdb. Pelas imagens coloridas e pela sinopse “um conto imaginativo”, “inacreditável jornada”, achei que tinha cara de ser algo fora da caixinha. Podia ser ruim com força, ou podia ser uma agradável viagem.

A notícia é boa. A Grande Viagem da Sua Vida é um filme romântico, mas com um pé no bizarro. Isso o diferencia de outros filmes românticos bestas, como o recente Amores Materialistas, que é tão “água de salsicha” que nem tive vontade de comentar aqui no heuvi.

(Ouvi gente dizendo que A Grande Viagem da Sua Vida é uma comédia romântica. Olha, tem algumas cenas engraçadas (ri alto na piada sobre a idade da Margot Robbie), mas não chamaria este filme de comédia. O drama é bem mais forte.)

Logo de cara o filme já flerta com o fantástico. Coisas surreais vão acontecendo com os personagens, tipo conversar com o GPS do carro ou encontrar portas mágicas espalhadas pela paisagem. Nunca tinha ouvido falar do diretor Kogonada, fiquei até curioso em procurar outros trabalhos dele. Gostei de como ele conduz a história, sem explicar o que está acontecendo. Apenas relaxe e se deixe levar.

Claro que o grande chamariz para o filme é o casal de atores principais, Margot Robbie e Colin Farrell. Ambos estão muito bem, e convencem em suas jornadas. E foi divertido ver Colin Farrell cantando num teatro musical de escola. Aliás, o filme todo é basicamente só com os dois – Phoebe Waller-Bridge tem um papel pequeno no início e no final do filme, e Kevin Kline tem uma participação tão rápida que nem reconheci quando ele apareceu.

Também queria elogiar a trilha sonora de Joe Hisaishi, com temas que às vezes lembram o minimalismo do Philip Glass. A fotografia também chama atenção.

Por ser “fora da caixinha”, vai ter espectador incomodado. Mas heu gostei do filme romântico com um pé no bizarro.

Os Estranhos: Capítulo 2

Crítica – Os Estranhos: Capítulo 2

Sinopse (filmeB): Quando descobrem que uma de suas vítimas, Maya, ainda está viva, os mascarados retornam para terminar o que começaram. Em um pesadelo sem fim, sem ninguém em quem confiar, Maya se torna presa em uma caçada macabra, enquanto os Estranhos, movidos por uma sede insaciável de violência, a perseguem implacavelmente.

(O filme é tão qualquer coisa que a sinopse do imdb está errada, colocaram a sinopse do filme anterior, Os Estranhos Capítulo 1.)

Lançado em 2008, Os Estranhos era um terror meia boca, que gerava algum interesse por causa de misteriosos assassinos. O filme ganhou uma continuação igualmente meia boca em 2018, e uma refilmagem completamente desnecessária ano passado. E o pior de tudo: essa continuação foi feita em três partes: filmaram uma trilogia logo de uma vez. O problema é que Os Estranhos Capítulo 1 é ruim. Ou seja, como trazer público pra ver uma continuação de um filme ruim? Pior: uma continuação de um filme ruim, e que não vai ter final, porque ainda falta o terceiro filme?

(Taí, acho que a estratégia dos realizadores era “vamos logo gravar os três filmes, porque se a gente fizer só um e depois tentar vender uma continuação, ninguém vai topar. Então a gente vende o pacote fechado da trilogia, antes de descobrirem que o filme é ruim. Genial!)

Para surpresa de zero pessoas, Os Estranhos Capítulo 2 (The Strangers: Chapter 2, no original) é ruim, tão ruim quanto o primeiro. A direção é de Renny Harlin, já falei dele antes, é um cara que tem um currículo razoável no passado (Duro de Matar 2, Risco Total, A Ilha da Garganta Cortada), mas que de um tempo pra cá só tem feito bombas. Sr. Harlin, que tal a aposentadoria?

Como é o segundo filme de uma trilogia, a gente já sabe que a final girl Maya (Madelaine Petsch) não vai morrer. Mas ela sofre bastante, o filme inteiro ela está enfrentando problemas. Ela só não sofre tanto quanto o espectador na sala de cinema.

O filme começa onde o anterior termina: a protagonista Maya está num hospital. Aí o assassino começa a persegui-la. Ela foge por vários corredores, com o cara atrás, mascarado e com um machado na mão. Como é que não tem NINGUÉM no hospital?

Não sabemos ainda por que os assassinos matam, se existe algum motivo para escolher as vítimas ou se é algo aleatório. Pelo que entendi, eles matam forasteiros, afinal, é uma cidade pequena, a população local ia reagir – mas isso é a minha interpretação. Se heu estiver certo, por que matar o faxineiro do necrotério, e depois a mulher da casa perto do hospital?

No meio do sofrimento da protagonista, tem uma cena onde ela é atacada por um javali. Não é exatamente um problema, mas é uma cena desnecessária. Pra que? Fiquei com pena do javali!

Provavelmente pra esticar a história, resolveram inventar um passado para os assassinos mascarados. Vemos flashbacks com a infância dos assassinos. Ficou bem tosco, será que vão querer humanizar os vilões no terceiro filme?

O roteiro ainda traz uns furos enormes. Nem vou reclamar de erros pequenos, como, uma cena onde Maya acorda e vê que todos os cortes que ela teve na floresta e na luta com o javali agora estão com pontos – mas a testa dela continua com a ferida aberta. Caramba, se vai fechar outros cortes com pontos, pra que deixar um aberto? Mas não reclamo desta cena porque tem coisa pior. Tem uma cena onde ela está sozinha num quarto. Uma das mascaradas tenta abrir a porta (depois a gente descobre que os mascarados já tinham invadido a casa). Ela consegue empurrar a invasora e tranca a porta. Mas tinha outra dentro do quarto. Oi? Por onde ela entrou? E se já estava no quarto, por que não atacou antes?

Heu podia falar mais, tipo uma cena onde Maya ataca uma das mascaradas enfiando um ancinho na barriga dela, mas o filme esquece essa vilã ferida. Ou outra, onde Maya está sozinha na floresta e rasga o vestido pra cuidar do curativo na barriga. Moça, você está sozinha, ninguém vai ver se você levantar o vestido rapidinho! Não é melhor manter a roupa inteira sem rasgar?

Agora, o pior de tudo é que o filme não acaba. Em trilogias bem feitas e bem planejadas, cada filme traz um arco que se encerra e deixa ganchos para o filme seguinte. Aqui não. O filme simplesmente pára e aparece um “continua” na tela. O primeiro filme é ruim, o segundo filme é ruim, mas pra ver o fim da história, precisa ver um terceiro filme – provavelmente ruim também.

O primeiro filme esteve na minha lista de piores filmes de 2024. Provavelmente o segundo volta aqui na lista de piores de 2025.

Bambi: O Acerto de Contas / Bambi: The Reckoning

Crítica – Bambi: O Acerto de Contas / Bambi: The Reckoning

Sinopse (imdb): Depois que mãe e filho sofrem um acidente de carro, eles logo são caçados por Bambi, um cervo mutante e angustiado em uma fúria mortal em busca de vingança pela morte de sua mãe.

Ok, é o filme de terror do Bambi. Ninguém imaginava que seria bom. Principalmente porque faz parte do Poohniverse, ou TCU (Twisted Childhood Universe), que começou com aquele filme horroroso do Ursinho Puff. Nenhum dos filmes dessa galera tem qualidade.

Mas, olha, Bambi me surpreendeu. Consegue ser ainda pior do que o esperado!

O início é semelhante aos filmes do Ursinho Puff e do Popeye, um desenho animado minimalista contando que a mãe do Bambi morreu, depois o pai morreu, depois ele bebeu lixo contaminado e virou um monstro. Um monstro vingativo.

Aí parte pro filme de verdade, e logo vemos o Bambi monstrão atacando – na talvez pior cena de capotamento de carro da história do cinema. Quem me conhece sabe que não costumo reclamar de efeitos especiais, se estou reclamando é porque são realmente ruins!

O Bambi monstro é cgi. Pra ajudar a disfarçar, todas as cenas são escuras – coisa comum quando o cgi é de baixa qualidade. Algumas poucas cenas o Bambi parece convincente. Quase o filme todo ele está bem tosco. Acho que teria um resultado melhor se alternasse o cgi com um boneco animatrônico.

São duas tramas correndo em paralelo. Na principal, uma mãe está levando seu filho adolescente para um evento na família do ex. Enquanto isso, vemos um grupo de caçadores tentando caçar o Bambi monstro. Até aí, ok. Mas determinado momento a gente descobre que o ex da protagonista está no meio dos caçadores. Caramba, se ele sabia que havia um perigo na área, por que não avisou a família? Ele ainda leva seu filho pra lá!

O roteiro tem umas paradas que não fazem sentido. A vovó (sei lá qual é o nome da personagem) dá a entender que tem alguma ligação espiritual com o Bambi. Ok, podemos desenvolver algo em cima disso. Mas claro que o roteiro ignora essa conexão.

Isso porque não estou falando de bizarrices como o Bambi girar uma maçaneta com o casco. Sério, por que não colocaram uma maçaneta diferente, daquelas tipo alavanca?

Algumas mortes são ok. Mas nenhuma é memorável. O filme podia ter explorado mais o gore.

O elenco é de atores desconhecidos e ruins. Mas isso já era esperado, não chega a ser uma surpresa. E, sejamos justos: no mar de atuações ruins, até que a protagonista Roxanne McKee nem é tão ruim.

Pra não dizer que é tudo um lixo, gostei da cena dos coelhos. Nada muito genial, mas, gostei de como a ameaça se apresenta e gostei do desfecho. Se todo o filme fosse nessa pegada, seria bem melhor.

No fim, é apenas mais um filme desnecessário, só pra aproveitar que contos infantis estão caindo no domínio público. Pena que poucos têm qualidade. Se fossem na onda de The Ugly Stepsister, seria bem melhor pro fã de terror.

As Sete Vampiras (texto revisado e ampliado)

DEDE

Crítica – As Sete Vampiras

Sinopse (imdb): Um botânico é incapaz de lidar com uma planta carnívora que transforma suas vítimas em vampiros. Um detetive desajeitado e sua secretária são contratados para solucionar as mortes misteriosas que acontecem em um show em uma boate.

Depois da “trilogia Lael Rodrigues”, vamos para algo um pouco diferente.

Tive dúvidas se As Sete Vampiras poderia estar nesta playlist de filmes ligados ao rock nacional dos anos 80. Porque é muito mais um “filme do Ivan Cardoso” do que um filme ligado ao rock BR. Mas, a música As Sete Vampiras, feita para o filme, foi um grande sucesso, o Leo Jaime é um dos atores principais, e ainda tem participação especial da banda João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Ou seja, por mim entra na lista.

(Sou muito fã de João Penca. Achei muito mais legal ver o João Penca aqui do que o Barão Vermelho em Bete Balanço ou o Metrô em Rock Estrela.)

As Sete Vampiras marcou minha adolescência, por três motivos, e reconheço que um deles é algo que não me orgulho. Gostava do filme porque tinha Leo Jaime e João Penca, e também gostava porque parte do filme se passa no Quitandinha, em Petrópolis, local onde morei por alguns meses quando tinha uns 8 ou 9 anos de idade. Foi legal ver na tela alguns cenários que fizeram parte da minha infância. O terceiro motivo não é muito nobre, é um guilty pleasure: vi As Sete Vampiras na minha adolescência, e gostava de ver as mulheres nuas – coisa bastante comum nos filmes do Ivan Cardoso, diga-se de passagem.

As Sete Vampiras é, na minha humilde opinião, o melhor filme dirigido pelo Ivan Cardoso – talvez o maior nome do trash brasileiro – conheço outros diretores que fazem filmes trash, mas nenhum teve o alcance do Ivan – talvez só o Zé do Caixão, mas, entre os dois, prefiro o estilo galhofa do Ivan. Ele mistura o terror com a comédia, foi com os seus filmes que conheci o termo “terrir” (que achei que era invenção dele, mas anos depois descobri que já existia em uma revista do fim dos anos 60!)

O roteiro é de Rubens Francisco Lucchetti, ou RF Lucchetti, nome não muito conhecido do grande público, mas cultuado no underground como “o papa do pulp no Brasil”. Além de As Sete Vampiras, Lucchetti escreveu roteiros para outros filmes do Ivan, como O Segredo da Múmia, O Escorpião Escarlate e Um Lobisomem na Amazônia (além de alguns filmes do Zé do Caixão). Recentemente ouvi falar do seu nome quando a Vigor Mortis lançou, em 2022, a webserie A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti, já comentado aqui no heuvi.

Vamos ao filme. A história é uma bobagem deliciosa. A trama envolve uma planta carnívora importada da África, vampiros, anos 50 e misteriosos assassinatos em série. E muitos clichês de filmes de terror, como um assassino mascarado empunhando uma faca, referência aos filmes giallo.

Aqui nada é para se levar a sério. Tem uma planta carnívora tosca tosca tosca, parece tirada de um seriado televisivo infantil tipo Castelo Rá Tim Bum. E ainda tem algumas referências divertidas, como o personagem do Nuno Leal Maia, Raimundo Marlou, homenagem ao escritor Raymond Chandler e seu personagem Philip Marlowe.

Rola MUITA nudez gratuita! Quase todas as atrizes tiram a roupa, e quase sempre sem justificativa – coisa normal nos filmes do diretor. O Helvecio adolescente curtia muito, mas hoje reconheço que é exagerado. Enfim, nudez gratuita sempre foi algo comum no cinema nacional. Aqui tem mais do que nos três filmes comentados nas últimas semanas, mas naqueles filmes também tem: Débora Bloch em Bete Balanço, Malu Mader em Rock Estrela e Lidia Brondi em Rádio Pirata.

O elenco conta com um monte de nomes interessantes, como Nuno Leal Maia, Leo Jaime, Nicole Puzzi, Lucélia Santos, Simone Carvalho, Susana Matos, Andréa Beltrão, Danielle Daumerie, Dedina Bernardeli, Tania Boscoli, Wilson Grey, John Herbert, Ivon Cury, Pedro Cardoso, Tião Macalé, Carlo Mossy e Colé Santana. Tem uma ponta do Dedé Santana, dizem os boatos que ele foi ao set para vigiar a namorada Susana Matos, mas não achei nada que confirme isso.

Foi muito legal rever o número musical com o Leo Jaime cantando a música As Sete Vampiras. Não reconheci todos os músicos da banda, mas dá pra ver o guitarrista Sergio Serra, que depois foi para o Ultraje a Rigor. E temos os quatro “miquinhos” do João Penca fazendo uma coreografia gaiata: Selvagem Big Abreu, Bob Gallo, Leandro (na época que encarnava o “guitarrista mascarado”) e Avellar Love.

Teve uma coisa no roteiro que achei estranha, mas não sei se posso dizer que é uma falha ou uma ousadia estilística. Alguns personagens terminam o filme como protagonistas, mas só aparecem no meio da trama, como os interpretados por Leo Jaime, Nuno Leal Maia e Andrea Beltrão, que entram no filme perto dos 40 minutos de projeção.

As Sete Vampiras não é um filme para qualquer público. Mas continuo gostando!