Dia D

Crítica – Dia D

Sinopse (imdb): Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém abrisse seus olhos e mostrasse para você, você ficaria com medo?

Dia D (Disclosure Day, no original) estava na minha lista de expectativas para 2026, primeiro por ser o novo Spielberg, mas também por ser um Spielberg falando de alienígenas – claro que Contatos Imediatos do Terceiro Grau e ET O Extraterrestre vieram à memória.

Sou fã do Steven Spielberg por dois motivos. O primeiro é emocional: fui adolescente nos anos 80, e naquela época muitos filmes pipoca tinham Spielberg na direção ou produção (como Gremlins, Goonies, De Volta Para o Futuro, O Enigma da Pirâmide e Roger Rabbit, entre outros). Cresci vendo o nome do Spielberg se associando a cinema pipoca de boa qualidade.

Mas também sou fã do cara por um motivo que não sei se consigo descrever. Gosto muito do jeito como ele filma. Spielberg sabe, como poucos, como posicionar e como mover sua câmera. São detalhes discretos, que a maior parte do público nem repara, mas se você prestar atenção, vai se deliciar ainda mais com seus filmes. Faça isso na próxima vez que estiver assistindo um de seus filmes, preste atenção no ponto de vista da câmera. Sua experiência cinematográfica ficará ainda melhor!

Em Dia D, a trama se divide em dois núcleos, que vão se encontrar lá na frente. Em um deles, um homem, que era funcionário de uma empresa de tecnologia, foge com vários segredos, e pretende revelá-los. No outro, uma repórter meteorológica passa a agir de maneira estranha depois que recebe a visita de um passarinho. Sim, essa frase sozinha é meio esquisita, mas tem sentido dentro do filme.

O roteirista é David Koepp, que tem alguns grandes filmes no currículo, como Jurassic Park, O Quarto do Pânico, o primeiro Missão Impossível e o Homem Aranha de 2002. O roteiro tem alguns pontos positivos, mas heu diria que tem mais elementos para crítica do que para elogio. Mas antes de criticar, heu queria elogiar um detalhe: está rolando uma terceira guerra mundial durante o filme, e isso é deixado completamente em segundo plano. O espectador que não estiver prestando atenção nem vai reparar nesse detalhe.

O roteiro tem problemas. Tem problemas básicos e comuns como, por exemplo, uma empresa top que tem alguns seguranças que são completamente bestas, que qualquer um consegue enganar. Ficou meio bobo ter “os Três Patetas” como seguranças. E tem outros problemas que são mais específicos, como por exemplo citar religião mas não se profundar no tema. Existe um questionamento: algumas religiões se baseiam na ideia de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança – mas se existem alienígenas inteligentes, diferentes de nós, quem os criou? Será o mesmo Deus? Algumas religiões podem entrar em colapso o dia que confirmarem vida alienígena inteligente. Isso é citado, mas não é desenvolvido. Se não vai desenvolver, para que citar? Acho que era melhor nem ter tocado no assunto. A personagem Jane podia protagonizar esse ponto do questionamento religioso, mas o roteiro deixa isso de lado. Acaba que a principal função da personagem é estar na hora certa que o roteiro está precisando que ela entregue um determinado objeto.

Mas heu acho que o pior do roteiro é que eles resolvem criar um plano mirabolante para explicar o que está acontecendo, e é um plano confuso e ineficiente. Se você vai criar algum artifício pra explicar, ou faz direito, ou nem precisa explicar – pelo menos é assim que heu penso. Menos é mais.

O elenco é bom. Emily Blunt está ótima, não será surpresa vê-la na lista de indicadas ao Oscar ano que vem. Josh O’Connor também está bem. E achei curioso ver Colin Firth como vilão. Também no elenco, Colman Domingo, Eve Hewson e Wyatt Russell (dois nepo babies, filha do Bono do U2 e filho do Kurt Russell).

Ah, claro, a trilha sonora é ótima. John Williams tinha decidido se aposentar, Steven Spielberg o convenceu a sair da aposentadoria para este filme.

Quero comentar o final, mas antes queria fazer um mimimi sobre o título nacional. O filme se chama originalmente “Disclosure Day”, ou seja, o nome deveria ser “O Dia da Revelação”. Mas resolveram chamar de “Dia D”, o mesmo nome da maior operação militar anfíbia da história, em 6 de junho de 1944, quando os aliados finalmente começaram a virar o jogo contra o nazismo. Ou seja, o espectador brasileiro entra no cinema achando que vai ver uma história sobre o ponto onde humanos vão começar a reação contra uma possível invasão alienígena – e o filme fala de outra coisa. Péssima escolha de nome brasileiro!

A cena final desagradou parte do público. Conheço gente que não gostou do fim. Heu queria fazer um comentário sobre isso. Mas como estou falando do fim do filme, é claro que é um spoiler. Então vou colocar o aviso de spoilers e se você quiser ouvir comentários sobre o fim, siga até o fim.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Os protagonistas conseguem entrar num telejornal ao vivo e divulgam várias imagens de alienígenas no planeta Terra. Aos poucos outros canais de televisão começam a replicar essas notícias e o mundo inteiro pára para ver a revelação sobre alienígenas na Terra. Ao fim, eles trazem um alienígena que estava com eles para falar a mensagem final. A personagem da Emily Blunt entende a língua dos alienígenas, então ela ouve a mensagem. E ela vai para frente da câmera para falar a mensagem – e o filme acaba. Não ouvimos a tal mensagem, porque quando ela vai começar a falar, começam os créditos.

É claro que isso gera uma frustração no espectador. Afinal você passa duas horas e meia acompanhando uma história sobre um segredo envolvendo alienígenas. E quando vai finalmente ouvir qual é esse segredo, o filme acaba. Mas heu entendi que o propósito do Spielberg não era contar qual era o segredo, e sim contar a história das pessoas que estão querendo revelar esse segredo. Pensando sobre esse ponto de vista, eu até gostei do final.

Heu entendo o espectador que saiu do cinema frustrado. Me diz aqui, você achou o final satisfatório ou você queria saber qual era o segredo?

Thunderbolts*

Crítica – Thunderbolts*

Sinopse (imdb): Depois de se verem presos em uma armadilha mortal, uma equipe não convencional de anti-heróis deve embarcar em uma missão perigosa que os forçará a confrontar os cantos mais sombrios de seus passados.

(Antes de tudo, aquele aviso pra quem não me conhece: não leio HQs de super heróis, nem sei se existe uma HQ dos Thunderbolts. Meus comentários serão sobre o filme e o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU)).

Já comentei antes. Entre 2008 e 2019, a Marvel fez um trabalho excepcional nos cinemas. Lançamentos da Marvel eram quase sempre garantia de um bom filme. Mas, de lá pra cá, a situação mudou, e muitos dos títulos decepcionaram.

Este ano a previsão era de três longas da Marvel: Capitão América 4, que foi mais do mesmo. Antes do fim do ano teremos Quarteto Fantástico, que promete ser uma grande revolução no MCU. E tinha esse Thunderbolts*, uma grande incógnita. O que esperar de um filme que só tem personagens secundários?

Não sei se é porque heu não tinha nenhuma expectativa, mas, não é que curti Thunderbolts*? Não é um grande filme, não vai mudar a vida de ninguém, mas posso dizer que me diverti no cinema. Curti bem mais do que Capitão 4.

Dirigido pelo pouco conhecido Jake Schreier, Thunderbolts* traz um time de personagens que parecem refugo de outros filmes. O único que tem alguma relevância no MCU é o Bucky (Sebastian Stan), parceiro do Capitão América original e que esteve em oito filmes e na série Falcão e o Soldado Invernal. O resto é tudo “lado B”: Yelena Belova (Florence Pugh), irmã adotiva da Natasha Romanoff e que também tem treinamento de Viúva Negra e que estava no filme Viúva Negra e na série Gavião Arqueiro; o Guardião Vermelho (David Harbour), pai adotivo da Natasha e da Yelena, e que estava no filme Viúva Negra; Antonia Dreykov (Olga Kurylenko), a Treinadora, também do filme Viúva Negra; John Walker (Wyatt Russell), o “Capitão América da Shopee”, da série Falcão e o Soldado Invernal; Ghost (Hannah John-Kamen), vilã de Homem Formiga 2; e o Bob (Lewis Pullman), personagem novo. Sim, apenas Bob, isso será explicado no filme. Ah, também tem a Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), que faz uma espécie de Nick Fury aternativa, e que esteve em Falcão e o Soldado Invernal, Viúva Negra e Pantera Negra 2.

(Em tempos de “nepo babies”, temos o filho do Kurt Russell e o filho do Bill Pullman…)

Parecia que o protagonismo ia ser do Sebastian Stan, né? Não, na verdade é a Florence Pugh quem lidera o filme. E faz um excelente trabalho – ela inclusive saltou do segundo prédio mais alto do mundo sem usar dublês! Aliás, o filme sabe equilibrar bem a quantidade de personagens, não tem nenhum personagem que parece que está só pra ser “mais um”. E apesar de todos parecerem secundários demais, o time “deu liga”.

(Só não entendi por que um dos personagens sai logo no início do filme. Me parece que o ator/atriz estava com algum problema pessoal ou contratual e não podia seguir no filme. Ficou estranho usar um personagem em toda a divulgação e não usá-lo ao longo do filme.)

As cenas de ação são boas, e, claro, é Marvel, tem muito humor – achei o personagem do Guardião Vermelho um alívio cômico perfeito. E tem uma sequência muito boa no meio do filme que, não sei se foi proposital ou não, mas lembrou muito O Exterminador do Futuro.

Thunderbolts* ainda entra no delicado assunto da depressão, tanto nos protagonistas quanto no antagonista. Agora, não vou entrar em spoilers, mas a parte final atinge parte da população “civil”. Quando o Thanos estalou os dedos, isso afetou o mundo e isso foi tratado em outros filmes; será que os próximos filmes vão lidar com o que aconteceu com as pessoas afetadas?

Ainda sobre a sequência final, Thunderbolts* ser um filme dentro do MCU traz outro problema recorrente: onde estavam outros heróis? O Doutor Estranho não mora na mesma cidade onde se passa o filme? O Sam Wilson não estava por aí “anteontem” como o novo Capitão América? Por que Thunderbolts* nem sequer menciona os outros heróis? (Um evento de Capitão América 4 é citado, ou seja, eles confirmam que estão no mesmo universo!).

Mesmo assim, achei o resultado de Thunderbolts* muito positivo. Não é o melhor filme da Marvel, mas acho que podemos dizer que é o melhor desde Guardiões da Galáxia 3. Agora aguardemos Quarteto Fantástico pra saber se Thunderbolts* foi um caso isolado ou se estamos numa curva ascendente.

Por fim, o tradicional da Marvel: duas cenas pós créditos, uma piadinha no meio dos créditos, e um gancho pro próximo filme lá no fim de tudo. Achei um gancho meio previsível, mas, ok.

Ah, o asterisco no título do filme tem sentido. Assim como o Bob, é explicado no filme.

Mergulho Noturno

Crítica – Mergulho Noturno

Sinopse (imdb): Um ex-jogador de beisebol se muda com a esposa e os dois filhos para uma nova casa. Ele acredita que a piscina do quintal pode ser uma diversão para as crianças, mas um segredo sombrio do passado da casa vai desencadear uma força malévola.

Hoje vou começar o texto de maneira diferente. Uma vez fui passar um fim de semana com amigos em uma casa na serra onde iríamos filmar um curta. O roteiro dava uns 15 minutos de história, mas, na empolgação, a gente saiu filmando mais um monte de cenas no improviso, e alguém perguntou “será que conseguimos fazer um longa?

Quando reunimos o material pra edição, ficou claro que não dava pra fazer um longa. Jogamos fora várias cenas e fechamos o curta em 15 minutos mesmo.

Por que estou falando isso? Porque um curta com uma boa ideia é algo bem diferente de um longa. O Night Swim original é um curta de 3 minutos e 54 segundos, onde um minuto são os créditos. E alguém achou que seria uma boa ideia chamar Bryce McGuire, o diretor e roteirista do curta, pra transformar sua ideia em um longa. Mas… É uma ideia de apenas 3 minutos, é difícil esticar isso em um longa de uma hora e 38 minutos!

Isso gera o primeiro problema: Mergulho Noturno (Night Swim, no original) é um filme chato, com muita encheção de linguiça onde nada acontece e a trama se arrasta.

Mas calma que ainda pode piorar. Uma ideia para se esticar uma trama é explorar a mitologia. No curta, apenas vemos uma mulher nadando numa piscina e desaparecendo. Num longa, podemos explorar o que aconteceu com essa piscina pra transformá-la em uma piscina assassina. E o filme começa a mostrar uma lenda “temagami”, ou algo parecido, que liga a piscina a poços de desejos. Mas apenas apresenta a ideia, o desenvolvimento dessa lenda foi completamente tosco. Um exemplo simples: conversei com alguns críticos depois da sessão de imprensa, ninguém entendeu se a maldição estava no local ou na água.

Ou seja, a gente tem um filme arrastado, com uma ideia mal desenvolvida. O que sobra? Jump scares óbvios. Sério que tem gente que acha que colocar alguns jump scares vai salvar um filme ruim?

E, pra piorar, os “monstros” que aparecem na piscina são muito toscos. Sou da filosofia usada no primeiro Alien: o que você não vê assusta mais do que o que está na sua frente. Se a gente não visse nenhuma criatura, o filme ia ser mais assustador. Do jeito que está, mais fácil provocar risos que sustos.

Pena, porque o elenco é bom. Os papeis principais são de Wyatt Russell, filho do Kurt Russell e da Goldie Hawn e irmão da Kate Hudson, e que foi o novo Capitão América na série do Falcão e o Soldado Invernal; e Kerry Condon, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Os Banshees de Inisherin, filme ruim mas com boas atuações. Mas, num filme tão fraco, tanto faz se o ator é bom ou não.

É, o cinema de terror em 2024 começou mal. Rubber o Pneu Assassino é melhor do que este filme da piscina assassina.