A Odisseia

Crítica – A Odisseia

Sinopse (imdb): Após a Guerra de Troia, Odisseu enfrenta uma viagem perigosa de volta a Ítaca, encontrando pelo caminho criaturas como o ciclope Polifemo, as Sereias e Calipso.

Heu nunca ganhei um Oscar. Mas desconfio que ganhar um Oscar deva abrir portas. Deve ser mais fácil seguir com um projeto complicado. Christopher Nolan ganhou dois Oscars por Oppenheimer, melhor diretor e melhor filme. Nolan é um cara que gosta de projetos grandiosos e complexos. Acho que ele deve ter aproveitado pra encarar um projeto ambicioso e desafiador: adaptar A Odisseia, clássico da literatura, escrito por Homero, e considerado um dos textos mais difíceis de se adaptar.

A Odisseia mostra a jornada de Odisseu, que depois de vinte anos na guerra de Troia, agora enfrenta dificuldades para voltar para casa. Ao mesmo tempo, sua esposa Penelope precisa lidar com pretendentes que que aguardam a confirmação de sua morte, e seu filho Telemaco procura saber se ele ainda está vivo.

O texto é clássico, meio que todo mundo conhece algo dessa história, mas… Mais do que um texto do Homero, este é um filme do Christopher Nolan. Temos uma história grandiosa, contada em ordem não cronológica, com um grande elenco, sublinhada por uma trilha sonora épica em tons graves. Aliás, existe um paralelo óbvio com a sinopse de Oppenheimer: ambos os filmes têm um protagonista que cria algo que acaba causando muitas mortes (a bomba / o cavalo de Troia), e depois passam boa parte do filme envoltos em dilemas éticos e morais.

A jornada do Odisseu tem algumas sequências bem legais. A sequência onde encontram a Circe é uma das melhores partes do filme. E gostei do conceito do ciclope gigante, em vez de um olho na testa, ele tem a cara meio torta, então seu nariz é inclinado, acompanhando o único olho. Isso sem falar do óbvio cavalo de Troia. Por outro lado, não gostei muito da parte onde encontram aquele pessoal de armadura metálica brilhante, com as árvores se movendo. Podiam ter explorado melhor aquele ambiente. E a parte das sereias teve uma boa sacada no som do filme, mas foi curta demais.

A parte técnica é um absurdo. A Odisseia é o primeiro longa inteiramente filmado com câmeras Imax, que são trambolhos difíceis de se manusear. Além disso, Nolan é um perfeccionista, então se preocupou com detalhes que talvez outros diretores deixassem passar. Pesquisaram o quanto tecidos e metais se deteriorariam ao longo de anos de exposição ao sal e à maresia, porque se Odisseu tinha que ficar 20 anos numa praia, as roupas e armas não poderiam continuar com aparência de novas. Outro detalhe: Nolan proibiu perucas e barbas falsas, porque ondas do mar poderiam descolar, ou seja, se o personagem tinha barba, o ator precisou deixar a barba crescer. O barco usado por Odisseu era de verdade, esse mesmo barco já cruzou o oceano Atlântico duas vezes, e todos do elenco daquelas cenas aprenderam a navegar.

O elenco é fantástico. Poucos filmes conseguem tanto star power junto; Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Charlize Theron, Zendaya, Robert Pattinson, Elliot Page, John Leguizamo, Mia Goth, Benny Safdie, Himesh Patel, Jon Bernthal, Lupita Nyong’o e Samantha Morton, entre outros. Por um lado isso é legal, mas o problema é que o fato de ter muitos personagens acaba atrapalhando o desenvolvimento de alguns deles – por exemplo, vemos que a Mia Goth teria mais história pra contar. Num elenco tão recheado, a impressão que fica é que metade ficou desperdiçado e a outra metade faz apenas o “feijão com arroz”. Acho que o único que realmente se destacou foi, por incrível que pareça, o John Leguizamo.

Existe um mimimi sobre parte do elenco. Tem uma galera dizendo que seria woke a inclusão de Lupita Nyong’o, Zendaya e Elliot Page. Não concordo, mas vou comentar. Sobre a Lupita, é bobagem, a Grécia é perto da África, não seria algo tão irreal ter uma mulher negra por lá (aliás, o elenco todo é multi-étnico). No lance do Elliot Page, o mimimi é porque rolou um boato que ele seria Aquiles, mas não é, é um soldado que tem importância secundária, e um personagem que precisava daquele porte físico. Já o mimimi da Zendaya como deusa Atena, discordo fortemente, achei uma ótima escolha. Explico porque na parte com spoilers.

São quase três horas de filme – Nolan gosta de filmes longos, e aqui realmente tinha muita história pra contar. Mas heu achei cansativo. Aquele diálogo na parte final entre Odisseu e Penelope é interminável! Além disso, não sei se é problema da história original ou da adaptação, mas achei o vilão Antinoo bem fraco. Odisseu não teria tanto motivo para odiá-lo.

Vou fazer um breve comentário sobre a Atena. É spoiler, então vamos aos avisos.

SPOILER!

Tem gente reclamando da Zendaya interpretando a deusa Atena. Mas, pela minha interpretação, a escolha foi perfeita. Vamulá. Em primeiro lugar, não sabemos se é uma deusa de verdade ou se é algo dentro da cabeça do Odisseu. Apenas sabemos que só ele vê a Atena, mais ninguém em volta a vê. Quando acontece a queda de Troia, Odisseu presencia o assassinato de uma jovem inocente – interpretada pela Zendaya. Pela minha interpretação, aquela figura que aparece não é uma deusa, e sim um trauma do passado do Odisseu, que o assombra todos os dias. Principalmente se a gente lembrar que não vemos nenhum outro deus, só a Atena. Pensando sob este ângulo, a escolha da Zendaya foi perfeita para o papel.

FIM DOS SPOILERS!

Até agora só elogiei, né? Poizé. A Odisseia é um bom filme. Mas achei fuén. Talvez por ser apenas um filme “correto”. Tudo está no lugar certo, mas, sei lá, faltou algo que me deixasse mais empolgado. Alguns filmes me deixam com vontade de rever assim que acaba a sessão, mas esse aqui não pretendo rever tão cedo.

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

0-X-Men-posterCrítica – X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Finalmente, o esperado filme que liga as duas gerações dos X-Men!

Acuados pelos Sentinelas, os X-Men mandam Wolverine ao passado em uma tentativa desesperada de mudar a história e prevenir um evento que resultará na eliminação de todos os mutantes.

Amigos, a notícia é boa: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, no original) consegue o equilíbrio perfeito entre o drama, a ação e a tensão; entre a seriedade proposta pelo tema e o bom humor característico dos filmes da Marvel. Digo mais: na minha humilde opinião, temos uma das melhores adaptações de quadrinhos de super heróis dos últimos tempos.

Rolava um certo receio, porque este na verdade é o sétimo filme usando o universo dos mutantes – teve a trilogia original (2000, 03 e 06), dois filmes “solo” do Wolverine (2009 e 13 – apesar do primeiro ser rejeitado por quase todos, entre crítica e fãs, foi um filme “oficial”), e o reboot (2011) que mostrava os personagens nos anos 60. Com tantos filmes, escritos por tantos roteiristas diferentes, baseados em tantos quadrinhos diferentes, existe uma certa bagunça na linha temporal. E o receio aumentou quando anunciaram que teria viagem no tempo no filme, um artifício que nem sempre funciona. Mas o medo foi infundado, o resultado ficou bem acima da expectativa.

A direção voltou para as mãos de Bryan Singer, o mesmo dos dois primeiros filmes dos X-Men. Alguns fãs ficaram preocupados, porque quando ele largou a franquia, se queimou fazendo o fraco Superman – O Retorno (depois disso, Singer fez Operação Valquíria e Jack, o Caçador de Gigantes). Bem, Singer mostrou que o Superman foi um desvio e que ainda tem boa mão. E, convenhamos, o cara tem moral, né? Quando ele fez o primeiro filme dos X-Men, não existia toda essa aceitação para filmes de super-heróis. Se, no primeiro semestre de 2014, nós teremos 4 longas de heróis da Marvel, Singer é um dos “culpados”!

Os efeitos especiais merecem um parágrafo à parte. Só pra citar um exemplo: Magneto chega a levantar e carregar um estádio pelos ares. Os efeitos são de cair o queixo. E tem uma cena em particular que é sen-sa-ci-o-nal, falarei mais dela no penúltimo parágrafo.

No elenco, uma constatação: o novo X-Men é um filme da nova geração. Michael Fassbender e James McAvoy têm uma participação muito maior do que Ian McKellen e Patrick Stewart. Pareceu mesmo uma “passagem de bastão” do Magneto e Prof Xavier velhos para os mais novos. E Hugh Jackman e seu Wolverine voltam a ter destaque – ele só teve uma cena curta (e engraçada) no penúltimo filme (e que é citada aqui).

Sobre a quarta personagem principal, a gente vê como funciona o “star power” do cinema contemporâneo. Nos primeiros filmes, a Mística foi interpretada pela Rebecca Romijn, lindíssima, mas não muito famosa. Agora o papel é de Jennifer Lawrence, menos bonita que a Rebecca Romijn, mas badaladíssima – ganhadora do Oscar ano pasado por O Lado Bom da Vida e protagonista da franquia de sucesso Jogos Vorazes. Se a Rebecca pouco aparecia sem a maquiagem azul, o mesmo não acontece agora. A Mística atual passa boa parte do filme “fantasiada de Jennifer Lawrence”.

Peter Dinklage confirma que é um grande ator (trocadilhos liberados aqui) – o que todos que já viram Game Of Thrones já sabiam. E o roteiro ainda consegue usar a Tempestade de Halle Berry, e juntar Anna Paquin, Famke Janssen e James Marsden em pequenas participações especiais. Ainda no elenco, Ellen Page, Nicholas Hoult, Omar Sy, Bingbing Fan, Shawn Ashmore, Evan Peters e Josh Helman.

“E o 3D?” Quem me conhece sabe que não sou fã de 3D. Pelo menos X-Men: Dias de um Futuro Esquecido tem uma cena onde o 3D é muito bem usado, uma das melhores cenas do filme, provavelmente a mais divertida: quando tudo fica em câmera lenta por causa da super velocidade de Evan Peters, durante a fuga da prisão.

Ah, claro, é Marvel, tem cena depois dos créditos, aparentemente um gancho para o próximo filme, X-Men Apocalypse.

 

Super

Crítica – Super

Kick-Ass foi uma agradável surpresa, um dos melhores filmes de 2011. E o que Hollywood faz com boas ideias? Repete!

Frank é um cara comum. Mas, quando sua esposa o deixa para ficar com um traficante de drogas, ele resolve virar o “Crimson Bolt”, um super-heroi, mesmo sem ter nenhum super poder.

Super nem é ruim. O problema é a ideia é MUITO parecida com Kick-Ass. Um garoto meio nerd, fã de quadrinhos e com poucos amigos, que resolve virar um super-heroi, mesmo sem ter super poderes… A diferença está no “sidekick”: em vez de Hit Girl, aqui rola a Boltie, boa personagem de Ellen Page. E Super tem outro problema: um cara com o perfil de Frank não ia ser bom em briga de rua, o cara ia apanhar mais do que bater.

Apesar disso tudo, Super é um bom filme – é só a gente esquecer de Kick-Ass. Um dos acertos é o elenco. Rainn Wilson, com sua cara de ultra nerd, é a escolha perfeita para o esquisitão que resolve combater o crime. Ellen Page também está ótima, bonitinha e maluquinha na dose exata. E ainda tem Kevin Bacon, Liv Tyler, Michael Rooker e Nathan Fillion.

O diretor é James Gunn, cria da Troma, e que anos atrás fez o divertido Seres Rastejantes. Aqui ele deixou o ar trash de lado e fez um filme com cara de quadrinhos – em alguns momentos, o visual lembra Scott Pilgrim Contra O Mundo, aparecem até onomatopéias na tela. E a abertura do filme é uma simpática animação no estilo dos quadrinhos que aparecem na trama.

O roteiro, também escrito por Gunn, é eficiente ao alternar estilos – às vezes parece comédia, às vezes ação, às vezes, até drama. E os personagens são interessantes, principalmente os dois principais.

Como falei antes, Super não é ruim. Mas a comparação com Kick-Ass é inevitável. E, na comparação, Super perde.

Ah, e para quem gosta do estilo, li no imdb que tem mais um, Defendor, que faz uma “trilogia” ao lado de Super e Kick-Ass. Vou baixar pra ver qualé.

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Se você gostou de Super, o Blog do Heu recomenda:
Kick-Ass
Scott Pilgrim Contra O Mundo
Terror Firmer

A Origem

A Origem

O novo filme de Christopher Nolan, o incensado diretor de Batman – O Cavaleiro das Trevas, chega aqui com algo invejável no currículo: o terceiro lugar no Top 250 dos melhores filmes de todos os tempos do imdb. Impressionante, não?

O filme é bom. Mas não achei tudo isso não…

A trama fala de pessoas com a habilidade de entrar no sonho de outras pessoas. Um homem com habilidade de roubar ideias e conhecimentos de dentro de sonhos alheios é contratado para inserir uma ideia – algo que até agora nunca tinha sido feito.

O filme tem um grande mérito: é uma ideia nova, numa Hollywood repleta de refilmagens e releituras. Ok, esse papo de entrar nos sonhos alheios já estava em Dreamscape – Morte nos Sonhos, de 1984. Mesmo assim, não é uma ideia reciclada, são filmes diferentes.

Os efeitos especiais são impressionantes. Ruas que se dobram, brigas em gravidade zero, edifícios desmoronando como castelos de areia… Rola até uma versão “real” da famosa escada infinita de Escher! E o melhor de tudo é que os efeitos não são daqueles que atrapalham a história, como num Transformers, por exemplo.

O elenco estelar é outro destaque. Leonardo Di Caprio, ainda com resquícios de seu papel em Ilha do Medo, lidera um elenco cheio de atores legais: Joseph Gordon-Levitt (500 Dias Com Ela), Ellen Page (Juno), Marion Cotillard (Inimigos Públicos), Ken Watanabe (O Último Samurai), Cillian Murphy (Extermínio), Tom Berenger, Lukas Haas, Tom Hardy, Dileep Rao, e ainda rolam participações especiais de Michael Caine e Pete Postlethwaite.

(Pequeno parênteses para falar do Joseph Gordon-Levitt. Sou fã dele desde a época que ele era o ator adolescente que fazia o Tommy Solomon em 3rd Rock From The Sun. Parece que ele encontrou o caminho para o estrelato. Depois de Killshot, G.I. Joe e 500 Dias com Ela, aqui ele é o principal coadjuvante. Tommy Solomon vai longe!)

E aí a gente chega no ponto que falei lá em cima. Uma super produção destas merecia um roteiro melhor! O roteiro de A Origem tem um monte de pequenas inconsistências. Por exemplo: quem está sonhando acorda ao sentir que está caindo – mas quando a van capota, ninguém acorda. Ou então o lance de morrer no sonho e, às vezes acordar, às vezes ir pro limbo. Ou ainda a gravidade zero, que rola em um nível, mas não no nível seguinte. Algumas destas falhas são explicadas, mas as explicações são tão forçadas…

(Também tem a péssima mira dos vilões armados, mas isso infelizmente é uma constante nos filmes de ação em Hollywood…)

Christopher Nolan é um cara talentoso. Este é o seu sexto filme nos últimos 10 anos, todos bons (Amnésia, Insônia, O Grande Truque e os dois novos Batman). Com o crescente sucesso de público e crítica, ele escreveu e dirigiu este A Origem, e aredito que ele achava que ia ser a sua obra prima. E o pior é que tem muita gente que concorda com ele, vide a lista do imdb!

Como disse lá em cima, o filme é bom, melhor que a média. Só não espere por uma obra prima, como os outros que estão na lista do imdb.