A Grande Viagem da Sua Vida

Crítica – A Grande Viagem da Sua Vida

Sinopse (imdb): Um conto imaginativo de dois estranhos e a inacreditável jornada que os conecta.

Quando recebi o convite para a sessão de imprensa de A Grande Viagem da Sua Vida, fui ver o imdb. Pelas imagens coloridas e pela sinopse “um conto imaginativo”, “inacreditável jornada”, achei que tinha cara de ser algo fora da caixinha. Podia ser ruim com força, ou podia ser uma agradável viagem.

A notícia é boa. A Grande Viagem da Sua Vida é um filme romântico, mas com um pé no bizarro. Isso o diferencia de outros filmes românticos bestas, como o recente Amores Materialistas, que é tão “água de salsicha” que nem tive vontade de comentar aqui no heuvi.

(Ouvi gente dizendo que A Grande Viagem da Sua Vida é uma comédia romântica. Olha, tem algumas cenas engraçadas (ri alto na piada sobre a idade da Margot Robbie), mas não chamaria este filme de comédia. O drama é bem mais forte.)

Logo de cara o filme já flerta com o fantástico. Coisas surreais vão acontecendo com os personagens, tipo conversar com o GPS do carro ou encontrar portas mágicas espalhadas pela paisagem. Nunca tinha ouvido falar do diretor Kogonada, fiquei até curioso em procurar outros trabalhos dele. Gostei de como ele conduz a história, sem explicar o que está acontecendo. Apenas relaxe e se deixe levar.

Claro que o grande chamariz para o filme é o casal de atores principais, Margot Robbie e Colin Farrell. Ambos estão muito bem, e convencem em suas jornadas. E foi divertido ver Colin Farrell cantando num teatro musical de escola. Aliás, o filme todo é basicamente só com os dois – Phoebe Waller-Bridge tem um papel pequeno no início e no final do filme, e Kevin Kline tem uma participação tão rápida que nem reconheci quando ele apareceu.

Também queria elogiar a trilha sonora de Joe Hisaishi, com temas que às vezes lembram o minimalismo do Philip Glass. A fotografia também chama atenção.

Por ser “fora da caixinha”, vai ter espectador incomodado. Mas heu gostei do filme romântico com um pé no bizarro.

A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Crítica – A Longa Marcha – Caminhe ou Morra

Sinopse (imdb): Um grupo de adolescentes participa de um concurso anual conhecido como “The Long Walk”, no qual eles devem manter uma certa velocidade de caminhada ou levar um tiro.

É um bom ano pra quem gosta de adaptações de Stephen King. Já tivemos O Macaco e A Vida de Chuck. A Longa Marcha – Caminhe ou Morra é o terceiro de 2025. E mais pro fim do ano deve estrear O Sobrevivente.

O livro A Longa Marcha foi lançado em julho de 1978. Segundo a Wikipedia, foi o sexto livro escrito por Stephen King, sob o pseudônimo de Richard Bachman (por coincidência, em O Sobrevivente ele também usou o mesmo pseudônimo). Segundo o imdb, George Romero pretendia adaptar o livro em 1988, mas não rolou. Anos depois, nos anos 2000, Frank Darabont chegou a comprar os direitos, mas não desenvolveu o filme e o prazo expirou.

Por que demorou tanto tempo? Não sei. Mas, visto hoje, parece uma versão de filmes de distópicos para jovens adultos, como Jogos Vorazes. Quando Stephen King escreveu o livro, ele tinha em mente a Guerra do Vietnã, e como jovens eram levados para a morte. Mas, nos dias de hoje, quando estamos acostumados com reality shows, a trama ganhou outro olhar. 50 jovens participam de uma prova onde precisam andar, sempre no mesmo ritmo. Quem parar ou apenas diminuir o ritmo morre executado. O jogo só acaba quando só sobra um vivo. Consigo ver essa prova – sem as mortes – transmitida pela tv.

A direção é de Francis Lawrence – coincidência ou não, diretor de três Jogos Vorazes. O roteirista é JT Mollner, do excelente Strange Darling. Admito que quando li o nome do roteirista, achei que veria algo fora do convencional, mas, diferente daquele filme, o roteiro aqui é linear. Mesmo assim, o roteiro é muito bom, são muitos bons diálogos, dá vontade de continuar acompanhando aquela galera e suas histórias.

O protagonista Cooper Hoffman declarou que durante as filmagens eles andavam 15 milhas por dia – disse que foram 400 milhas no total. Parte do cansaço mostrado pelos personagens é real! As filmagens foram em ordem cronológica, e os atores não se conheciam antes. Ao longo dos dias de filmagem andando, eles foram se conhecendo melhor. Boa sacada, isso acontece com os personagens ao mesmo tempo que com os atores.

O elenco traz jovens ainda pouco conhecidos, como Cooper Hoffman (Licorice Pizza), David Jonsson (Alien Romulus), Ben Wang (Karate Kid Lendas) e Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit). São apenas dois nomes famosos entre os “adultos”, Judy Greer, como a mãe do protagonista, e Mark Hamill como o Major, o grande símbolo do autoritarismo desta sociedade distópica.

A Longa Marcha está sendo vendido como filme de terror. Acho isso um erro. O filme fica entre o thriller e o drama, não tem nada de terror. Talvez apenas a primeira morte seja um pouco mais gráfica. Provavelmente vai ter espectador decepcionado nas salas de cinema.

Queria comentar a cena final. Mas, claro, é a cena final, preciso de um aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

No fim, sobram os dois principais, que chegam a um local onde tem uma multidão em volta. Quem ganhar tem direito a um desejo. Ray diz que ia pedir uma carabina pra matar o Major – que anos antes matou seu pai. Mas Ray desiste da prova pra deixar McVries ganhar. McVries então resolve vingar o amigo, pede a carabina e mata o major. Depois, larga a carabina no chão, e segue andando. Mas vejam que ele agora está sozinho, não tem mais ninguém em volta. Cadê a multidão? O filme não deixa claro, mas a minha interpretação é que mataram ele quando atirou no major. O que você acha que aconteceu?

FIM DOS SPOILERS!

A Longa Marcha teve uma sessão em SP com esteiras para alguns espectadores assistirem ao filme andando. Boa ideia, deve ser uma boa experiência, pena que não teve no Rio.

Red Sonja (2025)

Crítica – Red Sonja (2025)

Sinopse (imdb): Uma adaptação da história em quadrinhos Red Sonja, uma guerreira vingativa conhecida como “Diabo com uma espada”.

40 anos depois, temos um novo filme da Red Sonja!

Antes do filme, um breve comentário sobre o nome “Sonja”. Na minha juventude, sempre ouvi “Sonja”, com som de “J”. Mas sei que em alguns idiomas o “J” tem som de “I”, e achava que deveria ser “Sonia”. Bem, prestei atenção no filme, a pronúncia é “Sonia” mesmo.

(Lembro do meu ensino fundamental, em Petrópolis, tinha uma coleguinha chamada “Vanja”, todos pronunciavam com som de “J”, inclusive ela. Me pergunto se era realmente essa a pronúncia correta…)

Enfim, vamos ao novo Red Sonja. Mas antes um aviso. Nunca li os quadrinhos da personagem, e não me lembro de nada do filme de 1985, que aqui no Brasil ganhou o título Guerreiros de Fogo, estrelado por Brigitte Nielsen e Arnold Schwarzenegger. Ou seja, os comentários serão só sobre o filme de 2025.

Vi no imdb que, ao longo de décadas, houve várias tentativas de se fazer um novo filme com a personagem, incluindo uma versão em 2008 que seria dirigida pelo Robert Rodriguez e estrelada pela Rose McGowan (e que certamente ia ser melhor do que esta versão). Também rolava uma ideia de que estaria no mesmo universo do Conan estrelado pelo Jason Momoa, de 2011. Foram várias trocas de diretor e elenco e vários atrasos de lá pra cá.

Dirigido por MJ Basset e estrelado por Matilda Lutz, Red Sonja tem um problema grave: parece uma produção de baixo orçamento para a TV, de algumas décadas atrás. Durante o filme, me lembrei de Legend of the Seeker, seriado meia boca do mesmo estilo “guerreiros e feitiçaria” que passava em alguma TV a cabo. Não era ruim, mas era bem tosquinha.

Claro, os efeitos especiais em cgi aqui são bem fracos. Tem uma cena com um ciclope gigante que parece PlayStation velho. Mas quem me conhece sabe que isso nem me incomoda muito. Porque, pra mim, o pior foram as batalhas – todas ruins. No mesmo ano que vimos a Ana de Armas em Bailarina, foi triste ver as cenas de ação, todas mal coreografadas e mal filmadas. Tem até algum sangue lááá longe, mas a violência é quase zero, os golpes nunca mostram o que foi golpeado. Essa pobreza visual reforça a cara de produto de baixo orçamento pra TV.

(Curioso lembrar que poucos anos atrás a mesma Matilda Lutz fez Vingança, que é bem mais violento e tem muito mais sangue!)

Tudo é muito “limpo”. Zero nudez, pouca violência. Não conheço as HQs, mas desconfio que devia ter uma proposta mais, digamos “apelativa”. E quase que o filme foi nesse sentido, olha o que li no imdb: “Durante o longo e caótico desenvolvimento deste segundo filme da Red Sonja, que começou em algum momento no início dos anos 2000, a maioria dos roteiros iniciais sempre incluía muita nudez feminina e violência sangrenta e gráfica. Por exemplo, no roteiro de 2001, havia uma cena prolongada em que Sonja era perseguida enquanto nadava nua em um lago e, em seguida, tinha que lutar nua contra agressores monstruosos que tentavam agredi-la sexualmente.” Não sei se ia ser melhor ou pior, mas seria um filme bem diferente deste.

Se tem um elogio que posso fazer é para alguns cenários com esculturas gigantes em volta. Provavelmente tudo em cgi, mas ficou bonito. E sobre o visual, uma coisa curiosa: na primeira vez que Sonja vai pra arena, ela recebe um biquíni de metal, e rola um diálogo que ela tem que usar aquilo que não protege nada, só porque o público gosta. Ok, ela era uma escrava transformada em gladiadora, precisava usar isso. Mas, depois que se liberta, por que continua com o biquíni de metal até o fim do filme?

No elenco, Matilda Lutz não faz feio, mas ela não tem o porte físico que uma personagem dessas pede, nem as habilidades de lutas para convencer o espectador. Para Anônimo, Bob Odenkirk praticou lutas por dois anos – e quando o vemos em tela, ele convence, apesar de não ter o porte físico. Talvez Matilda precisasse praticar mais. No resto do elenco, achei curioso ver Rhona Mitra em um papel pequeno – pelo que entendi ela esteve cotada para estrelar uma das várias tentativas durante os vários anos de pré produção, devem ter oferecido um papel para ela como prêmio de consolação. O resto do elenco todo é de atores ruins e desconhecidos.

Red Sonja tem tanta cara de produto pra TV que a história fecha, mas tem uma cena no fim com um gancho para uma nova aventura – inclusive cita o “rei bárbaro da Ciméria”, que provavelmente deve ser o Conan. Semana que vem, no mesmo canal!

Invocação do Mal 4: O Último Ritual

Crítica – Invocação do Mal 4: O Último Ritual

Sinopse (imdb): Quando Ed e Lorraine Warren, o casal de investigadores paranormais, se encontram presos a mais um medonho caso envolvendo criaturas misteriosas, eles se veem na obrigação de resolverem tudo pela última vez.

Os dois primeiros Invocação do Mal, de 2013 e 2016, foram dirigidos por James Wan, um dos maiores nomes do terror contemporâneo, e são dois filmes muito acima da média. E o que acontece com Hollywood quando um filme faz sucesso? Continuações e spin offs, claro. Pena que quase sempre com qualidade inferior.

Aqui, no “Invocaverso”, este é o nono filme. É a terceira continuação de Invocação do Mal, e foram dois spin offs, Annabelle (que teve duas continuações) e A Freira (uma continuação). Rolou um boato de que A Maldição da Chorona ia entrar no Invocaverso, mas não vi nenhuma confirmação sobre isso. James Wan só dirigiu os dois primeiros, e, sim, os sete outros filmes são mais fracos.

Os quatro Invocação do Mal trazem como protagonistas o casal Ed e Lorraine Warren, que, pra quem não sabe, existiu na vida real. Eles realmente eram investigadores de fenômenos paranormais. Ou seja, parte do que vemos nos filmes é real.

A direção deste quarto filme é de Michael Chaves, que já tinha dirigido o terceiro Invocação (além de A Freira 2 e A Maldição da Chorona). Chaves parece querer emular o estilo de câmera do “patrão” James Wan, e às vezes até consegue. Serei generoso: neste Invocação do Mal 4 ele consegue um bom resultado. Não é melhor que os primeiros, mas diria que é melhor que o terceiro. Chaves consegue criar um bom clima e alguns dos jump scares são bem bolados. Vou além: algumas cenas são muito boas. Tem uma cena envolvendo um quarto escuro e um fio de telefone que é simples e muito eficiente, e a cena dos espelhos na prova do vestido de noiva é sensacional. Ah, preciso citar a trilha sonora, muito bem usada.

Agora, nem tudo funciona. O filme às vezes não se decide se a gente vai acompanhar a família que comprou o espelho assombrado, ou os momentos onde a filha do casal Warren tem problemas com a sua crescente mediunidade. E teve uma coisa que achei bem mal feita: vemos três fantasmas ligados ao espelho, mas em determinado momento a gente descobre que existe um mal maior por trás dos fantasmas, e o filme não chega a desenvolver esse mal. Ora, se não é pra ter isso no filme, por que não ficar apenas nos fantasmas?

No elenco, Vera Farmiga e Patrick Wilson continuam ótimos como o casal Warren. Tem um prólogo com eles mais novos, são outros atores, o homem é até parecido com Patrick Wilson, mas a mulher é bem diferente, acho que podiam ter chamado a Taissa Farmiga, irmã da Vera, 21 anos mais nova, bem mais parecida (apesar de Taissa estar em A Freira). Trocaram a atriz que faz a filha Judy, no terceiro filme era Sterling Jerins, agora é Mia Tomlinson, deve ser porque neste filme a filha já é adulta – mas não duvido que Judy Warren apareça em algum spin off.

O final do filme é bem “final de novela”. Preste atenção nas pessoas que estão na plateia do evento, são personagens dos outros filmes da saga. Provavelmente Invocação do Mal acaba aqui. Agora, os Warren têm um quarto com centenas de objetos assombrados ou possuídos. Claro que os spin offs devem continuar.

Ladrões

Crítica – Ladrões

Sinopse (imdb): O ex-jogador de beisebol Hank Thompson se envolve em uma perigosa luta pela sobrevivência em meio ao submundo do crime da Nova York dos anos 90, forçado a navegar em um submundo traiçoeiro que ele nunca imaginou.

A primeira coisa que precisamos falar do novo filme dirigido por Darren Aronofsky é que não tem cara de Darren Aronofsky. Não sei se foi um trabalho encomendado por um estúdio, ou se o diretor simplesmente resolveu variar o estilo. Isso pode ser uma boa ou uma má notícia, dependendo se você é fã dos filmes dele ou não. O fato é que não se deve esperar um filme no estilo que ele está acostumado a apresentar.

Lembro de quando vi Pi em alguma TV a cabo no início do século. Vi algum valor no filme, mas definitivamente não gostei. Aliás, o único filme do Aronofsky que realmente gosto é Cisne Negro – mas reconheço qualidades em outras obras, como Réquiem Para um Sonho, Noé e Mãe. Seus filmes normalmente são cheios de simbolismos, sempre têm um pé no filme cabeça. E Ladrões (Caught Stealing, no original) não tem nada disso. Além de ser bem humorado, é um filme mais, digamos, direto – o que heu não acho nada ruim, diga-se de passagem.

(Na saída da sessão de imprensa, um amigo comentou que Ladrões parecia um filme do Guy Ritchie. Ok, a comparação tem lógica, Ladrões tem violência, humor e personagens marginais esquisitões. Mas, pelo menos pra mim, o “estilo Guy Ritchie” tem mais a ver com edição de cortes rápidos do que personagens esquisitos. Dito isso, ok, concordo que poderia ser um novo Guy Ritchie.)

Nova York, anos 90. Quando mais jovem, Hank (Austin Butler) era uma promessa no baseball, mas sofreu um acidente e teve que largar o esporte. Vive como barman e tem uma vida tranquila com a namorada. Até que Hank recebe um pedido de seu vizinho punk para que cuide do seu gato enquanto ele precisa viajar, e isso o coloca no meio de uma briga entre violentos mafiosos ucranianos e igualmente violentos judeus ortodoxos. E cada dia que se passa, Hank está mais envolvido, mesmo sem ter nada a ver com isso inicialmente.

O clima é meio Depois de Horas, do Scorsese. Em ambos os filmes, o protagonista quer voltar à sua vida normal, mas continua cada vez mais envolto em uma situação onde ele não queria estar. Aronofsky disse que foi coincidência, mas Griffin Dunne, protagonista de Depois de Horas, tem um papel aqui.

Aliás, Ladrões tem um elenco estelar, e todos estão muito bem. Austin Butler está muito bem, num papel bem diferente dos seus dois papéis famosos recentes, em Elvis e Duna. Confesso que não reconheci Griffin Dunne, quando subiram os créditos deu vontade de “rebobinar a fita” pra ver o personagem. Matt Smith está engraçadíssimo como o punk, e Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio estão quase irreconhecíveis como os judeus ortodoxos. Também no elenco, Regina King, Zoë Kravitz, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov, Bad Bunny, Carol Kane e Tenoch Huerta – o Namor da Marvel – tem uma ponta no finzinho do filme. Ah, passamos o filme todo ouvindo a voz da mãe do protagonista, mas ela só aparece em uma cena no meio dos créditos, e vemos que é a Laura Dern – não creditada. Por fim, o gato é interpretado por Tonic the Cat, em seu terceiro filme! (os outros foram Cemitério Maldito de 2019 e Feriado Sangrento).

Ladrões tem um bom ritmo. O clima é tenso, tudo se passa em alguns dias, e estamos sempre acompanhando as roubadas onde o protagonista está envolvido. O filme é bem violento, mas sabe equilibrar com alguns momentos bem engraçados.

Pra quem curte ver créditos: foram animados no ritmo da música e ficam mudando o tempo todo. Boa sacada.

Como falei no início, Ladrões não tem cara de Aronofsky. Mas reconheço que gostei desta nova faceta do diretor.

Os Roses – Até que a Morte os Separe

Crítica – Os Roses – Até que a Morte os Separe

Sinopse (imdb): O ciúme de um casal aparentemente perfeito irrompe quando a carreira profissional do marido implode, revelando rachaduras na fachada de sua vida familiar ideal.

Antes de ver a refilmagem, fui rever o original, que heu não via provavelmente desde a época. Lançado em 1989, A Guerra dos Roses trazia o mesmo trio de atores principais de Tudo Por uma Esmeralda e a Joia do Nilo, Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, e por isso, na época, teve gente achando que era uma continuação. Mas não, nada a ver, é uma história completamente diferente.

Dirigido por DeVito, o filme contava a história de um casal antes apaixonado que aos poucos começa a se odiar cada vez mais. O humor é meio cartunesco, algumas coisas são muito exageradas. É uma comédia divertida, mas algumas coisas envelheceram bem mal – ele mata o gato dela, e depois o filme dá a entender que ela fez patê com o cachorro dele (aparece um cachorro, meio que pra limpar a barra, mas o filme não confirma nem sim nem não).

A direção agora é de Jay Roach, diretor dos três filmes do Austin Powers. Os Roses – Até que a Morte os Separe (The Roses, no original) não quer ser igual ao filme anterior. Na verdade, só o argumento é igual: casal antes apaixonado começa a se odiar cada vez mais. Mas todo o desenvolvimento é bem diferente, nem os personagens têm os mesmos nomes.

A refilmagem é mais “pé no chão”, as brigas são menos exageradas, o que combina mais com os dias de hoje. Inclusive, achei que as motivações para a separação aqui são melhor exploradas: ele a inveja por causa do sucesso profissional; ela o inveja por causa do maior contato com os filhos.

O melhor de Os Roses é o casal de protagonistas. Afinal, Benedict Cumberbatch e Olivia Colman são grandes atores, e é sempre agradável vê-los em tela. O carisma da dupla segura o interesse do espectador até o fim do filme. Já o resto do elenco é apenas ok. Allison Janney só aparece em uma cena; Andy Samberg aparece mais mas tem pouco espaço. Só não gostei da Kate McKinnon, que repete o mesmo estilo de piadas sem noção que ela costuma fazer em outros filmes.

Os Roses – Até que a Morte os Separe não é um grande filme, mas é uma diversão honesta. Pena que veio logo depois de Corra que a Polícia Vem Aí, que é bem mais engraçado.

A Vida de Chuck

Crítica – A Vida de Chuck

Sinopse (filme B): Ao longo de sua vida, Charles “Chuck” Krantz vive o encanto do amor, a dor da perda e descobre as muitas facetas que existem dentro de cada um de nós.

(A sinopse do imdb deve ter sido feita por robô e ninguém revisou, e virou uma parada que não tem nada a ver! No imdb tá assim: “Uma história de afirmação da vida e de mudança de gênero baseada no romance de Stephen King sobre três capítulos da vida de um homem comum chamado Charles Krantz.” A mudança de gênero é cinematográfica!)

Talvez o maior problema aqui seja justamente os nomes de Mike Flanagan e Stephen King. Porque claro que todo mundo vai pensar em um filme de terror. E A Vida de Chuck não tem NADA de terror. Estamos entre o drama e a fantasia. Aliás, o trailer do filme é bem genérico, lembro de ver no cinema e me perguntar “por que alguém veria um filme desses?”

(Ok, alguns bons filmes baseados em Stephen King não são terror, como Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. Mas todos concordam que ele fez muito mais terror que qualquer outro gênero, né?)

A direção é de Mike Flanagan, que já fez alguns filmes legais (incluindo Doutor Sono, outra adaptação de Stephen King), mas que tem suas melhores obras em séries, como A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia Noite. Talvez seja exagero, mas heu diria que A Vida de Chuck é o melhor filme que ele já fez.

Não li o livro, não tenho ideia se foi uma adaptação fiel ou não. Mas gostei do roteiro ser fora da ordem cronológica – o filme começa pelo terceiro ato. Digo mais: se a história fosse contada em ordem cronológica, seria bem sem graça.

Esse terceiro ato traz um mistério muito bem bolado. O mundo está acabando, estão acontecendo catástrofes naturais, não existe mais internet, e começam a aparecer outdoors e propagandas falando de um tal de Charlie Krantz. Confesso que fiquei intrigado com o que estava acontecendo, qual seria o desfecho para aquele mistério. O único problema é que o terceiro ato é melhor do que o primeiro, justamente o final do filme.

O segundo ato é o mais curto. Traz uma artista de rua, uma baterista, e o dia em que um transeunte parou para dançar. E preciso falar que adorei essa cena da dança! Tom Hiddlestone, primeiro sozinho, depois com a Annalise Basso, dançando ao som da bateria, criaram um momento que, pelo menos pra mim, foi mágico! Até concordo que talvez seja uma cena longa (a dança dura quase cinco minutos) – mas heu poderia rever aquela cena seguidas vezes!

A conclusão (primeiro ato) traz respostas e mais dança. O final não é ruim, mas não é tão bom quanto o início, e isso pode ser um problema. Mesmo assim, gostei muito do resultado.

O elenco é cheio de bons nomes, e todos estão bem. Curiosamente, nenhum ator aparece ao longo de todo o filme, afinal, a trama se passa em volta da vida do Chuck em diferentes fases de sua vida. Tom Hiddleston é o nome principal, mas, se a gente parar pra analisar, ele nem faz tanta coisa ao longo do filme. Ainda sobre o elenco, uma curiosidade: Mia Sara, de A Lenda e Curtindo a Vida Adoidado, estava aposentada desde 2013, mas declarou que queria trabalhar com Mike Flanagan depois que viu Missa da Meia Noite.

E trabalhar com Flanagan deve ser bom, porque vários atores já estiveram em outros filmes / séries do diretor, como Karen Gillan e Annalise Basso (O Espelho), Samantha Sloyan e Michael Trucco (Hush), Jacob Tremblay e Carl Lumbly (Doutor Sono), Rahul Kohli (A Maldição da Mansão Bly), Heather Langekamp (O Clube da Meia Noite), Mark Hamill (A Queda da Casa de Usher), além de Kate Siegel, a sra. Mike Flanagan, que estava em quase todos os filmes. Ah, Carla Gugino, que faz algumas narrações, também fez vários filmes do diretor – Nick Offerman faz as outras narrações. Ainda no elenco, Chiwetel Ejiofor, David Dastmalchian e Matthew Lillard.

Se heu pudesse alterar uma única coisa aqui, pegava a cena da professora falando do Walt Whitman e colocava mais pro final do filme. É uma cena onde o espectador atento pode pescar muita coisa. Acho que o impacto ia ser maior se a cena fosse guardada pra depois.

Grandes chances de A Vida de Chuck voltar aqui no Top 10 de melhores do ano.

Anônimo 2

Crítica –  Anônimo 2

Sinopse (filme B): Hutch e a esposa Becca se veem sobrecarregados e distantes. Por isso, decidem levar os filhos para uma pequena viagem de férias, que inclui também o pai de Hutch. Quando um encontro trivial com valentões locais coloca a família na mira de um operador corrupto de parque temático, Hutch vira alvo da chefe do crime mais insana que já enfrentou.

Anônimo, de 2021, foi uma boa surpresa, apesar de trazer a velha e batida trama de “um assassino profissional muito bom em sua profissão resolve se aposentar mas é forçado a voltar a ação” (premissa bem parecida com John Wick, do mesmo roteirista Derek Kolstad). Pena que foi lançado no meio da pandemia, e acho que nem chegou a passar nos cinemas brasileiros.

Anônimo não pedia uma continuação, mas o resultado até que ficou bom. Anônimo 2 é uma continuação bem parecida com o original, com tudo de positivo e negativo que isso pode significar.

Trocaram o diretor. O primeiro foi dirigido por Ilya Naishuler, que não podia assumir o segundo porque estava dirigindo Chefes de Estado. Convidaram então Timo Tjahjanto, diretor indonésio que fazia filmes de terror, como Macabre, em parceria com Kimo Stamboel (não sei se são parentes, mas eles assinavam filmes como “The Mo Brothers”). Junto com Gareth Evans (The Raid), fizeram Safe Heaven, uma das poucas coisas boas da franquia VHS. Depois disso, Timo seguiu “solo” fazendo filmes de ação, como Headshot e A Noite nos Persegue (com atores que estavam nos dois The Raid). Anônimo 2 é a estreia hollywoodiana de Timo. (Todos esses filmes foram comentados no heuvi)

A troca não atrapalhou o resultado. A produtora é a mesma, 87North, produtora fundada por David Leitch, ex dublê e agora diretor de filmes como Atômica, Trem Bala e O Dublê. Os filmes da 87North sempre privilegiam cenas de ação bem coreografadas e bem filmadas – afinal, o trabalho dos dublês!

Anônimo 2 é bem parecido com o primeiro. Começa com a rotina de Hutch, depois acontece algum incidente que “acende o pavio” e ele entra numa espiral de violência cada vez maior. No primeiro filme ele queimou dinheiro da máfia russa, e agora precisa trabalhar (como assassino profissional) para pagar por essa dívida. Aliás, essa sequência inicial já mostra qual será o tom do filme: muita violência aliada a situações bem engraçadas (e um bônus para o nosso público, porque entra uma música em português quando ele enfrenta personagens brasileiros).

Algumas sequências de ação são muito boas, como aquela no fliperama. A do barco também é boa, mas exige um pouco mais de suspensão de descrença – caramba, tinham outras pessoas no barco, como é que ninguém viu uma briga daquela intensidade? Além disso, Anônimo 2 sabe equilibrar o humor. Não é uma comédia, mas algumas cenas são engraçadíssimas.

Esta continuação é bem parecida com o primeiro filme, inclusive nos pontos fracos. Os vilões são caricatos, mas, o vilão do primeiro filme também era, então ok, foi coerente. Agora, vou reclamar do final. Não gosto do encerramento do primeiro filme, porque sabemos que Hutch é um cara extremamente habilidoso e sabe usar suas técnicas contra os seus adversários, então aceito quando ele está sozinho e briga contra vários. No encerramento do primeiro filme, inventaram uma sequência onde entram outras pessoas para ajudá-lo – incluindo um personagem que só aparece nesta sequência, e foi um final mais fraco que o resto do filme. Aqui temos o mesmo problema: enquanto Hutch está sozinho o filme é melhor. No fim, quando outras pessoas entram na briga, o filme cai um pouco, na minha humilde opinião. E o final da personagem da Connie Nielsen é muito previsível.

O elenco é bom. Bob Odenkirk, com 62 anos, está em forma e convence nas sequências de ação. Christopher Lloyd e Connie Nielsen têm mais importância aqui do que no primeiro filme. Sharon Stone faz a vilã caricata da vez. E Colin Hanks está com um corte de cabelo igual ao papai Tom Hanks em Forrest Gump. Também no elenco, John Ortiz e RZA.

Resumindo, Anônimo 2 é bem semelhante ao 1. Quem gostou do primeiro vai se divertir aqui.

Juntos

Crítica – Juntos

Sinopse (imdb): A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existências e suas forma físicas.

O sucesso de A Substância ano passado trouxe de volta os filmes de body horror, ou horror corporal. Este ano a gente já teve o bom The Ugly Stepsister, e agora chega aos cinemas este Juntos.

(The Ugly Stepsister é uma versão de terror da história da Cinderela, mas é bem diferente dessa onda recente de filmes vagabundos usando temas infantis, como os filmes do Ursinho Puff, do Mickey e do Popeye. Vale ser visto!)

Escrito e dirigido por Michael Shanks, Juntos (Together, no original) traz um casal em crise que se muda para uma cidadezinha onde algo misterioso parece querer juntar seus corpos. A ideia é boa. Mas o desenvolvimento, nem tanto.

Um problema básico é que estamos diante de um filme que se propõe a ser um “horror corporal” e temos poucas cenas mostrando o tal horror corporal. Sim, aparece, mas muito pouco. Além disso, algumas cenas são demasiadamente escuras, me pareceu que foi para esconder um possível baixo orçamento. Por outro lado, preciso reconhecer que a cena dos braços se juntando foi legal, tanto na parte visual quanto na parte narrativa.

Tem outra coisa, sei que não é grave, mas preciso dizer que me incomodou. Primeiro, o casal cai na caverna, e parece que não querem sair de lá. Ok, caíram, está chovendo muito, bora esperar uma meia hora, a chuva diminui, a gente sai, certo? Que nada. Eles dormem lá embaixo! Mas, até aí ok. O problema é que eles se machucam, suas pernas grudam, aparentemente é um ferimento feio – e eles não vão procurar tratamento médico?

Sobre as atuações, Dave Franco não é um bom ator. Mas, pelo menos ele funciona bem ao lado da Alison Brie (eles são um casal na vida real).

Preciso fazer um último comentário, mas é sobre algo que acontece no fim, então vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!

Não acho que um filme precise explicar tudo. Existe algo na água daquela caverna que ativa aquela magia / maldição. O que é? Não importa. O espectador só precisa saber que aquilo acontece. Beleza. Agora, acho que se um filme estabelece regras, o filme deve obedecer às próprias regras. Por que o casal do início do filme virou um monstro e o casal protagonista não virou?

FIM DOS SPOILERS!

Juntos não é ruim. Mas é besta. Tem coisa melhor por aí.

Guerra dos Mundos 2025

Crítica – Guerra dos Mundos 2025

Sinopse (imdb): Uma jornada fictícia com elementos realistas, que explora questões contemporâneas sobre privacidade e vigilância.

Com atraso de cinco anos, chegou na Prime uma nova versão da conhecida história Guerra dos Mundos, escrita por HG Wells em 1898.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds, no original) foi filmado em 2020, no meio da pandemia. Os atores não interagem presencialmente, o filme é todo online, através de uma tela de computador, num formato chamado “screenlife”. Um dos produtores é Timur Bekmambetov, que já produziu alguns bons filmes no estilo, como Unfriended (2014), Buscando (2018) e Desaparecida (2023). O filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. O problema é que – diferente desses três exemplos que citei, não souberam desenvolver a proposta aqui.

A direção é de Rich Lee, que tem uma longa carreira em videoclipes, e que está estreando no cinema. E o resultado foi bem ruim. Os efeitos especiais não são bons, mas isso até nem me incomodou muito. Porque tem tanta coisa pior…

Guerra dos Mundos até começa bem. Heu diria que os primeiros 20 minutos, quando mostra a invasão alienígena, até são bons. O problema é quando começam as reações de defesa dos personagens. O filme toma vários caminhos que não fazem o menor sentido. Começo por um básico: se os aliens estão atacando toda a tecnologia terrestre, como é que o cara continua com acesso à Internet e a vários gadgets, como câmeras e drones?

Tudo é tão absurdo que em determinado momento aparece uma propaganda da Amazon, num dos piores exemplos de product placement da história recente. Detalhe: se o prédio é tão vigiado que cara não pode entrar com um pendrive, como é que um drone consegue facilmente entrar pela janela?

Conforme o filme se aproxima do final, os absurdos são cada vez maiores, a ponto de um dos personagens conseguir acertar os tripods alienígenas com mísseis. De onde vieram esses mísseis? Será que não era uma boa pensar em soluções menos absurdas?

O elenco também não funciona. Durante a maior parte do tempo a gente fica vendo o Ice Cube, que não tem carisma pra sustentar um filme desses. O elenco de apoio também não está bem, com Eva Longoria, Clark Gregg, Iman Benson e Henry Hunter Hall.

Guerra dos Mundos está na Amazon Prime. Fujam!