Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Trem Bala

Crítica – Trem Bala

Sinopse (imdb): Joaninha (Brad Pitt) é um assassino azarado determinado a fazer seu trabalho pacificamente depois de muitos outros saírem dos trilhos. O destino, no entanto, pode ter outros planos, pois a última missão de Joaninha o coloca em rota de colisão com adversários letais de todo o mundo – todos com objetivos conectados, mas conflitantes – no trem mais rápido do mundo. O fim da linha é apenas o começo nesta emocionante viagem sem parar pelo Japão moderno.

Tem gente que se empolga com filme novo de determinados super heróis. Heu me empolgo com filme novo de determinados diretores, como é o caso de David Leitch (não confundir com David Lynch!). Trem Bala (Bullet Train no original) estava no topo da minha lista de expectativas para 2022!

David Leitch era dublê, e virou diretor ao lado de Chad Stahelski com John Wick. Sozinho, fez Atômica, o melhor dos filmes de ação girl power que vi nos últimos anos. Leitch também fez Deadpool 2 e Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw, divertidos (mas inferiores a Atômica).

Se Atômica tinha um tom mais sério, Trem Bala está mais próximo de Deadpool e Hobbes & Shaw e abraça a comédia sem medo de ser feliz. Algumas cenas são engraçadíssimas. E mesmo assim o filme é bem violento. Humor negro rola solto aqui.

O clima às vezes lembra os filmes do Tarantino, com violência e bom humor. Mas acho que ficou mais próximo do trabalho do Guy Ritchie, que sabe trabalhar bem com personagens marginais e descolados, e isso tudo envolto numa edição estilosa.

Quando li a sinopse e a duração, rolou uma preocupação, porque um filme de mais de duas horas todo dentro de um trem com uma trama aparentemente simples podia ficar cansativo. Mas o roteiro é bem construído, com bons diálogos, temos flashbacks aqui e ali apresentando elementos extras, e temos uma excelente galeria de personagens. Ah, o desenho Thomas o Trem tem uma grande importância na trama!

Já que falei dos personagens, estes merecem um parágrafo à parte. Não tem nenhum personagem “normal” – talvez só o japonês atrás de vingança. Todos são esquisitos, todos são excêntricos. E o filme ainda usa uns letreiros para apresentá-los. E a dinâmica entre eles é muito boa, porque são objetivos diferentes, mas todos entrelaçados.

Aproveito pra falar do elenco. Brad Pitt é ótimo, sempre foi, sou fã do cara desde 12 Macacos e Clube da Luta, e aqui ele está sensacional. A gente lê a premissa e imagina um personagem sério tipo um John Wick, mas o seu Joaninha é um assassino profissional em busca da paz interior, então ele passa boa parte do filme em diálogos contra a violência. Aaron Taylor-Johnson (Kick-Ass) e Brian Tyree Henry (Eternos) são Limão e Tangerina, irmãos gêmeos (???), e têm uma ótima dinâmica juntos. Sandra Bullock aparece pouco, mas está ao telefone durante todo o filme, falando com o Joaninha; Michael Shannon também aparece pouco, mas é um personagem central. Joey King (A Princesa) convence com sua aparente fragilidade; Logan Lerman (Percy Jackson) tem um papel importante mas passa quase o filme todo morto; Zazie Beetz (Deadpool) aparece pouco mas é uma peça essencial para o quebra cabeça. Também no elenco, Andrew Koji, Hiroyuki Sanada e Bad Bunny. Ah, prestem atenção no condutor, é o Masi Oka de Heroes; e a atendente que interrompe a luta entre o Joaninha e o Tangerina é Karen Fukuhara, a Kimiko de The Boys.

(Tem duas participações especiais não creditadas, não sei se posso citar aqui, pode ser um spoiler. Bem, um deles esteve recentemente nas telas com Brad Pitt e Sandra Bullock; o outro já estrelou um filme do mesmo diretor.)

(Uma curiosidade: o diretor David Leitch era dublê e já tinha trabalhado como duble do Brad Pitt algumas vezes, em filmes como Clube da Luta, Onze Homens e um Segredo, Troia e Sr e Sra Smith).

Entendo que é um filme exagerado. Tem muita coisa forçada. Tem lutas no trem, tem gente andando armada e suja de sangue, e o trem tem passageiros que não estão na trama. E determinado momento o trem fica vazio – pra onde foram as pessoas que trabalham no trem, como o condutor? Quem se importar com isso, vai se incomodar.

Uma coisa que gostei e que admiro é que Trem Bala não é franquia, não é continuação e traz uma história fechada – acho difícil virar franquia. Por mais que tenha gostado de todo esse universo criado para o filme, sei que uma franquia pode estragar o universo. Por isso fico feliz com a proposta!

 

Deadpool 2

Deadpool2Crítica – Deadpool 2

Sinopse (imdb): O mercenário mutante boca suja Wade Wilson (AKA. Deadpool) reúne uma equipe de companheiros mutantes para proteger um jovem de habilidades sobrenaturais do brutal mutante viajante no tempo, Cable.

Quem mais estava aguardando outro filme do super herói mais zoador de todos?

Não escondo de ninguém que gostei muito do primeiro Deadpool, Gosto do conceito de um personagem politicamente incorreto, que sacaneia tudo e todos em volta, num filme cheio de referências à cultura pop. Só isso já é o suficiente pra me fazer querer ver o filme.

Pra vocês verem o quanto o filme é zoado, o imdb colocou uma “sinopse oficial” escrita pela própria Fox: “Depois de sobreviver a um ataque bovino quase fatal, um chef de lanchonete desfigurado (Wade Wilson) se esforça para realizar o sonho de se tornar o bartender mais quente de Mayberry, enquanto aprende a lidar com seu senso de paladar perdido. Buscando recuperar sua especiaria para a vida, bem como um capacitor de fluxo, Wade precisa lutar contra os ninjas, a Yakuza e um bando de caninos sexualmente agressivos, enquanto viaja pelo mundo para descobrir a importância da família, amizade e sabor. um novo gosto pela aventura e ganhar o cobiçado título de melhor amante do mundo.” Sim, isso está no imdb!

Como aconteceu no primeiro filme, Deadpool 2 (idem no original) segue esta onda. Alem de ter mais violência e sangue do que outros filmes de super heróis, temos muitas referências a outros filmes e elementos da cultura pop, e muito humor escrachado, incluindo humor grosseiro e ofensivo – a cena que cita Instinto Selvagem me lembrou Borat, no limite entre o muito engraçado e o muito grotesco. E, assim como no primeiro filme, também temos muita metalinguagem e quebras de quarta parede.

A quantidade de referências à cultura pop aqui é enorme. O filme não perdoa ninguém, cita personagens da Marvel e da DC, faz zoações em cima da carreira do próprio protagonista, cita filmes novos, filmes velhos, quadrinhos… Não chega ao nível de Jogador Nº 1, mas mesmo assim dava vontade de pausar o filme pra digerir tudo. Com certeza verei de novo.

A direção mudou, e quem assumiu foi David Leich, responsável por Atômica, um dos melhores filmes do ano passado. Atômica é um filme sério, com um excepcional trabalho de dublês. Leitch mostrou versatilidade, Deadpool 2 não mostra nem uma pequena fração daquela sisudez.

E assim o filme segue. Ritmo desenfreadao, piada atrás de piada, referência atrás de referência. Além disso, uma boa trilha sonora com músicas fora do óbvio e efeitos especiais bons o suficiente para o que o filme pede. Prato cheio pra quem gosta do gênero.

No elenco, Ryan Reynolds mostra que, assim como Hugh Jackman é “o” Wolverine, ele é “o” Deadpool. O cara está excelente, fica impossível imaginar outro ator no papel. Josh Brolin, ainda em cartaz como Thanos, também está ótimo. Morena Baccarin, Brianna Hildebrand e T.J. Miller voltam aos seus papéis, e ainda temos rápidas participações de Terry Crews, Bill Skarsgård e Brad Pitt – este último, numa cena tão rápida que quem piscar o olho perde. Zazie Beetz é o novo nome no elenco principal.

Por fim, claro, temos cenas pós créditos. Como no filme anterior, cenas engraçadíssimas, Pará entrar em listas de melhores cenas pós créditos da história.

Muito se fala das negociações entre o Marvel Studios e a Fox, sobre uma possível compra dos personagens – seria um jeito de trazer os X-Men e o Quarteto Fantástico para o MCU (Universo Cinematográfico da Marvel). Torço para que se um dia isso acontecer, que deixem o Deadpool de fora. Um herói assim nunca se encaixaria no MCU!