Ladrões

Crítica – Ladrões

Sinopse (imdb): O ex-jogador de beisebol Hank Thompson se envolve em uma perigosa luta pela sobrevivência em meio ao submundo do crime da Nova York dos anos 90, forçado a navegar em um submundo traiçoeiro que ele nunca imaginou.

A primeira coisa que precisamos falar do novo filme dirigido por Darren Aronofsky é que não tem cara de Darren Aronofsky. Não sei se foi um trabalho encomendado por um estúdio, ou se o diretor simplesmente resolveu variar o estilo. Isso pode ser uma boa ou uma má notícia, dependendo se você é fã dos filmes dele ou não. O fato é que não se deve esperar um filme no estilo que ele está acostumado a apresentar.

Lembro de quando vi Pi em alguma TV a cabo no início do século. Vi algum valor no filme, mas definitivamente não gostei. Aliás, o único filme do Aronofsky que realmente gosto é Cisne Negro – mas reconheço qualidades em outras obras, como Réquiem Para um Sonho, Noé e Mãe. Seus filmes normalmente são cheios de simbolismos, sempre têm um pé no filme cabeça. E Ladrões (Caught Stealing, no original) não tem nada disso. Além de ser bem humorado, é um filme mais, digamos, direto – o que heu não acho nada ruim, diga-se de passagem.

(Na saída da sessão de imprensa, um amigo comentou que Ladrões parecia um filme do Guy Ritchie. Ok, a comparação tem lógica, Ladrões tem violência, humor e personagens marginais esquisitões. Mas, pelo menos pra mim, o “estilo Guy Ritchie” tem mais a ver com edição de cortes rápidos do que personagens esquisitos. Dito isso, ok, concordo que poderia ser um novo Guy Ritchie.)

Nova York, anos 90. Quando mais jovem, Hank (Austin Butler) era uma promessa no baseball, mas sofreu um acidente e teve que largar o esporte. Vive como barman e tem uma vida tranquila com a namorada. Até que Hank recebe um pedido de seu vizinho punk para que cuide do seu gato enquanto ele precisa viajar, e isso o coloca no meio de uma briga entre violentos mafiosos ucranianos e igualmente violentos judeus ortodoxos. E cada dia que se passa, Hank está mais envolvido, mesmo sem ter nada a ver com isso inicialmente.

O clima é meio Depois de Horas, do Scorsese. Em ambos os filmes, o protagonista quer voltar à sua vida normal, mas continua cada vez mais envolto em uma situação onde ele não queria estar. Aronofsky disse que foi coincidência, mas Griffin Dunne, protagonista de Depois de Horas, tem um papel aqui.

Aliás, Ladrões tem um elenco estelar, e todos estão muito bem. Austin Butler está muito bem, num papel bem diferente dos seus dois papéis famosos recentes, em Elvis e Duna. Confesso que não reconheci Griffin Dunne, quando subiram os créditos deu vontade de “rebobinar a fita” pra ver o personagem. Matt Smith está engraçadíssimo como o punk, e Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio estão quase irreconhecíveis como os judeus ortodoxos. Também no elenco, Regina King, Zoë Kravitz, Nikita Kukushkin, Yuri Kolokolnikov, Bad Bunny, Carol Kane e Tenoch Huerta – o Namor da Marvel – tem uma ponta no finzinho do filme. Ah, passamos o filme todo ouvindo a voz da mãe do protagonista, mas ela só aparece em uma cena no meio dos créditos, e vemos que é a Laura Dern – não creditada. Por fim, o gato é interpretado por Tonic the Cat, em seu terceiro filme! (os outros foram Cemitério Maldito de 2019 e Feriado Sangrento).

Ladrões tem um bom ritmo. O clima é tenso, tudo se passa em alguns dias, e estamos sempre acompanhando as roubadas onde o protagonista está envolvido. O filme é bem violento, mas sabe equilibrar com alguns momentos bem engraçados.

Pra quem curte ver créditos: foram animados no ritmo da música e ficam mudando o tempo todo. Boa sacada.

Como falei no início, Ladrões não tem cara de Aronofsky. Mas reconheço que gostei desta nova faceta do diretor.

Rock Estrela

Crítica – Rock Estrela

Sinopse (imdb): Estudante de música clássica chega de Buenos Aires para morar com seu primo roqueiro no Rio de Janeiro. Entre festas repletas de rock and roll, ele precisa decidir entre sua namorada de infância, e a jogadora de vôlei Vera.

Depois de Bete Balanço, bora comentar Rock Estrela!

Assim como comentei no texto sobre o outro filme, tudo aqui é muito datado. Não dá pra ver um filme desses com a cabeça de hoje em dia. Precisamos nos lembrar de toda a conjuntura sociocultural da época. Aí pode virar uma boa experiência nostálgica.

Lançado em 1985, Rock Estrela é o segundo filme do Lael Rodrigues. O formato é bem parecido com seu filme anterior, Bete Balanço: muita música e pouca história. Talvez a maior diferença é que o primeiro filme tinha mais números de dança, enquanto este segundo tem mais trechos de shows.

Rock (Diogo Vilela), um músico careta, chega de Buenos Aires para morar com Tavinho (Leo Jaime), que tem uma banda de rock. Ele aguarda a namorada argentina, Graziela (Malu Mader), mas acaba se envolvendo com a jogadora de vôlei Vera (Vera Mossa). Isso tudo entre números musicais de gente como RPM, Metrô, Tokyo, Celso Blues Boy, e, claro, Leo Jaime.

A maior parte das atuações é bem ruim. Heu diria que só Diogo Vilela e Leo Jaime estão bem. Malu Mader, estreando no cinema, não está bem, mas pelo menos não atrapalha. Agora, Andrea Beltrão, Tim Rescala e Guilherme Karam estão muito mais caricatos do que o bom senso permite. E Vera Mossa, coitada, que bom que tinha um grande reconhecimento como atleta. Porque, como atriz, é péssima.

Achei excessiva a quantidade de “videoclipes” inseridos, contei 14 inserções de bandas tocando (inclusive três artistas argentinos). Ok, é legal, mas como rola durante todo o filme, chega a cansar. Foi muito, podiam cortar pelo menos metade dos números – principalmente porque a maior parte deles não tem nada a ver com a trama que está rolando.

O final é bem ruim. Vai rolar um jogo da Vera ao mesmo tempo que um show do Tavinho. No meio do show, aparecem as jogadoras de vôlei, o Rock, e também a Graziela – que antes estavam em locais diferentes! Mas até aí, ok, entra na onda de videoclipe que não precisa ter uma precisão temporal. Mas aí entra outro problema: no palco, em alguns takes, Rock está junto com a Graziela; em outros, com a Vera. Caramba, se metade do filme fala do grande dilema sobre qual das duas deveria escolher, o filme deveria ter se decidido. No final, acaba que aparentemente ele fica com as duas.

Assim como Bete Balanço, só vale pela nostalgia.

Os Roses – Até que a Morte os Separe

Crítica – Os Roses – Até que a Morte os Separe

Sinopse (imdb): O ciúme de um casal aparentemente perfeito irrompe quando a carreira profissional do marido implode, revelando rachaduras na fachada de sua vida familiar ideal.

Antes de ver a refilmagem, fui rever o original, que heu não via provavelmente desde a época. Lançado em 1989, A Guerra dos Roses trazia o mesmo trio de atores principais de Tudo Por uma Esmeralda e a Joia do Nilo, Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, e por isso, na época, teve gente achando que era uma continuação. Mas não, nada a ver, é uma história completamente diferente.

Dirigido por DeVito, o filme contava a história de um casal antes apaixonado que aos poucos começa a se odiar cada vez mais. O humor é meio cartunesco, algumas coisas são muito exageradas. É uma comédia divertida, mas algumas coisas envelheceram bem mal – ele mata o gato dela, e depois o filme dá a entender que ela fez patê com o cachorro dele (aparece um cachorro, meio que pra limpar a barra, mas o filme não confirma nem sim nem não).

A direção agora é de Jay Roach, diretor dos três filmes do Austin Powers. Os Roses – Até que a Morte os Separe (The Roses, no original) não quer ser igual ao filme anterior. Na verdade, só o argumento é igual: casal antes apaixonado começa a se odiar cada vez mais. Mas todo o desenvolvimento é bem diferente, nem os personagens têm os mesmos nomes.

A refilmagem é mais “pé no chão”, as brigas são menos exageradas, o que combina mais com os dias de hoje. Inclusive, achei que as motivações para a separação aqui são melhor exploradas: ele a inveja por causa do sucesso profissional; ela o inveja por causa do maior contato com os filhos.

O melhor de Os Roses é o casal de protagonistas. Afinal, Benedict Cumberbatch e Olivia Colman são grandes atores, e é sempre agradável vê-los em tela. O carisma da dupla segura o interesse do espectador até o fim do filme. Já o resto do elenco é apenas ok. Allison Janney só aparece em uma cena; Andy Samberg aparece mais mas tem pouco espaço. Só não gostei da Kate McKinnon, que repete o mesmo estilo de piadas sem noção que ela costuma fazer em outros filmes.

Os Roses – Até que a Morte os Separe não é um grande filme, mas é uma diversão honesta. Pena que veio logo depois de Corra que a Polícia Vem Aí, que é bem mais engraçado.

A Vida de Chuck

Crítica – A Vida de Chuck

Sinopse (filme B): Ao longo de sua vida, Charles “Chuck” Krantz vive o encanto do amor, a dor da perda e descobre as muitas facetas que existem dentro de cada um de nós.

(A sinopse do imdb deve ter sido feita por robô e ninguém revisou, e virou uma parada que não tem nada a ver! No imdb tá assim: “Uma história de afirmação da vida e de mudança de gênero baseada no romance de Stephen King sobre três capítulos da vida de um homem comum chamado Charles Krantz.” A mudança de gênero é cinematográfica!)

Talvez o maior problema aqui seja justamente os nomes de Mike Flanagan e Stephen King. Porque claro que todo mundo vai pensar em um filme de terror. E A Vida de Chuck não tem NADA de terror. Estamos entre o drama e a fantasia. Aliás, o trailer do filme é bem genérico, lembro de ver no cinema e me perguntar “por que alguém veria um filme desses?”

(Ok, alguns bons filmes baseados em Stephen King não são terror, como Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. Mas todos concordam que ele fez muito mais terror que qualquer outro gênero, né?)

A direção é de Mike Flanagan, que já fez alguns filmes legais (incluindo Doutor Sono, outra adaptação de Stephen King), mas que tem suas melhores obras em séries, como A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia Noite. Talvez seja exagero, mas heu diria que A Vida de Chuck é o melhor filme que ele já fez.

Não li o livro, não tenho ideia se foi uma adaptação fiel ou não. Mas gostei do roteiro ser fora da ordem cronológica – o filme começa pelo terceiro ato. Digo mais: se a história fosse contada em ordem cronológica, seria bem sem graça.

Esse terceiro ato traz um mistério muito bem bolado. O mundo está acabando, estão acontecendo catástrofes naturais, não existe mais internet, e começam a aparecer outdoors e propagandas falando de um tal de Charlie Krantz. Confesso que fiquei intrigado com o que estava acontecendo, qual seria o desfecho para aquele mistério. O único problema é que o terceiro ato é melhor do que o primeiro, justamente o final do filme.

O segundo ato é o mais curto. Traz uma artista de rua, uma baterista, e o dia em que um transeunte parou para dançar. E preciso falar que adorei essa cena da dança! Tom Hiddlestone, primeiro sozinho, depois com a Annalise Basso, dançando ao som da bateria, criaram um momento que, pelo menos pra mim, foi mágico! Até concordo que talvez seja uma cena longa (a dança dura quase cinco minutos) – mas heu poderia rever aquela cena seguidas vezes!

A conclusão (primeiro ato) traz respostas e mais dança. O final não é ruim, mas não é tão bom quanto o início, e isso pode ser um problema. Mesmo assim, gostei muito do resultado.

O elenco é cheio de bons nomes, e todos estão bem. Curiosamente, nenhum ator aparece ao longo de todo o filme, afinal, a trama se passa em volta da vida do Chuck em diferentes fases de sua vida. Tom Hiddleston é o nome principal, mas, se a gente parar pra analisar, ele nem faz tanta coisa ao longo do filme. Ainda sobre o elenco, uma curiosidade: Mia Sara, de A Lenda e Curtindo a Vida Adoidado, estava aposentada desde 2013, mas declarou que queria trabalhar com Mike Flanagan depois que viu Missa da Meia Noite.

E trabalhar com Flanagan deve ser bom, porque vários atores já estiveram em outros filmes / séries do diretor, como Karen Gillan e Annalise Basso (O Espelho), Samantha Sloyan e Michael Trucco (Hush), Jacob Tremblay e Carl Lumbly (Doutor Sono), Rahul Kohli (A Maldição da Mansão Bly), Heather Langekamp (O Clube da Meia Noite), Mark Hamill (A Queda da Casa de Usher), além de Kate Siegel, a sra. Mike Flanagan, que estava em quase todos os filmes. Ah, Carla Gugino, que faz algumas narrações, também fez vários filmes do diretor – Nick Offerman faz as outras narrações. Ainda no elenco, Chiwetel Ejiofor, David Dastmalchian e Matthew Lillard.

Se heu pudesse alterar uma única coisa aqui, pegava a cena da professora falando do Walt Whitman e colocava mais pro final do filme. É uma cena onde o espectador atento pode pescar muita coisa. Acho que o impacto ia ser maior se a cena fosse guardada pra depois.

Grandes chances de A Vida de Chuck voltar aqui no Top 10 de melhores do ano.

Bete Balanço

Crítica – Bete Balanço

Sinopse (imdb): Uma jovem deixa o estado de Minas Gerais para tentar se tornar cantora no Rio de Janeiro.

Me indicaram um site russo semelhante ao YouTube, que tem alguns canais com dezenas de filmes brasileiros. Vou aproveitar pra rever vários. E também vou aproveitar para fazer uma playlist de “filmes de rock nacional dos anos 80”. Começo essa playlist com Bete Balanço, dirigido por Lael Rodrigues e lançado em 1984.

Não dá pra assistir a um filme desses com a cabeça no século XXI. É um filme datado sob vários pontos de vista – não só o visual, mas toda a temática do filme não combina com os dias de hoje. Agora, quem entrar na onda vai ter uma boa viagem nostálgica.

Não tem muita história aqui. Bete sai de Governador Valadares e vai para o Rio de Janeiro para tentar a vida de cantora. Começa a namorar um fotógrafo e a cantar num estúdio. Basicamente é isso. O filme tem uma hora e quatorze minutos e está cheio de números musicais, não tem espaço pra desenvolver uma trama mais elaborada.

A direção é de Lael Rodrigues, que só dirigiu três filmes, mas foi um nome essencial para este estilo. Em 1985 ele faria Rock Estrela, e dois anos depois, 87, Rádio Pirata. A nota triste é que Lael faleceu pouco depois, em 1989. Ele tinha apenas 37 anos.

O roteiro tem uns furos meio bizarros, como por exemplo o fotógrafo ter imagens reveladoras que incriminariam alguém importante, mas esse plot é deixado de lado completamente. O plot com a Maria Zilda também foi mal desenvolvido, mas neste caso acredito que foi porque envolvia um relacionamento entre duas mulheres, coisa que o Brasil da primeira metade dos anos 80 dificilmente aceitaria.

E isso porque não estou falando de vários momentos onde a narrativa é interrompida para entrar um número musical nada a ver com a trama. Tem alguns números de dança meio jogados, acho que Lael Rodrigues queria fazer um musical da Broadway.

Na verdade, Bete Balanço parece um grande videoclipe estendido. Ou seja, alguns números musicais são inseridos, mesmo que não tenha nada a ver com a trama, tipo a participação do Lobão e os Ronaldos. O Barão Vermelho tem um papel pequeno, vê-los tocando faz parte da história. Já o Lobão só aparece “para o videoclipe”.

Revi Bete Balanço, e teve uma coisa que me incomodou bastante. A personagem Bete tem uma voz que se destaca. Mas quem interpreta é Débora Bloch, que não canta bem. Débora não está mal, é uma boa atriz (tanto que está aí até hoje), mas, para um papel desses, precisavam de uma atriz com a voz melhor!

Aproveito pra falar do elenco. Foi o filme de estreia da Débora Bloch, que, enquanto não está cantando, está bem. Lauro Corona faz seu par. Diogo Vilela faz um alívio cômico meio bobo. Também no elenco, Maria Zilda, Hugo Carvana, Cazuza e uma participação especial da Andrea Beltrão, estreando no cinema como uma das dançarinas (pouco depois ela ficaria bem conhecida). A nota triste é que Lauro Corona e Cazuza (que na época geravam piadas sobre serem a mesma pessoa porque eram bem parecidos fisicamente) faleceram alguns anos depois, ambos de Aids.

O final não é bom. Correram para inventar uma solução do nada. Podia ter 10 minutos a mais e concluírem direito as jornadas dos dois personagens principais. Em vez disso, colocaram um número de dança e deixaram pra lá.

Mesmo assim, foi gostoso rever. Só não sei se alguém que não viveu os anos 80 vai curtir.

Anônimo 2

Crítica –  Anônimo 2

Sinopse (filme B): Hutch e a esposa Becca se veem sobrecarregados e distantes. Por isso, decidem levar os filhos para uma pequena viagem de férias, que inclui também o pai de Hutch. Quando um encontro trivial com valentões locais coloca a família na mira de um operador corrupto de parque temático, Hutch vira alvo da chefe do crime mais insana que já enfrentou.

Anônimo, de 2021, foi uma boa surpresa, apesar de trazer a velha e batida trama de “um assassino profissional muito bom em sua profissão resolve se aposentar mas é forçado a voltar a ação” (premissa bem parecida com John Wick, do mesmo roteirista Derek Kolstad). Pena que foi lançado no meio da pandemia, e acho que nem chegou a passar nos cinemas brasileiros.

Anônimo não pedia uma continuação, mas o resultado até que ficou bom. Anônimo 2 é uma continuação bem parecida com o original, com tudo de positivo e negativo que isso pode significar.

Trocaram o diretor. O primeiro foi dirigido por Ilya Naishuler, que não podia assumir o segundo porque estava dirigindo Chefes de Estado. Convidaram então Timo Tjahjanto, diretor indonésio que fazia filmes de terror, como Macabre, em parceria com Kimo Stamboel (não sei se são parentes, mas eles assinavam filmes como “The Mo Brothers”). Junto com Gareth Evans (The Raid), fizeram Safe Heaven, uma das poucas coisas boas da franquia VHS. Depois disso, Timo seguiu “solo” fazendo filmes de ação, como Headshot e A Noite nos Persegue (com atores que estavam nos dois The Raid). Anônimo 2 é a estreia hollywoodiana de Timo. (Todos esses filmes foram comentados no heuvi)

A troca não atrapalhou o resultado. A produtora é a mesma, 87North, produtora fundada por David Leitch, ex dublê e agora diretor de filmes como Atômica, Trem Bala e O Dublê. Os filmes da 87North sempre privilegiam cenas de ação bem coreografadas e bem filmadas – afinal, o trabalho dos dublês!

Anônimo 2 é bem parecido com o primeiro. Começa com a rotina de Hutch, depois acontece algum incidente que “acende o pavio” e ele entra numa espiral de violência cada vez maior. No primeiro filme ele queimou dinheiro da máfia russa, e agora precisa trabalhar (como assassino profissional) para pagar por essa dívida. Aliás, essa sequência inicial já mostra qual será o tom do filme: muita violência aliada a situações bem engraçadas (e um bônus para o nosso público, porque entra uma música em português quando ele enfrenta personagens brasileiros).

Algumas sequências de ação são muito boas, como aquela no fliperama. A do barco também é boa, mas exige um pouco mais de suspensão de descrença – caramba, tinham outras pessoas no barco, como é que ninguém viu uma briga daquela intensidade? Além disso, Anônimo 2 sabe equilibrar o humor. Não é uma comédia, mas algumas cenas são engraçadíssimas.

Esta continuação é bem parecida com o primeiro filme, inclusive nos pontos fracos. Os vilões são caricatos, mas, o vilão do primeiro filme também era, então ok, foi coerente. Agora, vou reclamar do final. Não gosto do encerramento do primeiro filme, porque sabemos que Hutch é um cara extremamente habilidoso e sabe usar suas técnicas contra os seus adversários, então aceito quando ele está sozinho e briga contra vários. No encerramento do primeiro filme, inventaram uma sequência onde entram outras pessoas para ajudá-lo – incluindo um personagem que só aparece nesta sequência, e foi um final mais fraco que o resto do filme. Aqui temos o mesmo problema: enquanto Hutch está sozinho o filme é melhor. No fim, quando outras pessoas entram na briga, o filme cai um pouco, na minha humilde opinião. E o final da personagem da Connie Nielsen é muito previsível.

O elenco é bom. Bob Odenkirk, com 62 anos, está em forma e convence nas sequências de ação. Christopher Lloyd e Connie Nielsen têm mais importância aqui do que no primeiro filme. Sharon Stone faz a vilã caricata da vez. E Colin Hanks está com um corte de cabelo igual ao papai Tom Hanks em Forrest Gump. Também no elenco, John Ortiz e RZA.

Resumindo, Anônimo 2 é bem semelhante ao 1. Quem gostou do primeiro vai se divertir aqui.

Roberto Sadovski errou feio?

Roberto Sadovski errou feio?

Hoje meu texto ia ser outro, mas recebi um videozinho que o Roberto Sadovski fez para o Uol, e acho que preciso fazer alguns complementos àquele vídeo.

Antes de tudo, uma contextualização. Nasci em 71, passei minha adolescência nos anos 80, não existia Internet, conseguir informações sobre cinema era bem mais difícil. Heu comprava revistas que falavam de cinema (um conceito que talvez as novas gerações não entendam, como assim as pessoas compravam revistas mensalmente?). Heu lia de vez em quando a Cinemin, a Vídeo News e a Fotogramas e Vídeo. E lia SEMPRE a Set. Pra mim, a Set era a melhor revista sobre o assunto. Cheguei a ter a coleção completa, desde o primeiro número até a revista acabar.

Claro, não lembro quem eram as pessoas que escreviam. Naquela época, heu não prestava atenção nos nomes dos jornalistas. Mas sei que o Roberto Sadovski foi editor da revista. Então, antes da crítica, fica um agradecimento pelo trabalho feito na revista Set, que ajudou muito a aumentar a minha cultura cinematográfica.

(Não conheço o Sadovski pessoalmente. Já o vi em algumas sessões de imprensa, talvez já tenha cumprimentado ele, mas nunca conversamos. Ele nem deve saber quem heu sou.)

Enfim, respeito e admiro o Roberto Sadovski, mas, neste vídeo que ele fez pro UOL, tem algumas coisas que não estão 100% corretas. Humildemente, gostaria de complementar as informações que ele deu.

Sadovski fala sobre filmes de terror com o nome “A Hora”. Se a minha memória está correta, isso aconteceu a partir do grande sucesso de A Hora do Espanto, lançado lá fora em 1985, mas que só chegou aqui em maio de 86. Vivi aquela época, vi aqueles filmes no cinema, na época dos lançamentos – e me mudei de cidade no fim de 85, e me lembro de ter visto A Hora do Espanto no Art Copacabana, no Rio de Janeiro. Além disso, vou lançar em breve um vídeo sobre A Casa do Espanto, e pesquisei informações sobre os filmes lançados naquela época, que a imprensa chamou de “Espantomania” (se bobear, foi a própria Set quem cunhou essa expressão).

Mas, no seu vídeo, Sadovski não usou as datas brasileiras e sim o ano de produção dos filmes. Alguns filmes são anteriores ao A Hora do espanto, mas foram lançados aqui depois. Ele começa falando de Savage Weekend, de 1979, mas que segundo o imdb, foi lançado aqui em janeiro de 87, como A Hora do Calafrio – ou seja, pegando carona na Espantomania (sim, às vezes os filmes demoravam muito pra chegar). Depois fala de Final Exam, de 81, que virou A Hora das Sombras – mas esse não tem data de lançamento brazuca no imdb, então esse realmente não sei. Nightmare on Elm Street é de 1984, mas foi lançado aqui em novembro de 86 como A Hora do Pesadelo. Problema semelhante aconteceu com Dead Zone, de 83, que chegou aqui em novembro de 87 como Na Hora da Zona Morta. Re-Animator, de 85, estreou aqui em setembro de 87 como A Hora dos Mortos Vivos.

(Mas reconheço que nunca tinha associado Karate Kid a essa onda de títulos. Sim, Karate Kid, de 84, foi lançado como Karate Kid A Hora da Verdade. Boa lembrança, Sadovski!)

Resumindo: Sadovski fez uma lista se baseando nos lançamentos gringos mas se enganou nas datas que os filmes chegaram aqui. Se estamos falando dos nomes brasileiros, acho que a ordem deveria ser outra…

Aproveito aqui pra falar sobre uma dúvida. Agradeço comentários que me esclareçam. Uma delas é sobre Silver Bullet / A Hora do Lobisomem, que é de 85 e segundo o imdb chegou aqui em outubro do mesmo ano – ou seja, antes de A Hora do Espanto. Se essa data está correta, seria o primeiro filme da Espantomania. Mas, sinceramente, acho que o imdb está errado, porque a minha memória diz que chegou depois (esse lembro de ter visto no São Luiz, no Largo do Machado). Mas não achei na Internet alguma data exata. Se alguém souber, me fala?

Enfim, continuo admirando e seguindo o Roberto Sadovski. Só achei que precisava complementar o que ele falou.

Juntos

Crítica – Juntos

Sinopse (imdb): A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existências e suas forma físicas.

O sucesso de A Substância ano passado trouxe de volta os filmes de body horror, ou horror corporal. Este ano a gente já teve o bom The Ugly Stepsister, e agora chega aos cinemas este Juntos.

(The Ugly Stepsister é uma versão de terror da história da Cinderela, mas é bem diferente dessa onda recente de filmes vagabundos usando temas infantis, como os filmes do Ursinho Puff, do Mickey e do Popeye. Vale ser visto!)

Escrito e dirigido por Michael Shanks, Juntos (Together, no original) traz um casal em crise que se muda para uma cidadezinha onde algo misterioso parece querer juntar seus corpos. A ideia é boa. Mas o desenvolvimento, nem tanto.

Um problema básico é que estamos diante de um filme que se propõe a ser um “horror corporal” e temos poucas cenas mostrando o tal horror corporal. Sim, aparece, mas muito pouco. Além disso, algumas cenas são demasiadamente escuras, me pareceu que foi para esconder um possível baixo orçamento. Por outro lado, preciso reconhecer que a cena dos braços se juntando foi legal, tanto na parte visual quanto na parte narrativa.

Tem outra coisa, sei que não é grave, mas preciso dizer que me incomodou. Primeiro, o casal cai na caverna, e parece que não querem sair de lá. Ok, caíram, está chovendo muito, bora esperar uma meia hora, a chuva diminui, a gente sai, certo? Que nada. Eles dormem lá embaixo! Mas, até aí ok. O problema é que eles se machucam, suas pernas grudam, aparentemente é um ferimento feio – e eles não vão procurar tratamento médico?

Sobre as atuações, Dave Franco não é um bom ator. Mas, pelo menos ele funciona bem ao lado da Alison Brie (eles são um casal na vida real).

Preciso fazer um último comentário, mas é sobre algo que acontece no fim, então vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!

Não acho que um filme precise explicar tudo. Existe algo na água daquela caverna que ativa aquela magia / maldição. O que é? Não importa. O espectador só precisa saber que aquilo acontece. Beleza. Agora, acho que se um filme estabelece regras, o filme deve obedecer às próprias regras. Por que o casal do início do filme virou um monstro e o casal protagonista não virou?

FIM DOS SPOILERS!

Juntos não é ruim. Mas é besta. Tem coisa melhor por aí.

Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Crítica – Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Sinopse (imdb): Apenas um homem tem as habilidades necessárias para liderar o Esquadrão Policial e salvar o mundo.

Lembro quando anunciaram o novo Corra Que a Polícia Vem Aí. Não tenho ideia do motivo de terem escalado Liam Neeson para o papel principal – talvez pela piada besta dele ter o sobrenome parecido com o protagonista anterior, Leslie Nielsen. Enfim, não sei o motivo, mas posso afirmar que foi uma boa escolha. Corra Que a Polícia Vem Aí é divertidíssimo, e Liam Neeson está ótimo no papel!

Mas antes de entrar no filme, uma pequena recapitulação. Nem todos lembram, mas antes do primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí, existiu um seriado, lançado em 1982, que acho que não passou nas tvs brasileiras na época, mas tenho certeza de que foi lançado em VHS no fim dos anos 80 ou início dos 90 (sei disso porque heu vi, eram só seis episódios de vinte e poucos minutos cada, dava pra ver tudo alugando as fitas). A série era uma criação do trio ZAZ, David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, os mesmos criadores de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu e Top Secret, duas das melhores comédias nonsense da história do cinema. Lançado em 1988, o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí foi dirigido por David Zucker com roteiro do trio, e o mesmo aconteceu com o segundo, Corra Que a Polícia Vem Aí 2 1/2, de 1991. Em 94 fizeram o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3, que já tinha outro diretor e outro roteirista.

Anos se passaram, agora chegou a continuação, Corra Que a Polícia Vem Aí (o mesmo nome, problema semelhante ao recente Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado – por que não colocar um número???). Nenhum dos três ZAZ está presente aqui. A direção é de Akiva Schaffer, diretor do excelente (e pouco conhecido) Tico e Teco e os Defensores da Lei. A boa notícia é que Schaffer consegue recriar o estilo de humor nonsense semelhante ao do trio. Sabe aquele humor absurdo, tipo o protagonista mastigar um revólver para mostrar que é muito forte? Poizé, isso acontecia naqueles filmes e também acontece aqui.

Vou além: Schaffer também usa uma coisa que heu chamo de “piada em duas camadas” (nem sei se esse termo existe), que é quando o filme está contando uma piada, e lá ao fundo acontece outra piada diferente. Tipo quando, logo no início,  Frank Debrin entra na delegacia e estão tirando a foto de um suspeito (o “mugshot”) e tem um ventilador pro cabelo do suspeito ficar esvoaçante. Isso não é importante pra trama, é algo que está lá ao fundo – mesmo assim, é uma piada bem construída e bem executada. Isso tinha de monte nos filmes dos ZAZ, Schaffer soube recriar a ideia, você pode rever o filme e encontrar novas piadas que estão ao fundo das cenas.

Há tempos heu não via uma comédia tão engraçada numa sala de cinema. Atualmente, os filmes mais engraçados são os filmes de super herói, tipo Deadpool e Wolverine. Fui checar aqui no heuvi, de um ano pra cá só vi seis comédias: Golpe de Sorte em Paris, Anora, Operação Natal, Lobos, Bridget Jones e O Esquema Fenício – nenhum dos seis chega a causar gargalhadas. Vou te falar que Corra Que a Polícia Vem Aí sozinho tem mais piadas que todos os seis somados!

(Vou falar uma heresia. Semana passada revi o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí de 1988, pra me lembrar do clima do filme. E preciso dizer que ri mais neste novo filme de 2025.)

E, assim como Leslie Nielsen funcionava muito bem como o Frank Debrin pai nos filmes dos anos 80 e 90, Liam Neeson aqui está ótimo. O personagem tem que ser um cara completamente sem noção, e manter uma expressão séria diante de vários absurdos. Heu ia dizer que é o melhor filme do Liam Neeson em muito tempo, mas isso é fácil, ele só tem feito porcarias de um bom tempo pra cá. Ah, curiosidade: não parece, mas Liam Neeson hoje é bem mais velho do que Leslie Nielsen quando fazia os filmes. Neeson está com 72 anos; Nielsen tinha 67 quando filmou o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3.

Claro, nem todas as piadas funcionam. Mas é uma crítica que também faço aos filmes antigos, porque não acho graça em “piada de pum” – como quando Frank Debrin está mostrando as filmagens da câmera corporal e a gente vê que ele teve diarreia. Mas, como esse estilo de piada também estava nos outros filmes, não cabe reclamar agora – no primeiro filme, Frank Debrin vai ao banheiro com um microfone de lapela ligado ao som de uma entrevista coletiva. Mesmo assim, as boas piadas superam as piadas ruins.

No elenco, o único nome que vale ser citado além de Neeson é Pamela Anderson, que entrou bem no clima das piadas absurdas. Também no elenco, Danny Houston, Kevin Duran, Paul Walter Hauser e CCH Pounder.

No fim do filme, são duas cenas pós créditos. Mas as piadas não ficam só nessas duas cenas. Tem uma música nos créditos que é continuação de uma piada do filme; e ao longo dos créditos, várias piadinhas espalhadas. Vale ficar pra ler.

Por fim, a sessão de imprensa foi dublada, o que achei ruim. Entendo que queiram adaptar algumas piadas para o público brasileiro, mas sempre acho que um filme perde com a dublagem.

O Mistério da Lixeira

Crítica – O Mistério da Lixeira

Sinopse: Um barbeiro busca a polícia depois que sua casa é assaltada, dizendo que sua lixeira foi levada, deixando-os incertos se existe algo por trás desse objeto.

Semana passada, Glaucia Beretta, uma apoiadora do Podcrastinadores, recomendou um filme indiano que estava na Netflix. Fui pela recomendação, porque, vamos combinar, “O Mistério da Lixeira” não é um nome atrativo.

E preciso agradecer a recomendação: O Mistério da Lixeira é muito melhor do que o título sugere!

O problema é que é daquele tipo de filme que não podemos falar muita coisa. O roteiro – muito bem escrito – guarda detalhes que só são revelados no final do filme. E que final, meus amigos! Há tempos não via um final tão impactante assim!

O texto de hoje será curto justamente porque não vou entrar em detalhes sobre a trama. Só confie!

O Mistério da Lixeira é o segundo filme escrito e dirigido por Nithilan Saminathan – fiquei até com vontade de procurar seu primeiro longa, Kurangu Bommai, de 2017. Saminathan conduz muito bem a trama que parece um quebra cabeças, onde inicialmente vemos várias peças soltas e não entendemos nada, mas depois conseguimos ver tudo o que antes estava nebuloso.

O roteiro é bom, mas não achei perfeito. Mas não quero entrar em detalhes por causa de spoilers. Mas, preciso falar que não entendi como, na parte final, os policiais chegaram àquelas conclusões.

Recomendo O Mistério da Lixeira, mas antes preciso dizer que traz alguns temas pesados e violentos. então não é uma recomendação para todos.

Boa opção na Netflix!