Terror em Shelby Oaks

Crítica – Terror em Shelby Oaks

Sinopse (imdb): A busca desesperada de uma mulher por sua irmã há muito tempo perdida torna-se uma obsessão ao perceber que o demônio imaginário de sua infância pode ter sido real.

Fui ver Terror em Shelby Oaks sem saber nada sobre o filme. Achei um terror meia boca, algumas boas ideias aqui e ali, mas um filme esquecível no geral. Só depois que fui ler sobre os bastidores…

Terror em Shelby Oaks (Shelby Oaks, no original) é o filme de estreia de Chris Stuckmann, pioneiro em fazer críticas de cinema no youtube – o canal dele, hoje, tem pouco mais de dois milhões de inscritos. Mas, confesso que não conhecia ele…

Para conseguir financiamento para este filme, Stuckmann fez um crowdfunding no Kickstarter, e acabou levantando um milhão, trezentos e noventa mil dólares, através de 14720 apoiadores – e se tornou o maior sucesso da plataforma no que diz respeito à filmes de terror.

Ou seja: palmas para Stuckmann, youtuber que tinha um sonho, e conseguiu realizá-lo. Pena que o filme é fraco.

Me parece que Stuckmann tinha várias ideias e resolveu misturá-las. E faltou uma revisão mais rigorosa no roteiro para tirar excessos. Um exemplo simples: tem uma longa introdução no formato mockumentary, usando algumas cenas em found footage. Não contei, mas deve ser tipo meia hora de filme. Aí do nada o filme muda para a narrativa convencional. E aí mistura prisão assombrada, bruxa velha, possessão, demônio…

Parece que parte do problema foi uma alteração no projeto original, quando entrou um dinheiro extra além do que foi planejado e fizeram algumas refilmagens para “melhorar” o filme. Inclusive, Mike Flanagan virou produtor executivo e ajudou na divulgação. Não conhecemos o roteiro antes do aporte financeiro, mas, se já era um roteiro bagunçado antes, só piorou depois.

O resultado não “deu liga”. Algumas cenas são boas, mas é pouco. E o roteiro ainda tem várias coisas que não fazem o menor sentido, como por exemplo uma personagem que presencia um homem se matando na frente dela, o sangue do cara jorra no seu rosto, mas ela não se limpa e continua com a cara suja de sangue horas depois.

Enfim, aguardemos por um segundo projeto do youtuber diretor. Porque esse aqui ficou devendo.

Primitive War

Crítica – Primitive War

Sinopse (imdb): Vietnã, 1968. A equipe de reconhecimento do Esquadrão Abutre vai para um vale isolado para investigar o desaparecimento de um pelotão de boinas verdes. Sua missão toma um rumo sombrio quando descobrem uma ameaça invisível.

A premissa lembra um filme da Asylum: guerra do Vietnã com dinossauros. Mas, preciso reconhecer que o resultado aqui é bem melhor que a média da Asylum.

Primitive War é um filme australiano, baseado no livro homônimo escrito por Ethan Petrus em 2017. Não conheço o livro, vou falar só do filme. Acompanhamos uma equipe que precisa resgatar um grupo de boinas verdes. O problema é que encontram dinossauros quando chegam lá, o que muda todo o planejamento.

Claro que o grande lance são os dinossauros, principalmente em tempos onde temos alguns Jurassic World decepcionantes. E preciso dizer que quem curte dinossauros não vai se decepcionar: são muitos, de várias espécies diferentes. E alguns são ligeiramente diferentes do padrão “Jurassic Park” que estamos acostumados há 30 anos – por exemplo, alguns dinossauros têm penas! Não tem gente por aí que diz que aves são dinossauros?

Primitive War é um filme de baixo orçamento, e em algumas cenas vemos dinossauros meio toscos. Mas preciso dizer que durante a maior parte do filme o cgi dos dinossauros é muito bem feito. E se a gente pensar que Primitive War teve orçamento de 7 milhões, contra 180 milhões do último Jurassic World, o resultado ficou muito acima do esperado.

(Elogio os dinossauros, mas preciso reclamar do barulho tosco de quando o Tiranossauro Rex fecha a mandíbula. O som parece uma colher de pau batendo num balde de plástico. Talvez o cara tenha pesquisado e este talvez seja mais próximo do que deveria ser o som real. Mas, caramba, ficou muito tosco!)

Primitive War foi escrito, produzido, dirigido e editado por Luke Sparke, que ainda foi o responsável pelo design de produção e está creditado como produtor e supervisor de efeitos especiais. Vou além: Carly Sparke e Tracey Rose Sparke, mesmo sobrenome (catei no Google, não descobri se são esposa, irmã, filha, mãe… mas devem ser da família), estavam na produção, na escolha do elenco e no figurino. Ou seja, estamos diante de um projeto muito pessoal. Parabéns a Luke Sparke, mas, talvez fosse uma boa ideia ter alguém no topo da produção pra dizer “menos”… O resultado ficou muito bom, mas é longo demais. Um filme com essa temática não precisa ter mais de uma hora e meia, e Primitive War tem duas horas e treze minutos!

Primitive War chega a cansar, porque não tem necessidade de ser tão longo. Aí a gente começa a pensar em personagens inúteis, como por exemplo aquela vietnamita que andava com os russos, uma personagem tão irrelevante que nem consegui ver direito se ela sobreviveu no fim ou não. E aquele vilão russo é a coisa mais trash do filme. Não precisava disso, uma trama de soldados fugindo de dinossauros já seria suficiente.

O elenco também lembra Asylum, que costuma pegar sub celebridades hollywoodianas que precisam pagar boletos. Os principais aqui são Ryan Kwanten, que era um personagem secundário em True Blood, e Tricia Helfer, a Caprica Six de Battlestar Galactica – dois atores ok, mas que não têm muito mais a apresentar nos seus currículos. Também tem Jeremy Piven num papel menor. Ninguém está bem, mas ninguém está mal. Afinal, o importante é ver dinossauros.

O resultado final de Primitive War é bem melhor que o esperado. Ainda aguardo Luke Sparke numa produção um pouco melhor, onde alguém pode dar conselhos sobre alguns detalhes que podem melhorar sua obra. Mas fica aqui um parabéns!

Bom Menino

Crítica – Bom Menino

Sinopse (imdb): Um cão fiel se muda com seu tutor para uma casa de campo. Lá, ele descobre forças sobrenaturais escondidas nas sombras. Quando as entidades sombrias ameaçam seu dono, o corajoso cão deve lutar para protegê-lo.

A ideia era muito boa, um filme de terror sob o ponto de vista de um cachorro. Pena que o roteiro é fraco.

Mas antes de tudo, preciso falar uma coisa, responder a dúvida que paira na cabeça de todos os que leram essa sinopse e que gostam de cachorro. Espero que não seja spoiler, mas acho importante avisar: não, o cachorro não morre, nem tem nenhuma maldade com ele. Podem ver tranquilamente, se esse for o caso.

Vamos ao filme. Dirigido por Ben Leonberg, Bom Menino (Good Boy, no original) conta a história pelo ponto de vista do cachorro. E sem cgi! O filme todo é focado no cachorro e nas suas reações, enquanto o seu dono enfrenta problemas típicos de filmes de terror.

Tenho um grande elogio e uma grande crítica. Vou começar pelo elogio. O cachorro Indy é sensacional. Rolam piadas na Internet que ele deveria ser indicado ao Oscar, e é uma piada com fundo de verdade. Indy é o cachorro do diretor Ben Leonberg, e o cara fez mágica ao filmar seu doguinho. Tenho cachorro, tenho noção do quanto difícil é conseguir uma expressividade assim de um bicho de estimação.

O filme é curto, mas demorou 400 dias ao longo de três anos para ser filmado. Imagina o trabalho “de formiguinha” para conseguir tantos bons takes! Parabéns para o Indy e para seu dono Ben Leonberg!

Agora, precisamos trazer uma crítica: é um cachorro, ele não fala, tudo fica muito limitado. Então temos várias ideias repetidas. Ou seja, é um filme de uma hora e treze minutos que se arraaasta. Chega a ser chato. Indy merecia um roteiro melhor!

Sobre o elenco, o único nome importante é o do cachorro Indy. Inclusive, quase não vemos os rostos dos outros personagens. O filme é do cachorro!

Por fim, um mimimi sobre o título nacional. Já ouvi pessoas em inglês chamando cachorro de “good boy”, mas nunca ouvi a tradução em português. Acho que o melhor título em português seria “Bom Cachorro”…

O Telefone Preto 2

Crítica – O Telefone Preto 2

Sinopse (imdb): Enquanto Finn, de 17 anos, lida com a vida após seu cativeiro, sua irmã recebe ligações do telefone preto em seus sonhos e tem visões perturbadoras de três meninos perseguidos no acampamento de Alpine Lake.

Quatro anos atrás, terminei minha crítica de O Telefone Preto com a pergunta: será que veremos novamente o vilão “Grabber”? Bem, o filme custou 18 milhões e a bilheteria foi mais de 161 milhões. Além disso, é uma produção da Blumhouse, que tem várias franquias. Então, para surpresa de ninguém, chegou a continuação.

O problema é que – spoiler do primeiro filme – o vilão morreu. E agora? Como criar algo com um vilão que não está no mundo dos vivos? Por sorte, o filme tem temática sobrenatural. O Grabber virou uma espécie de Freddy Kruger – voltarei a esse ponto mais tarde.

O Telefone Preto 2 (Black Phone 2, no original) repete Scott Derrickson na direção, além de quase todo o elenco. Se passaram alguns anos, as crianças agora são quase jovens adultos, que vivem com o trauma do que aconteceu no primeiro filme. Gwen, a irmã mais nova, tem pesadelos que se mostram cada vez mais perigosos. Eles resolvem ir a uma espécie de acampamento de férias num lago congelado para investigar, e acabam presos lá por causa de uma nevasca.

Assim como no filme anterior, Scott Derrickson consegue criar um bom clima de tensão ao longo do filme. Agora não temos mais um cárcere num porão, mas por outro lado, durante boa parte do filme os personagens estão presos no tal acampamento, isolado por causa da neve – o visual é uma mistura de Sexta Feira 13 (Crystal Lake) com O Iluminado (isolados pela neve). A ambientação no início dos anos 80 também é muito boa, assim como aconteceu no filme anterior (que era no fim dos anos 70).

Scott Derrickson sabe usar sua câmera, e algumas sequências são bem legais. Tem uma onde o personagem está numa cabine telefônica e a câmera está rodando em volta que é muito boa! E ainda tem algumas cenas onde o gore é bem usado.

Sobre a citação ao Freddy Kruger, determinado momento o filme entra numa vibe meio Hora do Pesadelo 3 Os Guerreiros dos Sonhos. Em ambos os filmes, o personagem que está sonhando precisa aprender a lutar dentro do sonho para enfrentar o vilão. Ou seja, ideia repetida. Só não achei um problema porque Hora do Pesadelo 3 foi lançado 38 anos atrás. Ok, já tá liberado reciclar a ideia.

No elenco, Mason Thames e Madeleine McGraw cresceram, e o roteiro soube aproveitar isso, agora os personagens são quase adultos. Aliás, o ator que faz o Ernesto também estava no primeiro filme. Se no outro filme Finn era o principal, agora Gwen tem mais protagonismo. E é curioso que Ethan Hawke não mostra o rosto nenhuma vez. Pode até ser outro ator debaixo da máscara e da maquiagem – imagino ele conversando com o diretor (devem ser amigos, já fizeram três filmes juntos), “Scott, deve estar uma friaca lá, filma com o meu dublê e depois coloco a voz!”.

O Telefone Preto 2 não é o melhor terror do ano, mas não vai fazer feio com a garotada que curte terror pipoca no fim de semana no shopping.

Lago dos Ossos / Bone Lake

Crítica – Lago dos Ossos

Sinopse (Festival do Rio): Um casal, buscando se reconectar intimamente, aluga uma casa à beira de um lago para passar o fim de semana. Porém, outro casal também aparece. Ao perceberem que a propriedade foi reservada duas vezes ao mesmo tempo por engano, os dois casais concordam timidamente em compartilhar o espaço e aproveitar ao máximo o fim de semana juntos. O que começa promissor como amizade logo se transforma em uma série distorcida de sexo e mentiras, e o idílico fim de semana rapidamente desaba em uma torrente de violência orgiástica, com doses generosas de sensualidade e sede de sangue.

A sessão de Lago dos Ossos (Bone Lake, no original) teve presença ilustre, o ator Marco Pigossi (Cidade Invisível) estava lá para apresentar o filme (sim, filme gringo com ator brasileiro). E antes da sessão falaram do conceito da mostra Midnight Movies: filmes estranhos, com violência e com sexo – e Lago dos Ossos tem tudo isso misturado.

A premissa inicial é bem parecida com Barbarian – Noites Brutais, mas são filmes bem diferentes. Um casal vai passar um fim de semana numa casa à beira de um lago. Mas outro casal também aparece, o dono reservou para os dois casais. Os quatro então resolvem dividir a casa. Mas o segundo casal tem um comportamento, digamos, bem estranho.

Dirigido por Mercedes Bryce Morgan, Lago dos Ossos às vezes lembra Speak no Evil, onde pessoas que não se conhecem bem estão sob o mesmo teto, e o comportamento de uns torna a convivência bastante desconfortável. O segundo casal é muito sem noção!

O roteiro é bem estruturado. Tem um plot twist lá no meio onde a gente passa a ver tudo sob outro ponto de vista. E a parte final tem um divertido banho de sangue.

Agora, tem uma coisa que não entendi. O filme abre com uma sequência onde um casal, ambos nus, correm por uma floresta, enquanto alguém está atirando flechas neles. É uma sequência bem gráfica, a ponto de vermos o close de um saco sendo atravessado por uma flecha. E aí começa o filme, onde a nudez é toda bem comportada, parece que estamos num filme de sessão da tarde. Olha, não acho que nudez seja algo necessário, mas a nudez aqui não seria gratuita. E se o filme abre com imagens tão explícitas, por que o puritanismo no resto do filme?

O elenco tem basicamente quatro nomes: Marco Pigossi, Maddie Hasson, Alex Roe e Andra Nechita. Todos estão bem, e tenho um elogio extra ao inglês de Pigossi: sua pronúncia é perfeita! Wagner Moura estava ano passado em Guerra Civil, inglês fluente, mas a gente sente que ele é estrangeiro. Marco Pigossi consegue enganar!

Pigossi falou que Lago dos Ossos estreia aqui no Brasil em fevereiro. Não é um grande filme, mas quem entrar na onda vai se divertir.

A Própria Carne

Crítica – A Própria Carne

Sinopse (Festival do Rio): Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram.

E vamos ao terror do Jovem Nerd!

Reconheço que A Própria Carne foi uma agradável surpresa. Explico. Em primeiro lugar, Jovem Nerd hoje é mais conhecido como um bem humorado podcast. Não é um podcast de humor, mas certamente tem momentos engraçados. E em segundo lugar, o diretor do filme é Ian SBF, mais conhecido por dirigir dezenas (talvez centenas) de esquetes do canal Porta dos Fundos. Além disso, muitas vezes o cinema de terror flerta com o trash galhofa. Não acho isso algo negativo, gosto muito dos filmes do Rodrigo Aragão e do Paulo Biscaia Filho, ambos têm um pé fincado no trash, só estou constatando que existe essa conexão.

Quando ouvi falar que o Jovem Nerd ia fazer um filme de terror, achei que ia pro caminho da comédia trash. Mas não, olha que boa notícia: A Própria Carne é um filme sério e tenso! Zero trash!

(Não tenho nenhum contato direto com a galera do Jovem Nerd. O Azaghal uma vez gravou um áudio pro Podcrastinadores, mas foi só isso, sem uma interação. Sou amigo do Carlos Voltor e do Afonso 3D, que são ligados ao Jovem Nerd.)

Além do clima sério e tenso, outro elogio aqui vai para a bem cuidada produção de época. Cenários, figurinos e props, tudo está muito bem feito, nem parece uma produção independente.

Agora, o maior mérito de A Própria Carne está na escolha do ator Luiz Carlos Persy, mais famoso por ser o dublador de nomes como Stellan Skarsgård, Ralph Fiennes, Bryan Cranston e John Goodman. Persy está sensacional, cada frase proferida por ele causa medo. Seu personagem, o velho que cuida da cabana, é assustador, e, de longe, a melhor coisa do filme.

Por outro lado, não gostei da Jade Mascarenhas, a personagem dela não me passou consistência – quando estão cuidando da perna de um dos soldados, ela está rindo, achei meio nada a ver. Os três soldados desertores estão ok: George Sauma, Jorge Guerreiro e Pierre Baitelli.

Na parte final, o roteiro dá umas escorregadas. Os três desertores sabem que estão numa roubada, mas nada fazem pra tentar fugir. A história se encerra, mas o final deixa um gancho pra uma continuação – mas na minha humilde opinião, o melhor seria parar por aí mesmo.

A Própria Carne não é um grande marco do terror nacional, mas é uma diversão honesta. Quem venham outros filmes brasileiros do mesmo nível!

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Os Estranhos: Capítulo 2

Crítica – Os Estranhos: Capítulo 2

Sinopse (filmeB): Quando descobrem que uma de suas vítimas, Maya, ainda está viva, os mascarados retornam para terminar o que começaram. Em um pesadelo sem fim, sem ninguém em quem confiar, Maya se torna presa em uma caçada macabra, enquanto os Estranhos, movidos por uma sede insaciável de violência, a perseguem implacavelmente.

(O filme é tão qualquer coisa que a sinopse do imdb está errada, colocaram a sinopse do filme anterior, Os Estranhos Capítulo 1.)

Lançado em 2008, Os Estranhos era um terror meia boca, que gerava algum interesse por causa de misteriosos assassinos. O filme ganhou uma continuação igualmente meia boca em 2018, e uma refilmagem completamente desnecessária ano passado. E o pior de tudo: essa continuação foi feita em três partes: filmaram uma trilogia logo de uma vez. O problema é que Os Estranhos Capítulo 1 é ruim. Ou seja, como trazer público pra ver uma continuação de um filme ruim? Pior: uma continuação de um filme ruim, e que não vai ter final, porque ainda falta o terceiro filme?

(Taí, acho que a estratégia dos realizadores era “vamos logo gravar os três filmes, porque se a gente fizer só um e depois tentar vender uma continuação, ninguém vai topar. Então a gente vende o pacote fechado da trilogia, antes de descobrirem que o filme é ruim. Genial!)

Para surpresa de zero pessoas, Os Estranhos Capítulo 2 (The Strangers: Chapter 2, no original) é ruim, tão ruim quanto o primeiro. A direção é de Renny Harlin, já falei dele antes, é um cara que tem um currículo razoável no passado (Duro de Matar 2, Risco Total, A Ilha da Garganta Cortada), mas que de um tempo pra cá só tem feito bombas. Sr. Harlin, que tal a aposentadoria?

Como é o segundo filme de uma trilogia, a gente já sabe que a final girl Maya (Madelaine Petsch) não vai morrer. Mas ela sofre bastante, o filme inteiro ela está enfrentando problemas. Ela só não sofre tanto quanto o espectador na sala de cinema.

O filme começa onde o anterior termina: a protagonista Maya está num hospital. Aí o assassino começa a persegui-la. Ela foge por vários corredores, com o cara atrás, mascarado e com um machado na mão. Como é que não tem NINGUÉM no hospital?

Não sabemos ainda por que os assassinos matam, se existe algum motivo para escolher as vítimas ou se é algo aleatório. Pelo que entendi, eles matam forasteiros, afinal, é uma cidade pequena, a população local ia reagir – mas isso é a minha interpretação. Se heu estiver certo, por que matar o faxineiro do necrotério, e depois a mulher da casa perto do hospital?

No meio do sofrimento da protagonista, tem uma cena onde ela é atacada por um javali. Não é exatamente um problema, mas é uma cena desnecessária. Pra que? Fiquei com pena do javali!

Provavelmente pra esticar a história, resolveram inventar um passado para os assassinos mascarados. Vemos flashbacks com a infância dos assassinos. Ficou bem tosco, será que vão querer humanizar os vilões no terceiro filme?

O roteiro ainda traz uns furos enormes. Nem vou reclamar de erros pequenos, como, uma cena onde Maya acorda e vê que todos os cortes que ela teve na floresta e na luta com o javali agora estão com pontos – mas a testa dela continua com a ferida aberta. Caramba, se vai fechar outros cortes com pontos, pra que deixar um aberto? Mas não reclamo desta cena porque tem coisa pior. Tem uma cena onde ela está sozinha num quarto. Uma das mascaradas tenta abrir a porta (depois a gente descobre que os mascarados já tinham invadido a casa). Ela consegue empurrar a invasora e tranca a porta. Mas tinha outra dentro do quarto. Oi? Por onde ela entrou? E se já estava no quarto, por que não atacou antes?

Heu podia falar mais, tipo uma cena onde Maya ataca uma das mascaradas enfiando um ancinho na barriga dela, mas o filme esquece essa vilã ferida. Ou outra, onde Maya está sozinha na floresta e rasga o vestido pra cuidar do curativo na barriga. Moça, você está sozinha, ninguém vai ver se você levantar o vestido rapidinho! Não é melhor manter a roupa inteira sem rasgar?

Agora, o pior de tudo é que o filme não acaba. Em trilogias bem feitas e bem planejadas, cada filme traz um arco que se encerra e deixa ganchos para o filme seguinte. Aqui não. O filme simplesmente pára e aparece um “continua” na tela. O primeiro filme é ruim, o segundo filme é ruim, mas pra ver o fim da história, precisa ver um terceiro filme – provavelmente ruim também.

O primeiro filme esteve na minha lista de piores filmes de 2024. Provavelmente o segundo volta aqui na lista de piores de 2025.

Bambi: O Acerto de Contas / Bambi: The Reckoning

Crítica – Bambi: O Acerto de Contas / Bambi: The Reckoning

Sinopse (imdb): Depois que mãe e filho sofrem um acidente de carro, eles logo são caçados por Bambi, um cervo mutante e angustiado em uma fúria mortal em busca de vingança pela morte de sua mãe.

Ok, é o filme de terror do Bambi. Ninguém imaginava que seria bom. Principalmente porque faz parte do Poohniverse, ou TCU (Twisted Childhood Universe), que começou com aquele filme horroroso do Ursinho Puff. Nenhum dos filmes dessa galera tem qualidade.

Mas, olha, Bambi me surpreendeu. Consegue ser ainda pior do que o esperado!

O início é semelhante aos filmes do Ursinho Puff e do Popeye, um desenho animado minimalista contando que a mãe do Bambi morreu, depois o pai morreu, depois ele bebeu lixo contaminado e virou um monstro. Um monstro vingativo.

Aí parte pro filme de verdade, e logo vemos o Bambi monstrão atacando – na talvez pior cena de capotamento de carro da história do cinema. Quem me conhece sabe que não costumo reclamar de efeitos especiais, se estou reclamando é porque são realmente ruins!

O Bambi monstro é cgi. Pra ajudar a disfarçar, todas as cenas são escuras – coisa comum quando o cgi é de baixa qualidade. Algumas poucas cenas o Bambi parece convincente. Quase o filme todo ele está bem tosco. Acho que teria um resultado melhor se alternasse o cgi com um boneco animatrônico.

São duas tramas correndo em paralelo. Na principal, uma mãe está levando seu filho adolescente para um evento na família do ex. Enquanto isso, vemos um grupo de caçadores tentando caçar o Bambi monstro. Até aí, ok. Mas determinado momento a gente descobre que o ex da protagonista está no meio dos caçadores. Caramba, se ele sabia que havia um perigo na área, por que não avisou a família? Ele ainda leva seu filho pra lá!

O roteiro tem umas paradas que não fazem sentido. A vovó (sei lá qual é o nome da personagem) dá a entender que tem alguma ligação espiritual com o Bambi. Ok, podemos desenvolver algo em cima disso. Mas claro que o roteiro ignora essa conexão.

Isso porque não estou falando de bizarrices como o Bambi girar uma maçaneta com o casco. Sério, por que não colocaram uma maçaneta diferente, daquelas tipo alavanca?

Algumas mortes são ok. Mas nenhuma é memorável. O filme podia ter explorado mais o gore.

O elenco é de atores desconhecidos e ruins. Mas isso já era esperado, não chega a ser uma surpresa. E, sejamos justos: no mar de atuações ruins, até que a protagonista Roxanne McKee nem é tão ruim.

Pra não dizer que é tudo um lixo, gostei da cena dos coelhos. Nada muito genial, mas, gostei de como a ameaça se apresenta e gostei do desfecho. Se todo o filme fosse nessa pegada, seria bem melhor.

No fim, é apenas mais um filme desnecessário, só pra aproveitar que contos infantis estão caindo no domínio público. Pena que poucos têm qualidade. Se fossem na onda de The Ugly Stepsister, seria bem melhor pro fã de terror.

As Sete Vampiras (texto revisado e ampliado)

DEDE

Crítica – As Sete Vampiras

Sinopse (imdb): Um botânico é incapaz de lidar com uma planta carnívora que transforma suas vítimas em vampiros. Um detetive desajeitado e sua secretária são contratados para solucionar as mortes misteriosas que acontecem em um show em uma boate.

Depois da “trilogia Lael Rodrigues”, vamos para algo um pouco diferente.

Tive dúvidas se As Sete Vampiras poderia estar nesta playlist de filmes ligados ao rock nacional dos anos 80. Porque é muito mais um “filme do Ivan Cardoso” do que um filme ligado ao rock BR. Mas, a música As Sete Vampiras, feita para o filme, foi um grande sucesso, o Leo Jaime é um dos atores principais, e ainda tem participação especial da banda João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Ou seja, por mim entra na lista.

(Sou muito fã de João Penca. Achei muito mais legal ver o João Penca aqui do que o Barão Vermelho em Bete Balanço ou o Metrô em Rock Estrela.)

As Sete Vampiras marcou minha adolescência, por três motivos, e reconheço que um deles é algo que não me orgulho. Gostava do filme porque tinha Leo Jaime e João Penca, e também gostava porque parte do filme se passa no Quitandinha, em Petrópolis, local onde morei por alguns meses quando tinha uns 8 ou 9 anos de idade. Foi legal ver na tela alguns cenários que fizeram parte da minha infância. O terceiro motivo não é muito nobre, é um guilty pleasure: vi As Sete Vampiras na minha adolescência, e gostava de ver as mulheres nuas – coisa bastante comum nos filmes do Ivan Cardoso, diga-se de passagem.

As Sete Vampiras é, na minha humilde opinião, o melhor filme dirigido pelo Ivan Cardoso – talvez o maior nome do trash brasileiro – conheço outros diretores que fazem filmes trash, mas nenhum teve o alcance do Ivan – talvez só o Zé do Caixão, mas, entre os dois, prefiro o estilo galhofa do Ivan. Ele mistura o terror com a comédia, foi com os seus filmes que conheci o termo “terrir” (que achei que era invenção dele, mas anos depois descobri que já existia em uma revista do fim dos anos 60!)

O roteiro é de Rubens Francisco Lucchetti, ou RF Lucchetti, nome não muito conhecido do grande público, mas cultuado no underground como “o papa do pulp no Brasil”. Além de As Sete Vampiras, Lucchetti escreveu roteiros para outros filmes do Ivan, como O Segredo da Múmia, O Escorpião Escarlate e Um Lobisomem na Amazônia (além de alguns filmes do Zé do Caixão). Recentemente ouvi falar do seu nome quando a Vigor Mortis lançou, em 2022, a webserie A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti, já comentado aqui no heuvi.

Vamos ao filme. A história é uma bobagem deliciosa. A trama envolve uma planta carnívora importada da África, vampiros, anos 50 e misteriosos assassinatos em série. E muitos clichês de filmes de terror, como um assassino mascarado empunhando uma faca, referência aos filmes giallo.

Aqui nada é para se levar a sério. Tem uma planta carnívora tosca tosca tosca, parece tirada de um seriado televisivo infantil tipo Castelo Rá Tim Bum. E ainda tem algumas referências divertidas, como o personagem do Nuno Leal Maia, Raimundo Marlou, homenagem ao escritor Raymond Chandler e seu personagem Philip Marlowe.

Rola MUITA nudez gratuita! Quase todas as atrizes tiram a roupa, e quase sempre sem justificativa – coisa normal nos filmes do diretor. O Helvecio adolescente curtia muito, mas hoje reconheço que é exagerado. Enfim, nudez gratuita sempre foi algo comum no cinema nacional. Aqui tem mais do que nos três filmes comentados nas últimas semanas, mas naqueles filmes também tem: Débora Bloch em Bete Balanço, Malu Mader em Rock Estrela e Lidia Brondi em Rádio Pirata.

O elenco conta com um monte de nomes interessantes, como Nuno Leal Maia, Leo Jaime, Nicole Puzzi, Lucélia Santos, Simone Carvalho, Susana Matos, Andréa Beltrão, Danielle Daumerie, Dedina Bernardeli, Tania Boscoli, Wilson Grey, John Herbert, Ivon Cury, Pedro Cardoso, Tião Macalé, Carlo Mossy e Colé Santana. Tem uma ponta do Dedé Santana, dizem os boatos que ele foi ao set para vigiar a namorada Susana Matos, mas não achei nada que confirme isso.

Foi muito legal rever o número musical com o Leo Jaime cantando a música As Sete Vampiras. Não reconheci todos os músicos da banda, mas dá pra ver o guitarrista Sergio Serra, que depois foi para o Ultraje a Rigor. E temos os quatro “miquinhos” do João Penca fazendo uma coreografia gaiata: Selvagem Big Abreu, Bob Gallo, Leandro (na época que encarnava o “guitarrista mascarado”) e Avellar Love.

Teve uma coisa no roteiro que achei estranha, mas não sei se posso dizer que é uma falha ou uma ousadia estilística. Alguns personagens terminam o filme como protagonistas, mas só aparecem no meio da trama, como os interpretados por Leo Jaime, Nuno Leal Maia e Andrea Beltrão, que entram no filme perto dos 40 minutos de projeção.

As Sete Vampiras não é um filme para qualquer público. Mas continuo gostando!