Sombras no Deserto

Crítica – Sombras no Deserto

Sinopse (imdb): O filho, conhecido apenas como “O Menino”, é levado a duvidar por outra criança misteriosa e se rebela contra o seu guardião, o Carpinteiro, revelando poderes inatos e um destino além de sua compreensão.

Taí, um filme de terror com Jesus Cristo adolescente pode ser uma boa ideia.

Fui católico, mas não sou um grande entendedor de assuntos bíblicos. Mas sei que, oficialmente, a Bíblia fala do nascimento de Jesus e depois só fala dele depois dos 30 anos de idade. Teoricamente, tudo o que ele fez foi dos 30 aos 33. Fico imaginando uma história de ficção com Jesus aos 25 anos, trabalhando como carpinteiro como seu pai. Será que naquela época as pessoas se casavam cedo? Imagina se Jesus casou e teve filhos antes de descobrir sua vocação? Imagina uma história com um filho de Jesus sofrendo porque ficou órfão?

(Acho que se alguém escrevesse uma história dessas, mesmo dizendo que é ficção, seria cancelado…)

Em Sombras no Deserto (The Carpenter’s Son, no original), acompanhamos um casal com um filho recém nascido, que foge porque estão matando bebês. Anos se passam, o garoto agora é adolescente, quase adulto, e começa a descobrir que tem poderes milagrosos, quando acidentalmente cura um leproso.

Escrito e dirigido por Lotfy Nathan, Sombras no Deserto teoricamente é baseado no evangelho apócrifo de Tomé – um texto não oficial da Bíblia que conta sobre milagres realizados por Jesus ainda criança. Não entendo de evangelhos apócrifos, mas li no imdb que a trama aqui não tem muito a ver com o texto bíblico…

Mas, sabe qual é o problema? Tudo é muito raso. Sombras no Deserto falha em propor uma boa trama usando questionamentos em cima dos dogmas da igreja católica. E também falha em criar um clima de terror, não existe nada assustador aqui. É só um filme arrastado – e chato.

Nem tudo é ruim. A ambientação em locações no Egito é boa. E gostei de como mostraram o diabo. Quando o garoto é tentado, aparece para ele como uma menina jovem – mas quando outras pessoas veem o mesmo diabo, enxergam outras coisas.

Li no imdb que Robert Eggers teria dito que seria um desafio trabalhar com Nicolas Cage. Cage então teria pedido ao seu agente para procurar um roteiro o mais próximo possível aos filmes de Eggers. Deve ter sido assim que Cage entrou no elenco. Mas, não é um “filme do Nicolas Cage”, não temos exageros de over acting comuns no atual momento da carreira do astro. Noah Jupe (Um Lugar Silencioso) faz “o garoto”, que a gente sabe que é Jesus, mas o filme não quer assumir. FKA Twigs (O Corvo) é a mãe, mas está bem apagada, é uma das Marias mais sem graça da história do cinema. Também no elenco, Isla Johnston, gostei dela como a versão do diabo que interage com Jesus.

Sombras no Deserto podia ser um novo A Última Tentação de Cristo, provocando os dogmas cristãos. Mas faltou talento. Será um filme esquecido em pouco tempo.

Enterre Seus Mortos

Crítica – Enterre Seus Mortos

Sinopse (imdb): Em uma paisagem rural apocalíptica, o coletor de animais atropelados Edgar Wilson planeja uma fuga com sua namorada Nete, mas tem sonhos violentos.

Enterre Seus Mortos passou no Festival do Rio ano passado, não consegui ver, mas alguns amigos viram, e todos foram unânimes: era um dos piores filmes daquele ano. Mais de um ano depois, passou nos cinemas e finalmente tive oportunidade de assistir, e concordo com eles. Pensei em não fazer texto sobre Enterre Seus Mortos, porque não gosto muito de falar mal de terror nacional. Mas Enterre Seus Mortos foi tão decepcionante que talvez ele volte no top 10 de piores do ano. Então bora comentar logo.

Enterre Seus Mortos é o novo filme dirigido por Marco Dutra. Não sou muito fã do estilo dele, mas já vi alguns dos seus filmes. E ele merece respeito porque quase sempre consegue colocar seus filmes no circuito, coisa rara em se falando em terror nacional. O filme foi baseado no livro homônimo, escrito por Ana Paula Maia, que co-escreveu o roteiro com Dutra.

(Enterre Seus Mortos estava em cartaz. Fui ao Cinemark Downtown numa segunda feira para assistir. E heu era o ÚNICO dentro da sala de cinema. Fico triste pela bilheteria ruim. Mas, olhando pelo lado egoísta, olha só, não tinha ninguem usando celular…)

Enterre Seus Mortos começa bem. O espectador cai direto num mundo apocalíptico, onde pessoas estão fugindo do planeta e uma religião fundamentalista toma conta da sociedade. Somos apresentados a Edgar Wilson, um cara cujo trabalho é recolher animais mortos que podem estar contaminados.

(Sabe aquelas coisas que só heu penso? Toda vez que ouvia “Edgar Wilson” me lembrava de Ed Wilson, cantor da época da Jovem Guarda, um dos fundadores da banda Renato e Seus Blue Caps…)

A trama é arrastada, mas reconheço que estava gostando desse clima apocalíptico maluco. Mas, na parte final, o filme muda para uma direção completamente diferente. Mas vou ter que entrar nos spoilers pra comentar isso.

SPOILERS!

A distopia apocalíptica estava andando bem. Mas do nada mudam o foco do filme e vira um filme de possessão demoníaca. De onde veio isso?

Depois ainda tem uma maluquice de uma menina polvo. Mas quando isso apareceu, o filme já tinha me perdido com a possessão.

FIM DOS SPOILERS!

No elenco, gostei de ver Selton Mello num papel um pouco diferente do de sempre. Não que seja uma grande atuação, não é. Mas, sabe aquele estilo sempre igual, que ele repete em qualquer filme ou programa de TV? Aqui ele não está igual. Já Marjorie Estiano, grande atriz, aqui só faz o feijão com arroz. Também no elenco, Betty Faria, Danilo Grangheia e Gilda Nomacce.

Gosto do Marco Dutra, gosto de prestigiar terror nacional. Tomara que 2025 tenha dez filmes piores…

Terror em Shelby Oaks

Crítica – Terror em Shelby Oaks

Sinopse (imdb): A busca desesperada de uma mulher por sua irmã há muito tempo perdida torna-se uma obsessão ao perceber que o demônio imaginário de sua infância pode ter sido real.

Fui ver Terror em Shelby Oaks sem saber nada sobre o filme. Achei um terror meia boca, algumas boas ideias aqui e ali, mas um filme esquecível no geral. Só depois que fui ler sobre os bastidores…

Terror em Shelby Oaks (Shelby Oaks, no original) é o filme de estreia de Chris Stuckmann, pioneiro em fazer críticas de cinema no youtube – o canal dele, hoje, tem pouco mais de dois milhões de inscritos. Mas, confesso que não conhecia ele…

Para conseguir financiamento para este filme, Stuckmann fez um crowdfunding no Kickstarter, e acabou levantando um milhão, trezentos e noventa mil dólares, através de 14720 apoiadores – e se tornou o maior sucesso da plataforma no que diz respeito à filmes de terror.

Ou seja: palmas para Stuckmann, youtuber que tinha um sonho, e conseguiu realizá-lo. Pena que o filme é fraco.

Me parece que Stuckmann tinha várias ideias e resolveu misturá-las. E faltou uma revisão mais rigorosa no roteiro para tirar excessos. Um exemplo simples: tem uma longa introdução no formato mockumentary, usando algumas cenas em found footage. Não contei, mas deve ser tipo meia hora de filme. Aí do nada o filme muda para a narrativa convencional. E aí mistura prisão assombrada, bruxa velha, possessão, demônio…

Parece que parte do problema foi uma alteração no projeto original, quando entrou um dinheiro extra além do que foi planejado e fizeram algumas refilmagens para “melhorar” o filme. Inclusive, Mike Flanagan virou produtor executivo e ajudou na divulgação. Não conhecemos o roteiro antes do aporte financeiro, mas, se já era um roteiro bagunçado antes, só piorou depois.

O resultado não “deu liga”. Algumas cenas são boas, mas é pouco. E o roteiro ainda tem várias coisas que não fazem o menor sentido, como por exemplo uma personagem que presencia um homem se matando na frente dela, o sangue do cara jorra no seu rosto, mas ela não se limpa e continua com a cara suja de sangue horas depois.

Enfim, aguardemos por um segundo projeto do youtuber diretor. Porque esse aqui ficou devendo.

Primitive War

Crítica – Primitive War

Sinopse (imdb): Vietnã, 1968. A equipe de reconhecimento do Esquadrão Abutre vai para um vale isolado para investigar o desaparecimento de um pelotão de boinas verdes. Sua missão toma um rumo sombrio quando descobrem uma ameaça invisível.

A premissa lembra um filme da Asylum: guerra do Vietnã com dinossauros. Mas, preciso reconhecer que o resultado aqui é bem melhor que a média da Asylum.

Primitive War é um filme australiano, baseado no livro homônimo escrito por Ethan Petrus em 2017. Não conheço o livro, vou falar só do filme. Acompanhamos uma equipe que precisa resgatar um grupo de boinas verdes. O problema é que encontram dinossauros quando chegam lá, o que muda todo o planejamento.

Claro que o grande lance são os dinossauros, principalmente em tempos onde temos alguns Jurassic World decepcionantes. E preciso dizer que quem curte dinossauros não vai se decepcionar: são muitos, de várias espécies diferentes. E alguns são ligeiramente diferentes do padrão “Jurassic Park” que estamos acostumados há 30 anos – por exemplo, alguns dinossauros têm penas! Não tem gente por aí que diz que aves são dinossauros?

Primitive War é um filme de baixo orçamento, e em algumas cenas vemos dinossauros meio toscos. Mas preciso dizer que durante a maior parte do filme o cgi dos dinossauros é muito bem feito. E se a gente pensar que Primitive War teve orçamento de 7 milhões, contra 180 milhões do último Jurassic World, o resultado ficou muito acima do esperado.

(Elogio os dinossauros, mas preciso reclamar do barulho tosco de quando o Tiranossauro Rex fecha a mandíbula. O som parece uma colher de pau batendo num balde de plástico. Talvez o cara tenha pesquisado e este talvez seja mais próximo do que deveria ser o som real. Mas, caramba, ficou muito tosco!)

Primitive War foi escrito, produzido, dirigido e editado por Luke Sparke, que ainda foi o responsável pelo design de produção e está creditado como produtor e supervisor de efeitos especiais. Vou além: Carly Sparke e Tracey Rose Sparke, mesmo sobrenome (catei no Google, não descobri se são esposa, irmã, filha, mãe… mas devem ser da família), estavam na produção, na escolha do elenco e no figurino. Ou seja, estamos diante de um projeto muito pessoal. Parabéns a Luke Sparke, mas, talvez fosse uma boa ideia ter alguém no topo da produção pra dizer “menos”… O resultado ficou muito bom, mas é longo demais. Um filme com essa temática não precisa ter mais de uma hora e meia, e Primitive War tem duas horas e treze minutos!

Primitive War chega a cansar, porque não tem necessidade de ser tão longo. Aí a gente começa a pensar em personagens inúteis, como por exemplo aquela vietnamita que andava com os russos, uma personagem tão irrelevante que nem consegui ver direito se ela sobreviveu no fim ou não. E aquele vilão russo é a coisa mais trash do filme. Não precisava disso, uma trama de soldados fugindo de dinossauros já seria suficiente.

O elenco também lembra Asylum, que costuma pegar sub celebridades hollywoodianas que precisam pagar boletos. Os principais aqui são Ryan Kwanten, que era um personagem secundário em True Blood, e Tricia Helfer, a Caprica Six de Battlestar Galactica – dois atores ok, mas que não têm muito mais a apresentar nos seus currículos. Também tem Jeremy Piven num papel menor. Ninguém está bem, mas ninguém está mal. Afinal, o importante é ver dinossauros.

O resultado final de Primitive War é bem melhor que o esperado. Ainda aguardo Luke Sparke numa produção um pouco melhor, onde alguém pode dar conselhos sobre alguns detalhes que podem melhorar sua obra. Mas fica aqui um parabéns!

Bom Menino

Crítica – Bom Menino

Sinopse (imdb): Um cão fiel se muda com seu tutor para uma casa de campo. Lá, ele descobre forças sobrenaturais escondidas nas sombras. Quando as entidades sombrias ameaçam seu dono, o corajoso cão deve lutar para protegê-lo.

A ideia era muito boa, um filme de terror sob o ponto de vista de um cachorro. Pena que o roteiro é fraco.

Mas antes de tudo, preciso falar uma coisa, responder a dúvida que paira na cabeça de todos os que leram essa sinopse e que gostam de cachorro. Espero que não seja spoiler, mas acho importante avisar: não, o cachorro não morre, nem tem nenhuma maldade com ele. Podem ver tranquilamente, se esse for o caso.

Vamos ao filme. Dirigido por Ben Leonberg, Bom Menino (Good Boy, no original) conta a história pelo ponto de vista do cachorro. E sem cgi! O filme todo é focado no cachorro e nas suas reações, enquanto o seu dono enfrenta problemas típicos de filmes de terror.

Tenho um grande elogio e uma grande crítica. Vou começar pelo elogio. O cachorro Indy é sensacional. Rolam piadas na Internet que ele deveria ser indicado ao Oscar, e é uma piada com fundo de verdade. Indy é o cachorro do diretor Ben Leonberg, e o cara fez mágica ao filmar seu doguinho. Tenho cachorro, tenho noção do quanto difícil é conseguir uma expressividade assim de um bicho de estimação.

O filme é curto, mas demorou 400 dias ao longo de três anos para ser filmado. Imagina o trabalho “de formiguinha” para conseguir tantos bons takes! Parabéns para o Indy e para seu dono Ben Leonberg!

Agora, precisamos trazer uma crítica: é um cachorro, ele não fala, tudo fica muito limitado. Então temos várias ideias repetidas. Ou seja, é um filme de uma hora e treze minutos que se arraaasta. Chega a ser chato. Indy merecia um roteiro melhor!

Sobre o elenco, o único nome importante é o do cachorro Indy. Inclusive, quase não vemos os rostos dos outros personagens. O filme é do cachorro!

Por fim, um mimimi sobre o título nacional. Já ouvi pessoas em inglês chamando cachorro de “good boy”, mas nunca ouvi a tradução em português. Acho que o melhor título em português seria “Bom Cachorro”…

O Telefone Preto 2

Crítica – O Telefone Preto 2

Sinopse (imdb): Enquanto Finn, de 17 anos, lida com a vida após seu cativeiro, sua irmã recebe ligações do telefone preto em seus sonhos e tem visões perturbadoras de três meninos perseguidos no acampamento de Alpine Lake.

Quatro anos atrás, terminei minha crítica de O Telefone Preto com a pergunta: será que veremos novamente o vilão “Grabber”? Bem, o filme custou 18 milhões e a bilheteria foi mais de 161 milhões. Além disso, é uma produção da Blumhouse, que tem várias franquias. Então, para surpresa de ninguém, chegou a continuação.

O problema é que – spoiler do primeiro filme – o vilão morreu. E agora? Como criar algo com um vilão que não está no mundo dos vivos? Por sorte, o filme tem temática sobrenatural. O Grabber virou uma espécie de Freddy Kruger – voltarei a esse ponto mais tarde.

O Telefone Preto 2 (Black Phone 2, no original) repete Scott Derrickson na direção, além de quase todo o elenco. Se passaram alguns anos, as crianças agora são quase jovens adultos, que vivem com o trauma do que aconteceu no primeiro filme. Gwen, a irmã mais nova, tem pesadelos que se mostram cada vez mais perigosos. Eles resolvem ir a uma espécie de acampamento de férias num lago congelado para investigar, e acabam presos lá por causa de uma nevasca.

Assim como no filme anterior, Scott Derrickson consegue criar um bom clima de tensão ao longo do filme. Agora não temos mais um cárcere num porão, mas por outro lado, durante boa parte do filme os personagens estão presos no tal acampamento, isolado por causa da neve – o visual é uma mistura de Sexta Feira 13 (Crystal Lake) com O Iluminado (isolados pela neve). A ambientação no início dos anos 80 também é muito boa, assim como aconteceu no filme anterior (que era no fim dos anos 70).

Scott Derrickson sabe usar sua câmera, e algumas sequências são bem legais. Tem uma onde o personagem está numa cabine telefônica e a câmera está rodando em volta que é muito boa! E ainda tem algumas cenas onde o gore é bem usado.

Sobre a citação ao Freddy Kruger, determinado momento o filme entra numa vibe meio Hora do Pesadelo 3 Os Guerreiros dos Sonhos. Em ambos os filmes, o personagem que está sonhando precisa aprender a lutar dentro do sonho para enfrentar o vilão. Ou seja, ideia repetida. Só não achei um problema porque Hora do Pesadelo 3 foi lançado 38 anos atrás. Ok, já tá liberado reciclar a ideia.

No elenco, Mason Thames e Madeleine McGraw cresceram, e o roteiro soube aproveitar isso, agora os personagens são quase adultos. Aliás, o ator que faz o Ernesto também estava no primeiro filme. Se no outro filme Finn era o principal, agora Gwen tem mais protagonismo. E é curioso que Ethan Hawke não mostra o rosto nenhuma vez. Pode até ser outro ator debaixo da máscara e da maquiagem – imagino ele conversando com o diretor (devem ser amigos, já fizeram três filmes juntos), “Scott, deve estar uma friaca lá, filma com o meu dublê e depois coloco a voz!”.

O Telefone Preto 2 não é o melhor terror do ano, mas não vai fazer feio com a garotada que curte terror pipoca no fim de semana no shopping.

Lago dos Ossos / Bone Lake

Crítica – Lago dos Ossos

Sinopse (Festival do Rio): Um casal, buscando se reconectar intimamente, aluga uma casa à beira de um lago para passar o fim de semana. Porém, outro casal também aparece. Ao perceberem que a propriedade foi reservada duas vezes ao mesmo tempo por engano, os dois casais concordam timidamente em compartilhar o espaço e aproveitar ao máximo o fim de semana juntos. O que começa promissor como amizade logo se transforma em uma série distorcida de sexo e mentiras, e o idílico fim de semana rapidamente desaba em uma torrente de violência orgiástica, com doses generosas de sensualidade e sede de sangue.

A sessão de Lago dos Ossos (Bone Lake, no original) teve presença ilustre, o ator Marco Pigossi (Cidade Invisível) estava lá para apresentar o filme (sim, filme gringo com ator brasileiro). E antes da sessão falaram do conceito da mostra Midnight Movies: filmes estranhos, com violência e com sexo – e Lago dos Ossos tem tudo isso misturado.

A premissa inicial é bem parecida com Barbarian – Noites Brutais, mas são filmes bem diferentes. Um casal vai passar um fim de semana numa casa à beira de um lago. Mas outro casal também aparece, o dono reservou para os dois casais. Os quatro então resolvem dividir a casa. Mas o segundo casal tem um comportamento, digamos, bem estranho.

Dirigido por Mercedes Bryce Morgan, Lago dos Ossos às vezes lembra Speak no Evil, onde pessoas que não se conhecem bem estão sob o mesmo teto, e o comportamento de uns torna a convivência bastante desconfortável. O segundo casal é muito sem noção!

O roteiro é bem estruturado. Tem um plot twist lá no meio onde a gente passa a ver tudo sob outro ponto de vista. E a parte final tem um divertido banho de sangue.

Agora, tem uma coisa que não entendi. O filme abre com uma sequência onde um casal, ambos nus, correm por uma floresta, enquanto alguém está atirando flechas neles. É uma sequência bem gráfica, a ponto de vermos o close de um saco sendo atravessado por uma flecha. E aí começa o filme, onde a nudez é toda bem comportada, parece que estamos num filme de sessão da tarde. Olha, não acho que nudez seja algo necessário, mas a nudez aqui não seria gratuita. E se o filme abre com imagens tão explícitas, por que o puritanismo no resto do filme?

O elenco tem basicamente quatro nomes: Marco Pigossi, Maddie Hasson, Alex Roe e Andra Nechita. Todos estão bem, e tenho um elogio extra ao inglês de Pigossi: sua pronúncia é perfeita! Wagner Moura estava ano passado em Guerra Civil, inglês fluente, mas a gente sente que ele é estrangeiro. Marco Pigossi consegue enganar!

Pigossi falou que Lago dos Ossos estreia aqui no Brasil em fevereiro. Não é um grande filme, mas quem entrar na onda vai se divertir.

A Própria Carne

Crítica – A Própria Carne

Sinopse (Festival do Rio): Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram.

E vamos ao terror do Jovem Nerd!

Reconheço que A Própria Carne foi uma agradável surpresa. Explico. Em primeiro lugar, Jovem Nerd hoje é mais conhecido como um bem humorado podcast. Não é um podcast de humor, mas certamente tem momentos engraçados. E em segundo lugar, o diretor do filme é Ian SBF, mais conhecido por dirigir dezenas (talvez centenas) de esquetes do canal Porta dos Fundos. Além disso, muitas vezes o cinema de terror flerta com o trash galhofa. Não acho isso algo negativo, gosto muito dos filmes do Rodrigo Aragão e do Paulo Biscaia Filho, ambos têm um pé fincado no trash, só estou constatando que existe essa conexão.

Quando ouvi falar que o Jovem Nerd ia fazer um filme de terror, achei que ia pro caminho da comédia trash. Mas não, olha que boa notícia: A Própria Carne é um filme sério e tenso! Zero trash!

(Não tenho nenhum contato direto com a galera do Jovem Nerd. O Azaghal uma vez gravou um áudio pro Podcrastinadores, mas foi só isso, sem uma interação. Sou amigo do Carlos Voltor e do Afonso 3D, que são ligados ao Jovem Nerd.)

Além do clima sério e tenso, outro elogio aqui vai para a bem cuidada produção de época. Cenários, figurinos e props, tudo está muito bem feito, nem parece uma produção independente.

Agora, o maior mérito de A Própria Carne está na escolha do ator Luiz Carlos Persy, mais famoso por ser o dublador de nomes como Stellan Skarsgård, Ralph Fiennes, Bryan Cranston e John Goodman. Persy está sensacional, cada frase proferida por ele causa medo. Seu personagem, o velho que cuida da cabana, é assustador, e, de longe, a melhor coisa do filme.

Por outro lado, não gostei da Jade Mascarenhas, a personagem dela não me passou consistência – quando estão cuidando da perna de um dos soldados, ela está rindo, achei meio nada a ver. Os três soldados desertores estão ok: George Sauma, Jorge Guerreiro e Pierre Baitelli.

Na parte final, o roteiro dá umas escorregadas. Os três desertores sabem que estão numa roubada, mas nada fazem pra tentar fugir. A história se encerra, mas o final deixa um gancho pra uma continuação – mas na minha humilde opinião, o melhor seria parar por aí mesmo.

A Própria Carne não é um grande marco do terror nacional, mas é uma diversão honesta. Quem venham outros filmes brasileiros do mesmo nível!

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Os Estranhos: Capítulo 2

Crítica – Os Estranhos: Capítulo 2

Sinopse (filmeB): Quando descobrem que uma de suas vítimas, Maya, ainda está viva, os mascarados retornam para terminar o que começaram. Em um pesadelo sem fim, sem ninguém em quem confiar, Maya se torna presa em uma caçada macabra, enquanto os Estranhos, movidos por uma sede insaciável de violência, a perseguem implacavelmente.

(O filme é tão qualquer coisa que a sinopse do imdb está errada, colocaram a sinopse do filme anterior, Os Estranhos Capítulo 1.)

Lançado em 2008, Os Estranhos era um terror meia boca, que gerava algum interesse por causa de misteriosos assassinos. O filme ganhou uma continuação igualmente meia boca em 2018, e uma refilmagem completamente desnecessária ano passado. E o pior de tudo: essa continuação foi feita em três partes: filmaram uma trilogia logo de uma vez. O problema é que Os Estranhos Capítulo 1 é ruim. Ou seja, como trazer público pra ver uma continuação de um filme ruim? Pior: uma continuação de um filme ruim, e que não vai ter final, porque ainda falta o terceiro filme?

(Taí, acho que a estratégia dos realizadores era “vamos logo gravar os três filmes, porque se a gente fizer só um e depois tentar vender uma continuação, ninguém vai topar. Então a gente vende o pacote fechado da trilogia, antes de descobrirem que o filme é ruim. Genial!)

Para surpresa de zero pessoas, Os Estranhos Capítulo 2 (The Strangers: Chapter 2, no original) é ruim, tão ruim quanto o primeiro. A direção é de Renny Harlin, já falei dele antes, é um cara que tem um currículo razoável no passado (Duro de Matar 2, Risco Total, A Ilha da Garganta Cortada), mas que de um tempo pra cá só tem feito bombas. Sr. Harlin, que tal a aposentadoria?

Como é o segundo filme de uma trilogia, a gente já sabe que a final girl Maya (Madelaine Petsch) não vai morrer. Mas ela sofre bastante, o filme inteiro ela está enfrentando problemas. Ela só não sofre tanto quanto o espectador na sala de cinema.

O filme começa onde o anterior termina: a protagonista Maya está num hospital. Aí o assassino começa a persegui-la. Ela foge por vários corredores, com o cara atrás, mascarado e com um machado na mão. Como é que não tem NINGUÉM no hospital?

Não sabemos ainda por que os assassinos matam, se existe algum motivo para escolher as vítimas ou se é algo aleatório. Pelo que entendi, eles matam forasteiros, afinal, é uma cidade pequena, a população local ia reagir – mas isso é a minha interpretação. Se heu estiver certo, por que matar o faxineiro do necrotério, e depois a mulher da casa perto do hospital?

No meio do sofrimento da protagonista, tem uma cena onde ela é atacada por um javali. Não é exatamente um problema, mas é uma cena desnecessária. Pra que? Fiquei com pena do javali!

Provavelmente pra esticar a história, resolveram inventar um passado para os assassinos mascarados. Vemos flashbacks com a infância dos assassinos. Ficou bem tosco, será que vão querer humanizar os vilões no terceiro filme?

O roteiro ainda traz uns furos enormes. Nem vou reclamar de erros pequenos, como, uma cena onde Maya acorda e vê que todos os cortes que ela teve na floresta e na luta com o javali agora estão com pontos – mas a testa dela continua com a ferida aberta. Caramba, se vai fechar outros cortes com pontos, pra que deixar um aberto? Mas não reclamo desta cena porque tem coisa pior. Tem uma cena onde ela está sozinha num quarto. Uma das mascaradas tenta abrir a porta (depois a gente descobre que os mascarados já tinham invadido a casa). Ela consegue empurrar a invasora e tranca a porta. Mas tinha outra dentro do quarto. Oi? Por onde ela entrou? E se já estava no quarto, por que não atacou antes?

Heu podia falar mais, tipo uma cena onde Maya ataca uma das mascaradas enfiando um ancinho na barriga dela, mas o filme esquece essa vilã ferida. Ou outra, onde Maya está sozinha na floresta e rasga o vestido pra cuidar do curativo na barriga. Moça, você está sozinha, ninguém vai ver se você levantar o vestido rapidinho! Não é melhor manter a roupa inteira sem rasgar?

Agora, o pior de tudo é que o filme não acaba. Em trilogias bem feitas e bem planejadas, cada filme traz um arco que se encerra e deixa ganchos para o filme seguinte. Aqui não. O filme simplesmente pára e aparece um “continua” na tela. O primeiro filme é ruim, o segundo filme é ruim, mas pra ver o fim da história, precisa ver um terceiro filme – provavelmente ruim também.

O primeiro filme esteve na minha lista de piores filmes de 2024. Provavelmente o segundo volta aqui na lista de piores de 2025.