Juntos

Crítica – Juntos

Sinopse (imdb): A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existências e suas forma físicas.

O sucesso de A Substância ano passado trouxe de volta os filmes de body horror, ou horror corporal. Este ano a gente já teve o bom The Ugly Stepsister, e agora chega aos cinemas este Juntos.

(The Ugly Stepsister é uma versão de terror da história da Cinderela, mas é bem diferente dessa onda recente de filmes vagabundos usando temas infantis, como os filmes do Ursinho Puff, do Mickey e do Popeye. Vale ser visto!)

Escrito e dirigido por Michael Shanks, Juntos (Together, no original) traz um casal em crise que se muda para uma cidadezinha onde algo misterioso parece querer juntar seus corpos. A ideia é boa. Mas o desenvolvimento, nem tanto.

Um problema básico é que estamos diante de um filme que se propõe a ser um “horror corporal” e temos poucas cenas mostrando o tal horror corporal. Sim, aparece, mas muito pouco. Além disso, algumas cenas são demasiadamente escuras, me pareceu que foi para esconder um possível baixo orçamento. Por outro lado, preciso reconhecer que a cena dos braços se juntando foi legal, tanto na parte visual quanto na parte narrativa.

Tem outra coisa, sei que não é grave, mas preciso dizer que me incomodou. Primeiro, o casal cai na caverna, e parece que não querem sair de lá. Ok, caíram, está chovendo muito, bora esperar uma meia hora, a chuva diminui, a gente sai, certo? Que nada. Eles dormem lá embaixo! Mas, até aí ok. O problema é que eles se machucam, suas pernas grudam, aparentemente é um ferimento feio – e eles não vão procurar tratamento médico?

Sobre as atuações, Dave Franco não é um bom ator. Mas, pelo menos ele funciona bem ao lado da Alison Brie (eles são um casal na vida real).

Preciso fazer um último comentário, mas é sobre algo que acontece no fim, então vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!

Não acho que um filme precise explicar tudo. Existe algo na água daquela caverna que ativa aquela magia / maldição. O que é? Não importa. O espectador só precisa saber que aquilo acontece. Beleza. Agora, acho que se um filme estabelece regras, o filme deve obedecer às próprias regras. Por que o casal do início do filme virou um monstro e o casal protagonista não virou?

FIM DOS SPOILERS!

Juntos não é ruim. Mas é besta. Tem coisa melhor por aí.

A Hora do Mal

Crítica – A Hora do Mal

Sinopse (imdb): Um épico de terror de várias histórias inter-relacionadas sobre o desaparecimento de estudantes da mesma sala de aula em uma pequena cidade.

Já falei aqui diversas vezes: fiquem de olho no diretor do filme, porque muitas vezes pode ser um bom indicativo do que virá pela frente. Lembro quando vi Barbarian / Noites Brutais, primeiro filme escrito e dirigido pelo então desconhecido (pelo menos pra mim) Zach Cregger. Barbarian é daquele tipo de roteiro que é bem diferente do padrão, que realmente surpreende o espectador. Gosto de ver filmes diferentes, então guardei o nome do cara. (Acompanhante Perfeita foi vendido aqui no Brasil com o nome do Zach Cregger no poster, mas ele só era produtor naquele filme.)

(Um parágrafo fora do filme para falar de roteiro. Existe uma “fórmula” usada em Hollywood por 90% dos filmes. Tem um livro muito famoso escrito por Syd Field, O Manual do Roteiro, onde ele explica: mais ou menos meia hora pra apresentar e ambientar a trama e os personagens. Aí acontece um ponto de virada, e a trama anda em outra direção. Mais ou menos meia hora antes do fim, outro ponto de virada que vai apontar a trama para a conclusão. Essa fórmula é muito usada. Não tem nada a ver com a qualidade, um filme bom pode ou não usar a fórmula Syd Field. Mas heu particularmente gosto quando um filme larga a fórmula e segue por caminhos diferentes. E os dois roteiros do Zach Cregger até agora não usam essa fórmula. (Parênteses dentro do parênteses: no livro do Syd Field tem um capítulo que ficou completamente desatualizado, que é quando ele sugere comprar um computador pra escrever o roteiro, porque você tem que reescrever várias vezes, então dá muito trabalho pra reescrever tudo em máquina de escrever…))

Aí apareceu este A Hora do Mal (Weapons, no original), novo filme escrito e dirigido por ele. E mais uma vez um roteiro fora do óbvio. Legal! E melhor ainda: um filmão!

(Parênteses pra falar dos nomes. No original, não entendi por que “weapons”, ou “armas”. Já em português, parece um filme da espantomania dos anos 80, que veio depois de A Hora do Espanto, A Hora do Pesadelo, A Hora do Lobisomem, A Hora da Zona Morta…)

É complicado comentar um filme desses, porque não quero dar spoilers, e acho que você vai ter uma experiência melhor se entrar no cinema sem saber muita coisa. Então, muito por alto: em uma pequena cidade, 17 crianças fogem de casa no meio da madrugada e desaparecem. A partir daí, a história se desenrola sob pontos de vista diferentes. E o roteiro, de maneira inteligente, vai jogando elementos aqui e ali para preencher o quebra cabeças, mas sempre deixando algumas peças de fora, até a parte final, onde finalmente entendemos o que aconteceu.

Mais uma vez, Zach Cregger consegue criar um ótimo clima de tensão ao longo do filme inteiro. O cara sabe posicionar e movimentar sua câmera – em algumas sequências a câmera passeia pelos cenários e o espectador fica tenso na beirada da poltrona! Fiquei envolvido pela trama, e o artifício de mudar o ponto de vista fluiu perfeitamente. O filme é longo, pouco mais de duas horas, e não cansou.

A Hora do Mal não é um “terror de jump scare”, é mais um filme de clima e mistério. Mas tem um ou dois jump scares muito bem construídos! A trilha sonora, que fica boa parte do filme só na percussão, e que também sabe usar o silêncio, também é muito boa e ajuda na construção do clima.

O elenco é bom, e gostei como alguns personagens secundários viram protagonistas dependendo do ponto de vista – me lembrei de Shortcuts, do Robert Altman. Como o filme muda de ponto de vista, o protagonismo é dividido entre Julia Garner, Josh Brolin, Alden Ehrenreich, Benedict Wong e Amy Madigan, todos estão bem (e não comento mais detalhes pra evitar spoilers).

Depois da sessão de imprensa ouvi gente falando mal da parte final. Realmente, A Hora do Mal muda um pouco de tom nessa conclusão da história, e o final do filme gerou gargalhadas no cinema. Mas, não digo por outras pessoas, digo por mim: gostei da mudança.

A Hora do Mal deve estar aqui na minha lista de melhores do ano, não vejo a hora de rever. E agora aguardo o novo projeto do Zach Cregger – seja lá o que for, quero ver!

Drácula: Uma História de Amor Eterno

Crítica – Drácula: Uma História de Amor Eterno

Sinopse (imdb): Após a morte de sua esposa, um príncipe do século XV renuncia a Deus e se torna um vampiro. Séculos depois, na Londres do século XIX, ele vê uma mulher parecida com sua falecida esposa e a persegue, selando seu próprio destino.

Ué, já tem filme novo do Luc Besson em cartaz?

Antes de entrar no filme, um comentário sobre a carreira do diretor Luc Besson. Lembro na época da faculdade, um amigo falava que certos artistas alcançam o “estágio Roberto Carlos”. É quando o cara tem várias obras boas no início da carreira, mas depois faz tanta coisa de qualidade duvidosa que sua fase ruim supera a fase boa. Às vezes me questiono se Besson chegou a esse estágio… Afinal, o início da sua carreira é fantástico: Subway, Imensidão Azul, Nikita, O Profissional, O Quinto Elemento… Mas a qualidade foi caindo, e já tem uns anos que ele não acerta (June e John, Dogman, Anna, Valerian…)

Aliás, achei curioso lembrar que um mês e meio atrás chegou no circuito outro filme dirigido por Besson, June e John, um filme com uma produção muito menor. Vejam bem, não vou entrar no mérito de se o filme é bom ou ruim, estou comentando sobre ser uma produção infinitamente mais simples. June e John tem poucos atores, poucos cenários, se passa nos dias de hoje, não precisava de muitas “mirabolâncias”. É uma produção que pode ter sido filmada em uma ou duas semanas. Já Drácula é muito mais complexo, superprodução, filme de época, muitos cenários, muitos figurinos, muitos efeitos especiais…

Drácula: Uma História de Amor Eterno (Dracula: A Love Tale, no original) começa muito bem. Toda a parte inicial, antes do Vlad Dracul virar o famoso vampiro, é muito bem feita, incluindo uma sangrenta batalha. Inclusive algumas cenas parecem ctrl c ctrl v da versão mais famosa, o Drácula do Coppola, de 1992. O problema é que lá pro meio do filme o roteiro começa a dar umas viajadas…

O roteiro foi escrito pelo próprio Besson, em cima do livro original do Bram Stoker. Nunca li o livro, mas já vi algumas versões cinematográficas. E posso dizer que este Drácula: Uma História de Amor Eterno tem algumas coisas que heu nunca tinha ouvido falar. Além disso, não traz alguns elementos clássicos – cadê o Van Helsing?

Por outro lado, Besson é um cara experiente e sabe filmar, isso é inegável. Drácula: Uma História de Amor Eterno traz várias imagens belíssimas. Também gostei da trilha sonora do Danny Elfman – em alguns momentos, nem parece o estilo do Elfman, parece mais a trilha da versão do Coppola. Ele fez como o Michael Giacchino às vezes faz, trabalhou em cima de temas já existentes. De qualquer maneira, o resultado ficou bom, gostei de como ele mistura música diegética e não diegética – a música diegética é o que os personagens estão ouvindo; a não diegética é a trilha que só o espectador ouve.

No elenco, o destaque é para Christoph Waltz, que parece que está se divertindo muito com o seu padre que parece uma mistura de personagens clássicos. Já Caleb Landry Jones, o personagem título, às vezes está monocórdico, mas não atrapalha.

Heu gostei do filme, mas tem uma coisa no roteiro que, se a gente parar pra pensar, não faz muito sentido. O cara passa 400 anos atrás de um objetivo. Aí, quando finalmente consegue, desiste? Podia curtir aquele momento por alguns anos antes de desistir, né?

Depois da sessão de imprensa, ouvi gente comentando que essa era uma “versão romântica da história do Drácula”. Pô, galera, o poster do filme de 1992 tinha “Love never dies”, “o amor nunca morre”. Pelo menos pra mim, Drácula sempre foi uma história romântica!

No fim, Drácula: Uma História de Amor Eterno deve desagradar os mais puristas. Mas por outro lado, traz um resultado bem mais palatável do que o Nosferatu lançado na virada do ano. Pra mim, o que mais gostei é que é o melhor filme do Luc Besson em um bom tempo!

O Ritual

Crítica – O Ritual

Sinopse (imdb): Dois padres, um questionando sua fé e outro contando com um passado conturbado, onde devem deixar de lado suas diferenças para salvar uma jovem possuída através de uma sequência difícil e perigosa de exorcismos.

Filme novo de exorcismo, vai entrar no circuito, tem ator bom no elenco… E é ruim com força!

Heu tinha expectativa zero para O Ritual (The Ritual, no original), e mesmo assim o resultado decepcionou. A trama se arrasta acompanhando vários rituais de exorcismo – todos iguais. Não existe nada de criativo na tela, só os mesmos clichês “cansados” de sempre. Sons gururais e vômito não amedrontam mais ninguém!

O Ritual não assusta, em momento nenhum. Causa mais sono do que medo. Digo mais: o diretor David Midell resolveu usar uma câmera na mão, trêmula, com uns closes repentinos. Acho que ele deve ter pensado que isso daria uma tensão maior, mas na verdade toda hora lembrava The Office. E se um filme de terror lembra The Office, é porque errou feio, errou rude.

Ok, tem o Al Pacino. Por ele, O Ritual não ganha nota zero. Ele traz alguma graça ao seu personagem de padre exorcista (ele já teve experiência no outro lado, né? Foi o diabo em Advogado do Diabo). O personagem dele é bom. Pena que é o único elogio possível aqui.

Porque todo o resto do filme é desnecessário. Forte candidato à lista de piores do ano aqui no heuvi.

Faça Ela Voltar

Crítica – Faça Ela Voltar

Sinopse (imdb): Um irmão e uma irmã descobrem um ritual aterrorizante na casa isolada de sua nova mãe adotiva.

Às vezes tenho a impressão de que alguns realizadores querem ser lembrados por terem produzido imagens fortes, com o objetivo de chocar. Como Irreversível e Saló, dois filmes que têm suas qualidades cinematográficas, mas que as pessoas sempre se lembram por causa das cenas chocantes. E me parece que os irmãos Danny e Michael Philippou queriam entrar nesse caminho com seu novo filme, Faça Ela Voltar / Bring Her Back.

Um casal de adolescentes perde o pai de forma traumática e vão para um lar adotivo, onde já existe um menino mais novo muito estranho. Claro que coisas sinistras vão acontecer.

O melhor de Bring Her Back é o elenco. Todos os quatro principais nomes estão muito bem. Sally Hawkings (A Forma da Água), a única conhecida, manda bem com uma personagem complexa, porque ela precisa parecer acolhedora e ao mesmo tempo assustadora. Os três jovens, Billy Barratt, Sora Wong e Jonah Wren Phillips, também estão muito bem. Curiosidade: Sora Wong tinha “zero experiência” como atriz profissional antes de ser escalada para o filme. Sua mãe encontrou um anúncio de elenco no Facebook procurando por uma garota com deficiência visual, e levou sua filha, que nasceu com a visão limitada. E preciso falar que o menino Jonah Wren Phillips é assustador, fiquei até preocupado com o ator, mas, segundo o imdb, o garoto se divertiu durante a produção do filme. Mas ainda quero vê-lo em outro papel!

Os irmãos Philippou já tinham mostrado talento no seu filme anterior, Fale comigo, e aqui confirmam que sabem criar um bom clima tenso. Bring Her Back tem um bom ritmo e deixa o espectador angustiado. Mas aí vem o problema que me atingiu: algumas cenas desnecessariamente fortes demais. Eles já tinham mostrado uma cena um pouco mais violenta que a média no seu primeiro filme, quando um personagem bate a cabeça violentamente numa mesa. Bring Her Back tem umas três ou quatro cenas desse tipo, que embrulham o estômago e fazem o espectador passar mal. Não vou falar spoilers, mas uma delas, em particular, traz uma faca em uma criança. Não é pelo filme, é por mim, não me sinto bem com imagens envolvendo violência em crianças. Acho que o filme seria ainda mais forte se não mostrasse, apenas sugerisse, mas, como falei no início do texto, parece que os irmãos querem entrar pra essa lista de filmes com imagens desconfortáveis. Bem, posso dizer por mim: entendo a proposta, mas não gosto.

Além disso, não gostei dos vídeos em VHS que são assistidos pela protagonista. Mesmo sem entender o que está acontecendo nos vídeos, a gente consegue entender o propósito. Mas achei que podiam ser melhor desenvolvidos.

Bring Her Back é um bom filme, vai ter muita gente elogiando, mas o filme me perdeu quando resolveu apelar pra tal cena supracitada. Reconheço os méritos, mas não recomendo o filme.

Rosario

Crítica – Rosario

Sinopse (imdb): Rosario passa a noite com o corpo de sua avó enquanto espera a ambulância chegar. Durante uma forte nevasca, Rosario é atacada por entidades sobrenaturais que tomaram controle do corpo dela.

Quando um filme de terror é bom, ele é bom. Quando um filme de terror é ruim, ele também pode ser bom. Agora, quando o filme de terror é só genérico, ele não é bom. Ele é chato.

Dirigido pelo estreante em longas Felipe Vargas, Rosario tem uma protagonista que lida com uma maldição, pelo que entendi, ligada a Palo, religião da sua falecida avó. O problema é que é só isso de história, não tem material suficiente pra fazer um longa-metragem. Rosario tem menos de uma hora e meia e consegue ser arrastado. Poderia talvez ser um bom curta, mas acabou sendo um longa chato, onde nada acontece.

Provavelmente por questões orçamentárias, boa parte do filme só tem um cenário e uma atriz. A personagem fica perambulando pelo apartamento da avó, tentando descobrir informações sobre a maldição. Dá pra fazer um filme inteiro com uma atriz em um cenário? Até dá, mas precisa trabalhar um pouco mais esse roteiro!

Quando a gente está vendo um filme bom, às vezes pode até relevar algumas coisas, mas quando o filme é ruim, essas coisas pesam um pouco mais. Em Rosario teve um detalhe que me incomodou bastante. A protagonista está bisbilhotando as coisas da avó, e acha uma espécie de altar, com alguns pratos com oferendas para a tal religião Palo. Dentre essas oferendas, vemos um potinho com dentes e outro com um absorvente usado. E a personagem pergunta “São meus dentes? É o meu absorvente?” Por que ela iria pensar que aqueles dentes e aquele absorvente eram dela? São dentes, e é um absorvente – qualquer pessoa no mundo ia dizer “eca que nojo”; ela, em vez de dizer isso, falou “ora, é o meu absorvente!” De onde veio essa conclusão???

No elenco, Emeraude Toubia é o nome que está na tela por quase todo o filme. Pena que ela não tem carisma suficiente, então não consegue transformar Rosario num bom programa. José Zuñiga e David Dastmalchian têm papéis menores.

Rosario já está disponível há meses “por meios alternativos”, mas vai estrear no circuito em agosto… Acho que deveriam ter lançado mais cedo, tudo indica que será um fracasso de bilheteria.

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025)

Crítica – Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025)

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos é aterrorizado por um perseguidor que sabe de um incidente horrível do passado deles.

Antes de tudo, preciso reclamar do título do filme. Já existe um “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” lançado em 1997. Se este é outro filme, deveria ter outro nome. Lançar uma continuação com o mesmo nome é uma ideia péssima! Pânico 5 tem o mesmo problema, o nome em inglês é igual ao primeiro filme, “Scream”. O mesmo aconteceu com o prequel de O Enigma de Outro Mundo, são dois filmes chamados “The Thing”. Galera, se o nome já foi usado, que tal colocar um nome diferente, ou então um número? Por que não chamar este de “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado 4”?

Enfim, vamos ao filme. Uma onda recente em Hollywood é o “requel”, mistura de “reboot” com “sequel”. É um filme feito muito tempo depois do primeiro filme, com elenco novo que pode começar uma nova franquia, mas que traz elementos do original. Vimos isso em Pânico, Halloween, Caça Fantasmas, Karate Kid e até Star Wars. Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (I Know What You Did Last Summer, no original) é mais um exemplo de requel.

(Lembrando que Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado era um “sub Pânico”, ambos foram escritos por Kevin Williamson. Só que Pânico, lançado um ano antes, é bem melhor.)

A história é parecida com o primeiro filme, um grupo de jovens se envolve em um acidente, mas resolvem não contar pra ninguém, até que um ano depois começam a receber ameaças, e logo depois assassinatos começam a acontecer.

Mas este novo filme já erra na premissa inicial. Porque no filme de 1997, o grupo atropela uma pessoa, e em vez de prestar socorro, levam o atropelado para ser jogado no mar. Detalhe: o cara ainda estava vivo! No novo filme, eles estão no meio da rua, um carro desvia e bate – não foi necessariamente culpa de ninguém, foi um acidente. E eles ainda tentam ajudar! Você pode até dizer que o grupo de 2025 estava errado, mas numa proporção infinitamente menor que o de 1997!

Mas, ok, o filme segue. Slasher besta, algumas mortes aqui e ali, nada muito gráfico. Temos participações especiais de membros do elenco antigo, revemos alguns cenários do outro filme, nada demais, mas também nada que seja muito ruim. Rola até uma boa piada com o personagem mais famoso do currículo do Freddie Prinze Jr. Até que a parte final resolve inventar uma virada de roteiro que azeda todo o filme. Como é um spoiler gigante, só vou comentar no fim do texto.

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado tem outro problema: as “final girls”, Madelyn Cline (Glass Onion) e Chase Sui Wonders (Morte Morte Morte), não têm muito carisma, o que dificulta o espectador a torcer por elas. O filme ainda traz alguns jump scares aqui e ali, mas nada digno de nota.

Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado estava se encaminhando para ser mais um filme genérico pra se ver num fim de semana no shopping e depois ser esquecido, até o tal plot twist final. Vamos a ele então.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Ray Bronson, o personagem do Freddie Prinze Jr, sobrevivente do filme original, é o assassino. Galera, aquele cara, por tudo o que passou, NUNCA seria o assassino! Forçaram a barra e estragaram o filme!

FIM DOS SPOILERS!

Tem uma cena pós créditos, um gancho pra continuação, ligando com o segundo filme da série, Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, de 1998. Ou seja, vem continuação por aí.

Ash: Planeta Parasita

Crítica – Ash: Planeta Parasita

Sinopse (imdb): Uma mulher acorda em um planeta distante e encontra a tripulação de sua estação espacial brutalmente morta. Sua investigação sobre o que aconteceu desencadeia uma terrível cadeia de eventos.

Gosto da mistura de terror e ficção científica. Gosto muito de filmes como Alien, O Enigma de Outro Mundo, Força Sinistra, A Experiência e Prova Final. Pena que nem todos os filmes deste subgênero são bons. Ash: Planeta Parasita (Ash, no original) infelizmente faz parte desse grupo.

Acompanhamos Riya, uma exploradora espacial que acorda sozinha numa base onde todos os companheiros de equipe estão mortos. Detalhe: ela tem amnésia e não se lembra do que aconteceu. Ela encontra um sobrevivente e tenta juntar as peças pra descobrir as respostas para suas dúvidas.

Mas sabe qual é o problema aqui? Falta história. Ash é curto, uma hora e meia, e podia ter a metade da duração.

A direção é de Flying Lotus, nunca tinha ouvido falar, depois que vi o filme descobri que ele também é músico. Flying Lotus parece que sabe que tem pouca história pra contar, aí fica preenchendo espaços vazios com jump scares bestas, onde aparece um relance de algo assustador ao som de um ruído alto. Um perfeito exemplo de jump scare mal feito.

(Parágrafo à parte para falar de jump scares. O jump scare bem feito é aquele que dá um susto no espectador, a ponto dele “dar um pulo”. Muitos filmes usam jump scares clichês, dentro de uma fórmula: música sobe, parece que vai ter algo, não tem, conta 1 2 3 e PÁ!, susto na tela. Quem está acostumado com filmes de terror já sabe quando vem um desses e não se assusta, mas, ok, boa parte do cinema é feita em cima de clichês. O jump scare bem feito não prepara o espectador e realmente dá um susto. Agora, na minha humilde opinião, pior que jump scare previsível são os jump scares daqui. A trama segue normalmente, e de repente PÁ!, uma imagem grotesca e um som alto. Ok, assusta o espectador. Mas são jump scares que não agregam à trama, não criam medo. São jogados só pra causar desconforto.)

Por outro lado, a ambientação do filme é boa. O visual do planeta alienígena é bonito, principalmente quando mostra o céu. Também gostei do design das roupas dos astronautas. A maquiagem da parte final também é bem legal, lembra O Enigma de Outro Mundo.

No elenco, Eiza González ocupa a tela durante quase todo o filme, às vezes sozinha, outras vezes dividindo espaço com Aaron Paul. Iko Uwais, de The Raid, tem um papel pequeno, e fiquei feliz que o colocaram pra lutar, mesmo que rapidinho.

Na parte final, o ritmo de Ash melhora. Se todo o filme fosse todo como nos últimos minutos, a experiência seria bem melhor. Infelizmente, o resultado ficou bem chato.

M3gan 2.0

Crítica – M3gan 2.0

Sinopse (imdb): Dois anos após o incidente M3GAN, Gemma ressuscita sua boneca IA para enfrentar Amelia, um robô militar criado por contratantes que roubaram a tecnologia de M3GAN.

O primeiro M3gan já não foi grandes coisas. Aí anunciaram uma continuação, com o mesmo elenco, o que me parecia ser uma péssima ideia – afinal, no fim do primeiro filme, a boneca tenta assassinar a família e é destruída. Entendo uma corporação gananciosa querer vender uma nova boneca, mas não entendo como a família vai se arriscar de novo. Por causa disso, fui ao cinema com zero expectativas.

E preciso dizer que me diverti. Dirigido pelo mesmo Gerard Johnstone do primeiro filme, M3gan 2.0 não chega a ser exatamente “bom”, mas é muito divertido!

Logo de cara, na sequência inicial, a gente vê uma outra boneca-robô (interpretada por Ivanna Sakhno, que estava em Ahsoka), e ela anda pela parede de uma maneira bem tosca, parecendo um stop motion mal feito, e logo depois a gente vê a sombra dela arrancando a cabeça de um adversário com um soco. Ou seja, o filme está nos dizendo que não é pra levar a sério. Se você entrar nessa onda trash, vai se divertir!

A minha preocupação era que M3gan 2.0 fosse uma cópia mal feita do primeiro M3gan, principalmente pela repetição das duas atrizes principais, Allison Williams e Violet McGraw, cujos personagens não iam querer mais a boneca M3gan. Por isso a boneca entra numa onda Exterminador do Futuro 2 para tentar convencê-las que agora ela está lá para protegê-las. Além disso, o gênero do filme muda, tem pouco terror aqui, M3gan 2.0 está mais para uma ação misturada com ficção científica, além de uma boa dose de humor.

Já que falei de Exterminador do Futuro, queria citar que M3gan 2.0 traz algumas referências bem divertidas. Tem uma citação clara à série Super Máquina, e tem um momento que vemos uma mão andando como em Evil Dead 2 (mas pode ser uma mão inspirada em outro filme). Também tem uma engraçada ligação com os filmes do Steven Seagal. Ah, tem um momento hilário onde a M3gan canta uma música, não sei se a música já existe ou se foi criada para o filme, perguntei para algumas pessoas depois da sessão de imprensa, ninguém reconheceu a música (dei uma googlada, parece que é This Woman’s Work, da Kate Bush, mas não tenho certeza disso).

A cena mais famosa do primeiro filme é uma dancinha tosca. Claro que ia ter dança aqui. E preferi a deste segundo filme. No filme anterior, era uma dança que não tinha nada a ver com o resto da sequência, aqui pelo menos inventaram um concurso de dança.

Agora, precisamos reconhecer que o roteiro tem vários momentos que não não seguem nenhuma lógica. Dava pra fazer uma lista, que vai crescendo conforme o filme se aproxima do final. E aquele plot da IA guardada num cofre há décadas não faz o menor sentido!

Os personagens são todos caricatos. Como falei lá no início, se você entrar na onda trash, vai entender a proposta. Tem um policial do FBI que é tosco tosco tosco, e o vilão, além de ruim, é previsível. E Jemaine Clement abraçou a galhofa e está sensacional com o seu milionário caricato. Claro, nesse espírito, funciona quando a M3gan fala um monte de frases de efeito como “segurem suas pepecas!”.

No fim, saí feliz da sessão, M3gan 2.0 é um filme divertido. Não é bom, ficará longe de listas de recomendações. Mas, quem é somelier de cinema trash vai curtir!

Prédio Vazio

Crítica – Prédio Vazio

Sinopse (imdb): Luna, uma jovem determinada, busca sua mãe que sumiu misteriosamente no último dia de Carnaval em Guarapari. Sua procura a leva até um prédio antigo, aparentemente vazio, mas repleto de almas atormentadas.

Ueba! Filme novo do Rodrigo Aragão, e desta vez no circuito!

Se você já conhece a obra do Rodrigo Aragão, pode pular este parágrafo. Se não conhece, chega aqui: Aragão é, provavelmente, o maior nome do cinema de terror feito no Brasil hoje em dia. Este é o seu sexto longa metragem desde 2008, depois de Mangue Negro, A Noite do Chupacabras, Mar Negro, Mata Negra e O Cemitério das Almas Perdidas, além de ter organizado o longa em episódios Fábulas Negras (todos têm textos aqui no heuvi). Tem gente por aí que acha que não existe terror feito no Brasil. Tem gente por aí que deveria conhecer o trabalho dele.

Cinco anos depois de seu último longa, Aragão fez seu primeiro terror “urbano” – pela primeira vez ele filmou numa cidade grande. Aragão morou na Praia do Morro, em Guarapari, local onde se passa o filme, e quando caminhava pelo calçadão à noite, às vezes via prédios quase totalmente apagados, com um ou dois apartamentos acesos. E ele imaginava como seria estar num prédio daqueles, quase vazios. Daí surgiu a ideia para o filme.

Curioso é que o roteiro teve vários tratamentos. Inclusive teve uma versão mais “clean” feita com a ajuda de um gringo, que seria facilmente vendável para uma Netflix da vida. Mas Aragão desistiu deste tratamento e voltou para uma versão anterior, mais puxada pro trash – mais a ver com o estilo dos seus outros filmes.

Prédio Vazio é urbano, mas é coerente com o resto da obra do diretor. Claras influências de Sam Raimi, Dario Argento e Zé do Caixão, tudo isso com uma pitada de trash por cima.

Curioso que o filme se passa num bairro real de Guarapari, mas o prédio onde tudo acontece não existe. O diretor falou que tentou filmar em um prédio já existente, mas diante das dificuldades de conseguir autorizações, desistiu e construiu uma maquete. Ficou boa, parece um prédio velho e caquético.

Aliás, uma curiosidade dita pelo próprio Rodrigo Aragão em um bate papo pós filme no Estação Botafogo: o longa abre com um filminho publicitário turístico sobre Guarapari, feito décadas atrás, e guardado pelo pai do diretor, que trabalhava num cinema. Só trocaram a narração, originalmente feita pelo Cid Moreira, o resto do filminho está lá na introdução.

A história é simples, uma jovem vai procurar a mãe que estava hospedada na Praia do Morro, mas quando chega no prédio, descobre que tem algo de errado lá. E claro que isso abre espaço para muitos efeitos práticos, muito sangue cenográfico, e muitos truques de maquiagem.

Aliás, uma dica pra quem gosta de procurar coisas escondidas nos filmes: assim como acontece na série A Maldição da Residência Hill, Prédio Vazio tem vários fantasmas escondidos pelos cenários. Deu vontade de rever só pra procurá-los. Isso sem contar nos easter eggs do “Aragãoverso”, como o livro de São Cipriano que estava no Cemitério das Almas Perdidas.

Sobre o elenco, Gilda Nomacce está ótima, ela acabou virando um grande nome no terror brasileiro contemporâneo (ela estava em filmes da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, como Trabalhar Cansa, As Boas Maneiras e Quando eu Era Vivo). Também gostei muito do jovem Caio Macedo, meio alívio cômico, meio “donzelo em perigo”.

Nem tudo é perfeito. Algumas atuações não são tão boas, e as cenas de lutas entre os personagens não são muito bem filmadas. Mas a gente está acostumado a ver terror hollywoodiano bem pior que esse e não fala mal…

Por fim, se você apoia o cinema nacional, e se você quer ver mais terror feito no Brasil, vá ao cinema esta semana. É difícil quando um filme desses entra em circuito. Precisamos prestigiar!