A Vida de Chuck

Crítica – A Vida de Chuck

Sinopse (filme B): Ao longo de sua vida, Charles “Chuck” Krantz vive o encanto do amor, a dor da perda e descobre as muitas facetas que existem dentro de cada um de nós.

(A sinopse do imdb deve ter sido feita por robô e ninguém revisou, e virou uma parada que não tem nada a ver! No imdb tá assim: “Uma história de afirmação da vida e de mudança de gênero baseada no romance de Stephen King sobre três capítulos da vida de um homem comum chamado Charles Krantz.” A mudança de gênero é cinematográfica!)

Talvez o maior problema aqui seja justamente os nomes de Mike Flanagan e Stephen King. Porque claro que todo mundo vai pensar em um filme de terror. E A Vida de Chuck não tem NADA de terror. Estamos entre o drama e a fantasia. Aliás, o trailer do filme é bem genérico, lembro de ver no cinema e me perguntar “por que alguém veria um filme desses?”

(Ok, alguns bons filmes baseados em Stephen King não são terror, como Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. Mas todos concordam que ele fez muito mais terror que qualquer outro gênero, né?)

A direção é de Mike Flanagan, que já fez alguns filmes legais (incluindo Doutor Sono, outra adaptação de Stephen King), mas que tem suas melhores obras em séries, como A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia Noite. Talvez seja exagero, mas heu diria que A Vida de Chuck é o melhor filme que ele já fez.

Não li o livro, não tenho ideia se foi uma adaptação fiel ou não. Mas gostei do roteiro ser fora da ordem cronológica – o filme começa pelo terceiro ato. Digo mais: se a história fosse contada em ordem cronológica, seria bem sem graça.

Esse terceiro ato traz um mistério muito bem bolado. O mundo está acabando, estão acontecendo catástrofes naturais, não existe mais internet, e começam a aparecer outdoors e propagandas falando de um tal de Charlie Krantz. Confesso que fiquei intrigado com o que estava acontecendo, qual seria o desfecho para aquele mistério. O único problema é que o terceiro ato é melhor do que o primeiro, justamente o final do filme.

O segundo ato é o mais curto. Traz uma artista de rua, uma baterista, e o dia em que um transeunte parou para dançar. E preciso falar que adorei essa cena da dança! Tom Hiddlestone, primeiro sozinho, depois com a Annalise Basso, dançando ao som da bateria, criaram um momento que, pelo menos pra mim, foi mágico! Até concordo que talvez seja uma cena longa (a dança dura quase cinco minutos) – mas heu poderia rever aquela cena seguidas vezes!

A conclusão (primeiro ato) traz respostas e mais dança. O final não é ruim, mas não é tão bom quanto o início, e isso pode ser um problema. Mesmo assim, gostei muito do resultado.

O elenco é cheio de bons nomes, e todos estão bem. Curiosamente, nenhum ator aparece ao longo de todo o filme, afinal, a trama se passa em volta da vida do Chuck em diferentes fases de sua vida. Tom Hiddleston é o nome principal, mas, se a gente parar pra analisar, ele nem faz tanta coisa ao longo do filme. Ainda sobre o elenco, uma curiosidade: Mia Sara, de A Lenda e Curtindo a Vida Adoidado, estava aposentada desde 2013, mas declarou que queria trabalhar com Mike Flanagan depois que viu Missa da Meia Noite.

E trabalhar com Flanagan deve ser bom, porque vários atores já estiveram em outros filmes / séries do diretor, como Karen Gillan e Annalise Basso (O Espelho), Samantha Sloyan e Michael Trucco (Hush), Jacob Tremblay e Carl Lumbly (Doutor Sono), Rahul Kohli (A Maldição da Mansão Bly), Heather Langekamp (O Clube da Meia Noite), Mark Hamill (A Queda da Casa de Usher), além de Kate Siegel, a sra. Mike Flanagan, que estava em quase todos os filmes. Ah, Carla Gugino, que faz algumas narrações, também fez vários filmes do diretor – Nick Offerman faz as outras narrações. Ainda no elenco, Chiwetel Ejiofor, David Dastmalchian e Matthew Lillard.

Se heu pudesse alterar uma única coisa aqui, pegava a cena da professora falando do Walt Whitman e colocava mais pro final do filme. É uma cena onde o espectador atento pode pescar muita coisa. Acho que o impacto ia ser maior se a cena fosse guardada pra depois.

Grandes chances de A Vida de Chuck voltar aqui no Top 10 de melhores do ano.

Bete Balanço

Crítica – Bete Balanço

Sinopse (imdb): Uma jovem deixa o estado de Minas Gerais para tentar se tornar cantora no Rio de Janeiro.

Me indicaram um site russo semelhante ao YouTube, que tem alguns canais com dezenas de filmes brasileiros. Vou aproveitar pra rever vários. E também vou aproveitar para fazer uma playlist de “filmes de rock nacional dos anos 80”. Começo essa playlist com Bete Balanço, dirigido por Lael Rodrigues e lançado em 1984.

Não dá pra assistir a um filme desses com a cabeça no século XXI. É um filme datado sob vários pontos de vista – não só o visual, mas toda a temática do filme não combina com os dias de hoje. Agora, quem entrar na onda vai ter uma boa viagem nostálgica.

Não tem muita história aqui. Bete sai de Governador Valadares e vai para o Rio de Janeiro para tentar a vida de cantora. Começa a namorar um fotógrafo e a cantar num estúdio. Basicamente é isso. O filme tem uma hora e quatorze minutos e está cheio de números musicais, não tem espaço pra desenvolver uma trama mais elaborada.

A direção é de Lael Rodrigues, que só dirigiu três filmes, mas foi um nome essencial para este estilo. Em 1985 ele faria Rock Estrela, e dois anos depois, 87, Rádio Pirata. A nota triste é que Lael faleceu pouco depois, em 1989. Ele tinha apenas 37 anos.

O roteiro tem uns furos meio bizarros, como por exemplo o fotógrafo ter imagens reveladoras que incriminariam alguém importante, mas esse plot é deixado de lado completamente. O plot com a Maria Zilda também foi mal desenvolvido, mas neste caso acredito que foi porque envolvia um relacionamento entre duas mulheres, coisa que o Brasil da primeira metade dos anos 80 dificilmente aceitaria.

E isso porque não estou falando de vários momentos onde a narrativa é interrompida para entrar um número musical nada a ver com a trama. Tem alguns números de dança meio jogados, acho que Lael Rodrigues queria fazer um musical da Broadway.

Na verdade, Bete Balanço parece um grande videoclipe estendido. Ou seja, alguns números musicais são inseridos, mesmo que não tenha nada a ver com a trama, tipo a participação do Lobão e os Ronaldos. O Barão Vermelho tem um papel pequeno, vê-los tocando faz parte da história. Já o Lobão só aparece “para o videoclipe”.

Revi Bete Balanço, e teve uma coisa que me incomodou bastante. A personagem Bete tem uma voz que se destaca. Mas quem interpreta é Débora Bloch, que não canta bem. Débora não está mal, é uma boa atriz (tanto que está aí até hoje), mas, para um papel desses, precisavam de uma atriz com a voz melhor!

Aproveito pra falar do elenco. Foi o filme de estreia da Débora Bloch, que, enquanto não está cantando, está bem. Lauro Corona faz seu par. Diogo Vilela faz um alívio cômico meio bobo. Também no elenco, Maria Zilda, Hugo Carvana, Cazuza e uma participação especial da Andrea Beltrão, estreando no cinema como uma das dançarinas (pouco depois ela ficaria bem conhecida). A nota triste é que Lauro Corona e Cazuza (que na época geravam piadas sobre serem a mesma pessoa porque eram bem parecidos fisicamente) faleceram alguns anos depois, ambos de Aids.

O final não é bom. Correram para inventar uma solução do nada. Podia ter 10 minutos a mais e concluírem direito as jornadas dos dois personagens principais. Em vez disso, colocaram um número de dança e deixaram pra lá.

Mesmo assim, foi gostoso rever. Só não sei se alguém que não viveu os anos 80 vai curtir.

Anônimo 2

Crítica –  Anônimo 2

Sinopse (filme B): Hutch e a esposa Becca se veem sobrecarregados e distantes. Por isso, decidem levar os filhos para uma pequena viagem de férias, que inclui também o pai de Hutch. Quando um encontro trivial com valentões locais coloca a família na mira de um operador corrupto de parque temático, Hutch vira alvo da chefe do crime mais insana que já enfrentou.

Anônimo, de 2021, foi uma boa surpresa, apesar de trazer a velha e batida trama de “um assassino profissional muito bom em sua profissão resolve se aposentar mas é forçado a voltar a ação” (premissa bem parecida com John Wick, do mesmo roteirista Derek Kolstad). Pena que foi lançado no meio da pandemia, e acho que nem chegou a passar nos cinemas brasileiros.

Anônimo não pedia uma continuação, mas o resultado até que ficou bom. Anônimo 2 é uma continuação bem parecida com o original, com tudo de positivo e negativo que isso pode significar.

Trocaram o diretor. O primeiro foi dirigido por Ilya Naishuler, que não podia assumir o segundo porque estava dirigindo Chefes de Estado. Convidaram então Timo Tjahjanto, diretor indonésio que fazia filmes de terror, como Macabre, em parceria com Kimo Stamboel (não sei se são parentes, mas eles assinavam filmes como “The Mo Brothers”). Junto com Gareth Evans (The Raid), fizeram Safe Heaven, uma das poucas coisas boas da franquia VHS. Depois disso, Timo seguiu “solo” fazendo filmes de ação, como Headshot e A Noite nos Persegue (com atores que estavam nos dois The Raid). Anônimo 2 é a estreia hollywoodiana de Timo. (Todos esses filmes foram comentados no heuvi)

A troca não atrapalhou o resultado. A produtora é a mesma, 87North, produtora fundada por David Leitch, ex dublê e agora diretor de filmes como Atômica, Trem Bala e O Dublê. Os filmes da 87North sempre privilegiam cenas de ação bem coreografadas e bem filmadas – afinal, o trabalho dos dublês!

Anônimo 2 é bem parecido com o primeiro. Começa com a rotina de Hutch, depois acontece algum incidente que “acende o pavio” e ele entra numa espiral de violência cada vez maior. No primeiro filme ele queimou dinheiro da máfia russa, e agora precisa trabalhar (como assassino profissional) para pagar por essa dívida. Aliás, essa sequência inicial já mostra qual será o tom do filme: muita violência aliada a situações bem engraçadas (e um bônus para o nosso público, porque entra uma música em português quando ele enfrenta personagens brasileiros).

Algumas sequências de ação são muito boas, como aquela no fliperama. A do barco também é boa, mas exige um pouco mais de suspensão de descrença – caramba, tinham outras pessoas no barco, como é que ninguém viu uma briga daquela intensidade? Além disso, Anônimo 2 sabe equilibrar o humor. Não é uma comédia, mas algumas cenas são engraçadíssimas.

Esta continuação é bem parecida com o primeiro filme, inclusive nos pontos fracos. Os vilões são caricatos, mas, o vilão do primeiro filme também era, então ok, foi coerente. Agora, vou reclamar do final. Não gosto do encerramento do primeiro filme, porque sabemos que Hutch é um cara extremamente habilidoso e sabe usar suas técnicas contra os seus adversários, então aceito quando ele está sozinho e briga contra vários. No encerramento do primeiro filme, inventaram uma sequência onde entram outras pessoas para ajudá-lo – incluindo um personagem que só aparece nesta sequência, e foi um final mais fraco que o resto do filme. Aqui temos o mesmo problema: enquanto Hutch está sozinho o filme é melhor. No fim, quando outras pessoas entram na briga, o filme cai um pouco, na minha humilde opinião. E o final da personagem da Connie Nielsen é muito previsível.

O elenco é bom. Bob Odenkirk, com 62 anos, está em forma e convence nas sequências de ação. Christopher Lloyd e Connie Nielsen têm mais importância aqui do que no primeiro filme. Sharon Stone faz a vilã caricata da vez. E Colin Hanks está com um corte de cabelo igual ao papai Tom Hanks em Forrest Gump. Também no elenco, John Ortiz e RZA.

Resumindo, Anônimo 2 é bem semelhante ao 1. Quem gostou do primeiro vai se divertir aqui.

Roberto Sadovski errou feio?

Roberto Sadovski errou feio?

Hoje meu texto ia ser outro, mas recebi um videozinho que o Roberto Sadovski fez para o Uol, e acho que preciso fazer alguns complementos àquele vídeo.

Antes de tudo, uma contextualização. Nasci em 71, passei minha adolescência nos anos 80, não existia Internet, conseguir informações sobre cinema era bem mais difícil. Heu comprava revistas que falavam de cinema (um conceito que talvez as novas gerações não entendam, como assim as pessoas compravam revistas mensalmente?). Heu lia de vez em quando a Cinemin, a Vídeo News e a Fotogramas e Vídeo. E lia SEMPRE a Set. Pra mim, a Set era a melhor revista sobre o assunto. Cheguei a ter a coleção completa, desde o primeiro número até a revista acabar.

Claro, não lembro quem eram as pessoas que escreviam. Naquela época, heu não prestava atenção nos nomes dos jornalistas. Mas sei que o Roberto Sadovski foi editor da revista. Então, antes da crítica, fica um agradecimento pelo trabalho feito na revista Set, que ajudou muito a aumentar a minha cultura cinematográfica.

(Não conheço o Sadovski pessoalmente. Já o vi em algumas sessões de imprensa, talvez já tenha cumprimentado ele, mas nunca conversamos. Ele nem deve saber quem heu sou.)

Enfim, respeito e admiro o Roberto Sadovski, mas, neste vídeo que ele fez pro UOL, tem algumas coisas que não estão 100% corretas. Humildemente, gostaria de complementar as informações que ele deu.

Sadovski fala sobre filmes de terror com o nome “A Hora”. Se a minha memória está correta, isso aconteceu a partir do grande sucesso de A Hora do Espanto, lançado lá fora em 1985, mas que só chegou aqui em maio de 86. Vivi aquela época, vi aqueles filmes no cinema, na época dos lançamentos – e me mudei de cidade no fim de 85, e me lembro de ter visto A Hora do Espanto no Art Copacabana, no Rio de Janeiro. Além disso, vou lançar em breve um vídeo sobre A Casa do Espanto, e pesquisei informações sobre os filmes lançados naquela época, que a imprensa chamou de “Espantomania” (se bobear, foi a própria Set quem cunhou essa expressão).

Mas, no seu vídeo, Sadovski não usou as datas brasileiras e sim o ano de produção dos filmes. Alguns filmes são anteriores ao A Hora do espanto, mas foram lançados aqui depois. Ele começa falando de Savage Weekend, de 1979, mas que segundo o imdb, foi lançado aqui em janeiro de 87, como A Hora do Calafrio – ou seja, pegando carona na Espantomania (sim, às vezes os filmes demoravam muito pra chegar). Depois fala de Final Exam, de 81, que virou A Hora das Sombras – mas esse não tem data de lançamento brazuca no imdb, então esse realmente não sei. Nightmare on Elm Street é de 1984, mas foi lançado aqui em novembro de 86 como A Hora do Pesadelo. Problema semelhante aconteceu com Dead Zone, de 83, que chegou aqui em novembro de 87 como Na Hora da Zona Morta. Re-Animator, de 85, estreou aqui em setembro de 87 como A Hora dos Mortos Vivos.

(Mas reconheço que nunca tinha associado Karate Kid a essa onda de títulos. Sim, Karate Kid, de 84, foi lançado como Karate Kid A Hora da Verdade. Boa lembrança, Sadovski!)

Resumindo: Sadovski fez uma lista se baseando nos lançamentos gringos mas se enganou nas datas que os filmes chegaram aqui. Se estamos falando dos nomes brasileiros, acho que a ordem deveria ser outra…

Aproveito aqui pra falar sobre uma dúvida. Agradeço comentários que me esclareçam. Uma delas é sobre Silver Bullet / A Hora do Lobisomem, que é de 85 e segundo o imdb chegou aqui em outubro do mesmo ano – ou seja, antes de A Hora do Espanto. Se essa data está correta, seria o primeiro filme da Espantomania. Mas, sinceramente, acho que o imdb está errado, porque a minha memória diz que chegou depois (esse lembro de ter visto no São Luiz, no Largo do Machado). Mas não achei na Internet alguma data exata. Se alguém souber, me fala?

Enfim, continuo admirando e seguindo o Roberto Sadovski. Só achei que precisava complementar o que ele falou.

Juntos

Crítica – Juntos

Sinopse (imdb): A mudança de um casal para o interior desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente seu relacionamento, suas existências e suas forma físicas.

O sucesso de A Substância ano passado trouxe de volta os filmes de body horror, ou horror corporal. Este ano a gente já teve o bom The Ugly Stepsister, e agora chega aos cinemas este Juntos.

(The Ugly Stepsister é uma versão de terror da história da Cinderela, mas é bem diferente dessa onda recente de filmes vagabundos usando temas infantis, como os filmes do Ursinho Puff, do Mickey e do Popeye. Vale ser visto!)

Escrito e dirigido por Michael Shanks, Juntos (Together, no original) traz um casal em crise que se muda para uma cidadezinha onde algo misterioso parece querer juntar seus corpos. A ideia é boa. Mas o desenvolvimento, nem tanto.

Um problema básico é que estamos diante de um filme que se propõe a ser um “horror corporal” e temos poucas cenas mostrando o tal horror corporal. Sim, aparece, mas muito pouco. Além disso, algumas cenas são demasiadamente escuras, me pareceu que foi para esconder um possível baixo orçamento. Por outro lado, preciso reconhecer que a cena dos braços se juntando foi legal, tanto na parte visual quanto na parte narrativa.

Tem outra coisa, sei que não é grave, mas preciso dizer que me incomodou. Primeiro, o casal cai na caverna, e parece que não querem sair de lá. Ok, caíram, está chovendo muito, bora esperar uma meia hora, a chuva diminui, a gente sai, certo? Que nada. Eles dormem lá embaixo! Mas, até aí ok. O problema é que eles se machucam, suas pernas grudam, aparentemente é um ferimento feio – e eles não vão procurar tratamento médico?

Sobre as atuações, Dave Franco não é um bom ator. Mas, pelo menos ele funciona bem ao lado da Alison Brie (eles são um casal na vida real).

Preciso fazer um último comentário, mas é sobre algo que acontece no fim, então vamos aos avisos de spoilers.

SPOILERS!

Não acho que um filme precise explicar tudo. Existe algo na água daquela caverna que ativa aquela magia / maldição. O que é? Não importa. O espectador só precisa saber que aquilo acontece. Beleza. Agora, acho que se um filme estabelece regras, o filme deve obedecer às próprias regras. Por que o casal do início do filme virou um monstro e o casal protagonista não virou?

FIM DOS SPOILERS!

Juntos não é ruim. Mas é besta. Tem coisa melhor por aí.

Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Crítica – Corra que a Polícia Vem Aí (2025)

Sinopse (imdb): Apenas um homem tem as habilidades necessárias para liderar o Esquadrão Policial e salvar o mundo.

Lembro quando anunciaram o novo Corra Que a Polícia Vem Aí. Não tenho ideia do motivo de terem escalado Liam Neeson para o papel principal – talvez pela piada besta dele ter o sobrenome parecido com o protagonista anterior, Leslie Nielsen. Enfim, não sei o motivo, mas posso afirmar que foi uma boa escolha. Corra Que a Polícia Vem Aí é divertidíssimo, e Liam Neeson está ótimo no papel!

Mas antes de entrar no filme, uma pequena recapitulação. Nem todos lembram, mas antes do primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí, existiu um seriado, lançado em 1982, que acho que não passou nas tvs brasileiras na época, mas tenho certeza de que foi lançado em VHS no fim dos anos 80 ou início dos 90 (sei disso porque heu vi, eram só seis episódios de vinte e poucos minutos cada, dava pra ver tudo alugando as fitas). A série era uma criação do trio ZAZ, David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker, os mesmos criadores de Apertem os Cintos o Piloto Sumiu e Top Secret, duas das melhores comédias nonsense da história do cinema. Lançado em 1988, o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí foi dirigido por David Zucker com roteiro do trio, e o mesmo aconteceu com o segundo, Corra Que a Polícia Vem Aí 2 1/2, de 1991. Em 94 fizeram o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3, que já tinha outro diretor e outro roteirista.

Anos se passaram, agora chegou a continuação, Corra Que a Polícia Vem Aí (o mesmo nome, problema semelhante ao recente Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado – por que não colocar um número???). Nenhum dos três ZAZ está presente aqui. A direção é de Akiva Schaffer, diretor do excelente (e pouco conhecido) Tico e Teco e os Defensores da Lei. A boa notícia é que Schaffer consegue recriar o estilo de humor nonsense semelhante ao do trio. Sabe aquele humor absurdo, tipo o protagonista mastigar um revólver para mostrar que é muito forte? Poizé, isso acontecia naqueles filmes e também acontece aqui.

Vou além: Schaffer também usa uma coisa que heu chamo de “piada em duas camadas” (nem sei se esse termo existe), que é quando o filme está contando uma piada, e lá ao fundo acontece outra piada diferente. Tipo quando, logo no início,  Frank Debrin entra na delegacia e estão tirando a foto de um suspeito (o “mugshot”) e tem um ventilador pro cabelo do suspeito ficar esvoaçante. Isso não é importante pra trama, é algo que está lá ao fundo – mesmo assim, é uma piada bem construída e bem executada. Isso tinha de monte nos filmes dos ZAZ, Schaffer soube recriar a ideia, você pode rever o filme e encontrar novas piadas que estão ao fundo das cenas.

Há tempos heu não via uma comédia tão engraçada numa sala de cinema. Atualmente, os filmes mais engraçados são os filmes de super herói, tipo Deadpool e Wolverine. Fui checar aqui no heuvi, de um ano pra cá só vi seis comédias: Golpe de Sorte em Paris, Anora, Operação Natal, Lobos, Bridget Jones e O Esquema Fenício – nenhum dos seis chega a causar gargalhadas. Vou te falar que Corra Que a Polícia Vem Aí sozinho tem mais piadas que todos os seis somados!

(Vou falar uma heresia. Semana passada revi o primeiro Corra Que a Polícia Vem Aí de 1988, pra me lembrar do clima do filme. E preciso dizer que ri mais neste novo filme de 2025.)

E, assim como Leslie Nielsen funcionava muito bem como o Frank Debrin pai nos filmes dos anos 80 e 90, Liam Neeson aqui está ótimo. O personagem tem que ser um cara completamente sem noção, e manter uma expressão séria diante de vários absurdos. Heu ia dizer que é o melhor filme do Liam Neeson em muito tempo, mas isso é fácil, ele só tem feito porcarias de um bom tempo pra cá. Ah, curiosidade: não parece, mas Liam Neeson hoje é bem mais velho do que Leslie Nielsen quando fazia os filmes. Neeson está com 72 anos; Nielsen tinha 67 quando filmou o terceiro, Corra Que a Polícia Vem Aí 33 1/3.

Claro, nem todas as piadas funcionam. Mas é uma crítica que também faço aos filmes antigos, porque não acho graça em “piada de pum” – como quando Frank Debrin está mostrando as filmagens da câmera corporal e a gente vê que ele teve diarreia. Mas, como esse estilo de piada também estava nos outros filmes, não cabe reclamar agora – no primeiro filme, Frank Debrin vai ao banheiro com um microfone de lapela ligado ao som de uma entrevista coletiva. Mesmo assim, as boas piadas superam as piadas ruins.

No elenco, o único nome que vale ser citado além de Neeson é Pamela Anderson, que entrou bem no clima das piadas absurdas. Também no elenco, Danny Houston, Kevin Duran, Paul Walter Hauser e CCH Pounder.

No fim do filme, são duas cenas pós créditos. Mas as piadas não ficam só nessas duas cenas. Tem uma música nos créditos que é continuação de uma piada do filme; e ao longo dos créditos, várias piadinhas espalhadas. Vale ficar pra ler.

Por fim, a sessão de imprensa foi dublada, o que achei ruim. Entendo que queiram adaptar algumas piadas para o público brasileiro, mas sempre acho que um filme perde com a dublagem.

O Mistério da Lixeira

Crítica – O Mistério da Lixeira

Sinopse: Um barbeiro busca a polícia depois que sua casa é assaltada, dizendo que sua lixeira foi levada, deixando-os incertos se existe algo por trás desse objeto.

Semana passada, Glaucia Beretta, uma apoiadora do Podcrastinadores, recomendou um filme indiano que estava na Netflix. Fui pela recomendação, porque, vamos combinar, “O Mistério da Lixeira” não é um nome atrativo.

E preciso agradecer a recomendação: O Mistério da Lixeira é muito melhor do que o título sugere!

O problema é que é daquele tipo de filme que não podemos falar muita coisa. O roteiro – muito bem escrito – guarda detalhes que só são revelados no final do filme. E que final, meus amigos! Há tempos não via um final tão impactante assim!

O texto de hoje será curto justamente porque não vou entrar em detalhes sobre a trama. Só confie!

O Mistério da Lixeira é o segundo filme escrito e dirigido por Nithilan Saminathan – fiquei até com vontade de procurar seu primeiro longa, Kurangu Bommai, de 2017. Saminathan conduz muito bem a trama que parece um quebra cabeças, onde inicialmente vemos várias peças soltas e não entendemos nada, mas depois conseguimos ver tudo o que antes estava nebuloso.

O roteiro é bom, mas não achei perfeito. Mas não quero entrar em detalhes por causa de spoilers. Mas, preciso falar que não entendi como, na parte final, os policiais chegaram àquelas conclusões.

Recomendo O Mistério da Lixeira, mas antes preciso dizer que traz alguns temas pesados e violentos. então não é uma recomendação para todos.

Boa opção na Netflix!

Guerra dos Mundos 2025

Crítica – Guerra dos Mundos 2025

Sinopse (imdb): Uma jornada fictícia com elementos realistas, que explora questões contemporâneas sobre privacidade e vigilância.

Com atraso de cinco anos, chegou na Prime uma nova versão da conhecida história Guerra dos Mundos, escrita por HG Wells em 1898.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds, no original) foi filmado em 2020, no meio da pandemia. Os atores não interagem presencialmente, o filme é todo online, através de uma tela de computador, num formato chamado “screenlife”. Um dos produtores é Timur Bekmambetov, que já produziu alguns bons filmes no estilo, como Unfriended (2014), Buscando (2018) e Desaparecida (2023). O filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. O problema é que – diferente desses três exemplos que citei, não souberam desenvolver a proposta aqui.

A direção é de Rich Lee, que tem uma longa carreira em videoclipes, e que está estreando no cinema. E o resultado foi bem ruim. Os efeitos especiais não são bons, mas isso até nem me incomodou muito. Porque tem tanta coisa pior…

Guerra dos Mundos até começa bem. Heu diria que os primeiros 20 minutos, quando mostra a invasão alienígena, até são bons. O problema é quando começam as reações de defesa dos personagens. O filme toma vários caminhos que não fazem o menor sentido. Começo por um básico: se os aliens estão atacando toda a tecnologia terrestre, como é que o cara continua com acesso à Internet e a vários gadgets, como câmeras e drones?

Tudo é tão absurdo que em determinado momento aparece uma propaganda da Amazon, num dos piores exemplos de product placement da história recente. Detalhe: se o prédio é tão vigiado que cara não pode entrar com um pendrive, como é que um drone consegue facilmente entrar pela janela?

Conforme o filme se aproxima do final, os absurdos são cada vez maiores, a ponto de um dos personagens conseguir acertar os tripods alienígenas com mísseis. De onde vieram esses mísseis? Será que não era uma boa pensar em soluções menos absurdas?

O elenco também não funciona. Durante a maior parte do tempo a gente fica vendo o Ice Cube, que não tem carisma pra sustentar um filme desses. O elenco de apoio também não está bem, com Eva Longoria, Clark Gregg, Iman Benson e Henry Hunter Hall.

Guerra dos Mundos está na Amazon Prime. Fujam!

A Hora do Mal

Crítica – A Hora do Mal

Sinopse (imdb): Um épico de terror de várias histórias inter-relacionadas sobre o desaparecimento de estudantes da mesma sala de aula em uma pequena cidade.

Já falei aqui diversas vezes: fiquem de olho no diretor do filme, porque muitas vezes pode ser um bom indicativo do que virá pela frente. Lembro quando vi Barbarian / Noites Brutais, primeiro filme escrito e dirigido pelo então desconhecido (pelo menos pra mim) Zach Cregger. Barbarian é daquele tipo de roteiro que é bem diferente do padrão, que realmente surpreende o espectador. Gosto de ver filmes diferentes, então guardei o nome do cara. (Acompanhante Perfeita foi vendido aqui no Brasil com o nome do Zach Cregger no poster, mas ele só era produtor naquele filme.)

(Um parágrafo fora do filme para falar de roteiro. Existe uma “fórmula” usada em Hollywood por 90% dos filmes. Tem um livro muito famoso escrito por Syd Field, O Manual do Roteiro, onde ele explica: mais ou menos meia hora pra apresentar e ambientar a trama e os personagens. Aí acontece um ponto de virada, e a trama anda em outra direção. Mais ou menos meia hora antes do fim, outro ponto de virada que vai apontar a trama para a conclusão. Essa fórmula é muito usada. Não tem nada a ver com a qualidade, um filme bom pode ou não usar a fórmula Syd Field. Mas heu particularmente gosto quando um filme larga a fórmula e segue por caminhos diferentes. E os dois roteiros do Zach Cregger até agora não usam essa fórmula. (Parênteses dentro do parênteses: no livro do Syd Field tem um capítulo que ficou completamente desatualizado, que é quando ele sugere comprar um computador pra escrever o roteiro, porque você tem que reescrever várias vezes, então dá muito trabalho pra reescrever tudo em máquina de escrever…))

Aí apareceu este A Hora do Mal (Weapons, no original), novo filme escrito e dirigido por ele. E mais uma vez um roteiro fora do óbvio. Legal! E melhor ainda: um filmão!

(Parênteses pra falar dos nomes. No original, não entendi por que “weapons”, ou “armas”. Já em português, parece um filme da espantomania dos anos 80, que veio depois de A Hora do Espanto, A Hora do Pesadelo, A Hora do Lobisomem, A Hora da Zona Morta…)

É complicado comentar um filme desses, porque não quero dar spoilers, e acho que você vai ter uma experiência melhor se entrar no cinema sem saber muita coisa. Então, muito por alto: em uma pequena cidade, 17 crianças fogem de casa no meio da madrugada e desaparecem. A partir daí, a história se desenrola sob pontos de vista diferentes. E o roteiro, de maneira inteligente, vai jogando elementos aqui e ali para preencher o quebra cabeças, mas sempre deixando algumas peças de fora, até a parte final, onde finalmente entendemos o que aconteceu.

Mais uma vez, Zach Cregger consegue criar um ótimo clima de tensão ao longo do filme inteiro. O cara sabe posicionar e movimentar sua câmera – em algumas sequências a câmera passeia pelos cenários e o espectador fica tenso na beirada da poltrona! Fiquei envolvido pela trama, e o artifício de mudar o ponto de vista fluiu perfeitamente. O filme é longo, pouco mais de duas horas, e não cansou.

A Hora do Mal não é um “terror de jump scare”, é mais um filme de clima e mistério. Mas tem um ou dois jump scares muito bem construídos! A trilha sonora, que fica boa parte do filme só na percussão, e que também sabe usar o silêncio, também é muito boa e ajuda na construção do clima.

O elenco é bom, e gostei como alguns personagens secundários viram protagonistas dependendo do ponto de vista – me lembrei de Shortcuts, do Robert Altman. Como o filme muda de ponto de vista, o protagonismo é dividido entre Julia Garner, Josh Brolin, Alden Ehrenreich, Benedict Wong e Amy Madigan, todos estão bem (e não comento mais detalhes pra evitar spoilers).

Depois da sessão de imprensa ouvi gente falando mal da parte final. Realmente, A Hora do Mal muda um pouco de tom nessa conclusão da história, e o final do filme gerou gargalhadas no cinema. Mas, não digo por outras pessoas, digo por mim: gostei da mudança.

A Hora do Mal deve estar aqui na minha lista de melhores do ano, não vejo a hora de rever. E agora aguardo o novo projeto do Zach Cregger – seja lá o que for, quero ver!

Drácula: Uma História de Amor Eterno

Crítica – Drácula: Uma História de Amor Eterno

Sinopse (imdb): Após a morte de sua esposa, um príncipe do século XV renuncia a Deus e se torna um vampiro. Séculos depois, na Londres do século XIX, ele vê uma mulher parecida com sua falecida esposa e a persegue, selando seu próprio destino.

Ué, já tem filme novo do Luc Besson em cartaz?

Antes de entrar no filme, um comentário sobre a carreira do diretor Luc Besson. Lembro na época da faculdade, um amigo falava que certos artistas alcançam o “estágio Roberto Carlos”. É quando o cara tem várias obras boas no início da carreira, mas depois faz tanta coisa de qualidade duvidosa que sua fase ruim supera a fase boa. Às vezes me questiono se Besson chegou a esse estágio… Afinal, o início da sua carreira é fantástico: Subway, Imensidão Azul, Nikita, O Profissional, O Quinto Elemento… Mas a qualidade foi caindo, e já tem uns anos que ele não acerta (June e John, Dogman, Anna, Valerian…)

Aliás, achei curioso lembrar que um mês e meio atrás chegou no circuito outro filme dirigido por Besson, June e John, um filme com uma produção muito menor. Vejam bem, não vou entrar no mérito de se o filme é bom ou ruim, estou comentando sobre ser uma produção infinitamente mais simples. June e John tem poucos atores, poucos cenários, se passa nos dias de hoje, não precisava de muitas “mirabolâncias”. É uma produção que pode ter sido filmada em uma ou duas semanas. Já Drácula é muito mais complexo, superprodução, filme de época, muitos cenários, muitos figurinos, muitos efeitos especiais…

Drácula: Uma História de Amor Eterno (Dracula: A Love Tale, no original) começa muito bem. Toda a parte inicial, antes do Vlad Dracul virar o famoso vampiro, é muito bem feita, incluindo uma sangrenta batalha. Inclusive algumas cenas parecem ctrl c ctrl v da versão mais famosa, o Drácula do Coppola, de 1992. O problema é que lá pro meio do filme o roteiro começa a dar umas viajadas…

O roteiro foi escrito pelo próprio Besson, em cima do livro original do Bram Stoker. Nunca li o livro, mas já vi algumas versões cinematográficas. E posso dizer que este Drácula: Uma História de Amor Eterno tem algumas coisas que heu nunca tinha ouvido falar. Além disso, não traz alguns elementos clássicos – cadê o Van Helsing?

Por outro lado, Besson é um cara experiente e sabe filmar, isso é inegável. Drácula: Uma História de Amor Eterno traz várias imagens belíssimas. Também gostei da trilha sonora do Danny Elfman – em alguns momentos, nem parece o estilo do Elfman, parece mais a trilha da versão do Coppola. Ele fez como o Michael Giacchino às vezes faz, trabalhou em cima de temas já existentes. De qualquer maneira, o resultado ficou bom, gostei de como ele mistura música diegética e não diegética – a música diegética é o que os personagens estão ouvindo; a não diegética é a trilha que só o espectador ouve.

No elenco, o destaque é para Christoph Waltz, que parece que está se divertindo muito com o seu padre que parece uma mistura de personagens clássicos. Já Caleb Landry Jones, o personagem título, às vezes está monocórdico, mas não atrapalha.

Heu gostei do filme, mas tem uma coisa no roteiro que, se a gente parar pra pensar, não faz muito sentido. O cara passa 400 anos atrás de um objetivo. Aí, quando finalmente consegue, desiste? Podia curtir aquele momento por alguns anos antes de desistir, né?

Depois da sessão de imprensa, ouvi gente comentando que essa era uma “versão romântica da história do Drácula”. Pô, galera, o poster do filme de 1992 tinha “Love never dies”, “o amor nunca morre”. Pelo menos pra mim, Drácula sempre foi uma história romântica!

No fim, Drácula: Uma História de Amor Eterno deve desagradar os mais puristas. Mas por outro lado, traz um resultado bem mais palatável do que o Nosferatu lançado na virada do ano. Pra mim, o que mais gostei é que é o melhor filme do Luc Besson em um bom tempo!