A Empregada

Crítica – A Empregada

Sinopse (imdb): Segue uma mulher em dificuldades que está feliz em recomeçar como empregada doméstica para um casal rico e elitista.

A Empregada (The Housemaid, no original) é o novo suspense dirigido por Paul Feig, que tem um longo currículo na comédia (Missão Madrinha de Casamento, As Bem Armadas, Caça Fantasmas (2016)), mas que já tinha entrado no suspense, com Um Pequeno Favor. Seu novo filme é baseado no livro de Freida McFadden – não li o livro, meus comentários serão só sobre o filme.

A Empregada tem aquele formato onde vemos uma trama com alguns elementos estranhos, e depois rola uma reviravolta de roteiro onde tudo passa a ser visto sob uma nova perspectiva. Millie (Sydney Sweeney), que tem um passado misterioso, está procurando emprego, e começa a trabalhar na casa de Nina (Amanda Seyfried). Só que pouco depois que começa o trabalho, Nina se mostra uma pessoa completamente desequilibrada.

Depois da virada de roteiro a gente entende algumas coisas que antes estavam nebulosas. Mas se heu puder fazer uma crítica, achei meio abrupta a mudança de comportamento de alguns personagens. No filme até funciona, mas me pareceu artificial.

O grande lance aqui é a dinâmica entre Sydney Sweeney e Amanda Seyfried. Sydney esteve envolvida recentemente em polêmicas vazias (talvez o maior problema do mundo atual seja essa polarização que transforma tudo em flaxflu), mas já mostrou que é uma grande atriz – e quem discorda de mim, veja o final de Imaculada. Enfim, polêmicas à parte, Sydney, que além de atuar bem, é uma das mais bonitas da sua geração, está bem aqui. Amanda às vezes parece um pouco over, mas ela também funciona bem no papel, principalmente depois do plot twist, quando sabemos o que realmente aconteceu. Enfim, as duas estão bem e valem o filme.

O papel masculino principal é de Brandon Sklenar. Curioso que já vi alguns filmes com ele, mas não lembro de nenhuma das suas atuações. Não sei se é uma falha minha ou se ele realmente é um cara mais apagado. Michele Morrone, famoso pela bomba 365 Dias e por ser um novo “Cigano Igor”, tem um papel muito mal desenvolvido como o jardineiro – ou seja, é um ator ruim num papel ruim. E, pra quem é das antigas, a mãe do protagonista é Elisabeth Perkins, de Sobre Ontem À Noite (1986) e Quero ser Grande (88).

A Empregada é um pouco longo, não precisava de mais de duas horas pra contar essa história. Mas quem curtia aqueles suspenses dos anos 90, com reviravoltas e um toque de erotismo, vai se divertir.

 

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Crítica – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Sinopse (Netflix): O detetive Benoit Blanc conta com a ajuda de um jovem padre para investigar um crime perfeitamente impossível na igreja de uma cidadezinha que tem uma história sombria.

Em 2019, fomos apresentados ao detetive Benoit Blanc, uma espécie de novo Hercule Poirot, no divertido e bem escrito whodunit Entre Facas e Segredos. Três anos depois, Benoit Blanc voltou em outro novo mistério, em Glass Onion, Um Mistério Knives Out, filme que trazia o mesmo personagem, em uma história completamente independente do primeiro filme. Agora, em 2025, mais uma vez dirigido por Rian Johnson (Star Wars episódio 8), Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, no original) repete a ideia: novo filme, mesmo personagem, mestilo, história 100% independente.

(Curiosidade sobre os títulos dos três filmes. Knives Out é uma música do Radiohead; Glass Onion é dos Beatles. Wake Up Dead Man é uma música do U2.)

(Glossário: whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. A literatura tem pelo menos dois nomes bem famosos no estilo: Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle; e Hercule Poirot, da Agatha Christie.)

Assim como os dois primeiros filmes, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out traz um grande elenco, e o único repetido é Daniel Craig como Benoit Blanc. Curioso que desta vez o detetive é quase um coadjuvante, porque o filme é muito mais do padre Jud (Josh O’Connor). Digo mais: Blanc só aparece depois de 39 minutos e meio de filme.

Aliás, bora falar do elenco, que é fantástico. Daniel Craig está ótimo, e pode tirar uma onda que poucos conseguem no cinema: viveu personagens marcantes em duas franquias diferentes (acho que nenhum outro James Bond conseguiu “se livrar” do personagem). Mas claro que o destaque é Josh O’Connor, o que foi uma agradável surpresa, já que o último filme que vi dele foi o decepcionante The Mastermind. Glenn Close e Josh Brolin também estão excelentes. Também no elenco, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church, Jeffrey Wright e Annie Hamilton. Ah, tem um momento que o Thomas Haden Church está vendo baseball na TV, a voz do comentarista é de Joseph Gordon Levitt – que também tinha feito apenas uma voz em Glass Onion.

O assassinato realmente é intrigante e parece impossível, acho difícil algum espectador conseguir solucionar. E na parte final acontece um outro crime, igualmente impossível, que deixa a trama ainda mais misteriosa. Será que Benoit Blanc vai conseguir solucionar o caso dessa vez? Apesar de uma forçadinha aqui e outra ali, achei os dois casos muito bem bolados, e as soluções me convenceram. Além disso, o ritmo do filme é muito bom, são quase duas horas e meia que passam rapidinho.

Por fim, vou repetir o que falei três anos atrás e vou falar mal do nome brasileiro do filme. O primeiro filme aqui foi chamado “Entre Facas e Segredos”. O segundo tem um subtítulo “Um Mistério Knives Out”. Por que não “Um Mistério Entre Facas e Segredos”? E o terceiro filme repete: “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out”. Bem, pelo menos agora o subtítulo fez um link com o segundo filme…

Avatar: Fogo e Cinzas

Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas

Sinopse (imdb): Depois de uma perda devastadora, a família de Jake e Neytiri enfrenta uma tribo Na’vi hostil, os Ash, liderada pela implacável Varang, à medida que os conflitos em Pandora se intensificam e surgem novos dilemas morais.

Antes de tudo, preciso avisar que nunca fui fã de Avatar. Vou além: acho uma série de filmes bem bestas. Vi o primeiro na época que saiu, 2009, não me lembro se cheguei a rever. Vi o segundo no lançamento, três anos atrás, me lembro de quase nada. Precisava de mais um? Não. Mas, já que fizeram, vamulá.

Depois da sessão de imprensa os comentários eram mais ou menos um consenso: o filme é longo demais e com roteiro fraco demais. O diretor James Cameron quis apresentar um belo espetáculo, e conseguiu – o filme é belíssimo. Mas parece que focou todos os esforços e energia na parte técnica, enquanto deveria pensar um pouco mais no roteiro. Deu a impressão de que Cameron está querendo fazer o seu próprio parque temático nas salas de cinema. E, desculpa, mas três horas e quinze de imagens bonitas é muita coisa. Na primeira meia hora, aquilo tudo é lindo. Mas acho difícil algum espectador chegar ao fim sem se cansar.

O roteiro tem várias facilitações muito forçadas. Determinado momento, um personagem está preso e tentando fugir, e ele só consegue porque três ações diferentes, de três personagens diferentes, que não estão em contato, acontecem ao mesmo tempo. Ok, já vimos isso em outros filmes, mas Avatar 3 é uma mega produção, não devemos aceitar erros comuns de filmes de baixo orçamento. Além disso, a contagem de tempo é meio estranha, o cabelo do Spider cresce vários centímetros, o que deveria ser um sinal de passagem de tempo – mas Ronal passa o filme inteiro grávida, com barrigão. Se passou tempo pro cabelo, não passou tempo pra gravidez?

(Se bem que estou entrando na ciência de Pandora, que não necessariamente segue as mesmas regras que no nosso planeta. Isso também explicaria a “gravidade seletiva” – tem uma cena onde personagens caem, mas em pedras que flutuam no ar – por que a gravidade só funciona pra uns?)

O roteiro ainda tem um artifício usado de vez em quando, mas que heu particularmente acho péssimo: uma solução “deus ex machina”, que é é um recurso narrativo onde um problema aparentemente insolúvel é resolvido de forma súbita e inesperada por uma força externa. Sem spoilers, mas os “mocinhos” estão perdendo, sem saída, aí do nada aparece um novo elemento para derrotar os “vilões”. Ok, isso não é um problema inventado em Avatar, isso existe desde o teatro grego. Mas, caramba, uma produção do porte de Avatar, e com uma duração tão longa, precisava de uma solução de roteiro tão preguiçosa?

O visual realmente é muito bom. Nisso, precisamos tirar o chapéu para James Cameron, que conseguiu criar o seu mundo com detalhes impressionantes. Sim, o filme é longo e cansativo. Mas quem estiver apenas atrás de belas imagens vai se esbaldar.

Comentários sobre o 3D. Não sou fã de 3D pra dar profundidade. Na verdade, gosto mais quando é “efeito de parque de diversões vagabundo”, que é quando o personagem atira algo na direção da tela e o espectador se abaixa pra não ser atingido. Vou ser franco: só me lembro de duas vezes onde o 3D me proporcionou sensações diferentes, em A Invenção de Hugo Cabret, quando o George Méliès está construindo seus efeitos especiais; e A Travessia, nas cenas onde o equilibrista explica seu plano de como vai colocar o cabo de aço entre as torres do World Trade Center. Fora esses raros casos, sempre que posso, dispenso o 3D, efeito que encarece o ingresso, e traz um resultado que não vale a pena. Dito isso, reconheço que o 3D aqui não é ruim. Acho desnecessário, mas quem curte o efeito vai gostar.

Teve uma coisa na imagem que me incomodou. Não chega a ser exatamente um defeito do filme, acredito que seja mais uma opção estética. Me pareceu que foi filmado em 48 fps ou 60 fps. Explico. O cinema tradicionalmente usa 24 quadros por segundo, ou “frames per second” (fps). Alguns poucos filmes usam mais quadros por segundo, o que causa uma certa estranheza ao olhar. Em algumas cenas, parecia que heu estava vendo um filme para tv, e não para o cinema. Acho estranho um produto tão caro, com visual tão esmerado, ficar com “cara de novela”.

No elenco, os principais voltam aos seus papeis, Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Kate Winslet, etc. A novidade é Oona Chaplin, que faz uma boa nova vilã, é um daqueles vilões que são malvados e curtem essa malvadeza. Gostei da personagem!

No fim, a conclusão é que James Cameron se preocupou mais com a lado “parque temático” e se esqueceu do lado “cinema”. A única boa notícia é que parece que ele desistiu de fazer Avatar 4 e Avatar 5. Sr. Cameron, que tal pensar em novos filmes, longe de Pandora?

Five Nights At Freddy’s 2

Crítica – Five Nights At Freddy’s 2

Sinopse (imdb): Um ano após o pesadelo sobrenatural na Freddy Fazbear’s Pizza, Abby foge para se reconectar com seus amigos animatrônicos, revelando segredos obscuros sobre a verdadeira origem da Freddy’s e libertando um horror escondido há décadas.

Lançado em 2023, o primeiro Five Nights At Freddy’s não foi bom. Mas teve uma boa bilheteria – custou 20 milhões e rendeu 291 milhões. Além disso, é um filme baseado na franquia de jogos Five Nights At Freddy’s (ou FNAF). Então uma continuação não é surpresa. Pena que o segundo filme é tão fraco quanto o primeiro.

Mais uma vez dirigido por Emma Tammi (mesma diretora do primeiro filme), Five Nights At Freddy’s 2 traz os personagens do filme anterior lidando com os robôs animatrônicos, além de um novo fantasma. Mas o problema é que o roteiro é muito ruim. Ruim do nível de aparecer um novo personagem com o mesmo nome do protagonista – sim, tem dois Mikes no filme.

Dava tranquilamente pra fazer um vídeo “10 furos de roteiro em Five Nights At Freddy’s 2“, mas pra isso heu teria que rever o filme, e não pretendo fazer isso tão cedo. Mas vou trazer dois grandes erros aqui pra dar um exemplo. Um deles é que os robôs fazem muito barulho quando estão andando. Mas quando o personagem não está vendo, os passos são completamente silenciosos! Galera, ou o bicho faz barulho quando anda, ou não. Não dá pra ser os dois.

Outro erro é num momento onde robôs são acionados remotamente, e, do nada, aparece um robô em cima do carro. Em cima do carro, em movimento! E o pior é que esse erro dava pra ser consertado numa revisão de roteiro. O carro não é da personagem, ela pegou o carro que estava lá. Era só ter um enfeite em cima do carro…

Five Nights At Freddy’s 2 é cheio de jumpscares ruins. Todos são baseados em som alto, nenhum tem uma construção de roteiro. Jumpscare de barulho só assusta quem não está prestando atenção no filme. Agora, assustar o filme não assusta. E como é direcionado ao público adolescente, não tem nenhuma cena violenta. Todas as mortes acontecem fora da tela.

Sobre os animatrônicos, trago o mesmo elogio e a mesma crítica do filme anterior. O elogio é que são bonecos reais, em vez de cgi – mais uma vez chamaram a empresa do Jim Henson, criador dos Muppets. Muito melhor ter bonecos reais do que algo feito por computador. Agora, o problema é que são bonecos que não assustam ninguém. Repito o que escrevi dois anos atrás: “O filme parte do princípio de que as pessoas têm medo dos robôs, mas, você precisa fazer alguma coisa com esse robô pra ele virar assustador. É que nem um palhaço. Um palhaço não é assustador, mas pode virar assustador dependendo de como você apresentá-lo.

No elenco, os três principais, Josh Hutcherson, Piper Rubio e Elizabeth Lail repetem os personagens sem carisma e sem graça do primeiro filme. Matthew Lillard aparece em algumas cenas de sonho (lembrei de outro furo de roteiro, a personagem diz “não tenho medo de você” – e logo depois foge, com medo). Wayne Knight faz um alívio cômico sem graça (como sempre faz), e que destoa completamente do resto do filme. Além disso, tem duas participações que heu queria destacar. Skeet Ulrich (que estava em Pânico com Matthew Lillard), aparece em uma única cena, mas está tão diferente que nem reconheci. E Mckenna Grace, jovem com grande currículo no terror, é desperdiçada em apenas duas sequências.

Como falei, FNAF tem seu público. E Five Nights At Freddy’s 2 termina com gancho pro terceiro, além de uma cena pós créditos só pra fãs. Ou seja, teremos mais FNAFs…

Morra, Amor

Crítica – Morra, Amor

Sinopse (imdb): Em uma área rural remota e esquecida, uma mãe luta para manter sua sanidade enquanto luta contra a psicose.

Em 2017, comentei no heuvi sobre o filme Você Nunca Esteve Realmente Aqui, dirigido pela Lynne Ramsey. Escrevi que o filme “mostra um bom trabalho do ator Joaquin Phoenix num filme que não é grandes coisas. Oito anos depois, novo filme dirigido pela Lynne Ramsey, Morra Amor, posso dizer que “mostra um bom trabalho da atriz Jennifer Lawrence num filme que não é grandes coisas”.

Novo filme escrito e dirigido por Lynne Ramsey (mais conhecida por Precisamos Falar Sobre o Kevin), Morra Amor (Die My Love, no original) segue por esse caminho. Uma grande atuação da Jennifer Lawrence, que deve ser indicada pra prêmios; uma boa atuação do Robert Pattinson, mas num roteiro fraco, cheio de simbolismos vazios. Resumindo, um filme bem chato.

Ao fim da sessão, achei que o filme falava de uma pessoa desequilibrada. Mas depois li que na verdade é sobre depressão pós parto. No filme, acompanhamos Grace, que de vez em quando tem uns surtos. Claro, prato cheio para a Jennifer Lawrence se soltar.

(Em alguns momentos, aparece um motociclista misterioso, personagem do Lakeith Stanfield. Um dos poucos elogios que consigo fazer ao filme é o lance de não deixar claro se é um personagem real ou fruto da imaginação de Grace. Na minha interpretação, ele não existe, afinal ele não interage com mais ninguém no elenco.)

Mas tudo é muito arrastado, muito chato, cenas se repetem – perdi a conta de quantas vezes a Jennifer Lawrence engatinha pelo cenário… Além disso, tenho quase certeza que existe um erro na edição, porque Grace aparece grávida depois do filho nascer. Heu precisaria rever pra ter certeza, mas tive a impressão de ter visto esse erro quase amador.

Enfim, só se salva o elenco. Além dos três citados, Morra, Amor ainda tem Sissy Spacek e Nick Nolte. Pode até valer um Oscar, mas, como cinema, deixa a desejar.

Bugonia

Crítica – Bugonia

Sinopse (filmeb): Dois jovens obcecados por teorias da conspiração sequestram a CEO de uma grande empresa, convencidos de que ela é uma alienígena que tem a intenção de destruir o planeta Terra.

Pobres Criaturas foi um filme marcante em vários aspectos: um visual exuberante, uma temática delicada e polêmica, e uma atuação inspiradíssima da Emma Stone. Claro que o diretor Yorgos Lanthimos entrou no radar da maioria dos cinéfilos. Pouco depois de Pobres Criaturas, chegou no circuito Tipos de Gentileza, que heu gostei, mas é um filme claramente “menor” e muita gente não curtiu. Aí a expectativa foi transferida para o seu filme seguinte, este Bugonia.

Quando heu soube que Bugonia era refilmagem de uma ficção científica coreana que ninguém conhece, fui catar o filme original antes de ver o novo. Trata-se de Save the Green Planet!, dirigido por Jang Joon-hwan em 2003. É um filme realmente pouco conhecido – curiosamente, depois da sessão de imprensa, conversei com algumas pessoas, metade não tinha visto o filme coreano, a outra metade nem sabia que era refilmagem.

Não gostei muito do filme coreano, achei os personagens mal desenvolvidos – Bugonia é melhor. Mas respondo logo a pergunta: sim, a história é basicamente a mesma nos dois filmes: um alto executivo de uma grande empresa é sequestrado por dois malucos conspiracionistas que acham que se trata de um alienígena. A diferença é que no original é um executivo homem, sequestrado por um casal, e aqui é uma executiva mulher sequestrada por dois primos.

Uma coisa que o filme sabe muito bem trabalhar é a dúvida sobre a veracidade da tal teoria conspiratória. Afinal, vemos uma pessoa sendo sequestrada por um cara completamente lelé das ideias, que defende uma ideia absurda – será que isso pode ser verdade? Lembrei de Rua Cloverfield 10, quando passamos quase todo o filme sem saber se o papo do John Goodman é real ou não.

Bugonia é um filme bastante desconfortável. A boa trilha sonora de Jerskin Fendrix (o mesmo de Pobres Criaturas) ajuda no desconforto. Curiosidade: Fendrix compôs a trilha antes de ter acesso ao roteiro; Yorgos Lanthimos falou pra ele se basear em quatro palavras chave: abelhas, porão, espaçonave e “Emily bald”, o que seria algo como “Emma Stone careca”.

Visualmente falando, Bugonia não é tão exuberante quanto outros filmes do diretor. Não que isso seja algo necessariamente ruim, mas é que depois de A Favorita e Pobres Criaturas, a gente espera algo mais fora da caixinha, e o visual de Bugonia é mais, digamos, “careta”.

No elenco, Emma Stone e Jesse Plemons estão excelentes, ambos têm personagens desagradáveis e ao mesmo tempo muito interessantes. Outro destaque é para o estreante Aidan Delbis – Lanthimos queria alguém neurodivergente para o terceiro papel mais importante do filme, e Delbis é autista – e manda muito bem. Alicia Silverstone tem um papel mais discreto como a mãe do Jesse Plemons (apesar dos atores terem apenas 12 anos de diferença de idade).

Bugonia é melhor que Tipos de Gentileza, mas está bem abaixo de Pobres Criaturas. Prevejo uma galera “tênis verde” reclamando depois das sessões…

Enterre Seus Mortos

Crítica – Enterre Seus Mortos

Sinopse (imdb): Em uma paisagem rural apocalíptica, o coletor de animais atropelados Edgar Wilson planeja uma fuga com sua namorada Nete, mas tem sonhos violentos.

Enterre Seus Mortos passou no Festival do Rio ano passado, não consegui ver, mas alguns amigos viram, e todos foram unânimes: era um dos piores filmes daquele ano. Mais de um ano depois, passou nos cinemas e finalmente tive oportunidade de assistir, e concordo com eles. Pensei em não fazer texto sobre Enterre Seus Mortos, porque não gosto muito de falar mal de terror nacional. Mas Enterre Seus Mortos foi tão decepcionante que talvez ele volte no top 10 de piores do ano. Então bora comentar logo.

Enterre Seus Mortos é o novo filme dirigido por Marco Dutra. Não sou muito fã do estilo dele, mas já vi alguns dos seus filmes. E ele merece respeito porque quase sempre consegue colocar seus filmes no circuito, coisa rara em se falando em terror nacional. O filme foi baseado no livro homônimo, escrito por Ana Paula Maia, que co-escreveu o roteiro com Dutra.

(Enterre Seus Mortos estava em cartaz. Fui ao Cinemark Downtown numa segunda feira para assistir. E heu era o ÚNICO dentro da sala de cinema. Fico triste pela bilheteria ruim. Mas, olhando pelo lado egoísta, olha só, não tinha ninguem usando celular…)

Enterre Seus Mortos começa bem. O espectador cai direto num mundo apocalíptico, onde pessoas estão fugindo do planeta e uma religião fundamentalista toma conta da sociedade. Somos apresentados a Edgar Wilson, um cara cujo trabalho é recolher animais mortos que podem estar contaminados.

(Sabe aquelas coisas que só heu penso? Toda vez que ouvia “Edgar Wilson” me lembrava de Ed Wilson, cantor da época da Jovem Guarda, um dos fundadores da banda Renato e Seus Blue Caps…)

A trama é arrastada, mas reconheço que estava gostando desse clima apocalíptico maluco. Mas, na parte final, o filme muda para uma direção completamente diferente. Mas vou ter que entrar nos spoilers pra comentar isso.

SPOILERS!

A distopia apocalíptica estava andando bem. Mas do nada mudam o foco do filme e vira um filme de possessão demoníaca. De onde veio isso?

Depois ainda tem uma maluquice de uma menina polvo. Mas quando isso apareceu, o filme já tinha me perdido com a possessão.

FIM DOS SPOILERS!

No elenco, gostei de ver Selton Mello num papel um pouco diferente do de sempre. Não que seja uma grande atuação, não é. Mas, sabe aquele estilo sempre igual, que ele repete em qualquer filme ou programa de TV? Aqui ele não está igual. Já Marjorie Estiano, grande atriz, aqui só faz o feijão com arroz. Também no elenco, Betty Faria, Danilo Grangheia e Gilda Nomacce.

Gosto do Marco Dutra, gosto de prestigiar terror nacional. Tomara que 2025 tenha dez filmes piores…

Frankenstein

Crítica – Frankenstein

Sinopse (imdb): Um cientista brilhante, mas egocêntrico, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à destruição do criador e de sua trágica criação.

Guillermo Del Toro é talvez o melhor cineasta que sabe usar o contraste para unir o belo ao grotesco. E ele tinha há anos o sonho de fazer a sua versão da história do Frankenstein, baseada no clássico livro de Mary Shelley. Finalmente conseguiu, e temos mais um belíssimo espetáculo – claro, com um pé no grotesco.

Visualmente, Frankenstein é tudo o que se espera de del Toro, que fez questão de ter cenários inteiramente construídos, com o mínimo de cgi possível. Assim como aconteceu em Pinóquio, cada cena, cada frame, tudo parece esculpido a mão.

Em vez de apostar no terror clássico, del Toro nos entrega um drama gótico sobre criação e abandono. Temos uma criatura humanizada, que é bem mais complexa que o clássico monstro abobado com um parafuso no no pescoço. A criatura aqui sente, aprende e sofre. Del Toro declarou que seu filme é mais sobre abandono paternal do que o mau uso da ciência.

Del Toro já trouxe vários monstros para o cinema – não só o monstro de A Forma da Água lhe deu seu primeiro Oscar, como o monstro de Labirinto do Fauno é um dos mais assustadores da história do cinema. E se aqui temos um monstro como uma das figuras centrais, claro que a criatura é um dos pontos altos. E, olha a ironia, Andrew Garfield ia interpretar a criatura, mas teve que se desligar do projeto por problemas de agenda. A equipe de maquiagem ficou nove meses trabalhando no conceito de Garfield como o monstro, e quando ele foi substituído por Jacob Elordi, tiveram apenas algumas semanas pra adaptar tudo. E mesmo assim o resultado ficou fantástico.

(Jacob Elordi tem 1,96, sua criatura é imponente. Será que Andrew Garfield, com apenas 1,79, não seria pequeno demais para o papel? Ou será que iam usar truques de câmera pra ele parecer mais alto?)

(Um mimimi com relação ao visual da criatura. Dr. Victor Frankenstein usou vários corpos, sempre pegando as melhores partes de cada um. Então tem lógica ele ser todo costurado. Agora, o rosto dele precisava ter tantas costuras? Será que não tinha um rosto inteiro no meio dos corpos?)

Todo o visual do filme é digno de prêmios – provavelmente teremos algumas indicações ao Oscar no início do ano que vem. Figurinos, cenários, maquiagem, props, tudo é feito com precisão. Tem uma cena com vários pedaços de corpos (usados para montar a criatura) onde tudo parece tão real que quase a cena tem cheiro!

O roteiro é dividido em duas partes. Temos primeiro o ponto de vista do cientista dr. Victor Frankenstein, e depois o ponto de vista da criatura. E o roteiro é bem estruturado, porque aos poucos vamos vendo que o monstro não é a criatura e sim o criador.

Queria ainda citar a bela sequência com o homem cego onde a criatura lentamente se desenvolve intelectualmente. Curiosidade: a criatura lê o livro Ozymandias, de Percy Bysshe Shelley, que era marido da Mary Shelley autora do livro.

O elenco é muito bom. O já citado Jacob Elordi tem carisma suficiente pra trazer ao personagem toda a complexidade necessária. Oscar Isaac, por sugestão do diretor, tem uma postura mais de rock star e menos de cientista – Del Toro sugeriu inspiração em Mick Jagger, David Bowie e Prince. Christoph Waltz faz o Christoph Waltz de sempre, e funciona bem – como sempre. Mia Goth talvez pudesse ter mais espaço, mas não está mal. Ainda no elenco, Charles Dance, Felix Kammerer e David Bradley.

Ouvi gente comentando que o filme é longo demais. Não achei, o filme não me cansou, apesar de ter quase duas horas e meia. Talvez seja porque consegui ver no cinema – algumas semanas antes de estrear na Netflix Frankenstein foi exibido em algumas salas, e aproveitei a chance.

Não é o melhor Guillermo del Toro, mas é um grande filme. Em cartaz na Netflix.

Predador: Terras Selvagens

Crítica – Predador: Terras Selvagens

Sinopse (imdb): Um jovem predador marginalizado de seu clã encontra um aliado improvável em sua jornada em busca do melhor adversário.

O primeiro Predador, de 1987, apresentava um antagonista diferente. Ele não era exatamente um vilão, na verdade era um caçador em um safári interplanetário, que enfrentava o protagonista porque achava que ele era um bom adversário. A partir do segundo filme isso ficou mais claro: a cultura dos yautjas (o nome da espécie) é guerrear contra adversários mais fortes que eles. Isso abre espaço para um universo gigantesco, afinal podemos ver inúmeros filmes mostrando yautjas lutando em ambientes estranhos, contra adversários ainda mais estranhos.

Dirigido por Dan Trachtenberg (que está cuidando bem da franquia, ele também dirigiu os bons O Predador – A Caçada e a animação Predador: Assassino de Assassinos), Predador: Terras Selvagens (Predator: Badlands, no original) faz algo que a gente ainda não tinha visto: traz um yautja como protagonista. Digo mais: não só não se passa no nosso planeta, como também não tem nenhum humano. E não é que o resultado funcionou?

Predador: Terras Selvagens nos apresenta Dek (acho que é o primeiro filme onde ouvimos o nome de um yautja), que é fraco e rejeitado por um pai abusivo, e que por isso resolve tentar conseguir um prêmio difícil: matar uma criatura que nenhum yautja até hoje conseguiu matar. Detalhe: essa criatura está em Genna, um planeta muito perigoso.

O planeta Genna é um dos pontos altos do filme. A geografia parece a da Terra (foi filmado na Nova Zelândia), mas foram criadas uma fauna e uma flora onde tudo apresenta perigo. Todos os bichos e plantas parecem querer matar o protagonista, que acaba se associando a Thia, uma robô sem pernas, de propriedade da Weyland Yutani – sim, a mega corporação da franquia Alien, deixando claro que no futuro provavelmente teremos novos Alien vs Predador (e espero que melhores do que os que já fizeram). Aliás, o modo de carregar o robô nas costas foi uma homenagem ao Império Contra Ataca, quando Chewbacca carrega C3P0 desmontado do mesmo jeito.

Gostei muito da dinâmica da dupla Dek / Thia. Mas, é uma parte do filme que traz algum humor, e amigos meus não gostaram disso. Como pra mim “cinema é a maior diversão”, não vou reclamar de algumas situações engraçadas criadas pela dupla. E não é só isso: durante parte do filme a dupla vira trio, quando Bud, uma nova criatura que parece um macaco de olhos grandes, se junta à trupe. E Bud tem alguns momentos que são bem engraçados. (Além disso, o visual do Bud é perfeito pra fazer bichos de pelúcia. Me parece que a Disney quer um novo Grogu.)

Tecnicamente falando, Predador: Terras Selvagens é um absurdo. Todo o visual do novo planeta é perfeito – a gente sabe que boa parte é cgi, mas não dá pra saber o que é real e o que é computador. Outro detalhe importante: boa parte do filme os diálogos são na língua yautja. Sim, criaram uma nova língua para este filme. A trilha sonora com vozes graves que lembram mantras tibetanos também é muito boa.

Sobre as cenas de luta, tenho um elogio e uma reclamação. O elogio é pra uma coreografia onde a Thia está separada de suas pernas, mas elas continuam coordenadas com o torso. Assim temos uma luta onde metade do lutador está em um lado, a outra metade está no outro, e as metades atuam em sintonia, foi uma boa sacada. Agora, por outro lado, a cena da batalha final é muito bagunçada, a gente não consegue entender o que está acontecendo, muita coisa embolada na tela, parece um filme de Transformers com aquelas lutas muito mal filmadas.

Quero fazer um mimimi, com cuidado pra não entrar em spoilers. Determinado momento do filme, Dek dá uma magaiverizada e resolve usar a fauna e a flora local para criar armas. Ele pega plantas e bichos para usar contra os inimigos. Até aí, ok, é uma ótima sacada. Mas tem um animal que ele coloca no ombro, e o bicho vira uma arma. Que ele consiga domesticar o animal e usá-lo a seu favor, ok; mas, a ponto do bicho virar adestrado e funcionar junto com o pensamento? Forçou a barra…

O elenco é muito pequeno, na verdade, só existem seis nomes nos créditos oficiais. Thia é interpretada por Elle Fanning, que está bem como a robô tagarela. Dimitrius Schuster-Koloamatangi faz Dek, mas, claro, não vemos seu rosto. Curiosidade: ele tem só 1,80m de altura, foi a primeira vez que um ator de menos de 2 metros interpreta um yautja (Kevin Peter Hall, que fez os dois primeiros filmes Predador, tinha 2,24m!). O filme é quase todo em cima dos dois. Tem outro ator creditado como a voz do Bud, mais o pai e o irmão do Dek, e um único ator interpreta todos os outros robôs que aparecem na parte final do filme.

Predador: Terras Selvagens estreou esta semana no circuito. Boa opção pra quem gosta do gênero.

Casa de Dinamite

Crítica – Casa de Dinamite

Sinopse (imdb): Centrado nos funcionários da Casa Branca que lidam com um ataque iminente de mísseis contra os Estados Unidos, esse drama emocionante se desenrola em tempo real à medida que as tensões aumentam.

Filme novo da Kathryn Bigelow, com elenco cheio de gente legal!

A trama é simples: alguém, no Pacífico – ainda não sabem quem – lançou um míssil nuclear, em direção aos EUA, com possibilidade de atingir uma grande cidade. Eles só têm 19 minutos antes do impacto, pra tentar alguma defesa, ou pra pensar em retaliação.

Heu gosto do formato do roteiro de Noah Oppenheim (curioso um cara com esse sobrenome escrever um roteiro usando uma arma nuclear…). A gente acompanha a história, e depois recomeça tudo sob outro ponto de vista. Quando revemos, às vezes vemos parte dos diálogos mas pelo ponto de vista de outro interlocutor, outras vezes vemos novos elementos. Ok, tem o problema da gente já saber algumas coisas quando revemos, mas mesmo assim o roteiro consegue segurar a atenção do espectador.

(Essa trama me lembrou Maré Vermelha, do Tony Scott, onde um submarino perde o contato com a base, e seus próximos passos podem impedir uma guerra ou começá-la.)

Olhando de longe, Casa de Dinamite lembra o recente Guerra dos Mundos, porque quase todas as cenas são internas, nos bastidores. Mas é a única semelhança. Casa de Dinamite é infinitamente superior. Kathryn Bigelow é muito eficiente ao usar uma câmera nervosa entre o elenco, mantendo a tensão lá no alto.

Não gostei do final. Mas podem ficar tranquilos que não vou falar spoilers. O espectador acompanha um momento tenso, mais de uma vez, e o filme aponta a direção do que vai acontecer, mas não mostra. Kathryn Bigelow quis focar seu filme nas pessoas que estavam conectadas ao evento, e não no que aconteceria no mundo logo depois. Entendo essa opção, mas foi muito anti climático.

O elenco é muito bom. Não tem um protagonista, a trama fica entre os núcleos. Todos estão bem: Rebecca Ferguson, Idris Elba, Jared Harris, Anthony Ramos, Greta Lee, Jason Clarke, Gabriel Basso e Willa Fitzgerald, entre outros.

Casa de Dinamite estreou recentemente na Netflix.