Ponto sem Retorno

Crítica – Ponto sem Retorno

Sinopse (imdb): Em um mundo pós-apocalíptico, um vírus dizima a humanidade. Os sobreviventes enfrentam saqueadores errantes conhecidos como Ceifadores. O protagonista, Hig, um piloto, sobreviveu à gripe, mas perdeu a esposa.

Alguns diretores sempre estão no radar. Ridley Scott é um deles. Tanto que este filme estava aqui no heuvi, na lista de expectativas para 2026, lista feita em dezembro de 2025, época que ainda não tinha quase nenhuma informação sobre ele pela internet.

Em Ponto sem Retorno, estamos em um futuro próximo (acho que é 2035, em algum momento isso é dito durante o filme, mas não tenho certeza da data). Quase toda a população foi levada por um vírus. Hig é um sobrevivente que vive isolado, com o amigo Bangley, e usa um avião monomotor para procurar recursos e ajudar alguns raros vizinhos. E vive intrigado por uma mensagem que ouve no rádio sobre um oásis num local não muito perto.

Ridley Scott é um cara que tem um currículo excelente, e o fato dele estar com oitenta e oito anos e ainda filmar é impressionante. Mas infelizmente temos que reconhecer que nem todos os seus filmes são bons. Aliás, rolou uma piada no Podcrastinadores de Expectativas 2026 (também levei esse filme pra lá), que o Ridley Scott faria apenas um filme bom por década. Década passada foi Perdido em Marte; esta década foi O Último Duelo – ou seja, ele não teria mais nenhum filme bom por alguns anos. Ponto sem Retorno não é ruim, longe disso, mas está bem distante dos seus melhores títulos (quando o cara tem uma filmografia com filmes como Alien, Blade Runner, Gladiador, Thelma & Louise e Falcão Negro em Perigo, fica difícil manter o nível).

Ponto sem Retorno é bonito, é bem filmado, mas parece uma colagem de ideias que a gente já viu antes. Lembra Extermínio, Eu Sou a Lenda, Epidemia, tem até um momento Mad Max Estrada da Fúria. Pelo menos é bem conduzido – mesmo com a idade avançada, Ridley Scott ainda consegue manter um bom ritmo ao longo do filme. E tem uma grande cena de ação com o personagem do Josh Brolin que é realmente eletrizante.

Tem uma sequência que vai dividir opiniões, um trecho que destoa um pouco do clima do resto do filme. Heu gostei, mas prevejo que vai ter gente saindo das salas de cinema reclamando justamente dessa sequência.

Vou implicar com um detalhe, mas não é nada grave, é só implicância mesmo. É que o protagonista Hig é um cara muito perfeito. O cara pilota avião, conserta de tudo, tem mira perfeita, cuida de plantações, cozinha, e ainda por cima sabe se comunicar com sinais de libras! Caramba, bora colocar uns defeitos nesse cara! 😛

Outro problema que também não é grave. Tem um erro de continuidade meio feio. Determinado momento vemos um estouro de uma manada de búfalos, e vemos claramente que parte do avião é quebrada pelos búfalos. Logo depois o avião está intacto. Pô, galera, bora prestar atenção na continuidade!

Vou terminar meu “momento mimimi” com uma reclamação ainda menos importante. Determinado momento rola uma festa, e vemos músicos tocando. Benedict Wong pega um banjo (ou instrumento parecido), e aparentemente não está tocando, só fingindo. Logo depois Josh Brolin pega um violão e se junta ao grupo. Se tenho dúvidas sobre Wong, definitivamente Brolin não está tocando. A harmonia muda, e ele continua no mesmo acorde!

O elenco é bom. Jacob Elordi, apesar de certinho demais, tem carisma pra gente se importar com ele. Josh Brolin está ótimo como o parceiro mal humorado e desconfiado de tudo. Também no elenco, Margaret Qualley, Guy Pearce, Allison Janney e Benedict Wong.

Ponto sem Retorno não é um dos melhores trabalhos de Ridley Scott, mas quem for ao cinema não vai sair com raiva do que viu.

Por Cima do Seu Cadáver

Crítica – Por Cima do Seu Cadáver

Sinopse (imdb): Um casal em crise se retira para uma cabana isolada para tentar salvar o relacionamento, mas ambos planejam secretamente assassinar o outro.

Quando soube de um filme da 87North estrelado por Samara Weaving e Jason Segel, fui catar logo pra ver.

É bom não saber muito sobre a trama, porque Por Cima do Seu Cadáver é daquele tipo de filme com alguns plot twists e alguns flashbacks bem colocados pra situar melhor a trama. O que o espectador precisa saber é que Lisa e Dan são um casal em crise, que está indo passar um fim de semana numa casa no lago, e um tem planos de matar o outro. E muita coisa vai acontecer ao longo desses planos.

Por Cima do Seu Cadáver é refilmagem do norueguês I Onde Dager, de 2021, dirigido por Tommy Wirkola (Noite Infeliz). Ainda não vi, mas descobri que está na Netflix com o título “The Trip”, entrou na minha fila!

Pra quem não se ligou no nome da produtora, a 87North é uma produtora fundada por dublês – ou seja, são realizadores que focam em cenas de ação e de efeitos práticos. O último filme deles que comentei aqui foi Lindas e Letais, que trazia várias cenas de luta bem coreografadas e bem filmadas. O foco aqui em Por Cima do Seu Cadáver não são as coreografias de lutas, e sim uma violência gráfica bem exagerada, com várias mortes e alguns desmembramentos aqui e ali. Mas apesar de muita violência, o clima continua bem humorado. Confesso que ri alto na primeira morte.

A direção é de Jorma Taccone, que tem um extenso trabalho no Saturday Night Live e é amigo de infância de Andy Samberg e Akiva Schaffer – daí a gente vê de onde vem o pé fincado fortemente na comédia. Este é seu terceiro longa como diretor.

O roteiro é bem estruturado com aqueles plot twists aqui e ali, mas preciso reconhecer que alguns são meio forçados. Felizmente nada que atrapalhe o desenrolar do filme.

O elenco está muito bem. Depois de dois Casamento Sangrento, Samara Weaving parece muito confortável em cenas de violência extrema e ao mesmo tempo bem humoradas. Jason Segel funciona bem ao lado dela. E gostei do over acting da Juliette Lewis. Também no elenco, Timothy Olyphant, Paul Guilfoyle e Keith Jardine

Por Cima do Seu Cadáver está no catálogo da Prime, mas ninguém está falando sobre ele. Pena…

O Fim da Rua

Crítica – O Fim da Rua

Sinopse (imdb): A família Platt se une para lidar com o novo ambiente depois que um evento cósmico transporta seu bairro suburbano para um lugar desconhecido.

No Podcrastinadores de Expectativas para 2026, citamos um filme que seria chamado Flowervale Street, que traria Ewan McGregor, Anne Hathaway – e dinossauros. O filme mudou de nome, para The End of Oak Street, e aqui no Brasil ganhou o nome de O Fim da Rua, e está estreando essa semana no circuito.

O Fim da Rua parece um filme de aventura / fantasia dos anos 80. Inclusive o filme se passa em 1982. Detalhe curioso: no início do filme não diz qual é o ano que a história se passa, a gente só descobre isso lá no fim do filme. Mas desde a primeira cena, onde tem uma festa numa rua com várias pessoas e nenhuma estava com o celular na mão, foi o momento onde descobri que era um filme que não se passava nos dias de hoje.

A direção é de David Robert Mitchell, que chamou a atenção alguns anos atrás quando fez A Corrente do Mal / It Follows. A Corrente do Mal é um filme que emula o estilo do John Carpenter. Aqui David Robert Mitchell emula o estilo do Steven Spielberg e de sua produtora Amblin. O Fim da Rua tem muito de E.T., de De Volta Para o Futuro, de Poltergeist – e, claro, Parque dos Dinossauros. Sim, heu sei, não é anos 80, mas é Spielberg, né?

David Robert Mitchell emula o estilo do Spielberg, mas ele não quer ser Spielberg. O Fim da Rua não é um filme de terror, mas tem alguns jumpscares – inclusive um deles me pegou. Também tem algumas cenas graficamente bem violentas, além de mostrar dinossauros em momentos íntimos, fazendo coisas que eu acho que o cinema nunca tinha mostrado antes (se é que você entende o que eu estou falando).

Os efeitos especiais são bons, mas não sei se isso merece um elogio tão grande, se a gente lembrar que Primitive War fez um ótimo trabalho de efeitos de dinossauros com “troco de pinga”. E se a gente lembrar que Primitive War tinha Ryan Kwanten e Tricia Helfer enquanto O Fim da Rua tem Ewan McGregor e Anne Hathaway, o orçamento aqui deve ser bem maior (mas por outro lado, o último Jurassic World, com orçamento ainda maior, decepcionou…).

No elenco, esse é daquele estilo de filme que não tem espaço pra grandes atuações. Dito isso, Ewan McGregor e Anne Hathaway estão bem. O elenco jovem, Maisy Stella, Convery Christian e Alexa Davis, também está ok. Ah, a trilha sonora de Michael Giacchino é muito boa!

Por fim, sem spoilers, mas gostei de não terem explicado qual foi o motivo do que aconteceu. Certamente ia ser uma explicação ruim. Melhor deixar no “não sei, só sei que foi assim”.

O Fim da Rua tem uma história fechada, mas se a bilheteria for boa, tem espaço pra uma continuação. Seria o que os fãs de Jurassic Park queriam e nunca aconteceu…

O Convite

Crítica – O Convite

Sinopse (imdb): O casamento de Joe e Angela está por um fio. Quando eles convidam seus enigmáticos vizinhos do andar de cima para um jantar, a noite toma rumos inesperados.

O Convite (The Invite, no original) é a refilmagem do espanhol Sentimental, de 2020, escrita e dirigida por Cesc Gay. Segundo a wikipedia, já houve versões produzidas na Itália, Suíça, França e Coreia do Sul. Heu nunca tinha ouvido falar, mas deu até vontade de ver o original espanhol (um conhecido meu viu e disse que esta versão americana é melhor).

O Convite se assemelha ao formato de teatro filmado. Tem uma introduçãozinha que nem é muito importante e logo depois todo filme se passa dentro de um apartamento, com apenas quatro atores, durante uma única noite – ou seja, dava para fazer isso num palco. Felizmente, a diretora Olivia Wilde teve boas sacadas de posicionamentos de câmera e o filme não fica com cara de peça de teatro.

O roteiro é escrito por Rashida Jones e Will McCormack (Cesc Gay está creditado também, pelo roteiro original). Heu não saberia dizer se o roteiro original tem todas as sacadas que acontecem aqui nesse, mas reconheço que esse roteiro é muito bem estruturado e muito bem escrito, com ótimos diálogos – além de trazer momentos muito engraçados. Detalhe que li no imdb: o monólogo do Hawk contando a história do seu nome foi escrito pelo ator Edward Norton; e a reação esculachada do personagem do Seth Rogen foi um improviso.

O roteiro é bom, mas heu diria que o melhor de O Convite são as as atuações dos quatro atores principais. Todos os quatro – Olivia Wilde, Penélope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton – estão muito bem. Até o Seth Rogen, que costuma fazer sempre o mesmo personagem, está bem aqui.

A direção é da atriz Olivia Wilde, este é seu terceiro longa, depois de Booksmart (que não vi) e Não Se Preocupe Querida, que é um filme que heu gostei, mas muita gente não gosta. Mas com esse O Convite até agora não ouvi nenhuma crítica. Até quem não gostou de Não Se Preocupe Querida está elogiando o trabalho da diretora.

Tem um detalhe técnico que me incomodou um pouco: a trilha sonora às vezes está tão alta que atrapalha os diálogos, principalmente no início do filme. Entendo a proposta, sublinhar o desconforto, mas achei que ficou um pouco acima do que deveria.

O Convite estreou no circuito sem muito alarde, mas quando um filme “pequeno” agrada, continua em cartaz. Fui ver num cinema com quatro salas, as outras três estavam exibindo A Odisseia. Não sei se ainda está em cartaz, se estiver, recomendo!

Homem-Aranha: Um Novo Dia

Crítica – Homem-Aranha: Um Novo Dia

Sinopse (imdb): Um Peter Parker esquecido vive sozinho como Homem-Aranha em tempo integral, até que uma pressão crescente desencadeia uma mudança perigosa e um novo e poderoso inimigo surge.

Sim, estou atrasado, afinal Homem-Aranha: Um Novo Dia já estreou, já tem um monte de vídeos comentando sobre o filme. Heu me atrasei porque passei uns dias fora, mas por um certo lado acho uma boa ter atrasado, porque quero comentar sobre o novo vilão e isso é um spoiler. Vou fazer um vídeo comentando o filme sem spoilers, depois coloco aviso de spoilers e comento sobre o vilão. Se você ainda não sabe quem é o vilão e quer descobrir na hora do filme, então pare o vídeo naquele momento. Vamulá?

Quando surge um filme novo da Marvel, logo duas perguntas vêm à mente. Uma delas é: será que a Marvel vai voltar a ser o que já foi um dia? E a outra é: o que a gente precisa conhecer do MCU antes de ver esse filme? Vou começar meus comentários com esses dois pontos.

Vamos logo à boa notícia. Homem-Aranha: Um Novo Dia é um bom filme – talvez seja o melhor dos quatro filmes do Homem-Aranha no MCU. Se isso significa que a Marvel vai voltar a ser o que já foi um dia, não sei, porque a gente não sabe o que vai acontecer no futuro. Mas posso dizer que, individualmente, este é um bom filme. Ninguém vai se arrepender de ir ao cinema.

Sobre o que a gente precisa conhecer do MCU antes de ver este filme. Dois personagens secundários aqui não são apresentados porque a Marvel supõe que você já deveria saber quem são. Um deles é a Yelena Belova, irmã da Natasha Romanoff, a nova Viúva Negra, que estava nos filmes Viúva Negra e Thunderbolts*, e também na série do Hawkeye. Outro é Frank Castle, o Justiceiro, do seriado homônimo. Outros vilões com importância menor, Scorpion e os ninjas do Tentáculo, também aparecem sem um contexto prévio, mas isso não atrapalha o desenvolvimento do filme.

Homem-Aranha: Um Novo Dia foi dirigido por Destin Daniel Cretton, o mesmo de Shang-Chi. Cretton fez um belo trabalho. São várias cenas de ação, todas bem filmadas, e em cada um delas tem um “momento página dupla da HQ”, onde vemos, em câmera lenta, um momento épico da luta, com os personagens em poses heroicas. Essas cenas são muito boas e dão um toque especial às sequências de ação do filme.

O roteiro, escrito por Chris McKenna e Erik Sommers consegue um feito difícil: trabalha vários personagens, e consegue equilibrar perfeitamente a importância e o tempo de tela de cada um. Só não digo que o roteiro é perfeito porque tem uma falha que incomodou muita gente, e me incluo nisso: o Peter Parker está sozinho e aparentemente usa todo o seu tempo ajudando a polícia. De onde ele tira dinheiro para se sustentar? As outras versões do Miranha trabalhavam como fotógrafo jornalístico, mas este aqui não aparece nenhuma vez nesta função. Tudo bem que ele mora num lugar horrível, mas tem um equipamento super top com ele. Quem banca isso?

O elenco todo está muito bem. Tom Holland já é o Homem Aranha há dez anos, este já é o seu sétimo filme como Peter Parker (quatro filmes “solo”, mais Capitão América Guerra Civil, Vingadores Guerra Infinita e Vingadores Ultimato), e aqui ele mostra maturidade ao lidar com os problemas que o personagem passa. Ele mostra boa química com o Justiceiro do Jon Bernthal, as cenas com os dois são ótimas. Florence Pugh está sensacional, pena que aparece pouco. Mark Ruffalo também volta como Bruce Banner, assim como uma breve participação da Marisa Tomei como tia May num flashback. Zendaya e Jacob Batalon aparecem menos nesse quarto filme, mas quando aparecem também funcionam bem. Sobre o vilão, vou comentar depois…

Vamos aos spoilers?

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Homem-Aranha: Um Novo Dia tem um vilão misterioso, que consegue dominar as mentes das pessoas, e pula de corpo em corpo, quase como uma possessão demoníaca – o filme inclusive fala sobre essa possibilidade. Determinado momento a gente descobre quem consegue dominar mentes daquele jeito: nada menos que Jean Grey – sim, uma das principais dos X-Men!

Jean Grey já foi interpretada por Famke Janssen e Sophie Turner, em diferentes versões do grupo de super heróis mutantes. Agora quem assume o papel é Sadie Sink, que faz um ótimo trabalho (apesar de algumas cenas parecerem tiradas de Stranger Things).

Vai ter gente que vai se perguntar “ué, mas a Jean Grey não é do time dos mocinhos?”. Bem, na verdade descobrimos que ela não é extremamente uma vilã, ela está procurando a irmã dela, o vilão real é revelado logo depois. E a gente tem que se lembrar que a Jean Grey virou a Fênix Negra nas outras versões dos X-Men, ou seja, é coerente ela ter um pé na vilania.

FIM DOS SPOILERS!

Uma vantagem de escrever um texto atrasado é que posso comentar sobre a bilheteria. Homem-Aranha: Um Novo Dia está batendo recordes, foi a segunda maior bilheteria da história no fim de semana de estreia (atrás apenas de Vingadores Ultimato), só no primeiro fim de semana chegou quase ao bilhão de dólares. E como o filme é bom, deve trazer espectadores para ver mais de uma vez. Palmas para a Marvel, vamos torcer pra não saírem do trilho de novo.

Aumentaram as expectativas para o novo Vingadores, que estreará no fim do ano…

Normal

Crítica – Normal

Sinopse (imdb): A trama gira em torno de um xerife interino de uma cidade pequena que descobre mistérios sombrios após um assalto a banco local.

Escrito por Derek Kolstad, mesmo roteirista do primeiro John Wick, Anônimo foi uma boa surpresa. É um filme bem acima da média, e trazia um inspirado Bob Odenkirk em intensas cenas de ação. Ideias que trazem um bom retorno costumam ser repetidas. Não só tivemos Anônimo 2, como agora aparece este Normal, um filme que parece um spin off de baixa qualidade.

Ulysses vai para uma pequena cidade no meio da neve para ser xerife temporário, por apenas oito semanas. Mas um inesperado assalto a banco acaba revelando um perigoso segredo que os cidadãos da cidade Normal escondem. E agora toda a cidade está contra Ulysses.

A direção é de Ben Wheatley, um cara com um currículo curioso. Heu lembro que vi alguns filmes bem alternativos dele no início da carreira, como Kill List e Turistas; depois ele foi contratado para dirigir Megatubarão 2, que não tem nada a ver com os filmes do início da carreira dele. E esse Normal também não tem muito a ver com os outros filmes que ele fez, pelo menos na minha ou minha opinião.

Normal até começa bem. O clima do personagem do Ulysses descobrindo as rotinas da cidadezinha flui bem. O problema é depois do assalto ao banco, quando ele descobre a tal conspiração. Rola uma segunda parte onde Ulysses faz uma improvável parceria com o resto da cidade – sendo que ele já matou vários habitantes- e todos trabalham juntos como se fossem velhos amigos na fogueira cantando Kumbaya. Na boa, aquela parceria nunca rolaria daquele jeito!

Falemos sobre as sequências de ação. O fato de ser um filme escrito pelo Derek Kolstad e a gente lembrar que ele escreveu John Wick e Anônimo me fez ter uma certa decepção em um aspecto que boa parte do público vai deixar vai passar desapercebido – mas quem me acompanha aqui no heuvi vai entender. Anônimo e John Wick são filmes produzidos pela 87 North, que é uma produtora feita por dublês, e que sempre produz filmes com cenas de ação muito bem coreografadas e muito bem filmadas. Só que a produção aqui não é da 87 North, e as cenas de ação são bestas, não tem nenhuma luta bem coreografada – talvez só uma luta na cozinha entre o personagem principal e um antagonista, mas é uma luta curta e não chama a atenção como costuma acontecer nos filmes da produtora que citada.

Sobre o elenco, Bob Odenkirk está bem como sempre. Bom ator, carismático, e convence nas (poucas) cenas de ação. Além dele, o único nome relevante no elenco é Lena Headey, num papel menor.

Normal está em cartaz na Prime. Não é ruim, mas fica aquele gostinho de decepção pra quem viu Anônimo.

A Odisseia

Crítica – A Odisseia

Sinopse (imdb): Após a Guerra de Troia, Odisseu enfrenta uma viagem perigosa de volta a Ítaca, encontrando pelo caminho criaturas como o ciclope Polifemo, as Sereias e Calipso.

Heu nunca ganhei um Oscar. Mas desconfio que ganhar um Oscar deva abrir portas. Deve ser mais fácil seguir com um projeto complicado. Christopher Nolan ganhou dois Oscars por Oppenheimer, melhor diretor e melhor filme. Nolan é um cara que gosta de projetos grandiosos e complexos. Acho que ele deve ter aproveitado pra encarar um projeto ambicioso e desafiador: adaptar A Odisseia, clássico da literatura, escrito por Homero, e considerado um dos textos mais difíceis de se adaptar.

A Odisseia mostra a jornada de Odisseu, que depois de vinte anos na guerra de Troia, agora enfrenta dificuldades para voltar para casa. Ao mesmo tempo, sua esposa Penelope precisa lidar com pretendentes que que aguardam a confirmação de sua morte, e seu filho Telemaco procura saber se ele ainda está vivo.

O texto é clássico, meio que todo mundo conhece algo dessa história, mas… Mais do que um texto do Homero, este é um filme do Christopher Nolan. Temos uma história grandiosa, contada em ordem não cronológica, com um grande elenco, sublinhada por uma trilha sonora épica em tons graves. Aliás, existe um paralelo óbvio com a sinopse de Oppenheimer: ambos os filmes têm um protagonista que cria algo que acaba causando muitas mortes (a bomba / o cavalo de Troia), e depois passam boa parte do filme envoltos em dilemas éticos e morais.

A jornada do Odisseu tem algumas sequências bem legais. A sequência onde encontram a Circe é uma das melhores partes do filme. E gostei do conceito do ciclope gigante, em vez de um olho na testa, ele tem a cara meio torta, então seu nariz é inclinado, acompanhando o único olho. Isso sem falar do óbvio cavalo de Troia. Por outro lado, não gostei muito da parte onde encontram aquele pessoal de armadura metálica brilhante, com as árvores se movendo. Podiam ter explorado melhor aquele ambiente. E a parte das sereias teve uma boa sacada no som do filme, mas foi curta demais.

A parte técnica é um absurdo. A Odisseia é o primeiro longa inteiramente filmado com câmeras Imax, que são trambolhos difíceis de se manusear. Além disso, Nolan é um perfeccionista, então se preocupou com detalhes que talvez outros diretores deixassem passar. Pesquisaram o quanto tecidos e metais se deteriorariam ao longo de anos de exposição ao sal e à maresia, porque se Odisseu tinha que ficar 20 anos numa praia, as roupas e armas não poderiam continuar com aparência de novas. Outro detalhe: Nolan proibiu perucas e barbas falsas, porque ondas do mar poderiam descolar, ou seja, se o personagem tinha barba, o ator precisou deixar a barba crescer. O barco usado por Odisseu era de verdade, esse mesmo barco já cruzou o oceano Atlântico duas vezes, e todos do elenco daquelas cenas aprenderam a navegar.

O elenco é fantástico. Poucos filmes conseguem tanto star power junto; Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Charlize Theron, Zendaya, Robert Pattinson, Elliot Page, John Leguizamo, Mia Goth, Benny Safdie, Himesh Patel, Jon Bernthal, Lupita Nyong’o e Samantha Morton, entre outros. Por um lado isso é legal, mas o problema é que o fato de ter muitos personagens acaba atrapalhando o desenvolvimento de alguns deles – por exemplo, vemos que a Mia Goth teria mais história pra contar. Num elenco tão recheado, a impressão que fica é que metade ficou desperdiçado e a outra metade faz apenas o “feijão com arroz”. Acho que o único que realmente se destacou foi, por incrível que pareça, o John Leguizamo.

Existe um mimimi sobre parte do elenco. Tem uma galera dizendo que seria woke a inclusão de Lupita Nyong’o, Zendaya e Elliot Page. Não concordo, mas vou comentar. Sobre a Lupita, é bobagem, a Grécia é perto da África, não seria algo tão irreal ter uma mulher negra por lá (aliás, o elenco todo é multi-étnico). No lance do Elliot Page, o mimimi é porque rolou um boato que ele seria Aquiles, mas não é, é um soldado que tem importância secundária, e um personagem que precisava daquele porte físico. Já o mimimi da Zendaya como deusa Atena, discordo fortemente, achei uma ótima escolha. Explico porque na parte com spoilers.

São quase três horas de filme – Nolan gosta de filmes longos, e aqui realmente tinha muita história pra contar. Mas heu achei cansativo. Aquele diálogo na parte final entre Odisseu e Penelope é interminável! Além disso, não sei se é problema da história original ou da adaptação, mas achei o vilão Antinoo bem fraco. Odisseu não teria tanto motivo para odiá-lo.

Vou fazer um breve comentário sobre a Atena. É spoiler, então vamos aos avisos.

SPOILER!

Tem gente reclamando da Zendaya interpretando a deusa Atena. Mas, pela minha interpretação, a escolha foi perfeita. Vamulá. Em primeiro lugar, não sabemos se é uma deusa de verdade ou se é algo dentro da cabeça do Odisseu. Apenas sabemos que só ele vê a Atena, mais ninguém em volta a vê. Quando acontece a queda de Troia, Odisseu presencia o assassinato de uma jovem inocente – interpretada pela Zendaya. Pela minha interpretação, aquela figura que aparece não é uma deusa, e sim um trauma do passado do Odisseu, que o assombra todos os dias. Principalmente se a gente lembrar que não vemos nenhum outro deus, só a Atena. Pensando sob este ângulo, a escolha da Zendaya foi perfeita para o papel.

FIM DOS SPOILERS!

Até agora só elogiei, né? Poizé. A Odisseia é um bom filme. Mas achei fuén. Talvez por ser apenas um filme “correto”. Tudo está no lugar certo, mas, sei lá, faltou algo que me deixasse mais empolgado. Alguns filmes me deixam com vontade de rever assim que acaba a sessão, mas esse aqui não pretendo rever tão cedo.

As Ovelhas Detetives

Crítica – As Ovelhas Detetives

Sinopse (imdb): Todas as noites, um pastor lê em voz alta uma história de mistério e assassinato, fingindo que suas ovelhas conseguem entender. Quando ele é encontrado morto, as ovelhas percebem imediatamente que se trata de um assassinato e acreditam saber tudo sobre como resolvê-lo.

As Ovelhas Detetives estava na minha lista de expectativas para 2026. Na verdade, era mais pela curiosidade com o elenco de vozes escalado para as ovelhas. Mas quando o filme foi lançado aqui, em vez de sessão de imprensa, teve pré estreia no fim de semana, aberta pra crianças. Aí meio que desanimei, porque o tratamento que a assessoria deu ao filme dava a impressão de que o filme teria uma abordagem muito infantil – e ainda ia perder as vozes originais na sessão dublada em português.

Aí o filme apareceu na Prime e resolvi arriscar. Caramba, que surpresa agradável! As Ovelhas Detetives é bem melhor do que parecia!

Ok, não estamos falando de um “novo clássico”, de um filme “obrigatório” (como, por exemplo, Uma Aventura Lego ou Tico e Teco e os Defensores da Lei, filmes que são muito melhores do que o que parecem ser). Mas As Ovelhas Detetives é leve e divertido, e traz um bem sacado whodunit no roteiro.

(Pra quem não sabe, whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. Os recentes filmes da série Knives Out são bons exemplos.)

George Hardy é um pastor que trata suas ovelhas com carinho, quase como se fossem humanos. Inclusive, gosta de ler livros policiais para o rebanho. Quando ele aparece morto, as ovelhas – que conversam entre elas – resolvem descobrir quem é o assassino. O problema é que os humanos não entendem o que elas falam.

As Ovelhas Detetives é baseado no livro Three Bags Full, lançado em 2005, e é dirigido por Kyle Balda, que até agora só tinha dirigido longas de animação, como Minions e Meu Malvado Favorito 3. Phil Lord e Christopher Miller (Uma Aventura Lego, Devoradores de Estrelas) estão na produção, mas não sei o quanto eles interferiram no projeto.

O roteiro constrói bem o whodunit, mas algumas partes aqui e ali lembram que esse é um filme para crianças – a explicação da tinta verde na mão soou forçada demais. Nada grave, felizmente.

Não costumo reclamar de efeitos especiais, mas achei os efeitos aqui bem fracos. Algumas ovelhas parecem muito mal feitas. Não chega a atrapalhar, mas, com a tecnologia atual, podiam ser mais convincentes.

Por outro lado, o elenco é bem acima da média. Hugh Jackman seria o principal, mas seu personagem sai cedo da trama (segundo o imdb, ele filmou todas as suas cenas em dez dias). Emma Thompson faz a advogada, e o “He-Man” Nicholas Galitzine também tem um papel importante. E, entre as ovelhas, temos Julia Louis-Dreyfus, Patrick Stewart, Bryan Cranston, Regina Hall, Bella Ramsey, Chris O’Dowd e Brett Goldstein, entre outros.

As Ovelhas Detetives não vai mudar a vida de ninguém. Mas quem assistir não vai se arrepender.

Segredo Obscuro

Crítica – Segredo Obscuro

Sinopse (imdb): Desesperada para retomar a carreira, uma atriz outrora adorada é atraída para o mundo glamoroso de uma magnata do bem-estar, apenas para descobrir a verdade monstruosa por trás de sua fachada impecável.

O sucesso de A Substância, de 2024, abriu caminho pra outras produções com temas parecidos. Este Segredo Obscuro (Shell, no original) guarda semelhanças no tema e na abordagem do body horror. Pena que o resultado ficou bem inferior.

Dirigido por Max Minghella (filho de Anthony Minghella, diretor ganhador do Oscar por O Paciente Inglês), Segredo Obscuro é de 2025 e podia ter sido lançado antes. Mas depois da sessão, descobri por que adiaram a estreia. O filme é bagunçado demais.

Segredo Obscuro tem uma premissa bem parecida com A Substância. Samantha é uma atriz com dificuldade de conseguir papéis por causa da idade. Ela então começa um tratamento que promete retardar o envelhecimento. Claro que coisas vão dar errado no meio do caminho.

Gosto muito da Kate Hudson, mas sua personagem aqui, Zoe, é bem ruim. Uma milionária como ela não teria nenhum motivo pra se aproximar daquele jeito da Samantha. Se pelo menos a trama indicasse alguma tensão sexual entre as duas, talvez até ajudasse a convencer o espectador. Mas daquele jeito, só amizade, ficou artificial demais.

Além disso, uma empresa que traz efeitos colaterais tão graves pra todos seu usuários não conseguiria crescer daquele jeito. Digo mais: quando Samantha tem um efeito colateral grotesco diante da imprensa, seria bem difícil de esconder. E o roteiro simplesmente esquece disso.

Sabe o que ia melhorar o filme? Se a direção assumisse um clima trash. Temos uma vilã caricata e um monstro. Se o filme tivesse uma pegada trash, na linha de filmes B tipo os filmes do Stuart Gordon, como Re-Animator ou From Beyond, ia virar algo descompromissado e divertido. Ia ser bem melhor.

O elenco é bom. Elisabeth Moss convence no papel da atriz que passou um pouco da idade e luta pra voltar ao mercado. Já Kate Hudson tem carisma, mas o roteiro lhe entregou uma personagem caricata. Kaia Gerber, filha da Cindy Crawford, tem o terceiro maior papel. E Elizabeth Berkley, de Showgirls, aparece na sequência inicial.

(Uma curiosidade de bastidores sobre a protagonista Elisabeth Moss. Ela passa o filme usando roupas largas. Achei que sua personagem ia emagrecer com o tratamento e depois ela apareceria com roupas mais justas, mas isso não acontece. Sabe por que? A atriz estava grávida durante as filmagens…)

Segredo Obscuro não chega a ser “revoltantemente ruim”, mas o resultado ficou decepcionante…

Supergirl

Crítica – Supergirl

Sinopse (imdb): Kara Zor-El, também conhecida como Supergirl, une forças com um aliado improvável em uma jornada interestelar de vingança e justiça, quando um adversário inesperado ataca muito perto de casa.

Heu lembro quando tinham poucos filmes de super-herói por ano. Em 2000 tivemos o primeiro X-Men; em 2002 foi a vez do primeiro Homem Aranha – dois filmes em três anos. E aí começou a ter mais, a ponto de chegar a cinco ou seis filmes de super-herói no mesmo ano. Chequei agora no google, entre 2017 e 2019 foram 21 grandes lançamentos de filmes de super-heróis nos cinemas. É claro que se existe uma quantidade tão grande, a qualidade diminui.

Nesse cenário de muitos filmes de super-herói surge o filme da Supergirl, que é apenas mais um filme de super-herói. É ruim? Não. Mas é tão fuén vai ser esquecido logo logo.

Kara Zor-El, a Supergirl, personagem introduzida no filme do Superman, está comemorando seu aniversário de 23 anos, meio solitária (sua única companhia é o cachorro Krypto), ficando bêbada todas as noites. Seu destino acaba acaba cruzando com uma adolescente que perdeu a família e quer vingança.

O problema deste filme da Supergirl é que não tem nenhuma novidade, a gente já viu isso tudo antes várias vezes – e melhor contado. Vou além, o clima parece Guardiões da Galáxia, filmes dirigidos pelo James Gunn, que é produtor aqui: temos uma protagonista meio rebelde, um pouco anti-heroína, vagando por vários planetas esquisitos e com personagens esquisitos.

A direção é de Craig Gillespie, mas parece um “filme de produtor”. Digo isso porque Gillespie tem dois filmes no currículo que acho bem legais, Eu Tonya e Cruella, que são bem diferentes de Supergirl – que, como disse, se aproxima mais de Guardiões da Galáxia…

(Aliás, curioso lembrar que tanto Guardiões da Galáxia quanto Cruella têm boas trilhas sonoras usando músicas pop, e aqui a trilha sonora é bem insossa. Acho que o único destaque nesse aspecto é a cena onde tocam Garota de Ipanema e What A Wonderful World.)

Se o filme é genérico, o roteiro fraco não ajuda. Se a gente parar pra pensar, vai encontrar um monte de inconsistências aqui e ali. Um exemplo: se o vilão Krem fazia parte de um grupo que sequestra jovens mulheres, por que diabos ele deixa a menina que vai pedir ajuda à Supergirl? Isso sem falar que o poder da kryptonita é mais forte ou mais fraco dependendo do que o roteiro pede…

Milly Alcock funciona como a Supergirl, ela precisa entender sua posição como super-heroína, afinal ela não é e nem quer ser boazinha como seu primo Superman. Eve Ridley, que faz Ruthye, a personagem adolescente, também está ok. Por outro lado, heu queria fazer duas críticas. Uma ao vilão Krem de Matthias Schoenaerts, que é um vilão bem besta. A outra é ao Lobo, personagem do Jason Momoa, caricato ao extremo, e se você tirar esse personagem, nada muda no filme.

Vou além, a cena onde a gente conhece o personagem Lobo é uma cena que não faz sentido. Kara, sozinha, bate em dezenas de pessoas que estão num bar, e depois que ela bateu em todo mundo, o Lobo acende um charuto e age como se nunca a tivesse visto, como se não estivesse presente. Ele não podia estar escondido num canto naquela cena.

O filme é ruim? Não, não é ruim, mas, repito, a gente já viu isso outras vezes, é um filme genérico e que vai ser esquecido daqui a pouquinho. Os fãs da DC mereciam um tratamento melhor, desse jeito a DC nunca vai alcançar o que a Marvel conseguiu com MCU.