Tron: Ares

Crítica – Tron: Ares

Sinopse (imdb): Um altamente sofisticado programa, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa.

O primeiro Tron, de 1982, foi um grande marco nos efeitos especiais. Revisto hoje, o filme é meio besta, e os efeitos parecem vergonhosos, mas, na época, explodiu cabeças: era um filme que se passava parcialmente dentro de um computador!

(Heu nasci em 1971. Vi Tron no cinema, na época do lançamento, e achei aquilo o máximo. Mas… revi semana passada, antes de ver o novo, e constatei que os efeitos estão realmente vencidos. É tudo meio monocromático, às vezes parece até animação em rotoscopia. E os gráficos só com linhas, objetos sem volume 3D, são muito toscos.)

Foi um marco, mas até onde sei, nunca teve um grande fandom. Muita gente respeita, mas pouca gente é fã. Tanto que a continuação só veio 28 anos depois, em 2010. E Tron: Legacy é um filme tão esquecível que só me lembro da trilha sonora do Daft Punk e do efeito de rejuvenescimento digital no Jeff Bridges, que na época era novidade, mas hoje em dia já “perdeu a validade”

Mais quinze anos, e chega ao circuito o terceiro filme. Ninguém pediu, ninguém se importa, mas está em cartaz

(Antes, uma piadinha ruim sobre o nome. “Tron Três” parece trava línguas, “um tigre, dois tigres, Tron três tigres”. E “Tron Ares” soa bem parecido com o ex jogador do Fluminense, “Jhon Arias”. Quando ouço alguém falando “Tron Ares” muitas vezes me confundo.)

Dirigido por Joachim Rønning, Tron: Ares volta ao universo criado no primeiro filme, mas com uma novidade: agora os programas podem sair do computador e interagir com humanos no mundo real. Mas, mais uma vez, o resultado não empolga. Tron: Ares é um filme bonito, com efeitos especiais excelentes, uma boa trilha sonora, mas só isso. Será esquecido, assim como Tron: Legacy.

Bem, reconheço que algumas sequências são boas. Sabe aquelas motos que fazem uma “parede” por onde passam, criando um labirinto em um jogo? A gente vê uma cena com essas motos numa rua no mundo real. Ok, aquilo não faz sentido se a gente parar pra pensar, aquelas paredes de energia iam causar danos generalizados, gente ia morrer – mas a cena ficou bonita. Também gostei de uma cena que mostra um sistema sendo invadido e o antivírus reagindo, e vemos isso como se fossem guerreiros. Boa sacada.

E tem uma sequência pra afagar a memória de quem lembra do primeiro filme, uma sequência emulando o cenário e os efeitos “velhos”. Foi legal rever aqueles cenários, mas tenho um mimimi. Aparece o Jeff Bridges, cujo personagem ficou lá. Mas, caramba, é um ambiente digital, por que ele está velho? Seria mais legal vê-lo exatamente igual ao visual que ele tinha em 1982. Certamente hoje ia ficar melhor que o Jeff Bridges rejuvenescido digitalmente que a gente viu quinze anos atrás.

(Aproveito pra outro mimimi: o filme se chama Tron, mas o personagem Tron não aparece. Nada a ver!)

Comentários sobre a trilha sonora. O primeiro filme traz trilha da Wendy Carlos (pioneira do uso de sintetizadores na música clássica, autora das trilhas de Laranja Mecânica (quando ainda assinava Walter Carlos) e O Iluminado); o segundo tem a trilha assinada pelo grupo Daft Punk – ambas as trilhas são excelentes. Agora a trilha ficou a cargo da banda Nine Inch Nails, e também é um dos pontos altos do filme. Mas… Reconheço que o trabalho do Nine Inch Nails foi muito bom, mas não tem nenhum tema marcante, e o segundo filme tinha. Se heu for assistir um show, vou preferir Nine Inch Nails do que Daft Punk, mas preciso reconhecer que o Daft Punk fez um trabalho melhor.

No elenco, Jared Leto faz aquele clichê da IA que começa a questionar seu criador – mas ele mais uma vez não convence. Evan Peters se sai melhor dentro de outro clichê, o CEO rico que se acha dono do mundo. Greta Lee está apenas ok, e Gillian Anderson está desperdiçada (assim como Jeff Bridges).

Rola uma cena pós créditos com um gancho pra mais um Tron. Claro que vou ver se fizerem. Mas não faço questão.

Lago dos Ossos / Bone Lake

Crítica – Lago dos Ossos

Sinopse (Festival do Rio): Um casal, buscando se reconectar intimamente, aluga uma casa à beira de um lago para passar o fim de semana. Porém, outro casal também aparece. Ao perceberem que a propriedade foi reservada duas vezes ao mesmo tempo por engano, os dois casais concordam timidamente em compartilhar o espaço e aproveitar ao máximo o fim de semana juntos. O que começa promissor como amizade logo se transforma em uma série distorcida de sexo e mentiras, e o idílico fim de semana rapidamente desaba em uma torrente de violência orgiástica, com doses generosas de sensualidade e sede de sangue.

A sessão de Lago dos Ossos (Bone Lake, no original) teve presença ilustre, o ator Marco Pigossi (Cidade Invisível) estava lá para apresentar o filme (sim, filme gringo com ator brasileiro). E antes da sessão falaram do conceito da mostra Midnight Movies: filmes estranhos, com violência e com sexo – e Lago dos Ossos tem tudo isso misturado.

A premissa inicial é bem parecida com Barbarian – Noites Brutais, mas são filmes bem diferentes. Um casal vai passar um fim de semana numa casa à beira de um lago. Mas outro casal também aparece, o dono reservou para os dois casais. Os quatro então resolvem dividir a casa. Mas o segundo casal tem um comportamento, digamos, bem estranho.

Dirigido por Mercedes Bryce Morgan, Lago dos Ossos às vezes lembra Speak no Evil, onde pessoas que não se conhecem bem estão sob o mesmo teto, e o comportamento de uns torna a convivência bastante desconfortável. O segundo casal é muito sem noção!

O roteiro é bem estruturado. Tem um plot twist lá no meio onde a gente passa a ver tudo sob outro ponto de vista. E a parte final tem um divertido banho de sangue.

Agora, tem uma coisa que não entendi. O filme abre com uma sequência onde um casal, ambos nus, correm por uma floresta, enquanto alguém está atirando flechas neles. É uma sequência bem gráfica, a ponto de vermos o close de um saco sendo atravessado por uma flecha. E aí começa o filme, onde a nudez é toda bem comportada, parece que estamos num filme de sessão da tarde. Olha, não acho que nudez seja algo necessário, mas a nudez aqui não seria gratuita. E se o filme abre com imagens tão explícitas, por que o puritanismo no resto do filme?

O elenco tem basicamente quatro nomes: Marco Pigossi, Maddie Hasson, Alex Roe e Andra Nechita. Todos estão bem, e tenho um elogio extra ao inglês de Pigossi: sua pronúncia é perfeita! Wagner Moura estava ano passado em Guerra Civil, inglês fluente, mas a gente sente que ele é estrangeiro. Marco Pigossi consegue enganar!

Pigossi falou que Lago dos Ossos estreia aqui no Brasil em fevereiro. Não é um grande filme, mas quem entrar na onda vai se divertir.

Chove Sobre Babel / Rains Over Babel

Crítica – Chove Sobre Babel

Sinopse (Festival do Rio): Em uma versão tropical-punk do Inferno de Dante, Chove Sobre Babel transporta o público para Babel, um bar lendário que serve como purgatório. Sob a vigilância de La Flaca, almas jogam anos de suas vidas em uma roleta com a própria Morte. Um grupo de desajustados se reúne nesse cenário surreal, onde amor, identidade e destino se entrelaçam em uma narrativa de resistência e reinvenção. Com estética steampunk e elementos de realismo mágico, num universo visualmente exuberante e politicamente audacioso.

A sinopse de Chove Sobre Babel (Llueve sobre Babel, no original) era sem dúvida a melhor sinopse do Festival do Rio. Tem gente que vai ao Festival atrás de filmes badalados e premiados, heu vou atrás de filmes malucos e diferentes. Agora, a sinopse não é 100% real. Tem elementos de realismo mágico (tem um lagarto falante!), mas não tem nada de steampunk…

Mas, ok, reconheço, escrito e dirigido pela hispano-colombiana Gala del Sol, Chove Sobre Babel é um filme bem fora da curva. Vou fazer dois comentários sobre o roteiro, um positivo e um negativo.

Pelo lado positivo, o roteiro traz vários elementos de misticismo e mitologia da Grécia Antiga. Tem referências às musas, ao cão de três cabeças de Hades, ao barqueiro do submundo Caronte, aos oráculos de Delfos, a Thanatos… Quem curte mitologia grega vai se esbaldar.

Dito isso, o roteiro não é bom. São muitos personagens e muitas histórias paralelas, acaba que o filme não aprofunda nenhuma delas. Só pra dar um exemplo simples: Chove Sobre Babel abre com o personagem Boticario e sua esposa, e tem uma narração em off falando características sobre ela – mas sua personagem some no filme. O Boticario tem um papel bem secundário, estranho o filme abrir com ele, mas ele continua lá o tempo todo; já sua esposa é tão irrelevante que até esqueci o nome da personagem.

E por aí o filme segue. Tem um pastor, conservador ao extremo – e seu filho é uma drag queen, que tem medo de se abrir para o rígido pai. Aí quando o jovem aparece como drag queen, o pastor começa a dançar de felicidade. Cadê o desenvolvimento para aquele personagem ter uma mudança tão drástica de comportamento?

Pelo menos o visual com seus cenários extravagantes é bonito. Queria ver outro filme da Gala del Sol, com um roteiro mais bem trabalhado.

Antes de encerrar, queria fazer um comentário sobre as legendas. A cópia exibida estava legendada. Mas era uma legenda muito ruim, cheia de erros. Vou então dizer a minha teoria sobre o que deve ter acontecido com as legendas neste caso aqui. Voltemos no tempo: anos atrás, os filmes eram em rolo. Legendar um filme nem sempre era algo viável, porque era necessário fazer uma nova cópia pra exibir apenas umas 3 ou 4 vezes. Por isso, anos atrás, era comum ter filmes sem legendas, ou com legendas em outra língua – e quando o filme já estava legendado, certamente ia entrar em cartaz. Aí inventaram a legenda eletrônica, uma coisa genial: as legendas ficam embaixo da tela, assim ninguém precisa fazer uma cópia do filme, pode exibir os rolos originais e depois devolver pro país de origem. Depois surgiram arquivos digitais. São arquivos grandes, não cabe num pen-drive, é um HD com o filme. Mas, é bem mais fácil e barato fazer uma cópia de um HD do que de rolos de película.

Minha teoria sobre o que aconteceu: usaram o google tradutor pra traduzir as legendas de Chove Sobre Babel – tem erros de português, erros de tradução, palavras que não foram traduzidas e muita, muita coisa com a formatação errada (tipo um espaço antes do hífen). Aí alguém deve ter pegado essa legenda que ninguém revisou e deve ter colocado no arquivo do filme. Não posso afirmar que foi isso, mas fico na torcida pra alguém revisar essas legendas se esse filme for exibido mais uma vez.

A Própria Carne

Crítica – A Própria Carne

Sinopse (Festival do Rio): Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram.

E vamos ao terror do Jovem Nerd!

Reconheço que A Própria Carne foi uma agradável surpresa. Explico. Em primeiro lugar, Jovem Nerd hoje é mais conhecido como um bem humorado podcast. Não é um podcast de humor, mas certamente tem momentos engraçados. E em segundo lugar, o diretor do filme é Ian SBF, mais conhecido por dirigir dezenas (talvez centenas) de esquetes do canal Porta dos Fundos. Além disso, muitas vezes o cinema de terror flerta com o trash galhofa. Não acho isso algo negativo, gosto muito dos filmes do Rodrigo Aragão e do Paulo Biscaia Filho, ambos têm um pé fincado no trash, só estou constatando que existe essa conexão.

Quando ouvi falar que o Jovem Nerd ia fazer um filme de terror, achei que ia pro caminho da comédia trash. Mas não, olha que boa notícia: A Própria Carne é um filme sério e tenso! Zero trash!

(Não tenho nenhum contato direto com a galera do Jovem Nerd. O Azaghal uma vez gravou um áudio pro Podcrastinadores, mas foi só isso, sem uma interação. Sou amigo do Carlos Voltor e do Afonso 3D, que são ligados ao Jovem Nerd.)

Além do clima sério e tenso, outro elogio aqui vai para a bem cuidada produção de época. Cenários, figurinos e props, tudo está muito bem feito, nem parece uma produção independente.

Agora, o maior mérito de A Própria Carne está na escolha do ator Luiz Carlos Persy, mais famoso por ser o dublador de nomes como Stellan Skarsgård, Ralph Fiennes, Bryan Cranston e John Goodman. Persy está sensacional, cada frase proferida por ele causa medo. Seu personagem, o velho que cuida da cabana, é assustador, e, de longe, a melhor coisa do filme.

Por outro lado, não gostei da Jade Mascarenhas, a personagem dela não me passou consistência – quando estão cuidando da perna de um dos soldados, ela está rindo, achei meio nada a ver. Os três soldados desertores estão ok: George Sauma, Jorge Guerreiro e Pierre Baitelli.

Na parte final, o roteiro dá umas escorregadas. Os três desertores sabem que estão numa roubada, mas nada fazem pra tentar fugir. A história se encerra, mas o final deixa um gancho pra uma continuação – mas na minha humilde opinião, o melhor seria parar por aí mesmo.

A Própria Carne não é um grande marco do terror nacional, mas é uma diversão honesta. Quem venham outros filmes brasileiros do mesmo nível!

Honey, Não!

Crítica – Honey, Não!

Sinopse (Festival do Rio): Honey O’Donahue é uma detetive particular que se envolve na investigação de mortes estranhas ligadas a uma igreja misteriosa da Califórnia liderada por um padre carismático. Conforme aprofunda o caso, Honey se depara com segredos, sedução e mentiras, embarcando numa trama que mistura mistério, humor ácido e thriller policial.

Claro que o novo filme do Ethan Coen estaria na minha lista do Festival do Rio!

Ano passado comentei Garotas em Fuga, filme anterior do diretor Ethan Coen, que aliás é bem parecido com este em vários aspectos. Mas antes de comentar Honey, Não!, um breve parágrafo pra quem perdeu o último texto: os irmãos Joel e Ethan Coen, juntos, fizeram dezenas de filmes ao longo de quase 40 anos, sempre dividindo roteiro, produção e direção. Até que, sei lá por que, começaram a trabalhar separados. Um conhecido me falou que leu uma entrevista onde eles disseram que não brigaram, mas um deles estaria cansado e queria dar um tempo. O curioso é que os dois continuam em ação, então não sei quem estaria dando o tal tempo. Enfim, separados, Joel Coen fez Macbeth, que heu não gostei; e Ethan Coen fez Garotas em Fuga, um filme “menor”, meio bobinho, mas que curti bem mais do que o pretensioso Macbeth.

Honey, Não! (Honey Don’t, no original) segue o estilo de Garotas em Fuga, e por isso vou repetir alguns trechos do que falei um ano atrás. O filme lembra o clima amalucado de algumas produções dos Coen dos anos 80, como Arizona Nunca Mais, ou ainda Crimewave, dirigido por Sam Raimi mas com roteiro dos Coen. Não é um grande filme, na verdade, parece uma cópia meio tosca do que os irmãos faziam. Mas, assim como o filme anterior, é divertidíssimo!

Honey, Não! traz alguns elementos que eram frequentes em filmes dos irmãos, como personagens secundários bizarros e caricatos, e humor negro misturado com violência. Além disso tem cenas de sexo bem gráficas, talvez incomode parte do público. Garotas em Fuga era um road movie, Honey, Não! é um policial. Pelo pôster, achei que ia ter uma pegada de exploitation, mas ficou só na impressão.

O roteiro podia ser melhor, algumas coisas não são bem desenvolvidas, como por exemplo o pai da protagonista. E achei que faltou uma construção melhor na revelação do assassino. Mas, a proposta era um filme B…

No elenco, novamente Margaret Qualley protagoniza, desta vez ao lado de Aubrey Plaza e Chris Evans, todos estão bem. Também no elenco, Lera Abova, Don Swayze e um Charlie Day completamente sem noção, no limite entre o insuportável e o muito engraçado.

O roteiro é assinado por Ethan Coen e sua esposa Tricia Cooke. O casal prometeu uma trilogia de filmes B lésbicos. Ou seja, em breve teremos mais um filme neste mesmo estilo. Segundo o que achei no Google, o próximo será Go, Beavers!

Conversei com alguns amigos, a maioria não gostou de Honey Não!. Heu concordo que é um filme “menor” (assim como Garotas em Fuga). Mas me diverti assistindo. Quero ver Go, Beavers!

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.

Fim de Semana Macabro

Crítica – Fim de Semana Macabro

Sinopse (Festival do Rio): Nikiya é uma órfã que se sente sozinha e anseia por uma família. Ela começa a encontrar um senso de pertencimento em seu noivo, Luke, e insiste para conhecer a família dele, que resiste à ideia. Para agradá-la e por amor a ela, Luke finalmente faz o sacrifício. Na visita à cidade natal dele, no interior, ao conhecer as pessoas, Nikiya descobre a verdade por trás do afastamento de Luke, revelando dinâmicas familiares obscuras e conflitos, transformando a viagem num pesadelo.

Já tinha ouvido falar de Nollywood, a indústria cinematográfica da Nigéria, mas nunca tinha visto nenhum filme de lá. Quando vi na programação um terror nigeriano, fui logo ver.

Um casal de namorados está planejando o casamento, mas ela insiste em conhecer a família dele. Relutante, ele aceita viajar com ela pra eles passarem um fim de semana com a família dele. E claro que tem algo de errado com a tal família.

Dirigido por Daniel Oriahi, Fim de Semana Macabro (The Weekend, em inglês) chamou a atenção por ser o primeiro (e até agora único) filme nigeriano a ser selecionado pelo Tribeca Festival, em Nova York. E é bom? Bem, vamos por partes. A ideia é boa, mas achei mal desenvolvida.

Quase sempre defendo que um filme original é melhor que uma refilmagem. São raros os casos de refilmagens melhores. Mas aqui acho que seria benéfico. Porque Fim de Semana Macabro tem erros básicos, vou citar dois exemplos. Um é erro de edição: um personagem está com as duas mãos para a frente – corta pra uma personagem falando “abaixe a arma” – corta pro primeiro personagem abaixando os braços e pegando uma arma. Caramba, era só trocar os takes! Outro erro, de sonorização: a gente sabe que muitos dos sons que a gente ouve são colocados depois, não eram sons que estavam acontecendo no set. Até aí, ok. O problema é que aqui alguns efeitos sonoros ficaram desproporcionais, como alguém apoiando um copo numa mesinha e o som é de vidro sendo arrastado; ou uma cena onde cortinas balançam ao vento, e o som do vento parece ondas em uma praia.

Algumas atuações também não são boas, como o pai do protagonista. Mas isso também acontece muito no cinema em geral…

O roteiro também tem algumas coisas que não fazem muito sentido, tipo o cara ser aprisionado, sem camisa, e só verem sua “marca de família” logo antes do momento onde ele seria executado. Ok, o espectador precisa saber da colheita, mas podiam ter contado de outra forma. E isso porque não estou falando de um fim de semana que dura vários dias…

Apesar desses problemas técnicos, achei uma boa experiência. O grande segredo guardado pelo roteiro não chega a ser um plot twist porque já era meio previsível, mas mesmo assim a história flui bem, o filme tem um bom ritmo. Só achei que podia ter um pouco mais de gore…

Fim de Semana Macabro foi um grande sucesso quando lançado nos cinemas nigerianos ano passado, e é recordista de indicações no Africa Movie Academy Awards, com 16 indicações – ganhou 4, incluindo melhor filme. Não tem cara de filme que vai ser lançado por aqui…

Coração de Lutador

Crítica – Coração de Lutador

Sinopse (imdb): A história do campeão de artes marciais mistas e do UFC, Mark Kerr.

De vez em quando a gente vê astros de blockbusters em projetos que parecem feitos para tentar ganhar prêmios de atuação. Chegou a vez do Dwayne Johnson.

Dono de um carisma enorme, Dwayne Johnson, também conhecido como The Rock, é um dos maiores nomes da Hollywood contemporânea. Mas, precisamos reconhecer que ele sempre está igual em todos os filmes, parece que sempre repete o mesmo personagem. E aqui, em Coração de Lutador (The Smashing Machine, no original), ele finalmente mostra que sabe atuar.

Pena que o filme não é lá grandes coisas…

Antes de tudo, preciso falar que não acompanho MMA. Nunca tinha ouvido falar de Mark Kerr. Ou seja, meus comentários serão só sobre o filme, não entrarei em comparações com a vida real.

Situado no fim dos anos 90, Coração de Lutador mostra três anos da carreira de Mark Kerr, numa época que o vale tudo era mais violento e pagava menos do que hoje. Kerr foi um nome importante para a época. Vemos algumas de suas lutas, ao mesmo tempo que acompanhamos seus problemas com drogas e um relacionamento nada saudável com a namorada Dawn (interpretada pela Emily Blunt, que já tinha trabalhado com Dwayne Johnson em Jungle Cruise).

A direção e o roteiro são de Benny Safdie, que fez o elogiado Joias Brutas (filme que não vi). Curiosamente, Joias Brutas também é estrelado por um ator com fama de fazer sempre o mesmo tipo de personagem, Adam Sandler. A diferença é que Sandler já tinha mostrado que sabe atuas em outros (poucos) filmes.

Coração de Lutador tem um problema grave: é um filme de luta com cenas de lutas mal filmadas. Alguns filmes que mostram esportes capricham em momentos decisivos, mas aqui não tem nenhuma cena memorável. Podiam ter pensado em melhores coreografias e ângulos de câmera. Lembro de Creed, um filme que não curti muito, mas que tem uma sensacional luta em plano sequência que vale o ingresso.

Sobre o Dwayne Johnson, li no imdb que ele teria perdido quase 30 kg para o papel. Mas como ele sempre foi um cara muito grande, confesso que nem reparei se ele estava menos forte. Agora, ele com cabelo ficou realmente diferente. Tem uma cena onde ele raspa o cabelo, aí volta a ficar o The Rock que a gente está acostumado.

Ah, sim, ele está atuando bem. Pela primeira vez, vemos Dwayne Johnson em um papel diferente do de sempre. Agora, se isso é o suficiente pra ganhar um Oscar, aí é outro papo – acabei de ver o Sean Penn em Uma Batalha Após a Outra, aquela atuação realmente merece um Oscar. Mas, sim, Dwayne Johnson está muito bem e provou que sabe atuar.

O único outro nome conhecido no elenco é Emily Blunt. Os outros dois nomes mais importantes do elenco, o amigo e o treinador, são interpretados por nomes ligados à luta na vida real: Ryan Bader, que é lutador, e Bas Rutten, ex lutador que treinou Mark Kerr.

Coração de Lutador não é lá grandes coisas, e ainda piora por causa de um final horroroso, daquele que deixa o espectador com gosto ruim na boca ao fim da sessão. O filme fala da carreira do Mark Kerr durante alguns anos no fim dos anos 90. Aí no fim tem um epílogo, nos dias de hoje, com o Mark Kerr real, num mercado, como se estivesse sendo filmado por um paparazzi. O problema é que se o espectador não conhece o Mark Kerr, fica se perguntando “quem diabos é esse cara?” Um filme mostrar fotos do personagem real durante os créditos é uma coisa legal. Mas um trecho de filme com o cara? Pra que???

Parabéns pro Dwayne Johnson, boa atuação. Agora aguardemos um filme melhor.

Uma Batalha Após a Outra

Crítica – Uma Batalha Após a Outra

Sinopse (imdb): Quando seu inimigo maligno ressurge após 16 anos, um grupo de ex-revolucionários se reúne para resgatar a filha de um dos seus.

Ao fim da sessão de imprensa, ouvi alguns amigos fazendo grandes elogios. Mais tarde, um amigo, ex crítico, cuja opinião heu respeito muito, me mandou uma mensagem: “filmaço”. Abri o youtube, vários vídeos com o título “melhor filme do ano”.

Caramba, será que fui o único que não achou isso tudo? Reconheço virtudes em Uma Batalha Após a Outra, mas se bobear nem vai entrar no meu top 10 de 2025.

Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, no original) é o novo filme escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, um cara que não faz filmes ruins – seus filmes mais fracos são melhores que o média do que é lançado no circuito. Heu particularmente sou muito fã de Boogie Nights, um de seus primeiros filmes.

Vamos aos elogios óbvios. O elenco está todo muito bem, mas preciso destacar Sean Penn, que faz um militar obcecado e completamente desequilibrado. Penn está assustador, cada olhar, cada gesto, até o jeito de andar, será uma surpresa se não for indicado ao Oscar. Leonardo DiCaprio também está excelente, ele faz um cara que acreditava numa causa mas com o tempo deixou a causa pra lá e agora vive chapado e paranoico, parece uma versão menos engraçada do “dude Lebowski”. E ainda tem o Benicio Del Toro, num papel menor, mas também ótimo.

Uma coisa que achei boa é que todos os personagens têm falhas de caráter – num mundo polarizado, seria fácil “escolher um lado”, mas aqui, todos os lados estão errados. O filme abre com Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), uma mulher forte, guerrilheira contra o sistema – mas que é uma péssima mãe e ainda de dedurou os companheiros. O militar Lockjaw (Sean Penn), seu antagonista direto, poderia ser um símbolo da luta pelo que é correto – mas está tentando entrar para um seleto grupo de supremacistas brancos, uma espécie de Ku Klux Klan moderna. E o protagonista Bob (Dicaprio), como falei, vive bêbado e drogado.

Preciso falar da sensacional cena de perseguição de carros. A gente está acostumado a ver boas cenas de perseguição em filmes de ação, mas aqui a pegada é outra, outra proposta, outro ritmo. É uma longa estrada, reta, mas com ondulações que parecem uma montanha russa – lembro de uma estrada parecida no caminho de Rio das Ostras, o carro sobe e desce diversas vezes seguidas. Aqui, a câmera se posiciona de maneira que a gente vê os carros subindo e descendo, eles aparecem e somem logo depois. Foi uma sacada genial. E o desfecho da perseguição é muito bom.

A trilha sonora é estranha, parece que um gato está passeando em cima de um piano. Estranha, mas encaixa perfeitamente com o clima tenso do filme. Gostei!

Uma Batalha Após a Outra é bom, reconheço. Só que é um filme que não “me pegou”. Os atores são bons, os personagens são bem construídos, mas são pessoas desagradáveis, fica difícil se identificar e torcer por algum deles. Além disso, é longo demais, duas horas e quarenta e um minutos, me cansou. Reconheço os méritos, mas não achei tudo isso.

A Grande Viagem da Sua Vida

Crítica – A Grande Viagem da Sua Vida

Sinopse (imdb): Um conto imaginativo de dois estranhos e a inacreditável jornada que os conecta.

Quando recebi o convite para a sessão de imprensa de A Grande Viagem da Sua Vida, fui ver o imdb. Pelas imagens coloridas e pela sinopse “um conto imaginativo”, “inacreditável jornada”, achei que tinha cara de ser algo fora da caixinha. Podia ser ruim com força, ou podia ser uma agradável viagem.

A notícia é boa. A Grande Viagem da Sua Vida é um filme romântico, mas com um pé no bizarro. Isso o diferencia de outros filmes românticos bestas, como o recente Amores Materialistas, que é tão “água de salsicha” que nem tive vontade de comentar aqui no heuvi.

(Ouvi gente dizendo que A Grande Viagem da Sua Vida é uma comédia romântica. Olha, tem algumas cenas engraçadas (ri alto na piada sobre a idade da Margot Robbie), mas não chamaria este filme de comédia. O drama é bem mais forte.)

Logo de cara o filme já flerta com o fantástico. Coisas surreais vão acontecendo com os personagens, tipo conversar com o GPS do carro ou encontrar portas mágicas espalhadas pela paisagem. Nunca tinha ouvido falar do diretor Kogonada, fiquei até curioso em procurar outros trabalhos dele. Gostei de como ele conduz a história, sem explicar o que está acontecendo. Apenas relaxe e se deixe levar.

Claro que o grande chamariz para o filme é o casal de atores principais, Margot Robbie e Colin Farrell. Ambos estão muito bem, e convencem em suas jornadas. E foi divertido ver Colin Farrell cantando num teatro musical de escola. Aliás, o filme todo é basicamente só com os dois – Phoebe Waller-Bridge tem um papel pequeno no início e no final do filme, e Kevin Kline tem uma participação tão rápida que nem reconheci quando ele apareceu.

Também queria elogiar a trilha sonora de Joe Hisaishi, com temas que às vezes lembram o minimalismo do Philip Glass. A fotografia também chama atenção.

Por ser “fora da caixinha”, vai ter espectador incomodado. Mas heu gostei do filme romântico com um pé no bizarro.