O cinema brasileiro não vive um bom momento

Polêmica: “O cinema brasileiro não vive um bom momento”!

Vou expor uma opinião polêmica: na minha humilde opinião o “cinema brasileiro” não vive um grande momento. Estou muito feliz com as vitórias internacionais conquistadas por Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, são dois grandes filmes (achei o primeiro bem melhor, mas reconheço os méritos do segundo), ano passado Ainda Estou Aqui ganhou Globo de Ouro de melhor atriz e Oscar de filme internacional – o primeiro Oscar 100% brasileiro; este ano O Agente Secreto acabou de ganhar Globo de Ouro de melhor ator e melhor filme em língua não inglesa e tem grandes chances de estar no próximo Oscar.

“Caramba, Helvecio, se você reconhece o sucesso internacional desses dois filmes, por que fala que não vivemos um bom momento?”

É porque, pelo meu ponto de vista, são casos isolados. O cinema brasileiro ainda é muito fraco. Ter um bom filme aqui, outro ali, não significa que o resto dos filmes traz qualidade parecida. Vou citar dois exemplos tirados da música. Nos anos 70, o ABBA foi um dos grupos musicais mais vendidos de todos os tempos, com sucessos como “Dancing Queen” e “Mamma Mia” – mas outros suecos a alcançar o sucesso só apareceram anos depois, como Europe e Roxette. Outro exemplo: Shakira faz sucesso mundial, mas não saberia dizer outro artista colombiano.

E aí mando a pergunta que não quer calar: cadê o “terceiro filme” brasileiro? Se vivemos um bom momento, era pra ter outros grandes filmes nos anos anteriores ou com estreia próxima. Cadê outros filmes com capacidade semelhante de fazerem bonito internacionalmente falando?

Vamos pegar o audiovisual sul-coreano. Park Chan-wook conseguiu um grande sucesso em 2003 com Oldboy, e está cotado este ano pra concorrer ao Oscar de filme internacional com o seu A Única Saída. Kim Ki-duk ganhou prêmios em Berlim e Veneza em 2004. Lee Chang-dong ganhou prêmios em Veneza em 2002 e em Cannes em 2010 e 2018. Hong Sang-soo ganhou prêmios em Berlim em 2020, 21 e 24 e já teve filmes exibidos em Cannes em dez edições diferentes. E, claro, Em 2019/20, Bong Joon-ho fez história com Parasita – não só ganhou Palma de Ouro em Cannes, como ganhou quatro Oscars, inclusive foi o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar principal. E isso porque estou falando só de cinema, mas a gente não pode esquecer do grande sucesso mundial da série Round 6. Isso abriu portas pra muitas opções coreanas nos streamings. Podemos dizer que existe cinema sul-coreano atualmente.

Outro exemplo: entre 2014 e 2019, seis anos seguidos, Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro G. Iñárritu, três mexicanos, ganharam cinco Oscars de melhor diretor – Cuarón por Gravidade e Roma, del Toro por A Forma da Água e Iñárritu por Birdman e O Regresso (Damien Chazelle foi o “intruso”, em 2017, com La La Land).

Já o cinema nacional vive de momentos, como aqueles exemplos musicais que citei. Orfeu Negro, co-produção Brasil, França e Itália, ganhou Oscar em 1960, mas o filme foi indicado pela França, não pelo Brasil. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, até hoje o foi único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes (também foi indicado pro Oscar). O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco, tinha cara de filme gringo mas era co-produção Brasil e EUA, foi indicado aos Oscars de melhor filme, diretor e roteiro adaptado, e ganhou melhor ator, pra William Hurt. Central do Brasil (1998), de Walter Salles, ganhou Urso de Ouro em Berlim e foi indicado a dois Oscars, melhor filme em língua estrangeira e melhor atriz (Fernanda Montenegro), mas perdeu ambos. Cidade de Deus (2002) teve 4 indicações ao Oscar (direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem), mas também perdeu todos. Tropa de Elite (2007), de José Padilha, ganhou Urso de Ouro em Berlim. O Quatrilho e O Que É Isso Companheiro também concorreram ao Oscar e não ganharam. Além desses, tivemos outras participações indiretas no Oscar, como Carlos Saldanha, indicado duas vezes, mas por produções gringas; Diários de Motocicleta, outro Walter Salles, mas co-produzido por oito países diferentes, concorreu a melhor roteiro adaptado e ganhou melhor canção (Al Otro Lado Del Rio, de Jorge Drexler); Sergio Mendes e Carlinhos Brown também concorreram a melhor canção em 2012, por Rio, mas não ganharam.

E agora, recentemente, tivemos Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.

Não vejo esse atual momento dos dois premiadíssimos filmes recentes como um ponto de partida para uma grande onda de cinema brasileiro. Na verdade, analisando o quadro geral, acho que são casos isolados. Que, por uma coincidência, vieram um ano depois do outro.

Repetindo o que falei no início: fico feliz pelo sucesso dos dois filmes. Mas infelizmente ainda acho que falta muito pra isso refletir no resto do cinema nacional.

Waterworld: O Segredo das Águas

Crítica – Waterworld: O Segredo das Águas

Sinopse (imdb): Num futuro em que o gelo dos pólos derreteu, quase toda a terra está submersa. Um homem solitário, com relutância, ajuda uma mulher e uma jovem a encontrar um terreno firme.

Tive a ideia de fazer uma lista de filmes injustiçados. Filmes que as pessoas se acostumaram a falar mal, mas não são tão ruins assim. Só que é uma lista que dá trabalho, porque preciso rever cada filme para julgar se merece ou não estar numa lista de injustiçados. GG, meu companheiro de Podcrastinadores, sugeriu Waterworld: O Segredo das Águas, um dos maiores fracassos comerciais da história do cinema. Aproveitei que revi e vou comentar aqui.

Waterworld surgiu como uma “versão aquática de Mad Max“: um mundo pós apocalíptico, um herói solitário, vilões bizarros e a luta por recursos (água/combustível). A diferença é que em vez de deserto, o planeta está inundado depois do derretimento das calotas polares. Aliás, Peter Rader, um dos roteiristas de Waterworld, admitiu a inspiração em Mad Max 2. Mais: o diretor de fotografia Dean Semler trabalhou em Mad Max 2Mad Max 3.

Waterworld é mal falado, mas nem é tão ruim assim. O lance é que foi uma produção muito cara, e o retorno nas bilheterias não refletiu o investimento. O filme tinha o orçamento de 175 milhões de dólares – o maior orçamento da história até aquela data, mas pouco depois Titanic bateu esse recorde (a diferença é que Titanic foi um sucesso de bilheteria). Detalhe: o próprio Kevin Costner pagou 22 milhões do próprio bolso! E se você tem um filme muito caro, a bilheteria tem que ser muito grande…

(Fui na wikipedia agora pra ver a lista dos filmes mais caros. Hoje, em 2026. O mais caro foi Star Wars ep 9, que custou 490 milhões. Na wikipedia tem uma lista com 68 títulos, o último dessa lista custou 204 milhões. Curiosamente, todos os 68 filmes são deste século.)

A direção é de Kevin Reynolds, que já tinha dirigido Kevin Costner em outros dois filmes, Fandango (1985) e Robin Hood (1991). Mas, segundo o imdb, há rumores de que Kevin Reynolds e Kevin Costner tiveram uma grande discussão sobre o filme, o que resultou na saída de Reynolds do projeto, deixando Costner na direção e na supervisão da edição. Reynolds teria dito que “Kevin Costner só deveria estrelar filmes que ele mesmo dirige. Dessa forma, ele pode trabalhar com seu ator e diretor favoritos.” Mesmo com a saída, Kevin Reynolds continuou creditado como diretor.

Filmar no mar era um grande desafio. Um dos maiores problemas era que boa parte do elenco e equipe ficavam enjoadas. Além disso, boa parte das cenas precisavam ser filmadas a duas milhas da costa, pra ter pelo menos 270 graus de mar aberto. As condições climáticas locais geralmente pioravam à tarde, então a maior parte das filmagens tinha que ser interrompida depois das 15h ou 16h. Para piorar a situação, cerca de 30 barcos adicionais, usados ​​pelo elenco e equipe, eram necessários para iluminação, câmeras, maquiagem, alimentação, figurinos etc., e nenhum deles tinha banheiro. As filmagens tinham que ser interrompidas repetidamente para que as pessoas pudessem ser levadas a banheiros químicos em uma balsa ancorada perto da costa. Todas essas limitações geralmente permitiam apenas cinco ou seis tomadas por dia de filmagem, estendendo significativamente o cronograma.

Era complicado, mas pelo menos temos algumas sequências realmente muito boas. Toda a sequência do ataque dos smokers ao atol é muito boa. E o trimarã do protagonista Mariner (o personagem não tem nome) é um barco muito bem estruturado, cheio de surpresas, e Kevin Costner parece muito à vontade fazendo de tudo no barco. Eram os anos 90, cgi ainda era algo sem muita força, e não existiam drones com câmeras. Então, durante algumas vezes durante o filme, a gente vê um close meio tremido no ator, e a câmera se afasta, mostrando o barco velejando – provavelmente cena feita com helicópteros. Antes de começarem as filmagens, Costner ficou três semanas velejando com o trimarã pra se acostumar.

O vilão, interpretado por Dennis Hopper, é bem ruim. Mas… Naquela época, vilões caricatos eram comuns. Vou deixar só um exemplo: Goonies é um filme cultuado pela maioria das pessoas, e os vilões daquele filme são tão caricatos quanto o daqui. E esse aqui é menos pior que o “Master Blaster”, do Mad Max 3. Ou seja, vilão ruim, mas coerente com a época.

O roteiro também tem várias forçadas de barra, mas que – de novo – eram comuns na época. Várias conveniências de roteiro se espalham pelo filme, tipo o balão aparecendo do nada pra salvar os personagens quando o barco estava danificado. E aquele bungee jump no fim talvez tenha sido um pouco demais – mas pelo menos a cena é empolgante. Enfim, anos 90…

No elenco, é um “filme do Kevin Costner”, que já era um nome gigante em Hollywood – cinco anos antes ele ganhou dois Oscars, melhor filme e melhor diretor, por Dança com Lobos. Gostei do personagem dele, que é um cara quieto e mal-humorado, e que precisa ter que conviver, a contragosto, com uma mulher e uma criança. E, vamos ser sinceros, uma criança bem chata. Os outros dois nomes grandes do elenco são Jeanne Tripplehorn e Dennis Hopper. A menina Tina Majorino está por aí até hoje, mas nunca mais teve um papel de sucesso. Ah, prestem atenção no piloto de avião que aparece rapidinho e debaixo de muita fuligem – é o Jack Black ainda antes de ser famoso.

(Aliás, li no imdb um fato curioso. A personagem da Jeanne Triplehorn tem uma cena de nudez bem discreta, e não é nudez gratuita – ela quer que o Mariner proteja a criança, então se oferece pra ele. É uma cena rápida, de costas. Mas Jeanne se recusou a fazer a cena. O curioso é que poucos anos antes ela mostrou bem mais em Instinto Selvagem…)

Revisto hoje, Waterworld está longe de ser ruim. É um bom filme pipoca. Tem seus problemas aqui e ali, mas se a gente desligar o fato de ter sido um grande prejuízo comercial, vai curtir a sessão.

Stranger Things – Temporada 5

Crítica – Stranger Things – Temporada 5

Sinopse (google): Em 1987, Hawkins está em quarentena militar após as fendas do Mundo Invertido se abrirem, forçando o grupo de amigos a se unir pela última vez para encontrar e derrotar um Vecna desaparecido, enfrentando uma escuridão mais poderosa.

Tenho sentimentos conflitantes quando o assunto é Stranger Things. Por um lado, gosto da série, reconheço que a primeira temporada é muito boa, e as outras temporadas têm vários momentos muito legais – a sequência do Eddie tocando guitarra no fim da quarta temporada é sensacional. Mas por outro lado, acho os episódios longos demais, e esse formato pra fazer “binge watching” acaba cansando.

Explicando o “binge watching”, também conhecido como “maratonar”. Antigamente, séries soltavam um episódio por semana. Você só conseguia maratonar uma série depois de finalizada, em VHS ou DVD. Aí a Netflix resolveu inovar e lançar temporadas de séries completas em sua plataforma, e criou-se o hábito de maratonar séries. Às vezes o hype é grande, e rola um fenômeno chamado FOMO, ou “fear of missing out”, que é quando o cara quer ver correndo pra não ficar pra trás nos assuntos mais comentados.

Inicialmente heu confesso que curti esse formato – às vezes um episódio termina com um gancho que a gente fica tenso a semana inteira pra saber como vai resolver. Problema resolvido, era só dar o play no próximo episódio. Mas… Hoje acredito que o formato tradicional é muito melhor. Um episódio, depois uma semana pensando e digerindo, quando chega a semana seguinte o episódio “desce” muito mais redondo. Vide Pluribus: uma série de mistério, onde cada episódio usou uma semana inteira para ser melhor apreciado.

Além disso, tem o tempo entre uma temporada e outra. Foram três anos e meio desde o fim da quarta temporada. Não dá pra seguir uma história depois de tanto tempo, a gente esquece do que viu. E Stranger Things ainda tem outro problema que é o tamanho dos episódios. O episódio final desta temporada teve duas horas e oito minutos! Isso é tamanho de filme, não de episódio de série!

Esses fatores todos me desanimavam a encarar a última temporada, que ainda foi dividida em três partes – foram quatro episódios lançados no fim de novembro, depois mais três no dia do Natal, e o último (o de mais de duas horas) lançado em 31 de dezembro. Larguei o FOMO, ignorei as primeiras datas, e vi todos os episódios depois que já estava tudo disponível.

E a grande pergunta: valeu? Médio. A temporada teve seus bons momentos, não posso ignorar isso. Mas dava pra dar uma enxugada no roteiro, e o tempo total da série podia ser a metade (somei os tempos dos episódios: são dez horas e vinte minutos, um pouco longo pra ser um “filme”). Porque em alguns momentos a série cansa.

(Li em algum lugar que isso é estratégia da Netflix, pra deixar o espectador mais tempo conectado à plataforma. Tem lógica a curto prazo, mas tenho minhas dúvidas se isso não pode acabar afastando o espectador em produções futuras.)

Vamos aos pontos positivos. Algumas sequências são empolgantes. Ok, nada de inovador, nada que vai marcar a história da TV, mas pelo menos são sequências emocionantes. Também gostei da parte técnica, a batalha final é contra um monstrão tipo um kaiju, os efeitos especiais são convincentes. Além disso, são vários personagens carismáticos, e tivemos uma boa conclusão pra história deles. E preciso dizer que gostei do gordinho mala, que começa como um moleque insuportável e acaba virando um personagem divertido.

Agora, por outro lado, o roteiro tem muitas forçadas de barra. Vou citar só uma: civis atacam o exército, e logo depois tudo está bem, ninguém sofre consequências. Além de várias facilitações de roteiro, tipo não ter demogorgons na batalha final. Mas, um amigo meu deu a dica: Stranger Things, desde a primeira temporada, sempre foi uma homenagem aos anos 80. E naquela época a gente aceitava essas forçações de barra – a gente nunca questionou um Rambo ou um Comando pra Matar, onde um cara sozinho derrotava um exército, e sua munição nunca acabava. Se o espectador entrar na série com esse pensamento, vai relevar esses problemas.

O episódio final tem uma característica que heu achei ruim, mas conversando com amigos, alguns disseram que isso foi visto como algo positivo. É que existe um grande evento final, onde os personagens precisam lutar contra o grande vilão, e depois que isso acaba, ainda tem uma hora de episódio, mostrando o que aconteceu com cada um dos muitos personagens. Heu achei isso uma enrolação que poderia ter sido resolvida com algumas cartelas na tela, contando o futuro de cada um, porque afinal a gente já tinha passado pela adrenalina do final. Mas, preciso reconhecer que teve gente dizendo que isso foi a melhor coisa do episódio.

Uma coisa que me incomodou bastante é a idade dos atores. Harry Potter teve oito filmes ao longo de dez anos, mas os personagens cresciam um ano por filme. Ou seja, quando acabou, os atores estavam bem mais velhos, mas os personagens tinham quase a mesma idade. Mas aqui não. Logo no primeiro episódio desta temporada, tem um breve flashback onde lembramos que a história começou em 1983. Depois rola um salto e passamos pra 1987 – quatro anos. E em algum episódio alguém comenta que Will tinha 11 anos na época do início da série. Ou seja, quase a temporada toda acompanhamos personagens de 15 anos. Mas os cinco atores principais têm entre 21 (Noah Schnapp, o Will) e 24 anos (Caleb McLaughlin, o Lucas). Na boa, não dá pra ter atores com barba na cara se passando por adolescentes de 15 anos!

(Lembrei de uma piada que ouvi numa sitcom que falava que as séries nos anos 90 tinham adolescentes de 25 anos e pais de 35…)

Sobre o elenco, não me lembro da Millie Bobby Brown ser tão ruim nas outras temporadas. Mas aqui ela está péssima. Ouvi um papo de que ela colocou botox e por isso não consegue mais fazer expressões faciais; ouvi outra teoria de que ela estaria de saco cheio e não queria fazer a temporada. Sei lá o que aconteceu, mas o ponto é que ela está com a mesma cara de “menina mimada enfezada” ao longo da temporada inteira! Sorte é que são muitos personagens, e outros têm carisma de sobra. Cada vez que a Maya Hawke aparecia em tela a gente esquecia da Millie Bobby Brown.

Enfim, pelo menos acabou. Mas não sei se um dia vou rever. Talvez só a primeira temporada, naquela época fiquei bem mais empolgado que agora.

Anaconda (2025)

Anaconda (2025)

Sinopse (imdb): Um grupo de amigos que enfrenta a crise da meia-idade se prepara para refazer seu filme juvenil favorito, mas quando entram na selva, as coisas ficam feias.

Quando soube de um novo Anaconda, fui catar a versão de 1997 pra rever. Aquele filme é bem ruim. Mas, pelo trailer, esta nova versão parecia que ia ser mais divertida. E meu pressentimento estava certo. O novo Anaconda é divertidíssimo!

O protagonismo aqui é dividido entre o Jack Black e o Paul Rudd. Quando adolescentes, eles faziam curtas amadores com mais dois amigos; hoje, Jack Black faz vídeos de casamento, enquanto Paul Rudd é um ator frustrado em Hollywood. A turma se reúne para fazer um remake de baixíssimo orçamento do Anaconda de 97, quando uma equipe vai pro Amazonas fazer um documentário sobre uma tribo indígena e é atacada por uma cobra gigante. Mas a grande diferença é que aquele filme se levava a sério, enquanto aqui a galhofa é assumida. Ri alto diversas vezes ao longo da sessão!

Teve uma cena que achei simples e genial, logo no início do filme, quando conhecemos o trabalho do Jack Black. Ele descreve como seria a ideia dele do vídeo de casamento, e começa a cantarolar a música que ele imaginou para a cena, e a trilha do filme começa a acompanhar o que ele está cantarolando. No cinema, música diegética é aquela que os personagens estão ouvindo, tipo o Jack Black cantarolando; música não diegética é quando só o espectador ouve, é a trilha sonora que está acompanhando o cantarolar. Gosto quando um filme quebra essa barreira entre a música diegética e a não diegética.

(Preciso dizer que me identifiquei com o momento que eles se reúnem pra rever o filme que fizeram quando adolescentes. Assisti Anaconda ao lado do Eduardo Miranda, do canal Projeto Cinevisão, e ele estava comigo quando filmei O Boitatá, um dos meus primeiros curtas, há quase 14 anos…)

A direção é de Tom Gormican, o mesmo de O Peso do Talento, aquele filme onde um milionário quer conhecer o Nicolas Cage. Ou seja, o cara sabe brincar com a metalinguagem, usando piadas ligadas ao cinema. E aqui são várias, tem algumas geniais – a do Jordan Peele é sensacional! Aliás, a única coisa boa de ter revisto Anaconda de 97 foi pegar o contexto de todas as piadas sobre aquele filme.

No resto do elenco, o destaque vai pra Selton Mello, e juro que isso não é um comentário bairrista. Selton faz um brasileiro que cuida de cobras. Ele não é um dos principais, mas ele tem um papel bem grande, e posso dizer tranquilamente que ele rouba todas as cenas que aparece. Um dos momentos mais engraçados do filme é quando estão conversando sobre cabeçadas, ele fala de colocar um “brazilian twist” e grita “TOMA!”, e todo o elenco começa a gritar “TOMA!” com ele. Não li em lugar algum, mas não acharia estranho isso ser sugestão do próprio Selton – duvido que um roteirista gringo tenha pensado em gritar “TOMA!” no meio de uma cena de briga. No resto do elenco, Thandiwe Newton, Steve Zahn e Daniela Melchior. Aliás, Daniela, que é portuguesa, aparece falando português, mas sem nenhum sotaque, me pareceu dublada.

(No cinema tinham duas salas passando Anaconda, uma com a cópia dublada e a outra, legendada. Quando o filme começou, com um diálogo em português, fiquei com medo de ter entrado na sala errada. Não, são só algumas cenas em português.)

Aliás, assim como tem uma atriz portuguesa que parece dublada, nos créditos descobri que Anaconda foi filmado na Austrália. Ué, por que não filmar no Amazonas? Pelo menos ouvimos diálogos e lemos cartazes em português. Décadas atrás Hollywood não respeitava isso – inclusive no filme de 97 tem um personagem brasileiro que fala português com sotaque.

(E todo brasileiro vai dar uma gargalhada ao ver que, dos EUA pro Amazonas, eles passam pelo Rio de Janeiro. Tem uma cena mostrando o Corcovado!)

Os efeitos especiais são apenas ok. Em algumas cenas, a cobra não convence. Sorte que o objetivo do filme é galhofa e não mostrar uma cobra assustadora.

Agora, se por um lado o roteiro é bem divertido, por outro precisamos reconhecer que são várias forçadas de barra. Sem spoilers, mas o modo como a cobra é derrotada no final não fez o menor sentido! Além disso, tem uma sequência envolvendo um personagem fazendo xixi que achei uma piada ruim e demasiadamente prolongada.

Ah, tem cenas pós créditos. Uma delas é genial, mostra um videozinho de casamento feito pelo Jack Black. E tem um possível gancho pra continuação. Que seja tão divertido como este!

 

A Empregada

Crítica – A Empregada

Sinopse (imdb): Segue uma mulher em dificuldades que está feliz em recomeçar como empregada doméstica para um casal rico e elitista.

A Empregada (The Housemaid, no original) é o novo suspense dirigido por Paul Feig, que tem um longo currículo na comédia (Missão Madrinha de Casamento, As Bem Armadas, Caça Fantasmas (2016)), mas que já tinha entrado no suspense, com Um Pequeno Favor. Seu novo filme é baseado no livro de Freida McFadden – não li o livro, meus comentários serão só sobre o filme.

A Empregada tem aquele formato onde vemos uma trama com alguns elementos estranhos, e depois rola uma reviravolta de roteiro onde tudo passa a ser visto sob uma nova perspectiva. Millie (Sydney Sweeney), que tem um passado misterioso, está procurando emprego, e começa a trabalhar na casa de Nina (Amanda Seyfried). Só que pouco depois que começa o trabalho, Nina se mostra uma pessoa completamente desequilibrada.

Depois da virada de roteiro a gente entende algumas coisas que antes estavam nebulosas. Mas se heu puder fazer uma crítica, achei meio abrupta a mudança de comportamento de alguns personagens. No filme até funciona, mas me pareceu artificial.

O grande lance aqui é a dinâmica entre Sydney Sweeney e Amanda Seyfried. Sydney esteve envolvida recentemente em polêmicas vazias (talvez o maior problema do mundo atual seja essa polarização que transforma tudo em flaxflu), mas já mostrou que é uma grande atriz – e quem discorda de mim, veja o final de Imaculada. Enfim, polêmicas à parte, Sydney, que além de atuar bem, é uma das mais bonitas da sua geração, está bem aqui. Amanda às vezes parece um pouco over, mas ela também funciona bem no papel, principalmente depois do plot twist, quando sabemos o que realmente aconteceu. Enfim, as duas estão bem e valem o filme.

O papel masculino principal é de Brandon Sklenar. Curioso que já vi alguns filmes com ele, mas não lembro de nenhuma das suas atuações. Não sei se é uma falha minha ou se ele realmente é um cara mais apagado. Michele Morrone, famoso pela bomba 365 Dias e por ser um novo “Cigano Igor”, tem um papel muito mal desenvolvido como o jardineiro – ou seja, é um ator ruim num papel ruim. E, pra quem é das antigas, a mãe do protagonista é Elisabeth Perkins, de Sobre Ontem À Noite (1986) e Quero ser Grande (88).

A Empregada é um pouco longo, não precisava de mais de duas horas pra contar essa história. Mas quem curtia aqueles suspenses dos anos 90, com reviravoltas e um toque de erotismo, vai se divertir.

 

Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Crítica – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Sinopse (Netflix): O detetive Benoit Blanc conta com a ajuda de um jovem padre para investigar um crime perfeitamente impossível na igreja de uma cidadezinha que tem uma história sombria.

Em 2019, fomos apresentados ao detetive Benoit Blanc, uma espécie de novo Hercule Poirot, no divertido e bem escrito whodunit Entre Facas e Segredos. Três anos depois, Benoit Blanc voltou em outro novo mistério, em Glass Onion, Um Mistério Knives Out, filme que trazia o mesmo personagem, em uma história completamente independente do primeiro filme. Agora, em 2025, mais uma vez dirigido por Rian Johnson (Star Wars episódio 8), Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man, no original) repete a ideia: novo filme, mesmo personagem, mestilo, história 100% independente.

(Curiosidade sobre os títulos dos três filmes. Knives Out é uma música do Radiohead; Glass Onion é dos Beatles. Wake Up Dead Man é uma música do U2.)

(Glossário: whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. A literatura tem pelo menos dois nomes bem famosos no estilo: Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle; e Hercule Poirot, da Agatha Christie.)

Assim como os dois primeiros filmes, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out traz um grande elenco, e o único repetido é Daniel Craig como Benoit Blanc. Curioso que desta vez o detetive é quase um coadjuvante, porque o filme é muito mais do padre Jud (Josh O’Connor). Digo mais: Blanc só aparece depois de 39 minutos e meio de filme.

Aliás, bora falar do elenco, que é fantástico. Daniel Craig está ótimo, e pode tirar uma onda que poucos conseguem no cinema: viveu personagens marcantes em duas franquias diferentes (acho que nenhum outro James Bond conseguiu “se livrar” do personagem). Mas claro que o destaque é Josh O’Connor, o que foi uma agradável surpresa, já que o último filme que vi dele foi o decepcionante The Mastermind. Glenn Close e Josh Brolin também estão excelentes. Também no elenco, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Thomas Haden Church, Jeffrey Wright e Annie Hamilton. Ah, tem um momento que o Thomas Haden Church está vendo baseball na TV, a voz do comentarista é de Joseph Gordon Levitt – que também tinha feito apenas uma voz em Glass Onion.

O assassinato realmente é intrigante e parece impossível, acho difícil algum espectador conseguir solucionar. E na parte final acontece um outro crime, igualmente impossível, que deixa a trama ainda mais misteriosa. Será que Benoit Blanc vai conseguir solucionar o caso dessa vez? Apesar de uma forçadinha aqui e outra ali, achei os dois casos muito bem bolados, e as soluções me convenceram. Além disso, o ritmo do filme é muito bom, são quase duas horas e meia que passam rapidinho.

Por fim, vou repetir o que falei três anos atrás e vou falar mal do nome brasileiro do filme. O primeiro filme aqui foi chamado “Entre Facas e Segredos”. O segundo tem um subtítulo “Um Mistério Knives Out”. Por que não “Um Mistério Entre Facas e Segredos”? E o terceiro filme repete: “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out”. Bem, pelo menos agora o subtítulo fez um link com o segundo filme…

Avatar: Fogo e Cinzas

Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas

Sinopse (imdb): Depois de uma perda devastadora, a família de Jake e Neytiri enfrenta uma tribo Na’vi hostil, os Ash, liderada pela implacável Varang, à medida que os conflitos em Pandora se intensificam e surgem novos dilemas morais.

Antes de tudo, preciso avisar que nunca fui fã de Avatar. Vou além: acho uma série de filmes bem bestas. Vi o primeiro na época que saiu, 2009, não me lembro se cheguei a rever. Vi o segundo no lançamento, três anos atrás, me lembro de quase nada. Precisava de mais um? Não. Mas, já que fizeram, vamulá.

Depois da sessão de imprensa os comentários eram mais ou menos um consenso: o filme é longo demais e com roteiro fraco demais. O diretor James Cameron quis apresentar um belo espetáculo, e conseguiu – o filme é belíssimo. Mas parece que focou todos os esforços e energia na parte técnica, enquanto deveria pensar um pouco mais no roteiro. Deu a impressão de que Cameron está querendo fazer o seu próprio parque temático nas salas de cinema. E, desculpa, mas três horas e quinze de imagens bonitas é muita coisa. Na primeira meia hora, aquilo tudo é lindo. Mas acho difícil algum espectador chegar ao fim sem se cansar.

O roteiro tem várias facilitações muito forçadas. Determinado momento, um personagem está preso e tentando fugir, e ele só consegue porque três ações diferentes, de três personagens diferentes, que não estão em contato, acontecem ao mesmo tempo. Ok, já vimos isso em outros filmes, mas Avatar 3 é uma mega produção, não devemos aceitar erros comuns de filmes de baixo orçamento. Além disso, a contagem de tempo é meio estranha, o cabelo do Spider cresce vários centímetros, o que deveria ser um sinal de passagem de tempo – mas Ronal passa o filme inteiro grávida, com barrigão. Se passou tempo pro cabelo, não passou tempo pra gravidez?

(Se bem que estou entrando na ciência de Pandora, que não necessariamente segue as mesmas regras que no nosso planeta. Isso também explicaria a “gravidade seletiva” – tem uma cena onde personagens caem, mas em pedras que flutuam no ar – por que a gravidade só funciona pra uns?)

O roteiro ainda tem um artifício usado de vez em quando, mas que heu particularmente acho péssimo: uma solução “deus ex machina”, que é é um recurso narrativo onde um problema aparentemente insolúvel é resolvido de forma súbita e inesperada por uma força externa. Sem spoilers, mas os “mocinhos” estão perdendo, sem saída, aí do nada aparece um novo elemento para derrotar os “vilões”. Ok, isso não é um problema inventado em Avatar, isso existe desde o teatro grego. Mas, caramba, uma produção do porte de Avatar, e com uma duração tão longa, precisava de uma solução de roteiro tão preguiçosa?

O visual realmente é muito bom. Nisso, precisamos tirar o chapéu para James Cameron, que conseguiu criar o seu mundo com detalhes impressionantes. Sim, o filme é longo e cansativo. Mas quem estiver apenas atrás de belas imagens vai se esbaldar.

Comentários sobre o 3D. Não sou fã de 3D pra dar profundidade. Na verdade, gosto mais quando é “efeito de parque de diversões vagabundo”, que é quando o personagem atira algo na direção da tela e o espectador se abaixa pra não ser atingido. Vou ser franco: só me lembro de duas vezes onde o 3D me proporcionou sensações diferentes, em A Invenção de Hugo Cabret, quando o George Méliès está construindo seus efeitos especiais; e A Travessia, nas cenas onde o equilibrista explica seu plano de como vai colocar o cabo de aço entre as torres do World Trade Center. Fora esses raros casos, sempre que posso, dispenso o 3D, efeito que encarece o ingresso, e traz um resultado que não vale a pena. Dito isso, reconheço que o 3D aqui não é ruim. Acho desnecessário, mas quem curte o efeito vai gostar.

Teve uma coisa na imagem que me incomodou. Não chega a ser exatamente um defeito do filme, acredito que seja mais uma opção estética. Me pareceu que foi filmado em 48 fps ou 60 fps. Explico. O cinema tradicionalmente usa 24 quadros por segundo, ou “frames per second” (fps). Alguns poucos filmes usam mais quadros por segundo, o que causa uma certa estranheza ao olhar. Em algumas cenas, parecia que heu estava vendo um filme para tv, e não para o cinema. Acho estranho um produto tão caro, com visual tão esmerado, ficar com “cara de novela”.

No elenco, os principais voltam aos seus papeis, Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Kate Winslet, etc. A novidade é Oona Chaplin, que faz uma boa nova vilã, é um daqueles vilões que são malvados e curtem essa malvadeza. Gostei da personagem!

No fim, a conclusão é que James Cameron se preocupou mais com a lado “parque temático” e se esqueceu do lado “cinema”. A única boa notícia é que parece que ele desistiu de fazer Avatar 4 e Avatar 5. Sr. Cameron, que tal pensar em novos filmes, longe de Pandora?

Spinal Tap 2 O Último Ato / Spinal Tap II: The End Continues

Spinal Tap 2 O Último Ato / Spinal Tap II: The End Continues

Sinopse (imdb): No 40º aniversário do original, a sequência do lendário mockumentary de rock que colocou a produtora cinematográfica em uma sequência de sucesso.

Quarenta e um anos depois, uma continuação de um dos mais geniais mockumentaries da história!

A ideia é boa. Em 1984, foi lançado This is Spinal Tap, um mockumentary (documentário fake) sobre a turnê da banda Spinal Tap (igualmente fake). Anos se passaram, a banda se separou, mas agora vai ter uma reunião para um único show de despedida. Spinal Tap 2 O Último Ato (Spinal Tap II: The End Continues, no original) é o mockumentary que vai mostrar os bastidores dessa reunião.

Os quatro principais voltam: tanto o diretor Rob Reiner (que interpreta o documentarista) quanto os três principais músicos, Christopher Guest (Nigel Tufnel), Michael McKean (David St. Hubbins) e Harry Shearer (Derek Smalls). Alguns coadjuvantes do primeiro filme também aparecem rapidamente aqui, como Fran Drescher e Paul Shaffer, mas o filme é mesmo dos quatro.

Uma coisa que acho muito legal é que os caras são músicos, então eles convencem nas muitas cenas onde aparecem tocando. Da banda de quarenta anos atrás, não explicam por que o tecladista Viv Savage não voltou (achei uma falha), mas todo fã de Spinal Tap sabe que o baterista tem que ser um novo (spoiler: uma das piadas do primeiro filme é que o baterista sempre morre). E digo mais: a cena da audição para baterista é muito engraçada, e a nova baterista, Didi Crockett, é um ótimo personagem, além de ser interpretada por uma baterista carismática, Valerie Franco.

Spinal Tap 2 O Último Ato tem algumas participações especiais de músicos reais. Pouco antes da entrada da baterista, eles conversam via zoom com Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), Lars Ulrich (Metallica) e Questlove (confesso que nunca tinha ouvido falar deste). Paul McCartney e Elton John têm participações maiores e efetivamente tocam com a banda. E Elton John ainda está em uma piada durante os créditos!

O filme é curto, assim como o primeiro (ambos têm uma hora e vinte e três minutos), e o ritmo é meio de piada repetida. Mas preciso falar que a sequência final, com o Stonehenge, me causou gargalhadas. Finalmente conseguiram “consertar” o erro do cenário que rolou no primeiro filme! Pena que não deu tudo certo… Os créditos também trazem boas piadas. Agora, reconheço que é um filme para “iniciados”. Quem não conhece o filme de 1984, provavelmente não vai entender parte das cenas.

A nota triste é que ontem acordei com a notícia do falecimento do diretor / roteirista / ator Rob Reiner. Muito triste essa notícia…

Seis Momentos Geniais em This is Spinal Tap (1984)

Seis Momentos Geniais em This is Spinal Tap (1984)

Sinopse (imdb): A banda inglesa de heavy metal Spinal Tap está em turnê pelos Estados Unidos. Um cineasta americano decide filmar a passagem da banda pelo país, mas a turnê não sai como o esperado.

Estreou no streaming o novo This is Spinal Tap, aí fui rever o original antes de ver a continuação. Pensei em escrever uma crítica mais completa (já comentei o filme em dezembro de 2008), mas optei por trazer alguns trechos que acho geniais. Afinal, estamos falando de um filme de 40 anos atrás, de menos de uma hora e meia de duração, e que, até hoje, traz vários momentos icônicos entre os apreciadores de rock’n’roll no cinema.

Lançado em 1984, This is Spinal Tap é um mockumentary, palavra que nem sei se existe em português. É um documentário fake (tipo a série The Office), sobre uma banda que nunca existiu. O Spinal Tap é uma banda de hair metal dos anos 70/80, exagerada e excêntrica como várias bandas da época, que está mais ou menos entre Van Halen, Manowar, Saxon e Mötley Crüe. O filme acompanha uma turnê nos EUA, e traz várias sequências memoráveis. Digo mais: todo músico vai se identificar com uma ou outra cena.

This is Spinal Tap foi dirigido por Rob Reiner, diretor de Conta Comigo, Louca Obsessão e Harry e Sally, entre outros, e que aqui, além de roteirista e diretor, ainda interpreta um personagem importante, o documentarista Marty DiBergi. A banda é formada por Nigel Tufnel (Christopher Guest), David St. Hubbins (Michael McKean) e Derek Smalls (Harry Shearer). Nenhum dos três teve carreira relevante no cinema, mas os três aparecem tocando, e convencem nos seus instrumentos. Além disso, os três colaboraram no roteiro, escrito a oito mãos junto com o diretor Reiner. Existe uma piada que justifica por que o baterista tem menor importância, mas não entendi por que o tecladista não ganhou mais espaço… Lembrei do João Fera, que toca com o Paralamas do Sucesso há quase quatro décadas mas nunca foi efetivado membro da banda.

Acho geniais algumas sacadas apresentadas no filme. Como músico, consigo ver algumas daquelas situações na vida real. Mas tenho minhas dúvidas se um público que não é ligado a bandas de rock vai achar graça.

Enfim, vamos aos momentos?

-Uma piada muito boa é sobre o baterista, que sempre morre. A banda já teve vários. Todos morreram, e sempre de mortes bizarras.

-Tem um lance que vários músicos já passaram, que é quando a banda se perde entre o camarim e o palco. Claro que aqui está exagerado, mas já aconteceu comigo num show num Sesc em SP…

-Lembro de amigos meus fãs de Manowar falando que os caras colocavam um pepino dentro da cueca pra parecerem bem dotados. Também lembro exatamente dos mesmos pepinos dentro da sunga numa HQ do Angeli dos anos 90. This is Spinal Tap é anterior aos dois exemplos, e já tem piada sobre isso.

-Nunca soube de, na vida real, um defeito no cenário que chegasse a prender um músico. Mas a piada é ótima!

-Outra boa piada relativa ao cenário é o Stonehenge miniatura. A ideia foi escrita num guardanapo de papel, e quando o cenário foi feito, ficou daquele tamanho.

-Acho que a piada mais famosa de This is Spinal Tap é o amplificador que vai até o 11. Adoro a reação do Nigel quando perguntam “não seria mais fácil um amplificador mais potente?”

Natal Sangrento

Crítica – Natal Sangrento

Sinopse (imdb): Um menino testemunha o assassinato de seus pais por um homem disfarçado de Papai Noel. Anos depois, já adulto, ele veste uma fantasia de Papai Noel e embarca em uma violenta busca por vingança contra os responsáveis.

O público de terror não é muito exigente. Isso explica a grande quantidade de filmes de terror genéricos despejados no circuito. O genérico da vez é esse Natal Sangrento (Silent Night Deadly Night, no original), refilmagem de um terror genérico homônimo de 1984 (que teve algumas continuações, e uma refilmagem em 2012).

(Aliás, tudo é tão genérico que existe outro filme, de 2019, que também ganhou o mesmo nome “Natal Sangrento”…)

Dirigido pelo pouco conhecido Mike P. Nelson, Natal Sangrento usa como marketing ser “do mesmo estúdio de Terrifier“, o que a gente sabe que não significa nada. Principalmente porque, segundo o imdb, são oito produtoras, e só uma delas, a Screambox, também estava em Terrifier.

O filme traz Billy, um homem que viaja para cidades onde ninguém o conhece para cometer assassinatos. E ele tem uma voz interna que passa metade do filme discutindo com ele. Sim, impossível não lembrar de Venom, que também tem um protagonista que conversa o tempo todo com uma voz interna.

Agora, nos anos 80 era mais fácil aceitar uma trama dessas, onde um viajante solitário anda de cidade em cidade matando pessoas aleatórias. Hoje em dia, com câmeras de segurança, com reconhecimento facial, com DNA, a tarefa de Billy ia ser bem mais difícil.

(Fui pesquisar, segundo o Google, a partir de 1986 começaram a usar DNA em investigações criminais. Ou seja, o primeiro filme é antes disso.)

O filme é bastante inverossímil, mas até tem algumas boas cenas. A cena do carro, como o protagonista ainda criança, é boa. E tem uma divertida e absurda sequência contra nazistas – absurda porque é um cara sozinho e desarmado contra dezenas de oponentes.

A trama traz alguns pontos mal explorados, como o livro que o protagonista carrega, mas isso me pareceu proposital, pra deixar assunto para prováveis continuações.

Mas, como falei no início, tudo é genérico demais. Podia ter mais gore (já que se vende junto com Terrifier), mas até nisso o filme pega leve. Vai divertir os menos exigentes e só.