Bom Menino

Crítica – Bom Menino

Sinopse (imdb): Um cão fiel se muda com seu tutor para uma casa de campo. Lá, ele descobre forças sobrenaturais escondidas nas sombras. Quando as entidades sombrias ameaçam seu dono, o corajoso cão deve lutar para protegê-lo.

A ideia era muito boa, um filme de terror sob o ponto de vista de um cachorro. Pena que o roteiro é fraco.

Mas antes de tudo, preciso falar uma coisa, responder a dúvida que paira na cabeça de todos os que leram essa sinopse e que gostam de cachorro. Espero que não seja spoiler, mas acho importante avisar: não, o cachorro não morre, nem tem nenhuma maldade com ele. Podem ver tranquilamente, se esse for o caso.

Vamos ao filme. Dirigido por Ben Leonberg, Bom Menino (Good Boy, no original) conta a história pelo ponto de vista do cachorro. E sem cgi! O filme todo é focado no cachorro e nas suas reações, enquanto o seu dono enfrenta problemas típicos de filmes de terror.

Tenho um grande elogio e uma grande crítica. Vou começar pelo elogio. O cachorro Indy é sensacional. Rolam piadas na Internet que ele deveria ser indicado ao Oscar, e é uma piada com fundo de verdade. Indy é o cachorro do diretor Ben Leonberg, e o cara fez mágica ao filmar seu doguinho. Tenho cachorro, tenho noção do quanto difícil é conseguir uma expressividade assim de um bicho de estimação.

O filme é curto, mas demorou 400 dias ao longo de três anos para ser filmado. Imagina o trabalho “de formiguinha” para conseguir tantos bons takes! Parabéns para o Indy e para seu dono Ben Leonberg!

Agora, precisamos trazer uma crítica: é um cachorro, ele não fala, tudo fica muito limitado. Então temos várias ideias repetidas. Ou seja, é um filme de uma hora e treze minutos que se arraaasta. Chega a ser chato. Indy merecia um roteiro melhor!

Sobre o elenco, o único nome importante é o do cachorro Indy. Inclusive, quase não vemos os rostos dos outros personagens. O filme é do cachorro!

Por fim, um mimimi sobre o título nacional. Já ouvi pessoas em inglês chamando cachorro de “good boy”, mas nunca ouvi a tradução em português. Acho que o melhor título em português seria “Bom Cachorro”…

O Agente Secreto

Crítica – O Agente Secreto

Sinopse (Festival do Rio): Brasil, 1977. Fugindo de um passado misterioso, Marcelo, um especialista em tecnologia na casa dos quarenta, volta ao Recife em busca de um pouco de paz, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura.

Antes de tudo, preciso dizer que não sou um grande fã do Kleber Mendonça Filho. Respeito seu trabalho, já vi alguns dos seus filmes, mas, diferente de alguns amigos próximos, não acho nada tão genial. Vi O Som ao Redor, o filme não me disse nada. Gostei de Bacurau, mas não achei melhor que, por exemplo, Aumenta que É Rock’n’Roll. Um novo filme do Rodrigo Aragão me empolga muito mais que um novo do Kleber Mendonça Filho. Digo isso porque amigos críticos entraram na sessão de O Agente Secreto com uma pré disposição para adorarem o filme, e esse não é o meu caso.

Ou seja, reconheço que O Agente Secreto é muito bom. Mas não achei essa perfeição toda que estão propagando por aí aos quatro ventos…

O Agente Secreto acompanha a vida de Marcelo, pesquisador universitário, em Recife, em 1977. Marcelo está fugindo de algo que não é muito explicado no filme*, e vive numa espécie de pensão com outras pessoas em situação semelhante. Curiosamente, não tem nenhum agente secreto na trama.

(*O filme mostra uma discussão que Marcelo tem com um homem corrupto e poderoso. Mas essa simples discussão não seria algo grande o suficiente pro cara mandar matá-lo. Deve ter algo a mais que não é dito ao espectador – assim como a morte da esposa de Marcelo, que não explicam o que aconteceu. São coisas essenciais para acompanhar o filme? Não, o espectador pode seguir sem saber. Mas não acho que seria ruim deixar o espectador por dentro do que está acontecendo.)

Claro que vai rolar comparação com Ainda Estou Aqui, afinal são dois filmes passados nos anos 70 durante o regime militar, e O Agente Secreto é o filme brasileiro enviado ao Oscar este ano. Mas são filmes beeem diferentes.

(Um parênteses sobre o Oscar de melhor filme internacional. Cada país tem direito a enviar um filme para o Oscar. A Academia escolhe cinco, que são os que vão efetivamente concorrer. O Agente Secreto ainda não está concorrendo. É o filme enviado pelo Brasil, mas ainda não saiu a lista dos cinco que vão concorrer à estatueta.)

A ambientação de época é perfeita. O ritmo do filme é envolvente, mas, são duas horas e trinta e oito minutos, chega a cansar um pouco. A trama tem uns saltos temporais, umas inserções nos dias de hoje com duas estudantes universitárias, que são bem menos interessantes que a trama principal – essas inserções poderiam ser eliminadas do filme, ficando só o epílogo.

O elenco está muito bem. Wagner Moura está excelente, tanto que está cotado para ser indicado ao Oscar de melhor ator (existe um site de apostas para o Oscar onde Wagner figura na lista dos cinco prrováveis). Outro destaque é Tânia Maria, a senhorinha que cuida da pensão. Não me parece uma atuação, tive a impressão de que ela deve ter assim na vida real. Personagem ou não, ela é ótima. Também no elenco, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes e uma divertida ponta de Udo Kier (que já tinha trabalhado com Kleber em Bacurau).

Preciso falar da cena da “perna peluda”! No meio do filme, rola uma sequência falando de uma notícia de jornal sobre a “perna peluda”. Heu gostei da sequência, mas acho que não tem nada a ver com o resto do filme. Vemos uma perna meio apodrecida ganhar vida e pular até uma praça onde várias pessoas estão envolvidas em atos sexuais nem sempre convencionais, e a perna começa a atacar. Mas, sabe qual é o problema? É uma sequência completamente desconexa do resto do filme. Se você tirar essa sequência, a trama segue exatamente igual. Digo mais: vai ter gente incomodada com as imagens gráficas das pessoas transando em público. Mas, como disse, heu gostei. Heu veria um filme inteiro com a perna peluda!

Não gostei do final, de como a trama se encerra. Vou tentar falar evitando spoilers. O filme entra num ritmo eletrizante, com tiroteios e perseguições, e isso é interrompido por uma notícia de jornal falando como a história terminou. Ok, o espectador sabe a conclusão, mas foi bem anticlimático. Depois disso tem um epílogo que é até legal, mas a história mesmo se encerra naquela notícia de jornal, o epílogo se passa anos depois.

Agora a gente fica na torcida pra lista dos indicados ao Oscar!

O Telefone Preto 2

Crítica – O Telefone Preto 2

Sinopse (imdb): Enquanto Finn, de 17 anos, lida com a vida após seu cativeiro, sua irmã recebe ligações do telefone preto em seus sonhos e tem visões perturbadoras de três meninos perseguidos no acampamento de Alpine Lake.

Quatro anos atrás, terminei minha crítica de O Telefone Preto com a pergunta: será que veremos novamente o vilão “Grabber”? Bem, o filme custou 18 milhões e a bilheteria foi mais de 161 milhões. Além disso, é uma produção da Blumhouse, que tem várias franquias. Então, para surpresa de ninguém, chegou a continuação.

O problema é que – spoiler do primeiro filme – o vilão morreu. E agora? Como criar algo com um vilão que não está no mundo dos vivos? Por sorte, o filme tem temática sobrenatural. O Grabber virou uma espécie de Freddy Kruger – voltarei a esse ponto mais tarde.

O Telefone Preto 2 (Black Phone 2, no original) repete Scott Derrickson na direção, além de quase todo o elenco. Se passaram alguns anos, as crianças agora são quase jovens adultos, que vivem com o trauma do que aconteceu no primeiro filme. Gwen, a irmã mais nova, tem pesadelos que se mostram cada vez mais perigosos. Eles resolvem ir a uma espécie de acampamento de férias num lago congelado para investigar, e acabam presos lá por causa de uma nevasca.

Assim como no filme anterior, Scott Derrickson consegue criar um bom clima de tensão ao longo do filme. Agora não temos mais um cárcere num porão, mas por outro lado, durante boa parte do filme os personagens estão presos no tal acampamento, isolado por causa da neve – o visual é uma mistura de Sexta Feira 13 (Crystal Lake) com O Iluminado (isolados pela neve). A ambientação no início dos anos 80 também é muito boa, assim como aconteceu no filme anterior (que era no fim dos anos 70).

Scott Derrickson sabe usar sua câmera, e algumas sequências são bem legais. Tem uma onde o personagem está numa cabine telefônica e a câmera está rodando em volta que é muito boa! E ainda tem algumas cenas onde o gore é bem usado.

Sobre a citação ao Freddy Kruger, determinado momento o filme entra numa vibe meio Hora do Pesadelo 3 Os Guerreiros dos Sonhos. Em ambos os filmes, o personagem que está sonhando precisa aprender a lutar dentro do sonho para enfrentar o vilão. Ou seja, ideia repetida. Só não achei um problema porque Hora do Pesadelo 3 foi lançado 38 anos atrás. Ok, já tá liberado reciclar a ideia.

No elenco, Mason Thames e Madeleine McGraw cresceram, e o roteiro soube aproveitar isso, agora os personagens são quase adultos. Aliás, o ator que faz o Ernesto também estava no primeiro filme. Se no outro filme Finn era o principal, agora Gwen tem mais protagonismo. E é curioso que Ethan Hawke não mostra o rosto nenhuma vez. Pode até ser outro ator debaixo da máscara e da maquiagem – imagino ele conversando com o diretor (devem ser amigos, já fizeram três filmes juntos), “Scott, deve estar uma friaca lá, filma com o meu dublê e depois coloco a voz!”.

O Telefone Preto 2 não é o melhor terror do ano, mas não vai fazer feio com a garotada que curte terror pipoca no fim de semana no shopping.

The Mastermind

Crítica – The Mastermind

Sinopse (Festival do Rio): Massachusetts, anos 70. A Guerra do Vietnã e o início do movimento feminista dominam o pano de fundo americano. A vida de JB Mooney, um carpinteiro e chefe de família, está no marasmo. Para fazer dinheiro, ele planeja um grande roubo de obras de arte valiosas num museu. Mas lidar com o produto do roubo se revela inacreditavelmente mais complicado que o assalto em si.

The Mastermind não estava na minha lista de filmes deste ano no Festival do Rio. Mas apareceu uma sessão compatível com o meu horário. Fui ler sobre o filme, é o novo projeto da diretora Kelly Reichardt, diretora de First Cow, um filme que ainda não vi, mas que mais de uma pessoa me recomendou. Ok, não vi First Cow, mas posso começar pelo seu mais novo filme.

Mas talvez fosse melhor não ter ido. The Mastermind foi talvez o pior dos onze filmes que vi no Festival do Rio deste ano.

Para explicar por que achei tão ruim, vou precisar entrar em spoilers, ok? Nada grave, não existe nenhum plot twist.

Em The Mastermind, acompanhamos JB, um cara todo errado. O cara pega dinheiro emprestado com sua mãe, dizendo que é para investir num novo negócio. Mas na verdade ele quer roubar quatro quadros de um museu, o dinheiro é para pagar os capangas. Mas são quadros que aparentemente não têm muito valor, e ele não tem nenhum esquema para repassá-los. Ou seja, ele precisa abandonar esposa e filhos para fugir. Sim, ele engana a própria mãe e abandona a própria família por causa de um roubo mal planejado. Mas calma que piora: no fim do filme ele rouba uma velhinha atrás de alguns dólares.

Se um cara desses é preso, o espectador nem vai se importar. Que tipo de protagonista é esse?

No elenco, o filme todo se passa em cima do Josh O’Connor, em um personagem completamente sem carisma, acredito que mais por culpa do roteiro do que do ator. E achei curioso ver Alana Haim, que “anteontem” era adolescente, em Licorice Pizza, aqui interpretando uma mãe de dois adolescentes.

Pra não dizer que nada se salva, a trilha sonora, feita com um jazz furioso, é boa. Às vezes soa demais, mas mesmo assim é a única coisa que se salva.

Não desisti de First Cow. Mas foi pro fim da fila.

Tron: Ares

Crítica – Tron: Ares

Sinopse (imdb): Um altamente sofisticado programa, Ares, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma missão perigosa.

O primeiro Tron, de 1982, foi um grande marco nos efeitos especiais. Revisto hoje, o filme é meio besta, e os efeitos parecem vergonhosos, mas, na época, explodiu cabeças: era um filme que se passava parcialmente dentro de um computador!

(Heu nasci em 1971. Vi Tron no cinema, na época do lançamento, e achei aquilo o máximo. Mas… revi semana passada, antes de ver o novo, e constatei que os efeitos estão realmente vencidos. É tudo meio monocromático, às vezes parece até animação em rotoscopia. E os gráficos só com linhas, objetos sem volume 3D, são muito toscos.)

Foi um marco, mas até onde sei, nunca teve um grande fandom. Muita gente respeita, mas pouca gente é fã. Tanto que a continuação só veio 28 anos depois, em 2010. E Tron: Legacy é um filme tão esquecível que só me lembro da trilha sonora do Daft Punk e do efeito de rejuvenescimento digital no Jeff Bridges, que na época era novidade, mas hoje em dia já “perdeu a validade”

Mais quinze anos, e chega ao circuito o terceiro filme. Ninguém pediu, ninguém se importa, mas está em cartaz

(Antes, uma piadinha ruim sobre o nome. “Tron Três” parece trava línguas, “um tigre, dois tigres, Tron três tigres”. E “Tron Ares” soa bem parecido com o ex jogador do Fluminense, “Jhon Arias”. Quando ouço alguém falando “Tron Ares” muitas vezes me confundo.)

Dirigido por Joachim Rønning, Tron: Ares volta ao universo criado no primeiro filme, mas com uma novidade: agora os programas podem sair do computador e interagir com humanos no mundo real. Mas, mais uma vez, o resultado não empolga. Tron: Ares é um filme bonito, com efeitos especiais excelentes, uma boa trilha sonora, mas só isso. Será esquecido, assim como Tron: Legacy.

Bem, reconheço que algumas sequências são boas. Sabe aquelas motos que fazem uma “parede” por onde passam, criando um labirinto em um jogo? A gente vê uma cena com essas motos numa rua no mundo real. Ok, aquilo não faz sentido se a gente parar pra pensar, aquelas paredes de energia iam causar danos generalizados, gente ia morrer – mas a cena ficou bonita. Também gostei de uma cena que mostra um sistema sendo invadido e o antivírus reagindo, e vemos isso como se fossem guerreiros. Boa sacada.

E tem uma sequência pra afagar a memória de quem lembra do primeiro filme, uma sequência emulando o cenário e os efeitos “velhos”. Foi legal rever aqueles cenários, mas tenho um mimimi. Aparece o Jeff Bridges, cujo personagem ficou lá. Mas, caramba, é um ambiente digital, por que ele está velho? Seria mais legal vê-lo exatamente igual ao visual que ele tinha em 1982. Certamente hoje ia ficar melhor que o Jeff Bridges rejuvenescido digitalmente que a gente viu quinze anos atrás.

(Aproveito pra outro mimimi: o filme se chama Tron, mas o personagem Tron não aparece. Nada a ver!)

Comentários sobre a trilha sonora. O primeiro filme traz trilha da Wendy Carlos (pioneira do uso de sintetizadores na música clássica, autora das trilhas de Laranja Mecânica (quando ainda assinava Walter Carlos) e O Iluminado); o segundo tem a trilha assinada pelo grupo Daft Punk – ambas as trilhas são excelentes. Agora a trilha ficou a cargo da banda Nine Inch Nails, e também é um dos pontos altos do filme. Mas… Reconheço que o trabalho do Nine Inch Nails foi muito bom, mas não tem nenhum tema marcante, e o segundo filme tinha. Se heu for assistir um show, vou preferir Nine Inch Nails do que Daft Punk, mas preciso reconhecer que o Daft Punk fez um trabalho melhor.

No elenco, Jared Leto faz aquele clichê da IA que começa a questionar seu criador – mas ele mais uma vez não convence. Evan Peters se sai melhor dentro de outro clichê, o CEO rico que se acha dono do mundo. Greta Lee está apenas ok, e Gillian Anderson está desperdiçada (assim como Jeff Bridges).

Rola uma cena pós créditos com um gancho pra mais um Tron. Claro que vou ver se fizerem. Mas não faço questão.

Lago dos Ossos / Bone Lake

Crítica – Lago dos Ossos

Sinopse (Festival do Rio): Um casal, buscando se reconectar intimamente, aluga uma casa à beira de um lago para passar o fim de semana. Porém, outro casal também aparece. Ao perceberem que a propriedade foi reservada duas vezes ao mesmo tempo por engano, os dois casais concordam timidamente em compartilhar o espaço e aproveitar ao máximo o fim de semana juntos. O que começa promissor como amizade logo se transforma em uma série distorcida de sexo e mentiras, e o idílico fim de semana rapidamente desaba em uma torrente de violência orgiástica, com doses generosas de sensualidade e sede de sangue.

A sessão de Lago dos Ossos (Bone Lake, no original) teve presença ilustre, o ator Marco Pigossi (Cidade Invisível) estava lá para apresentar o filme (sim, filme gringo com ator brasileiro). E antes da sessão falaram do conceito da mostra Midnight Movies: filmes estranhos, com violência e com sexo – e Lago dos Ossos tem tudo isso misturado.

A premissa inicial é bem parecida com Barbarian – Noites Brutais, mas são filmes bem diferentes. Um casal vai passar um fim de semana numa casa à beira de um lago. Mas outro casal também aparece, o dono reservou para os dois casais. Os quatro então resolvem dividir a casa. Mas o segundo casal tem um comportamento, digamos, bem estranho.

Dirigido por Mercedes Bryce Morgan, Lago dos Ossos às vezes lembra Speak no Evil, onde pessoas que não se conhecem bem estão sob o mesmo teto, e o comportamento de uns torna a convivência bastante desconfortável. O segundo casal é muito sem noção!

O roteiro é bem estruturado. Tem um plot twist lá no meio onde a gente passa a ver tudo sob outro ponto de vista. E a parte final tem um divertido banho de sangue.

Agora, tem uma coisa que não entendi. O filme abre com uma sequência onde um casal, ambos nus, correm por uma floresta, enquanto alguém está atirando flechas neles. É uma sequência bem gráfica, a ponto de vermos o close de um saco sendo atravessado por uma flecha. E aí começa o filme, onde a nudez é toda bem comportada, parece que estamos num filme de sessão da tarde. Olha, não acho que nudez seja algo necessário, mas a nudez aqui não seria gratuita. E se o filme abre com imagens tão explícitas, por que o puritanismo no resto do filme?

O elenco tem basicamente quatro nomes: Marco Pigossi, Maddie Hasson, Alex Roe e Andra Nechita. Todos estão bem, e tenho um elogio extra ao inglês de Pigossi: sua pronúncia é perfeita! Wagner Moura estava ano passado em Guerra Civil, inglês fluente, mas a gente sente que ele é estrangeiro. Marco Pigossi consegue enganar!

Pigossi falou que Lago dos Ossos estreia aqui no Brasil em fevereiro. Não é um grande filme, mas quem entrar na onda vai se divertir.

Chove Sobre Babel / Rains Over Babel

Crítica – Chove Sobre Babel

Sinopse (Festival do Rio): Em uma versão tropical-punk do Inferno de Dante, Chove Sobre Babel transporta o público para Babel, um bar lendário que serve como purgatório. Sob a vigilância de La Flaca, almas jogam anos de suas vidas em uma roleta com a própria Morte. Um grupo de desajustados se reúne nesse cenário surreal, onde amor, identidade e destino se entrelaçam em uma narrativa de resistência e reinvenção. Com estética steampunk e elementos de realismo mágico, num universo visualmente exuberante e politicamente audacioso.

A sinopse de Chove Sobre Babel (Llueve sobre Babel, no original) era sem dúvida a melhor sinopse do Festival do Rio. Tem gente que vai ao Festival atrás de filmes badalados e premiados, heu vou atrás de filmes malucos e diferentes. Agora, a sinopse não é 100% real. Tem elementos de realismo mágico (tem um lagarto falante!), mas não tem nada de steampunk…

Mas, ok, reconheço, escrito e dirigido pela hispano-colombiana Gala del Sol, Chove Sobre Babel é um filme bem fora da curva. Vou fazer dois comentários sobre o roteiro, um positivo e um negativo.

Pelo lado positivo, o roteiro traz vários elementos de misticismo e mitologia da Grécia Antiga. Tem referências às musas, ao cão de três cabeças de Hades, ao barqueiro do submundo Caronte, aos oráculos de Delfos, a Thanatos… Quem curte mitologia grega vai se esbaldar.

Dito isso, o roteiro não é bom. São muitos personagens e muitas histórias paralelas, acaba que o filme não aprofunda nenhuma delas. Só pra dar um exemplo simples: Chove Sobre Babel abre com o personagem Boticario e sua esposa, e tem uma narração em off falando características sobre ela – mas sua personagem some no filme. O Boticario tem um papel bem secundário, estranho o filme abrir com ele, mas ele continua lá o tempo todo; já sua esposa é tão irrelevante que até esqueci o nome da personagem.

E por aí o filme segue. Tem um pastor, conservador ao extremo – e seu filho é uma drag queen, que tem medo de se abrir para o rígido pai. Aí quando o jovem aparece como drag queen, o pastor começa a dançar de felicidade. Cadê o desenvolvimento para aquele personagem ter uma mudança tão drástica de comportamento?

Pelo menos o visual com seus cenários extravagantes é bonito. Queria ver outro filme da Gala del Sol, com um roteiro mais bem trabalhado.

Antes de encerrar, queria fazer um comentário sobre as legendas. A cópia exibida estava legendada. Mas era uma legenda muito ruim, cheia de erros. Vou então dizer a minha teoria sobre o que deve ter acontecido com as legendas neste caso aqui. Voltemos no tempo: anos atrás, os filmes eram em rolo. Legendar um filme nem sempre era algo viável, porque era necessário fazer uma nova cópia pra exibir apenas umas 3 ou 4 vezes. Por isso, anos atrás, era comum ter filmes sem legendas, ou com legendas em outra língua – e quando o filme já estava legendado, certamente ia entrar em cartaz. Aí inventaram a legenda eletrônica, uma coisa genial: as legendas ficam embaixo da tela, assim ninguém precisa fazer uma cópia do filme, pode exibir os rolos originais e depois devolver pro país de origem. Depois surgiram arquivos digitais. São arquivos grandes, não cabe num pen-drive, é um HD com o filme. Mas, é bem mais fácil e barato fazer uma cópia de um HD do que de rolos de película.

Minha teoria sobre o que aconteceu: usaram o google tradutor pra traduzir as legendas de Chove Sobre Babel – tem erros de português, erros de tradução, palavras que não foram traduzidas e muita, muita coisa com a formatação errada (tipo um espaço antes do hífen). Aí alguém deve ter pegado essa legenda que ninguém revisou e deve ter colocado no arquivo do filme. Não posso afirmar que foi isso, mas fico na torcida pra alguém revisar essas legendas se esse filme for exibido mais uma vez.

A Própria Carne

Crítica – A Própria Carne

Sinopse (Festival do Rio): Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram.

E vamos ao terror do Jovem Nerd!

Reconheço que A Própria Carne foi uma agradável surpresa. Explico. Em primeiro lugar, Jovem Nerd hoje é mais conhecido como um bem humorado podcast. Não é um podcast de humor, mas certamente tem momentos engraçados. E em segundo lugar, o diretor do filme é Ian SBF, mais conhecido por dirigir dezenas (talvez centenas) de esquetes do canal Porta dos Fundos. Além disso, muitas vezes o cinema de terror flerta com o trash galhofa. Não acho isso algo negativo, gosto muito dos filmes do Rodrigo Aragão e do Paulo Biscaia Filho, ambos têm um pé fincado no trash, só estou constatando que existe essa conexão.

Quando ouvi falar que o Jovem Nerd ia fazer um filme de terror, achei que ia pro caminho da comédia trash. Mas não, olha que boa notícia: A Própria Carne é um filme sério e tenso! Zero trash!

(Não tenho nenhum contato direto com a galera do Jovem Nerd. O Azaghal uma vez gravou um áudio pro Podcrastinadores, mas foi só isso, sem uma interação. Sou amigo do Carlos Voltor e do Afonso 3D, que são ligados ao Jovem Nerd.)

Além do clima sério e tenso, outro elogio aqui vai para a bem cuidada produção de época. Cenários, figurinos e props, tudo está muito bem feito, nem parece uma produção independente.

Agora, o maior mérito de A Própria Carne está na escolha do ator Luiz Carlos Persy, mais famoso por ser o dublador de nomes como Stellan Skarsgård, Ralph Fiennes, Bryan Cranston e John Goodman. Persy está sensacional, cada frase proferida por ele causa medo. Seu personagem, o velho que cuida da cabana, é assustador, e, de longe, a melhor coisa do filme.

Por outro lado, não gostei da Jade Mascarenhas, a personagem dela não me passou consistência – quando estão cuidando da perna de um dos soldados, ela está rindo, achei meio nada a ver. Os três soldados desertores estão ok: George Sauma, Jorge Guerreiro e Pierre Baitelli.

Na parte final, o roteiro dá umas escorregadas. Os três desertores sabem que estão numa roubada, mas nada fazem pra tentar fugir. A história se encerra, mas o final deixa um gancho pra uma continuação – mas na minha humilde opinião, o melhor seria parar por aí mesmo.

A Própria Carne não é um grande marco do terror nacional, mas é uma diversão honesta. Quem venham outros filmes brasileiros do mesmo nível!

Honey, Não!

Crítica – Honey, Não!

Sinopse (Festival do Rio): Honey O’Donahue é uma detetive particular que se envolve na investigação de mortes estranhas ligadas a uma igreja misteriosa da Califórnia liderada por um padre carismático. Conforme aprofunda o caso, Honey se depara com segredos, sedução e mentiras, embarcando numa trama que mistura mistério, humor ácido e thriller policial.

Claro que o novo filme do Ethan Coen estaria na minha lista do Festival do Rio!

Ano passado comentei Garotas em Fuga, filme anterior do diretor Ethan Coen, que aliás é bem parecido com este em vários aspectos. Mas antes de comentar Honey, Não!, um breve parágrafo pra quem perdeu o último texto: os irmãos Joel e Ethan Coen, juntos, fizeram dezenas de filmes ao longo de quase 40 anos, sempre dividindo roteiro, produção e direção. Até que, sei lá por que, começaram a trabalhar separados. Um conhecido me falou que leu uma entrevista onde eles disseram que não brigaram, mas um deles estaria cansado e queria dar um tempo. O curioso é que os dois continuam em ação, então não sei quem estaria dando o tal tempo. Enfim, separados, Joel Coen fez Macbeth, que heu não gostei; e Ethan Coen fez Garotas em Fuga, um filme “menor”, meio bobinho, mas que curti bem mais do que o pretensioso Macbeth.

Honey, Não! (Honey Don’t, no original) segue o estilo de Garotas em Fuga, e por isso vou repetir alguns trechos do que falei um ano atrás. O filme lembra o clima amalucado de algumas produções dos Coen dos anos 80, como Arizona Nunca Mais, ou ainda Crimewave, dirigido por Sam Raimi mas com roteiro dos Coen. Não é um grande filme, na verdade, parece uma cópia meio tosca do que os irmãos faziam. Mas, assim como o filme anterior, é divertidíssimo!

Honey, Não! traz alguns elementos que eram frequentes em filmes dos irmãos, como personagens secundários bizarros e caricatos, e humor negro misturado com violência. Além disso tem cenas de sexo bem gráficas, talvez incomode parte do público. Garotas em Fuga era um road movie, Honey, Não! é um policial. Pelo pôster, achei que ia ter uma pegada de exploitation, mas ficou só na impressão.

O roteiro podia ser melhor, algumas coisas não são bem desenvolvidas, como por exemplo o pai da protagonista. E achei que faltou uma construção melhor na revelação do assassino. Mas, a proposta era um filme B…

No elenco, novamente Margaret Qualley protagoniza, desta vez ao lado de Aubrey Plaza e Chris Evans, todos estão bem. Também no elenco, Lera Abova, Don Swayze e um Charlie Day completamente sem noção, no limite entre o insuportável e o muito engraçado.

O roteiro é assinado por Ethan Coen e sua esposa Tricia Cooke. O casal prometeu uma trilogia de filmes B lésbicos. Ou seja, em breve teremos mais um filme neste mesmo estilo. Segundo o que achei no Google, o próximo será Go, Beavers!

Conversei com alguns amigos, a maioria não gostou de Honey Não!. Heu concordo que é um filme “menor” (assim como Garotas em Fuga). Mas me diverti assistindo. Quero ver Go, Beavers!

Queens of The Dead

Crítica – Queens of The Dead

Sinopse (Festival do Rio): Quando um apocalipse zumbi acontece durante um show de drags no Brooklyn, um grupo eclético de drag queens, club kids e amigos-inimigos precisa deixar de lado seus dramas pessoais e usar habilidades únicas para combater os mortos-vivos sedentos por cérebro.

Um filme LGBT de zumbis, dirigido pela filha do George Romero. Esse é o tipo de filme que a gente normalmente só encontra em festivais!

Pra quem não sabe (alguém não sabe?), George A. Romero foi provavelmente o maior nome do subgênero “filme de zumbi”. Ele dirigiu seis longas de zumbis, dentre eles o clássico dos clássicos A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, filme que ditou as regras para as dezenas de filmes posteriores do mesmo estilo. Romero faleceu em 2017, e agora sua filha, Tina Romero, estreia na direção de longas.

Sim, Queens of the Dead tem Romero no DNA. Mas o estilo de Tina é bem diferente do seu pai. Os filmes do George Romero eram sérios e tensos, e muitas vezes traziam discussões sobre questões sociais. Já aqui é tudo caricato e galhofa. Queens of The Dead é zero terror, é uma comédia assumida.

Queens of The Dead é tão caricato que às vezes atrapalha. Está rolando um apocalipse zumbi, mas em momento algum os zumbis causam medo. As pessoas passeiam entre os zumbis, que só atacam quando o roteiro pede. Não vejo problemas no filme ser caricato, mas podiam pelo menos ter colocado alguma sensação de perigo para os personagens.

Dito isso, o filme é divertido. Uma bobagem, cheio de furos de roteiro, mas como o filme nunca se leva a sério, se o espectador entrar no espírito, vai se divertir. Inclusive rolam piadas incluindo pessoas de fora do submundo LGBT, um dos personagens parece ser a ponte de ligação para o público hétero.

Li em algum lugar que o elenco trazia várias personalidades do mundo LGBT, mas como não conheço muita coisa dessa área, não sei afirmar se isso está correto. As únicas atrizes que heu já conhecia são Katy O’Brien (Love Lies Bleeding) e Riki Lindhome (Wandinha). Ah, tem uma divertida participação especial do Tom Savini, famoso por ser o maquiador dos filmes do papai Romero (e que também estava em Um Drink no Inferno – que, coincidência ou não, tem alguma semelhança na trama).

Contrariando o que heu disse no início do texto, talvez Queens of The Dead seja lançado no circuito. Digo isso porque a cópia exibida no festival já estava legendada. Muitos dos filmes usam legendas eletrônicas, fora da tela, se legendaram uma cópia do filme, normalmente significa que ele está apto para ser lançado nos cinemas. Se for para o circuito, só recomendo não pensarem no sobrenome da diretora, porque o filme não tem nada a ver com os filmes do seu pai.