Casa Gucci

Crítica – Casa Gucci

Sinopse (imdb): Quando Patrizia Reggiani, uma mulher humilde, casa-se com um membro da família Gucci, a sua ambição desenfreada começa a desvendar o seu legado e desencadeia uma espiral de traição, decadência, vingança e finalmente homicídio.

Mês passado falei aqui de O Último Duelo, filme novo do octogenário Ridley Scott. E, olha só, mais um filme do Ridley Scott em cartaz nos cinemas!

Pena que, na minha humilde opinião, o resultado aqui ficou bem abaixo daquele. Vamulá.

Casa Gucci (House of Gucci, no original) segue o livro The House of Gucci: A Sensational Story of Murder, Madness, Glamour, and Greed, de Sara Gay Forden. Preciso admitir que não só não li o livro, como nem sabia do caso. Assim, não tenho ideia de quanto do que vemos na tela é história real e o quanto foi romantizado.

Casa Gucci é um belo filme. Boas locações, belos figurinos, boa reconstituição de época, atuações inspiradas. Mas… Não empolga. Digo mais: com duas horas e trinta e sete minutos de duração, o filme cansa.

O grande destaque são as atuações. O elenco é ótimo, e todos estão bem – acho que o único que está apenas ok é o protagonista Adam Driver. Lady Gaga, Al Pacino e Jeremy Irons estão ótimos. E Jared Leto consegue estar um degrau acima.

Jared Leto está irreconhecível. Não vi o trailer antes, não tinha visto nada sobre o filme, vou confessar que não o reconheci durante o filme. Quando começaram os créditos, a surpresa: como assim Leto é o Paolo Gucci? Quase deu vontade de rever o filme só pelas suas cenas. Uma indicação ao Oscar é algo quase certo.

Mas, o filme é longo e chato, a gente fica esperando, e a história não decola nunca. Além disso, algumas coisas ficaram meio abruptas, como por exemplo a separação do casal, que veio meio de repente. Me parece que o roteiro poderia ter uma lapidada melhor.

Ah, e tem uma cena que vai gerar risadas nos cinemas brasileiros, mas pelos motivos errados. Uma personagem fala que a música lhe traz recordações de Ipanema, e diz que vai dançar salsa por isso…

Tem gente reclamando dos sotaques. Todos falam inglês, com sotaque de italiano. Sim, ficou estranho, talvez fosse melhor se os atores falassem em italiano. Mas… Isso é meio padrão em filmes hollywoodianos, então não vejo muito sentido de reclamar só aqui.

No fim, fica a sensação de que esse elenco merecia um roteiro melhor.

A Casa Sombria

Crítica – A Casa Sombria

Sinopse (imdb): Uma viúva começa a descobrir os segredos perturbadores de seu recém falecido marido.

A Casa Sombria (The Night House, no original) é um bom filme “pequeno” de terror psicológico, que se baseia num bom roteiro, numa boa ambientação, e numa inspirada atuação da Rebecca Hall.

A ideia é boa. Uma mulher acabou de perder o marido, que se suicidou, e precisa aprender como seguir em frente. Eles moravam numa grande casa, isolada, à beira de um lago – a casa é quase um personagem no filme.

Diferente do tradicional que acontece em filmes de terror, não é uma casa velha, é uma casa moderna, cheia de grandes janelas. E mesmo assim, a ambientação é ótima. Uma coisa que achei muito legal aqui são silhuetas formadas por pedaços de móveis e de paredes. A personagem olha de um ângulo que aquilo parece uma silhueta de uma pessoa, mas a câmera se move e vemos que não tem nada lá. Efeito simples e eficiente, e que gera alguns bons jump scares.

Sobre o elenco, este filme é da Rebecca Hall. É daquele formato de filme onde todo o foco é no personagem principal – não só ela está em todas as cenas, como em várias cenas ela está sozinha. E Rebecca não decepciona, ela realmente convence com a complexa Beth, que está seriamente desnorteda pela morte de seu marido – e a narrativa do filme ajuda neste aspecto, sem deixar claro o que está acontecendo.

Ainda no elenco, uma coisa que achei curiosa foi o nome da Stacy Martin ter vindo em segundo lugar nos créditos, seu papel é bem pequeno. Também no elenco, Sarah Goldberg, Vondie Curtis-Hall e Evan Jonigkeit.

Quero fazer um comentário que pode entrar no terreno dos spoilers, então vou falar depois do aviso.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Você pode interpretar A Casa Sombria de duas maneiras diferentes. Realmente pode existir alguma coisa sobrenatural assombrando a Beth. Mas, se a gente pensar que ela está sempre sozinha quando acontecem as coisas, isso tudo pode ser dentro da cabeça dela. O filme deixa espaço para as duas interpretações. A minha é que tudo é psicológico.

FIM DOS SPOILERS!

O diretor David Bruckner está escalado para dirigir o reboot de Hellraiser. Heu gostava muito do primeiro filme, mas fui deixando de gostar conforme iam surgindo continuações (a última vez que contei, já tinham nove filmes!), então nem me empolgo com a notícia de um novo filme. Mas, ok, aguardemos antes de falar mal.

Oats Studios

Crítica – Oats Studios

Wikipedia: Oats Studios é um estúdio de cinema independente fundado em 2017 pelo cineasta sul-africano indicado ao Oscar Neill Blomkamp. O estúdio foi criado com o objetivo de distribuir curtas experimentais via YouTube e Steam, a fim de avaliar o interesse da comunidade e feedback sobre quais deles são viáveis para expansão em longas-metragens. Os atores apresentados nos filmes incluem Sigourney Weaver, Carly Pope, Sharlto Copley, Kellan Lutz e Dakota Fanning.

Quando fiz o texto sobre Demonic, pesquisei a página do imdb do Neill Blomkamp e vi que tinham vários curtas feitos nos últimos anos. Foi uma agradável surpresa ver que os curtas estão disponíveis na Netflix, como se fosse uma temporada de série, este Oats Studios.

São dez curtas, entre 4 e 26 minutos de duração. Nove foram dirigidos por Neill Blomkamp: Rakka, Base, Cozinhando com Bill, Deus: Serengeti / Chicago, Zigoto, Adam ep 2, Adam ep 3, Gdansk e Kapture: Gafanhotos. Presidente Ruim é o único que não sei se é dirigido por ele – no imdb não tem créditos de diretor!

De um modo geral, achei que todos têm um ponto positivo e um ponto negativo. O positivo é que o visual, a ambientação e os efeitos especiais são excelentes. Por outro lado, o ponto negativo é que quase todos parecem boas ideias, mas sem nenhum desenvolvimento. É uma introdução, quando parece que a história vai começar, o filme acaba. É meio frustrante, queria ver mais de algumas das histórias.

Na minha humilde opinião, três dos curtas não têm muito a ver com os outros, Deus: Serengeti / Chicago, Cozinhando com Bill e Presidente Ruim – aliás este Presidente Ruim é muito bom, principalmente nos dias de hoje. Curiosamente, os dois últimos têm o mesmo elenco, Alec Gillis e Carly Pope. Esses três fogem um pouco da proposta de futuros distópicos e invasões alienígenas que os outros trazem.

Um breve comentário sobre cada um:

Rakka – A Terra foi invadida e os alienígenas estão transformando o planeta e exterminando humanos. Um grupo de resistência se prepara para reagir.
Base – Vietnã, 1970, a CIA investiga o deus do rio e os eventos sobrenaturais que ele evoca.
Cozinhando com Bill – São 4 historinhas satirizando programas de culinária, mas com receitas e equipamentos bizarros. Engraçado, mas bobinho, e não tem muito a ver com os outros.
Deus: Serengeti / Chicago – Dois curtas onde Deus controla as pessoas em uma maquete. Esse é bem sem graça.
Zigoto – Duas pessoas estão em uma base isolada, com quase tudo destruído em volta, e estão fugindo de um ser assustador.
Adam ep 2 – Animação com robôs. História besta, animação excelente.
Adam ep 3 – Uma mulher procura abrigo num mundo pós apocalíptico
Gdansk – Animação curtinha que mistura idade média com ficção científica.
Kapture: Gafanhotos – Duas animações curtinhas com experiências bélicas.
Presidente Ruim – Um presidente americano caricato, vai agradar muita gente, só achei que não tem a ver com os outros curtas.

Alguns curtas são de alguns anos atrás, lembro de ter visto Zigoto no youtube em 2017.

Não é nenhuma novidade, mas é legal ter isso organizado pela Netflix. E foi legal ter visto algo do Neill Blomkamp depois da catástrofe que foi. Demonic.

O Ninho

Crítica – O Ninho

Sinopse (imdb): Samuel é um menino paraplégico que vive com sua mãe Elena em uma mansão. Quando conhece Denise, ele encontra a força para se abrir para o mundo. Elena não o deixa ir tão facilmente, e está pronta para fazer o que for preciso para detê-lo.

Uma coisa que sempre repito é que todo cinéfilo deve guardar os nomes dos diretores. Este ano vi Um Clássico filme de Terror, terror italiano dirigido por Roberto de Feo. Quando apareceu este O Ninho (Il Nido, no original) e vi que era o mesmo diretor, já bateu curiosidade.

(Curioso que Um Clássico filme de Terror é de 2021, enquanto O Ninho é de 2019…)

O Ninho é bem diferente do Um Clássico filme de Terror. Aqui a gente é apresentado a uma família dominada a rédeas curtas por uma matriarca cruel e ultra controladora. A gente sabe que tem alguma coisa escondida, mas não tem ideia do que está acontecendo.

Uma coisa muito boa aqui é a ambientação num casarão enorme e isolado de tudo. A fotografia com poucas cores também ajuda no clima. Outro ponto positivo é não saber em que época o filme se passa.

Roberto de Feo constrói bem os personagens, principalmente os dois jovens. E gostei da atuação dos dois, Justin Korovkin e Ginevra Francesconi. Acho que só não gostei do médico, me pareceu caricato demais.

O Ninho é bem lento, talvez fosse melhor se o filme fosse mais curto – me parece que não tinha história pra uma hora e quarenta e sete minutos de projeção. Mas o fim do filme traz um plot twist shyamalaniano, que explica todos as pontas soltas e dá um gás extra. Gostei, não esperava algo naquele caminho.

Noite Passada em Soho

Crítica – Noite Passada em Soho

Sinopse (imdb): Uma jovem apaixonada por design de moda pode entrar misteriosamente nos anos 60, onde conhece uma cantora deslumbrante. Mas a década de 1960 em Londres não é o que parece, e o tempo parece desmoronar com consequências sombrias.

Lembro de um Podcrastinadores onde estávamos falando sobre expectativas sobre filmes a estrear. Não gosto muito de criar expectativas, acho que a chance disso dar errado é grande, então normalmente evito ler muito sobre filmes vindouros. Mas, já que era pra citar um filme, falei de Noite Passada em Soho (Last Night in Soho, no original), porque era o filme novo do Edgar Wright depois de Baby Driver.

Edgar Wright tem um currículo impressionante (e, inexplicavelmente, é um nome muito pouco conhecido). Ele fez a trilogia cornetto – que tem três nomes péssimos aqui no Brasil, Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso e Heróis de Ressaca. Ele também fez o genial Scott Pilgrim e a obra prima Baby Driver.

(Adoro Baby Driver, é um musical sem os atores cantando as músicas, tudo no filme está sincronizado com a trilha sonora.)

Para o bem e para o mal, Última Noite em Soho não quer ser um novo Baby Driver. Claro que heu queria ver outro filme com uma edição sonora como aquele, mas não reclamo de ver algo novo. Desta vez não é um filme de ação sincronizado com a parte musical; Wright nos apresenta um suspense com um toque sobrenatural e uma espécie de viagem no tempo. Achei que seria terror, mas acho que só adentra no universo do terror em alguns momentos na parte final. Mas, mesmo quando não é terror, tem um ou dois jump scares bem feitos.

Última Noite em Soho é extremamente bem filmado. O filme é cheio de cenas com espelhos, onde tem uma atriz de um lado e outra do outro lado. Não sei se ele tinha um cenário com um vidro no lugar do espelho, ou se ele filmou dois takes, um com cada atriz, só sei que o resultado ficou impressionante. Tem uma cena de uma dança, onde a câmera acompanha um casal, e a atriz é trocada durante a dança, várias vezes. Segundo o imdb, a dança foi coreografada, as atrizes realmente trocavam de lugar, sem efeitos especiais!

Aliás, preciso falar da atuação das duas atrizes. Thomasin McKenzie (Jojo Rabbit, Tempo) e Anya Taylor-Joy (Fragmentado, A Bruxa) estão ótimas! O roteiro dá espaço para as duas se desenvolverem, e ambas apresentam um resultado excelente. Tembém no elenco, Matt Smith, Terence Stamp e Diana Rigg – foi o último filme dela, antes de começar tem uma dedicatória “para Diana”.

Ah, sim, a reconstituição de época da década de 60 é fantástica. E, claro, depois de Baby Driver a gente precisa falar da trilha sonora. A trilha aqui, repleta de músicas da década de 60, ajuda a entrar no clima. E sempre as músicas são bem colocadas dentro do filme. Acho que só tem uma música que não é dos anos 60, uma música da Siouxsie and the Banshees – que aliás, é usada numa cena onde a edição do áudio ajuda o clima hipnótico vivido pela personagem.

(Descobri que duas músicas que gosto, da década de 80, são covers de músicas dos anos 60! I’ve got my mind set on you, que achava que era do George Harrison, teve uma gravação em 1962 por James Ray. E Always Something There to Remind Me, que achei que era da banda Naked Eyes, foi composta por Burt Bacharach e Hal David, e foi gravada por Sandie Shaw em 1964!)

O fim do filme traz um plot twist bem bolado – algumas pistas são deixadas ao longo do filme, mas posso dizer que não peguei essas pistas e gostei do plot twist.

Não tem cenas pós créditos, mas tem várias paisagens londrinas vazias – esses takes foram feitos durante o lockdown, quando não tinha ninguém nas ruas.

Segundo o imdb, Edgar Wright está trabalhando numa nova versão de O Sobrevivente / The Runing Man. Aguardemos.

Alerta Vermelho

Crítica – Alerta Vermelho

Sinopse (imdb): Um agente da Interpol rastreia o ladrão de arte mais procurado do mundo.

Grande lançamento da Netflix, Alerta Vermelho (Red Notice, no original) chega com a divulgação de ser “o filme mais caro da história da Netflix”. Pena que o dinheiro não garantiu a qualidade.

Escrito e dirigido por Rawson Marshall Thurber (que já tinha feito outros dois filmes com Dwayne Johnson, Um Espião em Meio e Arranha Céu), Alerta Vermelho tem como grande mérito o carisma de seus três atores principais, Dwayne Johnson, Ryan Reynolds e Gal Gadot. Realmente, nessa parte o filme funciona. Agora, o roteiro…

Alerta Vermelho tem tantas conveniências no roteiro que chega um ponto que o espectador diz “chega!”. Ok, a gente entende que é Hollywood, filme pipoca, pra desligar o cérebro e curtir, mas precisa saber dosar. Porque é difícil chegar ao fim sem pensar “pô, aí não, forçaram a barra”.

Pra piorar, alguns cenários são bem básicos, nem parece “o filme mais caro”. Tem uma cena numa floresta, logo depois da cachoeira, que quase dá pra ver a parede do estúdio, de tão artificial.

(E, olha, quando mostram o ponto no mapa na América Latina, heu acho que aquilo é no Brasil e não na Argentina…)

Agora, preciso admitir que me diverti em vários momentos. Reconheço que os trio principal de atores repete os papeis de sempre, mas esses papeis funcionam bem.

Aliás, preciso dizer que Ryan Reynolds acertou em cheio pelo menos duas vezes. Uma é quando o filme entra numa vibe Caçadores da Arca Perdida e ele assobia o tema do Indiana Jones; a outra é quando ele diz que está procurando “uma caixa que diz MacGuffin”. Ri alto nessas duas piadas.

(MacGuffin era um termo usado por Hitchcock pra falar de alguma coisa que os personagens estão procurando, mas que não tem importância pro espectador. Segundo a wikipedia, “é um dispositivo do enredo, na forma de algum objetivo, objeto desejado, ou outro motivador que o protagonista persegue, muitas vezes com pouca ou nenhuma explicação narrativa. A especificidade de um MacGuffin, normalmente, é sem importância para a trama geral.”)

Ou seja, Alerta Vermelho só serve se você for fã dos atores e se desligar de todo o resto. Dá pra se divertir, mas é bem esquecível.

Alerta Vermelho está na Netflix, mas também teve lançamento nos cinemas. Achei uma estratégia estranha. Lembro que quando O Irlandês estreou na Netflix, houve sessões nos cinemas. Mas, IMHO, O Irlandês é um filme com mais atrativos pra levar o espectador pro cinema. Tenho minhas dúvidas se este Alerta Vermelho vendeu algum ingresso.

Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente

Crítica – Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente

Sinopse (filmeB): Bob Cuspe é um velho punk tentando escapar de um deserto apocalíptico que é na verdade um purgatório dentro da mente do seu criador, Angeli, um cartunista passando por uma crise criativa.

Não lembro exatamente em que ano, mas, na minha adolescência, segunda metade dos anos 80, lia várias HQs nacionais de humor adulto: Circo, Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Striptiras, Níquel Náusea, Geraldão, etc. Conheci o trabalho de vários quadrinistas, como Glauco, Luiz Gê, Fernando Gonzalez, Laerte e Angeli. Na minha humilde opinião, estes dois últimos eram os que tinham a obra mais rica. Heu sempre preferi mais o Laerte (tenho várias revistas e livros, incluindo aí todas as 14 revistas dos Piratas do Tietê, compradas nas bancas na época que foram lançadas; e uma coletânea de três volumes em capa dura lançada nos anos 2000), mas é inegável que o Angeli tinha uma riquíssima galeria de personagens icônicos, como a Rê Bordosa, a Mara Tara, os Skrotinhos, Wood & Stock, Osgarmo, Walter Ego… e o Bob Cuspe.

(Ainda preciso citar a genial revista Los Três Amigos, inspirada no filme com Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short. A revista trazia três personagens, desenhados por Angeli, Laerte e Glauco, cada um usando o seu estilo próprio.)

Não sei se foi coincidência ou se planejaram, mas há pouco tivemos Cidade dos Piratas, mistura de documentário e ficção mostrando como o Laerte de hoje em dia lida com sua obra. E agora a gente tem Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente, que tem um formato bem parecido, é uma mistura de documentário com ficção mostrando como o Angeli de hoje em dia lida com sua obra. E, apesar de gostar mais de Laerte e Piratas do Tietê, reconheço que o resultado aqui ficou melhor.

Dirigido por Cesar Cabral, Bob Cuspe é um longa de animação em stop motion, o que por si só já é uma coisa muito legal (outras animações por computador são mais fáceis de fazer, são poucos os que ainda insistem no stop motion) – só pra dar um exemplo, a equipe deste longa gastava um mês pra fazer 5 minutos de filme. Bob Cuspe alterna entre a parte documentário, onde o próprio Angeli (como bonequinho) é entrevistado; e um mundo pós apocalíptico, que seria a mente do desenhista em crise criativa.

A qualidade da animação é excelente. O visual dos bonequinhos me lembrou Anomalisa, mas só o visual, o filme não tem nada a ver. Os bonequinhos são muito bem articulados, e o visual pós apocalíptico é bem legal. E, na parte onde mostra o Angeli, aparentemente filmaram e animaram em cima dos movimentos reais, realmente parecem movimentos humanos. E, pra aumentar a sensação de realidade, o “documentário” tem até ajustes de enquadramento e foco.

Rolam participações especiais de alguns outros personagens do Angeli, como Rê Bordosa, Ralah Rikota e os Skrotinhos – a cena com os Skrotinhos é de rolar de rir. Os inimigos do mundo do Bob Cuspe são pequenas versões do Elton John – não me lembro de ter lido isso nas HQs…

No elenco, Milhem Cortaz faz a voz do Bob Cuspe, enquanto Paulo Miklos faz a voz dos dois personagens que interagem com ele – acho que ambos se chamam Kowalski – boas escolhas. Angeli interpreta ele mesmo, assim como Laerte, que tem uma participação pequena. Também no elenco, Grace Gianoukas, André Abujamra, Beto Hora e Hugo Possolo.

Gostei da trilha sonora, tanto a trilha composta por André Abujamra e Márcio Nigro quanto as músicas inseridas, dos Titãs, Inocentes e Mercenárias.

Por fim, preciso dizer que não gostei do fim. Parece que não tinham um bom fim, e alguém deve ter lembrado “galera, um mês pra fazer 5 minutos, bora fechar de qualquer maneira pra lançar logo!”. Não estragou a experiência, mas foi um final bem fuén.

Copshop – Não Fazemos Prisioneiros

Crítica – Copshop – Não Fazemos Prisioneiros

Sinopse (imdb): Na fuga de um assassino letal, um vigarista astuto inventa um plano para se esconder dentro de uma pequena delegacia de polícia, mas quando o assassino aparece na delegacia, uma policial novata insuspeita é pega na mira.

Vou começar meu texto falando que acho o diretor Joe Carnahan um cara injustiçado. E se você está se perguntando quem diabos é Joe Carnahan, é uma prova de que ele é injustiçado.

Carnahan não é um grande diretor, não faz grandes filmes. Mas já fez alguns filmes bem legais, e mesmo assim continua sendo um nome desconhecido. O cara dirigiu a versão pro cinema do Esquadrão Classe A, dirigiu Smoking Aces A Última Cartada, A Perseguição, escreveu o roteiro da refilmagem de Desejo de Matar. Falei dele este ano, quando ele fez Boss Level, um filme de tiro porrada e bomba no formato de Dia da Marmota. Repito: o cara não faz grandes filmes. Mas é bom nome para filmes pequenos!

Copshop é isso, um bom filme pequeno. Quase toda a trama se baseia em quatro personagens e em um único cenário (na verdade, uma única locação, uma delegacia, e vários cenários dentro desta locação). Tem mais personagens e mais locações, mas são bem secundários, o foco do filme é só nos quatro dentro da delegacia.

O estilo lembra Tarantino – trilha sonora não convencional, personagens marginais descolados e muita violência estilizada, (com uma pegada mais divertida do que incômoda). Aliás, anos atrás fiz um top 10 “quero ser Tarantino”, tinha um filme do Joe Carnahan na minha lista…

Já que falei dos personagens, vamos ao elenco. Apesar de ter dois nomes muito mais conhecidos, a protagonista é Alexis Louder. Ela é “do bem”, e o personagem de Toby Huss é “do mal”. Os dois famosos do elenco, Frank Grillo e Gerard Butler, é que tem personagens dentro da “área cinza”. O roteiro (co-escrito pelo próprio Joe Carnahan) consegue colocar a dúvida na cabeça do espectador sobre quem é o mocinho e quem é o bandido.

Copshop – Não Fazemos Prisioneiros não é um grande filme, mas é uma diversão honesta.

Missa da Meia Noite

Crítica – Missa da Meia Noite

Sinopse (imdb): A história se passa em uma ilha isolada povoada por uma pequena comunidade que já enfrenta algumas cisões internas e se vê ainda mais dividida com a volta de um jovem desafortunado e a chegada de um padre carismático.

Queria fazer um texto sem spoilers, mas quero muito comentar detalhes do fim. Então farei em duas partes. A primeira sem spoilers, depois deixo um aviso e falo o resto.

Já tinha comentado sobre o diretor Mike Flanagan no texto sobre A Maldição da Mansão Bly, vou repetir aqui. Já tinha visto vários filmes dele, são bons filmes, mas nenhum filmaço. Tipo um aluno que sempre tira nota 7 ou 8, mas nunca tira 10. Até que ele fez A Maldição da Residência Hill, e foi seu primeiro “10”. Dois anos depois ele fez A Maldição da Mansão Bly, que tinha parte do elenco de Residência Hill, mas em outra história completamente diferente (são séries baseadas em dois livros que não são relacionados). Mansão Bly foi apenas ok. Não é uma série ruim, mas é bem inferior à Residência Hill.
Mais um ano, mais uma série independente. Agora é Missa da Meia Noite, e ele volta ao patamar de Residência Hill. Missa da Meia Noite é uma das melhores produções de terror do ano!

Desta vez Flanagan não se baseou em nenhum livro, a história é de sua autoria. Diferente do habitual em Hollywood, ele dirigiu todos os sete episódios – muitas vezes um diretor famoso dirige um ou dois e deixa o resto da série com outros nomes menos conhecidos.

(Flanagan também dirigiu todos os episódios de Residência Hill, mas só dirigiu um de Mansão Bly. Fica para reflexão.)

Missa da Meia Noite mostra uma pequena comunidade pesqueira, em uma ilha a 50km do continente. O velho padre que acompanhava a comunidade foi viajar e não voltou, e um novo padre vem no seu lugar. E coisas misteriosas começam a acontecer depois que este novo padre aparece.

Quando comecei a ver Missa da Meia Noite, não sabia de nada sobre a história, então vou parar por aqui. Porque foi uma boa surpresa pra mim descobrir ao longo do desenrolar da série.

O que posso dizer sem spoilers é que tratamos de religião. A série cutuca alguns dogmas do catolicismo e levanta alguns questionamentos interessantes. E aborda uma coisa que não me lembro de ter visto antes em filmes de terror. Explico melhor na parte com spoilers.

A série é muito bem filmada. O segundo episódio começa com um longo plano sequência na praia, entram e saem personagens ao longo de uns sete minutos. Os personagens são bem construídos e a narrativa é envolvente.

A série cresce a partir do fim do quarto episódio. Heu estava vendo um por dia. Quando terminei o quinto, não consegui parar até o fim.

O texto dos diálogos é muito bom, mas algumas cenas têm muito falatório, e isso às vezes cansa. Talvez fosse melhor dar uma lapidada em alguns diálogos e ter alguns episódios um pouco menores. No streaming não existe a obrigatoriedade de ter um tamanho certo!

Sobre o elenco, quem conhece a obra de Flanagan sabe que ele costuma repetir atores. Sua esposa Kate Siegel (que estava nas outras duas minisséries) divide o protagonismo com o “estreante” Zach Gilford. Henry Thomas também estava nas duas; Annabeth Gish estava em Residência Hill e Rahul Kohli estava em Mansão Bly. Um dos destaques é Samantha Sloyan (que estava em Residência Hill), fazendo a carola Bev Keane. Mas, se for pra citar um único destaque, fico com Hamish Linklater, outro estreante no “flanaganverso”, que faz o padre. Que ator! O cara convence nas pregações e nos sermões!

(Procurei pela internet pra saber se ele é parente do Richard Linklater, mas não achei resposta, só achei mais gente perguntando. Acredito que não deve ser parente).

Vamos pra parte dos spoilers?

SPOILERS!

SPOILERS!

SPOILERS!

– É uma série de vampiros, mas a palavra “vampiro” não é citada em nenhum momento. Lembrei do filme Quando Chega a Escuridão da Kathryn Bigelow, filme que tem seres que precisam de sangue para viver e que morrem queimados no sol, mas que não fala em vampiros. Aqui é a mesma coisa.
– Não me lembro de outro filme de terror que mistura vampiro com a Igreja Católica deste jeito. Pelo contrário, vampiros normalmente fogem da cruz. Aqui o padre vira vampiro e continua sendo padre, a religião continua firme e forte na sua rotina. Achei isso genial!
– O fim do quarto episódio tem um jump scare excelente, quando o vampiro ataca o Riley. Lembrei que a última vez que um jump scare tinha me assustado foi na cena do carro em Residência Hill. Muito bem, Mike Flanagan!
– A cena do Riley morrendo explodiu minha cabeça. Eram sete episódios. No fim do quinto, o protagonista morre! E agora? Como seguir com uma série se o protagonista morreu?
– Aliás, a cena da morte dele é belíssima. Ele passa a série inteira atormentado pelo fantasma da mulher que ele matou no acidente. E agora pela primeira vez ele está em paz com isso. E de repente a cena corta pra Erin desesperada vendo o Riley pegando fogo.
– A parte na igreja onde as pessoas tomam veneno para o suicídio coletivo é bem forte. E o que acontece logo depois me lembrou Um Drink no Inferno.
– A cena final quando os vampiros morrem tem um detalhe genial. Quando descobrem que todos vão morrer, e não terão saída, alguns personagens começam a cantar um hino da igreja. No cinema, existe a música diegética, que é quando os personagens estão ouvindo. O canto começa como música diegética, mas a música cresce, e vira quase uma trilha sonora de toda a sequência. Trilha esta que é interrompida quando o sol nasce – afinal, todos os que estavam cantando acabaram de morrer. Genial!

FIM DOS SPOILERS!

Heu poderia falar mais, mas o texto está ficando longo. Mas, fica a indicação pra quem gosta de uma boa história de terror bem contada!

Agora é esperar, porque vi no imdb que tem uma nova série do Mike Flanagan em produção, The Midnight Club, estrelada por Samantha Sloyan e Zach Gilford. Que mantenha o nível!

Eternos

Crítica – Eternos

Sinopse (imdb): A saga dos Eternos, uma raça de seres imortais que viveram na Terra e transformaram sua historia e civilização.

Antes de entrar no filme, uma breve contextualização. Ao longo de 11 anos e mais de 20 filmes, a Marvel construiu um sólido universo cinematográfico, que culminou no Vingadores Ultimato, filme que trouxe todos os personagens apresentados anteriormente.

E agora? Agora é hora de olhar pra frente: novos filmes com novos personagens – que devem se unir em breve a personagens antigos em novo grande filme a ser produzido.

Este ano tivemos Shang Chi, dirigido pelo quase desconhecido Destin Daniel Cretton, que é exatamente isso: um filme mostrando um novo universo de personagens e super poderes. Um filme bonito e empolgante, que deixa o espectador com vontade de rever assim que sai do cinema.

E agora temos este Eternos, dirigido pela oscarizada Chloé Zhao, que mostra um novo universo de personagens e super poderes. Um filme bonito, mas nada empolgante, que deixa o espectador sem nenhuma vontade de rever.

(Pra falar a verdade, a primeira coisa que pensei quando terminou a sessão foi “putz, tenho que rever no fim de semana, prometi aos meus filhos).

Ninguém vai discutir o talento da Chloé Zhao. Acho Nomadland um filme superestimado, não acho que merecia o Oscar de melhor filme, mas é um filme inegavelmente bem filmado. Agora, sejamos sinceros, Nomadland não tem nada a ver com filme de super heróis. Não adianta chamar uma boa diretora se a proposta dela é diferente da proposta do filme.

Seria mais ou menos como chamar Quentin Tarantino pra dirigir um drama sério; ou Denis Villeneuve pra dirigir uma comédia romântica, ou ainda Martin Scorsese pra dirigir um terror slasher. Serão filmes competentes, claro, estamos falando de diretores de primeira linha, não iam fazer filmes ruins. Mas dificilmente trariam bons resultados.

Este é o problema de Eternos. Chloé Zhao fez um filme bonito, que enche os olhos com seus detalhes técnicos – mas fez um filme que não empolga. Certamente quero ver mais do Shang Chi, mas não faço questão de ver mais dos Eternos.

Deve ser por isso que tem tanta gente por aí falando mal de Eternos. Mas, como falei, o filme não é ruim. Falta muito pra ser bom, mas está longe de ser ruim. Vamulá.

Eternos é um filme lindo. Várias imagens belíssimas, com cenários deslumbrantes. Os efeitos dos Eternos são criados por linhas, achei uma ideia simples e visualmente muito bonita. Os monstros deviantes também são muito bem feitos. Também gostei das várias ambientações em locais de diversos pontos do planeta, em diversas épocas (só não gostei da galera falando espanhol na Amazônia…)

Eternos brinca com elementos históricos – se os caras são super heróis que estão na Terra há 7 mil anos, muita coisa entra na vibe de Eram os deuses astronautas. Paralelo a isso, temos o uso de elementos da cultura pop – citar Star Wars é corriqueiro, mas não me lembro de outro filme do MCU citando a DC duas vezes (Batman e Superman).

Uma coisa que funciona bem aqui é a representatividade. Os Eternos chegaram no planeta 7 mil anos atrás, então tem tudo a ver o grupo ter várias etnias. Claro, é Hollywood, então é normal ter mais caucasianos. Dentre os homens, temos um um americano negro (Brian Tyree Henry), um escocês (Richard Madden), um irlandês (Barry Keoghan), um paquistanês (Kumail Nanjiani) e um sul coreano (Ma Dong-seok). E dentre as mulheres, tem uma filha de chineses (Gemma Chan), uma mexicana (Salma Hayek), e, se as outras três são três americanas, uma é adolescente (Lia McHugh) e outra é surda muda (Lauren Ridloff) – completa o time mais uma americana (Angelina Jolie).

(Tive sentimentos opostos relativos à Lauren Ridloff. Por um lado, é muito legal ter uma surda muda dentre os heróis da Marvel. Mas por outro lado fiquei pensando se um ser tão poderoso, um quase deus, teria uma deficiência como surdez. Pelo menos a atriz manda bem e sua personagem é ótima.)

Ah, em tempos de polêmica sobre o beijo gay do filho do Superman, Eternos mostra o primeiro beijo gay da história do MCU!

Gostei dos personagens, cada um tem poderes diferentes e a gente consegue entender como eles funcionam sem precisar de muita explicação. Agora, tem um problema: como são muitos, temos pouco tempo para nos aproximar de cada um. Assim o espectador não se importa se alguma coisa acontecer com algum personagem.

Li críticas ao personagem Kingo por ser um alívio cômico. Discordo, achei o humor do personagem no ponto certo. Ah, claro é Marvel, então tem humor. Mas aqui é pouco, são poucas piadas.

Ainda sobre o elenco: achei uma falha do roteiro quando o personagem do Kit Harrington some e depois volta do nada. Mas, pior do que isso é na parte final, quando um dos personagens simplesmente some logo antes do clímax do filme. Como assim? Será que essa era a melhor solução?

(Tem uma personagem chamada Sersi e tem o Jon Snow e o Rob Stark. Ainda não vi as piadas de Game of Thrones…)

Agora, não precisava de duas horas e trinta e sete minutos. Várias cenas são arrastadas, em vários momentos a gente sente que faltou uma edição mais enxuta. É um filme bonito, mas, diferente do comum na Marvel, nada empolgante.

Conversando com críticos amigos depois da sessão, ouvi comentários de que o filme cansa porque a narrativa não é linear. Discordo. Gostei da narrativa não linear, repleta de flashbacks pra mostrar histórias do passado deles.

O filme se passa no universo do MCU, personagens e eventos do MCU são citados algumas vezes, mas este é um filme independente dos outros. Não precisa (re) ver nenhum outro para entender.

Claro, tem duas cenas pós créditos, com ganchos para continuações. Que a gente espera que tenha outro diretor.