Bailarina

Crítica – Bailarina

Sinopse (imdb): Uma assassina treinada nas tradições da organização Ruska Roma sai em busca de vingança após a morte do pai.

Não escondo de ninguém que sou fã dos filmes do John Wick. Vou além: gosto de quase todos os filmes feitos pela galera da 87North, produtora fundada por David Leitch, um dos nomes por trás do primeiro John Wick. Leitch é ex dublê, e hoje dirige e produz filmes de ação que valorizam o trabalho dos dublês, filmes como Atômica, Anônimo, Trem Bala e O Dublê.

E Bailarina ainda tinha outro atrativo: Ana de Armas. Lembro que ela teve uma breve participação no último James Bond, e que foi a melhor coisa daquele filme. Depois disso, fiquei na torcida pra um filme de ação com ela protagonista.

Tive um certo receio quando li quem era o diretor. Bailarina foi dirigido por Len Wiseman, que não tem um currículo muito bom (Anjos da Noite, Duro de Matar 4, a refilmagem de Vingador do Futuro…). Mas, segundo o imdb, Chad Stahelski – diretor dos quatro filmes do John Wick – reprovou o corte original e ficou entre dois e três meses em Praga refilmando boa parte do material feito por Wiseman.

E o resultado ficou muito bom. Bailarina não é um filme perfeito, mas é bem acima da média: é empolgante, bem coreografado, bem filmado, e Ana de Armas está excelente.

Bailarina se passa entre John Wick 3 e 4. Eve é resgatada, ainda criança, e levada para ser uma Ruska Roma e virar uma assassina. Acompanhamos seu treinamento e depois a vemos em ação. Até que resolve sair numa jornada de vingança.

Heu tive um problema que é parte minha incompetência, parte erro de casting. O filme começa com um flashback com a protagonista criança. Aparece o líder dos vilões, interpretado pelo Gabriel Byrne com muita maquiagem. Tanta maquiagem que achei que era o Ian McShane, gerente do Hotel Continental, presente em todos os filmes da franquia. O filme segue, ela vai embora com esse cara, e tempos depois diz que quer se vingar. Pensei, “ué, mas não foi ele que estava lá?” Aí mostra o personagem do Gabriel Byrne, e reparei que eram duas pessoas diferentes. Mas passei boa parte do filme confuso, achando que era o mesmo ator. Ok, parte da culpa é minha, sou um péssimo fisionomista. Mas, poxa, podiam ter colocado atores mais diferentes! Não só eles são parecidos como ainda têm postura semelhante.

Além disso, outra coisa me incomodou. Aprendemos nos outros filmes que o Hotel Continental está em trégua permanente. Se um cara com a cabeça a prêmio por 2 milhões está dentro do hotel, não pode ser assassinado. Mas aí aumentam pra 4 milhões e as pessoas resolvem ir matá-lo. Oi? Por que diabos aquelas pessoas foram até o quarto do cara e começaram a atirar???

Por fim, um mimimi. No treinamento da Eve, a treinadora fala que ela pode trapacear pra ganhar. Aí ela ganha de um cara com um chute no saco dele. Sério que querem dizer que o melhor que ela consegue é um truque sujo? Não seria bem melhor mostrar que ela venceu a luta porque é habilidosa, em vez de ter que apelar pra golpes baixos?

Relatei alguns problemas, mas achei o resultado de Bailarina bem acima da média. Como acontece nos quatro John Wick, são diversas sequências de lutas, e todas elas muito bem coreografadas. Dá gosto de ver cenas de luta assim!

Não acredito que vou falar agora seja spoiler, porque está no trailer e até no cartaz. Mas sim, aparece o próprio John Wick. E preciso dizer que tive sensações dúbias sobre a participação do Keanu Reeves. Porque por um lado é sempre legal vê-lo em ação; mas por outro, não precisava. Se você tirá-lo, o filme não perde nada. Seria um filme legal sem o “dono da franquia”.

No elenco, Ana de Armas está sensacional. Linda linda linda, e convence nas cenas de tiro porrada e bomba. Keanu Reeves, Ian McShane, Lance Reddick e Anjelica Huston voltam aos papéis que já tinham feito nos filmes da franquia. De novidade, temos Norman Reedus, Catalina Sandino Moreno e Gabriel Byrne (que não está mal, mas, como falei, deveria ser outro ator). E, prestem atenção, a concierge do hotel em Praga é Anne Parillaud, sim, a Nikita do filme de 1990!

Bailarina estreia esta semana nos cinemas. Boa opção pra quem gosta de filmes de ação. Claro que o filme termina com um gancho pra continuação. Que mantenham a qualidade e venham outros!

O Esquema Fenício

Crítica – O Esquema Fenício

Sinopse (imdb): Conto sombrio de espionagem que segue um relacionamento tenso entre pai e filha em uma empresa familiar. As reviravoltas giram em torno de traição e escolhas moralmente cinzentas.

E vamos para mais um Wes Anderson!

Vou copiar um parágrafo que escrevi ano passado, no texto sobre Asteroid City: “Wes Anderson é um dos poucos na Hollywood contemporânea que tem um estilo visual fácil de identificar. Seus filmes são sempre muito simétricos, cada frame é milimetricamente organizado, o cara deve ter TOC. As atuações são artificiais, mas isso parece proposital, e se encaixa bem na proposta visual.”

O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, no original) segue esse caminho. Tudo simétrico e com atuações robóticas. Claro que isso não agrada qualquer público, mas precisamos reconhecer que o cara tem um estilo característico.

Agora, se falei que Asteroid City era um filme onde pouca coisa acontecia, aqui é o oposto. O roteiro de Anderson com o habitual parceiro Roman Coppola traz uma trama complexa, onde os três personagens principais se deslocam entre vários núcleos, desenvolvendo diversas negociações confusas. Algumas são bem divertidas, como o “momento basquete”, mas outras parece que estão lá só pra ter espaço pra participações especiais no elenco.

Sim, como de costume, o elenco é fantástico. Acho curioso como Anderson consegue tantos atores famosos para os seus filmes, já que é um formato que não privilegia boas atuações. E O Esquema Fenício não é diferente. Os papéis principais são de Benicio Del Toro, Mia Threapleton e Michael Cera (Mia é a única do elenco que não é conhecida, mas ela é filha de uma tal de Kate Winslet). Dentre os coadjuvantes principais, temos Tom Hanks, Bryan Cranston, Benedict Cumberbatch, Scarlet Johansson, Jeffrey Wright e Riz Ahmed. E ainda tem pontas de Bill Murray, F Murray Abraham, Willem Dafoe, Rupert Friend, Charlotte Gainsbourg, Mathieu Amalric e Hope Davis. Sobre as atuações, os três principais até têm personagens interessantes. O resto é tudo apático.

O Esquema Fenício é extremamente bem filmado, e tem alguns momentos hilários (ri alto com as flechas do filho do protagonista). A trilha sonora de Alexandre Desplat (outro colaborador habitual) também é boa. Mas, precisamos reconhecer que é um entretenimento para poucos…

A Fonte da Juventude

Crítica – A Fonte da Juventude

Sinopse (imdb): Dois irmãos afastados unem forças para buscar a lendária Fonte da Juventude. Usando pistas históricas, eles embarcam em uma jornada épica repleta de aventuras. Se forem bem-sucedidos, a mítica fonte poderá lhes conceder a imortalidade.

Pensa num cara que trabalha muito. Entre 2019 e 2024, Guy Ritchie dirigiu seis longas e dois episódios de série. Lembro que um tempo atrás todo ano tinha filme do Woody Allen, mas eram filmes “pequenos”, com poucas locações e pouca produção, teoricamente mais fáceis. Ritchie fez Aladdin, Magnatas do Crime, Infiltrado, Esquema de Risco, O Pacto e Guerra sem Regras – nenhum filme “pequeno”.

Mais um ano, mais um filme. A Fonte da Juventude (Fountain of Youth, no original) é o sétimo longa dele em sete anos.

(Detalhe que heu coloquei outro projeto dele na minha lista de expectativas para 2025. Será que ele ainda lança mais um este ano?)

A Fonte da Juventude é um filme de aventura genérico seguindo a onda dos filmes do Indiana Jones, ou, A Lenda do Tesouro Perdido (que é um filme que se passa nos dias atuais). Um caçador de antiguidades, meio estudioso, meio mercenário, chama sua irmã, que trabalha em um museu, para formar um time que vai procurar a fonte da juventude, tudo bancado por um bilionário doente. Enquanto isso, uma misteriosa mulher tenta impedi-lo.

Sou fã do Guy Ritchie, vi quase todos os seus filmes (só não vi o que ele fez com a Madonna), vou continuar vendo, mas… A Fonte da Juventude nem parece feito por ele. É bem filmado, mas é tão genérico que qualquer diretor poderia ter feito. (E esse problema aconteceu algumas vezes nos últimos anos…)

Tem outro problema, aliás, bem parecido com o que acontece em Guerra Sem Regras. O filme começa bem, mas lá pelo terço final o roteiro se perde e o filme não termina tão bem assim. Aqui, rola um tiroteio meio sem sentido, alguns personagens têm atitudes meio forçadas, e achei muito over existirem steel drums dentro de uma pirâmide há 3 mil anos (o instrumento foi criado em Trinidad e Tobago há menos de 200 anos!).

Como acontece frequentemente em filmes de streaming, A Fonte da Juventude tem três nomes grandes encabeçando o elenco: John Krasinski, Natalie Portman e Eiza González. E ainda tem o Domhnall Gleeson num papel grande e o Stanley Tucci numa ponta. Bom elenco, mas é daquele tipo de filme que não exige muito dos atores.

Agora, talvez fosse melhor se o Guy Ritchie fizesse menos filmes mas focasse mais na qualidade deles. Desses sete dos últimos anos, gosto muito de dois (Magnatas do Crime e Infiltrados), mas tenho reticências com os outros cinco.

Sim, o filme tem uma queda no meio, sim, Guy Ritchie já fez coisa melhor, mas, pelo menos, o resultado não ficou muito ruim. Tecnicamente o filme é bem feito, os atores são bons, e a gente é levado pela trama. Acredito que quem for assistir sem grandes expectativas pode se divertir por duas horas. Só fica aquela sensação de que podia ter sido bem melhor…

The Ugly Stepsister

Crítica – The Ugly Stepsister

Sinopse (imdb): Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza reina suprema. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.

Nos últimos anos estamos vivendo uma onda de adaptações de terror pra histórias infantis. O terror do Ursinho Puff foi um grande sucesso comercial (deve ter custado duas mariolas e uma Coca Cola, qualquer 10 mil dólares de lucro é um resultado excelente), e isso abriu a porteira pra vários filmes bem ruins. Só aqui comentei sobre dois filmes do Mickey, um da Alice, um do Popeye, e dois da Cinderela – um é tosco mas pode ser divertido dependendo do seu espírito, mas o outro é ruim ruim.

The Ugly Stepsister certamente vai surfar essa onda, mas é um filme bem diferente. Filme norueguês, tem uma produção bem cuidada, boas atuações e uma história fora do óbvio. Não é um slasher tosco usando o conto de fadas como pano de fundo, e sim um body horror que lembra mais o clima de A Substância.

Longa de estreia da diretora e roteirista norueguesa Emilie Blichfeldt, The Ugly Stepsister conta a história da Cinderela. Não, não tem uma história alterada levando a Cinderela a uma jornada de vingança, como os dois filmes do ano passado. É a história que todos conhecemos. Mas, sob outro ponto de vista: o da irmã, da filha da madrasta.

(Não sei como seria o termo em português. “Stepsister” não é exatamente igual a “meia irmã”, uma meia irmã tem ou o pai ou a mãe em comum. Não sei se existe este termo na língua portuguesa.)

Elvira, filha mais velha da madrasta de Agnes (que vai virar Cinderela), é feia e está acima do peso. Quando o príncipe anuncia um baile pra daqui a quatro meses, sua mãe coloca Elvira sob vários tratamentos severos para ficar bonita e impressionar o príncipe.

The Ugly Stepsister só é terror pelo visual grotesco e cheio de gore, porque no fundo está mais próximo do drama. Elvira se submete a coisas terríveis pra tentar alcançar seu sonho – ou, às vezes, parece até ser o sonho de sua mãe. E o filme traz algumas cenas visualmente bem fortes. Dificilmente o espectador não vai se retorcer em algum momento do filme.

Outra coisa que é bom avisar é que estamos diante de um filme europeu, que mostra a nudez e o sexo de maneira bem diferente do cinema americano. Na verdade são poucas cenas, mas essas poucas cenas mostram bem mais do que vemos no cinemão hollywoodiano.

Falei que é mais drama do que terror porque acompanhamos o sofrimento da Elvira. E ela realmente sofre. A atriz Lea Myren está bem – aliás, o elenco todo funciona. Outro ponto a ser destacado são os cenários e figurinos da época. O filme não especifica exatamente quando se passa, mas sabemos que não é uma história dos dias de hoje, e nada parece falso.

Vou fazer um comentário agora, mas é head canon meu, não é problema do filme. Quando o pai da Cinderela morre, achei que o filme ia torná-la em uma vilã. Isso seria uma boa história: uma Cinderela malvada e uma irmã vítima. Mas este não é o filme da Emilie Blichfeldt, então não é uma crítica.

The Ugly Stepsister é um filme da Shudder e ainda não está disponível em nenhum streaming brasileiro. Bem que podia ter Shudder aqui…

Lilo & Stitch

Crítica – Lilo & Stitch

Sinopse (imdb): Uma menina havaiana solitária faz amizade com um alienígena fugitivo, ajudando a remendar sua família fragmentada.

É complicado falar de um filme como Lilo & Stitch. Porque é divertido e engraçado, e o Stitch é fofinho, então certamente vai agradar o público. Mas, por outro lado, é exatamente igual ao desenho de 2002. Ou seja, é divertido, mas na verdade é um prato requentado.

A Disney errou muito nas adaptações live action, quase todos os filmes são ruins ou péssimos – na minha humilde opinião, o único bom é Cruella, que não é uma versão de 101 Dálmatas e sim uma história independente usando a personagem. Todo o resto é sofrível, e o último a ser lançado, Branca de Neve, foi ruim com força. Olhando sob este ângulo, Lilo & Stitch nem é tão ruim.

Tem uma coisa que merece elogios, que é a animação do Stitch. Acho que só teve uma cena onde reparei falhas na interação com os personagens humanos – uma cena no fim onde as irmãs abraçam o Stitch e dá pra ver pelos braços delas que estão abraçando o ar. Porque em todo o resto do filme, parecia um bicho real. Devem ter colocado um Stitch de pelúcia em tamanho real interagindo com o elenco de carne e osso. O efeito especial é realmente bem feito.

Aproveitando o elogio, preciso dizer que o roteiro teve uma pequena alteração positiva. No desenho, os alienígenas que vêm pra Terra pra tentar capturar o Stitch se vestem como humanos e ficam no meio das pessoas e ninguém repara que são alienígenas. Isso era meio tosco no desenho, e aqui foi consertado, agora eles usam uma camuflagem e se parecem com humanos.

Mas fora isso, tudo é igual ao original. Bonitinho, fofinho… e repetido.

Preciso comentar sobre a dublagem. A sessão de imprensa foi anunciada legendada, mas na hora exibiram o filme dublado. E a atriz que faz a Lilo, a estreante Maia Kealoha, foi prejudicada pela dublagem. Me parece que é uma boa atriz mirim, mas em várias cenas ela soou artificial.

Aproveito pra falar do elenco. Maia Kealoha e Sydney Agudong interpretam as irmãs. Chris Sanders, diretor do desenho original, volta a fazer a voz do Stitch (repetindo o papel, ele fez o mesmo em 2002). Tia Carrere e Jason Scott Lee estavam no desenho, e voltam aqui com outros personagens. Zach Galifianakis e Billy Magnussen fazem as versões humanas dos alienígenas, e estão bem caricatos, mas funcionam no estilo do filme. E fiquei com pena de não ter ouvido a voz da Hannah Waddingham porque era a versão dublada.

Lilo & Stitch vai agradar, vai vender ingresso, vai levar pessoas ao cinema, e isso é algo sempre positivo. E por isso vou me contradizer. Sim, é um prato requentado, e o desenho original está no Disney+. Mas é sempre positivo ver alguém deixando o streaming e indo ao cinema. Por este motivo, apesar de não ter nenhuma novidade, torço por mais projetos como esse.

Missão: Impossível – O Acerto Final

Missão: Impossível – O Acerto Final

Sinopse (imdb): Ethan e sua equipe estão em uma missão para encontrar e destruir uma IA conhecida como A Entidade. A viagem ao redor do mundo dá origem a cenas de ação incríveis e mais de uma reviravolta inesperada.

E vamos ao oitavo filme de uma franquia que não tem nenhum filme ruim!

Hoje, em 2025, nem todos se lembram, mas Missão Impossível era um seriado, que durou sete temporadas, entre 1966 e 1973, e que teve um remake em 1988 com duas temporadas. Até que em 1996, Tom Cruise assumiu o papel principal da versão cinematográfica e transformou cada novo filme em um grande evento, e, principalmente, em um “evento Tom Cruise”. E agora, Missão: Impossível – O Acerto Final (Mission: Impossible – The Final Reckoning, no original) tem cara de encerramento da franquia, incluindo citações a vários elementos de outros filmes da saga. Será que Tom Cruise, hoje com 62 anos, ainda teria pique pra seguir com a série?

(Ok, sabemos que Hollywood é movida por dinheiro, então claro que pode aparecer um novo filme onde o Ethan Hunt do Tom Cruise se aposenta e “passa o bastão” para outro agente mais novo. Mas acredito que vai ser uma barra difícil de segurar, seja quem for o novo protagonista.)

A direção ficou mais uma vez com Christopher McQuarrie, que dirigiu os três anteriores (os quatro primeiros filmes foram de quatro diretores diferentes). McQuarrie tem uma sólida parceria com Cruise, não só dirigiu quatro Missão Impossível e o Jack Reacher de 2012, como também estava no roteiro de No Limite do Amanhã, A Múmia e Top Gun Maverick. McQuarrie entrega um bom resultado, este oitavo filme pode não ser tão bom quanto o sétimo, mas duvido que alguém saia do cinema decepcionado.

Como já virou tradição, Missão: Impossível – O Acerto Final tem longas sequências de ação de tirar o fôlego, e sempre com o Tom Cruise dispensando o dublê. Aqui são duas sequências, uma em um submarino; outra em pequenos aviões monomotores. Ok, sempre vai ter alguém dizendo “mas duvido que o Tom Cruise estivesse fazendo aquilo tudo, ele estaria preso por cabos de segurança”. Sim, sim, como qualquer cena executada por um dublê, existem alguns artifícios usados para minimizar os riscos que o profissional pode correr. Mas mesmo assim, desafio qualquer leitor deste site: você conseguiria fazer aquela cena?

(Sei que o nome do filme é “Missão Impossível”, e já vimos diversas situações absurdas vividas pelo protagonista. Mas talvez o final da sequência do submarino seja a mentira mais mentirosa de toda a saga…)

Agora, se por um lado essas duas sequências valem o filme, por outro lado o roteiro poderia ser mais enxuto. São quase três horas de filme, e com MUITAS explicações. O filme é tão confuso que dá vontade de ver outra sessão pra tentar pegar todos os detalhes, mas é tão cansativo que não dá vontade de rever.

(Mas reconheço que gostei da dinâmica de algumas cenas que misturam diálogos e ações em dois locais diferentes. Sabe aquela parada de uma pessoa terminar a frase que a outra começou? Desse jeito, mas misturando cenas distintas.)

Pra piorar, o vilão não é bom. Existe o vilão principal, a Entidade, que é uma IA, então é um vilão invisível. E existe o vilão secundário do Esai Morales, que é caricato e não assusta nada.

Agora, depois que passamos pelas sequências de ação, a gente até esquece as falhas. Porque precisamos lembrar que a qualidade dos filmes da franquia é muito alta. Este oitavo filme pode não ser um dos melhores, mas está acima da média do cinema de ação contemporâneo. E ambas as sequências são sensacionais. Sim, vale pagar o ingresso caro do cinema, nem que seja só pra ver as duas sequências.

Sobre o elenco, indubitavelmente é um “filme do Tom Cruise”, e ele não decepciona. Mas outros atores também têm espaço (afinal são duas horas e quarenta e nove minutos de filme!). Ving Rhames, Simon Pegg, Hayley Atwell e Pom Klementieff voltam aos seus papéis como a equipe que ajuda o herói (tem mais um membro, Degas, interpretado por Greg Tarzan Davis, mas o roteiro não o privilegiou, é um personagem desnecessário). E, como falei antes, não gostei do Esai Morales. Dentre as novidades, gostei de dois personagens interpretados por atores mais conhecidos por séries de TV: Hannah Waddingham (Ted Lasso) e Tramell Tillman (Ruptura).

Ainda queria falar da trilha sonora. Gosto muito do tema original, em 5/4. Uns anos atrás fiz um short falando de músicas em 5/4. Quase todas as músicas que ouvimos por aí são em 4/4, que é quando tem um tempo forte a cada quatro tempos, UM dois três quatro UM dois três quatro… O tema de Missão Impossível tem um tempo forte a cada cinco: UM dois três quatro cinco UM dois três quatro cinco. O tema de Halloween também é em 5/4. Você já tinha reparado neste detalhe?

Por fim, temos uma cena em um porta aviões. Caramba, podia ter uma piadinha interna, onde Ethan Hunt podia avistar, ao longe, o Maverick!

Terremoto em Lisboa

Crítica – Terremoto em Lisboa

Sinopse (assessoria de imprensa): Lisboa 2027. A sismóloga Marta e o oceanógrafo Miguel formam um casal que discorda sobre diversas opiniões científicas. O conflito aumenta quando Marta descobre a possibilidade de um terremoto devastador abalar Lisboa novamente. Os cientistas precisam tomar a decisão de alertar ou não a população sobre uma possível tragédia.

Bora de “ficção científica” feita na “Guiana Brasileira”!

Não é muito comum vermos filmes portugueses em cartaz nos cinemas. E este tinha sinopse de filme catástrofe, e estava sendo vendido como ficção científica. Será?

Infelizmente, já começo com a má notícia: o filme acaba antes de começar o tal terremoto, ou seja, não chega na parte “cinema catástrofe”. Além disso, se passa dois anos no futuro, ou seja, também não parece ficção científica.

Somos apresentados a um grupo de cientistas, que descobrem que pode acontecer um grande terremoto em Lisboa, semelhante a um que aconteceu em 1755 e que destruiu boa parte da cidade. O problema é que não existe a certeza de que o terremoto vai acontecer. Ou seja, se eles alertam a população e nada acontecer, eles perdem credibilidade; se eles não alertam e acontecer o terremoto, morrem milhares de pessoas. Qual seria o melhor caminho?

Mas sabe qual é o problema? Falta história. É um filme de uma hora e dezesseis minutos onde basicamente isso é tudo o que acontece. Aí o filme precisa encher linguiça. Tem uma cena no início onde os cientistas têm uma reunião com o secretário de estado pra discutir um orçamento de uma parada que não tem nada a ver com o resto do filme! Pra que aquela cena?

Ou seja, o filme podia ser um media metragem de meia hora. Mas esticaram. Por um lado, ficou ruim porque não tem história pra contar; por outro lado, ficou ruim porque não mostra o tal terremoto.

Pra não dizer que o filme fica só nos diálogos, no final vemos parte do caos quando as pessoas começam a fugir da cidade. Mas mesmo nesse momento o filme é fraco, porque vemos apenas um incidente. Se esse trecho do caos urbano fosse boa, talvez a gente até relevasse não ter um terremoto – apesar do nome “Terremoto em Lisboa”.

Por fim, dois comentários sobre a cópia exibida nos cinemas brasileiros. O primeiro é sobre as legendas. Sim, é um filme legendado, o que ajuda, já que nem sempre o português de Portugal é fácil de se entender. Mas, me parece que as legendas foram feitas lá, o idioma nas legendas parecia português pt, acentos agudos no lugar de circunflexos, algumas palavras com “letra sobrando” tipo “acção”, ou ainda “terramoto” no lugar de “terremoto”. Achei que podia ter uma adaptação nas legendas. Um exemplo: determinado momento o personagem fala de pegar uma “boléia”, e só depois entendi que isso significa “carona”.

O último comentário é sobre o título, “Terremoto em Lisboa”. Fui catar no imdb, não tinha nada. Aí procurei o nome da diretora Rita Nunes e descobri que o nome original do filme é “O Melhor dos Mundos”. “Terremoto” em Lisboa é o nome usado no Brasil pra tentar atrair público. Ok, concordo que é um nome mais atrativo, mas, como não tem terremoto, talvez fosse melhor deixar o nome igual…

Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Crítica – Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes

Sinopse (imdb): Um músico insone encontra uma estranha misteriosa, o que o leva a uma jornada que desafia tudo o que ele sabe sobre si mesmo.

Quando  recebi o convite para a cabine de imprensa de Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes (Hurry Up Tomorrow, no original), heu não tinha ideia do que se tratava o filme. Fui até catar o trailer, mas mesmo depois de vê-lo, continuei sem saber. (Normalmente evito ver trailers, mas esse heu estava na dúvida, vi para saber se valia a pena ou não.)

Achei curioso porque no pôster tinham três nomes de atores. Um nome que heu nunca tinha ouvido falar, e depois outros nomes conhecidos, Jenna Ortega e Barry Keoghan. Heu não sabia quem era esse cara principal, um tal de Abel Tesfaye, mas amigos meus me disseram que ele é o The Weeknd. Conheço a música, mas heu achava que “The Weeknd” era uma banda e não uma pessoa. Achei estranho um cara ter um nome artístico desses.

(Ok, não tenho muita moral pra falar do nome dos outros, mas achei bem estranho o cara se chamar “O Fim de Semana”. E isso acabou me gerando várias “piadinhas de tio” na cabeça, tipo, como é que será que a equipe chama ele? Ele tá na turnê, vão chamá-lo lá no quarto do hotel, “ô, seu The, vamos lá pra passagem de som?” Estranho, né?)

Ou seja, entrei no cinema sem ter ideia do que eu ia ver, e acabei vendo um videoclipe. Um videoclipe longo e chato.

Enfim, pra comentar esse filme vou precisar entrar em spoilers. Nada muito grave, não tem nada bombástico na narrativa, nenhum plot twist que vale a pena ser guardado. Mas heu sempre gosto de avisar quando eu vou entrar em spoilers, e vou falar da trama do filme. Então se você for spoilerfóbico, sugiro que pare o vídeo por aqui.

No filme a gente acompanha duas tramas em paralelo. Uma delas tem a Jenna Ortega, fugindo de alguma coisa que a gente não sabe o que que é. A outra tem um cantor e seu empresário, interpretado pelo Barry Keoghan. O cantor é Abel Tesfaye, também conhecido por The Weeknd. Ele tem mega shows em estádios lotados, e está com problemas. Problemas ligados a álcool e drogas; e problemas porque ele está querendo voltar para uma provável ex-namorada.

Acaba que os dois se encontram, ela vai no show dele e ficam juntos naquela noite. Na verdade, é uma cena bastante inverossímil, porque a Jenna Ortega tem um metro e meio de altura, e ela vai num show num estádio, e consegue chegar na grade, e quando chega lá, ele a vê, e ele sai do palco, e ela pula a grade, e consegue entrar no backstage. Na boa, ela nunca conseguiria entrar no backstage daquele jeito. Mas é filme, então a gente deixa pra lá.

Até aí o filme é bem besta. Mas, no dia seguinte daquela noite, no hotel, o filme ensaia pegar outro caminho, porque ela se mostra uma fã obsessiva. Pensei… Legal! O filme pode entrar numa onda meio Atração Fatal, onde ela vai revelar uma faceta meio obsessiva e não vai deixá-lo sair. Isso podia, finalmente, levar o filme para um caminho interessante. Mas infelizmente o filme só mostra o caminho legal, mas volta para a trama chata que estava desde o início.

Hurry Up Tomorrow me parece uma viagem de ego do The Weeknd, porque é um filme sobre um mega cantor, muito grande, muito importante – temos até um momento onde a personagem fica analisando as letras da música dele. Ok, o cara faz sucesso, respeito isso, reconheço que a música dele é boa, mas… O filme me pareceu um troço meio egocêntrico demais.

Além da história não ser boa, a forma como foi contada também não é. Me parece que o diretor, ou o diretor de fotografia, ou ambos, entraram numa de “quero ser diferente, quero ser cool, quero ser moderninho”. Então o filme abusa de luzes fortes e contrastes, além de ficar mudando o aspect ratio da tela (vários formatos de tela diferentes). Isso pode funcionar num videoclipe de 4 ou 5 minutos, mas não num longa de uma hora e quarenta e cinco.

Hurry Up Tomorrow deve funcionar para os fãs do The Weeknd (ou Abel Tesfaye). É um filme sobre ele, sobre as músicas dele. Mas eu acho que ele falhou, porque podia pensar em pessoas que não são seus fãs. Ele podia ter feito um filme para todos.

Premonição 6: Laços de Sangue

Crítica – Premonição 6: Laços de Sangue

Sinopse (imdb): Na década de 1960, uma jovem prevê o desabamento de um prédio e salva da morte um grupo de pessoas. Décadas depois, sua neta também começa a ter visões da morte de seus familiares.

Heu gosto da franquia Premonição. É um bom exemplo de como se repetir uma fórmula e o filme não ficar igual aos anteriores. Mas, como o quinto filme terminava com uma conexão com o início do primeiro, heu achava que nunca veríamos um sexto filme. Mas, olha lá, tem Premonição novo em cartaz.

Dirigido pela desconhecida dupla Zach Lipovsky e Adam B. Stein (mas com Jon Watts, diretor dos últimos Homem Aranha, como um dos roteiristas), Premonição 6: Laços de Sangue (Final Destination: Bloodlines, no original) segue o mesmo espírito dos outros filmes e traz tudo de positivo e de negativo que tem no resto da saga. A fórmula do roteiro não é exatamente igual, porque os personagens principais não estão no grande acidente que abre o filme, mas, fora isso, a proposta é a mesma.

Falei que os filmes seguem a fórmula mas não são iguais, né? Em todos os filmes rolam longas sequências onde você sabe que alguém vai morrer, de maneira horrível, mas você não sabe como nem quando. São espalhados vários elementos pelo cenário, todos com potencial de serem a causa da morte, e o espectador não tem ideia de qual deles será usado. Se por um lado a ideia é repetida, por outro, a gente nunca sabe como será a morte, e isso torna a cena bem divertida, apesar de ser uma repetição de fórmula. Algumas são realmente muito criativas.

Este é um ponto positivo. Agora, pelo menos pra mim, Premonição 6 repete o ponto negativo presente nos outros filmes. É quando resolvem estabelecer regras rígidas para algo abstrato.  Por que a morte precisaria seguir uma ordem exata? Agora, não vou reclamar disso aqui, porque afinal a mesma coisa acontece em todos os filmes anteriores.

Premonição 6 segue a fórmula. Uma cena inicial com um acidente enorme, e depois acompanhamos um grupo de personagens, a gente sabe que eles vão morrer, e a gente se diverte vendo sequências absurdas – e até engraçadas, apesar de ter algum gore.

Não quero entrar em spoilers, mas a cena inicial tem uma morte que acho que todos no cinema curtiram. Tem um garoto insuportável, inclusive ele foi parcialmente responsável pelo acidente. Quando ele morreu (não vou dizer como), o cinema comemorou. Não me lembro de outro filme onde o público comemora a morte de uma criança…

No elenco, tem uma cena com Tony Todd, que esteve em quatro dos cinco filmes anteriores. A cena não é boa, mas, se a gente lembrar que Todd faleceu ano passado, é legal vê-lo por uma última vez em um papel importante da sua carreira. Do resto do elenco heu só conhecia Rya Kihlstedt, que não é um nome muito conhecido, mas lembro dela em alguns filmes dos anos 90. Também no elenco, Brec Bassinger, Kaitlyn Santa Juana, Richard Harmon e Anna Lore

A boa notícia para os fãs da franquia é que descobriram uma fórmula de sequências infinitas. Porque cada família pode gerar um novo filme. Espero que mantenham a criatividade ao apresentar as mortes, assim sempre vou querer ver o novo filme!

Death of a Unicorn

Crítica – Death of a Unicorn

Sinopse (imdb): Um pai e uma filha acidentalmente atropelam e matam um unicórnio enquanto estavam a caminho de um retiro de fim de semana, onde seu chefe bilionário tenta explorar as propriedades curativas milagrosas da criatura.

Filme novo da A24, com um bom elenco e uma premissa instigante: unicórnios. Será que presta?

Primeiro longa dirigido por Alex Scharfman, Death of a Unicorn tem uma boa premissa, mas se perde no meio de clichês e acaba entregando um resultado previsível, com efeitos toscos, e com um final bem ruim.

A ideia não era ruim. Um cara viaja com sua filha para a mansão isolada de um milionário (não entendi se ele é parente distante ou funcionário, isso é explicado no início do filme, mas comi mosca e não lembro), mas no caminho acaba atropelando um unicórnio. Quando entra em contato com o sangue do animal, descobre que o mesmo tem poder de cura. Aí claro que o milionário vai querer monetizar o poder do unicórnio; e claro que a filha vai pesquisar e descobrir que as coisas não sairão como planejadas.

A partir desse momento que a filha descobre que os unicórnios são violentos e o filme se assume como um terror, tudo vira previsível demais. Absolutamente TODAS as mortes acontecem de forma previsível. Quem está acostumado com filmes de terror vai adivinhar cada momento.

O fato dos personagens serem caricatos não ajuda. Acho que o único personagem que tem mais de uma camada é o do Paul Rudd, que precisa se equilibrar entre ser um bom pai pra sua filha e cair na tentação da ganância oferecida pelos ricos. Os outros personagens são todos mal construídos.

Pra piorar, quem me acompanha sabe que não costumo reclamar de cgi mal feito, mas aqui algumas cenas de unicórnios parecem playstation dos anos 90. Saudades de quando os filmes não tinham cgi e precisavam inventar soluções criativas. Mesmo quando era uma ideia tosca, não ficava tão ruim.

E achei o fim ruim. Não quero entrar em spoilers, mas um filme desses não precisava de um final com uma redenção forçada.

No elenco, além dos já citados Paul Rudd e Jenna Ortega, Death of a Unicorn conta com Téa Leoni, Will Poulter e Richard E. Grant (que está a cara do Christopher Walken).

Pra não dizer que não gostei de nada, curti as referências a Alien: a personagem da Jenna Ortega se chama Ridley, que pode ter conexão com o diretor Ridley Scott e também com a personagem Ripley, e tem uma cena do unicórnio se aproximando dela que lembra o primeiro Alien. Pouco, não?