O Primata

Crítica – O Primata

Sinopse (imdb): De volta da faculdade, Lucy se reúne com sua família, incluindo seu chimpanzé Ben. Ben contrai raiva e se torna agressivo. Lucy e seus amigos se barricam na piscina, inventando maneiras de sobreviver.

O Primata (Primate, no original) estava no Festival do Rio do ano passado, mas perdi a sessão – até fui convidado, mas era num horário ruim pra mim, não fui. Mas um amigo viu e elogiou. Não teve sessão de imprensa, então aproveitei que estreou e fui ver qualé.

O Primata traz uma premissa simples. Um chimpanzé que vive com uma família contrai raiva, e sai matando todo mundo. Só isso, uma espécie de slasher, só que o assassino é um macaco. O diretor Johannes Roberts falou que é um grande fã de Stephen King e se inspirou em Cujo, livro de 1981, que virou filme em 83, onde um cachorro são bernardo contrai raiva e vira um animal assassino.

Johannes Roberts não tem nenhum grande filme no currículo. Ele fez aquele Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City, de 2021, bem ruim; assim como o segundo Os Estranhos, de 2018, que também não é bom. O formato de O Primata lembra mais seu filme de 2017, Medo Profundo, um filme “pequeno”, onde alguns poucos personagens precisam lutar pela sobrevivência durante um curto período de tempo. Curiosamente, nos dois filmes o antagonista é um animal.

Um dos trunfos é a maquiagem do chimpanzé. Não foi usado cgi, Ben é interpretado pelo ator Miguel Torres Umba, e a equipe de filmagem usou próteses e marionetes para transformá-lo em um animal convincente e assustador. entendo a facilidade de se usar efeitos digitais, mas sou um defensor dos efeitos práticos, e aqui foi mais um caso que prova o meu ponto.

No elenco não tem ninguém muito conhecido, mas, temos um ganhador de Oscar. Troy Kotsur, que faz o pai, ganhou Oscar de melhor ator coadjuvante por Coda – No Ritmo do Coração. Kotsur é surdo, e esse detalhe foi incluído na trama de maneira inteligente – o chimpanzé também não fala, ele usa gestos e um aparelho para se comunicar. Ter um personagem surdo foi uma boa sacada.

(Não entendo de chimpanzés. Sei que macacos, de um modo geral, são seres inteligentes. Mas o Ben faz coisas que não sei se dá pra acreditar, como, por exemplo, usar uma chave de carro pra trancar e destrancar o veículo. Mas não digo que isso é uma falha, precisaria estudar mais sobre o assunto.)

O Primata tem muito gore. São várias mortes, e algumas são muito violentas. O espectador que gosta de violência gráfica vai curtir. A trilha sonora de Adrian Johnston, que parece uma variação do Tubular Bells do Exorcista, tocada pelo sintetizador do John Carpenter, também é muito boa.

O Primata não é um filmaço, mas é uma diversão honesta pra quem curte o gênero.

Dinheiro Suspeito

Crítica – Dinheiro Suspeito

Sinopse (imdb): Um grupo de policiais de Miami descobre um esconderijo de milhões em dinheiro, o que causa desconfiança ao saber da enorme apreensão, fazendo-os questionar em quem confiar.

Dinheiro Suspeito quase entrou na minha lista de expectativas para 2026. Gosto da dupla Matt Damon e Ben Affleck, e gosto de alguns filmes do diretor Joe Carnaham. Mas o Carnaham dirigiu um filme tão fuén ano passado (Shadow Force), que fiquei com o pé atrás. Felizmente desta vez Carnaham voltou a acertar. Dinheiro Suspeito não é um filme para listas de melhores do ano, mas é uma honesta diversão.

Um grupo de cinco policiais recebe uma denúncia sobre uma apreensão de 150 mil dólares. Mas quando chegam ao local, encontram 20 milhões de dólares. Com essa grande diferença, um começa a desconfiar do outro. O que fazer? Devolver todo o dinheiro ou guardar um pouco para cada? E se um dedurar os colegas?

O grande trunfo aqui é essa escalada de desconfiança. E o roteiro é bem estruturado, é um quebra cabeças com algumas peças faltando, que são reveladas ao longo da parte final do filme.

Por outro lado, é um “filme Netflix” – o roteiro tem tudo muito explicado. Affleck e Damon deram entrevistas revelando que a Netflix adota esse formato de entregar tudo muito mastigado porque o filme é direcionado a pessoas que ficam no celular, sem prestar atenção. Ou seja, quem está assistindo “de verdade” vai reparar que tem coisa que não precisava ser tão explicada…

O elenco é bom. Além de Damon e Affleck, que trabalham juntos há décadas e por isso têm uma excelente química, Dinheiro Suspeito conta com Steven Yeun, Teyana Taylor, Catalina Sandino Moreno, Sasha Calle, Kyle Chandler, Scott Adkins e Nestor Carbonell.

Como falei no início, não é um grande filme. Mas não vai decepcionar o espectador que curte suspense e ação.

Justiça Artificial

Crítica – Justiça Artificial

Sinopse (imdb): Depois de ser acusado de um crime violento, um policial é forçado a provar sua inocência.

O diretor russo Timur Bekmambetov chamou a atenção de Hollywood com os filmes Guardiões da Noite (2004) e Guardiões do Dia (2006). Dirigiu poucos filmes nos EUA (O Procurado, Abraham Lincoln Caçador de Vampiros, Ben Hur), mas tem atuado muito como produtor. E dentre seus filmes como produtor, está por trás de alguns projetos que usam o screenlife – formato onde o filme se passa todo na tela de um computador, o espectador fica acompanhando diferentes abas de navegadores e de redes sociais, além de aplicativos de comunicação como Skype e Messenger. Ele produziu bons filmes em screenlife, como Buscando e Desaparecida, mas também filmes bem ruins, como o Guerra dos Mundos do ano passado.

Depois de cinco anos, Bekmambetov está de volta à cadeira de diretor. Justiça Artificial (Mercy, no original) apresenta uma Inteligência Artificial que é juiz, júri e executor ao mesmo tempo. O acusado tem 90 minutos para provar sua inocência, se não é condenado à morte. Durante esses 90 minutos, ele pode acessar arquivos em quaisquer computadores e celulares. O lance é que o acusado agora é Chris Raven (Chris Pratt), um dos policiais que trabalhava levando criminosos para esse sistema.

Justiça Artificial usa elementos do screenlife, mas não se passa todo dentro da mesma tela. Chris passa o filme sendo julgado pela IA interpretada pela Rebecca Ferguson, e muita coisa é jogada na tela, como se fossem pop-ups mostrando arquivos de câmeras de segurança e chamadas de vídeo, dentre outras coisas.

O filme se passa em “tempo real”, vemos um cronômetro ao lado da tela quase o tempo todo. Por um lado, isso é ruim porque sabemos que nada de conclusivo vai acontecer na primeira hora de filme. Mas por outro lado a tensão é bem construída ao longo de toda a projeção.

Claro, o roteiro tem algumas facilitações. O formato de roteiro escolhido cai nos clichês esperados, tipo as pistas falsas até o clímax. E achei forçado não conseguirem parar o caminhão na parte final – cadê aquelas metais pontudos que usam pra furar pneus? Além disso, o filme podia acabar antes do último plot twist, me pareceu um certo exagero. Nada grave, felizmente.

No elenco, quase todo o filme é em cima da dupla Chris Pratt e Rebecca Ferguson. Ela faz uma IA, então acho que poderiam usar um filtro e deixá-la um pouco mais artificial – mas isso não é exatamente um problema, é só um head canon meu, ambos estão ok. Também no elenco, Kali Reis, Annabelle Wallis, Chris Sullivan e Kylie Rogers.

Justiça Artificial não entrará em nenhuma lista de melhores. Mas vai agradar o espectador comum.

Socorro!

Crítica – Socorro!

Sinopse (filmeb): Após um acidente aéreo, um chefe e uma funcionária que se odeiam são os únicos sobreviventes. Isolados numa ilha deserta, eles precisam decidir se cooperam ou competem para escapar, mas é difícil deixar para trás os conflitos do escritório.

Sam Raimi está de volta ao terror, dezesseis anos depois de Arraste-me Para o Inferno!

Socorro! (Send Help, no original) foi anunciado como “uma mistura de Louca Obsessão com Náufrago“, e parte de uma premissa interessante. Uma mulher sem muitas habilidades sociais e que por isso sofre bullying no trabalho, acaba indo viajar com o patrão e seus amigos num jato particular. O avião cai, e só sobrevivem ela e o chefe – que sempre a tratou mal. Mas agora ela que detém o poder, porque ela sabe se virar no meio do mato e ele não.

Socorro! tem tudo o que se espera num filme do Sam Raimi: sangue, gore e muito humor negro. Também tem um travelling pela mata, lembrando os movimentos de câmera de Evil Dead. Tem até um jump scare bem construído, daqueles que você não está esperando.

Lendo isso dá pra pensar que é uma pegada de terror trash sobrenatural, né? Que nada. O foco principal do filme é o embate entre dois personagens que se odeiam mas precisam se entender pela sobrevivência. Detalhe: ela, que era rejeitada e sofria bullying, era fanática por programas tipo Survivor, ou seja, ela sabe o que precisa para sobreviver. Agora é ela quem dá as cartas!

Mesmo assim, o filme tem bastante gore. Mas quase todas as sequências sanguinolentas geram mais risadas do que repulsa. A cena da caça ao javali é muito boa, e tem uma outra que envolve um veneno paralisante que vai deixar qualquer homem desconfortável. E, claro, assim como em Arraste-me Para o Inferno, tem cena – engraçada – envolvendo vômito. Muito vômito!

O elenco até tem mais nomes, mas quase todo o filme é em cima do casal principal. Rachel McAdams já tinha trabalhado com Sam Raimi em Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura, de repente deve ter rolado alguma afinidade entre eles, e aqui ela está excelente, sem medo dos banhos de sangue. Dylan O’Brien também está bem como o antipático chefe. Ah, Bruce Campbell, “ator assinatura”do Sam Raimi, não está no filme, mas aparece em um quadro na sala do personagem do Dylan O’Brien.

Socorro! estava na minha lista de expectativas para 2026. Minha lista começou bem!

Indicados ao Oscar 2026

Indicados ao Oscar 2026

Um pouco atrasado, mas vou fazer uns comentários sobre os indicados ao Oscar.

Claro, vamos começar com as quatro indicações que O Agente Secreto teve. Contradizendo um vídeo recente meu, heu arriscaria que é o melhor momento do Brasil na história do Oscar. Já tivemos um filme indicado a quatro Oscars – Cidade de Deus concorreu a Diretor, Roteiro Adaptado, Edição e Cinematografia. Mas, entre as quatro indicações de Agente Secreto, está melhor filme. Se a gente pensar num “critério de desempate”, acho que indicação a melhor filme deve servir pra isso!

Vamos às indicações de O Agente Secreto. Ser indicado a melhor filme e uma ótima notícia, mas acho muito difícil o filme ganhar. Mas só de estar entre os dez, já acho uma excelente notícia. Agora, sobre melhor filme internacional, acredito temos mais chances – mas precisamos lembrar que Valor Sentimental também está concorrendo ao mesmo prêmio e está indicado a nove Oscars. Teoricamente, Valor Sentimental teria mais chance. Mas… Ano passado Emília Perez estava indicado a treze Oscars e perdeu o de filme internacional para Ainda Estou Aqui. Ou seja, temos chances.

Wagner Moura está concorrendo a melhor ator, e, depois de ganhar o Globo de Ouro, chega com moral. Mas, infelizmente, acredito que ele não ganha. Timothée Chalamet, em sua terceira indicação, está com o lobby forte. E ainda tem o Leonardo Dicaprio.

O Agente Secreto também concorre a melhor elenco, categoria nova, criada este ano. Ainda não sei exatamente quais são os critérios que direcionam esta categoria, então não sei se temos chances. Nem vou palpitar.

Bora falar dos outros? Pecadores foi o melhor filme de 2025 aqui no heuvi. E vi várias outras listas de melhores do ano, e não lembro de nenhuma outra com Pecadores em primeiro lugar. E agora, Pecadores é o filme com maior número de indicações. Vou além: Pecadores teve 16 indicações, e até o ano passado, o número máximo de indicações que um filme teve foi 14 (A Malvada, Titanic e La La Land). Nunca um filme tinha tido mais do que 14, e agora Pecadores batei esse recorde. Ou seja, a Academia concorda comigo…

Mas, se por um lado Pecadores é o que tem mais indicações, por outro lado todos sabem que a Academia tem preconceito com filmes de terror. E um exemplo disso é que A Hora do Mal só teve uma indicação, melhor atriz coadjuvante pra Amy Madigan, a tia Gladys (e estou torcendo por ela!). Ou seja, não sei se Pecadores é tão favorito assim.

Os dez filmes indicados ao prêmio principal são Pecadores, O Agente Secreto, Valor Sentimental, Uma Batalha Após a Outra, Hamnet, Frankenstein, Bugonia, Sonhos de Trem, Marty Supreme e F1. Tenho dois comentários. O primeiro é que Timothée Chalamet pode até merecer indicação, mas Marty Supreme não, achei o filme bem fraco. O outro é que vi gente criticando F1 nessa lista, mas discordo, porque o Oscar também é um prêmio comercial, e F1 simboliza o cinemão, um filme pra ver numa tela grande e com som alto. Se fossem só cinco indicados, ok, tira. Mas se são dez vagas, deixa o F1 lá! Não vai ganhar mesmo…

Alguns comentários rápidos sobre as outras categorias. Melhor atriz deve ir pra Jessie Buckley, que está muito bem em Hamnet (achei o filme meio chato, mas ela está realmente ótima). Ator coadjuvante os cinco estão bem, heu escolheria Sean Penn por Uma Batalha Após a Outra; atriz coadjuvante minha torcida é pra Amy Madigan mas tem outras que também estão bem. Direção acho que é a vez do Paul Thomas Anderson, grande diretor que nunca ganhou.

O Oscar acontece dia 15 de março, até lá espero estar mais bem estabelecido pra não atrasar os comentários!

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno

Crítica – Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno

Sinopse (imdb): Quando uma carta misteriosa o chama de volta a Silent Hill em busca de seu amor perdido, James encontra uma cidade outrora reconhecível e se depara com figuras aterrorizantes, tanto familiares quanto novas.

Já comentei sobre Silent Hill, não lembro se foi aqui ou no Podcrastinadores. Comentei quando falei de boas adaptações de videogames para o cinema: Silent Hill e o primeiro Resident Evil. Meu comentário era que Silent Hill não tinha continuações, enquanto Resident Evil tem tantas que nem sei quantos filmes já rolaram – e cada continuação é pior que o anterior. Ou seja, a qualidade vem caindo, e muito. Mas heu estava errado, achava que Silent Hill não tinha continuações, e na verdade teve uma em 2012. E agora tem mais uma. A má notícia é que parece seguir a linha Resident Evil: só o primeiro é bom – essa nova continuação é bem ruim.

O que me animava para este novo filme é que a direção é de Christophe Gans, o mesmo diretor do Terror em Silent Hill de 2006. Até revi o filme de vinte anos atrás antes da continuação – não é um filme perfeito, mas continua bom. Não sei o que deu errado, mas Gans desta vez errou feio, errou rude.

O Silent Hill de 20 anos atrás era um bom terror e tinha alguns elementos muito assustadores. Este novo até repete alguns desses elementos, mas no fim parece mais um drama psicológico do que um terror. Mas, para explicar o meu ponto, vou precisar comentar algumas coisas sobre a trama, e algumas pessoas podem considerar isso um spoiler. Então se você for spoilerfóbico, pule esse texto e volte depois – apesar de que o que eu vou falar não tem nada demais.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

No filme de 2006, uma mulher vai procurar sua filha e acaba presa dentro de uma dimensão paralela – a cidade Silent Hill que ela está não é exatamente a mesma Silent Hill da vida real. Esta dimensão paralela é onde existem aqueles monstros e onde ela precisa procurar sua filha. Agora, neste novo filme não tem nada de dimensão paralela, porque tudo acontece dentro da cabeça do protagonista.

Depois da sessão de imprensa, conversei com uma pessoa que conhece os jogos, que disse que o jogo 2 realmente tem uma história completamente diferente do jogo 1, e este filme seria a história do jogo 2. Ou seja, pra quem jogou, talvez isso tenha sentido. Mas não é o meu caso. Heu estou indo ao cinema para ver um filme, e o filme deve ser feito também para quem não jogou. Se heu vi o filme Silent Hill de 2006, e gostei daquilo que eu vi, e vou ver um novo Silent Hill dirigido pelo mesmo diretor, vou esperar algo parecido, um terror assustador, e não um drama psicológico onde tudo se passa dentro da cabeça do protagonista.

Tudo que tem de bom nesse filme de 2026 já tinha no filme de vinte anos atrás. Algumas criaturas que aparecem são realmente assustadoras, como aquele que anda como se fosse com os braços para trás, ou aquele corredor com umas enfermeiras zumbis. São coisas legais – mas já tinha tudo isso naquele filme de 2006. Ou seja, aqui não tem nada que valha você perder seu tempo.

Mas calma que ainda tem espaço pra piorar. Porque o filme já estava ruim, mas o final é péssimo! O fim resolve criar uma redenção para o personagem principal para ele recomeçar tudo do zero e não mais viver tudo aquilo. Péra aí, esse personagem não é um cara legal, não é um cara carismático, não é um cara que a gente está torcendo por ele. Por que ele tem que ter uma redenção? E por que o filme que era para ser um filme de terror tem um final feliz? Foi péssimo isso.

O resultado final é bem ruim, mal começou o ano e eu já tenho um candidato para minha lista de piores filmes de 2026.

Guerreiras do K-Pop

Crítica – Guerreiras do K-Pop

Sinopse (imdb): Um grupo feminino de K-Pop de renome mundial está conciliando sua vida sob os holofotes com sua identidade secreta como caçadoras de demônios.

Pra quem não sabe, faço parte do podcast Podcrastinadores, e temos um grupo de apoiadores, onde trocamos mensagens quase todos os dias. A apoiadora Mariane Paiva tinha comentado, meses atrás, sobre esse Guerreiras do K-Pop, mas pensei “não curto K-pop, deve ser infantil, não sou o público alvo”, por isso deixei pra lá. Aí veio a temporada de prêmios e o longa começou a se destacar. E no Globo de Ouro, levou dois prêmios, melhor longa do animação e melhor canção. Aí lembrei do meme do Leonardo Dicaprio: “você tinha a minha curiosidade, agora tem a minha atenção”.

Ou seja, bem atrasado, vou fazer meus comentários. Terei poucos views. Mas pelo menos vou cumprir com o prometido para a Mariane.

Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters, no original) é o novo longa de animação da Sony, mesmo estúdio de Homem Aranha no Aranhaverso e A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas. Inicialmente a gente repara alguma semelhança nos traços, mas um elogio que podemos fazer ao estúdio é que seus projetos não parecem ctrl c ctrl v do anterior (a Pixar, que já foi sinônimos de qualidade, tem se repetido bastante ultimamente). Enquanto no Aranhaverso o desenho parece emular as imperfeições de uma página impressa de um gibi, e em Família Mitchell temos elementos gráficos e colagens espalhados pela trama; aqui os personagens às vezes têm traços de animes e mangás em algumas reações exageradas. E preciso dizer que isso ficou bem engraçado.

Falemos sobre o Kpop. Não conheço absolutamente nada de Kpop. Pra mim, o som tocado no filme é igual a qualquer outro pop atual, se fosse uma Taylor Swift ou Ariana Grande, pra mim era a mesma coisa. Dito isso, não achei as músicas ruins, mas não entrariam na minha playlist. Mas, entraram na playlist de muita gente – Golden, a música principal do filme, alcançou o topo do Spotify Global e bateu 1 bilhão de streams.

(Um breve parênteses sobre música pop ser tudo parecido. Uma vez fiz um “teste cego” com minha filha e o namorado, mostrando músicas da Madonna e da Cyndi Lauper pra eles dizerem quem cantava cada música. Eles erraram mais da metade. Ou seja, música pop é meio tudo igual mesmo.)

A trama apresentada no filme é meio clichê – a menina que esconde um segredo e fica na dúvida se suas amigas vão aceitá-la como ela é. Mas é um clichê bem conduzido, e os personagens são carismáticos. Ou seja, é bobinho mas está longe de ser ruim.

No elenco, nunca tinha ouvido falar dos principais Arden Cho e Ahn Hyo-seop. Mas Guerreiras do K-Pop tem alguns nomes conhecidos nos papéis secundários, como Ken Jeong (Se Beber Não Case), Lee Byung-hun (que estava concorrendo ao Globo de Ouro de melhor ator por A Única Saída), e Yunjin Kim e Daniel Dae Kim (o casal oriental de Lost).

Guerreiras do K-Pop está na Netflix, todo mundo que era o público alvo já viu. Aliás, hoje, é o filme mais visto da história da Netflix, com 325 milhões de views nos primeiros três meses. E agora é a hora dos retardatários que só se interessaram depois dos prêmios. As indicações ao Oscar saem nos próximos dias, grandes chances deste filme estar na lista.

Song Sung Blue – Um Sonho A Dois

Crítica – Song Sung Blue – Um Sonho A Dois

Sinopse (imdb): Lightning and Thunder, um casal de Milwaukee que presta homenagem a Neil Diamond, experimentam um sucesso avassalador e uma decepção devastadora em sua jornada musical juntos.

Estava na dúvida se valia a pena ou não ver Song Sung Blue. É um filme sobre um duo que faz cover de Neil Diamond, cantor que sei da existência mas não conheço nenhuma música. Mas pensei, Hugh Jackman, Kate Hudson, gosto de filmes ligados a música, resolvi arriscar. Que bom que arrisquei, foi uma boa surpresa, Song Sung Blue é um filme bem agradável.

Mike, que usa o apelido Lightning, é um músico que faz cover. Quando conhece Claire, ela sugere que ele crie um show tributo ao Neil Diamond. Mike e Claire são pessoas reais, o filme conta a história deles. Heu nunca tinha ouvido falar na dupla Lightning and Thunder, então, pra mim, tudo era novidade na história do duo. E a história deles é muito boa, realmente merecia ser contada.

O ritmo do filme começa bem, mas tem uma queda na segunda metade, depois que acontece um acidente. Song Sung Blue tem duas horas e doze minutos, talvez apresentasse um resultado melhor se desse uma enxugada nesse miolo. Pelo menos melhora depois, a parte final é empolgante. Mesmo a história não sendo toda “feel good” (a história do casal tem altos e baixos), o espectador sai feliz do cinema.

A parte musical é muito boa. Não conhecia as músicas do Neil Diamond – na verdade, só reconheci os refrães de Song Sung Blue e Sweet Caroline. Mas algumas músicas são muito boas, como aquela do primeiro ensaio na garagem, ou aquela quase gospel no show perto do fim do filme. Mas, mais importante que isso é a interpretação dos atores músicos. Sempre quando vejo um ator interpretando um músico, presto atenção em suas mãos, em sua postura. O cara não precisa saber tocar, mas precisa convencer que está tocando – quando vemos um ator interpretando um cirurgião, ele não precisa saber operar, mas precisa parecer que sabe o que está fazendo. E neste aspecto, Song Sung Blue é muito bom, são vários momentos musicais, e em todos os atores realmente convencem – tanto nos instrumentos quanto na voz. Um exemplo: tem uma apresentação em um funeral, ouvimos um dedilhado de guitarra, os dedos do guitarrista estão coerentes com o que a gente ouve. Se são as notas certas? Não importa, o que vale é que ele realmente parece saber o que está fazendo.

Dito isso, queria fazer um mimimi de tecladista. Existem diferentes tipos de teclados, para diferentes objetivos. Tem simulador de órgão, piano digital, sintetizadores com opções de sintetizar os timbres, controladores midi, workstations (que são uma espécie de tudo em um), etc. E existem arranjadores, que têm opção de acompanhamento e caixas de som, e normalmente são usados em casa, ou em pequenos shows só com o tecladista e o cantor. Isso independe de preços, existem opções mais ou menos caras pra cada tipo. Normalmente não se usa um arranjador em uma banda, porque eles têm menos recursos. E durante todo o filme, a Kate Hudson usa um arranjador, que parece ser o Yamaha PSR-350. Ficou estranho ver uma banda abrindo pro Pearl Jam, usando um teclado arranjador. Kate foi casada por sete anos com Chris Robinson, vocalista do Black Crowes, ela deve ter alguma experiência em instrumentos musicais, será que ela não achou estranho? Acho que isso deve ser algo da dupla original Lightning and Thunder, mas catei no google e no youtube e não achei nenhuma imagem da Thunder tocando, ela está sempre cantando ou no máximo segurando uma pandeirola. Não sei o motivo de terem usado um PSR no filme, mas que ficou estranho, ah, ficou…

No elenco, os dois principais estão muito bem. Já tinha visto Hugh Jackman cantando (O Rei do Show, Os Miseráveis), mas não lembro da Kate Hudson cantando em outro filme. E aqui ambos cantam, e bem. E digo mais: Kate está tão bem no seu papel que foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz por este papel. Também no elenco, Michael Imperioli, Fisher Stevens e Jim Belushi.

Song Sung Blue foi co-escrito e dirigido por Craig Brewer, diretor que heu não conhecia. Mas certamente ficarei de olho nos seus próximos projetos.

Foi Apenas um Acidente

Crítica – Foi Apenas um Acidente

Sinopse (imdb): Um pequeno incidente provoca uma reação em cadeia de problemas cada vez mais graves.

Reconheço que inicialmente tive preconceito com esse filme. Recebi o convite para a sessão de imprensa, mas depois se ler a sinopse não achei que o filme ia ser bom. Heu estava errado…

Foi Apenas um Acidente é o novo filme de Jafar Pahani, cineasta iraniano que sofre com restrições impostas pelo seu governo, mas nunca se calou e sempre continuou seu ativismo. Em 2010, o diretor foi condenado a seis anos de prisão e a uma proibição de 20 anos de exercer atividades cinematográficas, sob acusações de “propaganda contra o sistema”. Mesmo sob restrições legais, Panahi continuou a realizar filmes, muitos dos quais produzidos de forma semiclandestina. Este Foi Apenas um Acidente foi filmado escondido, sem autorização das autoridades islâmicas.

E seu novo filme é uma denúncia. Ou seja, tinha tudo pra ser um filme chato. Que nada! O filme entra num ritmo maluco de entrada e saída de personagens que às vezes até parece que estamos vendo uma comédia vaudeville. O filme anda por caminhos tão bizarros que tornam algumas cenas engraçadíssimas.

No filme, um mecânico encontra por acaso o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão. Ele o sequestra decidido a se vingar, mas, na dúvida sobre como agir, acaba pedindo ajuda para outras pessoas, que se juntam numa trupe bastante eclética, capaz de gerar momentos tensos e engraçados ao mesmo tempo.

Foi Apenas um Acidente tem algumas características narrativas muito bem construídas. São vários personagens, todos traumatizados pelo torturador, mas cada um encara isso de um jeito diferente do outro. Será que torturar um torturador seria justo, ou seria se igualar a ele? Além disso, o fato da gente não saber se o cara sequestrado é ou não é o torturador ainda deixa tudo mais tenso.

Gostei de como Pahani posiciona sua câmera. São vários planos longos ao longo do filme – não sei se podemos chamar de plano sequência porque não vemos muito malabarismo das câmeras, o foco aqui é mais na atuação do que na câmera. O texto é denso, pesado, e a câmera vai seguindo os atores. Tem uma cena longa no meio de um deserto, a câmera vai de um lado para o outro, enquanto os atores discutem os problemas. E tem outra cena, muito boa, perto do fim, onde a câmera fica parada enquanto acompanhamos uma longa e tensa discussão.

(Não é um problema do filme, é um problema meu: quando vejo filmes em inglês, entendo a maior parte dos diálogos, então meus olhos prestam atenção parte nas legendas, parte no resto do filme. Aqui o filme não era dublado, acho que era em árabe. Às vezes heu queria prestar mais atenção nas atuações, mas não conseguia porque estava focado no texto das legendas.)

Foi Apenas um Acidente ganhou a Palma de Ouro em Cannes ano passado. Ainda não temos os indicados ao Oscar de filme internacional, mas provavelmente este será um dos adversários de O Agente Secreto.

O cinema brasileiro não vive um bom momento

Polêmica: “O cinema brasileiro não vive um bom momento”!

Vou expor uma opinião polêmica: na minha humilde opinião o “cinema brasileiro” não vive um grande momento. Estou muito feliz com as vitórias internacionais conquistadas por Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, são dois grandes filmes (achei o primeiro bem melhor, mas reconheço os méritos do segundo), ano passado Ainda Estou Aqui ganhou Globo de Ouro de melhor atriz e Oscar de filme internacional – o primeiro Oscar 100% brasileiro; este ano O Agente Secreto acabou de ganhar Globo de Ouro de melhor ator e melhor filme em língua não inglesa e tem grandes chances de estar no próximo Oscar.

“Caramba, Helvecio, se você reconhece o sucesso internacional desses dois filmes, por que fala que não vivemos um bom momento?”

É porque, pelo meu ponto de vista, são casos isolados. O cinema brasileiro ainda é muito fraco. Ter um bom filme aqui, outro ali, não significa que o resto dos filmes traz qualidade parecida. Vou citar dois exemplos tirados da música. Nos anos 70, o ABBA foi um dos grupos musicais mais vendidos de todos os tempos, com sucessos como “Dancing Queen” e “Mamma Mia” – mas outros suecos a alcançar o sucesso só apareceram anos depois, como Europe e Roxette. Outro exemplo: Shakira faz sucesso mundial, mas não saberia dizer outro artista colombiano.

E aí mando a pergunta que não quer calar: cadê o “terceiro filme” brasileiro? Se vivemos um bom momento, era pra ter outros grandes filmes nos anos anteriores ou com estreia próxima. Cadê outros filmes com capacidade semelhante de fazerem bonito internacionalmente falando?

Vamos pegar o audiovisual sul-coreano. Park Chan-wook conseguiu um grande sucesso em 2003 com Oldboy, e está cotado este ano pra concorrer ao Oscar de filme internacional com o seu A Única Saída. Kim Ki-duk ganhou prêmios em Berlim e Veneza em 2004. Lee Chang-dong ganhou prêmios em Veneza em 2002 e em Cannes em 2010 e 2018. Hong Sang-soo ganhou prêmios em Berlim em 2020, 21 e 24 e já teve filmes exibidos em Cannes em dez edições diferentes. E, claro, Em 2019/20, Bong Joon-ho fez história com Parasita – não só ganhou Palma de Ouro em Cannes, como ganhou quatro Oscars, inclusive foi o primeiro filme de língua não inglesa a vencer o Oscar principal. E isso porque estou falando só de cinema, mas a gente não pode esquecer do grande sucesso mundial da série Round 6. Isso abriu portas pra muitas opções coreanas nos streamings. Podemos dizer que existe cinema sul-coreano atualmente.

Outro exemplo: entre 2014 e 2019, seis anos seguidos, Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro G. Iñárritu, três mexicanos, ganharam cinco Oscars de melhor diretor – Cuarón por Gravidade e Roma, del Toro por A Forma da Água e Iñárritu por Birdman e O Regresso (Damien Chazelle foi o “intruso”, em 2017, com La La Land).

Já o cinema nacional vive de momentos, como aqueles exemplos musicais que citei. Orfeu Negro, co-produção Brasil, França e Itália, ganhou Oscar em 1960, mas o filme foi indicado pela França, não pelo Brasil. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, até hoje o foi único filme brasileiro a vencer a Palma de Ouro em Cannes (também foi indicado pro Oscar). O Beijo da Mulher-Aranha (1985), de Hector Babenco, tinha cara de filme gringo mas era co-produção Brasil e EUA, foi indicado aos Oscars de melhor filme, diretor e roteiro adaptado, e ganhou melhor ator, pra William Hurt. Central do Brasil (1998), de Walter Salles, ganhou Urso de Ouro em Berlim e foi indicado a dois Oscars, melhor filme em língua estrangeira e melhor atriz (Fernanda Montenegro), mas perdeu ambos. Cidade de Deus (2002) teve 4 indicações ao Oscar (direção, roteiro adaptado, fotografia e montagem), mas também perdeu todos. Tropa de Elite (2007), de José Padilha, ganhou Urso de Ouro em Berlim. O Quatrilho e O Que É Isso Companheiro também concorreram ao Oscar e não ganharam. Além desses, tivemos outras participações indiretas no Oscar, como Carlos Saldanha, indicado duas vezes, mas por produções gringas; Diários de Motocicleta, outro Walter Salles, mas co-produzido por oito países diferentes, concorreu a melhor roteiro adaptado e ganhou melhor canção (Al Otro Lado Del Rio, de Jorge Drexler); Sergio Mendes e Carlinhos Brown também concorreram a melhor canção em 2012, por Rio, mas não ganharam.

E agora, recentemente, tivemos Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.

Não vejo esse atual momento dos dois premiadíssimos filmes recentes como um ponto de partida para uma grande onda de cinema brasileiro. Na verdade, analisando o quadro geral, acho que são casos isolados. Que, por uma coincidência, vieram um ano depois do outro.

Repetindo o que falei no início: fico feliz pelo sucesso dos dois filmes. Mas infelizmente ainda acho que falta muito pra isso refletir no resto do cinema nacional.