A Morte do Demônio: Em Chamas

Crítica – A Morte do Demônio: Em Chamas

Sinopse (imdb): Após a perda do marido, uma mulher busca consolo junto à família dele. À medida que eles se transformam, um a um, em Deadites, ela descobre que os votos que fez em vida perduram mesmo após a morte.

E vamos para mais um Evil Dead…

Sou muito fã dos três primeiros Evil Dead. Acho perfeito o equilíbrio entre terror, trash e comédia – o segundo filme é, na minha humilde opinião, uma das melhores comédias de humor negro da história do cinema. Gosto até do terceiro filme, que tem muita gente que despreza.

Em 2013 resolveram rebootar a franquia, mas, infelizmente, deixaram a galhofa de lado. O Evil Dead do Fede Alvarez é um bom filme de terror, mas é um filme sério, não deveria se chamar “Evil Dead”. Isso se repetiu no filme de 2023, dirigido por Lee Cronin, A Morte do Demônio: A Ascensão. Ou seja, heu já desconfiava que este sexto filme, A Morte do Demônio: Em Chamas, ia seguir o mesmo caminho. Pro espectador curtir tem que esquecer que é Evil Dead.

Depois dessa longa introdução, vamos ao filme. Os deadites agora parece que têm um alvo específico, uma família, e aproveitam um momento de isolamento dessa família para atacar.

A direção é de Sébastien Vanicek, do irregular Infestação, que traz um filme violento, cheio de gore – e até com algumas cenas engraçadas, mas, como era de se esperar, sem a galhofa dos filmes clássicos. Mas preciso elogiar algumas coisas na direção. Gostei de alguns takes onde o diretor gira a câmera e muda o eixo do “chão” – tem um take que começa na banheira e termina no teto que é bem legal. E tem um plano sequência sensacional acompanhando uma personagem enquanto o caos acontece em volta dela – só essa cena já vale o ingresso.

A Morte do Demônio: Em Chamas tem muita violência e muito gore. E algumas cenas misturam isso com humor. Tem uma cena, envolvendo uma dentadura, que é, ao mesmo tempo, engraçadíssima, e uma das coisas mais nojentas que vi no cinema nos últimos tempos.

Atenção, agora um aviso, que alguns podem considerar spoiler, mas acho importante falar. Se você gosta de cachorros, não sei se este é um filme para você. Algumas linhas não deveriam ser cruzadas, e A Morte do Demônio: Em Chamas cruza. Não foi legal isso.

Como aconteceu nos filmes anteriores, A Morte do Demônio: Em Chamas não tem atores famosos no elenco, e todos funcionam para o que o filme pede. Pra não dizer que não tem ninguém conhecido, Erroll Shand, que faz o pai, estava em Pequenos Segredos, filme nacional que representou o Brasil no Oscar de 2017. E, minha memória maluca, lembrei do nome da Souheila Yacoub em Climax.

Preciso falar mal de um detalhe do roteiro, mas antes, o aviso de spoilers.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Logo na primeira parte do filme, quando acontece o velório que reúne a família, tem um furo grande no roteiro. O caixão é levado para uma sala onde será cremado, mas em vez disso, o caixão é quebrado e um funcionário acaba morrendo. Ia ter uma investigação! A família não ia seguir tranquilamente, como se nada tivesse acontecido! E o pior é que é um problema fácil de se resolver: era só criar um incêndio, e mostrar a dona do local do velório tratando com os bombeiros…

FIM DOS SPOILERS!

Fiquem até o fim dos créditos! É um “esquema Marvel”: uma cena depois dos créditos principais, e outra lááá no final de tudo.

As Ovelhas Detetives

Crítica – As Ovelhas Detetives

Sinopse (imdb): Todas as noites, um pastor lê em voz alta uma história de mistério e assassinato, fingindo que suas ovelhas conseguem entender. Quando ele é encontrado morto, as ovelhas percebem imediatamente que se trata de um assassinato e acreditam saber tudo sobre como resolvê-lo.

As Ovelhas Detetives estava na minha lista de expectativas para 2026. Na verdade, era mais pela curiosidade com o elenco de vozes escalado para as ovelhas. Mas quando o filme foi lançado aqui, em vez de sessão de imprensa, teve pré estreia no fim de semana, aberta pra crianças. Aí meio que desanimei, porque o tratamento que a assessoria deu ao filme dava a impressão de que o filme teria uma abordagem muito infantil – e ainda ia perder as vozes originais na sessão dublada em português.

Aí o filme apareceu na Prime e resolvi arriscar. Caramba, que surpresa agradável! As Ovelhas Detetives é bem melhor do que parecia!

Ok, não estamos falando de um “novo clássico”, de um filme “obrigatório” (como, por exemplo, Uma Aventura Lego ou Tico e Teco e os Defensores da Lei, filmes que são muito melhores do que o que parecem ser). Mas As Ovelhas Detetives é leve e divertido, e traz um bem sacado whodunit no roteiro.

(Pra quem não sabe, whodunit é aquele estilo de narrativa de filme, livro ou peça teatral, onde acontece um crime e temos vários possíveis culpados, e o espectador / leitor precisa juntar peças soltas pra tentar descobrir o culpado. Os recentes filmes da série Knives Out são bons exemplos.)

George Hardy é um pastor que trata suas ovelhas com carinho, quase como se fossem humanos. Inclusive, gosta de ler livros policiais para o rebanho. Quando ele aparece morto, as ovelhas – que conversam entre elas – resolvem descobrir quem é o assassino. O problema é que os humanos não entendem o que elas falam.

As Ovelhas Detetives é baseado no livro Three Bags Full, lançado em 2005, e é dirigido por Kyle Balda, que até agora só tinha dirigido longas de animação, como Minions e Meu Malvado Favorito 3. Phil Lord e Christopher Miller (Uma Aventura Lego, Devoradores de Estrelas) estão na produção, mas não sei o quanto eles interferiram no projeto.

O roteiro constrói bem o whodunit, mas algumas partes aqui e ali lembram que esse é um filme para crianças – a explicação da tinta verde na mão soou forçada demais. Nada grave, felizmente.

Não costumo reclamar de efeitos especiais, mas achei os efeitos aqui bem fracos. Algumas ovelhas parecem muito mal feitas. Não chega a atrapalhar, mas, com a tecnologia atual, podiam ser mais convincentes.

Por outro lado, o elenco é bem acima da média. Hugh Jackman seria o principal, mas seu personagem sai cedo da trama (segundo o imdb, ele filmou todas as suas cenas em dez dias). Emma Thompson faz a advogada, e o “He-Man” Nicholas Galitzine também tem um papel importante. E, entre as ovelhas, temos Julia Louis-Dreyfus, Patrick Stewart, Bryan Cranston, Regina Hall, Bella Ramsey, Chris O’Dowd e Brett Goldstein, entre outros.

As Ovelhas Detetives não vai mudar a vida de ninguém. Mas quem assistir não vai se arrepender.

Segredo Obscuro

Crítica – Segredo Obscuro

Sinopse (imdb): Desesperada para retomar a carreira, uma atriz outrora adorada é atraída para o mundo glamoroso de uma magnata do bem-estar, apenas para descobrir a verdade monstruosa por trás de sua fachada impecável.

O sucesso de A Substância, de 2024, abriu caminho pra outras produções com temas parecidos. Este Segredo Obscuro (Shell, no original) guarda semelhanças no tema e na abordagem do body horror. Pena que o resultado ficou bem inferior.

Dirigido por Max Minghella (filho de Anthony Minghella, diretor ganhador do Oscar por O Paciente Inglês), Segredo Obscuro é de 2025 e podia ter sido lançado antes. Mas depois da sessão, descobri por que adiaram a estreia. O filme é bagunçado demais.

Segredo Obscuro tem uma premissa bem parecida com A Substância. Samantha é uma atriz com dificuldade de conseguir papéis por causa da idade. Ela então começa um tratamento que promete retardar o envelhecimento. Claro que coisas vão dar errado no meio do caminho.

Gosto muito da Kate Hudson, mas sua personagem aqui, Zoe, é bem ruim. Uma milionária como ela não teria nenhum motivo pra se aproximar daquele jeito da Samantha. Se pelo menos a trama indicasse alguma tensão sexual entre as duas, talvez até ajudasse a convencer o espectador. Mas daquele jeito, só amizade, ficou artificial demais.

Além disso, uma empresa que traz efeitos colaterais tão graves pra todos seu usuários não conseguiria crescer daquele jeito. Digo mais: quando Samantha tem um efeito colateral grotesco diante da imprensa, seria bem difícil de esconder. E o roteiro simplesmente esquece disso.

Sabe o que ia melhorar o filme? Se a direção assumisse um clima trash. Temos uma vilã caricata e um monstro. Se o filme tivesse uma pegada trash, na linha de filmes B tipo os filmes do Stuart Gordon, como Re-Animator ou From Beyond, ia virar algo descompromissado e divertido. Ia ser bem melhor.

O elenco é bom. Elisabeth Moss convence no papel da atriz que passou um pouco da idade e luta pra voltar ao mercado. Já Kate Hudson tem carisma, mas o roteiro lhe entregou uma personagem caricata. Kaia Gerber, filha da Cindy Crawford, tem o terceiro maior papel. E Elizabeth Berkley, de Showgirls, aparece na sequência inicial.

(Uma curiosidade de bastidores sobre a protagonista Elisabeth Moss. Ela passa o filme usando roupas largas. Achei que sua personagem ia emagrecer com o tratamento e depois ela apareceria com roupas mais justas, mas isso não acontece. Sabe por que? A atriz estava grávida durante as filmagens…)

Segredo Obscuro não chega a ser “revoltantemente ruim”, mas o resultado ficou decepcionante…

Supergirl

Crítica – Supergirl

Sinopse (imdb): Kara Zor-El, também conhecida como Supergirl, une forças com um aliado improvável em uma jornada interestelar de vingança e justiça, quando um adversário inesperado ataca muito perto de casa.

Heu lembro quando tinham poucos filmes de super-herói por ano. Em 2000 tivemos o primeiro X-Men; em 2002 foi a vez do primeiro Homem Aranha – dois filmes em três anos. E aí começou a ter mais, a ponto de chegar a cinco ou seis filmes de super-herói no mesmo ano. Chequei agora no google, entre 2017 e 2019 foram 21 grandes lançamentos de filmes de super-heróis nos cinemas. É claro que se existe uma quantidade tão grande, a qualidade diminui.

Nesse cenário de muitos filmes de super-herói surge o filme da Supergirl, que é apenas mais um filme de super-herói. É ruim? Não. Mas é tão fuén vai ser esquecido logo logo.

Kara Zor-El, a Supergirl, personagem introduzida no filme do Superman, está comemorando seu aniversário de 23 anos, meio solitária (sua única companhia é o cachorro Krypto), ficando bêbada todas as noites. Seu destino acaba acaba cruzando com uma adolescente que perdeu a família e quer vingança.

O problema deste filme da Supergirl é que não tem nenhuma novidade, a gente já viu isso tudo antes várias vezes – e melhor contado. Vou além, o clima parece Guardiões da Galáxia, filmes dirigidos pelo James Gunn, que é produtor aqui: temos uma protagonista meio rebelde, um pouco anti-heroína, vagando por vários planetas esquisitos e com personagens esquisitos.

A direção é de Craig Gillespie, mas parece um “filme de produtor”. Digo isso porque Gillespie tem dois filmes no currículo que acho bem legais, Eu Tonya e Cruella, que são bem diferentes de Supergirl – que, como disse, se aproxima mais de Guardiões da Galáxia

(Aliás, curioso lembrar que tanto Guardiões da Galáxia quanto Cruella têm boas trilhas sonoras usando músicas pop, e aqui a trilha sonora é bem insossa. Acho que o único destaque nesse aspecto é a cena onde tocam Garota de Ipanema e What A Wonderful World.)

Se o filme é genérico, o roteiro fraco não ajuda. Se a gente parar pra pensar, vai encontrar um monte de inconsistências aqui e ali. Um exemplo: se o vilão Krem fazia parte de um grupo que sequestra jovens mulheres, por que diabos ele deixa a menina que vai pedir ajuda à Supergirl? Isso sem falar que o poder da kryptonita é mais forte ou mais fraco dependendo do que o roteiro pede…

Milly Alcock funciona como a Supergirl, ela precisa entender sua posição como super-heroína, afinal ela não é e nem quer ser boazinha como seu primo Superman. Eve Ridley, que faz Ruthye, a personagem adolescente, também está ok. Por outro lado, heu queria fazer duas críticas. Uma ao vilão Krem de Matthias Schoenaerts, que é um vilão bem besta. A outra é ao Lobo, personagem do Jason Momoa, caricato ao extremo, e se você tirar esse personagem, nada muda no filme.

Vou além, a cena onde a gente conhece o personagem Lobo é uma cena que não faz sentido. Kara, sozinha, bate em dezenas de pessoas que estão num bar, e depois que ela bateu em todo mundo, o Lobo acende um charuto e age como se nunca a tivesse visto, como se não estivesse presente. Ele não podia estar escondido num canto naquela cena.

O filme é ruim? Não, não é ruim, mas, repito, a gente já viu isso outras vezes, é um filme genérico e que vai ser esquecido daqui a pouquinho. Os fãs da DC mereciam um tratamento melhor, desse jeito a DC nunca vai alcançar o que a Marvel conseguiu com MCU.

Love Kills

Crítica – Love Kills

Sinopse (imdb): A jovem vampira Helena redescobre sua humanidade por meio de seu vínculo com o humano Marcos, enquanto navega por um mundo onde o vampirismo reflete traumas, exclusão e lutas de identidade.

Se tem filme nacional de terror novo, heu vou querer ver, e vou querer comentar aqui!

Em Love Kills, um garçom com um passado complicado se vê obcecado por uma misteriosa cliente. Ele começa a segui-la, e acaba descobrindo um submundo de vampiros na noite paulistana.

Logo de cara a gente pode fazer um elogio e uma crítica. O elogio é ao visual do filme. A diretora Luiza Shelling Tubaldini conseguiu mostrar uma São Paulo noturna belíssima na sua história de vampiros. Lembrei de Cidade Oculta, outro filme que também sabe explorar muito bem a noite paulistana. A fotografia do filme é muito bonita.

Por outro lado, o roteiro não é muito bom. O filme é baseado no quadrinho homônimo de Danilo Beyruth, que heu não conheço, e deu a impressão de que só vai entender o filme quem leu a HQ. Os personagens não são muito bem desenvolvidos e o final do filme é muito confuso. Vou comentar o final depois, numa parte com spoilers liberados.

Preciso falar dos efeitos especiais. Não são efeitos top, claro, afinal efeitos especiais não são algo comum no cinema nacional. Mas, assim como defendi os efeitos de O Clube das Mulheres de Negócios, também vou defender aqui. Precisamos de mais filmes com efeitos, muito mais filmes com efeitos. Só assim os nossos técnicos alcançarão o nível de Hollywood. Ou seja, “copo meio cheio”: os efeitos são satisfatórios. Além disso, reconheço que alguns efeitos de maquiagem são bem legais.

O casal principal de atores, Thais Lago e Gabriel Stauffer, está ok – curiosamente, o nome do ator principal é o último nome do elenco no imdb. Não gostei de Flow Kountouriotis, que faz uma espécie de líder de vampiros – mas não sei se o problema está no ator ou no roteiro, seu personagem é completamente fora do tom do resto do filme, parece que saiu de um infantil caricato tipo Castelo Rá Tim Bum. Love Kills também tem uma participação especial de Marat Descartes.

O final é bem ruim. Mas vamos aos avisos de spoilers antes.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Antes do final, queria aproveitar o momento “spoiler free” pra comentar um problema que não é exclusivo deste filme: o protagonista Marcos pode até não acreditar em vampiros. Mas quando ele está seguindo a Helena, ela voa e logo depois mostra que tem uma força maior que o normal. Pode até não ser vampira, mas algum superpoder ela tem. Vou além: quando eles estão num beco e são cercados pela gangue rival, ele não teria como defendê-la. E a gangue rival não o deixaria vivo. Mas, repito, centenas de filmes têm problemas semelhantes.

Até aí, heu estava até curtindo, mesmo com ressalvas. No fim, aparece um novo personagem, que era pra ser o grande vilão, mas foi muito mal utilizado. Mas o pior problema é pouco depois. Sabe aquelas gavetas de necrotério? Uma delas começa a vazar água. Aí a gaveta abre, e aparece uma nova personagem, uma mulher loira, de branco (já tinha aparecido numa sequência que parecia um sonho, no meio do filme), que faz chover, e depois some. Oi? De onde veio aquela personagem? Pra que ela serviu na trama, além da chuva? Pra que colocar um novo elemento na cena final, se não vai agregar nada ao filme?

Já comentei aqui antes, um bom final faz o filme somar pontos; um final ruim faz o inverso. Não sei se Love Kills vai voltar aqui na lista de piores do ano, mas vou te falar que esse final me fez não ter vontade de ver se um dia fizerem uma continuação.

Dia D

Crítica – Dia D

Sinopse (imdb): Se você descobrisse que não estamos sozinhos, se alguém abrisse seus olhos e mostrasse para você, você ficaria com medo?

Dia D (Disclosure Day, no original) estava na minha lista de expectativas para 2026, primeiro por ser o novo Spielberg, mas também por ser um Spielberg falando de alienígenas – claro que Contatos Imediatos do Terceiro Grau e ET O Extraterrestre vieram à memória.

Sou fã do Steven Spielberg por dois motivos. O primeiro é emocional: fui adolescente nos anos 80, e naquela época muitos filmes pipoca tinham Spielberg na direção ou produção (como Gremlins, Goonies, De Volta Para o Futuro, O Enigma da Pirâmide e Roger Rabbit, entre outros). Cresci vendo o nome do Spielberg se associando a cinema pipoca de boa qualidade.

Mas também sou fã do cara por um motivo que não sei se consigo descrever. Gosto muito do jeito como ele filma. Spielberg sabe, como poucos, como posicionar e como mover sua câmera. São detalhes discretos, que a maior parte do público nem repara, mas se você prestar atenção, vai se deliciar ainda mais com seus filmes. Faça isso na próxima vez que estiver assistindo um de seus filmes, preste atenção no ponto de vista da câmera. Sua experiência cinematográfica ficará ainda melhor!

Em Dia D, a trama se divide em dois núcleos, que vão se encontrar lá na frente. Em um deles, um homem, que era funcionário de uma empresa de tecnologia, foge com vários segredos, e pretende revelá-los. No outro, uma repórter meteorológica passa a agir de maneira estranha depois que recebe a visita de um passarinho. Sim, essa frase sozinha é meio esquisita, mas tem sentido dentro do filme.

O roteirista é David Koepp, que tem alguns grandes filmes no currículo, como Jurassic Park, O Quarto do Pânico, o primeiro Missão Impossível e o Homem Aranha de 2002. O roteiro tem alguns pontos positivos, mas heu diria que tem mais elementos para crítica do que para elogio. Mas antes de criticar, heu queria elogiar um detalhe: está rolando uma terceira guerra mundial durante o filme, e isso é deixado completamente em segundo plano. O espectador que não estiver prestando atenção nem vai reparar nesse detalhe.

O roteiro tem problemas. Tem problemas básicos e comuns como, por exemplo, uma empresa top que tem alguns seguranças que são completamente bestas, que qualquer um consegue enganar. Ficou meio bobo ter “os Três Patetas” como seguranças. E tem outros problemas que são mais específicos, como por exemplo citar religião mas não se profundar no tema. Existe um questionamento: algumas religiões se baseiam na ideia de que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança – mas se existem alienígenas inteligentes, diferentes de nós, quem os criou? Será o mesmo Deus? Algumas religiões podem entrar em colapso o dia que confirmarem vida alienígena inteligente. Isso é citado, mas não é desenvolvido. Se não vai desenvolver, para que citar? Acho que era melhor nem ter tocado no assunto. A personagem Jane podia protagonizar esse ponto do questionamento religioso, mas o roteiro deixa isso de lado. Acaba que a principal função da personagem é estar na hora certa que o roteiro está precisando que ela entregue um determinado objeto.

Mas heu acho que o pior do roteiro é que eles resolvem criar um plano mirabolante para explicar o que está acontecendo, e é um plano confuso e ineficiente. Se você vai criar algum artifício pra explicar, ou faz direito, ou nem precisa explicar – pelo menos é assim que heu penso. Menos é mais.

O elenco é bom. Emily Blunt está ótima, não será surpresa vê-la na lista de indicadas ao Oscar ano que vem. Josh O’Connor também está bem. E achei curioso ver Colin Firth como vilão. Também no elenco, Colman Domingo, Eve Hewson e Wyatt Russell (dois nepo babies, filha do Bono do U2 e filho do Kurt Russell).

Ah, claro, a trilha sonora é ótima. John Williams tinha decidido se aposentar, Steven Spielberg o convenceu a sair da aposentadoria para este filme.

Quero comentar o final, mas antes queria fazer um mimimi sobre o título nacional. O filme se chama originalmente “Disclosure Day”, ou seja, o nome deveria ser “O Dia da Revelação”. Mas resolveram chamar de “Dia D”, o mesmo nome da maior operação militar anfíbia da história, em 6 de junho de 1944, quando os aliados finalmente começaram a virar o jogo contra o nazismo. Ou seja, o espectador brasileiro entra no cinema achando que vai ver uma história sobre o ponto onde humanos vão começar a reação contra uma possível invasão alienígena – e o filme fala de outra coisa. Péssima escolha de nome brasileiro!

A cena final desagradou parte do público. Conheço gente que não gostou do fim. Heu queria fazer um comentário sobre isso. Mas como estou falando do fim do filme, é claro que é um spoiler. Então vou colocar o aviso de spoilers e se você quiser ouvir comentários sobre o fim, siga até o fim.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Os protagonistas conseguem entrar num telejornal ao vivo e divulgam várias imagens de alienígenas no planeta Terra. Aos poucos outros canais de televisão começam a replicar essas notícias e o mundo inteiro pára para ver a revelação sobre alienígenas na Terra. Ao fim, eles trazem um alienígena que estava com eles para falar a mensagem final. A personagem da Emily Blunt entende a língua dos alienígenas, então ela ouve a mensagem. E ela vai para frente da câmera para falar a mensagem – e o filme acaba. Não ouvimos a tal mensagem, porque quando ela vai começar a falar, começam os créditos.

É claro que isso gera uma frustração no espectador. Afinal você passa duas horas e meia acompanhando uma história sobre um segredo envolvendo alienígenas. E quando vai finalmente ouvir qual é esse segredo, o filme acaba. Mas heu entendi que o propósito do Spielberg não era contar qual era o segredo, e sim contar a história das pessoas que estão querendo revelar esse segredo. Pensando sobre esse ponto de vista, eu até gostei do final.

Heu entendo o espectador que saiu do cinema frustrado. Me diz aqui, você achou o final satisfatório ou você queria saber qual era o segredo?

Obsessão

Crítica – Obsessão

Sinopse (imdb): Quando um romântico incurável faz um pedido para que sua paixão de longa data se apaixone por ele, um encantamento sinistro se desencadeia.

A ideia aqui não é exatamente original. Aliás, heu poderia dizer que Obsessão (Obsession, no original) poderia ser um episódio de Twilight Zone.

Bear é um cara tímido, apaixonado pela amiga Nikki, que nunca deu sinal de que gosta dele. Numa loja de produtos esotéricos, ele acha uma espécie de amuleto, chamado One Wish Willow, que lhe permite fazer um desejo. Ele então deseja que ela passe a gostar dele. E a parada funciona, ou seja, ela passa a gostar dele – mas ela passa a gostar dele de uma maneira obsessiva. E claro que isso vai dar errado lá na frente.

Ok, já vimos essa história: o cara tem um desejo e quando esse desejo é realizado, outras coisas vêm junto com o desejo. E não são necessariamente coisas que ele desejou. Mas mesmo com uma premissa repetida, Obsessão funciona muito bem.

O diretor Curry Barker tem um certo nome com curtas independentes que estão no youtube, mas confesso que não conheço o trabalho dele. Mas com esse seu primeiro filme a ser lançado no circuito comercial, já dá pra ver que o cara tem um bom conteúdo para mostrar. Algumas das cenas aqui são muito bem filmadas. Heu particularmente gostei de uma cena logo no início da “feitiçaria” que aprisionou Nikki, onde ela está no escuro e só vemos o brilho dos seus olhos.

É uma produção independente de baixo orçamento, então, claro, não tem atores conhecidos. O protagonista Michael Johnston está bem, mas o destaque nitidamente é Inde Navarrette, a Nikki. Ela está sensacional, a personagem tem alterações de humor abruptas e a atriz consegue passar isso perfeitamente.

Heu falei que parece um episódio de série Twilight Zone, certo? Poizé, achei o filme longo demais. São quase duas horas de filme e não tem história pra tudo isso, heu achei que cansou um pouco. Acho que se cortasse uma meia hora, o filme ia ser bem melhor.

Este meu texto/vídeo está saindo atrasado, mas pelo menos tem uma vantagem: heu pude acompanhar o crescimento da exibição do filme nas salas do Rio de Janeiro. Na primeira semana não estava passando em nenhuma sala da Zona Sul, só Barra ou Zona Norte, e quase todas as sessões dubladas. Na segunda semana ele foi, legendado, para a rede Estação, em Botafogo e na Gávea. Tentei comprar ingresso para ver em Botafogo mas a sala estava lotada. Acabei comprando para a terceira semana e o filme já tinha mudado para outra sala, maior. Ou seja, o exibidor está descobrindo que esse filme realmente merece ser visto.

Se o início é um pouco arrastado, quando o filme engrena na parte final, o ritmo é muito bom. Heu quero comentar o final, então vou colocar um aviso de spoilers. Siga por sua conta e risco!

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Sarah, a amiga que gosta do Bear, recebeu uma carta da universidade que ela está querendo entrar, e ela quer abrir a carta junto com ele para ver se ela passou ou não. Os dois estão conversando no carro, e todo espectador acostumado com esse tipo de filme sabe que em algum momento a Nikki vai aparecer – seja para fazer um escândalo, seja para brigar, seja até para matar a Sarah – estamos falando de um amor obsessivo. Seria algo previsível a Nikki aparecer, mas acho que ninguém esperava o tamanho da violência com que Nikki ataca. Ela quebra o vidro do carro com uma pedra, apoia a pedra no volante e bate a cabeça da amiga seguidas vezes na pedra, até desfigurar completamente o rosto e matar a amiga. Obsessão não tem muitas cenas violentas, mas esta única cena é de uma violência gráfica extrema!

Bear vai pedir ajuda para Ian e leva um One Wish Willow, mas Ian pede um bilhão de dólares. Como era um único desejo por pessoa, Ian não pode mais salvar Bear. Bear volta para Nikki, Ian aparece, Nikki atira nele e o mata. Bear então se tranca no banheiro e resolve se matar, ingerindo vários comprimidos.

Heu quis fazer esse vídeo de final explicado porque não sei se todo mundo prestou atenção. Não é nada muito escondido: você ouve a musiquinha do One Wish Willow e depois vê o palitinho quebrado: Nikki desejou que Bear a amasse como ela o ama. Bear sai do banheiro, apaixonado, eles se abraçam, mas os comprimidos começam a fazer efeito e Bear morre. Quando ele morre, Nikki está finalmente libertada da “maldição” – mas agora está com três cadáveres em volta dela!

Se heu já estava gostando dessa parte do filme, quando chegou o final heu achei genial. Obsessão subiu alguns pontos quando começaram os créditos finais. Agora aguardo os novos filmes de Curry Barker e Inde Navarrette!

Mestres do Universo (2026)

Crítica – Mestres do Universo

Sinopse (imdb): Adam caiu na Terra quando era criança e perdeu a espada mágica que o ligava a Eternia. Quase 20 anos depois, ele a recupera e retorna ao seu planeta natal para protegê-lo do malvado Esqueleto, mas primeiro precisa desvendar seu passado.

Depois de anos de produções conturbadas, finalmente ficou pronta a nova adaptação de He-Man! Existem boatos sobre um novo filme desde 2007, quando rolaram rumores sobre uma versão a ser dirigida por John Woo. De lá pra cá, foram algumas tentativas, todas frustradas.

Neste novo Mestres do Universo, o príncipe Adam, ainda criança, é mandado para a Terra quando Eternia é atacada pelo Esqueleto. Quinze anos depois ele volta para Eternia e lidera a população contra as tropas do vilão.

Dirigido por Travis Knight (Kubo, Bumblebee), Mestres do Universo (Masters of the Universe, no original) é tudo aquilo que o nostálgico fã de He-Man estava querendo. Um filme leve e divertido, que respeita o material que já existe, e traz várias referências ao desenho. Mestres do Universo não quer reinventar a roda: apenas faz o básico para os fãs. (Aliás, rola uma participação do Dolph Lundgren – o He-Man do filme de 1987 – que é um exemplo perfeito de como respeitar uma franquia.)

Rolava um certo receio de trazer (de novo) a história para o planeta Terra – como aconteceu no injustiçado filme de 1987. Mas, se naquela ocasião, o filme se passa aqui por razões orçamentárias, aqui tem sentido dentro da história. E vou te falar que o Adam sendo criado na Terra gera algumas boas piadas quando ele confronta hábitos sociais de outro planeta.

Falando em Adam criança na Terra, uma sacada genial: usaram isso pra explicar alguns nomes de personagens – como o próprio “He-Man” / “Ele-Homem”. Vários nomes de personagens são bem ruins, e o roteiro conseguiu dar uma explicação para isso.

Mestres do Universo é bem engraçado e tem várias cenas de ação. Nada excepcional, mas é um feijão com arroz bem feito. E não sei se foi proposital ou coincidência, mas tem uma cena com o He-Man numa “moto voadora” que lembra muito o Flash Gordon de 1980.

Queria fazer dois comentários sobre a trilha sonora de Daniel Pemberton. O primeiro é um elogio. Algumas trilhas são boas, mas só dentro do filme. Aqui não só é uma boa trilha, como tem um tema forte, assobiável, daqueles que ficam na cabeça do espectador quando acaba a sessão – saí da sala de cinema com o tema na cabeça. O outro comentário é que, durante o filme, pensei “o cara que gravou a trilha sonora conseguiu um timbre de guitarra IGUAL ao do Brian May (guitarrista do Queen)”. Aí vieram os créditos, e vi que o próprio Brian May participou da trilha…

O papel principal é de Nicholas Galitzine, que é um cara conhecido, mas preciso admitir que heu não lembro dele em nenhum outro filme. Mas lembro que na época que o anunciaram como o protagonista, um monte de gente reclamou porque ele não teria o tipo físico pra ser um cara forte como o He-Man (diferente do filme de 87, que já escolheu logo de cara um ator muito forte). Não sei como era o Nicholas Galitzine antes, mas posso dizer que agora ele consegue ter o tipo físico que o personagem precisa. E vou além: ele funciona muito bem com todos os dilemas que o personagem tem com relação aos conflitos comportamentais entre os planetas Terra e Eternia. O papel principal feminino, a Teela, é Camila Mendes, que nasceu nos Estados Unidos, mas tem pai e mãe brasileiros, ou seja, temos uma protagonista quase brasileira – ela também está bem. E não é a única brasileira no elenco, também tem Morena Baccarin no papel de Feiticeira. Alison Brie está bem como a Maligna (um personagem que no inglês tem um nome muito mais legal, Evil-Lyn). Ainda no elenco, Idris Elba está bem, mas o Idris Elba está sempre bem, então isso não é novidade. E quem for nas sessões legendadas vai ouvir a voz da Kristen Wiig como Roboto.

Novo parágrafo para falar do vilão. Jared Leto foi escalado para interpretar o vilão Esqueleto, o que era uma grande incógnita, porque de um tempo para cá, Leto só tem escolhido papéis ruins em filmes ruins. Ou seja, ter Jared Leto no elenco não necessariamente seria uma boa notícia. Mas heu posso dizer que não dá para ver o Jared Leto lá. É o Esqueleto e só o Esqueleto – ou seja, não atrapalha.

Mestres do Universo é divertido, mas nem tudo funciona. Algumas atitudes dos personagens não fazem muito sentido, tipo o Esqueleto deixar o rei se despedir do jovem Adam logo no início do filme; ou todos os prisioneiros estarem juntos na mesma cela. Além disso o filme é muito longo, não tem história pra duas horas e vinte de projeção, chega a cansar um pouco.

A sessão de imprensa foi legendada, o que heu sempre acho positivo. Mas ouvi alguns amigos reclamando que preferiam o filme dublado. Entendo o lado saudosista, mas sempre vou preferir ver a obra original.

Ao fim, fiquem até o final dos créditos. Esquema Marvel: tem cena depois dos créditos principais, e mais uma lá no final de tudo.

Backrooms: Um Não-Lugar

Crítica – Backrooms: Um Não-Lugar

Sinopse (imdb): Após o paciente de uma terapeuta desaparecer em uma dimensão além da realidade, ela precisa adentrar o desconhecido para salvá-lo.

(Pra variar, sinopse do imdb não está exatamente correta…)

Quando acabou a sessão de Backrooms: Um Não-Lugar (Backrooms, no original), pensei: curti o filme, mas não entendi muito do que vi. Fui conversar com alguns amigos que estavam na mesma sessão. Alguns gostaram, outros não, mas uma coisa era unânime: ninguém tinha entendido.

Backrooms é daquele tipo de filme que abre espaço para várias interpretações e que não explica muita coisa. Heu queria fazer um comentário sobre o fim do filme, então, claro, vou colocar um aviso de spoilers. Mas não faz muita diferença você saber spoilers, porque afinal é o tipo do filme que você sai da sessão querendo conversar com alguém sobre o que você acabou de ver.

O conceito desses “backrooms” surgiu em 2019 em um post anônimo no 4Chan que falava sobre “uma dimensão paralela ou um labirinto infinito de escritórios vazios e corredores, caracterizados por paredes amareladas, carpete mofado e o zumbido contínuo de lâmpadas fluorescentes”. Em 2022 o jovem diretor Kane Parsons (então com 16 anos) fez uma série de curtas found footage usando esse conceito. Isso o credenciou para ser o mais jovem diretor contratado pela A24: Parsons fez Backrooms: Um Não-Lugar, seu primeiro longa, aos 19 anos de idade.

Antes de entrar na esquisitice, queria fazer um elogio que todos vão concordar: a cenografia do filme é fantástica! Segundo o imdb, a produção construiu cerca de 30.000 pés quadrados de labirintos de salas e corredores – o que fez com que alguns membros da equipe ocasionalmente se perdessem no set. Só aqueles cenários já valem o ingresso!

O conceito é explicado dentro do filme como “imagine se você descrever um cachorro para uma pessoa que nunca viu um cachorro, e depois pedir pra essa pessoa desenhar o cachorro. De longe, vai parecer um cachorro; mas de perto, algumas coisas não vão fazer sentido.” Isso é o que acontece nos cenários do filme.

Sobre o elenco, o filme se baseia, basicamente, nos dois atores principais, Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve (e provavelmente estou pronunciando os dois nomes errados). Ambos estão muito bem. Backrooms não tem perfil de filme que vai concorrer a prêmios, mas cada um dos dois tem uma cena que parece aquele “clipe de Oscar”. Não estou dizendo que são atuações que merecem uma indicação, mas precisamos reconhecer que já vimos outras atuações que não foram lá grandes coisas concorrendo à estatueta, ou seja, não seria algo 100% injusto – mas, repito, acho muito difícil, infelizmente.

Como falei, quero comentar o final. Sim, é spoiler, mas, Backrooms é o tipo de filme que não tem muita importância você saber spoiler porque não tem nenhum grande plot twist. Mas, respeito: se você não gosta de spoiler, só pular essa parte.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Somos apresentados a um universo maluco onde ninguém entende o que está acontecendo. Aí tem um epílogo – a parte onde aparece o ator Mark Duplass – onde começam algumas explicações. Só que não chega a conclusão nenhuma. Ou seja, era melhor nem ter começado a explicar. Na minha humilde opinião, se você se propõe a explicar o que é aquele mundo, vá até o fundo. Ou então não explique nada. Mas aqui entra uma pincelada de explicação e deixa tudo no ar. Heu particularmente acharia melhor se não explicasse nada, se cortasse aquele epílogo, se acabasse sem a gente ter nenhuma ideia do que estava acontecendo. Porque aí o espectador é apresentado a um mundo maluco, que não faz sentido, e beleza, acaba o filme e vai pra casa pensando nas maluquices vistas na tela – algo meio David Lynch.

FIM DOS SPOILERS!

Backrooms é um filme que vai dividir o público. Duvido que seja um sucesso comercial. Mas gostei de ver algo assim, principalmente depois de saber que o diretor tem menos de vinte anos de idade.

Cansei de Ser Nerd

Crítica – Cansei de Ser Nerd

Sinopse (imdb): Aírton, um nerd convicto, vai à festa de reencontro de faculdade determinado a desmascarar o ritual assassino de um culto alienígena, limpar seu nome e recuperar o coração de sua alma gêmea. Ah, sim, e também sair vivo.

Recentemente recebi um link que tinha uma denúncia sobre uma rede de cinemas que estava usando uma brecha na regra de cota para exibição de filme nacional. Existe uma animação nacional chamada Zuzubalândia, de dois anos atrás, que é um desenho de apenas sessenta minutos, então essa rede de cinemas programava o desenho para passar cedo, assim que o cinema abre, num horário que o cinema ainda tem pouco movimento, assim eles podem cumprir a cota do cinema nacional e podem guardar os horários com maior público para os filmes que vendem mais ingressos – afinal o cinema também é um negócio, e precisa dar lucro. Claro que essa denúncia foi feita num grupo onde pessoas defendem a cota para filmes nacionais, porque acham que o filme nacional deveria estar no horário nobre do cinema. E heu até concordo parcialmente com isso, mas defendo que o caminho para se resolver isso é outro. Na minha humilde opinião o melhor caminho não é criar uma cota e forçar que o exibidor passe o filme nacional. O que a gente precisa fazer é ter mais filmes nacionais de qualidade. E, principalmente, uma maior variedade.

Quem me acompanha por aqui sabe que heu defendo a diversidade do cinema nacional. Sabe que heu defendo que existam filmes nacionais de gêneros diferentes. O filme nacional não precisa ser sempre selecionado para festivais, não precisa ser sempre um ganhador de prêmios. Pode ser apenas uma diversão leve e divertida. Existe espaço pra filme maomeno gringo, por que não exibir filme maomeno nacional?

Essa longa introdução é para falar que temos a partir desta semana a estreia de um novo filme desses no circuito nacional: Cansei de Ser Nerd. Não é um grande filme, não é um filme disruptivo, não é um filme que trará prêmios para o cinema brasileiro. Mas é uma boa diversão.

Em Cansei de Ser Nerd, um “nerd velho”, acusado injustamente na faculdade pelo desaparecimento e suposto assassinato de uma colega de classe, convence seu melhor amigo a ir com ele à festa de reunião da turma, para enfrentar fantasmas do passado e reencontrar seu crush da época.

O melhor de Cansei de Ser Nerd é o elenco, principalmente o trio principal. O protagonista Fernando Caruso tem carisma suficiente para segurar o filme, ele tem umas sacadas geniais – heu soube que ele acrescentou algumas coisas nerds no roteiro e que fazem todo sentido já que ele é o nerd do título do filme. Essas partes onde ele demonstra o quanto ele é nerd são as melhores coisas do filme. Inclusive, numa delas, me identifiquei: o personagem comenta que só tem camisas com estampas nerds, não tem nenhuma camisa lisa, e ele quer uma camisa lisa para se sentir um cara mais normal. Isso é a minha cara, meu armário não tem nenhuma camisa lisa…

Os dois principais coadjuvantes, Pedro Benevides e Bia Guedes, também funcionam muito bem. O trio tem uma química boa, eles trabalham juntos há tempos num grupo de stand-up chamado Comédia 4K (a quarta integrante do grupo, Thais Belchior, também está no elenco, mas no núcleo dos vilões). Eles funcionam muito bem juntos.

O filme começa bem, o clima de conspiração maluca misturado com invasão alienígena é bem divertido. Pena que a parte final é meio zoada, o roteiro não se decide entre continuar na comédia ou abraçar o cinema fantástico, e o encerramento não funciona muito bem. Além disso, tem uma parte no meio que o filme fica em preto e branco, não gostei dessa opção estética.

Mas mesmo com esse final bagunçado, achei a experiência positiva. Defendo filmes nacionais “fora da caixinha”! Recomendo!