Eles Vão Te Matar

Crítica – Eles Vão Te Matar

Sinopse (imdb): Uma mulher aceita um emprego como faxineira em um edifício de Nova York, sem conhecer a história de desaparecimentos do prédio. Ela logo percebe que a comunidade está envolta em mistério.

Em 2018, vi um filme russo chamado Morra / Why Don’t You Just Die, que parecia uma mistura de Quentin Tarantino com Jean-Pierre Jeunet – era como se o Tarantino fosse fazer um filme no cenário de Delicatessen. Morra é ao mesmo tempo muito violento e muito divertido. Heu guardei o nome do diretor, Kirill Sokolov, mas nunca mais vi nada dele. Aí vi a divulgação deste novo filme, Eles Vão Te Matar, fui ver quem era o diretor: Kirill Sokolov. Fui para a sala de cinema já imaginando o que ia ver.

Em Eles Vão Te Matar, uma mulher se candidata a um emprego de faxineira, mas logo descobre que existe algo de muito estranho no prédio onde ela vai trabalhar.

O ritmo do filme é alucinante. Uma coisa curiosa é que a violência extrema começa cedo no filme, e não pára, são muitas cenas de sangue e de gore. Com menos de meia hora já tem uma sequência mais intensa que muita conclusão de filme de ação! O filme é curto, pouco mais de uma hora e meia, e tem pouco espaço pra respirar. É porradaria e sangue em quantidade abundante.

Importante falar: são várias cenas de luta, e todas são bem coreografadas, daquele estilo onde a câmera faz parte da coreografia e “passeia” entre os golpes e jatos de sangue. Sim, violência extrema, muito sangue, tudo bem coreografado e bem filmado. E ainda tem umas boas sacadas visuais, como a cena escura iluminada pelo machado em chamas.

Além disso, tem o bom humor. Eles Vão Te Matar tem cenas engraçadíssimas! Quem curte humor negro vai gostar! Tem uma sequência com um olho que achei genial. E tem uma cena, em câmera lenta, que envolve uma mesa, um tiro e um golpe de machado (ou espada, não lembro), onde heu bati palmas na sala de cinema!

(Tem gente que chama de “terrir”, que seria uma mistura de terror com comédia. Heu particularmente não acho correto usar esse termo aqui, porque terrir me lembra os filmes do Ivan Cardoso, que têm uma pegada mais trash.)

Claro, vão comparar com Tarantino – uma mulher, descalça, toda suja de sangue, usando uma espada e matando pessoas. Além disso, em uma cena tem uma música ao fundo que parece Don’t Let Me Be Misunderstood, do Santa Esmeralda, claro que remete a Kill Bill. Mas, vamulá, Tarantino não dirige nada desde 2019, já são sete anos sem um novo filme. E outra coisa que a gente precisa lembrar é que os últimos filmes dele foram mais, digamos, comportados. Ou seja, o próprio Tarantino não está fazendo filmes assim. Se ele não está fazendo, deixa outra pessoa fazer. Não me incomodo com um cara russo que quer ser Tarantino se ele vai entregar um filme violento e divertido como esse.

No elenco, todos os elogios possíveis à Zazie Beetz. Ela teve papeis secundários em Deadpool 2, Coringa, Trem Bala, até no recente Boa Sorte Divirta-se Não Morra (vi semana passada, devo comentar aqui em breve). Aqui ela finalmente é protagonista e não só tem toda a carga dramática de sofrer pela irmã, como faz diversas cenas de luta. Acho que temos uma nova opção para filmes de ação girl power, pra variar um pouco das “heroínas de ação” de sempre, como Milla Jovovich e Kate Beckinsale. E não é só ela, Eles Vão Te Matar ainda tem alguns nomes conhecidos no elenco, como Patricia Arquette, Heather Graham e Tom Felton.

Eles Vão Te Matar deu azar de estrear uma semana depois de Casamento Sangrento 2, os dois filmes têm semelhanças nas propostas de violência exagerada e humor negro. Mas recomendo fortemente pra quem curte o estilo. Grandes chances de voltar aqui no fim do ano entre os melhores de 2026.

Casamento Sangrento: A Viúva

Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva

Sinopse (imdb): A noiva retorna em uma nova e sinistra rodada do tradicional jogo de esconde-esconde, agora com elementos sobrenaturais e demoníacos.

Lançado em 2019, Casamento Sangrento foi uma boa surpresa. Mas, pra comentar este segundo, precisarei falar spoilers do primeiro filme. Ou seja, se você pretende ver o primeiro, sugiro que pare de ler agora!

Em Casamento Sangrento, Grace se casa com um cara de uma família muito rica e poderosa, e existe uma tradição onde cada pessoa que entra na família precisa jogar um jogo. Ela sorteia uma carta, e precisa jogar pique esconde. Mas com o detalhe: se alguém encontrá-la, ela morre. Ou seja, a clássica trama do personagem tendo que fugir pela própria vida, a gente já viu essa história várias vezes. Mas quem me acompanha sabe que não acho ruim reciclar ideias, só acho ruim quando é mal feito e o resultado fica ruim.

Mas Casamento Sangrento tinha um diferencial na última cena – e é aqui que terei que dar o spoiler. Durante todo o filme a gente acha que é uma família de malucos assassinos, até que, na cena final, a gente descobre que tem algo sobrenatural por trás disso tudo, e que a família tem um pacto com o demônio. Como Grace sobrevive, cada um dos membros da família explode! Se até aquele momento o filme estava bom, ficou ainda melhor com o final inesperado.

Este final dificultava uma continuação. Como vamos seguir com uma história onde a família toda morreu por causa de um pacto demoníaco? Essa era a minha maior dúvida com relação a este novo filme. Mas posso dizer que conseguiram bolar uma nova trama, coerente com a proposta do primeiro filme.

Casamento Sangrento 2 (Ready or Not 2: Here I Come, no original) começa exatamente do ponto onde o primeiro termina. Grace ainda está com o vestido de noiva, suja com o sangue das pessoas que morreram, com a casa pegando fogo atrás. Ela é levada a um hospital, e vai precisar responder à polícia. Mas… Descobrimos que outras famílias também fazem parte do pacto demoníaco, e Grace, agora acompanhada de sua irmã Faith, será mais uma vez caçada.

A direção é dos mesmos Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, que têm uma produtora chamada Radio Silence, e que ganharam reconhecimento com o filme de 2019, e depois fizeram Abigail, Pânico 5 e Pânico 6. Manter o diretor costuma ser uma boa notícia para a qualidade de uma continuação.

Existe uma “regra não escrita” de continuações que diz que uma sequência precisa ter tudo que tinha no primeiro, mas em maior quantidade. Não sei se os diretores pensaram nisso, mas aqui é tudo maior. Se o primeiro filme era todo dentro de uma casa, este é num enorme resort. Se naquele filme era uma família, aqui são várias, com vários personagens exagerados e caricatos (alguns deles são ótimos!). Além disso, Casamento Sangrento 2 é MUITO violento. Mas não é aquela violência tensa e desagradável, o filme é muito engraçado, quem curte humor negro vai se divertir. Heu ri alto várias vezes ao longo do filme!

O elenco é bom. Samara Weaving é a única que volta (afinal, todo o resto do elenco morreu…), e faz uma boa dupla com Kathryn Newton (que tinha trabalhado com os diretores em Abigail). Uma coisa legal foi ver David Cronenberg num papel pequeno (sim, o diretor de A Mosca, Scanners, Videodrome, Gêmeos, etc). Sarah Michelle Gellar tem um papel importante, assim como Elijah Wood – a ironia é que ele também precisa lidar com um anel de poder. Também no elenco, Shawn Hatosy, Olivia Cheng, Nestor Carbonell e Kevin Durand.

Gostei de Casamento Sangrento 2, foi melhor do que heu esperava, mas preciso reconhecer que o roteiro tem umas facilitações no terço final. E aquela cena final foi bem forçada, acredito que não seria tão fácil. Felizmente, nada grave.

Casamento Sangrento não precisava de uma continuação, o final é redondinho. Mas pelo menos a continuação foi bem feita. Quem curtiu o primeiro vai gostar do segundo.

Cara de Um, Focinho de Outro

Crítica – Cara de Um, Focinho de Outro

Sinopse (imdb): Uma amante dos animais aproveita a oportunidade para usar a tecnologia que coloca sua consciência em um castor robótico, descobrindo mistérios no mundo animal que vão além do que ela poderia ter imaginado.

O novo longa da Pixar, Cara de Um, Focinho de Outro (Hoppers, no original) nem é tão ruim. Mas tem uma protagonista péssima! Mabel, a personagem principal, é uma jovem ativista, irresponsável e inconsequente, que toma decisões arbitrárias erradas e prejudica todos em volta. A Mabel estragou o filme!

Queria falar da Mabel mais a fundo. Então vou fazer alguns comentários breves sobre o filme, e depois solto um aviso de spoilers e falo da protagonista.

Primeiro longa dirigido por Daniel Chong (ele tinha feito a série Urso Sem Curso), Cara de Um, Focinho de Outro nos apresenta uma jovem rebelde, que quer salvar a natureza, mas se atrapalha e acaba atrapalhando todos em volta – humanos e animais.

Tecnicamente, não tem o que se falar, é um longa da Pixar. Se a Pixar tem decepcionado nos roteiros, na parte visual continua sendo sinônimo de excelência. Além disso, tem algumas piadas muito boas. Tem várias piadas com animais usando emojis no celular, piada que foi estendida nos créditos do filme. E o lance do tubarão voando foi genial.

Ah, queria aproveitar pra dizer que o título brasileiro não tem nada a ver. “Hoppers”, o título original, significa “saltadores”, remete ao lance de a consciência de uma pessoa “saltar” para um bicho robô. Já “cara de um, focinho do outro” é usado para descrever semelhanças físicas extremas entre duas pessoas, significa que são tão parecidos que parecem “clones”, “iguais” ou “a mesma pessoa”. Ou seja, não tem a ver com o tema deste filme.

Agora, avisos de spoiler. Vou ter que entrar em detalhes pra explicar porque não gostei da protagonista.

SPOILERS!
SPOILERS!
SPOILERS!

Mabel quer salvar a natureza. Ok, entendemos que é um objetivo nobre. Mas ela age de maneira tão irresponsável que acaba atrapalhando a sua própria causa (tanto que nenhum dos seus vizinhos a apoia).

    • Ela briga com o prefeito, até na própria casa do prefeito, incomodando sua mãe idosa. Detalhe: o prefeito está fazendo uma obra que vai melhorar o trânsito da cidade e conseguiu um meio de afastar os animais sem precisar matar nenhum! Esse prefeito deveria ser o “mocinho”!

    • Ela invade o laboratório de uma professora da faculdade e atrapalha um trabalho de anos. A professora está há muito tempo num projeto de aproximação ao mundo animal (vemos por flashbacks que seu cabelo não era branco quando ela começou), e Mabel se mete no meio sem ser convidada. E atrapalha o projeto, que chega a ser cancelado no fim do filme, fazendo a professora perder o emprego.

    • O projeto da professora era de observação da natureza. Quando Mabel entra, ela não quer observar, ela quer se meter e mudar as regras. Logo de cara ela questiona uma “lei do lago”. O urso deve ter ficado com fome. Existem sociedades com regras diferentes das nossas, não acho correto alguém de fora chegar e querer mudar tudo à força.

    • Ela resolve convocar o conselho dos animais pra atacar o prefeito. No meio da reunião, ela mata a rainha dos insetos. Sim, ela vira uma assassina. A cena é engraçadíssima, se fosse uma comédia adulta de humor negro, heu estaria aqui elogiando – mas estamos falando de um desenho direcionado ao público infantil. E quando ela mata a rainha dos insetos, ela acaba condenando todos os mamíferos.

    • Acontece um incêndio. Ela não causou o incêndio, mas é indiretamente responsável. Como resolver? Ela precisa destruir um enorme dique feito por castores. Sim, além de atrapalhar o relacionamento dos mamíferos com outras espécies, ela também precisa acabar com a casa dos castores.

Se pelo menos no fim do filme houvesse uma redenção, seria menos pior. Mabel deveria pedir desculpas a todos, reconhecer seus erros e tomar um novo rumo na sua vida. Seria um filme bem melhor. Mas nada, ela volta quieta, sem falar com ninguém. Aparentemente vai continuar a mesma irresponsável e inconsequente.

FIM DOS SPOILERS!

Ouvi várias pessoas elogiando Cara de Um, Focinho de Outro. Mas não consegui curtir um filme com uma protagonista tão tóxica. Espero que não tenha continuações.

Ah, tem cena pós créditos, lá no finzinho de tudo.

Os Estranhos: Capítulo Final

Crítica – Os Estranhos: Capítulo Final

Sinopse (imdb): Os sobreviventes enfrentam novas ameaças de estranhos mascarados. Segredos vêm à tona, colocando suas vidas em risco à medida que a linha entre a realidade e o perigo se confunde em sua luta pela sobrevivência.

Era pra ser um filme só. Resolveram esticar e lançar em três partes. Se a primeira e a segunda parte são ruins, qual era a chance da conclusão ser boa? Quase zero, né? Mesmo assim, fui ver. E confirmo: já tenho um filme certo na minha lista de piores de 2026.

A trama é o de sempre. Maya continua fugindo dos assassinos mascarados. Basicamente só isso. Claro, precisamos ter um longa metragem, então vemos mais flashbacks desnecessários, explicando coisas que não precisavam ser explicadas. O roteiro é péssimo (assim como nos filmes anteriores), não tem nenhuma cena impactante. Pior: o filme tenta criar uma reviravolta onde a Maya viraria assassina junto com os mascarados. Ideia ruim, e ainda por cima mal desenvolvida.

(Determinado momento, um personagem está ouvindo uma pregação religiosa. Acho que teve algo assim no primeiro filme, não lembro e nem vou catar pra rever. Mas poderia ser um bom caminho para a trama, entrar no fanatismo religioso. Mais uma ideia jogada fora.)

Heu sei que boa parte dos filmes de terror que a gente vê são baseados em decisões burras de personagens. Isso é algo comum. Mas aqui tem algumas decisões que desafiam qualquer lógica. Logo em uma das primeiras cenas, a protagonista está fugindo, encontra uma igreja, e tem um piano na igreja. POR QUE DIABOS ELA VAI TOCAR O PIANO??? QUE TIPO DE IDIOTA QUE ESTÁ FUGINDO DE ASSASSINOS VAI FAZER BARULHO COM UM INSTRUMENTO MUSICAL???

Não é a única atitude burra dela. Tem uma hora que ela consegue um carro e começa a fugir. E BATE O CARRO NUMA ÁRVORE!!! Caramba, como é que o espectador vai torcer por uma personagem tão ruim? Detalhe: ela bate o carro e o mascarado estava ali ao lado dela, pronto pra captura-la de novo.

Os Estranhos Capítulo Final é tão tosco que a página do imdb está meio zoada. A sinopse não está correta, fala de “sobreviventes”, é uma única sobrevivente. E o nome da atriz principal, Madelaine Petsch, a única atriz relevante nessa joça, é o quinto nome da lista do “elenco principal”. Nem o imdb leva a sério essa porcaria.

Heu podia falar mais. Mas seria chutar cachorro morto. Os Estranhos Capítulo Final é um erro. A única coisa boa é que acabou, espero que respeitem a ideia do “capítulo final”. Quando acabou o filme, fiquei tentando me lembrar de uma trilogia de terror pior que essa. Não consegui. Você sugere alguma?

Devoradores de Estrelas

Crítica – Devoradores de Estrelas

Sinopse (imdb): Um astronauta tenta salvar a Terra enquanto está sozinho no espaço sideral.

Fico feliz quando um filme que estava na minha lista de expectativas se revela uma boa surpresa!

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, no original) é o novo filme da dupla Phil Lord e Christopher Miller, de Uma Aventura Lego. Digo mais: o roteiro é de Drew Goddard, baseado num livro de Andy Weir, mesmos de Perdido em Marte. Com esse pedigree, a expectativa era alta. E preciso dizer que não saí do cinema decepcionado – Devoradores de Estrelas é emocionante e divertido, e vai fazer o espectador rir e chorar. Provavelmente estará na minha lista de melhores de 2026!

Grace acorda de um coma, num foguete interestelar, sem saber onde está e sem se lembrar de como foi parar ali. Através de flashbacks, descobrimos que ele é um professor de escola fundamental e está numa missão para salvar o sol. Ao chegar perto de outra estrela, acaba tendo contato com um ser alienígena, que aparentemente está naquele local em uma missão semelhante.

Toda a relação de amizade entre Grace e o alienígena, que ganha o apelido de Rocky, é muito bem construída. Desde os primeiros contatos, toda a construção da comunicação e depois a relação de interdependência – um ajuda o outro quando trabalham juntos. Além disso, todo o conceito do Rocky é muito bem bolado. O Rocky é completamente diferente de alienígenas presentes no audiovisual das últimas décadas, que normalmente usam formatos mais humanoides.

Sabendo que a direção era de Phil Lord e Christopher Miller, heu já desconfiava que seria um filme com muito humor. E sim, Devoradores de Estrelas tem várias sequências engraçadíssimas. A surpresa foi ver que os caras também sabem mexer com a emoção do espectador. Acredito que boa parte da audiência vai sair do cinema com olhos marejados, acompanhando a relação entre Grace e Rocky. Além disso, preciso dizer que algumas cenas são bem tensas, a dupla Lord & Miller acerta o ponto em todos os climas necessários.

Devoradores de Estrelas é baseado no livro homônimo. Não li, mas um amigo meu que leu fez uns comentários depois da sessão. Algumas alterações entre livro e filme não atrapalharam, como por exemplo a personalidade da personagem da Sandra Hüller, que no livro é mais séria. Mas teve uma coisa que senti falta. A gente aprende que eles precisam ir até uma estrela que fica a 11 anos luz de distância. Com a tecnologia atual, demoraria um absurdo de tempo – perguntei ao google, a resposta foi que precisaria de mais de 100 mil anos (não sou físico, peço desculpas). Mas o livro explica que os recém descobertos astrofágicos fazem possível uma viagem quase na velocidade da luz. Achei que faltou essa explicação no filme, seria um diálogo de poucos segundos.

Tecnicamente, o filme é perfeito. Não tenho uma vírgula a falar sobre os efeitos especiais, tanto do que acontece na nave espacial, quanto na parte alienígena. Aliás, teve um detalhe que achei genial: quando a nave está em gravidade zero, Grace fica flutuando, então ele amarrou cordas pelos corredores da nave, para ficar se locomovendo puxando pelas cordas.

No elenco, este é “o filme” do Ryan Gosling. Boa parte da projeção ele está sozinho, e seu personagem tem carisma o suficiente pra gente ficar ao lado dele e torcer por ele. E ele ainda protagoniza várias cenas bem engraçadas. Este filme não tem perfil de premiações, mas se ano que vem ele ganhar uma indicação ao Oscar por este papel, não será injusto.

Tem gente por aí comparando Devoradores de Estrelas com Interestelar. Mas preciso dizer que não concordo – Devoradores de Estrelas é muito melhor que o superestimado Interestelar. Nunca entendi por que tanta gente idolatra Interestelar, pra mim é um dos piores filmes do Christopher Nolan. Uma vez, conversando com um fã do Nolan, descobri que minha maior implicância com o diretor é por causa de Interestelar, o resto da sua filmografia é bem melhor (Inception, trilogia do Batman, Amnésia, Oppenheimer, vários grandes filmes). Enfim, aparentemente sou minoria, mas, pra mim, Interestelar não chega aos pés de Devoradores de Estrelas.

Por fim, queria comentar uma coisa que não tem nenhuma importância, mas heu curti: as camisas usadas pelo dr. Grace são camisas do estilo que heu gosto. Se heu ainda tivesse uma loja de camisas, provavelmente ia catar algumas daquelas estampas!

Devoradores de Estrelas é longo, são duas horas e trinta e seis minutos. Mas a trama é tão bem conduzida que não cansa. É o primeiro “filme obrigatório” de 2026!

Para Sempre Medo

Crítica – Para Sempre Medo

Sinopse (filmeb): O casal Malcolm e Liz viaja para uma cabana isolada para uma celebração romântica. Quando Malcolm parte inesperadamente para a cidade, Liz é confrontada por uma presença sinistra.

Em 2024, o diretor Osgood Perkins – ou Oz Perkins – lançou Longlegs, terror misturado com filme de investigação. Logo no ano seguinte, ele fez o divertido O Macaco, slasher misturado com comédia de humor negro. Lembro que na época que O Macaco foi lançado alguém me falou que tinha outro filme do mesmo diretor previsto para o mesmo ano, que era este Para Sempre Medo (Keeper, no original). A previsão era pra 2025, mas adiaram pro início de 2026.

Ti West dirigiu X, Pearl e Maxxxine, três filmes independentes, se passam em épocas diferentes, com personagens diferentes – mas três filmes que “conversam” entre si e podem ser vistos como uma trilogia. Já esses últimos três filmes do Oz Perkins estão bem longe de ser uma trilogia. Para Sempre Medo é um suspense onde uma mulher acha que está presa a um relacionamento abusivo, com uma pegada de terror sobrenatural na parte final – não digo mais por causa de spoilers.

(Heu acho que o melhor seria assistir Para Sempre Medo sem saber da parte sobrenatural, mas, mais uma vez, o trailer entrega mais do que deveria. Seria tão bom se trailers fossem pensados para guardar surpresas…)

Para Sempre Medo traz Liz, uma mulher que viaja com o namorado para uma cabana isolada no meio do mato. Ele precisa se ausentar, e ela começa a desconfiar dele. Só que as coisas escalam de uma maneira bem rápida. E existe um grande segredo escondido.

Para Sempre Medo é um filme curto, com uma história meio simples, mas Oz Perkins sabe criar um clima tenso. Além disso, algumas cenas são muito bem filmadas, Oz Perkins sabe posicionar sua câmera – gostei de um momento onde Liz está numa banheira, e o fundo aos poucos se transforma num rio. E curti a parte que entra no sobrenatural, fiquei curioso pra saber se é uma mitologia que já existe ou se foi algo inventado pelo roteirista.

O elenco é reduzido, mas funciona bem para o que o filme pede. Tatiana Maslany e Rossif Sutherland fazem o casal principal; Birkett Turton e Eden Weiss aparecem menos, como o irmão e sua namorada. Aliás, uma curiosidade sobre “nepobabies”: o diretor Oz Perkins é filho de Anthony Perkins; Rossif Sutherland é filho do Donald Sutherland, meio irmão do Kiefer Sutherland.

Para Sempre Medo não chega a ser ruim, até gostei do que vi. Mas é um filme inferior aos dois anteriores. Vamos torcer pro Oz Perkins dar uma respirada antes do próximo projeto, afinal, sempre preferimos qualidade do que quantidade.

A Noiva!

Crítica – A Noiva!

Sinopse (imdb): Na Chicago dos anos 30, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius para criar uma companheira. Eles dão vida a uma mulher assassinada como a Noiva, provocando um romance, o interesse da polícia e uma mudança social radical.

Ano passado, a gente viu Frankenstein; este ano tem A Noiva de Frankenstein. Podia até ser uma continuação, mas uma produção não tem nada a ver com a outra.

A Noiva! (The Bride!, no original) é o novo filme escrito e dirigido pela atriz Maggie Gyllenhaal. Se seu primeiro filme como diretora, A Filha Perfeita, de 2021, era um projeto mais “simples”, baseado mais nas atuações das atrizes principais, aqui em A Noiva! ela resolve ousar e entrega uma produção de época, com cenários e maquiagens elaborados, e várias citações a outros filmes. Ela arriscou, e deu certo – o resultado ficou bem melhor que o seu primeiro e insosso filme.

(Gostei deste A Noiva!, mas, pelo meu gosto, na inevitável comparação, o Frankenstein do Guillermo Del Toro teve um resultado melhor…)

A criatura, aqui chamada de Frankenstein, procura uma médica que estudou as práticas do dr. Frankenstein, e pede uma companheira. Eles conseguem trazer de volta à vida um cadáver de uma mulher que acabou de morrer, que passa a viver uma louca aventura ao lado dele.

(A criatura aqui é chamada de “Frankenstein”, que na verdade seria o sobrenome do médico. É um erro, mas, deixemos assim.)

Se a criatura do Frankenstein é composta por diferentes pedaços de corpos costurados, parece que Maggie Gyllenhaal quis fazer algo parecido no seu filme. Tem desde Coringa 2 (quando começa uma rebelião de mulheres inspirada pela atitude da protagonista) até Bonnie & Clyde (o casal em fuga de carro pelo campo). Mas, na minha humilde opinião, a melhor citação foi ao Jovem Frankenstein, na melhor cena do filme, ao som de Puting on the Ritz.

Se por um lado essa mistura fica legal de se assistir, por outro lado o roteiro parece meio mal construído de vez em quando. Por exemplo, a personagem da médica some em determinado momento do filme. E a dupla de policiais não tem muita função na trama – aquele comentário de sempre: tire os policiais e o filme não perde nada.

Tecnicamente falando, o filme é muito bom. A maquiagem da criatura Frankenstein lembra a maquiagem clássica (diferente da recente versão do Del Toro, que tinha o rosto costurado). A Noiva! também traz algumas cenas bem violentas – aquela da cabeça sendo esmagada pela bota vai impressionar parte dos espectadores.

O elenco é bom, a diretora tem um grande currículo como atriz, então deve ser bem relacionada. Jessie Buckley e Christian Bale estão ótimos como o casal principal (ambos já tinham trabalhado com Maggie – Jessie estava no elenco de A Filha Perdida; Bale foi companheiro de cena em Batman O Cavaleiro das Trevas). Annette Bening também está bem como a médica, e Jake Gyllenhaal (irmão da diretora) faz uma espécie de Fred Astaire (um ator que canta, dança e sapateia). Se tem espaço pro irmão, também tem pro marido, Peter Sarsgaard, que faz uma dupla de policiais com Penélope Cruz.

Por fim, queria deixar um elogio à narrativa apresentada pela roteirista e diretora Maggie Gyllenhaal. Seu filme é assumidamente feminista, em vários aspectos. Mas em nenhum momento vemos uma tentativa de lacração. Nada soa forçado. Parabéns, é assim que se faz!

Missão Refúgio

Crítica – Missão Refúgio

Sinopse (imdb): Um homem solitário em uma remota ilha escocesa resgata uma garota do mar, desencadeando uma sequência perigosa de eventos que culminam em um ataque à sua casa, forçando-o a enfrentar sua história conturbada.

Filme genérico do Jason Statham. Dá pra esperar alguma coisa além de apenas um “ok”?

Em Missão Refúgio (Shelter, no original), Mason vive recluso num velho farol em ruínas. Um marinheiro e sua filha adolescente trazem mantimentos para ele. Acontece um acidente com o barco e Mason passa a cuidar da menina. Até que uma câmera de segurança o reconhece e começam a caçá-lo. Claro que ele vai fugir e levar a menina. E claro que ele é o homem mais perigoso e mais mortal do país.

A direção é de Ric Roman Waugh, que se bobear ainda está em cartaz com seu último filme, Destruição Final 2 (dois filmes no início do ano!). Missão Refúgio é coerente com sua filmografia. Tudo é extremamente previsível. Todos os clichês estão presentes. Mas… Quem vai assistir um filme desses não está procurando roteiros elaborados. O lance é ser competente nas cenas de ação. E aqui temos tiroteios, lutas e perseguições de carro. Nada que salte aos olhos, mas pelo menos são cenas bem feitas.

No elenco, este é um “filme do Jason Statham”. Ele nunca foi um grande ator, mas pelo menos convence nas cenas de ação (segundo o imdb, ele fez quase todas as cenas sem dublê!), e tem carisma o suficiente pra segurar a atenção do espectador. Bodhi Rae Breathnach (Hamnet) faz a adolescente, mas preciso dizer que não gostei da atuação dela, ela faz cara de choro quase o filme inteiro. Bill Nighy sempre está bem, mas aqui parece estar no piloto automático. Também no elenco, Naomi Ackie e Bryan Vigier.

Missão Refúgio até vai distrair o espectador que vai conferir no cinema. Mas vai ser esquecido logo logo. O prazo de validade é “até o próximo filme do Jason Statham”, o que deve durar menos de um ano.

Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Crítica – Kill Bill: The Whole Bloody Affair

Sinopse (imdb): A noiva deve matar seu ex-patrão e amante Bill, que a traiu no ensaio de casamento, atirou na cabeça e levou sua filha por nascer. Mas primeiro, ela deve fazer sofrer os outros quatro membros do Esquadrão da Morte.

Vai estrear no cinema uma “nova versão” de Kill Bill. Mas, é nova de verdade?

Tive sentimentos opostos depois que acabou a sessão. Por um lado, é sempre bom ver Tarantino no cinema, e como seu último filme foi só em 2019, estava rolando uma certa “abstinência”… Mas por outro lado, tem muito pouca novidade. Basicamente, vemos o primeiro filme, aí tem um intervalo de 15 minutos, depois o segundo filme, aí são créditos estendidos, pra só lá no fim de tudo, uma sequência inédita em animação.

Um breve comentário sobre Kill Bill. É uma saga de uma mulher que quer se vingar de cinco ex companheiros que a deixaram para morrer. E é um filme para fãs de Tarantino. O filme é cheio de exageros estilísticos – além de várias lutas com muito sangue jorrando, rolam cenas em preto e branco, coreografia em contra luz, planos-sequência com a câmera passeando pelo cenário sem cortes à la Brian de Palma – tem espaço até uma sequência em desenho animado! Tarantino aqui confirma a sua vocação de liquidificador de cultura pop e faz inúmeras citações. Faroeste italiano, filme de artes marciais, anime, trash, blaxploitation, seriados antigos, tudo isso fica consonante com as suas características habituais: diálogos afiados, edição fora da ordem cronológica e trilha sonora “cool”.

Agora, vou entrar num assunto polêmico. A divulgação deste novo lançamento diz que esta é a versão que o próprio Tarantino queria fazer na época, mas o estúdio o forçou a dividir em dois filmes. Mas, pra mim, isso é marketing. Porque sempre interpretei Kill Bill como dois filmes diferentes. Calma que vou explicar meu ponto de vista. Tarantino, ao longo de sua carreira, de vez em quando aponta seus filmes para uma direção para logo depois mudar, surpreendendo o espectador. Ele cria uma expectativa, para depois frustrá-la. Esse é um dos motivos que me fazem gostar dos filmes dele: são filmes fora do óbvio. Um exemplo: em Pulp Fiction, a gente acha que o protagonista é o John Travolta, mas seu personagem morre de repente no meio do filme. Outro exemplo ainda mais explícito: em Oito Odiados, de repente o espectador descobre que tem um personagem escondido no subsolo da casa. É um ator famoso, não é um figurante sem importância. A gente vê aquilo e pensa que o filme tomará outro rumo com a entrada do novo personagem – mas este morre logo, e o filme não muda de rumo. Isso sem contar com Bastardos Inglórios, que altera fatos históricos, matando Hitler num incêndio. Analisando sob este ponto de vista, Tarantino encerrou Kill Bill vol 1 com uma longa e sangrenta batalha entre a Noiva e os Crazy 88. Um final bastante catártico. Aí quando vemos o vol 2, e sabemos que a Noiva vai finalmente enfrentar o Bill, vemos uma luta muito mais contida, usando um elemento citado despretensiosamente no meio do filme. Cadê a luta catártica? Não tem. Mais uma vez, Tarantino frustrou a expectativa criada por ele mesmo. Ou seja, pra mim, sempre foram dois filmes separados.

Agora, falemos sobre esta “nova versão”. A animação inédita traz Aki, uma nova personagem que quer matar a Noiva. Se entendi direito a irmã da Gogo Yubari. Tiro porrada e bomba num desenho curtinho de 8 minutos. Divertido, mas não justifica uma ida ao cinema só por isso.

De resto, tem bem pouca coisa de novidade. O anime mostrando a infância da O-Ren Ishii é um pouco maior, tem uma sequência a mais. Durante a luta contra os Crazy 88, antes tinha uma sequência em P&B, agora é tudo colorido (decisão que achei ruim, era legal de repente tudo ficar P&B, era mais uma surpresa no filme). E acho que trocaram algumas músicas na trilha sonora. Se teve mais alterações além dessas, não reparei – e olha que revi os dois Kill Bill não faz muito tempo. Ou seja, pelas alterações, não vale ver essa nova versão.

(Lembro de quando a trilogia clássica de Star Wars foi relançada nos cinemas em 1997. Eram filmes que heu já tinha visto diversas vezes. E realmente teve novidades – algumas ruins, como o Greedo atirando antes; outras boas, como janelas com paisagens na cidade das nuvens em Bespin. Aliás, a maioria das alterações foi boa. Naquela ocasião, nenhum fã saiu frustrado do cinema por ter visto um filme igual ao anterior!)

Gostei de ter visto Kill Bill: The Whole Bloody Affair. Mas gostei porque Tarantino no cinema é sempre legal. Mas queria ter visto mais material diferente, a divulgação engana o espectador.

Fique até o fim dos créditos!

EPiC: Elvis Presley in Concert

Crítica – EPiC: Elvis Presley in Concert

Sinopse (filmeb): Elvis canta e conta a sua história como nunca se viu antes em uma experiência cinematográfica dirigida pelo visionário cineasta Baz Lurhmann.

No Podcrastinadores de expectativas para 2026, o Pedro Guedes, do canal Depois do Cinema, me sugeriu esse documentário. Não sou muito fã do gênero, mas fui ao cinema ver qualé.

EPiC: Elvis Presley in Concert (idem, no original) foi dirigido por Baz Luhrman. Durante as pesquisas sobre o filme Elvis, provavelmente ele deve ter encontrado muita coisa sobre o cantor, então deve ter separado esse material de arquivo que servia pra um documentário longa metragem.

Minha maior curiosidade era saber como seria um documentário feito pelo Baz Luhrman, que é famoso pelo visual espalhafatoso dos seus filmes. Mas se ele está usando material de arquivo, fica mais restrito na hora de fazer suas extravagâncias. Acho que aqui isso só acontece bem no início, quando vemos algumas colagens de imagens em velocidade acelerada – se o filme fosse todo naquele ritmo, ia ser difícil de acompanhar.

Mas acabou que o problema foi outro. EPiC fala um pouco sobre a carreira hollywoodiana do Elvis e mostra algumas rápidas imagens de shows antigos. Mas quase todo o filme é em cima da fase Las Vegas do cantor. Digo mais: só o início dessa fase, antes do Elvis engordar.

Talvez seja head canon da minha parte, mas, se vou ver um documentário sobre um cantor que começou a carreira em 1954, vou querer ver informações sobre essa época, assim como os anos seguintes. Por exemplo, toda a fase da Sun Records foi deixada de fora. Quase todo o filme foca apenas em 1969.

Além disso, quem viu o filme do mesmo diretor sabe das controvérsias ligadas ao empresário Coronel Tom Parker. Se Luhrman dedica boa parte do seu filme anterior ao Coronel, por que o deixa de lado aqui? Até vemos o Coronel, mas rapidinho. E com zero polêmica. O filme também fala pouco do relacionamento com Priscilla Presley.

Dito isso, preciso reconhecer que o material de Las Vegas apresentado no filme é muito muito bom. São vários momentos de ensaios e de shows. Além disso, a qualidade da imagem é excelente. Vemos Elvis de perto, conversando, cantando e fazendo piadas.

Alguns detalhes da edição ficaram bem legais. A música Polk Salad Annie alterna imagens do ensaio só com a banda, ensaio com o coro, e a apresentação no palco, com público. Detalhe: o áudio da música continua como se fosse uma única gravação, enquanto alternam as imagens. Achei esse o melhor momento do filme.

No fim, fica a vontade de ver o show de Las Vegas. Se existem aquelas imagens com aquela qualidade, deve ter o show inteiro em algum lugar. Acho que seria bem mais legal ver o show de Las Vegas completo do que um documentário que diz que vai falar sobre o Elvis mas fala muito pouco sobre o resto da sua rica carreira.

No fim, até vale. Quem curte música vai gostar, quem curte Elvis Presley vai gostar ainda mais. Mas poderia ser bem melhor, ah, poderia…